Void Circle, 2 de janeiro de 2019

Quase dois meses após terem surgido, os Coletes Amarelos ainda estão por aqui! O movimento começou a atrair atenção internacional e uma cobertura midiática mais extensiva após os eventos que se sucederam no dia 1 de dezembro de 2018. Isto era previsível, já que independentemente de qual acabe sendo o nosso julgamento político quanto à situação, estamos cara a cara com uma revolta nacional, a qual não simplesmente conjurou a possibilidade de um estado de emergência, mas na verdade efetivamente o implementou de forma informal, por meio das extensivas medidas policiais impostas durante as manifestações de 8 de dezembro.

Dentre os numerosos textos escritos sobre os Gilets Jaunes, há os típicos conselhos condescendentes advindos de comentaristas “responsáveis”, os quais se dirigem principalmente às alas “moderadas” do movimento. Há também, dentre esses textos, um bocado de idealização e uma forma de pensar sonhadora e infantil, que acha que algo já é verdade só porque se deseja que seja: é possível ver, por exemplo, autores expressando a necessidade de “ver algo acontecer de verdade” e assim criar uma força contrária a certos fenômenos alarmantes, em especial contra a ascensão da extrema-direita em diversas partes do mundo.

Por outro lado, assim como em todos os outros movimentos recentes (o levante anti-austeridade na Grécia sendo um caso exemplar disto), os Coletes Amarelos tornaram-se o alvo de críticas virulentas vindas daqueles que assumem uma perspectiva “classista” e de extrema-esquerda. Antes mesmo que o movimento pudesse desenvolver seu ímpeto total, uma verdadeira compulsão tem levado alguns a declarar que os “Gilets Jaunes” não são aquilo que realmente deveriam ser, pautando-se em alguma noção preconcebida de como um movimento “verdadeiramente” radical precisa ser.

É necessário pontuar que o conteúdo da crítica varia. Alguns vêem nos Coletes Amarelos apenas “espetáculo” no lugar de uma rebelião verdadeiramente composta das massas invadindo o espaço público, como se fosse possível hoje existir um movimento popular que não seja capturado em imagens massivamente transmitidas e se torne portanto “espetáculo”. Outras críticas confundem tese teórica com ponto de vista político, e ficam no aguardo de que a famosa contradição entre “capital e trabalho” saia perambulando pelas ruas, igualzinha a como está no papel, numa luta de classes desprovida de áreas cinzentas.

Ao lado destas críticas, caminham também acusações de que o movimento é “pequeno-burguês” e “interclassista”, como se fosse possível termos uma revolta em massa que não seja heterogênea, ou como se fosse impossível não existirem problemas, demandas e reivindicações as quais talvez não sejam estritamente “proletárias”, mas que de qualquer forma interessam a uma parte importante da classe trabalhadora — ainda mais hoje em dia, já que a generalização de fenômenos como o endividamento e a precariedade andam criando uma gama de afetos comuns e impasses dentre os estratos médio e baixo das formações sociais capitalistas.

Claro, há críticas que são sensíveis e perspicazes, e que demarcam contradições e problemas reais, como a presença de grupos de extrema-direita entre os Gilets Jaunes, a qual é possibilitada por certas características identificáveis do movimento. Também vimos ser salientado, astutamente, que apesar da intensidade das manifestações, não há, a nível de discurso político, uma crítica ou questionamento do “Estado como provedor de direitos e do bem-estar”, muito menos do capital como relação social. Dito isto, é importante frisar que a retórica “populista” sobre elites privilegiadas e um povo sem direitos, ou sobre a divisão entre ricos e pobres, não está “errada” em alguma espécie de nível descritivo — é justamente por isso que essas mesmas descrições tem provado ser, vez após vez, bem-sucedidas como representações discursivas de divisões sociais. O problema deste tipo de discurso é outro, e está a nível analítico e retórico: ele não põe em evidência o problema das relações e das formas que constituem a pressuposição material da separação entre povo/elite e pobres/ricos.

Mas eis o real dilema — mesmo que esses críticos estejam certos, a externalidade relativa de suas críticas em comparação às lutas e ao que está em jogo para aqueles que participam destas revela algo: a incapacidade daqueles que criticam de exercerem qualquer influência significativa nos movimentos de massa. Por isso, a crítica adquire um caminho de mão-dupla, retornando à sua própria fonte. Na verdade, este problema não diz respeito apenas à extrema-esquerda, mas já contamina todo o hemisfério esquerdista — o que se torna visível, mais uma vez, é a fraqueza da Esquerda e da Anarquia de exercerem hegemonia real, isto é, de afetarem a cultura (política).

Certamente, é necessário que caminhemos para além de um ponto de vista prescritivo e entendamos esta fraqueza como um fenômeno histórico. Não obstante, se foi possível ver no Coletes Amarelos uma pequena guinada à esquerda, isto tem a ver, em parte, com o fato de que esquerdistas e anarquistas participaram sim do movimento, no lugar de simplesmente julgarem-no de longe. Independentemente de como gostaríamos que as coisas fossem, o fato de que não haviam milhares de bandeiras rubro-negras nas mãos dos Coletes Amarelos não significa, já de antemão, que o movimento é reacionário.

O mesmo vale para a presença de bandeiras nacionais — a bandeira francesa concentra em si significados múltiplos e contraditórios. Isto não quer dizer, todavia, que a presença de símbolos nacionais não seja potencialmente problemática, especialmente no sentido de que ela tende a afirmar a divisão entre cidadãos nativos e estrangeiros sobre a qual o Estado-nação moderno reside. Dito isto, a presença de elementos xenofóbicos não deve ser exagerada. A identidade do movimento não é xenofóbica ou nacionalista, muito menos suas demandas e reivindicações. Qualquer um pode, em princípio, tornar-se um Colete Amarelo, e esta é a causa de ter sido relativamente fácil grupos sociais diferentes adentrarem o movimento. Além disso, este último aborda problemas que interessam a muitas pessoas independentemente de sua identidade étnica — afinal, há algum assalariado que não queira um melhor salário, ou alguém vivendo em uma comunidade qualquer que não se beneficiaria de um maior acesso à tomada de decisões?

São tais demandas e aspirações políticas e econômicas, referentes à justiça social e ao reconhecimento cívico, que oferecem a base material para uma unidade pluriétnica/internacional numa escala massiva, e sem a qual os clamores por tal união permanecem como declarações evocativas, mas idealistas, daquilo que deveria acontecer. Mesmo que, sob nossa perspectiva, tais demandas e aspirações não sejam suficientes, a radicalização só pode ocorrer como um processo dialético imanente ao movimento.

Os Coletes Amarelos são uma manifestação popular — “plebeia” também seria um adjetivo igualmente válido — no sentido mais literal do termo: uma parte representativa “do povo” levantou-se contra uma vida que se torna cada vez mais difícil de se viver. Obviamente, em um nível mais básico, as expectativas e demandas do movimento não podem expressar outra coisa que não seja a realidade das pessoas que o compõem, já que essa mesma realidade é determinada por uma economia do desejo já estabelecida.

Realmente: o fato de que, apesar dos extensivos mecanismos de consenso e integração que existem nas sociedades capitalistas modernas, a experiência social nunca é unitária, nem mesmo dentro de uma mesma classe, ajuda a explicar a pluralidade dos fluxos de desejo permeando o movimento, tal como também suas tensões internas e contradições. Entretanto, mesmo que os Coletes Amarelos permaneçam ainda, em maioria, presos a uma realidade social contra a qual se rebelam sem que possam enxergar algo além dela, as demandas e reivindicações do movimento não são reacionárias.

A extrema-direita também não foi capaz de adquirir hegemonia, mesmo que após o fim do movimento Le Pen ou outros grupos de direita sejam capazes de angariar votos a partir dele. Ademais, enquanto um movimento ainda existe, ele é por definição não-estático. Além da já manifesta e notável capacidade do movimento de adquirir uma escala massiva, e de exercer ação direta horizontal, tem ocorrido adicionalmente uma acentuada radicalização do movimento, como também um desvio deste para uma direção mais “à esquerda”.

O que poderá resultar dos Gilets Jaunes? Não dá para deixar passar despercebido que o movimento forçou Macron, o qual se porta como um reformista equilibradíssimo que “não cederá sob hipótese alguma”, a fazer concessões e (talvez bem mais crucialmente) reconhecer o movimento e seus interesses. Por outro lado, há sinais de fadiga e desmassificação, e é possível que os Coletes Amarelos estejam começando a encontrar os mesmos limites com os quais outros movimentos, no recente ciclo de lutas, acabaram se defrontando. Não podemos nos dar o luxo de ignorar, em especial, que não surgiram quaisquer órgãos e instituições capazes de agir como um “poder duplo”. Por conseguinte, mesmo que sua persistente recusa a fazerem negociações ou serem representados por alguém seja uma força do movimento e uma fonte de potencial, a falta de órgãos representativos leva a um impasse, pois as estruturas atuais de representação não estão sendo desafiadas ao nível de uma alternativa.

Outra vez: o equilíbrio entre uma compreensão crítica e um ponto de vista prescritivo é a chave para uma intervenção política efetiva. Não podemos, obviamente, simplesmente fazer num passe de mágica com que um movimento siga o caminho que desejamos — e se a revolta na França nos mostra alguma coisa, tal qual o movimento anti-austeridade na Grécia (e nem estamos falando dos outros movimentos bem mais minoritários em outros países ocidentais), é que uma revolução não está na “ordem do dia”. Dito isto, entretanto, a transformação das relações sociais é um processo macro-histórico e perpassa por expectativas frustradas, instabilidade em massa e revoltas de ampla intensidade e extensão.

Os Gilets Jaunes são uma dessas revoltas. Na verdade, ela possui uma característica crucial, que amplia sua significância: a sua composição de classe é nada mais nada menos do que a própria espinha dorsal das sociedades capitalistas contemporâneas. Nesse sentido, essa revolta indica quão profunda é a crise atual. De igual importância é o fato do movimento ter conseguido revelar a não-correspondência entre um povo e sua representação estatal/jurídica. Isto confirma mais ainda que a maior ameaça a um Estado é sempre sua população. Isto implica que, mesmo que a curto-prazo os Gilets Jaunes não sejam os precursores da primavera, ou pior, que eles sejam os espasmos de um longo inverno, eles não obstante predizem um possível surto revolucionário.

Afinal, seja qual for o conteúdo de uma revolução, ela sempre terá mais importância do que as ações de grupos pequenos e ideologicamente compactos — não porque tudo que é de escala massiva seja necessariamente positivo, ou que experimentos a nível molecular sejam irrelevantes, longe disso; mas sim porque é politicamente absurdo defender a ideia de revolução e achar que movimentos de massa que lutam por uma melhoria de vida e que também possuem qualidades horizontais/igualitárias ao mesmo tempo em que valorizam espaços pequenos e ideologicamente homogêneos não sejam prefigurações de um grandioso futuro comunista. No lugar de usarmos uma lógica “ou é uma coisa ou é outra”, pensemos em como tais ambientes políticos difusos podem positivamente favorecer movimentos homogêneos.

A mudança revolucionária também não pode ser reduzida a uma onda de ataques irregulares por parte dos “excluídos”, tal como é fantasiado por meio de representações romantizadas do proletariado marginalizado vivendo nos guetos, banlieues e favelas das metrópoles modernas. Ao mesmo tempo em que estes grupos precisam ser, obviamente, empoderados, nós simplesmente não podemos falar seriamente em uma transformação social de larga escala (afinal, frente tanto ao que está acontecendo como ao que irá ocorrer no futuro, há algo que seja menos [sic] necessário?) que não abarque amplos segmentos das classes média e trabalhadora. É a partir deste ponto de vista que insistimos que os Coletes Amarelos, tanto no que diz respeito ao que eles tem feito como também no que se refere a todas essas coisas que eles poderiam (não) ter feito, são não apenas um sinal dos tempos, mas uma imagem de um futuro incerto, no qual uma esperança germina.

Em todo e qualquer evento, é fácil julgar, elogiar e criticar à distância. Todavia, até porque muitos de nós já se encontraram numa posição similar, permanece ainda a questão posta pelas minorias que continuam a erguer bandeiras rubro-negras: podemos participar de algo que nos excede, de lutas cujo resultado, este dependente de nossas tentativas de organização e de promoção de justiça, alcançam escopo histórico? Somos aptos a permanecermos ao lado de pessoas com as quais não concordamos nem nos identificamos? Somos capazes de arriscar, de errar, de nos desapontarmos? Se a resposta dessas perguntas for negativa, então podemos até falar o dia todo sobre revolução, mas nunca seremos parte das forças responsáveis por ela.


Autores: Void Circle – assembléia política da Void Network (http://voidnetwork.gr) / membro da Federação Anarquista na Grécia 
Publicado em: 2 de janeiro, 2019
Original: http://voidnetwork.gr/2019/01/02/void-network-signs-timesimage-future-thoughts-yellow-vests-revolt-france/
Tradução e revisão: Eliel Micmás [Comunidade dos Tradutores Proletários]

Arte de capa: Eliel Micmás [Comunidade dos Tradutores Proletários]
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