[1]La Révolution Surréaliste. n.º 05. Paris : 1925, p. 4. Nouveaux Poèmes. In: ÉLUARD, Paul. Capitale de la douleur. Paris : Gallimard, 2024, p. 122-123.A imagem do homem, fora do subterrâneo, resplandece. Planícies de chumbo parecem oferecer a garantia de que ela não será mais revirada, mas apenas para submergi-la nessa grande tristeza que a designa. A força de outrora, sim, a força de outrora bastava a ela mesma. Todo socorro é inútil, ela perecerá por extinção, morte suave e calma.
Ela entra no fundo do mato denso, cuja solidão silenciosa lança a alma num mar onde as ondas são lustres e espelhos. A bela estrela de folhas brancas que, num plano mais afastado, parece a rainha das cores, contrasta, com a substância dos olhares, encostados nos troncos da incalculável imperícia das plantas bem dispostas. Fora do subterrâneo, a imagem do homem empunha cinco sabres devastadores. Ela já escavou a masmorra onde se abriga o reino negro dos amantes da mendicância, baixeza e prostituição. No maior navio que atravessa o mar, a imagem do homem embarca e conta aos marinheiros regressos de naufrágios uma história de bandidos: “Aos cinco anos, sua mãe confiou-lhe um tesouro. O que fazer com isso? Senão amainá-la. Ela destruiu, com seus braços infernais, a caixa vítrea onde dormem as pobres maravilhas dos homens. As maravilhas a seguiram. O cravo do poeta sacrificou os céus por uma cabeleira loura. O camaleão demorou-se numa clareira para construir minúsculo palácio de morangos e aranhas, as pirâmides do Egito faziam rir os transeuntes, pois não sabiam que a chuva sacia a sede da terra. Por fim, a borboleta laranja sacudiu suas sementes sobre as pálpebras das crianças que acreditaram sentir passar o mercador de areia.”
“A imagem do homem sonha, mas nada mais se agarra aos seus sonhos senão a noite sem igual. Então, para relembrar os marinheiros da aparência da razão, alguém com semblante ébrio pronunciou lentamente essa frase: “O bem e o mal devem a sua origem no abuso de alguns erros.”
A necessidade absoluta, desejo absoluto, descostura todos esses hábitos, o chumbo da vegetação adormecido sob a folhagem qual um manto vermelho nos cabelos da ordem e das queimaduras semeando a palidez, a tonalidade cerúlea do pó de ouro do perscrutador do preto ao fundo da cortina dura e renitente, a deserção úmida, pressionando o vidro ardente, tramas dependentes da eternidade delirante do pobre, a máquina se dispersa e reencontra a armadura curva dos guardas no desejo por açúcar vermelho.
O rio se distende, passa com destreza pelo sol, olha para a noite, acha-a bela e do seu agrado, passa o seu braço sob o dela e redobra a brutalidade, sendo a doçura a conjunção de um olho fechado com um olho aberto ou do desdém ou com o entusiasmo, da recusa com a confiança e do ódio com o amor, veja, contudo, a barreira de cristal fechada pelo homem diante do homem, ele seguirá preso aos laços das suas crinas de rebanhos, multidões, procissões, incêndios, roçadas, viagens, reflexões, epopeias, correntes, roupas largadas, virgindades arrancadas, batalhas, triunfos passados ou futuros, líquidos, satisfações, rancores, crianças abandonadas, lembranças, esperanças, famílias, raças, exércitos, espelhos, coroinhas, vias sacras, ferrovias, rastros, telefonemas, cadáveres, furtos, petrificações, perfumes, promessas, piedades, vinganças, livramentos — digo eu — livramentos como ao som dos clarins, ordenando ao cérebro que não se deixe mais distrair pelas máscaras sucessivas e femininas do acaso ocasional, pelas pupilas das tapagens, a cavalgada sangrenta e mais doce no coração do homem advertido da paz da coroa dos sonhos, indiferente às ruínas do sono.
L’amour la poésie (1929)[2] L’amour la poésie. In: ÉLUARD, Paul. Capitale de la douleur. Paris : Gallimard, 2024, p. 154.
Premièrement
VI
Toi la seule et j’entends les herbes de ton rire
Toi c’est la tête qui t’enlève
Et du haut des dangers de mort
Sur les globes brouillés de pluie des vallées
Sous la lumière lourde sous le ciel de terre
Tu enfantes la chute.
Les oiseaux ne sont plus un abri suffisant
Ni la paresse ni la fatigue Le souvenir des bois et des ruisseaux fragiles
Au matin des caprices
Au matin des caresses visibles
Au grand matin de l’absence la chute.
Les barques de tes yeux s’égarent
Dans la dentelle des disparitions
Le gouffre est dévoilé aux autres de l’éteindre
Les ombres que tu crées n’ont pas droit à la nuit.
O amor a poesia (1929)
Primeiramente
VI
Tu, a única, e escuto a relva do teu riso
Tu, é a cabeça que te suspende
E do alto dos perigos de morte
Sobre os globos turvos da chuva dos vales
Sob as luzes pesadas sob o céu de terra
Tu concebes a queda.
Os pássaros não são mais abrigo suficiente
Nem a preguiça, nem o cansaço
Lembrança das matas e dos córregos frágeis
Na manhã dos caprichos
Na manhã dos carinhos visíveis
Na grande manhã da ausência a queda.
As canoas dos teus olhos se perdem
No rendado das desaparições
Abismo desvelado aos outros, para apaga-lo
As sombras que crias não têm direito à noite.

Paul Éluard

Lucas Bertolo
é formado em Filosofia pela UNIFESP, bacharelado em Direito pela FGV e pós-graduando (2025) em Filosofia do Direito pela Universidade de São Paulo. Traduz literatura desde 2012.