Alain Badiou é um filósofo e dramaturgo francês nascido em Rabat, no Marrocos, no dia 17 de janeiro de 1937. Professor emérito na Escola Normal Superior, é fundador do Centro Internacional de Estudo da Filosofia Francesa Contemporânea. Em 1988, publicou uma suma filosófica, O ser e o evento. Sua obra chamada Sarkozy é o nome de quê? (De quoi Sarkozy est-il le nom?) (2007) tornou-o conhecido do grande público.  

O filósofo acaba de publicar Radar poesia (Gallimard), um ensaio sobre a obra poética de Louis Aragon. Boa oportunidade para encontrá-lo, evocar com ele o poeta e fazer-lhe algumas perguntas sobre a realidade atual.
Pode causar espanto, e com razão, uma leitura tardia de Aragon-poeta pelo filósofo Alain Badiou. Já se sabia de seu interesse fundamental por Mallarmé. Olhando mais de perto, porém, surge uma lógica que tem a ver, em síntese, com seu próprio percurso intelectual, desde a social-democracia de « esquerda » até o comunismo, tudo isso à luz de Maio de 68. Hoje, Alain Badiou procura compreender como o poeta Aragon foi « organizado ». Ele destaca três engajamentos, em sua obra: a política, o amor e a arte, esta última uma « ideia-causa » central, enquanto os dois primeiros são « objetos-causas », denominados, respectivamente, Partido Comunista Francês e Elsa Triolet.



O que o levou a fazer uma releitura atenta da obra poética de Louis Aragon? Em princípio, seria de se esperar que o tema fosse Mallarmé – é difícil deixar de lado os preconceitos! 

Alain Badiou O preconceito seria achar que para se interessar por Aragon fosse necessário abandonar Mallarmé! Pratiquei Mallarmé por muito tempo, e escrevi sobre ele parágrafos bastante copiosos. Mas, ao mesmo tempo, eu amava e citava com bastante frequência [Vitor] Hugo. Acontece que, na língua francesa, há dois tipos de poetas: aqueles que vão da sensação à abstração, como Mallarmé, quando diz extrair de todas as flores sensíveis « o ausente de todos os buquês », e os que fazem surgir da língua, conceitual ou narrativa, uma pura essência sensível, como Hugo, que prepara, em um lugar distante, o surgimento do « cardo azul das areias1 ». Sem dúvida, Aragon se situa do lado de Hugo. Para mim, trata-se de uma revelação recente: foi um pouco por acaso, ao encontrar o poema em louvor do Partido Comunista intitulado « Como a água se tornou clara », que percebi a grandeza absolutamente original de Aragon, e comecei a lê-lo sistematicamente. 

O que o levou a pensar que o poema, em Aragon, precisa de uma causa para ser « acionado »? 

Alain Badiou Contrariamente ao que algumas vezes já se disse, ao saudar ou vilipendiar o oportunismo e o virtuosismo em Aragon, quando eu o leio sempre sinto agitar-se na contracorrente do poema uma sensação, um problema, um tormento, uma certeza, uma ocasião que não se deve perder. Eu quis distinguir, de certa maneira, os registros reais dessas motivações subjetivas, e vi que, além da poesia em si, que é a mais difícil e também a mais fecunda de suas paixões, havia duas referências sólidas, objetivas, às quais ele voltava obstinadamente: o Partido Comunista e Elsa Triolet. E, inspirando-me em Lacan, dei o nome de « objetos-causas do desejo (de poesia) » a esses dois objetos. Tenho a impressão de que essa maneira de agir se mostrou fecunda.  

Foi ao reencontrar o poema em louvor do Partido Comunista intitulado « Como a água se tornou clara » que percebi a grandeza absolutamente original de Aragon. 

Em “Radar poésie “, você escreve que « o comum da infelicidade abre para o comunismo ». O que você quer dizer, exatamente? 

Alain Badiou Sempre observei que as camadas mais pobres e mais expostas de uma sociedade são também aquelas em que se encontram as provas mais evidentes de ajuda mútua e solidariedade. O fato de uma desgraça ser vivida como uma coisa ‘comum’ atenua a ferida, em grande parte. Devemos, então, lembrar que « comunismo » carrega a palavra « comum », o que é comum. Afinal de contas, uma greve operária bem sucedida é uma greve que fortalece a união entre os operários a partir do que eles têm em comum: os empregos, a cadeia de produção, as cadências, a desigualdade programada dos salários, mesmo para trabalhos iguais, etc. É por isso que, quando eu explicava os mecanismos da mais-valia aos operários de Chausson, em Gennevilliers, em meados dos anos 70 do século passado, eles compreendiam prontamente o que eu dizia, porque isso remetia a uma experiência comum, feita em comum, do sobretrabalho. Da greve ao marxismo e inversamente, o que sustentava a circulação era o comum da desgraça. 

Alain Badiou Sim, para Aragon, que declara com força « meu Partido », o Partido Comunista é um apoio, uma sustentação da subjetividade que age. Quando o sujeito nele entra como em uma parte de si mesmo, como em « sua » casa, o Partido tem o poder de resolver os problemas, de superar contradições pessoais, por exemplo (« meu partido me devolveu as cores da França »), a contradição aparente entre o engajamento internacionalista e o patriotismo da Resistência. É por isso que pode haver essa quadra maravilhosa em que o Partido está, para o sujeito-Aragon, à altura do sonho, do coração, da embriaguez, do perfume, e, finalmente, da vida como tal: 

« Eu te saúdo (o Partido), fênix imortal de nossos sonhos 

Eu te saúdo, cor do coração força do vinho 

Perfume quando o vento do povo finalmente se levanta 

Invadindo a vida, enfim. » 

Voltemos às notícias quentes da atualidadeOnde está o comunismo, a « causa-ideia » comunista, nesta hora do capital globalizado? Você não insiste no que chama de « proletariado nômade »? 

Alain Badiou A ideia comunista está bem no início de sua terceira etapa, depois, a grosso modo: primeiramente sua invenção, entre os anos 1840 e o fim do século XIX, marcada pelo nome próprio Marx; em segundo lugar, sua primeira forma de realização, entre a revolução de 1917 e, digamos, os anos 1960, 1970 do século XX, sob a forma de Estado-Partido, por exemplo na Rússia e depois na China, etapa marcada pelo nome de Lenin; por fim, em terceiro lugar, cobrindo o fim do século XX e o início do século XXI, o esboço ainda muito obscuro de um comunismo distante do Estado, que carrega ativamente seu enfraquecimento, do qual a única experiência, porém tão precária e derrotada como foi a da Comuna de Paris, é a Revolução Cultural na China, via seu apogeu: a Comuna de Xangai – o que basta para que o terceiro nome-símbolo seja o de Mao Tse Tung. Inscrever-se nessa terceira sequência é, entre outras coisas, trabalhar constantemente tão perto quanto possível do nível mundial, do mercado mundial, evitando todas as armadilhas do nacionalismo. Quanto a isso, a atenção dada ao caráter mundial do mercado da força de trabalho, ao fato de que aqui mesmo uma parte considerável do proletariado não provém de outro lugar, e sim da França, seja imediatamente, seja por descendência, é um critério da maior importância, diante de uma circulação de mercadorias e de moeda que se tornou absolutamente mundial. É por isso que falo de um proletariado nômade. 

Nunca houve alternativa ao capitalismo que não fosse o comunismo. Tudo o que se apresentou nesse sentido não passou de uma variável de ajustamento do capitalismo.  

A ideia comunista constitui uma alternativa à única opção que nos vendem como « credivelmente » possível, que é a busca constante do capitalismo? 

Alain Badiou Nunca houve alternativa ao capitalismo que não fosse o comunismo. Tudo o que se apresentou nesse sentido, como a social-democracia, por exemplo, nunca passou de uma variável de ajustamento do capitalismo, sua roda sobressalente em caso de dificuldade local. O que confunde as pegadas hoje é a passagem muito complexa entre a segunda etapa, centrada no Partido-Estado, e a terceira, que deve distanciar-se desse centramento, e voltar às questões intrínsecas do comunismo: o fim do trabalho assalariado, o enfraquecimento do Estado, o fim das « grandes diferenças », como a que existe entre trabalho manual e trabalho intelectual, ou entre tarefas de execução e tarefas de comando… Tudo isso deverá ser levado ao centro das ações comunistas, ao mesmo tempo que a palavra de ordem de supressão da propriedade privada de tudo o que tem um valor comum. Ao mesmo tempo, e não indefinidamente adiado para mais tarde.  

Você continua pensando que elegemos sempre « representantes do poder »? 

Alain Badiou No nível do Estado, da gestão geral, não resta a menor dúvida. Cite-me um só Presidente que não tenha sido um gestor da ordem estabelecida burguesa! Mitterrand, eleito em 1981 para outra coisa, mostrou desde 1983 que apoiaria sem hesitação, com sua autoridade e influência, o retorno à ordem capitalista. Imagine que foi em 1986 que o governo Chirac criou o que funcionou como escritório central das privatizações! E lembremos o orgulhoso Jospin, declarando aos operários grevistas da empresa Michelin: « Ora, francamente, nós não vamos voltar à economia administrada! » Se, além disso, as coisas fossem diferentes, não dá para ver como é que a França poderia apoiar sua inclusão sem percalços no mercado mundial. É claro que restaram algumas margens de ação no nível municipal. Mas isso também está desaparecendo: veja o que acontece com a desindustrialização em massa em toda a periferia de Paris… Não há e nem haverá nenhuma orientação central comunista no quadro de uma democracia parlamentar. É preciso fazer uma campanha ativa para desacreditar totalmente o voto, e assim tornar claramente ilegítimos,  virtual e totalmente minoritários os representantes do poder das fortunas do CAC 402

Como estão hoje suas relações com Marx? 

Alain Badiou Excelentes em todos os sentidos. Espanta-me constatar que, mesmo que o melhor manual do militante comunista continue sendo O livro vermelho, composto de textos de Mao, a melhor introdução à compreensão geral do comunismo, articulada com a história da luta de classes e a análise do capitalismo, ainda é O Manifesto do Partido Comunista3

O que nos diz a crise sanitária mundial em que nos encontramos?  

Alain Badiou Não muita coisa, para falar a verdade. As epidemias atingem as coletividades humanas desde sempre. Em certos casos, como o da varíola, que massacrava os seres humanos aos milhões, as epidemias foram também erradicadas por uma vacina descoberta no século XVIII. É evidente que a mundialização do mercado capitalista e os meios de transporte transcontinentais difundiram o vírus a uma velocidade antigamente desconhecida. Também é claro que a dimensão de classe está perfeitamente visível, entre o burguês que se refugia em sua casa de campo e o pobre, em particular justamente o proletário nômade, que está na rua ou que vive amontoado com outros em uma moradia semiclandestina. Entretanto, como nas situações de guerra, um governo, seja ele qual for, tenta manter equilibrada a balança entre o risco, mortal ou sanitário, e a continuação da atividade econômica. Não há, nesse assunto, nenhuma solução milagrosa, sobretudo quando o vírus ainda não é completamente conhecido nem dominado, em termos científicos.  

De que Trump foi o nome, e o que será o pós-Trump, do seu ponto de vista? 

Alain Badiou Trump foi o nome de uma doença do parlamentarismo ou, mais precisamente, do fato de que o parlamentarismo só funciona corretamente se houver, claramente, dois partidos: republicanos e democratas, conservadores e trabalhistas, direita e esquerda… Hoje, a dificuldade é que o poder político ainda é nacional, enquanto a realidade econômica diz respeito a uma concentração de capital que funciona em escala mundial. Essa contradição produziu uma instabilidade dos partidos parlamentares nacionais. Na França, por exemplo, a direita está competindo com uma extrema-direita vigorosa, enquanto a esquerda se encontra em um estado avançado de decomposição. Nos Estados Unidos, da mesma forma, um aventureiro de extrema-direita conseguiu “representar” a direita. Fizemos face a uma espécie de fascismo eleitoral ou, melhor dizendo, um fascismo “democrático”, já que se trata de uma eleição regular. O pós-Trump, com o pálido Biden, nada mais é que um retorno à normalidade, provavelmente instável, visto que a base eleitoral de Trump continua muito significativa. 

Com essa única regra do lucro, há, necessariamente, predação e destruição na utilização dos recursos. Conclusão: a ecologia será comunista, ou então simplesmente não será.  

Às vezes entende-se um discurso bastante duro sobre a “mitologia ecologista”. Isso quer dizer que só existe o mitológico na ecologia?  

Alain Badiou É evidente que as invocações de nosso “planeta” como uma divindade ameaçada, as profecias do tipo bíblico, o gosto pela catástrofe, tudo isso lembra as religiões, efetivamente. A menina ainda bem jovem que prega em favor da natureza (Greta Thunberg – nota da redação) parece a Bernadete de Lurdes. O que é real é que, como a produção é submetida exclusivamente à regra geral do lucro e é conduzida irresistivelmente pela lógica violenta da concentração do capital, existe necessariamente algo de predador e destrutivo no saque dos recursos alimentares, minerais, petrolíferos, etc. Mas a única conclusão que se pode tirar é que a ecologia será comunista, ou então simplesmente não será.  

Que diferenças fundamentais você vê entre o século em que nasceu, o século XX, e este novo século?  

Alain Badiou O século XX foi o século das guerras mundiais, todas provocadas pela rivalidade dos grandes imperialismos, e das revoluções comunistas, engendrando, ao mesmo tempo, esperança de emancipação e impasses finais. O século atual não mudou nada do lado do capital, mas, quanto ao comunismo, ele deve ser reinventado. Daí resulta uma “cor” geral menos propícia à coragem e mais propícia às diversas formas do obscurantismo. 

SUGESTÕES DO AUTOR  
• « Les Poètes », de Louis Aragon, coleção « Poésie-Gallimard » (n° 114), 1976. 
• « Les Châtiments », de Victor Hugo, Garnier-Flammarion, 1978.



Tradução: Maria Betânia F. Champagne
Publicado em 18 de dezembro de 2020  
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