Pierre Dardot e Christian Laval, 12 de dezembro de 2018

Os protestos dos Coletes Amarelos botaram de pernas pro ar o establishment político francês nestes últimos meses. Poucas vezes existiu um presidente tão odiado quanto Macron é hoje, e sua liderança aparenta cada vez mais fragilizada. Neste artigo, Dardot e Laval analisam os protestos e o que eles podem significar para a política francesa.

Poucas vezes, durante a História, um presidente da República Francesa foi tão odiado quanto Emmanuel Macron é hoje. Seu discurso para a TV em 10 de dezembro, por mais solene que fosse, e as migalhas que ele distribuiu com “compaixão” para os mais pobres naquela ocasião — sem mudar de qualquer forma as medidas altamente injustas por ele encorajadas ou tomadas, primeiro como conselheiro de Hollande, depois como ministro da Economia e por fim como presidente — não mudarão esse fato. A explicação para uma rejeição tão maciça contra ele é bem conhecida: o desdém de classe por ele demonstrado, tanto em ações como em palavras, agora voltou para assombrá-lo, com toda a força de uma população irada, e Macron apenas está recebendo aquilo que ele merece, e muito. Por meio do caos social trazido pelos Coletes Amarelos, o véu foi rasgado, pelo menos temporariamente. O “novo mundo” de Macron é apenas o velho, só que ainda pior: esta é a mensagem principal sendo ofertada pelos Coletes desde novembro.

Em 2017, Macron e o seu projeto “En Marche” utilizou-se, para prevalecer contra todas as expectativas na luta pela presidência, do profundo ódio das classes média e trabalhadora contra governantes os quais nunca paravam de piorar a situação do povo no trabalho e na vida diária. Nesta conquista de instituições-chave, Macron não hesitou em usar cinicamente o registro populista de “recomeçar do zero”, mesmo nunca tendo sido outra coisa que não o “candidato da oligarquia”, e em particular de sua porção de elite, a Inspection Générale des Finances [Inspetoria Geral de Finanças, IGF]. Essa manobra foi bem bronca, mas acabou funcionando bem. Apesar do apoio apenas minoritário de suas ideias, ele venceu por meio de duas rodadas de “voto útil” — no primeiro round, foi escolhido como forma de evitar os partidos autoritários-neoliberais (os gêmeos do Partido Socialista e dos Republicanos), e no segundo round, ganhou do candidato do partido neo-fascista. Sob o disfarce de renovação, os eleitores têm recebido desde a primavera de 2017 a agravação e aceleração, sem precedentes, de tudo aquilo que eles se puseram contra. Eles foram despedaçados por uma enxurrada de medidas que sucessivamente baixaram os padrões de vida e desempoderaram as classes trabalhadora e média, beneficiando os mais privilegiados e as grandes corporações. As pesquisas de opinião recentes não mentem: a divisão de classes aparece clara como a luz do dia na condenação popular das políticas macronianas. O fato de que os Coletes Amarelos reivindicam a restauração do imposto sobre grandes fortunas, um aumento de benefícios [à população] e do salário mínimo, e da restauração da indexação de aposentadorias [aposentadoria cujo valor acompanha o Índice de Preços no Consumidor], demandas que vão muito além de uma moratória no preço da eletricidade e gás e da retirada do aumento no imposto de combustíveis, fala muito sobre a importância social do movimento.

Apenas a descarada propaganda governamental sobre as “facciosas” e “sediciosas” ligas de 1930, complacentemente divulgada pela mídia subserviente, por algumas “personalidades midiáticas” e alguns líderes desorientados de sindicatos, poderia levar algumas pessoas a acreditarem que o movimento é intrinsecamente fascista. Deve-se dizer e repetir com força: se a extrema-direita tem tentado cooptar esta ira popular, e se essa manobra acabar sendo bem-sucedida, isso ocorrerá apenas pela falência da esquerda política e dos sindicatos em exercerem sua função de defender os interesses da maioria do povo. Os Coletes Amarelos, quer gostem ou não do movimento, conseguiu aquilo que trinta anos de embates sociais não alcançou: por a questão da justiça social no centro do debate. E melhor ainda: eles impuseram claramente a questão, fundamental para toda a humanidade, do elo entre justiça social e justiça ecológica.

Uma revolta anti-neoliberal

Esta revolta social só pode ser entendida em relação ao tipo de transformação que o governo atual se propôs a realizar com brutalidade fiscal e regulatória. A “revolução” de Macron não foi outra coisa a não ser uma implementação radical e apressada de uma concepção dominante de sociedade pautada na competição, performance, lucratividade e no “crescer o bolo dos ricos para depois reparti-lo aos pobres”. Estendendo uma política constante de isenção de impostos para o capital e para empresas, essa “revolução” tem prolongado e amplificado a transferência da tributação e dos encargos e fardos sociais para os lares, especialmente os mais pobres, por meio do aumento dos mais desiguais impostos sobre o consumo, em nome da “competitividade”. Em outras palavras, foi por meio da escolha do caminho mais puramente neoliberal que Macron buscou transformar a França, procurando portanto, por meio dessa “revolução” que serviu como seu programa de governo, tornar-se o bom pupilo dos negócios, dos comissários europeus e dos “investidores internacionais”. Ele não foi o primeiro, nem será provavelmente o último a fazer isso, mas ele quis exercer esse modelo com maestria, mais do que Sarkozy e Hollande juntos.

Mas parece que ele não tinha culhões ou habilidade suficiente para transformar os “relutantes gauleses”, os “analfabetos” e a “ralé” em seguidores de sua “nação start-up” e apoiadores de custos de mão-de-obra cada vez mais baixos. Gerir o Estado e dirigir o governo à maneira de um chefe de uma grande multinacional, de acordo com as novas normas para servos civis de alto escalão convertidos aos ideais capitalistas, não foi suficiente. A centralização e verticalização da Quinta República, a repressão policial sem limites, a regimentação destrutiva de uma maioria parlamentar composta de neófitos insossos e oportunistas legalizados, vem até agora sendo um meio institucionalmente poderoso, mas ainda assim incapaz de fazer a população aceitar tanto a deterioração tanto de suas condições de vida como também seu desempoderamento, simultaneamente nos postos de trabalho e a nível municipal. A vida real prevaleceu sobre as ilusões de uma oligarquia cegada por sua “verdade”, a qual acreditara que seus tempos de glória haviam chegado com a eleição miraculosa de um presidente infantilmente embriagado por uma onipotência política que lhe foi concedida por instituições fundamentalmente anti-democráticas. A insurreição social dos Coletes Amarelos, ao reprimir a máquina neoliberal de Macron, demonstrou os limites daquilo que deveria ser chamado de seu bonapartismo gestorial.

Uma manobra final?

Esta prática governamental autoritária trouxe o neoliberalismo a um ponto de ruptura. Os atuais governantes, apoiados pelos empregadores, estão tentando uma manobra final, cuja natureza já pode ser adivinhada, utilizando-se da crise política e social para fortalecerem a neoliberalização da sociedade mais sutilmente do que a “blitzkrieg” da “primeira temporada” da gestão Macron. Já sabemos quais são seus argumentos principais. O primeiro destes, apoiado sem os menores escrúpulos pelas estações de rádio e emissoras de TV, é o típico clamor por ordem face a uma violência atribuída unilateralmente aos manifestantes, os quais “com toda certeza” foram cúmplices dos furtos a lojas praticados por jovens criminosos durante os finais dos protestos. Amedrontar e simultaneamente buscar a ajuda de todas as forças “responsáveis” não apenas ajuda a exonerar o governo de suas próprias responsabilidades, mas também mascara todas as violações [cometidas por este] das liberdades mais fundamentais, como o direito à manifestação (2000 prisões arbitrárias), e justifica os métodos violentos utilizados pela polícia contra manifestantes (em particular o perigoso uso de bombas de som e das assim chamadas granadas “anti-cercamento” ou “estilingue” [granadas de fragmentação que emitem estilhaços de borracha não-letais, mas ainda assim capazes de ferir gravemente vítimas]). A partir deste ponto de vista, a humilhação coletiva imposta em estudantes de ensino médio em Mantes-la-Jolie relembra os piores métodos do colonialismo, em continuidade com o “tratamento” dado aos manifestantes dos protestos de 2005, e torna as afirmações feitas por Ségolène Royal¹ particularmente revoltantes.

A segunda linha de defesa do governo é selecionar dentre as díspares demandas dos manifestantes aquelas que seguem a direção de redução dos gastos públicos. Esta é a tática já escolhida por Geoffroy Roux de Bézieux, porta-voz da associação dos patrões da MEDEF, o qual não possui a menor hesitação em enaltecer a efetividade da redução de impostos feita por Trump. Apresentar esta grande mobilização social como um movimento neo-poujadista de pequenas empresas esmagadas por impostos e mudanças sociais, “cansadas e debilitadas” por esses fardos, e não pela injustiça social, tem a vantagem de fazer as pessoas acreditarem que a única maneira de aumentar o poder de compra é “reduzir a porção socializada da renda e cortar serviços públicos conjuntamente com a redução de impostos” (já que a ideia de reduzir os gastos com o exército e com a polícia está fora de cogitação neste contexto atual) — a menos que Macron escolha, seguindo o mesmo caminho de Sarkozy, estimular “horas extras não tributadas” — outro sonho da MEDEF. Claramente evita-se assim mexer nos privilégios dos mais ricos: a liberdade de evadir a taxação de fortunas, os escândalos do CICE e do CIR², mecanismos os quais, sem qualquer contrapartida, controle ou restrições, consistem em transferir dezenas de bilhões de euros para empresas que não precisam desses recursos. Esta manobra requererá a designação de bodes expiatórios, é claro. Por que não eleger como alvo, em vez dos ricos — como muitos dos Coletes Amarelos prefeririam -, um outro grupo mais humilde que o anterior, os funcionários públicos, numerosos demais, bem-pagos demais, não produtivos o suficiente? Por que não pedir deles sacrifícios adicionais em nome da solidariedade com os mais pobres? Nós sabemos que há alguns líderes de sindicatos com suas canetas prontas para ratificar os cortes sociais mais descarados possíveis. A menos, e isto não é a parte menos escandalosa do discurso presidencial, que o alvo seja focar o debate na “questão imigratória”, ou mesmo no Islã, mesmo que isso não seja de modo algum algo central às declarações dos Coletes Amarelos.

Dois caminhos

Contudo, nada foi resolvido de vez pela intervenção televisiva de Macron em 10 de dezembro. Não há garantias de que a raiva passará tão cedo. Isto seria, aliás, muito surpreendente, visto o quanto as autoridades foram abaladas. Daqui a pouco tempo, a sociedade francesa, assim como outras pelo mundo, terá que escolher entre dois caminhos divergentes. O primeiro é o caminho nacionalista, protecionista, hiper-autoritário e anti-ecológico — aquele seguido por Trump, Bannon, Salvini, Le Pen, Bolsonaro, Orban ou Erdogan, o qual prospera no mundo inteiro aproveitando-se de todas as frustrações e ressentimentos gerados pelo neoliberalismo. Entretanto, longe de ser uma alternativa ao neoliberalismo, este caminho é uma versão histórica nova e radicalmente antidemocrática desse mesmo sistema, em uma época na qual consequências sociais, políticas e ambientais trazem à tona a questão de uma mudança fundamental no sistema político e econômico. O objetivo é fazer com que as pessoas acreditem que a restauração de um estado-Nação governado a punho de ferro, dotado de todos os atributos de soberania interna e externa, capaz de fechar suas fronteiras aos imigrantes, e impondo as leis financeiras e de mercado mais duras sobre o povo, e rejeitando todos os tratados internacionais de cooperação climática, é a única maneira de melhorar a situação social da grande maioria. Trump é agora o campeão mundial dessa linha política, e é grandemente assistido nesse papel por Macron.

O segundo caminho, democrático, ecológico e igualitário, o qual foi afirmado por várias décadas em todas as lutas sociais e resistência ao neoliberalismo, no altermundialismo, nos Movimentos dos Largos [Occupy Wall Street e Indignados], nos múltiplos laboratórios de bens comunais, é o único capaz de evitar o colapso dos ecossistemas e a desintegração e fragmentação das sociedades. Sua única fraqueza é ainda não ter uma expressão majoritária e uma nova forma política. Ele foi afetado, em primeiro lugar, pela traição da esquerda governamental, em particular de sua versão “social-democrata”, e agora está tragicamente enfraquecido pelas divisões entre líderes de organizações mais preocupadas com seus próprios interesses paroquiais do que com sua responsabilidade histórica.

A questão mais primordial hoje é, portanto, se a insurreição dos Coletes Amarelos permitirá a posição democrática, ecológica e igualitária prevalecer sobre a frente nacionalista, e de identidade fascista, a qual venceu na Itália e, mais recentemente, no Brasil.

A rejeição da representação política e a auto-organização do movimento

Assim como muitos já observaram, este movimento juntou indivíduos de classes, idades e opiniões diferentes. Alguns abusos de natureza racista, misógina ou francamente fascista ocorreram e ainda podem acontecer aqui e acolá, talvez até se desenvolverem. Saques e ataques a lojas por gangues juvenis também aconteceram em algumas partes da capital e em vários centros de cidades, e isso tem servido como um álibi para desacreditar o movimento social. Todavia, esta não é a lógica mais profunda e basilar instigando o movimento, este sendo diverso, plural e muitas vezes fruto de um impulso de base exercido por mulheres. Se um indivíduo isolado quis que um general tomasse o poder, ele não é de forma alguma um representante legítimo de um movimento que rejeita qualquer usurpação de si por meio da representação. A lógica atual por detrás do movimento é não depender de um líder que sirva como encarnação do povo, seja lá como os teoristas do populismo interpretem essa questão, já que para eles é o representante que cria um povo e lhe dá a sua unidade. Também não é um objetivo basilar do movimento a renovação da “representação nacional” por meio da dissolução do parlamento, mesmo que os líderes tanto de La France Insoumise como do Rassemblement National (anteriormente chamado de Front National) procurem canalizar o movimento para que ele deságue no espaço eleitoral. Todo mundo sabe, ou deveria saber, que neste joguinho, é o partido neo-fascista que venceria no fim das contas.

Sem antecipar o resultado do movimento dos Coletes Amarelos, a primeira lição que podemos aprender a partir dele é a capacidade inovativa que este demonstrou, rejeitando de antemão qualquer cooptação e dependendo apenas de sua força coletiva para fazer-se ouvido e formular suas reivindicações sem o cálculo tático de um aparato partidário, tendo como ponto de partida as condições intoleráveis experimentadas por indivíduos reais e anteriormente invisíveis. Aquilo que a televisão retratou como a principal fraqueza do movimento — sua “incapacidade” de ser representado — é ainda assim a sua característica mais notável, e o seu significado total precisa ser entendido: não é uma “incapacidade”, e sim uma rejeição a princípio de qualquer representação. E tal recusa é totalmente justa. É bem improvável haver alguma dúvida de que isso não seja outra coisa além de uma consequência de uma profunda crise de legitimidade dos governos, dos representantes eleitos, da mídia e até dos sindicatos, crise esta causada e acentuada pela radicalização neoliberal das oligarquias. Mas há outro aspecto, o qual é pouquíssimas vezes apontado em análises do movimento, que é não obstante o lado positivo desta recusa em aceitar qualquer representação: face ao esvaziamento de uma democracia representativa a qual não representa mais a sociedade, a resposta mais espontânea dos Coletes Amarelos tem sido a auto-organização de suas ações, não apenas de entraves nas estradas e de manifestações, mas também a elaboração coletiva de reivindicações no decorrer de reuniões e assembléias. Uma lição maravilhosa para partidos e sindicatos cuja reação tradicional e automática é supervisionar as massas e emitir demandas, instruções e slogans de forma vertical.

Pode não ser a mesma coisa que o Nuit Debout, mas o ponto em comum do movimento atual com a ocupação dos largos é o desejo prático da população de resolverem questões coletivas por si só. O chamado dos Coletes Amarelos de Commercy é um exemplo do espírito de democracia direta que inspira os comitês de base. É pertinente citar trechos grandes:

Aqui em Commercy, no Meuse, operamos desde o início fazendo assembléias populares diárias, nas quais cada pessoa participa de maneira igualitária em relação aos demais. Organizamos entraves na cidade e de postos de combustíveis, e bloqueios de estrada seletivo. Simultaneamente, construímos um barracão na praça central. Lá, nos reunimos todos os dias para nos organizarmos, e recepcionar aqueles que se juntam ao movimento. Nós também organizamos “refeições solidárias”, para vivermos bons momentos juntos e conhecermos uns aos outros. Em total igualdade. Mas agora o governo, e algumas partes minoritárias do movimento, estão propondo que escolhamos representantes por região! Em outras palavras, algumas pessoas as quais se tornariam os únicos “interlocutores” para as autoridades públicas, dando assim uma resumida na nossa diversidade. Mas nós não queremos “representantes” que necessariamente acabariam falando por nós! […] O governo não está exigindo “representantes” para conseguir entender melhor nossa raiva e nossas reivindicações, e sim para nos supervisionar e nos sufocar! Em conjunto com líderes de sindicatos, ele está procurando por intermediários, pessoas com as quais ele poderia negociar. Por meio das quais ele poderia aplicar pressão e assim acalmar a erupção. Pessoas que ele poderia então cooptar e impulsionar para dividirem o movimento e sufocá-lo.

Mas isso não leva em consideração a força e a inteligência de nosso movimento — sem contar que estamos constantemente pensando, nos organizando, desenvolvendo aquelas nossas ações que tanto lhes assustam, e amplificando o movimento! E acima de tudo, há uma coisa muito importante demandada de diversas formas pelo movimento dos Gilets Jaunes em todos os lugares, e que vai muito além de simplesmente comprar o poder! Isto é:

poder ao povo, pelo povo, para o povo. É um novo sistema no qual “aqueles que nada são”, como afirmam com desdém, retomam o poder das mãos daqueles que se empanturram usando-se de líderes e dos poderes do dinheiro. É igualdade. É justiça. É liberdade. É isso que queremos! E começa-se pela base!

Se escolhermos “representantes” e “porta-vozes”, isso acabará nos tornando passivos. Pior ainda: teremos reproduzido rapidamente o sistema e funcionando de forma verticalizada, igual aos canalhas que nos lideram. Esses assim chamados “representantes do povo”, os quais enriquecem imoralmente, fazem leis que arruínam nossas vidas e servem aos interesses dos ultra-ricos! Não fiquemos preso na espiral da representação e cooptação. Esta não é a hora de confiarmos nossa voz a um grupo seleto, mesmo que este pareça honesto. Que eles todos nos escutem, ou então não ouçam ninguém!

A partir daqui, Commercy, nós convocamos portanto a criação de comitês populares por toda a França, para operarem como assembléias gerais constantes. Locais nos quais a fala seja livre, onde as pessoas ousem expressarem-se, praticar e ajudar uns aos outros. Se tiverem que haver representantes, que seja ao nível de cada comitê popular local dos Coletes Amarelos, o mais próximo possível da voz do povo. Com mandatos obrigatórios, revogáveis e rotativos. Com transparência. Com confiança.

Qualquer um que tenha visto os autores desse apelo se revezando no microfone para evitar qualquer captura de sua fala por um “representante” entenderá imediatamente a profundidade da demanda democrática que impulsiona este movimento. Mais uma vez, isso é muito mais do que desconfiança, e sim uma rejeição da substituição, pela qual uma minoria assume o direito de falar e agir no lugar da maioria. A grande presciência desta declaração é bem vinda: desde 6 de dezembro, “representantes” dos sindicatos, com a notável exceção do Solidaires, foram rápidos em socorrerem de um Macron totalmente isolado e cambaleante, algo que até provocou uma reação dentro da própria CGT [Confédération générale du travail, Confederação Geral do Trabalho, umas das cinco confederações nacionais de sindicatos reconhecidas pelo governo francês]. Estes famosos “corpos intermediários” são, por completo, parte da lógica da representação, e longe de agirem como prenúncio de um resultado positivo para a crise do regime, eles apenas servem para ajudar Macron a readquirir controle.

Claro, não há garantias de que as possibilidades abertas por essa democracia em ação sejam tornadas reais. O que importa agora é que vale a pena lutar por sua concretização. Deixemos o desprezo à invenção democrática com os neo-Blanquistas do “A Insurreição que Vem” e outros celebradores da “violência pura”. Os casseurs [manifestantes que cometem atos de violência durante os protestos] que se enxertam nas manifestações, sem participar de qualquer maneira das decisões coletivas, também contribuem para despojar o movimento de sua democracia interna. A questão como um todo é se o espírito completamente democrático do movimento será profundo o suficiente para fincar raízes permanentes e imunizar a sociedade contra as tentações fascistas que podem se desenvolver caso aquele falhe e se degenere. E esta única questão claramente implica nossa responsabilidade, a responsabilidade de todos nós.

O quietismo político

Um estranho raciocínio revela o profundo constrangimento de uma parte da tal esquerda “radical” face a este movimento singular e sem precedentes, o qual evade a todas as categorias do seu léxico político convencional. Essas pessoas afirmam que tal movimento “arrisca” desviar-se para uma direção ruim, reacionária ou fascista caso ele falhe em oferecer todas as categorias necessárias para nos tranquilizar quanto a seu futuro político. Esta avaliação de risco é expressa por meio de uma atitude cautelosa, ou mesmo total recusa de envolverem-se com aqueles que não atendem aos critérios pelos quais eles reconhecem estarem lidando com o povo [people pode significar “pessoas” ou “povo”, e o autor brincará com essa ambiguidade no próximo parágrafo], o povo verdadeiro, aqueles que carregam em si os autênticos valores da esquerda, identificam-se com seus objetivos e lutas, e certamente não correm o menor risco de serem empurrados ladeira abaixo em direção ao fascismo.

Este raciocínio pede duas observações. A primeira se refere ao uso da palavra “povo”. Claramente, ele foi investido aqui com um significado totalmente idealizado: fala-se de “o povo”, no singular [people como “povo”, entidade singular e universal, e não como “pessoas”]; a população real, necessariamente impura e diversa, não é nada frente a essa entidade, e é convocada a conformar-se a esse ideal para serem merecedores dessa prestigiosa designação. Caso falhem nesse objetivo, é justificável afastar-se deles e deixar que se virem sozinhos. Infelizmente, este povo ideal não existe, exceto no paraíso quase platônico do esquerdismo incorruptível. Inexistência tal qual aquela do “povo” visto como uma “comunidade de cidadãos”, tão amado pela tradição republicana e ao mesmo tempo ritualmente ressuscitado em toda grande eleição como a mistificação do “interesse geral”, o qual é simplesmente um povo feito sob medida por instituições políticas existentes para o bem maior das oligarquias. Devemos ser bem claros: o povo real nunca é o povo ideal. Deixemos o sonho de um povo ideal aos burocratas e outros vanguardistas de carteirinha.

Ao fim da insurreição popular de 17 de junho de 1953 na Alemanha Oriental, Brecht perguntou: “Não seria mais fácil então, para o governo, dissolver o povo e eleger outro?”³ A menos que queiramos recorrer a reivindicações ridículas do tipo “mudar o povo”, as quais sem sombra de dúvidas oferecem proteção contra a decepção, precisamos aceitar a heterogeneidade e impureza das pessoas reais. Qualquer outra coisa não passa de distração. Significaria isso que nenhuma distinção possa ser feita entre o “povo social” e o “povo político”? O povo social é definido por sua pobreza e miséria, em oposição às elites ou à oligarquia, mas eles são igualmente heterogêneos e diversos, atravessados por tensões e contradições, tal como vemos hoje em dia. O verdadeiro povo político não é nem as pessoas do eleitorado, nem as pessoas sociologicamente definidas por sua pobreza ou miséria, e sim aqueles que agem, as pessoas-atores inventando novas formas de auto-organização por meio da ação. Este povo nunca é um “todo”, é sempre apenas uma parte, mas ela é a porção que abre novas possibilidades para todos, isto é, para a sociedade inteira. O “povo da esquerda’ não é outra coisa a não ser uma falsa invenção de partidos antigos cuja única função é reativar sua base eleitoral quando certas consultas se aproximam ou quando eles estão passando por dificuldades. Em geral, só há “povos” no plural, sua emergência imprevisível e todas as vezes única, e a fórmula “um equivale a todos” é apenas uma fatal ilusão. A coincidência do social e do político em um “novo amanhecer”, é apenas um devaneio, um mito que a esquerda crítica deve jogar fora de uma vez por todas.

A segunda observação tem a ver com a conclusão prática que este argumento tem a intenção de justificar. Por mais surpreendente que seja, esse raciocínio é mais ou menos similar a um argumento bem antigo, conhecido na filosofia grega como “preguiçoso” ou “inerte”. Cícero o define em seu tratado Sobre o Destino, afirmando que se o aceitarmos, passaríamos nossas vidas inteiras em completa inação. Basicamente:

Se você está doente e seu destino é curar-se, você se curará, independentemente de chamar ou não o doutor; mas se seu destino é não se curar, então chamando ou não o doutor, ainda assim você não se curará. Mas seu destino é ou se curar, ou não se curar. Portanto, é perda de tempo para você chamar o doutor.⁴

Agora dá para entender porque esse argumento merece muito bem o nome de “preguiçoso”: ele justifica abster-se de qualquer ação e leva as pessoas ao quietismo (de quies, que significa “descanso” em Latim). Algumas pessoas argumentarão contra tal comparação afirmando que aqueles os quais alertam quanto ao perigo de uma guinada à direita do movimento não estão usando do destino ou do fatalismo, mas simplesmente reconhecendo riscos, meras possibilidades. Mas a questão aqui é precisamente que atitude devemos tomar com relação àquilo o qual, atualmente, consiste apenas de “possibilidades”.

O objetivo deste comparativo proposto aqui é destacar a atitude quietista resultante deste reconhecimento de possibilidades remotas. Essas pessoas argumentam como se a concretização de uma possibilidade, no lugar de outra, fosse completamente independente de suas ações. Eles dizem a si mesmos, sem realmente ousarem admitir isso: “se a pior possibilidade tornar-se realidade, ela vai se tornar realidade, quer nós intervenhamos ou não para impedi-la.” Desta maneira, eles se livram de antemão de qualquer responsabilidade. A premissa por detrás dessa atitude é que seja lá qual das possibilidades possa acabar, eventualmente, tornando-se real, até mesmo a pior delas, nós não tivemos nada a ver com isso. Ou isto ou aquilo ocorrerá, ou não, mas em qualquer caso é inútil intervir. Se por algum acaso isso acabar acontecendo, a culpa será dada, de antemão, às inadequações e ambiguidades do movimento. Porém, abster-se de fazer uma intervenção prática não significa simplesmente observar a evolução do movimento de longe, e sim, mesmo que isso seja ou não negado, promover a concretização da possibilidade mais preocupante e ameaçadora, aquela precisamente responsável por justificar a recusa à ação. É bem fácil dizer “nós avisamos” ao término de tudo, se você mesmo contribuiu diretamente para tornar essa possibilidade negativa uma realidade. Hoje em dia, particularmente, é importante alertar contra essa postura: o quietismo político serve aos interesses do inimigo, e é portanto imperdoável. A urgência deste momento demanda de nós que ajamos no movimento tal como ele é e com os Coletes Amarelos, aceitando-os como são e não como gostaríamos que eles fossem; resolutamente apoiando tudo que vá na direção da auto-organização e da democracia. Repito: ainda não acabou. O presente é novo, o futuro está aberto e nossas ações importam, aqui e agora. Ato Cinco.


[1] Ségolène Royal, o candidato socialista para o cargo de presidente em 2007, disse que o tratamento dado pela polícia aos estudantes “deu uma lição neles”.

[2] O CICE, “Crédito tributário para a competitividade e empregabilidade”, efetivamente diminui os impostos sobre as empresas em €20 bilhões por ano desde 2013. O CIR, “Crédito tributário para a pesquisa”, fazia por sua vez uma diminuição ainda maior, de €6 a€7 bilhões.

[3] Bertolt Brecht, A Solução.

[4] Cicero, De Fato.


Autores: Pierre Dardot e Christian Laval
Publicado em: 17 de dezembro, 2018
Original: https://blogs.mediapart.fr/les-invites-de-mediapart/blog/121218/avec-les-gilets-jaunes-contre-la-representation-pour-la-democratie
Tradução original (francês para inglês): David Fernbach
Tradução e revisão: Eliel Micmás [Comunidade dos Tradutores Proletários]

Arte de capa: Eliel Micmás [Comunidade dos Tradutores Proletários]

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