“Um médico rural” de Franz Kafka



O conto Ein Landarzt, de Franz Kafka, foi escrito em 1917 e publicado pela primeira vez em 1919, ao lado de outros contos, dando também título a um dos poucos livros publicados em vida pelo autor. Aos leitores e leitoras que desejam ou precisam poupar tempo, pode-se simplesmente saltar diretamente a ele, traduzido abaixo. Não intenciono fatigar com detalhes sobre escolhas e a tradução a quem apenas busca ler este impressionante conto, que já diz o necessário por si mesmo. Tampouco proponho chave interpretativa de qualquer ordem. Contudo, sua presente tradução, que realizo a partir do alemão, deve justificar-se diante de algumas questões e trazer alguns detalhes. Aos que por isso se interessam, seguem então algumas explicações.

Em 1990, Modesto Carone apresentou ao público brasileiro, diretamente do original, uma pioneira tradução deste livro pela Editora Brasiliense: Um médico rural, que continha ainda os outros treze contos que acompanham, além de um posfácio do tradutor. A narrativa que segue esta apresentação é o segundo deles. Em 1999, a tradução do livro foi reeditada pela Companhia das Letras e republicada basicamente sem diferenças, mas fazendo parte de um empreendimento maior de Carone, que era o de traduzir e publicar diversas obras fundamentais de Kafka, ainda em grande parte desconhecidas no Brasil de então.

O primeiro objetivo aqui, portanto, é de divulgação deste emblemático conto para além do mercado editorial, e não meramente o de retraduzir — menos ainda o livro integral. A qualidade das traduções de Carone permanecerá difícil de ser superada, e minha intenção também é incentivar que se leia o livro completo. Quanto a determinadas escolhas que fiz, em particular em termos formais, que diferem das de Carone, uma breve justificativa também será dada adiante, que espero também bastar. A retradução e divulgação também me pareceu justa ao refletir que Kafka é muito conhecido por seus romances (ou suas novelas, como preferiu dizer Carlos Nelson Coutinho), principalmente A metamorfose, O processo ou ainda O castelo; Amerika é lido com menor frequência. Mas seus contos, às vezes ainda mais perturbadores ou ao menos tão impactantes e atuais quanto seus romances/novelas, mesmo os de mínima estatura física (alguns têm menos de uma única página), passam frequentemente esquecidos. Os contos Um artista da fome e Na colônia penal são mais conhecidos que o pequeno O vizinho, ou os ainda menores, mas não menos impressionantes Prometeu e A tribulação de um pai de família — este último já muito bem tratado por Roberto Schwarz.

Desde minha primeira leitura d’A metamorfose, durante minha adolescência, até que Um médico rural me fosse apresentado por um marcante professor e tradutor — e que eu ainda pudesse lê-lo sem dificuldades, também no original — se passou ao menos uma década. Levei tempo para conhecê-lo um pouco, e mais algum para digerir, e estou convencido de que ainda não terminei de fazê-lo, e de que talvez não seja possível de todo. Precisei ainda de ajuda, e meu desejo é que este conto esteja tão fácil à mão quanto um aparelho qualquer.

Sobre o formato da presente tradução: sendo muito fiel e sensível ao estilo do autor, mas considerando a recepção do leitor brasileiro da época, mais familiarizado com determinadas divisões e formas textuais que nos eram mais correntes, Carone decidiu dividir e distribuir em parágrafos o incômodo “bloco” textual que compõe a narrativa, recorrente em alguns escritos de Kafka, ao que teve de sacrificar algo de sua forma de apresentação e andamento originais. Fora outras mudanças menores, algumas poucas também lexicais, e poupando aqui os detalhes que não exigem explicações ou não desejam cansar, proponho aqui uma retomada do formato em bloco do texto de 1919, mais denso.

Apenas um outro exemplo de escolhas assim para a comparação: quando traduziu o conto Ein Hungerkünstler, de 1922, em Um artista da fome, em 1998, Carone também alterou a estrutura dos parágrafos, que no original são dez, e da maneira que ele julgou viável organizar, em um número maior de divisões. Já Marcelo Backes, quando o retraduziu em 2009 pela L&PM Editores, preferiu manter os dez originais parágrafos. Mas para essa narrativa do exemplo, Carone, mesmo alterando a forma dos parágrafos, construiu um andamento que se adequa perfeitamente às necessidades de aproximação da escrita kafkiana a nossos hábitos e o momento, mantendo ainda algo do estranho também, próprio ao conto; reescrevendo, de alguma forma, a narrativa em nossa língua. A natureza do narrador de Um artista da fome ainda dispensa que tais níveis paragráficos de diferença entre original e tradução sejam tão relevantes, caso que é diferente com o narrador do presente Um médico rural, em primeira pessoa. Já quanto a este, mesmo que pareça se tratar de um mero detalhe, restituir tal “bloco” textual e quase totêmico que há na apresentação original de 1919 é um objetivo que reclamo hoje como válido, mesmo extraindo o conto do contexto de seu livro, visto que Kafka foi ganhando alcances maiores em nosso país, muito por conta do trabalho de tais tradutores. Espero que minha escolha se justifique também na experiência da leitura. Com tal artifício da retomada de uma das faces formais do original, talvez eu logre sublinhar que os protagonistas de Kafka podem padecer de questões muito universais, presentes em todas as suas narrativas, mas é impossível afirmar que são sempre os mesmos, como o disse Marcelo Backes, também reconhecido e importante tradutor do autor.

Este médico não é o metamorfoseado Gregor Samsa, ou o processado Joseph K., menos ainda o quixotesco Karl, perdido na América; mesmo que seja tão moderno quanto estes e viva diante dos mesmos totens, igualmente confuso sobre o que lhe dói. Talvez ele seja mais algo como o anônimo pai de Odradek, mas quase nada tenha de comum, por exemplo, com o cachorro a escrutinar seu mundo em Investigações de um cão. De todo modo, penso ser uma personagem comum em nossos tempos, o que deveria (ou deve) causar estranhamento. Tal reflexão também motivou sua divulgação. Que o resgate da narrativa nos ajude a revelar uma tal questão.

Voltando à forma de Um médico rural: tais escolhas acerca do formato dividido em parágrafos, que Carone fez pouco mais de duas décadas atrás, não são aqui retomadas. Assim, tendo ainda em vista a divulgação avulsa do conto, escolhi separar o bloco textual apenas lá onde Kafka o fez em 1919: só em dois de seus momentos, como dois golpes. Algumas outras traduções independentes deste conto também circulam, mesmo que muito pouco, e como Um médico de aldeia. No entanto, assim como para Carone, e mesmo para outros tradutores latino-americanos (quando do alemão para o espanhol, por exemplo), este médico talvez caiba melhor como rural do que como de aldeia; e penso haver alguns problemas nas escolhas terminológicas que em tais versões se encontram — para além do pequeno fato de também dispensarem o “texto em bloco” — mesmo que suas iniciativas de tradução sejam por vezes nobres e devem ser mencionadas. Apenas não nomeio tais tradutores porque nestes documentos, em geral, eles ou elas não nos são devidamente apresentados.

Por uma limitação da plataforma, o alinhamento justificado do texto é simplesmente impossível: ocorre apenas à margem esquerda. Mas com o alinhamento que a plataforma permite, ainda é possível reproduzir o traço original proposto e algo de seu “relevo”. Algumas escolhas de tradução feitas por Carone não foram reabilitadas; outras, por serem escolhas importantes, fiz questão de reproduzir. Para além do óbvio recurso ao trabalho de Carone, tomei por base o texto Ein Landarzt, presente no livro Das Urteil, edição de 2008 (Anaconda Verlag, GmbH, Köln), que não apresenta diferenças do que consta no primeiro volume Ein Landarzt. Kleine Erzählungen, de 1919 (München: Kurt Wolff Verlag).  Como mero apoio, consultei também a tradução em língua inglesa do canadense Ian Johnston, A country doctor, de 2003.

Nesta apresentação, tratei apenas e muito brevemente de alguns aspectos formais. Para demais questões, deixo que a descabida e estranha atualidade da narrativa fale por si. Aos leitores e leitoras, ficará o critério de julgar um dos mais singulares narradores do séc. XX, além de sua relevância neste estranho inverno sem fim.

São de minha responsabilidade integral quaisquer imprecisões, erros ou perda irreparável que ocorra do original à nossa língua. Não desejo me apresentar como pesquisador especializado do autor em questão, mas como alguém muito apaixonado por sua obra, em especial suas narrativas breves, e que vê sua vitalidade em um momento como o nosso. Tenho ainda um terceiro objetivo, pensando em Modesto Carone: desejo louvar a memória e a singularidade deste importante pesquisador, tradutor e escritor, falecido em 2019, assim como seu pioneiro e rigoroso trabalho de tradução das obras de Kafka no Brasil. O que aqui faço é também em sua homenagem.Também saúdo Matheus Barreto, que em 2014 publicou interessante análise desta narrativa, ainda que não acompanhasse sua tradução. Esta iniciativa também me foi muito instrutiva. Já muita coisa ocorreu de 2014 para cá, e talvez seja um importante momento de trazê-la de volta, sob novo cenário, outras condições e de outra maneira.

Sem estes e outros trabalhos, este mero estudante não teria a possibilidade de ter desenvolvido a paixão que nesta iniciativa também está presente. Muitas estranhezas no texto vêm de Kafka. Algumas outras talvez sejam meramente minhas e não o sei. Devem-se muitas certamente a Carone e muitos outros e outras.


Éric Graciano Gaúna

São Paulo, 05 de agosto de 2021

Um médico rural

Eu me encontrava em um grande constrangimento: uma viagem urgente se punha diante de mim; um enfermo em estado grave me aguardava em um vilarejo a dez milhas de distância; uma forte nevasca espalhava neve e preenchia o amplo espaço entre mim e ele; uma carruagem eu tinha, leve, de grandes rodas, própria para nossas estradas; embrulhado em peles, com a maleta de instrumentos médicos à mão, encontrava-me pronto para a viagem, já no pátio; mas o cavalo me faltava, o cavalo. Meu próprio cavalo, após exaurir-se nas penas de um inverno congelante, havia morrido na última noite; minha criada percorria todo o vilarejo, buscando conseguir um cavalo emprestado; eu sabia que não havia esperança, e cada vez mais coberto de neve, tornando-me cada vez mais imóvel, estava eu lá, parado, sem destino. A moça surgiu ao portão, sozinha, balançando o lampião; claro, quem emprestaria um cavalo agora para fazer uma viagem dessa? Avaliei mais uma vez o pátio; não encontrei possibilidade alguma; disperso, atormentado, chutei a quebradiça porta do chiqueiro inutilizado já há anos. A porta abriu e debateu-se nas dobradiças. O calor e o cheiro de cavalos exalaram de dentro. Uma lanterna de celeiro embaçada balançava em uma corda. Um homem, agachado e encolhido no baixo barraco, exibe sua face aberta de olhos azuis. “Devo engatar?”, perguntou, arrastando-se de quatro. Eu não sabia o que dizer, então inclinei-me para ver o que mais havia no tal estábulo. A criada estava ao meu lado. “A gente nunca sabe o que tem guardado na própria casa”, disse ela, e ambos rimos. “Ei, irmão! Ei, irmã!”, chamou o cavalariço, e dois cavalos, animais de poderosos flancos, empurraram-se um atrás do outro para sair. Apenas com a força de seus troncos, com as pernas bem juntas ao corpo, as cabeças bem formadas baixando como fazem os camelos, passaram pelo orifício da porta, que eles preenchiam totalmente. Mas logo se colocaram devidamente em pé, no alto de suas longas pernas, com os corpos fumegando um denso vapor. “Ajude-o”, eu disse, e a solícita menina apressou-se para passar as rédeas ao cavalariço. Mas mal se aproximou dele, o cavalariço agarrou-a e colou seu rosto no dela. Ela gritou e fugiu para o meu lado; a marca de duas fileiras de dentes aparece em vermelho em sua bochecha. “Seu animal!”, gritei enraivecido, “quer o chicote?”, mas penso imediatamente que se trata de um estranho; que não sei de onde ele vem, e que ele me ajuda voluntariamente quando todos os demais se recusam a fazê-lo. Como se soubesse de meus pensamentos, ele não deu ouvidos à minha ameaça e virou-se apenas uma vez para mim, sem desocupar-se dos cavalos. “Suba”, disse ele, e de fato: tudo está pronto. Noto que jamais havia viajado com uma tão bela parelha de cavalos, e subo animado. “Mas eu é que guiarei, você não conhece o caminho”, digo eu. “Claro”, diz ele, “eu não viajo com você, eu fico com a Rosa”. “Não”, grita Rosa e vai para a casa com o certeiro pressentimento da inevitabilidade de seu destino; escuto as correntes e fechos tilintarem enquanto ela os tranca; escuto o cadeado fechar; vejo como ela ainda segue pelo corredor e através dos cômodos, apagando todas as luzes para não se deixar encontrar. “Você vem junto”, digo eu ao cavalariço, “ou suspendo a viagem, tão urgente ela não é. Não me ocorre te pagar a viagem com a garota”. “Maravilha!”, disse ele, e bateu com as mãos; o carro desata, como toras na correnteza; ainda ouço a porta de minha casa ceder à tempestividade do cavalariço, e então um zunido intenso penetra meus olhos e ouvidos, tomando todos os sentidos de uma vez. Mas isso também apenas por um piscar de olhos, como se, ao abrir o portão de meu pátio, já me encontrasse imediatamente diante da casa de meu doente; os cavalos parados, tranquilos; a nevasca havia parado; a luz da lua a todo redor; os pais do doente se apressam a sair da casa; sua irmã atrás deles; quase me arrancam da carruagem; das confusas falas, não capto nada; no quarto do doente, o ar mal é respirável; o fogão, negligenciado, fumega; abrirei as janelas; mas primeiro quero ver o doente. Muito magro, sem febre, nem quente, nem frio, com olhos vazios, sem camisa, o jovem ergue-se do acolchoado de penas, pendura-se em meu pescoço e me sussurra ao ouvido: “doutor, deixe-me morrer”. Olho ao redor; ninguém ouviu; os pais encontram-se parados, mudos e inclinados, aguardando meu juízo. A irmã trouxe uma cadeira para minha maleta. Eu abro a maleta e faço uma busca em meus instrumentos; o jovem seguia tateando por mim, para fora da cama, tentando me lembrar de seu pedido; pego uma pinça, a verifico à luz de uma vela e a devolvo. “Sim”, penso blasfemante, “em tais casos ajudam os deuses, enviam um cavalo que falta, pela pressa concedem mais um e ainda um cavalariço de sobra”. Apenas então me lembro de Rosa; que faço? Como a salvo, como livrá-la do sofrimento nas mãos desse cavalariço, a dez milhas de distância, com cavalos indomáveis à frente de meu carro? Esses cavalos, que agora já conseguiram afrouxar as rédeas de alguma maneira. As janelas, não sei como, eles abriram pelo lado de fora, cada um com a cabeça metida para dentro de uma; sem serem perturbados pelos gritos da família, eles observavam o doente. “Já voltarei para casa”, penso, como se os cavalos me chamassem à viagem, mas permito que a irmã, pensando que eu sofro com o calor, me tire o casaco de pele. Um copo de rum me é servido de imediato, o velho me dá um tapinha no ombro, a confidencialidade justificada pelo seu tesouro que me cedia. Balanço a cabeça; passaria mal no mundo estreito desse velho; só por este motivo me recuso a beber. A mãe está à cama, de pé, e me chama para perto com um sinal; eu sigo e, enquanto relincha para o teto um dos cavalos, inclino a cabeça por sobre peito do jovem, que se arrepia ao toque de minha barba úmida. Confirma-se o que já sei, o jovem está saudável, com a circulação um tanto ruim, encharcado de café dado pela mãe preocupada, mas saudável, e o melhor seria um empurrão para sair da cama. Como não sou um reformador do mundo, deixo-o deitado. Sou contratado pelo distrito e levo meu dever ao limite, até lá, onde torna-se por demais. Mal pago, sou generoso e solícito com os pobres. Ainda tenho de me preocupar com Rosa, e aí talvez tenha o jovem razão e também eu quero morrer. Que faço aqui neste inverno sem fim? Meu cavalo morreu, e não há ninguém no vilarejo que me empreste um. Tive de tirar minha parelha do chiqueiro; se por acidente não se achassem ali cavalos, eu teria que viajar guiado por porcos. É assim. E eu aceno à família com a cabeça. Eles não sabem de nada disso, e se soubessem, não acreditariam. Escrever receitas é fácil, mas lidar e se entender com as pessoas, isso é difícil. Então aqui era o fim de minha visita; me puseram a esforçar-me desnecessariamente mais uma vez, com o que já estou acostumado; com a ajuda de minha campainha noturna, todo o distrito me tortura, mas que desta vez eu tivesse ainda de entregar Rosa, essa bela garota, que por anos, sem que eu mal notasse, morava em minha casa — este sacrifício é grande demais, e tenho de encontrar controle em minha cabeça de alguma forma para não partir daqui por cima dessa família, que com toda a boa vontade do mundo, não poderia me dar Rosa de volta. Contudo, fechando minha maleta e pedindo para que me passassem meu casaco, a família se junta, em pé; o pai a cheirar o copo de rum, a mãe, provavelmente desapontada comigo — bem, que o povo espera de mim? —, vertendo lágrimas e mordendo os lábios, a irmã balançando um pano ensanguentado, encontro-me de alguma forma pronto para admitir, sob tais circunstâncias, que o jovem talvez esteja de fato doente. Volto-me a ele, que me dá um sorriso, como se eu lhe trouxesse a mais revigorante sopa — ah, agora relincham ambos os cavalos; o barulho, ordenado por uma esfera superior, deve facilitar o exame — e assim descubro: sim, o jovem está doente. Em seu lado direito, na região do quadril, abria-se uma ferida do tamanho da palma de uma mão. Rosa, em vários tons e sombreamentos, escura na parte profunda, clareando em direção às bordas, de um granulado suave, com sangue coagulado de forma irregular, exposta como uma mina a céu aberto. Assim era à distância. De perto, mostrava-se ainda uma complicação. Quem poderia olhar sem ao menos bufar de leve? Vermes, fortes e longos como meu dedo mindinho, rosados e respingados de sangue, contorcendo-se, presos no interior da ferida, com as cabecinhas brancas e muitas perninhas movendo-se à luz. Pobre rapaz, nada pode te ajudar. Descobri tua grande ferida; morrerás por essa flor em teu lado. A família está feliz, ela me vê em ação; a irmã fala à mãe, a mãe ao pai, o pai a alguns convidados, que, na ponta dos pés, se equilibram com os braços estendidos e entram pela luz do luar da porta aberta. “Você vai me salvar?” sussurra soluçante o jovem, impressionado com a vida em sua ferida. Assim são as pessoas em minha região. Sempre exigindo o impossível do médico. As antigas crenças elas perderam; o padre senta-se em casa e desfia suas batinas, uma a uma; mas o médico deve aturar tudo com sua mão leve e cirúrgica. Bem, como preferirem: não me ofereci; se me usam para propósitos sagrados, deixo que me aconteça; que mais vou querer, eu, velho médico, minha criada tomada de mim! E eles vêm, a família e os mais velhos do vilarejo, e tiram minhas roupas; um coral escolar, professor à frente, está diante da casa e canta uma melodia extremamente simples, com a letra:

Dispam-no, que então ele cura

e se não curar, matem!

é só um médico, é só um médico

Estou então sem roupas, e com os dedos na barba e a cabeça inclinada, observo as pessoas com calma. Permaneço absolutamente controlado e em postura reflexiva, embora isso não me ajude, pois sou agora tomado pela cabeça e pelos pés e levado para a cama. Deitam-me junto à parede, ao lado da ferida. Então saem todos do cômodo; a porta é fechada; a cantoria emudecida. Nuvens surgem diante da lua; ao meu entorno a coberta está quente; as cabeças dos cavalos balançam como sombras nas janelas. “Sabe de uma coisa?”, ouço ao meu ouvido, sussurrando, “minha confiança em você é muito pequena. Você foi sacudido e trazido de algum lugar, não veio por vontade própria. Ao invés de ajudar, vem me apertar em meu leito de morte. Minha vontade é de arrancar os seus olhos”. “Tem razão”, digo, “é uma vergonha. Mas eu sou médico. Que devo fazer? Acredite, para mim também não é fácil”. “Devo me contentar com essa desculpa? Ah, sim, se devo. Sempre devo me contentar. Com uma bela ferida vim ao mundo; foi isso o que me foi dado”. “Jovem amigo”, digo eu, “seu erro é: você não tem visão. Eu, que já estive em todo tipo de quarto de doente, em toda parte, te digo: sua ferida não é tão ruim assim. Dois golpes de machado em ângulo agudo. Muitos oferecem seu flanco e mal ouvem o machado na floresta, menos ainda que ele se aproxima”. “É realmente assim ou você me engana em meu estado febril?”. “É realmente assim, considere a palavra de honra de um médico oficial”. Ele assim considerou e ficou em silêncio. Mas agora era hora de pensar em minha salvação. Os cavalos estavam ainda fiéis em seus lugares. Roupas, a pele e a maleta estavam facilmente ao alcance. Não queria me deter vestindo-me; se os cavalos se apressassem como na vinda, de alguma forma eu saltaria desta cama para a minha. Um cavalo afastou-se obedientemente da janela; joguei minhas coisas no veículo; a pele voou longe demais, enganchando-se e pendurando apenas por uma manga. Assim está bom. Saltei para cima do cavalo. As rédeas e cintos deslizando soltos, os cavalos mal atados um ao outro, o carro debatendo-se atrás e a pele se arrastando na neve por último. “Maravilha!”, digo, mas de maravilha não havia nada; devagar como homens velhos, nos arrastamos pelo deserto de neve; por um bom tempo soou a voz das crianças a entoar equivocadas o novo canto atrás de nós:

Alegrem-se, pacientes!

O médico se deitou em vosso leito!

Jamais chegarei em casa assim; meu consultório florescente está perdido; um sucessor rouba meu lugar, mas inutilmente, pois não pode me substituir; em minha casa se enfurece o cavalariço nojento; Rosa é sua vítima; eu não quero pensar nisso. Nu, exposto à geada dessa época infeliz, com um veículo terrestre, cavalos não-terrenos, vago por aí — eu, um velho. Meu casaco de pele está pendurado atrás do carro e não consigo alcançá-lo, e ninguém nesse povaréu de pacientes em movimento mexe um único dedo. Fui enganado! Enganado! Uma vez atendido o alarme falso da campainha noturna — não há mais o que remediar, nunca mais.






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