Em uma sala de aula subterrânea, um professor, a algumas décadas de distância no futuro, leciona em inglês para seus pequenos aprendizes. Traduzo o episódio apenas para a comodidade de leitores e leitoras brasileiros atuais. Este narrador deve desculpar-se igualmente pela intraduzibilidade das mais sutis nuances, e dada a distância contextual deste documento, que assim me chegou de um possível futuro e sem aviso prévio — provindo de instâncias naturalmente superiores — escusar o pobre domínio que o tradutor possui dos inéditos modos culturais e inimagináveis referências. É o máximo que um tradutor e um narrador atrasado no tempo e no espaço pôde fazer, principalmente diante do futuro, que agora também é quântico. Que os leitores encontrem-se mais preparados para julgar seus significados.

Na situação em questão, uma lição de história parece estar prestes a começar, apesar de dedicar-se meramente à história de uma pequena ilha. Dado que as formas dramáticas expressas no documento me são desconhecidas em seus padrões históricos, insiro uma interferência narrativa do que pude colher de seu modo representativo ainda por vir, simplificando o texto. Não pretendi a arquitetura do épico, apenas a mínima facilidade e o aspecto mais direto. Sou, portanto, totalmente responsável pelos possíveis equívocos acerca da forma, todos provavelmente grosseiros. Mas foi possível identificar tratar-se de um professor, um aluno à frente, um aluno ao fundo, um outro corpo mal identificado de outros alunos, menções a um oficial da casta militar, um ambiente claustrofóbico de todo modo.

O professor respira e, após a algazarra de algumas moscas em sua mesa e um som de apito em seu peito arqueado, começa:

Dear pupils, hoje contarei a história do menor país que já existiu. Bem, terceiro menor, se contarmos o Vaticano e Mônaco, que eram mais cidades do que países. De todo modo, trata-se hoje da Ilha Aprazível, Pleasant Island. A Atlântida do Período dos Países. Vocês se lembram de quando estudamos o Período dos Países?

— Mas o que é aprazível? — pergunta um aluno ao fundo, contrariado, mas genuinamente intrigado.

— Quer dizer agradável.

— Mas ela era também a mais agradável? O Período dos Países não nos pareceu agradável. — segue o garoto.

— Paciência, veremos… É comum que os nomes não sejam coerentes com as coisas o tempo todo. Acontece que ninguém sabia o quão agradável ela era até descobrirem o lugar ou o que havia nele de agradável. E nem tudo no Período dos Países era desagradável. Tudo tinha seu lado positivo.

— Mas não havia ninguém na Ilha Aprazível antes de ela virar país?

— Havia, havia… mas como era um povo que sempre estivera lá, eles não tinham como descobrir e fundar aquele país eles mesmos. “É necessário sair da ilha para ver a ilha”, lembrem-se das aulas de literatura. Só quem já descobriu outros lugares é que vira descobridor e tem direito a descobrir o próprio.

— Ah… lembramos. Mas ela era próxima do que foi o Brasil?

— Você quer dizer Amazônia. The name is Central Amazon Region, CAR.

Yes. Era próxima?

No! E essa questão não interessa agora. Vamos seguir. Em uma minúscula ilha no Pacífico, hoje naufragada, pouco maior que nosso humilde Complexo I de Defesa da Ala Sul, deslumbrante natureza era cercada de belíssimos corais. Fauna e flora de cair o queixo. Amazing!  De todo modo, havia um povo muito pequeno, tinha pouca gente. Tanto que os fundadores do país, os Anglos, nossos ancestrais, muito numerosos e prósperos, chamaram eles de Micropovo. Eles não sabiam trabalhar como nossos ancestrais e não conheciam nosso comércio e nossas invenções. Nossos ancestrais, como se preocupavam com essa ignorância que se espalhava pelo mundo, decidiram assentar nessa ilha, uni-la às suas rotas comerciais, integrá-la na rede do mundo dos países, e quando o Micropovo se comportava bem e mostrava que aprenderam a trabalhar e participar da próspera vida do mundo, davam-lhe armas, instrumentos de trabalho e bebida alcoólica. Fundaram assim o menor país do mundo.

— Ah! No Período dos Países, eles precisavam das armas e das bebidas para trabalhar, não é? Como é que chamava mesmo… União Universal do Trabalho! E tinham ainda aquela arma para se proteger também… hm… o chicote! — interrompe com entusiasmo um rapaz enfileirado mais à frente, balançando suas madeixas louras.

— Isso mesmo, ponto pra você! Mas você errou um detalhe: o chicote era um instrumento de trabalho do Período dos Países, não uma arma de verdade. A bebida era um elemento motivacional; já a enxada, o computador, as canetas, celulares, carros e aviões, eram ferramentas. Só os canhões, rifles e bombas eram armas, e as armas, na maior parte das ocasiões, não são ferramentas de trabalho, mas de proteção e motivação. Acontece que, assim como ocorre com o álcool, sem armas de pólvora, fósforo e as demais, as pessoas também não trabalham direito: ficam sem motivação, com medo, ou recorrem às imoralidades e à baderna. Por vezes, há selvageria ou assassinato coletivo de um grupo por outro, ou o próprio grupo se enfurece consigo mesmo e se mata. É necessário um balanço muito preciso entre esses elementos. Por isso, os nossos ancestrais estavam preocupados e levaram tudo isso até lá. — O professor montava esquemas gráficos à lousa a partir de seus discursos.

— Ah! Desculpe, professor. Então eles produziam e davam armas para que entendessem como se trabalhava e para ajudá-los a serem pessoas melhores e melhores participantes do mundo, certo? — reelabora o rapaz da fileira da frente.

— Isso aí! Mas esse povo era ainda muito arcaico, e ao invés de trabalhar, beberam o álcool rápido demais, e quando a bebida acabou, ficaram desapontados e acabaram usando as armas contra si mesmos. Viram só o desbalanço? Gerou-se o problema da guerra civil. Lembram-se o que é guerra civil?

— É quando o povo emburrece, não quer mais trabalhar, e ao invés de usarem as armas para organizar o trabalho, começam a se matar! — diz afoito o mesmo menino.

— Muito bem! Marquei aqui mais um ponto para você. Seguindo. Aconteceu o que mais tarde ocorreu na Coréia: com um desastre moral, mais de um terço do Micropovo se matou em uma guerra sem sentido, porque não souberam se controlar com a bebida, se organizar e trabalhar mais e melhor. Isso foi no início do século XIX, o século em que nossos ancestrais despertaram para a União Universal do Trabalho e formaram os países. Vejam só, até o menor país do mundo sofreu disso, apesar de todos os esforços didáticos e da bondade de nossos ancestrais em levar suas ideias ao mundo. Mas logo depois disso, as coisas ficaram um pouco melhores. Ao final do século XIX, foi uma das outras Nações Reais, os Allemanni — o famoso “Povo de Todos os Homens”, lembram-se? — que apareceram com uma solução para organizar a ilha, e tratava-se de tentar seu antigo modo de organização, que funcionara por muito tempo, mas que havia mudado em sua terra natal apenas recentemente: a monarquia prussiana (o professor grafa e sublinha o nome à lousa), já que a república comercial mais clássica de nossos ancestrais Anglos não parecia funcionar com todo o atraso do Micropovo e, contrariamente ao caso dos países já despertos, desencadeava muitos desastres. Isso também trouxe uma lição: os novos regimes não funcionavam com povos incapazes. Em seguida e por pura astúcia, os Allemanni descobriram mais uma coisa fantástica lá: quantidades imensas de fezes de gaivota sedimentada. O guano. E o Micropovo era muito atrasado cientificamente para entender o valor disso!

— Mas qual era o valor disso? Era um novo instrumento de trabalho? — O interessado rapaz da frente constrange-se brevemente com a própria pergunta.

— Sem dúvida! E um dos melhores: continha o potencial do fosfato e dos nitratos, permitindo fazer armas com muita rapidez, além de fertilizantes! Este último uso foi desenvolvido em especial pelos nossos ancestrais, que assim o aplicaram muito e muito rapidamente na agricultura da Britannia, enriquecendo aceleradamente o seu solo. E como tudo que nossos ancestrais inventaram, era uma coisa que fazia duas ao mesmo tempo. Lembrem-se: os melhores materiais de trabalho, na época dos países, eram sempre usados para fazer duas coisas ao mesmo tempo. Tinham esse caráter ambíguo. Armas também. Tanto era o caso que chegaram a bloquear o comércio de tais ítens duais a alguns países injustos, que podiam ter más ideias. Neles acabando também e com frequência, infelizmente, pelo caráter dual da coisa e do bloqueio, com a produção de remédios e outros produtos, como os agrícolas. Uso dual — o professor leva o termo sublinhado ao quadro — era, não obstante, a justificação mais que justa dos bloqueios. Como deixar insumos para armas nas mãos de nações perigosas? Nos países civilizados, em geral, como as armas eram usadas para ensinar e motivar o trabalho, as coisas se mantinham bem.

— Santo guano! — interrompe admirado o mesmo rapaz.

— Realmente, era miraculoso. Enfim: as imensas reservas fecais da grande concentração de gaivotas da minúscula ilha, sedimentando ao passar dos milhares de anos, tornaram-se riquíssimas em fosfato e nitratos. Excluindo alguns lugares da América Latina, era a maior concentração de guano que se conhecia no planeta. Com minas de fosfato, fazia-se muito fertilizante para o plantio e muito insumo para armas — duas grandes conquistas para o mundo: aumento na produção global de alimentos e de armas! Acreditava-se que ninguém mais passaria fome e as motivações do trabalho moderno estariam ao alcance de todos. E isso foi bem na virada do século XX: como vocês se lembram, o Século da Liberdade. Bem, ao menos em partes. Assim, apesar da aplicação tecnológica dos Anglos no início do século XIX, foi também graças aos Allemanni que tivemos essas conquistas — os primeiros tratados sobre o guano foram escritos pelo grandioso Humboldt, no século XIX, que o encontrou no Peru. Nossos ancestrais Anglos não gostaram muito, porque agora eles tinham que competir com os Allemanni para produzir alimento e incentivo ao trabalho, mas isso é só um detalhe. Aliás, os Allemanni também descobriram um modo de extrair o nitrato do ar para depender menos dos minérios, por exemplo. Isso foi fruto de um dos mais fundamentais e inesquecíveis químicos do século XX: Fritz Haber! — O professor anota o seu nome à lousa. — Com isso, ele produziu também gases muito interessantes e recebeu um Prêmio Nobel. Não precisamos pensar que somos os únicos a descobrir ou fazer coisas. Os mais avançados laboratórios exigem inúmeros sacrifícios, e competição era bom. E de todo modo, era precaução. No fim, as armas feitas de fósforo ou tais nitratos raramente foram de facto usadas e em qualquer enciclopédia para o século XX, lerão claramente: “seu uso foi proibido (contra civis)”, ainda que haja controvérsias a respeito. É óbvio que se passaram momentos catastróficos de guerra até que se chegasse a tais conclusões, nos quais a imoralidade reinou, resultou de um desbalanço moral das coisas: insumos demais e, inevitavelmente, em mãos erradas. Estamos falando do Período dos Países, afinal. Até os Alemanni, que então ocupavam a Ilha Aprazível, em um momento, também se engrandeceram demais com tais tipos de insumos, principalmente com os potenciais múltiplos do fosfato e do nitrato. De todo modo, mais tarde foi o povo Nippon que passou uma temporada na ilha, mas breve. Levaram de lá alguns trabalhadores para ajudar-lhes na sua própria ilha solar, um pouco maior. Em geral, as Nações Reais sempre trabalhavam juntas para essas conquistas, e a competição por insumos, como as armas, era de fundamental motivação. Era essa uma fundamental Aliança para o Progresso. E não vamos esquecer de nossas aulas de química: Lassaigne, um gaulês; Boyle, um anglo; e Schrader, do Povo de Todos os Homens; os primeiros a observarem, no século XIX e a partir das misturas do fosfato, as propriedades mais fantásticas desses componentes. Também o álcool participou de tais investigações. E nossa ilha era igualmente perfeita durante a Era do Guano: muito álcool, muito fosfato.

— Mas onde está a parte aprazível? Eles acharam fezes, fundaram o menor país que existiu, e aí, muitos gases. Isso não é aprazível. Ainda não entendi o nome desse país. Nenhuma outra ilha fez algo melhor que isso no Período dos Países? — diz do fundo o rapaz que falara ao início da aula, visivelmente confuso.

— Não acharam apenas fezes, acharam matéria-prima! Você não está prestando atenção e está atrasado com o conteúdo. Vou te tirar um ponto. Além do mais, a ilha era muito bonita. Chegou a ser um dos mais conhecidos pólos turísticos.

—  Mas a época dos países transformava até sujeira e desgraça em coisa boa. Foi você que nos ensinou isso! Então os fundadores deveriam ter chamado essa ilha de “Cocô de Ouro”, e não “País Agradável”. E o Micropovo?

— E menos dois pontos… Chama-se “Ilha Aprazível”. Aí está, jovem ingênuo, você sempre aprende só metade: “o dinheiro pode ser lixo, embora lixo não seja dinheiro”. É apenas com essa brilhante ideia que nossos ancestrais puderam nos legar a vida, a ciência e toda uma época, e você despreza todo o trabalho de gerações. Você se esqueceu de nossa lição especial da República: pode sair da Cloaca de Roma, pecunia non olet! Dinheiro não fede! Quero falar com os seus pais depois da aula. Que anda lendo? Vamos seguir…

Neste instante, treme todo o bunker no qual seguia tranquilamente a aula. Os alunos não se impressionam. A poeira é batida dos casacos. Os cadernos que caíram são retomados do chão; a postura, recobrada. Um quepe retorna do chão a uma cabeça. Se houvesse um horizonte à vista por alguma janela, um olhar estaria nele fixado, como quem olhasse para o futuro com convicção. O jovem da fileira da frente rearranja suas madeixas lustrosas. O professor respira fundo, sorri e anuncia:

— Que nossa paz e aprendizado não sejam abalados pelos bárbaros que seguem, na superfície, a tentar nos atingir. Jamais conseguirão. Jamais trarão sua guerra civil, insana e atrasada, para dentro de nossa civilização. Foi Deus quem nos conduziu, dando-nos a ciência, a razão, o trabalho árduo e toda a alquimia do mundo para alçarmo-nos à sua proteção e ao seu templo indestrutível. Em nossos abrigos estamos seguros. Ainda que não vejamos hoje a luz da superfície, ainda que sejamos perseguidos, que nos escondamos como fizeram os corajosos freedom fighters e rangers de outrora, ou como bravos Conspiradores da Pólvora a esgueirar sob a Câmara dos Lordes, é nesta escuridão que se edifica e caminha o coração do que restou da liberdade; é por ela que carregamos a tocha dos ancestrais. Nossos antepassados nos legaram todos os ensinamentos, e quando a fúria do mundo lá fora tiver devorado a pele e a carne de cada bárbaro, retornaremos para povoar de luzes o nosso belo planeta.

O aluno à frente rubrou e verteu uma pequena lágrima, que tentou esconder. O menino ao fundo olhava para o chão. Certos alunos levantam-se e prestam continência, seguida de um gesto firme de mãos erguidas, também por parte de alguns alunos que permanecem sentados; o rapaz louro adiante está de pé, com a bota lustrada enterrada no chão e em posição de sentido, braços abaixo e cabeça erguida. Suas medalhas finalizam o coro de gestos com o tilintar do ouro em seu peito.  O professor dispensou o obséquio, pirragueou e seguiu:

— A propósito, essa é uma oportuna hora de contar-lhes o lema do nosso menor de todos os países: God’s will first! — o professor grifa o lema ao topo do quadro — A vontade de Deus primeiro! Até hoje carregamos um lema assim em nosso peito. Vejam como o Período dos Países, apesar de ter despertado a ira dos bárbaros descrentes contra os povos despertos e avançados, manteve acesa a luz divina e nos dá um exemplo de vitória. Um pequeno lar de bêbados sanguinários transforma-se, por meio da astúcia e do progresso, em uma das maiores produções mundiais dos dois elementos mais vitais para o Período dos Países: insumos para alimentos e insumos para armas! E não parou por aí! A Ilha Aprazível tornou-se também, por um tempo, o lar dos mais ricos homens do planeta.

— Mas e depois? —  Pergunta o rapaz ao fundo, de cara um tanto amassada, mas novamente atento ao momento.

— Depois o quê?

— O Sr. disse: “por um tempo”. E depois de não serem mais esse lar? Viraram o quê? Fosfato de gaivota? A Etiópia tinha fosfato. O Brasil também tinha fosfato. Tinha muito cocô no Brasil, é isso? — Alguns alunos contêm o riso. O rapaz, contudo, permanece sério.

— O rapazote está troçando com a História? Venha cá. Começo a ter a impressão de que seus familiares podem ter permitido que você obtenha estranho acesso a ideias que não circulam no Complexo I de Defesa da Ala Sul. Após a aula, eu, você e o Brigadeiro Burnier conversaremos. E acrescento: vamos ter uma palavrinha com sua família em seguida. Além do mais, você não tem cumprido com as exigências e obrigações de preparo em nosso Complexo Escolar das Américas. Não tens merecido a cruz-de-ferro de nosso brasão em teu peito.

O menino parecia nervoso, mas persistente. Teria a breve platéia que nunca tivera. De todo modo, já sabia-se perdido. Levantou-se devagar e disse:

— Só não entendo por que eles precisaram de tanto fosfato. O que queria fazer Schrader ou Haber com seus experimentos? Já não tinha o Povo de Todos os Homens, ou os Anglos, ou mesmo os Nippon, armas o suficiente e materiais e ferramentas o suficiente para encher as mãos de cada ser humano de meios de vida? Por que era necessário esse singular totem fecal do mesolítico? Para ser sincero, eu já ouvi falar de uma outra ilha muito mais interessante e importante; bem mais próxima, aliás… — e acrescenta, finalmente, em português: “Mas e depois?”

Silence, boy! — Sua voz grave ecoa anglosaxonicamente nas quatro lisas paredes de concreto — Mais uma palavra e irá imediatamente para a sala do Brigadeiro!

O rapaz senta-se então novamente, parecendo ao mesmo tempo triste e aliviado. A ameaça nem sempre precisa se concretizar como tal. O professor, dando-se por satisfeito, segue:

Os homens mais ricos do mundo, foi aí que parei. — O professor corta lenta e raivosamente a lousa com a mais seca peça de giz, como se escrevesse com um cartucho — Também a ONU, a Organização das Nações Unidas, ajudou esses prósperos homens a administrar a ilha a fim de democratizar as suas riquezas. A Ilha Aprazível vem assim a se integrar à Comunidade do Pacífico. E pacíficos eram, muito para além do nome. Também nossos ancestrais estarão por lá. Muito turismo ainda enriqueceu o local, justificado pelas belezas singulares da ilha e sua história. Isso foi no século XX, cujo tema já abordamos: o período da democratização dos países e suas riquezas. Ainda estamos longe do período do domínio dos bárbaros, que apenas aí começam a surgir, mas que finalmente conseguirão, mais e mais, destruir a democracia e nos trazer para baixo desses bunkers e para os Defense Complexes.

— Este que o Sr. falou era o órgão democrático global máximo que controlava as políticas de armas entre os países, evitando que eles acabassem usando as armas para atacar outros países, não é mesmo? — diz o jovem à frente, que volta a sorrir.

Exactly! Desse jeito, vejo que terei de adiantar minha carta de recomendação ao Clube de  Oficiais Juniores. Pois bem. Mas não se animem muito, não se animem muito. A história é bela, mas seus inimigos sempre surgem. Os bárbaros ao redor do mundo, como fizeram os elementos atrasados do Micropovo  — e havia muitos micropovos por aí (alguns, aliás, muito grandes), atrasados, preguiçosos, distantes das luzes e incapazes de se integrar direito na União Universal do Trabalho — seguiam consumindo tudo sem querer trabalhar direito, sem conseguir balancear o trabalho, a bebida e as armas. E ainda queriam mudar o mundo, destruir as conquistas de ordem, trabalho e democracia que fundaram nossos antepassados juntamente às Nações Reais! O pior exemplo de todo o período, com certeza, foi o Eslavo. Um povo que se misturou por toda parte até perder a consistência de seu sangue. Não é sem razão que o nome “eslavo” e “escravo” é o mesmo. Slave. Aliás, no fim, eles beberam tanto que viraram álcool eles mesmos, trazendo muita preocupação aos povos democráticos.

Oh! Recordei-me agora, professor, de uma passagem de um de nossos mais admiráveis líderes do Período dos Países, Theodore “Big Stick” Roosevelt, que o Sr. nos ensinou: “Nenhum ser humano, negro, amarelo ou branco, pode ser tão velhaco, insincero e arrogante — em suma, indigno de confiança em todos os sentidos — do que os russos”. Ele deve ter entendido bem o sentido da barbárie, da bebida e da mistura desses eslavos!

— Com certeza, meu jovem, com certeza… Oh my… Se tivéssemos mais mentes brilhantes como a sua disponíveis no passado recente, tão dedicadas a combater os bárbaros, talvez não estivéssemos nessa situação hoje! Mas os bárbaros tiveram uma vitória. Um comentário sobre esse ponto que já vimos anteriormente: sobre sua guerra e sua ira contra a civilização, contra o trabalho (usando armas para isso!), em suma, contra a liberdade e a fraternidade universal; tornaram-se Furiae, Erínias, que exigiam todo o preparo de nossa civilização ao seu dispor. Mas não mensuramos seu rancor e sua ira. Pensamos: se Atenas pôde vencê-las, por que nós, muito mais preparados e sendo os herdeiros legítimos dos Helenos, não as venceríamos? Todas as mentes mais preparadas voltaram-se a compreender o Apocalipse. Ah, Tisífone, filha do sangue e da noite, romperas o acordo e retornastes para nos destruir com tuas irmãs, a ira infinita e a inveja! Ah, Constantinopla caída mais uma vez! Já muito antes estava escrito: “E os homens foram abrasados com grandes calores, e blasfemaram o nome de Deus, que tem poder sobre estas pragas; e não se arrependeram para lhe darem glória”. Os bárbaros, entretanto, nos agrediam e retorciam a filosofia, a ciência, a palavra santa, e as empregavam contra nós mesmos, dizendo então: “Caiu, caiu a grande Babilônia, e se tornou morada de demônios, e coito de todo espírito imundo, e coito de toda ave imunda e odiável”. Julgavam e atacavam nossos empreendimentos e nossa humanidade. Mas sabíamos bem a verdadeira lição de Deus: “As águas que viste, onde se assenta a prostituta, são povos, e multidões, e nações, e línguas”. Nós havíamos trazido o ser humano universal, a justiça de todos, e essa era a sina que essa alma, sem carne e sem cor e sem país, a portadora do manto universal, tinha de levar contra os bárbaros, gostassem ou não, presos a seus interesses mesquinhos e particulares. Seres do passado. Nosso erro foi pensar que sabíamos bem do que bárbaros eram capazes, que eram homens como nós, que entendiam os mais humanos propósitos de nossa crematística. Nosso erro foi crer, por tempo demais, que nossos esforços levariam a luz aos baixos e babilônios. Fica evidente a ingenuidade de nosso John Stuart Mill — o nome vai à lousa —, que nos dirá que “o despotismo é um modo de governo legítimo para se lidar com os bárbaros, desde que a finalidade seja seu avanço”. Os bárbaros são incapazes de avançar nesse sentido, independentemente do que pudéssemos fazer.

— “Bem souberas me dizer dessa moeda a sua liga e o seu peso, mas me diz se a tens em teu bolso” — estava novamente de pé o garoto ao fundo. Mas era tarde. Quando é tarde no inferno, mais tarde ainda é no céu. O rapaz à frente das fileiras olhava para o quadro com penetrante seriedade e certa satisfação. Não havia salvação para o rapaz aos fundos, e seus demais colegas olhavam para o chão. Ninguém viria ao seu socorro. Mesmo antes que o professor esticasse seu braço, já se encaminhou sem protesto à porta. Sem cerimônia, o professor a fecha devagar atrás do garoto, cujas botas ainda emitem um abafado e desvanecente eco no corredor. O homem emite mais um forçado pigarro em meio ao deferente silêncio e segue:

— O único real azar da Ilha Aprazível é que outras minas se tornaram mais importantes adiante na história, como as de ouro, prata, e por fim, as de lítio, ainda que as de lá tenham sido milimetricamente e cuidadosamente usadas até seus confins. Também o petróleo. Assim, Atlântida já via subir as águas em seu horizonte.

O professor faz uma pausa, espantando em seguida uma última mosca que insistia em pousar à mesa. O chiado de seu peito ecoa na sala de pedra.

— Se eu fosse responder à intransigente “pergunta” sobre o tal “depois”, anteriormente feita, precisaria apenas da antiga sabedoria: “E toda a ilha fugiu; e os montes não se acharam”. Fugiram de quê, meus pequenos? Bem, após toda essa história, cheguem às suas próprias conclusões…

— Fascinante, professor! Eu penso que…

Um estampido surdo e colossal chega à sala como se chegasse de cada milímetro, cada vibrante átomo da cápsula de rocha. O professor apressa-se a sacar de seu bolso uma estranha pílula negra. A porta é arremessada em chamas em sua direção e ele pôde, se é que pôde, arregalar os olhos e chiar o peito uma última vez. Com a porta em disparo adentraram as chamas. Não havia tempo… não houve tempo. Foi tarde demais.



arte: Mappa Mundi – século XIII

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