Este pequeno texto, cuja redação se deu nos anos 20, em consonância da adesão ao marxismo por parte de Lukács (1885-1971), aponta não somente um autor atento aos desdobramentos filosóficos e políticos de seu tempo, mas antenado às circulações das obras e as incursões entre pensamento o especulativo e o político daquele decênio. Abaixo podemos ler que Lukács critica o conteúdo do livro, isto é, a maneira como Schmitt trata o assunto, e não a figura política em que se tornou seu autor. Lukács reconhece algumas qualidades do pensamento de Schmitt, mas, no geral, rejeita as premissas metodológicas. Trata-se de uma resenha do livro de Carl Schmitt, Politische Romantik, publicado em 1919, escrita por Georg Lukács. Intitulada “Carl Schmitt, Politische Romantik”, foi publicada originalmente em Archiv für die Geschichte des Sozialismus und der Arbeiterbewegung, XIII, ano 1928, p. 307-308. A presente tradução foi feita a partir da versão francesa do texto, realizada por Jean-Pierre Morbois. As notas são todas do tradutor em língua francesa e os itálicos foram mantidos tal como aparecem. O texto original pode ser consultado em <https://amisgeorglukacs.org/2024/01/georg-lukacs-carl-schmitt-romantisme-politique-1928.html>. [/fn]
Essa obra é muito conhecida, pois deduz o romantismo do ocasionalismo [1]Ocasionalismo: na filosofia e na teologia, o ocasionalismo é a doutrina ou tese segundo a qual as causas naturais não são causas verdadeiras, mas apenas “causas ocasionais” que determinam … Continue reading , a ponto de se tornar quase famosa. Nos círculos de pesquisadores sérios que não estão dispostos a participar da moda contemporânea do romantismo, a explicação de Schmitt e sua crítica ao romantismo encontraram grande repercussão. E com razão. Se, de diferentes lados, devemos nos convencer de que Adam Müller é um fundador do método científico, então certamente é útil considerar Müller (e os mais significativos, F. Schlegel, Gentz, etc.) [2]Adam Heinrich Müller (1779-1829), crítico literário, teórico do Estado e político prussiano, precursor do romantismo na economia. Friedrich Schlegel (1772-1829), filósofo, crítico e escritor … Continue reading com olhos simplesmente históricos, revelar a incoerência de seu pensamento, o aspecto problemático – para não dizer nada mais – de suas caracterizações, a inutilidade de sua atividade política. E os méritos do livro de Schmitt estão longe de se limitar a isso. Ele encontra toda uma série de observações pertinentes para caracterizar o movimento romântico. Destaco especialmente a função exagerada da esfera estética. Ele mostra com muita precisão como essa invasão do princípio estético não apenas abole todo pensamento não-ambíguo, controlável e, portanto, passível de consideração científica, como também torna impossível qualquer tomada de posição política, mas também indica com pertinência os efeitos devastadores dessa atitude sobre a própria esfera estética (p. 20 e segs.). Poderíamos citar muitas outras observações e comentários pertinentes, mas, como esse campo de pesquisa está fora da esfera de interesse desta revista, nos contentaremos com esta breve indicação.
O que nos interessa em primeiro lugar é o método que Schmitt aplica, e que circunscreve e limita a importância e o alcance de suas afirmações. Devemos então constatar que Schmitt, em geral, não vai além do método da “história do Espírito”, tal como foi exercido, por exemplo, por Dilthey e, mais tarde, por Troeltsch. Ele certamente destaca, com razão, o caráter burguês do romantismo (p. 16) e, assim, fecha a porta para essas generalizações – românticas – infundadas, nas quais tudo parece romântico e, por isso, nada pode ser definido sem ambiguidade como romântico. Sua análise das bases sociais do romantismo, no entanto, limita-se a essas afirmações. É certo que critica – em grande parte com razão – as concepções de Seillière (p. 5 e seg.) e Taine (p. 7 e seg.), [3]Ernest Seillière (1866-1955), escritor, jornalista e crítico francês. Hippolyte Taine (1828-1893), filósofo e historiador francês, membro da Academia Francesa. e vê bem as contradições das suas definições, mas, em termos positivos, não vai, essencialmente, mais longe do que os autores que critica. Pois ele certamente tem toda a razão quando afirma que o romantismo não deve ser buscado no objeto, mas na atitude do sujeito romântico em relação ao objeto (p. 122); ele constata com muita justiça que faz parte da essência do romantismo substituir a causa pela ocasião, a causa pela occasio (p. 120 e seg.), que daí resulta uma concepção subjetivista totalmente formal, de modo que o “sentimento romântico do mundo e da vida pode se relacionar com as mais diversas situações políticas e com teorias filosóficas opostas” (p. 160), e é por isso que também é particularmente característico do romantismo que a possibilidade seja concebida como uma categoria superior à realidade (p. 98 e segs.). Tudo isso parece, em grande medida, bem descrito, e a natureza não-romântica de muitos políticos da restauração, que influenciaram fortemente o romantismo alemão (Burke, Bonald), [4]Edmund Burke (1729-1797), pensador político contrarrevolucionário, escritor e filósofo irlandês. Louis de Bonald (1754-1840), político, filósofo e ensaísta francês, grande adversário da … Continue reading também é bem destacada. Mas em nenhum momento é dada uma explicação. As indicações puramente filosóficas, a insistência na importância de Malebranche [5]Nicolas Malebranche (1638-1715) foi um teólogo, padre oratoriano e filósofo francês. Seu pensamento tinha como objetivo integrar as novas ciências da época, mantendo-se fiel aos dogmas do … Continue reading etc. não podem, de forma alguma, fazê-lo. Foi precisamente devido à forte receptividade subjetivista dos românticos que o número de pensadores que os influenciaram em diferentes períodos foi tão grande. (A lista vai de Platão, passando por Böhme, Spinoza, Shaftesbury etc., até Fichte e Schelling.[6]Jakob Böhme (1575-1624), teosofista alemão do Renascimento. Baruch Spinoza (1632-1677), filósofo racionalista holandês. Anthony Ashley-Cooper, Conde de Shaftesbury (1671-1713), filósofo, … Continue reading)Consequentemente, sobre a questão de saber por que foi precisamente o ocasionalismo que foi decisivo para a estrutura espiritual [Geistesstruktur] dos românticos, Schmitt deveria ter apresentado argumentos totalmente diferentes. É aí que este livro, por sinal inteligente e interessante, falha completamente. Schmitt não procura de forma alguma encontrar uma explicação real, histórica; ele nunca chega à problemática exata. Essas limitações residem, de fato, no fato de que ele permanece em sua análise sócio-histórica em uma generalidade pálida e vazia como a burguesa (também Hegel, por exemplo, é de fato burguês), sem examinar mais de perto a situação histórica específica nem a estratificação interna da burguesia na Alemanha da época, sem levantar a questão de saber que camada social os românticos alemães representavam, a que ser social correspondia o seu pensamento. Schmitt não está, portanto, em condições de resolver realmente o problema que ele mesmo colocou, e seu livro não oferece, por isso, nada mais do que um incentivo para futuros pesquisadores nessa área, nada mais do que uma série de observações e análises isoladas, exatas e justas, cujo verdadeiro valor só poderá ser comprovado quando o problema for realmente colocado de forma correta e, aí sim, respondido.

Wesley Sousa
doutorando em Filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Felipe Alves
doutorando em Filosofia (USP). Bolsista do CNPq.
| ↑1 | Ocasionalismo: na filosofia e na teologia, o ocasionalismo é a doutrina ou tese segundo a qual as causas naturais não são causas verdadeiras, mas apenas “causas ocasionais” que determinam Deus, única causa verdadeira, a agir. Foi Malebranche quem propôs uma versão perfeitamente determinista do ocasionalismo: Deus age por meio de decretos imutáveis e leis universais que se manifestam na causalidade aparente da natureza. |
|---|---|
| ↑2 | Adam Heinrich Müller (1779-1829), crítico literário, teórico do Estado e político prussiano, precursor do romantismo na economia. Friedrich Schlegel (1772-1829), filósofo, crítico e escritor alemão, fundador do “Círculo de Jena”, do qual surgiu o romantismo na Alemanha. Friedrich Gentz (1764-1832), escritor e político prussiano, discípulo de Kant, profundamente contrarrevolucionário. |
| ↑3 | Ernest Seillière (1866-1955), escritor, jornalista e crítico francês. Hippolyte Taine (1828-1893), filósofo e historiador francês, membro da Academia Francesa. |
| ↑4 | Edmund Burke (1729-1797), pensador político contrarrevolucionário, escritor e filósofo irlandês. Louis de Bonald (1754-1840), político, filósofo e ensaísta francês, grande adversário da Revolução. |
| ↑5 | Nicolas Malebranche (1638-1715) foi um teólogo, padre oratoriano e filósofo francês. Seu pensamento tinha como objetivo integrar as novas ciências da época, mantendo-se fiel aos dogmas do cristianismo. |
| ↑6 | Jakob Böhme (1575-1624), teosofista alemão do Renascimento. Baruch Spinoza (1632-1677), filósofo racionalista holandês. Anthony Ashley-Cooper, Conde de Shaftesbury (1671-1713), filósofo, escritor e político inglês. Sua filosofia é permeada pela teologia. Para ele, todas as coisas fazem parte de uma ordem cósmica harmoniosa, que é o sinal de uma concepção divina. Johann Gottlieb Fichte (1762-1814). Sua filosofia está na origem do idealismo alemão e dos primeiros românticos. Friedrich Wilhelm Joseph (von) Schelling (1775-1854), filósofo alemão, representante do idealismo alemão e próximo do Romantismo. |