Pensar Rosa Luxemburgo diante da Barbárie – Gabriel Teles e Juliana Antunes

Há mais de um século, Rosa Luxemburgo escreveu uma sentença que continua a atravessar as camadas mais profundas da história: socialismo ou barbárie. Não era profecia nem metáfora, mas o diagnóstico agudo de quem enxergava o rumo da civilização capitalista. A frase, nascida entre trincheiras da Primeira Guerra e esperanças da revolução proletária, condensava uma encruzilhada: ou a humanidade reorganizaria a sociedade sobre novas bases, ou seria tragada por um ciclo de destruição crescente. O que Rosa talvez não imaginasse — embora o intuísse — é que a barbárie venceria. Que ela se tornaria regra, não desvio. Que seria normalizada, automatizada, administrada. E que, por isso, seu grito precisaria ser reescrito: socialismo ou extermínio.

O capitalismo contemporâneo não apenas explora; ele aniquila. Empilha corpos sobre corpos, vítimas de adoecimentos ou marcados pelas armas do Estado. Descentraliza e dessignifica a figura humana, ora pelo ato da desumanização ao lhe confundir com máquina produtora de lucro, ora pela bestificação, ao lhe atribuir o papel de braço armado no extermínio de outros homens. A catástrofe já não é horizonte temido — é o presente em curso. O planeta, as relações sociais, os corpos, os sentidos — tudo é convertido em mercadoria ou descartado. Os mecanismos de extração de valor alcançaram todas as dimensões da vida. A lógica produtivista, agora digital e financeirizada, consome não apenas recursos naturais, mas o próprio tempo humano, esvaziando de sentido o existir cotidiano. A barbárie tornou-se infraestrutura. Não só por tanques – já que esses ainda se fazem presentes nas zonas de sacrifício do capital -, mas com plataformas, pacotes de dados e escassez organizada.

O fim da linha se revela nos nossos dias. Não através da síntese estética hollywoodiana, com uma grande explosão ou meteoro que levaria à inexistência de tudo o que se entende enquanto planeta. Tampouco no que versam os versículos bíblicos de um soar de trombetas. O fim se mostra no dia-a-dia e em manchetes de jornal, lidas friamente como parte do cotidiano. Se mostra na conversão do outro ao número, ação vista desde sempre nas guerras e banalizada na pandemia – “hoje morreram apenas alguns milhares!”.

Dos rios de sangue que inundam as favelas brasileiras, as balas que acertam alvos específicos. O encarceramento da juventude como em campos de concentração. Mães debruçadas sobre os corpos de crianças. Corpos mutilados, peles queimadas por bombas. Mãos calejadas de tanto trabalhar, adoecimentos psíquicos e vidas descartadas. Por vezes a barbárie se revela com toda sua nudez.

Se queremos vislumbrar o futuro revelado pela barbárie, ele não se anuncia como uma possibilidade distante: ele já se inscreve, se espalha e se repete no presente. Gaza é a mais contundente dessas revelações. Diante do massacre televisionado, meticulosamente planejado, executado com precisão técnica e justificado em uma linguagem jurídico-militar que pretende conferir-lhe legitimidade, a humanidade se confronta com o que se tornou. O que ali se opera não é um conflito, tampouco uma guerra entre iguais: é um extermínio. E, ao contrário do que se poderia pensar, não se trata de um caso isolado, mas da expressão radical de uma lógica global. Gaza converteu-se em um campo de experimentação — da morte algorítmica, da guerra transformada em gestão, da eliminação sistemática do indesejado.

Essa máquina de destruição, envolta em discursos sobre segurança, soberania e defesa, revela a maturação de uma política de mundo que já não hesita em decretar populações inteiras como descartáveis. A violência não se apresenta mais como ruptura excepcional, mas como administração contínua. Quando hospitais e escolas tornam-se alvos deliberados, quando a sobrevivência passa a ser interpretada como insubordinação, já não falamos em barbárie: falamos da normalização do extermínio. O horror, longe de ser o avesso da civilização, converteu-se em seu próprio funcionamento.

E Gaza, embora seja o exemplo mais visceral, não é a exceção. O que ali se revela encontra equivalentes em outros territórios do mundo contemporâneo: nas favelas sitiadas por operações militares, onde a vida da juventude negra é reduzida a “dano colateral”; nas florestas incendiadas para abrir espaço ao latifúndio e às monoculturas, onde comunidades indígenas são apagadas junto com seus territórios; nas periferias urbanas devastadas pela fome e pela militarização cotidiana; nos campos de refugiados espalhados pelo planeta, onde existências são contabilizadas e administradas como estatísticas. Em todos esses espaços, o que está em jogo não é apenas a supressão de direitos, mas a própria suspensão da vida como possibilidade.

Vivemos sob um regime global que não ameaça a vida: ele a gerencia em termos de escassez, descartabilidade e vigilância. O colapso climático, que devasta regiões inteiras enquanto alimenta negócios verdes; as epidemias seletivas, que expõem a desigualdade entre aqueles que têm acesso à cura e aqueles que são abandonados; a precarização extrema, que converte o trabalho em sobrevida; e os genocídios seletivos, justificados em nome da ordem ou do progresso, compõem o quadro de um tempo que escolheu a morte como política.

O que Gaza nos mostra, em sua violência despudorada e meticulosamente exibida ao mundo, é a verdade incômoda de um futuro já em curso: um mundo onde a vida é medida por sua utilidade, onde a sobrevivência é privilégio, e onde a eliminação se normaliza como técnica de governo. Ver Gaza é ver o espelho daquilo em que já nos tornamos — e talvez, ainda, a última chance de se insurgir contra esse destino.

Rosa Luxemburgo, mesmo em seu tempo, compreendeu que o perigo não vinha apenas do inimigo declarado, mas também do interior da luta socialista. Enxergou a traição da social-democracia, a mesma que ainda hoje segue com seu extermínio, agora transvestido no formato de pacificação e gestão da barbárie, que em nome da legalidade parlamentar sepultou a revolução. Enfrentou o bolchevismo, cuja rigidez partidária ameaçava substituir a ação das massas pela administração de comitês. 

Para Rosa, a revolução não era plano de gabinete, mas processo vivo, feito por sujeitos concretos que aprendem lutando. Sua defesa da liberdade dos que pensam diferente, da espontaneidade como princípio e da autogestão como horizonte não era lirismo: era a salvaguarda contra a reprodução das formas de opressão dentro da própria revolução. Ao confiar na ação direta, nas greves de massas, nos conselhos operários, Rosa recuperava o princípio elementar do socialismo: a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores

A bota que nos pisa continua sendo uma bota. Nenhum partido, nenhum chefe, nenhum comitê pode substituir a experiência histórica da práxis do explorado e oprimido. É por isso que o pensamento de Rosa permanece vivo mesmo depois de sua execução brutal, mesmo depois de seu corpo ser lançado ao canal por aqueles que preferiram governar o capitalismo a destruí-lo. Rosa não morreu: ela se espalhou nos levantes de estudantes e trabalhadores, nas assembleias populares, nas lutas anticoloniais, nos corpos que recusam dobrar-se à ordem da morte.

Hoje, seu aviso se radicaliza. A barbárie não é mais o que pode vir: é o que está. E por isso, ou reinventamos o horizonte socialista — radicalmente livre, igualitário, comunal — ou aceitaremos o extermínio como destino. O socialismo não é mais apenas um sonho de justiça — é uma condição de possibilidade para a própria sobrevivência. Um novo nome para a vida.

Rosa Luxemburgo, com sua lucidez ferina e sua ternura insubmissa, ainda nos interpela. Seu tempo é o nosso. E sua sentença, revista à luz da catástrofe, é agora um veredito sobre a encruzilhada onde se encontra a humanidade: ou nos levantamos, ou desapareceremos. Ou criamos um mundo de conselhos livres e dignidade compartilhada, ou restará apenas poeira e algoritmos de morte.

Rosa é ação e pulsação. Quem não se move não sente as correntes que lhe prendem. O não conformismo de Rosa aparece como uma centelha que incendeia os ânimos e nos reacende na penumbra.  Ela dizia: sou, sou e serei. Resta saber se seremos — ou se teremos sido apenas um interlúdio entre a barbárie e o nada. Se o que temos para enfrentar o futuro é o presente, que espalhemos sobre ele nosso calor, derretendo as correntes que nos aprisionam e puxam ao fim.

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