O objetivo das seguintes observações é oferecer um panorama superficial das principais maneiras de ler as teorias de Marx. Estas serão apresentadas – por meio de alguns tópicos selecionados – como marxismos que podem, de maneira relativamente clara, ser delimitados uns em relação aos outros, e a história de sua recepção e influência será avaliada no que diz respeito à compreensão de senso comum da “teoria marxista”.

Uma distinção será feita entre as interpretações dominantes de Marx até agora, primariamente associadas a partidos políticos (marxismo tradicional, marxismo no singular, se você preferir), e às formas dissidentes, críticas, de leitura de Marx (marxismos no plural), com suas respectivas reivindicações de um “retorno a Marx”. A primeira interpretação é entendida como um produto e processo de uma leitura restrita de Marx, em parte emergida da camada “exotérica” das obras de Marx, a qual atualiza os paradigmas tradicionais da teoria política, da teoria da história e da filosofia. Sistematizada e elevada a uma doutrina por Engels, Kautsky, et al., ela sucumbe às mistificações do modo capitalista de produção e culmina na ciência apologética do marxismo-leninismo. As outras duas interpretações, especificamente o marxismo ocidental e a Neue Marx-Lektüre alemã (“nova leitura de Marx”), geralmente exploram o conteúdo “esotérico” da crítica e análise de Marx da sociedade, comumente consumadas por atores isolados fora de programas de pesquisa cumulativos e institucionalizados, ao estilo de um “marxismo underground”. 

Para que se possa caracterizar ambas formas de leituras, algumas teses fortemente truncadas, limitadas a alguns aspectos, devem bastar. Em particular, a proposição ambiciosa, formulada pela primeira vez por Karl Korsch, de uma “aplicação da concepção materialista da história à concepção materialista da própria história” – uma que vai além da mera apresentação da história intelectual, em direção a uma crítica teórica imanente que criticamente considera a conexão entre formas históricas de práxis e as formações teóricas do marxismo – não pode ser feita aqui. Além disso, uma consideração das leituras que são críticas a Marx ou ao marxismo também pode ser desconsiderada aqui, na medida em que sua imagem de Marx geralmente corresponde à do marxismo tradicional.

Assim, começo com o modelo hegemônico de interpretação do marxismo tradicional, e somente ao fim da minha apresentação concluirei com algumas determinações positivas do que considero como a intenção sistemática fundamental da obra de Marx. Faço isso principalmente porque uma leitura diferenciada da obra de Marx só pode ser obtida no decorrer dos processos de aprendizagem do marxismo ocidental e da Neue Marx-Lektüre.

  1. Marxismo

O termo “marxismo” foi provavelmente usado pela primeira vez no ano de 1879, pelo social-democrata alemão Franz Mehring para caracterizar a teoria de Marx, e se estabeleceu ao final da década de 1880 como uma arma discursiva usada tanto por críticos como por defensores dos “ensinamentos de Marx”. Contudo, o nascimento de uma “escola marxista” é unanimemente datado da publicação do Anti-Dühring por Friedrich Engels no ano de 1878, e da recepção subsequente desta obra por Karl Kautsky, Eduard Bernstein, et al. Os escritos de Engels – mesmo que os termos “marxismo” ou “materialismo dialético”, os rótulos autoaplicados de leituras tradicionais, ainda não apareçam nestes – supriram gerações inteiras de leitores, tanto marxistas quanto críticos do marxismo/anti-marxistas, com o modelo interpretativo através do qual a obra de Marx foi percebida. Em particular, a análise do livro de Marx “Contribuição para a Crítica da Economia Política” (1859), a obra tardia “Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Alemã Clássica” (1886), e o suplemento ao volume III d’O Capital (1894/95) alcançaram uma influência que dificilmente pode ser subestimada. Acima de tudo, contudo, foi o Anti-Dühring o qual seria estilizado como o livro cânone da teoria marxista, bem como uma representação positiva de uma “visão de mundo marxista”: para Kautsky, “não há nenhum outro livro que tenha contribuído tanto ao entendimento do marxismo. O Capital de Marx é melhor. Mas foi através do Anti-Düring que nós aprendemos pela primeira vez a ler e entender corretamente O Capital”. E, para Lênin, é um dos “manuais de todo trabalhador consciente de classe”. [1]Karl Kautsky, citado em Gareth Stedman Jones, “Engels und die Geschichte des Marxismus,” em Klassen, Politik, Sprache. Für eine theorieorientierte Sozialgeschichte (Münster: Westfälisches … Continue reading

Ao mesmo tempo, uma característica geral da história do “marxismo” é consumada: os iniciadores do corpus teórico consideram “desnecessário […] que eles próprios apareçam como epônimos […] os epônimos não são os verdadeiros falantes” (Georges Labica). Em muitos aspectos, o marxismo é obra de Engels e é, por essa razão, na verdade, um Engelsismo. A seguir, citarei apenas três pontos aos quais uma leitura ideologizada e restrita de Marx poderia recorrer.

I.1 A Tendência Determinista-Ontológica

O socialismo científico foi concebido como um sistema ontológico, uma “ciência do panorama geral”. O materialismo dialético funciona aqui como uma “lei geral do desenvolvimento da natureza, da sociedade e do pensamento”[2]Frederick Engels, “Dialectics” in Dialectics of Nature , enquanto a natureza serve para Engels como uma “prova da dialética”.[3]Engels, “Introduction” in Anti-Dühring Engels já faz aqui uma falsa analogia entre os processos histórico-sociais e os fenômenos naturais pelo simples fato de que, em sua elucidação das principais características da dialética, falta a referência ao sujeito e ao objeto. A “negação da negação” ou a “transformação da quantidade em qualidade” são identificadas nas mudanças do estado físico da água ou no desenvolvimento de um grão de cevada. Contra um ponto de vista estático, a dialética deve supostamente demonstrar o “devir”, o “caráter transitório” de toda a existência[4]Engels, “Hegel” in  Ludwig Feuerbach and the End of German Classical Philosophy., e está ligada às dicotomias tradicionais da filosofia da consciência, como a dita “grande questão básica de toda filosofia” a respeito de qual componente da relação entre “pensamento e ser” tem primazia. [5]Ibid.A dialética é dividida entre “dois conjuntos de leis”, a dialética do “mundo externo” e a dialética do “pensamento humano”, pelo qual a última é entendida como uma mera imagem mental passiva da primeira.[6]Engels, “Marx” in Ludwig Feuerbach Engels restringe – até mesmo distorce – os três temas práxico-filosóficos elementares de Marx, que ele ainda havia defendido parcialmente em seus escritos anteriores:

  1. O reconhecimento de que não somente o objeto, mas também a observação do objeto é histórica e materialmente mediada,[7]Karl Marx, “Theses on Feuerbach. não sendo externa à história dos modos de produção. Contra isso, Engels enfatiza que “a perspectiva materialista da natureza significa nada mais que a simples concepção da natureza como ela é, sem adições externas”.[8]Engels, “Notes and Fragments” in Dialectics of Nature. O realismo ingênuo da teoria do reflexo sistematizada por Lenin[9]Acima de tudo em Materialism and Empiriocriticism, estilizado pelo marxismo-leninismo como o livro clássico do materialismo dialético ao lado de Anti-Dühring. Aqui, o marxismo se torna uma … Continue reading e outros – a qual é vitimada pela aparência reificada de imediatismo daquilo que é socialmente mediado, o fetichismo de um em-si daquilo que existe apenas por meio de uma estrutura historicamente determinada da atividade humana – já obtém seu fundamento nos escritos de Engels.[10]Falko Schmieder aponta para o papel a priori da mídia fotográfica como base desse realismo ingênuo na filosofia, bem como as semelhanças fundamentais entre Engels, Lênin e Feuerbach; Ludwig … Continue reading Como os “objetos referem-se à consciência e a consciência refere-se aos objetos”[11]Alfred Sohn-Rethel, Warenform und Denkform (Frankfurt: Suhrkamp, 1978),114., os conceitos de práxis e de mediação subjetiva do objeto, assim como as considerações críticas à ideologia, dificilmente têm lugar neste paradigma.
  1. O conceito de Naturwüchsigkeit (“o estado de ter sido derivado naturalmente”), o qual Engels utilizou na Ideologia Alemã em um caráter negativo, agora é transformado em um conceito positivo. A suprassunção [sublate, no sentido hegeliano deAufhebung] de leis sociais específicas sustentadas pela inconsciência dos atores sociais não é mais postulada; em vez disso, Engels postula a aplicação consciente das “leis gerais do movimento […] do mundo externo.”[12]Engels, “Marx” in Ludwig Feuerbach.
  1. Se Marx escreve em Teses sobre Feuerbach que “todos os mistérios que conduzem a teoria ao misticismo encontram sua solução racional na prática humana e na compreensão desta prática”[13]Marx, “Theses on Feuerbach.”, Engels reduz a práxis à atividade experimental das ciências naturais.[14]Engels, “Materialism” in Ludwig Feuerbach. Reconhecidamente, ambivalências e temas práxico-filosóficos também podem ser encontrados nos escritos posteriores de Engels, os quais foram em grande parte apagados pelos epígonos. No entanto, Engels, ao juntar a isso o cientificismo de sua época, abre o caminho para uma concepção mecanicista e fatalista do materialismo histórico ao mudar o tom de uma teoria da práxis social para o de uma doutrina contemplativa e reflexivo-teórica do desenvolvimento.

O evolucionismo vulgar da social-democracia europeia do século XIX é um fenômeno quase onipresente.[15]Para mais informações, confira o estudo de Hans-Josef Steinberg [1967], Sozialismus und deutsche Sozialdemokratie. Zur Ideologie der Partei vor dem 1. Weltkrieg (Berlin-Bonn: 1979), acima de tudo … Continue reading Por essa razão, não é só para Kautsky, Bernstein e Bebel que o conceito determinista de desenvolvimento e a metafísica revolucionária de uma missão providencial do proletariado[16]Para uma crítica, ver Alexandrine Mohl, Verelendung und Revolution. Oder: Das Elend des Objektivismus. Zugleich ein Beitrag zur Marxrezeption in der deutschen Sozialdemokratie (Frankfurt 1978); Rolf … Continue reading ocupam um lugar central na doutrina marxista. Consequentemente, a humanidade está subordinada a um automatismo da libertação “cientificamente verificável”. Aquilo que se apresenta com a roupagem científica moderna de um fetichismo das leis em última instância nada mais é do que uma metafísica histórica com assinatura socialista[17]Ernesto Laclau e Chantal Mouffe apontam o caráter darwinista-hegeliano dessa concepção: “O darwinismo por si só não oferece ‘garantias para o futuro’, uma vez que a seleção natural … Continue reading: é precisamente a inversão do sujeito e do objeto que Marx havia criticado. A um processo consumado sobre as costas dos atores sociais é atribuído um objetivo moralmente qualificado.[18]Para mais sobre isso, de maneira instrutiva, ver Heinz Dieter Kittsteiner, “Bewusstseinsbildung, Parteilichkeit, dialektischer und historischer Materialismus. Zu einigen Kategorien der … Continue reading Em última análise, no Programa de Erfurt do Partido Social-Democrata Alemão, essa passividade revolucionária[19]Conferir Groh, Negative Integration, 36 é codificada em nível oficial como um marxismo consistente: a tarefa do partido é permanecer preparado para um evento que “necessariamente” acontecerá mesmo sem intervenção, “não para fazer a revolução, mas sim para tirar proveito dela.”[20]Kautsky, citado em Steinberg, Sozialismus und deutsche Sozialdemokratie, 61. Ver também Ethics and the Materialist Conception Of History. De acordo com Kautsky, as perspectivas de liberdade e … Continue reading A orientação ontológica e o caráter enciclopédico das deliberações de Engels também alimentam a tendência a interpretar o socialismo científico como uma visão de mundo proletária abrangente. Por fim, Lenin irá apresentar a “doutrina marxista” como “onipotente”, uma doutrina “abrangente e harmoniosa” que “fornece aos homens uma visão de mundo integral.”[21]Lênin, “Three Sources”. Correspondentemente, o conceito negativo de ideologia é neutralizado em uma categoria para o ser determinado da consciência em geral.

Todos esses desenvolvimentos, que sem dúvida constituem uma regressão teórica, em última instância culminam na teoria do “marxismo-leninismo” concebida por Abram Deborin e Josef Stalin. Se, para Lênin, o marxismo constitui – apesar de toda ênfase política – uma “profunda doutrina do desenvolvimento”[22]Lênin, Karl Marx: A Brief Biographical Sketch With an Exposition of Marxism. a qual chama a atenção para rupturas e saltos na natureza e na sociedade, no caso do marxismo-leninismo a corrente naturalista-objetivista é elevada a uma doutrina de Estado. A figura argumentativa central será: o que é válido para a natureza deve valer também para a história. Ou: a natureza dá saltos, portanto, o mesmo acontece com a história. A práxis política é, assim, entendida como a consumação das leis históricas. Essa lógica impressionante é aperfeiçoada na obra de Stalin “Sobre o Materialismo Dialético e o Materialismo Histórico” – durante décadas, uma obra oficial na teoria marxista do Bloco Soviético. O materialismo histórico significa a “aplicação” e “extensão” dos princípios ontológicos à sociedade, o que implica um essencialismo epistemológico (uma teoria do reflexo, que na forma do materialismo dialético concebe o “ser” e o “pensar” como independentes do conceito de práxis) e um naturalismo sociológico (uma lógica desenvolvimentista – a ser “conscientemente aplicada” ou “acelerada” pelo partido como a mais alta instância tecnocrática[23]Sobre os paradoxos dessa combinação de voluntarismo e determinismo, ver Charles Taylor, Hegel (Cambridge: Cambridge University Press, 1977). – existindo independentemente da agência humana).[24]É precisamente o marxismo ocidental que – contra o marxismo-leninismo – enfatiza o caráter não ontológico do materialismo de Marx; ver Max Horkheimer, “Traditional and Critical … Continue reading

I.2 A Interpretação Historicista do Método da Genética da Forma[25]N. T.: Do inglês form-genetic, este derivado do alemão formgenetische

Se a afirmação de Lênin de que “nenhum dos marxistas do último meio século compreendeu Marx” – uma máxima que neste caso contudo também se aplica ao próprio Lênin – tem alguma validade, então é certamente no que diz respeito à interpretação da crítica da economia política. Mesmo 100 anos após a publicação do primeiro volume d’O Capital, o comentário de Engels ainda era amplamente considerado como a única avaliação legítima e adequada da crítica de Marx à economia. Nenhuma leitura na tradição marxista era tão não-controversa quanto aquela desenvolvida casualmente por Engels em textos como a análise feita por ele de “Contribuição para a Crítica da Economia Política” (1859) ou o suplemento ao volume III d’OCapital (1894) de Marx. Aqui, de maneira consideravelmente mais explícita do que na concepção objetivista do materialismo histórico, o marxismo é engelsismo.

Contra o plano de fundo de sua concepção de reflexão, Engels interpreta o primeiro capítulo d’O Capital como uma apresentação simultaneamente lógica e histórica da “produção simples de mercadorias” desenvolvendo-se em direção às relações de trabalho assalariado capitalista, “apenas despojada da forma histórica e desviando-se de ocorrências contingentes.”[26]Engels, “Karl Marx: Critique of Political Economy. Resenha de Frederick Engels. O termo “lógica” nesse contexto basicamente significa nada mais que “simplificada”. O método de apresentação, a sequência das categorias (a mercadoria, as formas elementares, expandidas e gerais do valor, o dinheiro, o capital) na crítica da economia política são por consequência “simplesmente os reflexos, de forma abstrata e teoricamente consistente, do curso histórico”.[27]Ibid. O exame da gênese da forma-dinheiro é entendido como a descrição de “um evento real que realmente ocorreu em algum momento”, e não como “um processo mental abstrato que ocorre apenas em nossa mente”.[28]Ibid. Em nenhuma outra passagem de sua obra Engels reduz tão drasticamente o materialismo histórico a um empirismo e um historicismo vulgares, como é evidenciado por sua cadeia associativa “materialismo – fatos empiricamente verificáveis – processo real” vs. “idealismo – processo de pensamento abstrato – território puramente abstrato.”

Com o método “lógico-histórico”, Engels fornece uma frase de efeito que será recitada e enfatizada ad nauseam na ortodoxia marxista. Karl Kautsky, em suas apresentações extremamente influentes, entendeu O Capital como uma “obra essencialmente histórica”[29]Kautsky [1886], Karl Marx ‘ökonomische Lehren. Gemeinverständlich dargestellt und erläutert von Karl Kautsky, 21. (Berlin: 1922), viii.: “Marx foi acusado de reconhecer o capital como uma categoria histórica e de provar seu surgimento na história, ao invés de construí-lo mentalmente.”[30]Kautsky, citado em Rolf Hecker, “Einfache Warenproduktion”, 1997. Rudolf Hilferding também afirma que “em acordo com o método dialético, a evolução conceitual corre em paralelo a toda evolução histórica.”[31]Rudolf Hilferding, Böhm-Bawerk’s Criticism of Marx. Tanto o marxismo-leninismo[32]M.M. Rosental [1955], Die dialektische Methode der politischen Ökonomie von Karl Marx (Berlim: Dietz, 1973). como o marxismo ocidental[33]Ver Ernest Mandel, Marxist Economic Theory (Nova York: Monthly Review Press: 1970). seguem Hilferding nessa definição. Mas se a crítica da economia política é interpretada como historiografia, então conseqüentemente as categorias no início precisam corresponder diretamente a objetos empíricos, por exemplo, a uma duvidosa mercadoria pré-capitalista não determinada pelo preço[34]“Isso deixa claro, é claro, por que, no início de seu primeiro livro Marx parte da produção simples de mercadorias como premissa histórica, para em última análise chegar dessa base ao … Continue reading, e a análise da forma do valor precisa começar com a representação de uma interação coincidente e amonetária de dois proprietários de mercadorias – com a assim chamada “produção simples de mercadorias”[35]Ibid. Essa interpretação da análise da forma do valor também é adotada por Kautsky, em The Economic Doctrines of Karl Marx de Engels,  numa época econômica por ele datada de 6.000 a.C. ao século 15 d.C. De acordo com essa concepção, a lei do valor de Marx[36]Ou seja, a lei do valor discutida por Marx. Veja o “Suplemento” de Engels no volume 3. opera às vezes nesta época em uma forma pura “não adulterada” pela categoria de preço, que Engels ilustra com o exemplo fingido de uma “troca” amonetária entre camponeses e artesãos medievais.

Trata-se aqui de uma inter-relação social transparente entre produtores imediatos que são ao mesmo tempo os donos de seus meios de produção, na qual um produtor trabalha sob o olhar atento do outro e portanto “o camponês da Idade Média sabia bem acuradamente o tempo de trabalho necessário para a fabricação dos artigos obtidos por ele em escambo”[37]Ibid. Sob as condições desta “troca natural”, não é um critério normativo que é para ele “a única medida adequada para a determinação quantitativa dos valores a serem trocados”, não é um critério normativo, e sim a abstração de um tempo de trabalho consciente e diretamente medido pelos atores. Nem o camponês nem o artesão seriam estúpidos o suficiente para trocar quantidades desiguais de trabalho[38] “Ou acredita-se que o camponês e o artesão foram tão estúpidos a ponto de desistir do produto de 10 horas de trabalho de uma pessoa por uma única hora de trabalho de outra?”; e quem … Continue reading: “Nenhuma outra troca é possível em todo o período da economia natural camponesa além daquela na qual as quantidades trocadas de mercadorias tendem a ser medidas cada vez mais de acordo com as quantidades de trabalho nelas incorporadas”[39]Ibid. De acordo com Engels, o valor de uma mercadoria é determinado conscientemente pelo trabalho, medido com o tempo [como unidade], dos produtores individuais. Nesta teoria do valor, o dinheiro não desempenha um papel constitutivo. Por um lado, é um expediente e um lubrificante para o comércio que é externo ao valor, mas por outro lado, serve para obscurecer a solidez do valor: de repente, em vez de trocar de acordo com as horas de trabalho, em algum momento a troca é conduzida por meios de vacas e, em seguida, peças de ouro. A questão de como essa noção de cada mercadoria ser seu próprio “dinheiro-de-trabalho”[40]Em contraste, veja a crítica de Marx à noção de dinheiro-do-trabalho ou a noção de uma troca de mercadorias pré-monetária em A Contribution to the Critique of Political Economy e no … Continue reading pode ser reconciliada com as condições da produção privada baseada na divisão do trabalho, não é colocada por Engels. Engels – como será elaborado pela Neue Marx-Lektüre – pratica exatamente o que Marx criticava nos economistas clássicos, acima de tudo em Adam Smith: uma projeção no passado da noção ilusória de apropriação pelo próprio trabalho [do apropriador], que na verdade só existe no capitalismo; a negligência da conexão necessária entre o valor e a forma do valor[41]Ver nota de rodapé 33 no capítulo um do Capital, Volume 1.; uma transformação da “equalização objetiva” dos atos desiguais de trabalho consumados pela própria relação social objetiva em uma consideração meramente subjetiva dos atores sociais.[42]Para a visão de Marx, veja por exemplo: “Adam Smith constantemente confunde a determinação do valor das mercadorias pelo tempo de trabalho nelas contido com a determinação de seu valor pelo … Continue reading

Até a década de 1960, os teoremas de Engels continuaram a ser transmitidos sem ser questionados. Junto com sua fórmula (mais uma vez tirada de Hegel) de que a liberdade é ter consciência da necessidade, e da criação de paralelos entre as leis naturais e os processos sociais, eles deram sustentação a um “conceito de emancipação” sócio-tecnológico, em acordo com a seguinte premissa: a necessidade social (sobretudo a lei do valor), que opera anarquicamente e descontroladamente no capitalismo, será, por meio do marxismo como uma ciência das leis objetivas da natureza e da sociedade, administrada e aplicada de acordo com um plano. Não é o desaparecimento das determinações-de-forma capitalistas, e sim seu uso alternativo que caracteriza este “socialismo de adjetivos” (esse termo vem de Robert Kurz) e a “economia política socialista”[43]De acordo com o marxismo-leninismo, “o valor funciona como um instrumento da administração planejada dos processos socialistas de produção e reprodução, de acordo com os princípios da … Continue reading. Existe uma desproporção significativa entre, por um lado, a ênfase no “histórico” e, por outro, a ausência de um conceito de objetividade econômica historicamente específico e sócio-teóricamente definido. Isso é evidenciado pela irrelevância do conceito de forma social nas discussões do marxismo tradicional, no qual, no máximo, é considerado uma categoria para circunstâncias ideais ou marginais, mas não uma característica constitutiva da revolução científica de Marx[44]Por exemplo, Engels, “Marx” em Ludwig Feuerbach..

I.3 A Crítica do Conteúdo do Estado

As declarações teóricas de Engels sobre o Estado em A Origem da Família, Ludwig Feuerbach Anti-Düring, como também sua crítica em 1891 ao projeto do SPD [Partido Social-Democrata da Alemanha] em Erfurt, constituem a fonte da noção marxista tradicional de Estado. Em Ludwig Feuerbach, Engels aponta que o fato de todas as necessidades nas sociedades de classes serem articuladas por meio da vontade do Estado é “o aspecto formal da questão – aquele que é evidente por si mesmo”[45]Ibid.  Entretanto, a  principal questão de uma teoria materialista do Estado, é: “qual é o conteúdo dessa vontade meramente formal – tanto do indivíduo quanto do Estado – e de onde esse conteúdo é derivado? Por que somente algo é desejado e não outra coisa?”[46]Ibid O resultado dessa questão puramente conteudística sobre a vontade do Estado é, para Engels, o reconhecimento de que “na história moderna a vontade do Estado é, no todo, determinada pelas necessidades mutáveis da sociedade civil, pela supremacia desta ou daquela classe, em última instância, pelo desenvolvimento das forças produtivas e das relações de troca.”[47]Ibid, tradução modificada (em inglês) Além disso, em suas deliberações em A Origem da Família, Engels trabalha com categorias histórico-universais sobre as quais designações modernas como “poder público” são projetadas, e constantemente assume “relações diretas de dominação, formas imediatas de governo de classe”[48]Gert Schäfer, “Einige Probleme des Verhältnisses von ‘ökonomischer’ und ‘politischer’ Herrschaft,” in Karl Marx and Friedrich Engels – Staatstheorie. Materialien zur Rekonstruktion … Continue reading com vistas a explicar o Estado, o qual consequentemente é entendido como um mero instrumento da classe dominante. Dessa maneira histórico-universal e fixada no conteúdo de considerar o Estado, pode-se deduzir que Engels perde de vista a questão realmente interessante, a saber, do por que o conteúdo de classe no capitalismo assumir a forma específica do poder público.[49]Comparar com Pachukanis, The General Theory of Law e Marxism: “por que o aparato de coerção estatal é criado não como um aparato privado da classe dominante, mas distinto deste último na forma … Continue reading A definição pessoal de governo de classe extraída das formações sociais pré-capitalistas acaba levando à redução da forma anônima de dominação de classe institucionalizada no Estado a uma mera ilusão ideológica, a qual, à maneira da teoria do engano sacerdotal, é interpretada como um produto das táticas de engano do Estado. De qualquer forma, Engels tenta tornar plausível o caráter classista do Estado ao referir-se à “pura corrupção de oficiais do governo” e a “uma aliança entre o governo e o mercado de ações”.[50]Engels, “Barbarism and Civilization” in The Origin of the Family, Private Property, and the State. Não é de surpreender, portanto, que Lênin refira-se afirmativamente a essa … Continue reading Todavia, na obra de Engels ainda existe, apesar da predominância da perspectiva instrumentalista/fixada no conteúdo, uma coexistência não mediada entre a determinação do Estado como o “Estado dos capitalistas” e do Estado como o “capitalista total ideal”.[51]Engels, Anti-Dühring. [Nota da tradução alemão-inglês: A tradução oficial “ideeller Gesamtkapitalist” no Marx-Engels Collected Works verte a expressão insatisfatoriamente como “the … Continue reading A última definição concebe o Estado “não como uma ferramenta da burguesia […] mas sim como uma entidade da sociedade burguesa”[52]Johannes Busch-Weßlau, Der Marxismus und die Legitimation politischer Macht, Frankfurt, Campus-Verlag, 1990). e uma “organização que a sociedade burguesa assume para sustentar as condições externas gerais do modo capitalista de produção contra as usurpações tanto dos trabalhadores quanto dos capitalistas individuais.”[53]Engels, Anti-Dühring. Contudo, o aspecto formal específico do status de Estado moderno ainda não é explicado por essa referência a mecanismos funcionais. Engels também abriu o caminho para a teoria do capitalismo de monopólio estatal.[54]Hans Holger Paul, Marx, Engels und die Imperialismustheorie der 2. Internationale (Hamburg, 1978). Em Para a Crítica do Projecto de Programa Social-Democrata de 1891 ele escreve: “Estou familiarizado com a produção capitalista como sendo forma social, ou como uma fase econômica; sendo a produção privada capitalista um fenômeno que, de uma forma ou de outra, é encontrado nessa fase. O que é produção privada capitalista? Produção por empreendedores isolados, a qual está se tornando cada vez mais uma exceção. A produção capitalista por sociedades anônimas não é mais produção privada, mas produção em nome de muitas pessoas associadas. E quando passamos das sociedades anônimas para os trustes, que dominam e monopolizam ramos inteiros da indústria, isso acaba não só com a produção privada, mas também com a ausência de planos”.[55]Engels, “A Critique of the Draft Social-Democratic Program of 1891.” Finalmente, em Anti-Düring, Engels define o Estado como sendo o capitalista total real: “Quanto mais forças produtivas ele assume em sua posse, mais ele se torna um capitalista agregado real, mais cidadãos ele explora.” Aqui, Engels revela uma compreensão limitada da produção privada e uma tendência a equiparar o planejamento estatal e o poder de monopólio com a socialização direta,[56]Schäfer, “Einige Probleme,” cxxxi. reforçada por sua construção da contradição fundamental e sua tendência a por uma identidade entre a divisão do trabalho dentro de uma fábrica e a divisão do trabalho na sociedade. Engels observa que “a transformação, seja em sociedades anônimas ou em propriedade estatal, não elimina a natureza capitalista das forças produtivas”,[57]Engels, Anti-Dühring. mas ainda assim vê se estabelecendo como resultado uma transição imediata para o socialismo, enquanto os conceitos de monopólio e intervenção estatal permanecem “completamente indeterminados economicamente”.[58]Schäfer, “Einige Probleme,” cxxxiv. Dessa forma, Engels sugere que o movimento dos trabalhadores apenas tem que se apropriar das formas da contabilidade corporativa nas “sociedades por ações” e do planejamento abrangente por monopólios desenvolvidos no capitalismo. Para Engels, a burguesia já se tornou obsoleta por meio da separação entre as funções de propriedade e gestão.[59]Essa velha e demasiadamente repetida história será mais tarde apresentada por Wolfgang Pohrt e outros como um insight profundo quanto ao “capitalismo tardio”. A “transformação dos grandes estabelecimentos de produção e distribuição em sociedades anônimas e propriedades do Estado” demonstra, segundo Engels, “quão desnecessária a burguesia é para esse fim”, ou seja, para gerir “as forças produtivas modernas”: “Todas as funções sociais do capitalista agora são desempenhadas por empregados assalariados. O capitalista não tem outra função social que não seja embolsar dividendos, arrancar cupons e apostar na Bolsa de Valores, onde os diferentes capitalistas espoliam uns aos outros seu capital. No início, o modo de produção capitalista expulsava os trabalhadores. Agora ele expulsa os capitalistas e os reduz, assim como reduziu os trabalhadores, às fileiras da população excedente, embora não imediatamente às do exército industrial de reserva”.[60]Engels, Anti-Dühring.

Revendo esta história de recepção (apenas esboçada aqui), poderia-se afirmar que o marxismo, na forma apresentada aqui, foi um rumor sobre a teoria de Marx, um boato que foi aceito com gratidão pela maioria dos críticos de “Marx” e meramente complementado com um sinal de menos. Na verdade, tal afirmação – por mais precisa que seja no geral – torna as coisas muito fáceis, na medida em que desconsidera certos desvios da doutrina dominante os quais também se entendiam como marxismos, ao mesmo tempo em que considera as interpretações equivocadas acima como completamente externas à própria teoria de Marx , excluindo assim a possibilidade de quaisquer inconsistências ou ambigüidades teórico-ideológicas na obra de Marx. Para esclarecer essa questão, será útil um olhar sobre a leitura diferenciada dos textos de Marx elaborada nos ditos “debates de reconstrução”.

A este respeito, o marxismo tradicional deve ser entendido aqui como uma elaboração, sistematização e suposição de domínio do conteúdo ideológico da obra de Marx – dentro do arcabouço de uma recepção por Engels e seus epígonos. A influência prática foi quase exclusivamente atribuída a essas interpretações restritas e ideologizadas da teoria de Marx, como o determinismo histórico ou a economia política proletária.

II. Marxismo Ocidental

A formação de um marxismo ocidental[61]O termo foi utilizado pela primeira vez em uma polêmica leninista contra História e Consciência de Classe de Lukács (ver Rudolf Walther, “Marxismus” in O. Brunner, ed., Geschichtliche … Continue reading emerge da crise do movimento operário socialista na esteira da Primeira Guerra Mundial (o colapso da Segunda Internacional como resultado da política de defesa da pátria, a derrota das revoluções na Europa Central e Sul, o surgimento de forças fascistas, etc.). Aqui são os textos de Georg Lukács e Karl Korsch publicados em 1923 que assumem um caráter paradigmático. Acima de tudo, Lukács é considerado o primeiro teórico marxista o qual, no nível da teoria social e da metodologia, questionou a suposição até então auto-evidente da identidade completa entre as teorias de Marx e Engels. No centro de sua crítica estava a negligência de Engels da dialética sujeito-objeto, bem como seu conceito de uma dialética da natureza, para o qual o fatalismo do marxismo da Segunda Internacional orientou-se. Contra essa ontologização do materialismo histórico em uma visão de mundo contemplativa, Lukács, assim como o marxismo ocidental como um todo, entende a abordagem de Marx como uma teoria crítica revolucionária da práxis social. Contra o discurso cientificista das “leis objetivas de desenvolvimento” do progresso social, Lukács postula a crítica da ideologia da consciência reificada, decifrando o modo de produção capitalista como uma forma historicamente específica de práxis social ossificada em uma “segunda natureza” e enfatizando a revolução como um ato crítico de subjetividade prática. Auto-descrições como “filosofia da práxis” (Gramsci) ou “teoria crítica da sociedade” (Horkheimer), portanto, não constituem palavras-código ou equivalentes conceituais para a doutrina oficial do partido, mas sim enfatizam um processo de aprendizagem do qual “surge uma corrente de pensamento crítica e orientada à ação, de herança marxista.”[62]Wolfgang Fritz Haug, Philosophieren mit Brecht und Gramsci (Hamburg: Argument, 1996), 8. Para uma crítica da “tese da palavra-código” [code word thesis] em relação à obra de Gramsci, ver … Continue reading Embora o marxismo ocidental, a princípio, tenha adotado de maneira positiva os impulsos ativistas da Revolução de Outubro, seus principais representantes logo rejeitariam a doutrina do Leninismo, acima de tudo sua continuação de uma teoria social naturalista e sua falsa universalização da experiência da Revolução Russa. A crítica de Georg Lukács ao Tratado do Materialismo Histórico de Bukharin serve como um exemplo da primeira. Em sua crítica, Lukács acusa a teoria de Bukharin, com seus conceitos da primazia do desenvolvimento das forças de produção e a aplicação perfeita dos métodos das ciências naturais ao estudo da sociedade, de ser fetichista e obliterar a “diferença qualitativa” entre as áreas disciplinares das ciências naturais e das sociais, adquirindo assim “o realce de uma falsa ‘objetividade’, e confundindo a ideia central do método de Marx, ou seja, a atribuição de todos os fenômenos econômicos às relações sociais dos seres humanos entre si”.[63]Georg Lukács, “N. Bucharin: Theorie des historischen Materialismus (Rezension)” in N. Bucharin/ A. Deborin: Kontroversen über dialektischen und mechanistischen Materalismus, 289, 284.

Em seu Cadernos do Cárcere, Gramsci forneceu uma crítica exemplar da fixação da estratégia revolucionária no modelo da Revolução de Outubro. Inicialmente, ele saudou a Revolução de Outubro como uma “revolução contra O Capital de Karl Marx”,[64]Antonio Gramsci, “The Revolution Against Capital.” ou seja, como uma refutação da impossibilidade supostamente comprovada da revolução socialista em países industrialmente atrasados. De maneira quase religiosa, ele citou a “anunciação socialista” voluntarista como fonte de uma coletiva “vontade popular” socialista contra uma consciência de classe mecanicamente derivada da economia e do nível de suas forças de produção. Posteriormente, Gramsci confrontaria o marxismo da Internacional Comunista com sua teoria da hegemonia, que rejeita a “guerra de manobra” de um ataque frontal ao aparelho repressivo do Estado como sendo uma estratégia revolucionária inútil para as sociedades capitalistas ocidentais modernas. Segundo Gramsci, dentro dessas formações sociais, a sociedade civil é composta por uma estrutura labiríntica de aparatos nos quais são gerados padrões de pensamento e comportamento que exibem uma inércia que não pode ser abalada por atos políticos grandiosos. O modelo revolucionário russo também está condenado ao fracasso no Ocidente porque a crença na natureza universal da experiência dos bolcheviques com um czarismo despótico-centralista leva a um desprezo pela relevância da socialização ideológica por meio dos aparatos da sociedade civil, e seu efeito: a sujeição na forma de agência autônoma. No entanto, tanto Lukács quanto Gramsci permanecem fiéis à concepção “exclusivamente proletária” da revolução, na medida em que o primeiro, apesar de suas reflexões sobre a consciência reificada, ainda atribui um privilégio epistemológico ao proletariado assegurado por sua posição econômica, enquanto que a teoria estrategicamente motivada de Gramsci da sociedade civil está fixada no espaço de manobra da classe trabalhadora.

Com a tentativa de uma exploração sócio-psicológica dos fundamentos pulsionais/estruturais da reprodução de uma “sociedade irracional”, sobretudo sob a forma de atitudes autoritárias e anti-semitas, o Instituto para Pesquisa Social de Frankfurt, após a assunção de sua direção por Max Horkheimer em 1931, atingiu um nível de reflexão ao qual outros representantes e correntes do marxismo ocidental não conseguiram se igualar[65]Uma psicologia científica não pode ser encontrada no pensamento da maioria dos representantes do marxismo, excetuando-se referências positivas ao behaviorismo de Pavlov. A psicanálise foi … Continue reading, e que desiste do apoio reconfortante de uma imaginada consciência de classe do proletariado. Finalmente, a consciência de classe empírica do proletariado como a única consciência de classe existente é submetida à análise, enquanto que as dimensões emocionais e “irracionais” da práxis social ignoradas por outros teóricos, como as dimensões sociais da libido, são consideradas. Esta compreensão teórica da natureza intransigente da teoria crítica é, ao mesmo tempo, uma admissão do processo histórico de uma divisão crescente entre a teoria emancipatória e a perspectiva da práxis revolucionária. Com a propagação do “socialismo em um país”, a bolchevização dos partidos comunistas ocidentais e o estabelecimento do marxismo-leninismo como ideologia oficial da Terceira Internacional Comunista após meados da década de 1920, começa o isolamento característico dos representantes do marxismo ocidental: resta a essa corrente nem influência política, nem (com a possível exceção do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt) os fundamentos institucionais para uma práxis acadêmica normal. As características gerais desta formação marxista – seu senso para o legado hegeliano e o potencial crítico-humanista da teoria de Marx, a incorporação de abordagens “burguesas” contemporâneas para elucidar a grande crise do movimento operário, a orientação para a metodologia, a sensibilização para fenômenos sócio-psicológicos e culturais em conexão com a questão das razões do fracasso da revolução no “Ocidente”[66]Como características adicionais do marxismo ocidental, Anderson lista o recurso à filosofia pré-marxiana com vistas a clarificar o método de uma teoria social crítica; a incorporação de … Continue reading – fornece o quadro para um novo tipo de exegese restrita de Marx. Isso é essencialmente caracterizado pela negligência dos problemas da política e da teoria do Estado, uma recepção seletiva da teoria do valor de Marx e a predominância de uma “ortodoxia silenciosa” em relação à crítica da economia política. Embora seja o primeiro a compreender o caráter do governo capitalista da maneira como Marx o fez – anônimo, mediado objetivamente e tendo vida própria – o “documento fundador” do marxismo ocidental, Historia e Consciência de Classe (1923), do Lukács, evita uma reconstrução da teoria de Marx do capitalismo. No lugar de uma análise da dialética de Marx da forma do valor até a forma do capital, que na teoria da subsunção real oferece uma explicação da conexão – tão decisiva para Lukács – entre a mercantilização e a estrutura alienada do processo de trabalho, encontra-se apenas uma combinação analógica de uma teoria do valor reduzida à forma-valor “quantificadora” (devido a uma orientação voltada à crítica cultural de Simmel ao dinheiro) e um diagnóstico, orientado em direção a Max Weber, da tendência formal-racional da objetificação do processo de trabalho e direito moderno. Até meados da década de 1960, parece que nenhum marxista ocidental estendeu seu debate com as interpretações tradicionais de Marx para o terreno da teoria do valor. Algumas posições vão ainda mais longe do que esta ortodoxia silenciosa, e – sem ter se envolvido seriamente com a crítica da economia política – contrastam o “crítico cultural humanista Marx” com o “economista Marx”, ou até mesmo consideram um “marxismo” sem uma crítica da economia política como sendo possível.[67]Por exemplo, Conceito Marxista de Homem de Erich Fromm ou Para a reconstrução do materialismo histórico de Jürgen Habermas.

III. A Nova Leitura de Marx

Foi primeiramente dentro do arcabouço da “Neue Marx-Lektüre” (“Nova Leitura de Marx”), surgido em meados da década de 1960, que os problemas da teoria do Estado e da teoria econômica mais uma vez desempenharam um papel fora do marxismo-leninismo. Esta nova onda de interpretação da teoria de Marx também foi mais ou menos situada fora do stalinismo e da social-democracia. Ao lado da nova leitura nos países da Europa Ocidental, haviam rudimentos isolados de uma “nova leitura de Marx” ocorrendo na Europa Oriental.[68]As primeiras tentativas de uma nova leitura de Marx ocorreram já na década de 1920, por parte dos autores soviéticos Isaak Illich Rubin e Evgeny Pachukanis. Ver I.I. Rubin, Essays on Marx’s … Continue reading Sua gênese na Alemanha Ocidental coincidiu com fenômenos como o movimento estudantil, os primeiros solavancos na crença em uma prosperidade pós-guerra perpétua e politicamente administrável, a quebra do consenso anticomunista no decorrer da Guerra do Vietnã, etc., mas ela ainda permaneceu, apesar de suas reivindicações emancipatórias radicais, confinada em grande parte à academia. Aqui, distinguimos entre esta “nova leitura de Marx” em um sentido mais amplo[69]Tal como descrito por Heinrich, “Kommentierte Literaturliste zur Kritik der politischen Ökonomie,” in Elmar Altvater, Rolf Hecker, Michael Heinrich, Petra Schaper-Rinkel, ed. Kapital. doc. Das … Continue reading, e uma definição mais restrita.[70]Tal como definido por Hans-Georg Backhaus, Dialektik der Wertform. Untersuchungen zur Marxschen Ökonomiekritik (Freiburg; ça ira, 1997). Ver também Heinrich, “Kommentierte Literaturliste,” 211. Enquanto a primeira era um fenômeno internacional, a última estava confinada principalmente à Alemanha Ocidental. Se a primeira ainda permanecia predominantemente presa ao dogma engelsiano no que diz respeito à crítica da economia política, a última colocou em primeiro plano a revisão das interpretações historicistas ou empiristas anteriores da análise da forma de Marx. Em termos de conteúdo, um triplo abandono dos topoi centrais do marxismo tradicional foi consumado nos fios principais do debate, eles próprios contraditórios e de forma alguma compartilhados por todos os participantes: um afastamento de uma teoria substancialista do valor[71]Ver Henrich, Die Wissenschaft vom Wert, e Helmut Brentel, Soziale Form und ökonomisches Objekt. Studien zum Gegenstands- und Methodenverständnis der Kritik der politischen Ökonomie (Opladen: … Continue reading; o abandono das concepções manipulativo-instrumentais do Estado[72]Concernente ao dito “Debate da Derivação do Estado”, ver Norbert Kostede, “Die neuere marxistische Diskussion über den bürgerlichen Staat. Einführung – Kritik – Resultate,” … Continue reading; e um afastamento frente a interpretações centradas no movimento trabalhista da crítica da economia política, ou de interpretações baseadas em uma teoria revolucionária “ontológico-trabalhista” (ou mesmo na teoria revolucionária como tal).[73]Stefan Breuer, Die Krise der Revolutionstheorie. Negative Vergesellschaftung und Arbeitsmetaphysik bei Herbert Marcuse (Frankfurt: Syndikat, 1977); Mohl, “Verelendung und Revolution”; Helmut … Continue reading Esta nova leitura articula seus esforços teóricos na forma de uma reconstrução da teoria de Marx. 

No que diz respeito à crítica da economia, uma cristalização de questões centrais e de tarefas de pesquisa ocorreu no arcabouço do colóquio “100 Jahre ‘Kapital’”[74]Alfred Schmidt e Walter Euchner, ed., Kritik de politischen Ökonomie heute. 100 Jahre “Kapital” (Frankfurt: Europäische Verlagsanstalt, 1968). de 1967. Uma reinterpretação da crítica de Marx foi concebida a partir da perspectiva metodológica da teoria social: a questão quanto ao objeto original do Capital (determinação econômica da forma), a particularidade da apresentação científica (a dialética das formas do valor), bem como a conexão entre os três volumes (“capital em geral – muitos capitais”) são postas de uma nova maneira, diferente das abordagens quantitativas, e com ênfase particular na importância do Grundrisse. No campo do conflito entre marxismos “críticos” e “estruturais”, surgem momentos de transição de fuga das tradições metodológicas existentes, oblíquos aos pontos clássicos de conflito:[75]O “marxismo crítico” dos anos 60, do qual Alfred Schmidt foi o principal porta-voz, enfatiza o negativo e historicamente limitado caráter e reivindicação de validade de um “materialismo de … Continue reading tanto o anti-historicismo estruturalista quanto as figuras hegelianas do pensamento (“método progressivo-regressivo”, “retorno ao fundamento”) desempenham um papel importante nisso.

Inicialmente com muitos “ses e mas”[76]Backhaus, Dialektik der Wertform, 11., e em alguns pontos permanecendo dentro dos canais do marxismo tradicional, a Nova Leitura de Marx adquiriu contornos mais claramente definidos ao longo da década de 1970.

Leituras tradicionais da teoria de Marx
Assunção Clássica do marxismo das 2ª e 3ª InternacionaisMarx = Engels (paradigma unificado, argumentação coerente, “visão de mundo” fechada)
Níveis da leitura crítico-reconstrutiva
Nível 1: p.ex. Backhaus (Materialien, partes I e II)Engels → exotérico vs.Marx → esotérico
Nível 2: p.ex. Althusser (Lire Le capital); A. Schmidt; Backhaus (Materialien)Marx → metadiscurso exotérico vs.Marx → análise real esotérica
Nível 3: p.ex. Backhaus (Materialien, partes III e IV); Heinrich (Die Wissenschaft vom Wert)Marx → metadiscurso exotérico/esotérico vs.
Marx → análise real exotérica/esotérica

Contra o clássico mito da completa igualdade entre os paradigmas de Marx e Engels, no que concerne tanto ao materialismo histórico como à crítica da economia política, os comentários de Engels foram criticados como sendo em grande medida inadequados em relação à obra de Marx e permanecendo em um nível puramente “exotérico”, o qual perpetuou paradigmas tradicionais. Por conseguinte, em 1974 Hans-Georg Backhaus enfatizou, no que diz respeito à teoria do valor, que a crítica foi voltada “a uma premissa interpretativa a qual, até recentemente, era considerada um dos poucos elementos incontestes da literatura marxista, e a qual estruturou a recepção da teoria do valor de Marx sem ser desafiada: a má interpretação, inaugurada por Engels, dos três primeiros capítulos do Capital como uma teoria do valor e da moeda daquilo que Engels chamou de ‘produção simples de mercadorias’”.[77]Ibid., 69 Backhaus supõe que “procedendo desse erro fundamental, a teoria do valor marxista necessariamente inibiu a recepção da teoria do valor de Marx.”[78]Ibid. Portanto, se neste nível uma distinção inicial é feita entre uma teoria marxista e uma teoria de Marx, uma problematização do autoentendimento metateórico de Marx também ocorre cedo. Louis Althusser já afirmara, com a ajuda de uma leitura “sintomática” direcionada contra uma hermenêutica intencionalista centrada no sujeito, que o trabalho de Marx representa uma revolução científica na práxis teórica da análise do capitalismo, a qual no nível metateórico é superimposta por um discurso inadequado a tal problemática. Althusser define as tarefas de uma reconstrução como a remoção do meta-discurso inadequado e a transformação de suas metáforas dominantes, as quais ele lê como sintomas da ausência de uma auto-reflexão adequada sobre o procedimento real da análise do capital, em conceitos.[79]Ver Louis Althusser, “From Capital to Marx’s Philosophy” in Louis Althusser e Etienne Balibar, Reading Capital. Em distinção a Althusser e sua concepção dualista da relação entre o objeto real e o objeto do conhecimento,[80]Ver Althusser e Balibar, Reading Capital. A diferença entre a leitura estruturalista e a crítico-reconstrutiva não se limita a este ponto. Enquanto a primeira tenta desmascarar o hegelianismo como … Continue reading essa questão é comumente formulada no debate da reconstrução dentro do arcabouço teórico de uma crítica marxiana da ideologia: Marx faz uma distinção entre os níveis “esotérico” e “exotérico” nas obras da economia política clássica. Se no primeiro estão contidos insights quanto ao contexto social de mediação do modo burguês de produção, o último satisfaz-se com uma sistematização e descrição não-mediada das formas objetivas do pensamento da consciência cotidiana dos atores sociais, permanecendo preso na ilusão reificada da imediaticidade de fenômenos os quais são na verdade socialmente mediados. Por isso, a argumentação “exotérica” não pode ser traçada psicologicamente até levar a deficiências subjetivas ou mesmo tentativas conscientes de enganação por parte de teoristas. Ela resulta de uma forma determinada de pensamento a qual é o produto sistemático e inicialmente involuntário das formas de relação social do modo capitalista de produção. O debate da reconstrução a partir de agora aplicaria a distinção esotérico/exotérico à própria obra de Marx.

Em última análise, mesmo na crítica da economia política e no materialismo histórico – ou seja, na práxis teórica tratada no estágio anterior da reconstrução como uma camada “esotérica” intacta – conteúdo “exotérico” e ambivalência conceitual “entre a revolução científica e a tradição clássica”[81]Esse é o subtítulo do livro de Heinrich, Die Wissenschaft vom Wert: ver a crítica de Backhaus às suas próprias premissas teóricas nas primeiras duas partes de seu Materialen (Backhaus, … Continue reading estão manifestas. A doutrina da inviolabilidade da apresentação da crítica da economia política n’O Capital é finalmente descartada. No lugar da lenda de uma progressão linear de conhecimento da parte de Marx, apareceu o reconhecimento de uma coexistência complexa e interpenetração de progresso e regressão no método de apresentação e no estado de pesquisa da crítica da economia de Marx. Por fim, a crescente popularização da apresentação da análise das formas do valor do Grundrisse à segunda edição do Capital foi apontada. Essa popularização, na medida em que cada vez mais encobriu o método da genética da forma, ofereceu pontos de referência a leituras historicistas e substancialistas.[82]Para uma perspectiva crítica quanto a alguns aspectos dessas teses, ver Dieter Wolf, Ware und Geld. Der dialektische Widerspruch im Kapital (Hamburg: VSA, 1958, 1958) (republicado em 2002 sob o … Continue reading

IV. Processos de Aprendizado dentro do Marxismo

Dado que não há no arcabouço deste texto espaço suficiente para elucidar, até mesmo de forma aproximada, os aspectos de uma revolução científica, – processos internos de aprendizado, mas também regressões às posições econômicas e histórico-filosóficas tradicionais na obra de Marx – tentarei mencionar brevemente alguns dos pontos alcançados nos processos de aprendizado dentro do marxismo mencionados acima.

A teoria de Marx não afirma alguma espécie de libertação automática; na verdade, ela deve ser entendida como a instância teórica de um repertório de obras, mediado pela análise e crítica, a contribuir para a libertação frente ao automatismo de um modo irracional de socialização. A assertiva de Marx de que ele compreende o desenvolvimento do modo capitalista de produção como “um processo da história natural,”[83]Marx, “Preface to the First German Edition.” comumente citada tanto por marxistas como antimarxistas como prova ou do mais alto status científico da obra de Marx ou de uma profecia não-científica, deve ser entendida como uma afirmação crítica. “Natureza” ou “naturalidade” são categorias negativamente determinadas para um sistema social o qual, com base em sua constituição pela divisão privada de trabalho, afirma-se frente a atores sociais como uma máquina implacável a usar trabalho abstrato, como um “destino do valor” para além de todo controle coletivo e individual e mesmo assim reproduzindo-se por meio da atividade de ambos.

A teoria de Marx é “um julgamento crítico unificado da história prévia, na medida em que os homens permitiram-se ser rebaixados a objetos do processo cego e mecânico de seu desenvolvimento econômico”.[84]Schmidt, Concept of Nature, 41. Apesar de Marx sucumbir sim a um otimismo histórico o qual muitas vezes recai em uma filosofia da história nas seções declamatórias de seus trabalhos, isto é fundamentalmente contradito por sua crítica científica de filosofias da história e da economia política.[85]Quanto à crítica de Marx das filosofias da história, ver: Helmut Fleischer, Marxismus und Geschichte, (Frankfurt: Suhrkamp, 1975); Kittsteinner, “Bewusstseinsbildung”; Andreas Arndt, Karl … Continue reading Mas é precisamente a partir desses clichês que o marxismo da Segunda e Terceira Internacionais, como também os mais educados daqueles que desdenham de Marx, tecem descuidadamente um sistema abstruso de necessidades históricas de ferro, chegando inclusive a uma “lei da sequência das formações sociais” que estabelece “a tendência geral historicamente necessária do progresso da espécie humana”.[86]G. Stiehler, citado por Jaeggi, “Einige Bemerkungen,” 153. Para uma “crítica” a Marx que tenta vender isso como a posição autêntica de Marx, ver os trabalhos de praxe por Karl Popper.

A crítica da economia política, a qual na forma dos trabalhos tardios de Marx “não é comparável com a assertiva imanente da declaração programática n’A Ideologia Alemã[87]Helmut Reichelt [1970], Zur logischen Struktur des Kapitalbegriffs bei Karl Marx (Freiburg: ça ira, 2001), 73., a saber, de apresentar o modo capitalista de produção em sua totalidade, pode ser apresentada como um processo de quatro críticas: 1) A crítica da sociedade burguesa e suas formas destrutivas “naturais” de desenvolvimento, contra o plano de fundo da possibilidade real e objetiva que ela gera de sua própria transcendência emancipatória; 2) A crítica da consciência cotidiana fetichizada e retrógrada dos atores sociais sistematicamente gerados por essas relações sociais; 3) A crítica de todo o campo teórico da economia política[88]Ver Heinrich, Die Wissenschaft vom Wert., o qual sistematiza acriticamente essas percepções comuns, e 4) a crítica do criticismo social utópico, o qual ou confronta o sistema do modo capitalista de produção com um modelo de libertação social, ou pretende efetivar formas econômicas isoladas contra o sistema como um todo por meio de reformas.[89]Quanto a isso, ver Brentel 1989, capítulo 5. Portanto, a crítica não é imanente no sentido de que afirmaria as determinações da troca, ideais burgueses, demandas proletárias por direitos, ou produção industrial (a qual é subsumida pelo capital) contra o capitalismo como um todo.

O método da crítica da economia pode ser descrito como o “desenvolvimento” ou “análise de formas”. Ele almeja compreender a socialidade específica de modos historicamente distintos de produção. Enquanto abordagens “burguesas” conduzem na melhor das hipóteses a uma ciência da reprodução da sociedade dentro de formas econômicas e políticas específicas, uma crítica da economia política precisa ser concebida como uma ciência dessas formas.[90]Quanto a isso, ver Heinrich, Die Wissenschaft vom Wert, 380-384. A economia política opera ao nível dos objetos econômicos já constituídos, toma-os como já dados, ou só pode justificar sua existência de modo circular, sem penetrar conceitualmente o processo sistemático de sua constituição. Ela sucumbe à auto-mistificação do mundo de objetos capitalista como um mundo de formas naturais[91]Na forma completa na dita “Fórmula da Trindade” da teoria dos componentes do valor. Para uma crítica da economia neoclássica, ver Heinrich, Die Wissenschaft vom Wert, 62-85., por conseguinte privando os humanos da habilidade de configurar e alterar suas estruturas fundamentais.

Em contraste, a análise da forma desenvolve essas formas (tais como valor, dinheiro, capital, mas também a lei e o Estado) a partir das condições contraditórias da constituição social do trabalho, “clarifica-as, compreende sua essência e necessidade”.[92]Marx, “Critique of Hegel’s Philosophy of Right.” O desenvolvimento da forma não deve ser entendido como o retraçamento do desenvolvimento histórico do objeto, e sim como a decifragem conceitual das relações estruturais imanentes do modo capitalista de produção. Ela decodifica as formas aparentemente independentes e aparentemente objetivas de riqueza social e a compulsão política do modo capitalista de produção como historicamente específicas, e portanto – contudo, de maneira alguma arbitrária ou fragmentadamente – como formas mutáveis de práxis.

Tanto o marxismo tradicional como o ocidental haviam completamente ignorado o potencial científico revolucionário da abordagem de Marx, sua teoria da constituição monetária do valor. Acima de tudo, a Neue Marx-Lektüre criticou a má interpretação empirista-historicista do método de apresentação iniciado por Engels, e a interpretação “pré-monetária” da teoria do valor n’O Capital, mas também ambivalências na própria obra de Marx e a popularização de seu método, o que significou “abdicar de uma elaboração sistemática de ideias fundamentais de teoria do valor e metodologia”.[93]Jan Hoff, Kritik der klassischen politischen Ökonomie. Zur Rezeption der werttheoretischen Ansätze ökonomischer Klassiker durch Karl Marx (Köln: PappyRossa, 2004). Engels e o marxismo tradicional interpretaram níveis diferentes de abstração da apresentação das leis do modo capitalista de produção em O Capital como níveis empiricamente coiguais de um modelo de modos historicamente distintos de produção. Por consequência, categorias tais como trabalho abstrato, valor, e a forma elementar do valor, foram reinterpretadas de modo empirista, e a conexão entre mercadoria, dinheiro e capital – considerada essencial por Marx – foi transformada em uma coincidência. O marxismo consequentemente operou em um terreno metodológico e de teoria do valor o qual Marx criticara em relação à economia clássica. Entretanto, a crítica da economia política de Marx distingue-se de uma economia política alternativa primariamente em dois aspectos: em primeiro lugar, não é a teoria da mais-valia, e sim a teoria de forma do trabalho que distingue Marx da economia política clássica. Marx critica a maneira pela qual a economia política irrefletidamente pressupõe a forma do “valor”, nunca questionando sua gênese, incapaz de compreender o trabalho que toma a forma do valor como uma forma social historicamente específica (não é feita a pergunta “por que o trabalho é representado pelo valor de seu produto?”).[94]Marx, Capital, Volume 1 A economia política, por conseguinte, opera fundamentalmente dentro do campo de formas fetichistas. Ademais, Marx critica o caráter pré-monetário de sua teoria do valor, dado que ela “trata a forma do valor como algo sem importância, como tendo nenhuma conexão com a natureza inerente das mercadorias”[95]Ibid. o que significa que ela não distingue a medida intrínseca e a externa do valor como categorias existentes em dois níveis diferentes de abstração teórica, e não compreende a necessidade da forma-moeda para a troca de mercadorias. O dinheiro é entendido como um instrumento puramente técnico, o qual por razões de conveniência toma o lugar da troca baseada em cálculos de magnitudes de valor-trabalho. Na obra de Marx, por outro lado, o dinheiro é desenvolvido como um momento necessário no processo da troca de mercadorias. Sem uma forma geral do valor, as mercadorias não podem representar valor uma para a outra, e seriam reduzidas ao status de produtos. Por isso, é necessário proceder da constituição “equiprimordial” do trabalho abstrato como uma medida imanente do valor logicamente primeira, e o dinheiro como a medida externa do valor. Neste sentido, Marx fala da substância do valor como um resultado obtido na troca, o qual ademais primeiro adquire uma existência intertemporal como capital. Em contraste ao empirismo e ahistoricismo da economia política, a abordagem de Marx, portanto, revela-se como sendo uma percepção da essência, no sentido da reconstrução de uma estrutura e sistema de agência que não é imediatamente perceptível empiricamente – por meio da elaboração de um nível teórico não-empírico que torna possível pela primeira vez a explicação das formas empíricas de aparência, tais como o dinheiro. Marx segue “um princípio do desenvolvimento das categorias econômicas por meio da distinção entre níveis diferentes de abstração”.[96]Hoff, Kritik der klassischen politischen Ökonomie, 78. Categorias tais como trabalho abstrato ou valor, por conseguinte, não possuem referentes empíricos imediatos. A sequência das categorias da mercadoria e do dinheiro não deve ser entendida como uma sequência histórica de circunstâncias independentemente existentes, e sim como uma análise conceitual.

Visão Geral dos Marxismos

Teóricos ImportantesTextos Centrais de Referência de Marx/EngelsConceito Central: A Teoria de Marx como…
Marxismo Tradicional (1878 em diante)[F. Engels], K. Kautsky,E. Bernstein, Lafargue,F. Mehring, A. Bebel,G. Plechanow, etc. (= 1ª Geração)W.I. Lênin, L. Trotsky,R. Luxemburg,N. Bucharin, M. Adler,R. Hilferding, (= 2ª Geração)Postulação: “A doutrina da concepção materialista da história é o centro dos trabalhos colaborativos de Marx e Engel”
Engels: Anti-Düring; Ludwig Feuerbach; “Karl Marx, ‘Para a Crítica da Economia Política’” (1859)
Marx: O Capital, vol. I, 24.7[97]N.T.: Numeração da edição alemã., Prefácio de “Para a Crítica da Economia Política” (1859), Manifesto do Partido Comunista (Marx/Engels)
uma visão de mundo e doutrina, fechada e proletária, da evolução da natureza e da história (“tornar-se e desvanecer-se”)
Marxismo Ocidental (1923 em diante)G. Lukács, K. Korsch, E. Bloch, H. Lefebvre, Escola de Frankfurt, A. Gramsci, K. Kosik, Grupo Práxis iugoslavo  (G.Petrovic, P. Vranicki et al.), Escola de Budapeste (A. Heller, G. Markus etc.), L. Kofler, J.P. SartrePostulação: “Os primeiros trabalhos humanistas como um arcabouço interpretativo para as obras tardias científicas”
Marx: Teses sobre Feuerbach, Manuscritos econômico-filosóficos (1844), A ideologia alemã (Marx/Engels), etc.
uma teoria crítico-revolucionária da práxis social (“mediação subjetiva do objeto”)
Neue Marx-Lektüre (1965 em diante)[Predecessores: I.I. Rubin, E. Paschukanis] H.G. Backhaus, H. Reichelt, D. Wolf, H.D. Kittsteiner, M. Heinrich, SOST, Projekt Klassenanalyse/PEM, S. Breuer, Debate da Derivação do Estado (B. Blanke, D. Läpple, MG, J. Hirsch, W. Müller/Ch. Neusüß, N. Kostede etc.). Postulação: “Apreender Marx por completo” ou “A interpretação das obras iniciais por meio das obras tardias”
Marx: Grundrisse, O Capital, vol. I, 1ª edição, Urtext, Resultate des unmittelbaren Produktionsprozesses, etc.
um deciframento e crítica das formas de socialização capitalistas por meio de uma forma lógico-sistemática de apresentação (“desenvolvimento-de-forma e crítica”)


21 de outubro, 2013.

Tradução: Caeli Corvere, Jayu Eleuthéria
Revisão: Jade Amorim, Talles Lopes
Original: https://viewpointmag.com/2013/10/21/between-marx-marxism-and-marxisms-ways-of-reading-marxs-theory/

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References
1 Karl Kautsky, citado em Gareth Stedman Jones, “Engels und die Geschichte des Marxismus,” em Klassen, Politik, Sprache. Für eine theorieorientierte Sozialgeschichte (Münster: Westfälisches Dampfboot, 1988), 234n; V.I. Lenin, “The Three Sources and Three Component Parts of Marxism.” [N. T.: Todas as citações em inglês de Marx, Engels, Lênin e Kautsky foram retiradas pelo tradutor original (alemão-inglês) das versões apresentadas no www.marxists.org]
2 Frederick Engels, “Dialectics” in Dialectics of Nature
3 Engels, “Introduction” in Anti-Dühring
4 Engels, “Hegel” in  Ludwig Feuerbach and the End of German Classical Philosophy.
5 Ibid.
6 Engels, “Marx” in Ludwig Feuerbach
7 Karl Marx, “Theses on Feuerbach.
8 Engels, “Notes and Fragments” in Dialectics of Nature.
9 Acima de tudo em Materialism and Empiriocriticism, estilizado pelo marxismo-leninismo como o livro clássico do materialismo dialético ao lado de Anti-Dühring. Aqui, o marxismo se torna uma ideologia no sentido marxista estrito: uma sistematização das formas de pensamento de um senso comum reificado. Sobre o pano de fundo político-pragamático do texto, geralmente desconsiderado no ML, ver Johannes Busch-Weßlau, Der Marxismus und die Legitimation politischer Macht (Frankfurt: Campus Verl, 1990), 30.
10 Falko Schmieder aponta para o papel a priori da mídia fotográfica como base desse realismo ingênuo na filosofia, bem como as semelhanças fundamentais entre Engels, Lênin e Feuerbach; Ludwig Feuerbach und der Eingang der klassischen Fotografie. Zum Verhältnis von anthropologischem und Historischem Materialismus (Berlin: PHILO-Verlag, 2004), 213.
11 Alfred Sohn-Rethel, Warenform und Denkform (Frankfurt: Suhrkamp, 1978),114.
12 Engels, “Marx” in Ludwig Feuerbach.
13 Marx, “Theses on Feuerbach.”
14 Engels, “Materialism” in Ludwig Feuerbach.
15 Para mais informações, confira o estudo de Hans-Josef Steinberg [1967], Sozialismus und deutsche Sozialdemokratie. Zur Ideologie der Partei vor dem 1. Weltkrieg (Berlin-Bonn: 1979), acima de tudo 45, 63. Abordagens em direção a uma explicação histórico-social são oferecidas por idem, 145-150; Dieter Groh, Negative Integration und revolutionärer Attentismus. Die deutsche Sozialdemokratie am Vorabend des Ersten Weltkrieges (Frankfurt: Ullstein Taschenbuchvlg, 1974), 58-63; Oskar Negt, “Marxismus als Legitimationswissenschaft,” em N. Bucharin / A. Deborin – Kontroversen über dialektischen und mechanistischen Materialismus (Frankfurt: Suhrkamp, 1974); Antonio Gramsci, Philosophie der Praxis. Eine Auswahl (Frankfurt: S Fischer, 1967), 1386.
16 Para uma crítica, ver Alexandrine Mohl, Verelendung und Revolution. Oder: Das Elend des Objektivismus. Zugleich ein Beitrag zur Marxrezeption in der deutschen Sozialdemokratie (Frankfurt 1978); Rolf Peter Sieferle, Die Revolution in der Theorie von Karl Marx (Berlin: Ullstein, 1979); Ingo Elbe, “ ‘Umwälzungsmomente der alten Gesellschaft’ – Aspekte der Revolutionstheorie und ihrer Kritik bei Marx,” 2002.
17 Ernesto Laclau e Chantal Mouffe apontam o caráter darwinista-hegeliano dessa concepção: “O darwinismo por si só não oferece ‘garantias para o futuro’, uma vez que a seleção natural não opera em uma direção predeterminada desde o início. Somente se um tipo hegeliano de teleologia for adicionado ao darwinismo – o que é totalmente incompatível com ele – um processo evolutivo pode ser apresentado como garantia de futuras transições”; Hegemony and Socialist Strategy (New York: Verso, 2001), 20.
18 Para mais sobre isso, de maneira instrutiva, ver Heinz Dieter Kittsteiner, “Bewusstseinsbildung, Parteilichkeit, dialektischer und historischer Materialismus. Zu einigen Kategorien der marxistisch-leninistischen Geschichtsmethodologie ”, Internationale Wissenschaftliche Korrespondenz zur Geschichte der deutschen Arbeiterbewegung. Jg. 10, 1974.
19 Conferir Groh, Negative Integration, 36
20 Kautsky, citado em Steinberg, Sozialismus und deutsche Sozialdemokratie, 61. Ver também Ethics and the Materialist Conception Of History. De acordo com Kautsky, as perspectivas de liberdade e humanidade não são “meras expectativas de condições que apenas deveriam vir, que simplesmente desejamos e queremos, mas visões de condições que irão vir, que são necessárias”. Kautsky se defende contra interpretações da necessidade “no sentido fatalista, de que um poder superior as apresentará a nós por si mesmo”, mas assume uma irresistível compulsão histórico-econômica imanente para a revolução, por meio da qual as leis compulsivas imanentes do capitalismo e a formação do proletariado como sujeito revolucionário de sucesso desempenha o mesmo papel: “inevitável no sentido de que os […] capitalistas em seu desejo de lucro [!] revolucionam toda a vida econômica, pois também é inevitável que os trabalhadores almejem jornadas mais curtas de trabalho e salários mais altos, que se organizem, que lutem contra a classe capitalista e seu estado, pois é inevitável que visem a conquista do poder político e a derrubada do domínio capitalista. O socialismo é inevitável porque a luta de classes e a vitória do proletariado são inevitáveis.”
21 Lênin, “Three Sources”.
22 Lênin, Karl Marx: A Brief Biographical Sketch With an Exposition of Marxism.
23 Sobre os paradoxos dessa combinação de voluntarismo e determinismo, ver Charles Taylor, Hegel (Cambridge: Cambridge University Press, 1977).
24 É precisamente o marxismo ocidental que – contra o marxismo-leninismo – enfatiza o caráter não ontológico do materialismo de Marx; ver Max Horkheimer, “Traditional and Critical Theory” in Critical Theory: Selected Essays (New York: Continuum, 1972), bem como Alfred Schmidt, The Concept of Nature in Marx (New York: Verso, 2014). Stalin determina os componentes da teoria de Marx da seguinte forma: Dialética: uma lógica universal de desenvolvimento enfatizando a descontinuidade, que ensina que tudo pode ser concebido como um estado de devir e decadência; Materialismo: uma ontologia contemplativa que ensina que a consciência é meramente um reflexo de uma natureza existente independente e fora da consciência; Materialismo histórico: a aplicação do materialismo dialético à história; as leis históricas universais são a luta de classes, a dialética entre as forças de produção e as relações de produção, enraizada na primazia do desenvolvimento das forças de produção (conceito de casua sui de forças de produção) e, em última instância, a lei do progresso das sucessivas formações sociais
25 N. T.: Do inglês form-genetic, este derivado do alemão formgenetische
26 Engels, “Karl Marx: Critique of Political Economy. Resenha de Frederick Engels.
27 Ibid.
28 Ibid.
29 Kautsky [1886], Karl Marx ‘ökonomische Lehren. Gemeinverständlich dargestellt und erläutert von Karl Kautsky, 21. (Berlin: 1922), viii.
30 Kautsky, citado em Rolf Hecker, “Einfache Warenproduktion”, 1997.
31 Rudolf Hilferding, Böhm-Bawerk’s Criticism of Marx.
32 M.M. Rosental [1955], Die dialektische Methode der politischen Ökonomie von Karl Marx (Berlim: Dietz, 1973).
33 Ver Ernest Mandel, Marxist Economic Theory (Nova York: Monthly Review Press: 1970).
34 “Isso deixa claro, é claro, por que, no início de seu primeiro livro Marx parte da produção simples de mercadorias como premissa histórica, para em última análise chegar dessa base ao capital – por que ele começa da simples mercadoria em vez de uma lógica e histórica forma secundária – de uma mercadoria já modificada capitalisticamente”. ENGELS, Friedrich. “Prefácio” in MARX, Karl. Capital, vol. 3.
35 Ibid. Essa interpretação da análise da forma do valor também é adotada por Kautsky, em The Economic Doctrines of Karl Marx
36 Ou seja, a lei do valor discutida por Marx. Veja o “Suplemento” de Engels no volume 3.
37 Ibid
38  “Ou acredita-se que o camponês e o artesão foram tão estúpidos a ponto de desistir do produto de 10 horas de trabalho de uma pessoa por uma única hora de trabalho de outra?”; e quem faz isso aprende “apenas por meio de erros”. Ibid.
39 Ibid
40 Em contraste, veja a crítica de Marx à noção de dinheiro-do-trabalho ou a noção de uma troca de mercadorias pré-monetária em A Contribution to the Critique of Political Economy e no Grundrisse.
41 Ver nota de rodapé 33 no capítulo um do Capital, Volume 1.
42 Para a visão de Marx, veja por exemplo: “Adam Smith constantemente confunde a determinação do valor das mercadorias pelo tempo de trabalho nelas contido com a determinação de seu valor pelo valor do trabalho; ele é freqüentemente inconsistente nos detalhes de sua exposição e confunde a equalização objetiva de quantidades desiguais de trabalho provocada pela força pelo processo social com a igualdade subjetiva dos trabalhos dos indivíduos ”; A Contribution to the Critique of Political Economy.
43 De acordo com o marxismo-leninismo, “o valor funciona como um instrumento da administração planejada dos processos socialistas de produção e reprodução, de acordo com os princípios da escrituração e controle da massa de trabalho e do consumo. Correspondentemente, a relação do valor é conscientemente implementada”; Wolfgang Peter Eichhorn, “Wert” in G. Klaus e M. Buhr, ed. Phillosophisches Wörterbuch, Bd. 2 (Berlim Ocidental: DEB, 1985), 1291. Dentro deste arcabouço, o socialismo consiste “meramente no modo revolucionado de calcular a mesma determinação social dos produtos do trabalho humano tal como existe na economia de mercadoria do capitalismo,” como Stefan Grigat criticamente aponta; “Kritik und Utopie,”Weg und Ziel, 4 (1997): 20. Por isso, o comunismo marxiano supostamente degenera em uma espécie de sistema proudhoniano de vouchers de trabalho, tal como Diethard Behrens e Kornelia Hafner também observam: “todas as concepções até então existentes da transição ao socialismo recorrem a modelos de cálculo imediato do valor-trabalho e da utilidade”; “Auf der Suche nach dem wahren Sozialismus. Von der Kritik des Proudhonismus über die russische Modernisierungsdiktatur zum realsozialistischen Etikettenschwindel” in Anton Pannekoek, Marxisistischer Antileninismus (Freiburg, 1991), 226. Ver aqui também Michael Henrich, Die Wissenschaft vom Wert. Die Marxsche Kritik der politischen Ökonomie zwischen wissenschaftlicher Revolution und klassischer Tradition (Münster: Westfälisches Dampfboot, 1999), 385-392; Kittsteiner, “Bewusstseinsbildung.”
44 Por exemplo, Engels, “Marx” em Ludwig Feuerbach.
45 Ibid
46 Ibid
47 Ibid, tradução modificada (em inglês)
48 Gert Schäfer, “Einige Probleme des Verhältnisses von ‘ökonomischer’ und ‘politischer’ Herrschaft,” in Karl Marx and Friedrich Engels – Staatstheorie. Materialien zur Rekonstruktion der marxistischen Staatstheorie (Berlin: Ullstein, 1974).
49 Comparar com Pachukanis, The General Theory of Law e Marxism: “por que o aparato de coerção estatal é criado não como um aparato privado da classe dominante, mas distinto deste último na forma de um aparato impessoal do poder público distinto da sociedade?”
50 Engels, “Barbarism and Civilization” in The Origin of the Family, Private Property, and the State. Não é de surpreender, portanto, que Lênin refira-se afirmativamente a essa “explicação”, com sua teoria de agentes e influência.
51 Engels, Anti-Dühring. [Nota da tradução alemão-inglês: A tradução oficial “ideeller Gesamtkapitalist” no Marx-Engels Collected Works verte a expressão insatisfatoriamente como “the ideal personification of the total national capital,” [“a personificação ideal do capital nacional total”], quando na verdade “ideal total capitalist” [“capitalista total ideal”] é mais acurado.]
52 Johannes Busch-Weßlau, Der Marxismus und die Legitimation politischer Macht, Frankfurt, Campus-Verlag, 1990).
53 Engels, Anti-Dühring.
54 Hans Holger Paul, Marx, Engels und die Imperialismustheorie der 2. Internationale (Hamburg, 1978).
55 Engels, “A Critique of the Draft Social-Democratic Program of 1891.”
56 Schäfer, “Einige Probleme,” cxxxi.
57 Engels, Anti-Dühring.
58 Schäfer, “Einige Probleme,” cxxxiv.
59 Essa velha e demasiadamente repetida história será mais tarde apresentada por Wolfgang Pohrt e outros como um insight profundo quanto ao “capitalismo tardio”.
60 Engels, Anti-Dühring.
61 O termo foi utilizado pela primeira vez em uma polêmica leninista contra História e Consciência de Classe de Lukács (ver Rudolf Walther, “Marxismus” in O. Brunner, ed., Geschichtliche Grundbegriffe. Historisches Lexikon zur politisch-sozialen Sprache in Deutschland, Bd. 3, [Stuttgart: E. Klett, 1982], 968), mas não alcançou alguma significância maior, nem como uma formulação polêmica, nem como uma auto-descrição pelos teóricos comumente subsumidos sob essa alcunha (tais como Lukács, Korsch, Bloch, a Escola de Frankfurt, Gramsci, Lefebvre, etc.). Aqui, sigo o uso feito por Perry Anderson do termo em Considerations on Western Marxism (New York: Verso, 1987). Por mais frutífero que o conceito de marxismo ocidental possa ser enquanto um modelo heurístico, seus limites devem ser claramente mostrados; ver a crítica de Anderson por Wolfgang Fritz Haug, “Westlicher Marxismus?” in Pluraler Marxismus, Bd. 2 (Hamburg: Argument, 1987) e Michael Krätke, “Marxismus als Sozialwissenschaft” in Haug, Materialien zum Historisch-kritischen Wörterbuch des Marxismus (Hamburg: Argument, 1996), 77.
62 Wolfgang Fritz Haug, Philosophieren mit Brecht und Gramsci (Hamburg: Argument, 1996), 8. Para uma crítica da “tese da palavra-código” [code word thesis] em relação à obra de Gramsci, ver Haug, “Enleitung”, in Antonio Gramsci, Gefängnishefte 6. Philosophie der Praxis (Hamburg: Argument, 1995), 1195-1209.
63 Georg Lukács, “N. Bucharin: Theorie des historischen Materialismus (Rezension)” in N. Bucharin/ A. Deborin: Kontroversen über dialektischen und mechanistischen Materalismus, 289, 284.
64 Antonio Gramsci, “The Revolution Against Capital.”
65 Uma psicologia científica não pode ser encontrada no pensamento da maioria dos representantes do marxismo, excetuando-se referências positivas ao behaviorismo de Pavlov. A psicanálise foi majoritariamente rejeitada, se não demonizada como “decadente-burguesa”. Helmut Dahmer oferece uma visão geral crítica de tais reações em Libido und Gesellschaft. Studien über Freud und die Freudsche Linke (Frankfurt: Suhrkamp, 1982), 241-277; dentro do arcabouço do marxismo ocidental, foi primariamente Lukács quem distinguiu-se na condenação de Freud. Gramsci, por ele mesmo admitido, “não foi capaz de estudar as teorias de Freud”.
66 Como características adicionais do marxismo ocidental, Anderson lista o recurso à filosofia pré-marxiana com vistas a clarificar o método de uma teoria social crítica; a incorporação de teorias “burguesas” contemporâneas; um estilo de escrita esotérico; uma avaliação um tanto quanto pessimista do desenvolvimento histórico, notoriamente divergente da dicção triunfalista do marxismo clássico e do marxismo-leninismo; uma preferência por problemas da estética.
67 Por exemplo, Conceito Marxista de Homem de Erich Fromm ou Para a reconstrução do materialismo histórico de Jürgen Habermas.
68 As primeiras tentativas de uma nova leitura de Marx ocorreram já na década de 1920, por parte dos autores soviéticos Isaak Illich Rubin e Evgeny Pachukanis. Ver I.I. Rubin, Essays on Marx’s Theory of Value, e Evgeny Pachukanis, The General Theory of Law and Marxism. No ocidente e no oriente, por um longo tempo, não se conseguiu fazer páreo, nem mesmo de forma rudimentar, à consciência desses teóricos quanto a problemas de aspectos da teoria de Marx, no que diz respeito à teoria do valor e a do direito. Apenas com os debates ocorridos desde o fim dos anos 60 é que isso mudaria parcialmente.
69 Tal como descrito por Heinrich, “Kommentierte Literaturliste zur Kritik der politischen Ökonomie,” in Elmar Altvater, Rolf Hecker, Michael Heinrich, Petra Schaper-Rinkel, ed. Kapital. doc. Das Kapital (Bd. 1) von Karl Marx in Schaubildern und Kommentaren (Münster: Westfälisches Dampfboot, 1999), 207; e Urs Jaeggi, “Einige Bemerkungen zur Orthodoxie und zum Dogmatismus im Historischen Materialismus,” in Axel Honneth, ed., Theorien des Historischen Materialismus (Frankfurt: Suhrkamp, 1977), 146. Ela também é referida pela alcunha de “neo-marxismo”.
70 Tal como definido por Hans-Georg Backhaus, Dialektik der Wertform. Untersuchungen zur Marxschen Ökonomiekritik (Freiburg; ça ira, 1997). Ver também Heinrich, “Kommentierte Literaturliste,” 211.
71 Ver Henrich, Die Wissenschaft vom Wert, e Helmut Brentel, Soziale Form und ökonomisches Objekt. Studien zum Gegenstands- und Methodenverständnis der Kritik der politischen Ökonomie (Opladen: Westdeutscher, 1989).
72 Concernente ao dito “Debate da Derivação do Estado”, ver Norbert Kostede, “Die neuere marxistische Diskussion über den bürgerlichen Staat. Einführung – Kritik – Resultate,” Gesellschaft. Beiträge zur Marxschen Theorie (1976): 150-196; e Gerd Rudel, Die Entwicklung der marxistischen Staatstheorie in der Bundesrepublik (Frankfurt: Campus-Verlag, 1981).
73 Stefan Breuer, Die Krise der Revolutionstheorie. Negative Vergesellschaftung und Arbeitsmetaphysik bei Herbert Marcuse (Frankfurt: Syndikat, 1977); Mohl, “Verelendung und Revolution”; Helmut König, Geist und Revolution. Studien zu Kant, Hegel und Marx (Stuttgart: Klett-Cotta, 1981); ou os escritos do grupo Krisis.
74 Alfred Schmidt e Walter Euchner, ed., Kritik de politischen Ökonomie heute. 100 Jahre “Kapital” (Frankfurt: Europäische Verlagsanstalt, 1968).
75 O “marxismo crítico” dos anos 60, do qual Alfred Schmidt foi o principal porta-voz, enfatiza o negativo e historicamente limitado caráter e reivindicação de validade de um “materialismo de segunda natureza,” mas tende a ver o individualismo metodológico como uma descrição adequada de relações comunistas vindouras. O marxismo “científico” da escola de Althusser enfatiza, contra teorias individualistas de um “sujeito constituinte”, que atores são meramente portadores das relações de produção, mas com base na tendência de suas categorias de assumirem um caráter histórico-universal (A combinatória de níveis de Balibar, o conceito de práxis e ideologia de Althusser), eleva a independência das relações de produção a uma norma científica.
76 Backhaus, Dialektik der Wertform, 11.
77 Ibid., 69
78 Ibid.
79 Ver Louis Althusser, “From Capital to Marx’s Philosophy” in Louis Althusser e Etienne Balibar, Reading Capital.
80 Ver Althusser e Balibar, Reading Capital. A diferença entre a leitura estruturalista e a crítico-reconstrutiva não se limita a este ponto. Enquanto a primeira tenta desmascarar o hegelianismo como um meta-discurso inadequado, para a última, a referência a Hegel em questões de metodologia é frequentemente vista como a via régia para entender a obra de Marx.
81 Esse é o subtítulo do livro de Heinrich, Die Wissenschaft vom Wert: ver a crítica de Backhaus às suas próprias premissas teóricas nas primeiras duas partes de seu Materialen (Backhaus, Dialektik der Wertform, 132n).
82 Para uma perspectiva crítica quanto a alguns aspectos dessas teses, ver Dieter Wolf, Ware und Geld. Der dialektische Widerspruch im Kapital (Hamburg: VSA, 1958, 1958) (republicado em 2002 sob o título Der dialektische Widerspruch im Kapital). Wolf também critica tendências dentro da Neue Marx-Lektüre as quais identificam o método dialético de Marx com contradições lógicas, por conseguinte dando a Marx e seu método uma pátina de irracionalismo; ver sua crítica de Colletti e Göhler. Posições irracionalistas também se encontram hoje em representativos dos grupos Krisis e Exit, e no Initiative Sozialistisches Forum Freiburg.
83 Marx, “Preface to the First German Edition.”
84 Schmidt, Concept of Nature, 41.
85 Quanto à crítica de Marx das filosofias da história, ver: Helmut Fleischer, Marxismus und Geschichte, (Frankfurt: Suhrkamp, 1975); Kittsteinner, “Bewusstseinsbildung”; Andreas Arndt, Karl Marx. Versuch über den Zusammenhang seiner Theorie (Bochum: Germinal, 1985), 50-76; Rolf Hecker, Carl-Erich Vollgraf, Richard Sperl, ed., Geschischte und materialistische Geschichtstheorie bei Marx  (Hamburg: Argument, 1996).
86 G. Stiehler, citado por Jaeggi, “Einige Bemerkungen,” 153. Para uma “crítica” a Marx que tenta vender isso como a posição autêntica de Marx, ver os trabalhos de praxe por Karl Popper.
87 Helmut Reichelt [1970], Zur logischen Struktur des Kapitalbegriffs bei Karl Marx (Freiburg: ça ira, 2001), 73.
88 Ver Heinrich, Die Wissenschaft vom Wert.
89 Quanto a isso, ver Brentel 1989, capítulo 5.
90 Quanto a isso, ver Heinrich, Die Wissenschaft vom Wert, 380-384.
91 Na forma completa na dita “Fórmula da Trindade” da teoria dos componentes do valor. Para uma crítica da economia neoclássica, ver Heinrich, Die Wissenschaft vom Wert, 62-85.
92 Marx, “Critique of Hegel’s Philosophy of Right.”
93 Jan Hoff, Kritik der klassischen politischen Ökonomie. Zur Rezeption der werttheoretischen Ansätze ökonomischer Klassiker durch Karl Marx (Köln: PappyRossa, 2004).
94 Marx, Capital, Volume 1
95 Ibid.
96 Hoff, Kritik der klassischen politischen Ökonomie, 78.
97 N.T.: Numeração da edição alemã.

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