Resumo
Este ensaio parte de uma suspeita simples: a técnica psicanalítica não atravessa fronteiras sem ser tocada por elas. Quando deixa os centros históricos que a codificaram e legitimaram, não leva consigo apenas conceitos e procedimentos; encontra outras línguas, outras economias do cuidado, outras instituições e outros modos de organizar tempo, dinheiro, corpo e autoridade. Ferenczi oferece aqui uma primeira chave, ao pensar a elasticidade como rigor sem rigidez; Lacan permite separar direção do tratamento de padronização do dispositivo; Lélia Gonzalez torna impossível supor uma língua neutra; Virgínia Bicudo, Neusa Santos Souza e Isildinha Baptista Nogueira mostram que racialização, corpo e ideal não chegam à clínica como adereços sociológicos; e Paulo Arantes ajuda a pensar o que acontece quando uma tradição importada deixa de ser apenas recebida e começa a produzir problemas próprios. A hipótese que atravessa o texto é que a transmissão não se conserva íntegra — e que talvez seja justamente essa não-integridade, quando sustentada por critérios clínicos e teóricos, uma condição de rigor. Ao final, essa distinção entre função e forma é levada ao problema da neutralidade política: a abstinência clínica não é tomada como obrigação de silêncio diante da fascistização, e a compossibilidade entre psicanálise e política permite defender posições democráticas e de esquerda sem converter a transferência em pedagogia ideológica.
Palavras-chave: psicanálise; elasticidade da técnica; raça e psicanálise; Lélia Gonzalez; Paulo Arantes; Lacan; centro e periferia; política; fascistização; neutralidade.
1. A técnica também viaja

Sala de espera do consultório de Sigmund Freud na Berggasse 19, em Viena.
A psicanálise viaja mal quando imagina viajar inteira. Há algo de quase colonial nessa fantasia de transporte sem resto: a teoria muda de país, atravessa o oceano, troca de língua, mas continua supondo que seu endereço epistemológico permaneceu o mesmo. Viena, Paris, Londres ou Buenos Aires tornam-se, então, nomes do universal; os outros lugares aparecem como cenários em que esse universal será aplicado com maior ou menor fidelidade. A diferença de língua, de classe, de raça, de formação institucional, de preço, de mobilidade ou de acesso à privacidade fica do lado de fora, como se a técnica pudesse passar por tudo isso sem adquirir uma marca. Mas talvez seja o contrário. Talvez a viagem tenha precisamente a virtude de mostrar o que, na técnica, parecia necessário apenas porque durante muito tempo permaneceu imóvel. Quando o dispositivo encontra outras condições de existência, começa a aparecer a diferença entre uma função e a forma histórica que um dia a sustentou. É nesse ponto que a discussão deixa de ser simplesmente sobre adaptação. Adaptar ainda pressupõe um original intacto, em relação ao qual as variações são concessões. Produzir exige admitir que a própria cópia possa devolver uma pergunta ao modelo.
É por isso que os autores reunidos aqui não formam uma linhagem homogênea, nem precisam formar. Ferenczi comparece quando a regra ameaça converter-se em defesa contra a experiência; Lacan, quando a fidelidade passa a significar conformação; Lélia Gonzalez, quando a língua culta se oferece como se não tivesse história; Bicudo, Neusa e Isildinha, quando raça e corpo são empurrados para a condição de contexto; Paulo Arantes, quando importar ideias parece condenar-nos à alternativa pobre entre imitação e autenticidade. Mais do que compor uma “psicanálise periférica”, interessa acompanhar uma pergunta: o que uma tradição precisa perder — ou deixar de imaginar que possui — para continuar viva quando muda de endereço?
Essa viagem da técnica obriga, antes de tudo, a perguntar onde se deposita o rigor. Ferenczi talvez seja especialmente incômodo porque o desloca de um lugar confortável. Em “Elasticidade da técnica psicanalítica” (1928/2011), ele associa elasticidade a tato, modéstia e reconhecimento dos limites do saber. Não é uma defesa da espontaneidade do analista, menos ainda uma licença para que tudo dependa de gosto pessoal. O que ele recusa é a ideia de que a regra, por ter sido uma vez justificada, permaneça justificada por si mesma. Silêncio, regularidade, reserva, frequência: cada um desses elementos pode sustentar uma análise e, em outra situação, funcionar como ritual, intimidação ou simples incapacidade de responder. A mesma forma pode produzir efeitos opostos; formas diferentes podem, às vezes, proteger uma mesma função. Isso desloca a pergunta. Em vez de “é assim que se faz?”, torna-se necessário perguntar “o que isto está fazendo aqui?”. A elasticidade não diminui a responsabilidade técnica; ela a torna mais pesada, porque retira do analista o abrigo oferecido pelo costume. Dizer que “na psicanálise se faz assim” é sempre mais simples do que responder pelo que uma decisão produz naquele tratamento. E é justamente quando o setting encontra outras condições materiais — outro regime de trabalho, outro acesso à privacidade, outra relação com deslocamento, dinheiro ou tempo — que essa exigência se torna incontornável.

Karl-Marx-Hof, um dos símbolos da Viena Vermelha.
Há uma consequência política que não precisa ser transformada em programa identitário. Sujeitos pobres, negros, indígenas, trans, trabalhadores precarizados ou moradores de cidades pequenas não demandam, por isso, uma “psicanálise especial”. Seria apenas trocar uma normatividade por outra e antecipar, pela categoria social, aquilo que a escuta deveria permitir que se singularizasse. O que muda é menos o sujeito da psicanálise do que a visibilidade das condições em que a análise acontece. Quando mobilidade, estabilidade financeira, espaço privado ou disponibilidade de tempo deixam de ser pressupostos silenciosos, aquilo que parecia detalhe começa a mostrar seu peso. A periferia, nesse sentido, não é o lugar de uma outra psique. É o lugar em que certos pressupostos da técnica deixam de poder passar por natureza.
O mesmo problema reaparece em Lacan, e há algo de irônico em transformá-lo em garantia de padronização. Em “Variantes do tratamento-padrão” (1955/1998) e “A direção do tratamento e os princípios de seu poder” (1958/1998), a técnica não aparece como um conjunto de gestos que conservariam, por repetição, sua identidade analítica. Ela depende da posição do analista, da fala, da transferência, do modo como o saber é distribuído na cena. A fórmula segundo a qual o analista dirige o tratamento, mas não dirige o paciente, é decisiva porque impede que direção se confunda com governo. Uma análise não se reconhece pela semelhança fotográfica com um consultório ideal. Tampouco qualquer modificação merece o nome de invenção. A mudança só pode ser julgada pelo que faz com a fala, com a transferência, com a responsabilidade do sujeito, com o lugar do saber e com a possibilidade de que algo ainda não previsto apareça. Há práticas perfeitamente ortodoxas que se tornam administrativas; há dispositivos pouco ortodoxos que preservam uma tensão propriamente analítica. Entre uma coisa e outra, o critério não é a aparência.
A língua torna essa questão ainda mais evidente. Desde “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise” (1953/1998), não faria sentido imaginar uma estrutura pura pairando acima das línguas concretas. O inconsciente não fala “a linguagem”; ele tropeça em palavras, sons, ritmos, equívocos, sotaques, homofonias, insultos, nomes próprios. Ainda assim, quando a teoria viaja, é frequente que a língua de origem adquira o estatuto de garantia. Termos franceses deixam de ser apenas termos e tornam-se pequenos passaportes de pertencimento; a dicção se aproxima da prova de fidelidade; a tradução é descrita sobretudo como perda. Mas uma teoria que leva o significante a sério deveria suportar o fato de que traduzir também produz. Ao mudar de língua, um conceito perde vizinhanças e ganha outras; encontra falsos amigos, ressonâncias inesperadas, impossibilidades que o original não precisava enfrentar. Talvez uma transmissão rigorosa seja aquela que aceita esse teste. Produzir Lacan fora do centro não é recobri-lo com cores locais, mas deixar que outra língua mostre o que, na recepção, era conceito e o que era reverência.
2. Língua, corpo e produção fora do centro
Lélia Gonzalez não escreveu uma teoria da técnica psicanalítica, e seria uma violência transformá-la retroativamente em comentadora de Lacan. O que sua obra faz aqui é mais perturbador: retira da língua brasileira a aparência de neutralidade. Racismo, sexismo, amefricanidade e “pretuguês” não entram como temas que poderiam ou não interessar à psicanálise; eles alteram a própria cena em que alguém imagina que uma teoria passa de uma língua a outra sem ser afetada (GONZALEZ, 1984; 1988; 2020). No Brasil, falar nunca foi apenas falar português. A língua carrega hierarquias de escolarização, raça, região, classe, correção e prestígio. Certas pronúncias aparecem como naturais, outras como erro; certas construções são escutadas como estilo, outras como falta. Para uma prática cuja matéria é a fala, isso não é exterior. Uma atenção flutuante pode ser menos flutuante do que imagina quando foi treinada, culturalmente, para deixar cair justamente aquilo que aprendeu a chamar de linguagem menor. Nesse ponto, a aproximação com Virgínia Bicudo, Neusa Santos Souza e Isildinha Baptista Nogueira torna-se decisiva. A racialização não é um tema que chega depois de constituído o sujeito; ela participa dos ideais, das imagens do corpo, das expectativas de reconhecimento e das formas de violência que atravessam a vida psíquica.

Lélia Gonzalez durante atividade pública do Movimento Negro Unificado, no Rio de Janeiro, em 1983.
Interpretar, então, não pode significar corrigir a fala do analisando até que ela caiba na língua da teoria. Édipo, fantasia, gozo, narcisismo, demanda, objeto a: conceitos são instrumentos de leitura, não um idioma superior para o qual toda experiência deveria ser traduzida. Quando isso ocorre, a interpretação corre o risco de domesticar aquilo que pretendia escutar. Em Tornar-se negro, Neusa Santos Souza (1983/2021) mostra como o ideal branco pode organizar a economia narcísica e devolver ao corpo negro uma medida impossível; Isildinha Baptista Nogueira (2021) acompanha as significações raciais que se inscrevem na imagem corporal sem fazer da negritude um destino clínico. A força desses trabalhos está justamente aí: nem sociologizam o inconsciente, nem purificam o inconsciente de sua história. A frase “o inconsciente não tem cor” pode ser correta num nível e profundamente enganosa em outro, sobretudo quando serve para tratar a racialização como ruído adventício. Lélia Gonzalez empurra a questão um pouco mais longe ao recusar uma América Latina pensada como simples derivação europeia. Sua amefricanidade não pede uma origem pura em substituição a outra; insiste na formação feita de violência, mistura, apagamento, resistência e invenção. Algo semelhante pode ser dito, com cautela, da psicanálise que se faz aqui: ela não precisa inventar uma essência brasileira, mas tampouco precisa continuar se descrevendo como transporte bem-sucedido de uma teoria europeia.
Quando o problema da língua se desloca para o da importação intelectual, Paulo Arantes oferece uma imagem particularmente útil. Em Um departamento francês de ultramar (1994), a formação filosófica uspiana aparece marcada por métodos franceses de leitura, por uma relação de dependência que seria fácil denunciar e fácil demais simplesmente ridicularizar. O interesse está na ambivalência: a importação produz provincianismo, mas produz também disciplina, acumulação, rotina intelectual — e, em certo momento, a possibilidade de olhar para a própria matriz com distância. A cópia deixa de ser apenas submissão quando adquire espessura suficiente para perceber que copia. Talvez seja essa uma das passagens decisivas de qualquer tradição intelectual periférica: não a descoberta de uma autenticidade anterior à influência, mas a capacidade de fazer do empréstimo um objeto de elaboração.
A psicanálise brasileira conhece bem esse circuito. Freud, Lacan e Ferenczi chegaram por traduções, escolas, viagens, supervisões, filiações internacionais, mediações argentinas e francesas. Nada disso constitui, em si, um problema. O problema começa quando a origem funciona como certificado permanente de autoridade: o centro formula; nós aplicamos. Enquanto as categorias chegam de fora e os casos saem daqui, a divisão do trabalho conceitual permanece intacta. Uma alteração de horário, de honorário, de frequência ou de linguagem aparece, então, como mera concessão local, uma espécie de desconto que a realidade impõe à pureza da técnica. Mas a situação também pode ser lida ao contrário. Talvez seja justamente a exceção que revele aquilo que a regra havia confundido consigo mesma.
É nesse instante que a margem deixa de ser apenas lugar de exceção. Se uma frequência distinta sustenta o trabalho, ela não precisa ser tratada apenas como concessão local; pode devolver uma pergunta à própria função da frequência. O mesmo vale para o preço, para a língua, para o espaço e para o tempo da sessão. O interesse teórico começa quando a diferença deixa de ser administrada como desvio e passa a produzir uma questão geral.
Essa distância não é virtuosa por natureza. Há periferias profundamente conservadoras, cópias caricaturais e nacionalismos teóricos que apenas invertem o sinal da dependência. Arantes é útil justamente porque não oferece uma redenção automática da margem. Para que o desajuste se torne crítica, é preciso formação, comparação, leitura rigorosa e disposição para deixar-se contrariar pelo objeto (ARANTES, 1994; 2021). Produzir fora do centro não significa fabricar “nosso Lacan”, como se um nome próprio nacional resolvesse o problema. Significa trabalhar o que recebemos até que deixe de funcionar como autoridade exterior e se torne material efetivamente nosso — isto é, material que também pode ser interrogado.

Lélia Gonzalez no Planetário da Gávea, Rio de Janeiro, década de 1980.
Essa discussão deixa de ser apenas intelectual quando retorna ao consultório. As disputas sobre fidelidade analítica gostam de se fixar em objetos visíveis: divã, frequência, duração da sessão, pagamento, presença física, silêncio, férias, faltas, contato fora do horário. É compreensível. O setting dá à análise uma materialidade e uma regularidade sem as quais ela facilmente se dissolve. O problema é outro: quando a forma começa a valer como prova de função. Um divã não produz associação livre por propriedade do móvel; cinquenta minutos não garantem escuta; um preço alto não produz seriedade; o silêncio do analista pode abrir uma fala ou apenas ocupar a sala como signo de poder. Separar função e forma não é tornar o enquadre dispensável. É exigir que ele volte a responder pelaquilo que faz. Regularidade, limite, possibilidade de associação, manejo da transferência, responsabilidade, corte e endereçamento não existem fora de formas concretas, mas nenhuma forma os possui de uma vez por todas.
Quando se olha para a materialidade do dispositivo, essa diferença deixa de ser abstrata. O pagamento participa da transferência, da dívida, da perda e da materialidade do trabalho; nada disso, porém, determina um preço universal. A língua é feita de corte, equívoco, repetição e homofonia, mas essas operações só existem em uma língua efetivamente falada, atravessada por sotaque, erro, gíria e contração. O corpo tampouco espera ser tematizado para começar a operar: olhar, vergonha, idealização, ameaça e reconhecimento já distribuem lugares antes que o analisando diga “quero falar de raça”. Muitas vezes, aquilo que a teoria chama de contingência é apenas uma condição social que permaneceu invisível porque coincidia com a experiência de quem formulava a regra.
Isso também impede que acessibilidade seja convertida em novo fetiche. Uma mudança pode ser socialmente necessária e ainda assim produzir efeitos transferenciais que precisam ser lidos. Reduzir honorários, alterar a frequência, atender remotamente ou flexibilizar horários pode manter uma análise possível; pode também produzir dívida, favor, exceção, medo de abandono ou fantasia de privilégio. Nenhuma dessas consequências invalida a mudança. Apenas lembra que responder a condições materiais não suspende o trabalho analítico. Ao contrário: recoloca essas condições dentro da análise, em vez de tratá-las como justificativa administrativa exterior a ela.
Se tudo pudesse variar sem critério, a própria ideia de técnica perderia sentido. A elasticidade só interessa porque alguma coisa precisa continuar operando quando a forma muda: a primazia da fala e de suas formações sobre explicações prontas; a diferença entre demanda e direção do tratamento; a divisão do saber, que impede o analista de instalar-se como proprietário da verdade do sujeito; a transferência como campo de trabalho; a responsabilidade pela intervenção e por seus efeitos. Nada disso é garantido por um consultório ortodoxo. Nada disso sobrevive automaticamente a uma inovação. Talvez a pergunta mais fecunda, portanto, não seja “até onde podemos mudar sem deixar de fazer psicanálise?”, mas “o que, ao mudar, ainda precisa acontecer para que possamos chamar isso de análise?”.
Por isso, “centro” e “periferia” não designam apenas mapas: também distribuem direitos de enunciação. Centro é o lugar de onde uma formulação pode apresentar-se como universal sem explicar demais de onde veio; periferia é o lugar cuja fala chega acompanhada de endereço. Uma teoria produzida em francês circula facilmente como teoria. Uma formulação nascida de uma experiência brasileira corre o risco de chegar já classificada como caso, contexto, testemunho local. Essa assimetria é mais profunda do que uma bibliografia pouco diversa. Pode-se acrescentar autores negros, latino-americanos ou periféricos e conservar intacta a divisão segundo a qual alguns fornecem conceito e outros fornecem experiência.
É por isso que a representatividade, embora importante, não resolve o problema. Se Freud e Lacan continuam autorizados a falar sobre linguagem, desejo, sujeito e método enquanto Lélia Gonzalez comparece apenas para “falar de raça”, pouco mudou na arquitetura do saber. Lélia interessa também porque torna instável a ideia de língua neutra e de universalidade sem endereço. Neusa Santos Souza não oferece apenas exemplos de sofrimento racial; obriga a recolocar ideal do eu e narcisismo em uma ordem social racializada. Isildinha Baptista Nogueira não adiciona “o corpo negro” a uma teoria geral previamente completa; sua obra pergunta como essa generalidade se constituiu como neutra. A periferia começa a produzir pensamento quando deixa de ser convocada apenas como conteúdo.
O ponto decisivo não é adaptar uma superfície para preservar um núcleo intocado, mas admitir que certas experiências obriguem o próprio núcleo a ser diferenciado. Uma clínica sob outras condições pode revelar que o formato clássico cumpria funções que não coincidiam com sua aparência; uma tradução pode expor ambiguidades invisíveis na língua de origem; uma transformação institucional pode mostrar que determinada exigência era menos analítica do que sociológica. Nesse sentido, a elasticidade também tem força epistemológica: um saber rigoroso precisa poder sofrer efeitos daquilo que faz.
Há duas tentações simétricas. A primeira é metropolitana: imaginar uma forma completa da psicanálise que deveria ser reproduzida com o mínimo possível de perda. A segunda é identitária: transformar a margem em novo lugar de verdade, como se exclusão, negritude, nordestinidade, experiência popular ou distância do centro produzissem por si mesmas um saber mais autêntico. Ambas resolvem cedo demais o problema da autoridade. A singularidade analítica não coincide com raça, classe, território, gênero ou nacionalidade; mas tampouco aparece depois que essas determinações foram deixadas na porta. O sujeito não se reduz à sua história, embora só possa falar a partir dela.
Sustentar esse intervalo exige reconhecer os efeitos de raça, classe, território, gênero e língua sem transformá-los em destino interpretativo; admitir que uma teoria tem endereço sem reduzi-la ao contexto; aceitar que o dispositivo varie sem concluir que toda variação é equivalente. Produzir psicanálise fora do centro é fazer da dependência uma matéria de pensamento, em vez de escondê-la sob reverência ou resolvê-la pelo mito de uma autenticidade perdida.
3. Quando a neutralidade toma partido
Há uma consequência incômoda desse argumento. Se a técnica não chega intacta, tampouco chega intacta a noção de neutralidade que as instituições psicanalíticas aprenderam a apresentar como dedução direta da clínica. A abstinência regula o poder do analista na transferência: impede que sua moral, sua fantasia ou seu programa de vida sejam oferecidos ao analisando como resposta para o desejo. Nada nela exige que o analista, fora da sessão, se torne um cidadão sem endereço político. O erro começa quando uma regra do dispositivo é convertida em teoria geral da desimplicação.
Uma pequena controvérsia recente em torno de Ana Suy torna essa confusão visível numa escala quase doméstica. Circularam nas redes relatos de usuários que afirmaram ter sido bloqueados depois de cobrar um posicionamento político da psicanalista ou de curtir comentários que faziam essa cobrança. Vieram acusações de “psicanálise isentona”, ironias eleitorais e, no sentido contrário, a defesa de que exigir declaração pública de uma analista seria incompatível com a ética da psicanálise. Não interessa aqui descobrir o voto privado de Ana Suy nem transformar stories e bloqueios em tribunal ideológico. A cena interessa justamente por sua pequenez: mostra com que rapidez uma decisão contingente — falar, calar, responder, bloquear — pode ser elevada à dignidade de princípio clínico. A fofoca funciona, assim, como miniatura de uma questão institucional maior.
Gabriel Tupinambá oferece uma chave especialmente útil para escapar dessa falsa alternativa entre militância clínica e silêncio cívico. Em O desejo de psicanálise, ao reconstruir a crise política da Associação Mundial de Psicanálise e da Escola da Causa Freudiana em torno das eleições francesas de 2017, ele mostra a estranheza de uma instituição que, depois de décadas de desconfiança diante da política radical, decidiu mobilizar-se contra Marine Le Pen e em defesa do Estado de direito. O problema, para Tupinambá, não estava em considerar a extrema direita uma ameaça; estava na maneira como a psicanálise se autorizava a transformar sua própria doutrina em tribunal da política, enquanto reprimia ou desqualificava articulações marxistas que pretendiam interrogar a psicanálise de fora de seus próprios pressupostos (TUPINAMBÁ, 2024). A operação é reveladora: a política podia entrar na psicanálise quando vinha traduzida no idioma da preservação institucional, da democracia liberal e da estabilidade, mas tornava-se suspeita quando colocava em questão propriedade, classe, dinheiro, organização ou as condições materiais de reprodução do próprio campo.
É aqui que a noção de compossibilidade proposta por Tupinambá se torna mais interessante do que a velha pergunta sobre se a psicanálise é “de esquerda”. Não precisamos provar que o inconsciente é socialista, nem extrair de Lacan um programa econômico. Política e psicanálise não precisam falar a mesma língua para que uma possa impor problemas reais à outra. A política marxista pode perguntar quem dispõe de dinheiro, tempo, moradia, privacidade e capital cultural para sustentar uma análise; quem consegue pagar uma formação prolongada; quem pode transformar-se de paciente em analista; quem trabalha gratuitamente para manter instituições cuja autoridade continua concentrada em poucos nomes. A psicanálise, por sua vez, pode permanecer atenta ao fato de que nenhuma posição de classe esgota a divisão subjetiva. Compossibilidade não é subordinação recíproca. É justamente a possibilidade de que dois campos permaneçam irredutíveis e, ainda assim, sejam capazes de perturbar os pontos cegos um do outro.
Visto desse ângulo, a história vienense deixa de funcionar como decoração trágica. A Sociedade Psicanalítica de Viena atraíra social-democratas e participantes da esquerda; com a consolidação do austrofascismo, analistas socialistas já encontravam cada vez menos condições para permanecer na cidade. Em março de 1938, depois da anexação da Áustria pela Alemanha nazista, a própria sobrevivência institucional tornou-se o problema. A Sociedade decidiu que seus membros deveriam sair do país; o apartamento e a editora de Freud foram invadidos; Anna Freud foi interrogada pela Gestapo; em 4 de junho, Freud deixou Viena para Londres. O fascismo não respeitou a fronteira entre política e clínica: entrou pela Berggasse 19.

Sigmund Freud após deixar Viena em 1938, com a anexação da Áustria pela Alemanha nazista.

Berggasse 19, Viena, 1938. O endereço histórico da psicanálise sob ocupação nazista: a política já não aparece como contexto exterior, mas como condição concreta de possibilidade — ou impossibilidade — da própria prática.
A reconstrução retomada por Tupinambá e por Žižek torna o contraste ainda mais agudo: em 1934, diante do austrofascismo de Dollfuss e da repressão aos social-democratas, a orientação institucional fora preservar o trabalho analítico sem envolver a psicanálise diretamente no conflito. A pergunta que resta não é se todo analista deveria ter se tornado militante, mas o que acontece com a ideia de neutralidade quando um lado dissolve o parlamento, destrói organizações operárias e altera as próprias condições de existência das instituições. Nessas conjunturas, a recusa de escolher não cria um terceiro lugar; ela já se inscreve na correlação de forças.
O Brasil de 2018 recolocou esse problema em uma gramática própria. Bolsonaro não foi simplesmente “mais um candidato conservador”: sua ascensão condensou elogios à ditadura, nostalgia da tortura, guerra cultural contra universidades, ataques a minorias e uma política fundada na fabricação reiterada de inimigos internos. O que veio depois tornou impossível tratar tudo isso apenas como excesso retórico de campanha. E o ciclo não terminou com sua derrota eleitoral. A recomposição internacional da extrema direita — a volta de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, a experiência ultraliberal e autoritária de Javier Milei na Argentina e a permanência do bolsonarismo como força social brasileira — indica menos uma sucessão de cópias idênticas do fascismo histórico do que um processo contemporâneo de fascistização: nacionalismo ressentido, anticomunismo, ataque a direitos, culto da força, produção paranoide de inimigos, misoginia, transfobia e racismo articulados à radicalização neoliberal. Chamar esse processo de fascistização é uma posição teórica e política, não um diagnóstico clínico aplicado a eleitores. Justamente por isso não precisa fingir neutralidade.
É nesse ponto que uma posição de esquerda pode ser afirmada sem pedir autorização à metapsicologia. Diante desse ciclo, a social-democracia aparece menos como horizonte radical do que como piso defensivo: eleições, direitos trabalhistas, saúde e educação públicas, proteção de minorias, redistribuição, liberdade de organização e limites democráticos ao poder econômico. Nada na abstinência é incompatível com essa defesa. Uma posição marxista pode ir além e perguntar por que a democracia liberal produz repetidamente as condições de sua captura pela extrema direita, por que a austeridade fabrica desamparo enquanto privatiza suas soluções e por que a clínica deveria tratar como exterior o regime econômico que decide quem tem tempo e dinheiro para chegar até ela. Reconhecer a autonomia da política significa também aceitar que Marx, a organização coletiva e a luta social possam interrogar os pontos cegos da psicanálise.
Há ainda uma ficção mais funda sustentando essa imagem de neutralidade: a extrapolação da assimetria clínica para uma assimetria social entre analista e analisando. Na sessão, as posições não são intercambiáveis; há diferença de função, responsabilidade e manejo da transferência. Mas isso não transforma o analista em sujeito exterior às determinações que atravessam quem o procura. Ambos respiram o mesmo ar político e atravessam, ainda que de modos desiguais, inflação, pandemia, racismo, sexismo, violência estatal, precarização do trabalho, colapso dos serviços públicos, catástrofes climáticas e campanhas de ódio. A fantasia de que a função analítica suspenderia essa coexposição converte uma diferença interna ao dispositivo em privilégio epistemológico: o analista como alguém capaz de escutar a história sem estar dentro dela.
A assimetria organiza o trabalho clínico; não concede ao analista um ponto de vista acima da sociedade. Um analisando de direita continua tendo direito a uma análise que não o trate como material defeituoso a ser reeducado, assim como um analisando de esquerda não deveria receber a confirmação narcísica de que sua consciência política resolveu seu inconsciente. A direção do tratamento não é a direção do voto. Mas disso não se segue equivalência entre fascismo e antifascismo, perseguição e defesa dos perseguidos, destruição e ampliação de direitos. A neutralidade analítica limita o poder do analista sobre o analisando; ela não obriga o analista a ser neutro diante do poder que decide quem poderá continuar falando.
4. Deixar-se afetar
No fim, talvez a pergunta não seja como preservar a psicanálise de suas viagens, mas que tipo de psicanálise precisa imaginar-se intacta para continuar reconhecendo a si mesma. Ferenczi ensina que rigor não é rigidez; Lacan separa direção de padronização; Lélia Gonzalez torna suspeita qualquer língua que se apresente sem história; Bicudo, Neusa Santos Souza e Isildinha Baptista Nogueira mostram que racialização, ideal e corpo não esperam do lado de fora da clínica; Paulo Arantes permite pensar a importação sem escolher entre submissão e pureza. Nenhum desses movimentos autoriza uma celebração ingênua da diferença. Todos, porém, tornam mais difícil manter a imagem de uma técnica que simplesmente se conserva enquanto o mundo ao redor muda.
Há uma diferença importante entre herança e autoridade. Freud, Lacan, Ferenczi e outras tradições permanecem indispensáveis porque nos legaram problemas, conceitos, impasses, experiências de leitura e formas de intervenção — não porque ocupem um exterior metropolitano capaz de certificar, à distância, o que fazemos. Pela mesma razão, deslocar o centro não exige substituir um cânone europeu por um cânone local blindado contra crítica. Formação, estudo, análise, supervisão e interlocução continuam sendo condições do trabalho. O que pode mudar é o estatuto dessas mediações: menos pedigree, mais exercício; menos prova de pertencimento, mais capacidade de fazer a tradição responder ao presente.
A técnica, afinal, não viaja como peça lacrada. Ela chega com amassados, perde coisas na tradução, ganha outras sem perceber, encontra obstáculos materiais que a obrigam a dizer o que antes podia deixar implícito. Isso não é uma falha acidental da transmissão; pode ser sua condição de trabalho. O desafio não é impedir toda deformação, mas distinguir aquelas que fazem a experiência analítica trabalhar daquelas que apenas a esvaziam. Talvez o universal da psicanálise não esteja na repetição de uma mesma forma em qualquer lugar, e sim na possibilidade de certas funções persistirem justamente porque suas formas não precisam ser idênticas. Produzir psicanálise fora do centro seria, então, aceitar uma consequência pouco confortável: a margem não serve apenas para receber a teoria. Em alguns momentos, ela devolve o olhar — e, ao fazê-lo, obriga a teoria a descobrir o que havia aprendido a chamar de neutro.

Lélia Gonzalez em atividade do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras. A teoria também ganha endereço quando deixa de tratar a periferia apenas como objeto e passa a reconhecer nela um lugar de produção.
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