A todos presentes (participantes e ouvintes) do Encontro,
Este evento vem sendo organizado há meses, em um ano determinante para todos os pesquisadores vinculados ao que chamamos de “teoria crítica”, que se veem diante do fortalecimento de monstruosos sintomas de um mundo que acreditávamos não mais poder retornar. No plano da política mundial, ainda vacilamos em dar nomes a esses fenômenos: fascistas, neofascistas, extrema-direita, ultradireita etc. Seja como for, a experiência histórica atual remete-nos rapidamente ao retorno de um sinal de transição dos tempos; vemos crescer drasticamente movimentos autoritários contra imigrantes, negros, mulheres, LGBTQIAPN+. Sob a bandeira da liberdade, vemos defesas dos valores burgueses do individualismo, do ideal de empreendedor-de-si e da família patriarcal nuclear, buscando dar fim a processos históricos de conquistas de direitos para a classe trabalhadora em sua identidade multifacetada. Contra as organizações comunitárias dos de baixo, vemos um cerco se fechar a partir dos de cima – big techs e líderes anti-democráticos unem-se para gerir a reprodução do Capital através da guerra.
Como um espelho turvo, vemos a estranha aclimatação dos sinais desses tempos sombrios. Não se trata, porém, de uma novidade, mas do recrudescimento do que já vivemos há pouco. Desde, pelo menos, uma década enfrentamos um processo de amplo retrocesso `as garantias constitucionais de direitos históricos, intervenções indevidas em processos eleitorais, diante da judicialização crescente da política, o desequilíbrio entre os três poderes (legislativo, executivo e judiciário), culminando no impeachment da primeira presidente eleita na história de nosso país. Trata-se de uma série de golpes institucionais e infralegais os quais veem esfacelando as bases civilizatórias eregidas pela Constituição Federal Cidadã de 1988. Desde então, jamais cessamos de questionar e intervir publicamente diante dos retrocessos crescentes enquanto cidadãs, cidadãos, pesquisadores e pesquisadoras. Todos esses fenômenos atravessaram e atravessam nossas considerações em torno da organização deste evento, tendo em vista a possibilidade do retorno violento de um fenômeno que pouco se enfraqueceu nos últimos anos – pelo contrário, parece que se fortalece. Diante do esforço em realizar um diagnóstico que vise uma totalidade política concreta, perguntamo-nos “que pode a teoria crítica, hoje?”, especificamente, “que pode a teoria crítica a partir do Brasil?”.
Enquanto pesquisadores e pesquisadoras afiliados a uma tradição de pensamento que sempre buscou realizar diagnósticos críticos da realidade com vistas a emancipação de todas as formas de dominação, acreditamos que neste momento não há espaço para a neutralidade. A teoria crítica hoje, produzida no Brasil, deve estar a serviço do diagnóstico da crise multifacetada que atravessa o capitalismo e suas particularidades na sociedade brasileira, com o objetivo de contribuir para a elaboração de saídas alternativas ao projeto de mundo da extrema-direita.
Nesse sentido, não poderíamos deixar de notar que, enquanto realizamos este evento, o Brasil passa por um momento decisivo para seu futuro: as eleições presidenciais, que acontecem em menos de quinze dias, decidirão qual projeto de país será adotado diante da crise do capitalismo neoliberal. Depois de uma vitória acachapante da extrema-direita no primeiro turno, diante da eleição do Congresso mais conservador da história brasileira, corremos o risco de ver uma derrota ainda maior, caso o bolsonarismo ocupe a cadeira da presidência a partir do dia 01 de janeiro de 2027. Nunca antes a democracia, a soberania brasileira, a saúde pública, as universidades e a produção de conhecimento crítico estiveram tão em risco! Diante deste cenário, acreditamos que não há espaço para meias-verdades ou posicionamentos dúbios. Estamos diante de uma encruzilhada democrática! E enquanto teóricos e teóricos críticos preocupados com os sinais de nossos tempos, convocamos toda a comunidade científica para refletir ao longo dos próximos dias a respeito da produção de conhecimento científico e filosófico de nossa área. Buscamos criar um ambiente profícuo para o desenvolvimento e aprimoramento de nossas pesquisas, recebendo pesquisadores de diversas instituições e regiões do Brasil para fomentar a criação de diagnósticos precisos e perguntas afiadas – ambiente que corre profundo risco caso se concretize a vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro -. Afinal, quais foram os caminhos, ou melhor, descaminhos que a política brasileira se enveredou para estar nesse ponto: aqui e agora?
Cientes de nosso papel para o fomento à pesquisa, desenvolvimento nacional e inovação, nos posicionamos veementemente contra a volta do bolsonarismo ao poder e todo o projeto de aniquilação da vida em sociedade e da destruição da biodiversidade que ele representa. A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva é, portanto, a única possibilidade de manutenção das estruturas e liberdades democráticas necessárias para a garantia da vida em sociedade e para a construção de um projeto de emancipação condizente às necessidades e aos anseios do povo brasileiro!
São Paulo, 16 de Outubro de 2026

Comissão Organizadora do VIII Encontro de Teoria Crítica e Filosofia Política da USP
Ariane Velasco – mestranda em Filosofia (PPGFIL/USP), Bruna Nicodemos – doutoranda em Ciência Política (PPGCP/USP), Davi Camargo – mestrando em Ciência Política (PPGCP/USP), Helena Cunha – doutoranda em Ciência Política (PPGCP/USP), Karen Spisso – doutoranda em Filosofia (Humboldt-Universität/Berlin), Leonardo Silvério – mestrando em Filosofia (PPGFIL/USP), Talita Oliveira – doutoranda em Ciência Política (PPGCP/USP), Thomas Stanton – mestrando em Filosofia (PPGFIL/USP).