Um dos homens mais notáveis de nossos tempos, quem desempenhou um incrustável, mas pujante papel na política revolucionária dos últimos quarenta anos, é Karl Marx.  Um homem sem desejo de aparecer ou de fama, que nada se importa com a fanfarronada da vida ou com a pretensão de poder, sem pressa e sem descanso, um homem com uma mente forte, ampla e elevada, cheia de projetos de longo alcance, métodos lógicos e objetivos práticos, esteve e ainda está por trás da maioria dos terremotos que convulsionaram nações e destruíram reinados e que agora ameaça e apavora cabeças coroadas e fraudes estabelecidas mais do que qualquer outro homem na Europa, sem exceção até mesmo para Giuseppe Mazzini. Estudante em Berlin, crítico do hegelianismo, editor de jornais e antigo correspondente do New York Tribune, ele mostrou suas qualidades e seu espírito; fundador e espírito-mestre da outrora temida Internacional e autor de “O Capital”, ele foi expulso de metade dos países da Europa, é proibido de entrar em quase todos e há trinta anos encontrou exílio em Londres. Ele estava em Ramsgate[1], o grande ressorte litorâneo dos londrinos, durante minha estadia em Londres e lá encontrei ele em seu chalé junto das duas gerações de sua família. A graciosa mulher de rosto adorável e voz doce que me recebeu à porta era evidentemente a dona de casa e esposa de Karl Marx. Mas seria aquele homem de 60 anos, cabeçudo, de feições generosas, cortês e gentil, com volumosos tufos de longos cabelos grisalhos, Karl Marx? Seus diálogos me faziam recordar daqueles de Sócrates – tão livre, profundo, criativo, incisivo e genuíno – com seus toques sarcásticos, senso de humor e alegria esportiva. Falou das forças políticas e dos movimentos populares de vários países europeus – o grande espírito atual da Rússia, os movimentos do intelecto alemão, a ação da França e a imobilidade da Inglaterra. Falou esperançosamente da Rússia, filosoficamente da Alemanha, alegremente da França e sombriamente da Inglaterra – referindo-se com desdém às “reformas atomistas” sobre as quais os Liberais e o Parlamento Britânico gastavam seu tempo. Descrevendo o mundo europeu, país atrás de país, indicando as características, os desenvolvimentos e as personagens na superfície e sob a superfície, ele demonstrou que as coisas estavam se encaminhando para fins que certamente seriam realizados. Não podia deixar de ficar surpreso enquanto ele falava. Era evidente que este homem, de quem tão pouco se vê e se escuta, está além de seu tempo, e que, do Neva ao Sena, dos Urais aos Pirineus, suas mãos estão a trabalhar na preparação do caminho para o novo advento. Seu trabalho não é agora um desperdício mais do que aquele do passado, tempo durante o qual tantas mudanças desejáveis ​​ocorreram, tantas lutas heroicas foram vistas e a República Francesa foi erguida nas alturas. Enquanto ele falava, a pergunta que fiz, “Por que você não está fazendo nada agora?”, foi vista como uma questão de iletrados, a qual ele não poderia fornecer uma resposta direta. Questionado pelo porquê de sua grande obra, “O Capital”, um campo fértil para tantas colheitas, não ter sido traduzido para o inglês, tal como foi para o russo e o francês[2] a partir do original em alemão, ele pareceu ser incapaz de responder, mas disse que uma proposta para uma tradução inglesa chegou a ele de Nova Iorque.[3] Ele disse que o livro não era senão um fragmento, uma primeira parte de uma obra de três partes, duas das quais ainda não foram publicadas, cuja trilogia completa seria “Terra”, “Capital” e “Crédito”,[4] a última parte, disse ele, seria amplamente ilustrada pelos Estados Unidos da América, onde o crédito tinha tido um grande desenvolvimento. O Sr. Marx é um estudioso da ação norte-americana e suas observações sobre algumas das forças formadoras e substantivas da vida norte-americana eram cheias de sugestões. Aliás, quando se referiu a seu “O Capital”, ele disse que qualquer um que deseje o ler consideraria a tradução francesa muito superior em vários sentidos ao original em alemão.[5] O Sr. Marx se referiu a Henri Rochefort, o Francês, e em seu discurso acerca de alguns de seus discípulos já falecidos, como o tempestuoso Bakunin, o brilhante Lasalle e outros, pude notar o quanto seu gênio havia conquistado homens que, fossem outras as circunstâncias, poderiam ter conduzido o curso da história.

A tarde se aproximava do crepúsculo de uma noite inglesa de verão enquanto o Sr. Marx falava e propunha uma caminhada através da cidade litorânea e cerca da beira-mar, na qual pudemos ver milhares de pessoas, a maioria delas crianças, brincando entre si. Lá nós participamos de seu encontro familiar na areia – a esposa, que já tinha me recebido muito bem, suas duas filhas com seus filhos e seus dois genros,[6] um dos quais é um professor da Kings College, em Londres,[7] e o outro, acredito, um homem de letras.[8] Foi um encontro maravilhoso – éramos cerca de dez ao todo –, o pai das duas jovens esposas, que estavam felizes com seus filhos, e avó das crianças, rica na serenidade e alegria em seu papel de esposa. Karl Marx não compreende a arte de ser avô com menos fineza que Victor Hugo; mas é mais afortunado que Hugo, suas filhas casadas ainda vivem para alegrar seus anos. Ao anoitecer ele e seus genros se separaram de suas famílias para passarem uma hora com seu visitante norte-americano. Enquanto nossos copos tilintavam sobre o mar, a conversa era sobre o mundo, o homem, o tempo e as ideias. Mas o trem ferroviário não espera por ninguém e a noite estava chegando. A despeito dos pensamentos sobre o incompreensível e a do percurso da era e das eras, mais além da conversa do dia e das cenas da noite, surgiu em minha mente uma única questão sobre a lei última da existência, pela qual eu esperava obter uma resposta desse sábio. Mergulhando nas profundezas da linguagem e retornando para atingir toda a altura de uma ênfase, durante um silencio interespacial, interroguei o revolucionário e filósofo com essas palavras fatídicas: “O que é o ser?”. Pareceu que sua mente havia se invertido por completo enquanto ele olhava o mar ribombante à frente e a multidão inquieta na praia. “O que é o ser?”, eu perguntei, ao que ele respondia, em um tom solene e profundo, “Luta!”.

À primeira vista era como se eu tivesse escutado o eco do desespero; mas, porventura, era a lei da vida.



New York Sun, n. 6., 6 de setembro de 1880.

Tradução: Felipe Taufer
Revisão: Jade Amorim
Original: SWINTON, John. Appendices. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Collected Works: 1874-1883. v. 24. Electric Book: Lawrence & Wishart, 2010, pp. 583-585.


[1] Marx e sua família descansaram em Ramsgate entre Agosto e 13 de Setembro de 1880.

[2] Kanumaiih. Kpumuxa nojiumimecKoü aKOHOMiu. CoHHHeme KapAa Mapicca. nepeB04T> CT> HÏ>MeqKaro. TOMT. nepBbift. Kmira I. “npoqeccb npoH3B04CTBa KanHTaAa”, C.-rieTep6ypn>, 1872; Le Capital Par Karl Marx. Traduction de M. J. Roy, entièrement revisée par l’auteur, [Vol. I,] Paris.

[3] Provavelmente Marx se referia a proposta de Karl Daniel Adolph Douai para traduzir O Capital ao inglês. Isso fica claro na carta de Sorge para Marx de 19 de Julho de 1878, este plano não havia sucedido. A tradução inglesa do primeiro volume de O Capital apareceu somente após a morte de Marx, em 1887. Foi preparada por Engels, Samuel Moore e Edward Aveling.

[4] Marx, enquanto trabalhava em seus manuscritos econômicos, havia originalmente planejado escrever seis livros: capital, a propriedade da terra, trabalho assalariado, Estado, comércio internacional e mercado mundial (ver as cartas de Marx a Lasalle de 22 de Fevereiro de 1858, a Engels de 2 de Abril de 1858 e a Weydemeyer de 1º de Fevereiro de 1859). O plano não foi realizado. As questões da renda fundiária e do crédito aparecem, em alguma medida, no terceiro volume de O Capital.

[5] A referência feita é a versão da tradução francesa autorizada do primeiro volume de O Capital. Marx realizou mudanças substanciais e algumas adições no manuscrito da tradução. Ele acreditava que a versão francesa tinha um valor científico independente. Com base nisso, foram introduzidas mudanças nas versões subsequentes do primeiro volume em alemão, russo e outros idiomas.

[6] Jenny e Charles Longuet com seus filhos – Jean, Henri e Edgar – e Laura e Paul Lafargue. (Nota do editor da MECW).

[7]  Paul Lafargue (Nota do editor da MECW).

[8]  Charles Longuet (Nota do editor da MECW).

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