(Publicado em Amauta. Lima, 1926)

Esta revista, no campo intelectual, não representa um grupo. Representa, melhor dito, um movimento, um espírito. No Peru sentimos há algum tempo uma corrente, cada dia mais vigorosa e definida, de renovação. Aos facilitadores dessa renovação chamamos de vanguardistas, socialistas, revolucionários, etc. No entanto, a história não os batizou definitivamente. Entre eles existem algumas discrepâncias formais, algumas diferenças psicológicas. Mas por cima do que os diferencia, todos esses espíritos colocam o que os aproxima e mancomuna: sua vontade de criar um novo Peru dentro do mundo novo. A inteligência e a coordenação dos mais voluntariosos desses elementos progride gradualmente. O movimento – intelectual e espiritual – adquire pouco a pouco organicidade. Com a aparição de Amauta entra em uma fase de definição.

Amauta teve um processo normal de gestação. Não nasce de súbito por determinação exclusivamente minha. Vim da Europa com o propósito de fundar uma revista. Dolorosas inconstâncias pessoais não me permitiram cumpri-lo. Mas esse tempo não transcorreu sem nada. Meu esforço se vinculou ao de outros intelectuais e artistas que pensam e sentem de forma parecida a minha. Há dois anos, esta revista teria sido uma voz um tanto pessoal. Agora é a voz de um movimento e de uma geração.

O primeiro resultado que nós, escritores de Amauta, nos propomos a debater é o de estarmos juntos e nos conhecermos melhor. O trabalho da revista nos solidariza mais. Ao mesmo tempo que atrairá outros bons elementos, afastará alguns flutuantes e desenganados que agora flertam com o vanguardismo, mas que ao menor sinal de demanda de algum sacrifício se apressarão em deixá-lo. Amauta selecionará os homens da vanguarda – militantes e simpatizantes – até separar a palha do milho. Produzirá ou precipitará um fenômeno de polarização e concentração. 

Não faz falta declarar expressamente que Amauta não é uma tribuna livre, aberta a todos os ventos do espírito. Nós que fundamos essa revista não concebemos uma cultura e uma arte agnósticas. Nós sentimos uma força beligerante, polêmica. Não fazemos nenhuma concessão ao critério geralmente falacioso da tolerância das ideias. Para nós, há ideias boas e ideias ruins. No prólogo do meu livro La escena contemporánea, escrevi que sou um homem com uma filiação e uma fé. A mesma coisa posso dizer desta revista, que rechaça tudo que é contrário à sua ideologia assim como tudo que não traduz ideologia nenhuma. 

Para apresentar Amauta não são necessárias palavras solenes. Quero prescrever a retórica desta revista. Me parecem absolutamente inúteis os programas. Peru é um país de rótulos e etiquetas. Façamos enfim alguma coisa com conteúdo, vale dizer, com espírito. Amauta, por outro lado, não tem necessidade de um programa: tem necessidade apenas de um destino, um objetivo.

O título provavelmente preocupará  alguns. Isso se deve à importância excessiva, fundamental, que o rótulo tem entre nós. Não se deve observar neste caso a acepção estrita da palavra. O título não traduz nada que não seja nossa adesão à raça, não reflete nada que não nossa homenagem ao incaísmo. Mas especificamente a palavra Amauta adquire com esta revista uma nova acepção. Vamos criá-la outra vez.

O objetivo desta revista é o de levantar, esclarecer e conhecer os problemas peruanos desde os pontos de vista doutrinários e científicos. Mas consideraremos sempre o Peru dentro do panorama do mundo. Estudaremos todos os grandes movimentos de renovação, políticos, filosóficos, artísticos, literários e científicos. Tudo humano é nosso. Essa revista vinculará os homens novos de Peru, primeiro com os outros povos da América, e logo com os outros povos do mundo. 

Nada mais acrescentarei. Tem de ser muito pouco perspicaz para não perceber que no Peru nasce neste momento uma revista histórica.

José Carlos Mariátegui


Tradução: Clarice Filgueiras
Revisão: Jade Amorim

Original em domínio público: https://periodicos.ufba.br/index.php/revistagerminal/article/view/30752

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