No dia 23 de janeiro, uma fração do movimento dos Coletes Amarelos, autointitulada Frente de Iniciativa Cidadã [Ralliement d’initiative citoyenne, RIC] anunciou sua intenção de concorrer nas eleições parlamentares francesas de maio de 2019. Foi publicada inicialmente uma lista com 10 nomes que concorrerão em nome do RIC, mas a frente política afirma que pretende, após votação interna, expandir para 79 seu número de candidatos ao Parlamento.

O grupo, ao mesmo tempo em que representa uma ruptura com o caráter, até então, cético e descrente em relação ao establishment político francês que permeava o movimento, está intimamente associado à própria atmosfera ideológica que paira dentro dos Coletes Amarelos. O primeiro indício desse fato contraditório encontra-se no seu próprio nome: “Ralliement d’initiative citoyenne” é uma referência, nem um pouco disfarçada, ao “Référendum d’initiative citoyenne” [Referendo de iniciativa cidadã], uma proposta política de democracia direta que se tornou popular entre os Coletes Amarelos.

Não é difícil resumir o que é este “Référendum”, tão falado dentro do movimento. Ele resume-se à execução de um referendo/plebiscito (a distinção entre ambos é um pouco mais obscura na França) por iniciativa própria dos cidadãos franceses, e que terá que ser considerado de alguma forma pelo governo. É no que diz respeito a esta última parte que as opiniões se divergem: alguns acreditam que o referendo deve apenas servir como material de consulta por parte do Parlamento, num instrumento de democracia semi-direta ; outros, entretanto, desejam que as decisões tomadas pelo povo, em seu referendo, tornem-se lei, configurando um processo de democracia direta.

A Constituição francesa, de qualquer forma, ainda impede que um referendo seja iniciado por iniciativa do povo, prevendo apenas que o governo é quem tem o direito de convocá-lo.

A Frente de Iniciativa Cidadã não demonstrou intenção de lidar com essa questão constitucional; mas é possível interpretar que este pretende se portar como um “outro caminho” de atingir os interesses encarnados na ideia do Référendum. Hayk Shahinyan, um de seus porta-vozes, afirmou à mídia francesa que o programa da Frente será construído inteiramente a partir da consulta daquilo que os cidadãos da França desejam. Nas próprias palavras de Hayk, “serão os próprios cidadãos que decidirão os nossos votos no Parlamento Europeu, projeto após projeto; e nós retiraremos este mesmo Parlamento dessa espécie de ‘opacidade’ no qual ele se encontra atualmente”.

Outra associação íntima entre o novo grupo e o movimento dos Coletes Amarelos reside no caráter aparentemente prosaico de seus membros — suas idades variam entre 29 e 53, e seus empregos vão desde operador de empilhadeira até diretor de vendas. Mas por detrás deste apelo “popular”, resta o fato de que alguns dessa “lista de 10” são ilustres (às vezes, de forma infame) dentro dos Coletes Amarelos. Entre os nomes anunciados está o de Ingrid Levavasseur, figura divisiva que ganhou proeminência durante os protestos — e foi, inclusive, quem primeiro anunciou a criação da Frente.

Levavasseur, fora de sua atuação dentro das manifestações e na mídia, é uma enfermeira de 29 anos de Eure, na Alta Normandia. Mãe solteira de dois filhos, Ingrid dá como uma de suas razões para ter se juntado aos Coletes Amarelos o fato de ter vivido cara a cara, dentre outras coisas, com aquilo que os franceses passaram a chamar de “desertificação médica”: a falta de profissionais de saúde suficientes às necessidades da população, causada pelo desemprego e por fragilidades da infraestrutura de saúde do país, dentre diversos outros fatores. “A desertificação, eu conheço; o humano, eu conheço; o sofrimento, eu conheço”.

Se suas características pessoais explicam seu apelo entre uma parcela significativa dos Coletes Amarelos, sua grande exposição midiática (e agora, sua candidatura) explica a desconfiança ou mesmo repulsa contra ela dentre muitos outros do movimento. Vista como uma traidora dos Coletes Amarelos, e como alguém que deseja “pacificar” o movimento ao tentar (nas próprias palavras de Levavasseur) “estruturá-lo”, Ingrid já foi forçada a recusar certas oportunidades de exposição na mídia sob as ameaças de outros membros dos Coletes.

Um ato midiático importante foi feito por Evelyne Liberal, uma “colete amarelo”, no dia 24 deste mês: ela foi enfática ao afirmar, por meio do L’Émission Politique: “Ela precisa tirar seu colete amarelo!”. Para Liberal, este não era o momento de criar um partido político. Dois outros nomes da lista causaram controvérsia. Um deles, Marc Doyer, foi visto no dia 24 vestindo uma camisa da campanha de Macron; Brigitte Lapeyronie, a quarta da lista, fez parte do conselho nacional do UDI (partido político que acabou fornecendo apoio à candidatura de Macron) até 2013.

Este fato pode criar uma grave cisão dentro dos Coletes Amarelos, e interferir marcantemente nas eleições parlamentares. Após uma pesquisa de opinião do Elabe, a Frente de Iniciativa Cidadã conseguiu um significativo percentual de 13% das intenções de voto. Dentro dos Coletes Amarelos em si, este fato pode significar uma desmobilização do movimento, ou uma quebra de uma característica até então singular deste: sob o símbolo homogêneo do colete amarelo e do ódio ao establishment macroniano, os protestos conseguiram abarcar membros das ideologias políticas mais diversas e díspares entre si.

E se junho de 2013 ensinou alguma coisa a nós, brasileiros, é que é sempre bom vigiar grupos e partidos que nascem de revoltas massivas e disformes…


Resumo de notícias e informações internacionais escrito e fornecido por nós da Comunidade dos Tradutores Proletários.

Fontes:

https://www.franceinter.fr/politique/qu-est-ce-que-le-referendum-d-initiative-citoyenne-que-les-gilets-jaunes-demandent

https://www.franceinter.fr/politique/le-ralliement-d-initiative-citoyenne-quand-les-gilets-jaunes-se-lancent-dans-les-elections-europeennes

https://www.bbc.com/news/world-europe-46985629.

https://today.rtl.lu/news/world/1296838.html

https://www.marianne.net/politique/qui-est-ingrid-levavasseur-liste-gilet-jaune-europeennes

https://www.valeursactuelles.com/politique/liste-gilets-jaunes-ingrid-levavasseur-etrillee-en-direct-103290

http://www.lavoixdunord.fr/504087/article/2018-12-11/les-elus-ruraux-au-secours-de-la-desertification-medicale

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