Se aproveitando da forma fragmentada dos aforismos, Renan Brigadeiro tece uma espécie de diário atestado pela experiência artístico-política da panfletagem ao longo do ano de 2025. Os panfletos falam por si – às vezes o autor os contextualiza, evidenciando sua intenção e o desvio dos resultados. A primazia é a experimentação e o resultado emerge da reflexão posta em situação.
Em um dos casos – a propósito da manifestação contra a escala 6×1 –, membros da Revista Zero à Esquerda estiveram presentes e participaram da panfletagem. As situações não se restringem a ocasiões políticas, mas se abrem ao cotidiano: casual e imprevisível.
Ao final do texto, exibimos alguns dos panfletos de Brigadeiro.
– Editor da Zero à Esquerda
1. PANFLETAGEM
Estava em um grupo de panfletagem de uma organização e sentia que existia uma certa limitação. Era difícil nos organizarmos e havia um incentivo para fazê-lo sozinho. Então, por que não fazer do meu jeito? Eu poderia imprimir panfletos de outros movimentos ou com outras reivindicações. Fiquei em dúvida se poderia me apropriar desses textos. Talvez tirar o nome do movimento e aproveitar o texto, uma pirataria inofensiva. Por fim, decidi fazer eu mesmo o panfleto. O que eu escreveria?
2. USAR
Quando perguntaram para João do Vale onde ele tirou a expressão “vento leste” da letra Na asa do vento, que diz: “Deu meia noite / a lua faz o claro / eu assubo nos aro / vou brincar no vento leste”. João respondeu: “De noite, liguei o rádio na ‘Hora do Brasil’ e ouvi: ‘Aviso aos navegantes: vento leste soprando pra sudoeste’”.
Sobre a música Um Índio, Caetano comenta que compôs ela cantando. Na época, estava há tanto tempo sem escrever que não tinha lápis em casa e só escreveu quando teve que mandar para a gravadora. Também comenta que ficou muito feliz que Viveiros e Déborah Danowski tenham citado uma parte da letra no livro Há mundo por vir? O trecho é: “Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias”.
Na tradução da poeta Cristina Peri Rossi, os tradutores escreveram uma nota de tradução no começo do livro e usaram a autora para pensar a tradução. Logo no começo usam versos dela:
Amar é traduzir
– trair.
Nostálgicos para sempre
do paraíso antes de Babel.
Também utilizam um texto dela que traduziram. No final diz:
“Também é verdade que enfrentará um obstáculo inevitável: embora tenha lido o livro que o autor escreveu, enfrentará uma frustração: não existe tradução, só existe versão. Uma palavra em uma língua nunca soará igual em outra, com o que se perde uma parte inestimável do texto, que é sua sonoridade. Uma língua é música”.
3. PALESTRA
Numa palestra sobre o livro de Douglas Barros, a Amanda Palha rebate críticas sobre a questão de escrever difícil. Ela diz: “…linguagem é ferramenta, ela serve para o que a gente precisa. Se eu vou escrever um panfleto, preciso ser facilmente lida. Se eu não vou escrever um panfleto, essa necessidade cai para segundo, terceiro ou quarto plano…” e continua: “Quem precisa ser facilmente lido por todo mundo é quem tá escrevendo um panfleto, uma cartilha ou um manual…”.
4. PANFLETOS GARRAFAS
É uma colagem de imagens com garrafas. Na verdade, são imagens sobrepostas com transparência. Pensei no poema da Gertrude Stein sobre a garrafa, onde ela descreve as várias faces da garrafa ao mesmo tempo: quebrada, cheia, como vaso de flor, como prima do copo, etc.
Uma imagem de alguém jogando um coquetel Molotov, cacos de vidros estilhaçados no chão, uma foto da obra do Cildo Meireles: Inserções em circuitos ideológicos: Projeto Coca-Cola e o poema Beba coca-cola do Décio Pignatari.
5. PANFLETO ABOLIR O TRABALHO
No panfleto, utilizei uma foto do Boiffard, a foto de um pé que ele fez para um artigo do Bataille. Nesse artigo, o Bataille descreve o dedão do pé como a parte mais inútil do corpo e, ao mesmo tempo, a parte que sempre avança primeiro: a vanguarda. Também coloquei um poema do Roberto Piva que anunciava: “abandonar tudo” e que “todo trabalhador é escravo. / toda autoridade é cômica”. Em todas as bordas do panfleto estava escrito “pelo fim da escala 6×1”, e mais tarde acrescentei “ABOLIR O TRABALHO”. Coloquei o que primeiro veio a minha mente, o que achava que poderia chamar a atenção das pessoas e que de diferentes formas falava a mesma coisa, numa repetição de isso é isso é isso é isso.
6. PIPOCA MODERNA
Caetano Veloso conta que estava na varanda de sua casa quando apontaram para uma luz no céu que começava a crescer. Em um primeiro momento teve muito medo e depois se sentiu feliz; tinha vislumbrado a letra para a música Pipoca Moderna. A música já existia e era tocada pela Banda de Pífanos de Caruaru. A letra evidencia a letra N com as negativas: nem, nunca, não, nada. Depois, na letra P, apresenta a mudança com golpes de pê, pé, pão, parecer poder, pipoca. Entre essas duas letras, o vislumbre.
7. CLAUDE CAHUN
Claude vivia na Europa ocupada pelos nazistas com sua namorada. Ela percebeu que nem todos soldados alemães concordavam com o que estava acontecendo. Ela começou a fazer panfletos e espalhar pela cidade para incitá-los à insubmissão. Fazia colagens e escrevia que deviam se voltar contra o exército e sua pátria, que não os tratavam bem e ainda cometiam atrocidades. Mais tarde, quando foi presa, vê muitos soldados alemães rebeldes também presos. Ela crê que seus folhetos deram resultado.
8. PIXAÇÃO
Durante Maio de 68 em Paris, os muros foram pichados com diversas frases:
“Sejam realistas, exijam o impossível”
“É proibido proibir”
“A imaginação toma o poder”
Determinadas palavras em espaço público é um modo de ocupar com uma ideia, de fazer propaganda contra e/ou a favor de algo.
Nos anos 80, jovens da periferia que escutavam bandas de rock, se inspiravam nas letras das capas do álbum para pixar as paredes. As letras das capas dos álbuns de rock eram inspiradas em runas antigas. Isso fez a pixação de São Paulo ser única no mundo.
9. PANFLETO COMEÇO MEIO FIM
O panfleto é composto por três perguntas: por onde começamos? O que vem depois do fim? Os fins justificam os meios? e um número de telefone para as pessoas mandarem suas respostas por whatsapp.
Os fins justificam os meios?
Emma Goldman chega à conclusão que se os meios empregados para chegar a determinado fim não forem condizentes com o que se almeja, os fins não justificam os meios porque os fins são os meios.
O que vem depois do fim?
Davi Kopenawa já anunciou que o fim do mundo já aconteceu diversas vezes para os povos indígenas. Acontece desde 1500, no Brasil.
Por onde começamos?
Marília Garcia diz numa entrevista:
“Eu acho que essa origem também é inventada muitas vezes, né? Uma origem que é pra frente, assim, né? Você não tem uma origem de uma coisa que você tá pensando. Eu acho que você vai pensando pra frente. A linguagem que vai te conduzindo, assim, né? Essa ideia de começo no livro, são começos que começam no meio do caminho, assim. […] Eu acho essa dimensão do meio do caminho importante pra escrita porque a gente tem uma ideia de que não, eu preciso tá pronto pra começar a escrever, né? Assim. Então, eu, eu mesma sinto isso, não, eu preciso estudar e ler e investigar muito um assunto, ler toda a bibliografia e passar por tudo aquilo e ler os poetas, pra conseguir começar, ou nas oficinas, né? ou sempre, né, mas os alunos, não, mas eu preciso, não vou conseguir começar, não tô pronto. E não só pra escrita, na vida também, nossa. Não sei se tô pronta pra dar esse passo, aí eu vou engravidar, eu vou ter um filho, eu preciso esperar pra eu tá pronta. Não! Eu acho que a escrita e a vida, eu acho que podem começar do meio do caminho, né?”
Algumas respostas giraram em torno da vida após a morte. Decidi publicar as perguntas nos panfletos com algum comentário e distribuí nas ruas. A ideia era de uma autopublicação coletiva com intermédio da tecnologia. Não queria que ela fosse um fim em si e que ampliasse para que a discussão fosse na rua. Como esses panfletos, com essas respostas, talvez não chegasse em quem as escreveu, eu mandei uma foto do panfleto pelo número que me responderam. Uma das pessoas exclamou que gostou muito de ser publicada e outra simplesmente disse “não entendi”. Alguns comentários meus, na verdade, era o texto que me enviaram organizado de outra forma. Copiei a resposta, recortei as palavras e dispus em outra ordem.
10. TÉCNICA
Não entendo nada de design. Convidei dois designers para se juntarem comigo. Primeiro recebi um sim seguido de um silêncio. O outro disse sim e depois debochou. Alguns anos trabalhando com crianças lhe dão confiança para se aventurar em criar com poucos recursos algo que funcione. Todos os panfletos são feitos no Canva, do jeito que dá, do jeito que é possível. Na gráfica eles, podem sair um pouco tortos, ou mal cortados. 1/4 de folha A4 é o suficiente para o panfleto. Geralmente imprimo 50 folhas (que dá uns 15 reais), são 200 panfletos.
11. G.S.C.
Tive contato com um panfleto do Groupe Surréaliste en Clandestinité em que era feito um questionário sobre como uma garrafa deveria ser utilizada. Vi aí uma ligação com o panfleto que tinha feito sobre as garrafas. Entrei em contato com o grupo e fizemos algumas colaborações. Traduzi alguns textos deles e panfletei. Participamos de uma manifestação pelo fim da escala 6×1. Produzimos um panfleto com perguntas questionando o que é realmente importante para nossa vida e o que permite que seja realizada. Nos baseamos no poema O que faz um poema ser um poema? de Charles Bernstein para fazer essas perguntas. O objetivo não era obter respostas. A pergunta era mais importante que qualquer resposta.
12. CORPO
Distribuo os panfletos onde tem um fluxo muito grande de pessoas. Geralmente, no meu caminho do trabalho para casa eu paro em alguma saída de metrô e distribuo por lá mesmo. Dá um frio na barriga, mas depois é como se mais um trabalhador estivesse ali. Tem gente que pega por educação, outros para ajudar e outros por uma certa insistência minha. Não digo nada, fico em silêncio, no máximo dizendo “boa tarde” e “obrigado”. Pensei muito se devia falar algo ou não e optei pelo silêncio. Já me perguntaram “O que significa isso?”. Com vergonha, sem saber o que dizer, digo: não sei, fui pago para distribuir isso. Qualquer absurdo é válido se envolve dinheiro, essa resposta parece satisfatória para as pessoas.
13. LÍNGUA DO P
Língua do p é um tipo de linguagem que tenta camuflar a fala colocando sílabas começadas com P. Existem variações dela, a sílaba com P pode vir antes ou depois da sílaba original. É usada, principalmente, por crianças e jovens. Eles usam essa língua para se comunicar de modo que outras pessoas não entendam, como se fosse um código. Para que adultos e pessoas não desejáveis não entendam o que estão falando.
Não é uma outra língua, se prestar atenção todo mundo pode entender. Inserir um elemento que pode parecer estranho, que faz parte da língua só que em um lugar não esperado, cria uma língua nova.
Gaparanpantopo quepe vopocêpê
Garanto que você
Nãpão vapai não vai
Nãpão vapai não vai
Compomprepeenpendeper
Bulhufas
Bulhufas
Dopo quepe tempentapamopos lhepe dipizeper
Não tem problema
Não tem problema
Espetapamopos pelaí
14. PANFLETO BOCA
A foto de uma boca aberta que ocupa todo o panfleto. Nas bordas estão frases recortadas. São três bordas, alternando o preto e o branco, como a fotografia. São três panfletos com a mesma estrutura, somente com diferentes frases em cada. Em um coloquei 3 versos do Roberto Piva, em outro 3 palavras de ordem e no outro versos diversos. No papel, é como se a boca gritasse essas palavras, mas em silêncio.
15. PUNK
Se não está satisfeito com as coisas, então faça você mesmo. É um modo de vida que os punks materializam. Mesmo se não tiver as habilidades para fazer aquilo, a ideia é fazer mesmo assim, não depender de especialistas.
Ouvi durante o lançamento de um livro sobre uma casa ocupada: primeiro você faz, depois melhora. Não perder tempo tentando se especializar. A teoria e a prática acontecem ao mesmo tempo.
Lendo um artigo de jornal sobre João do Vale, leio uma citação: “um mestre da minha terra dizia: “prefiro quem diz ‘nóis vai’ e vai, do que quem diz ‘nós vamos’ e não vai”.
16. PANFLETO PINTURA EM PÂNICO
Pintura em Pânico é um livro de Jorge de Lima lançado em 1943. É considerado o primeiro livro de fotomontagens da América Latina. As fotomontagens são acompanhadas de frases ou versos (ou dísticos, como o poeta mesmo chama). Não há um consenso se o livro forma uma narrativa ou são lidos isoladamente. Quis experimentar como eles se comportavam como panfleto. As duas primeiras fotomontagens foram panfletadas. A terceira já foi impressa.
17. PONTYPOOL
Pontypool é um filme sobre apocalipse zumbi. Trabalhadores de uma estação de rádio acompanham a calamidade que acontece na cidade: as pessoas ficam, misteriosamente, violentas e atacam quem ver na frente. Os personagens descobrem que o que tornam as pessoas em zumbis são as palavras. Não todas, algumas estão infectadas e provocam essa transformação. Não sabem quais são e devem evitar de falá-las. O antídoto é modificar o significado de todas as palavras.
18. PANFLETO MÃOS
Nessa foto, também do Boiffard, uma mão segura outras mãos de gesso. Uma frase em letras grande em cima da foto: comunidade forte torna a polícia obsoleta. Retirei essa frase de um zine que trata sobre como evitar a polícia numa perspectiva abolicionista penal.
19. RÁDIO ALICE
A rádio foi fundada na Itália, nos anos 70, e fez parte da autonomia italiana, reunindo todos os grupos: jovens, feministas, operários, etc. Um meio de se comunicar de várias formas simultaneamente. Não havia hierarquia de importância e nem tempo certo para cada coisa: entrevistas, performances, monólogos, palavras de ordem, poesia, música, etc.
20. PANFLETO LUXO PARA TODOS
LUXO PARA TODOS (como na música de Caetano) e dentro dessas letras, grossas e pretas, estava escrito: pelo fim da escala 6×1 em letras brancas. Inspirado no poema Luxo/Lixo do Augusto de Campos. Nas bordas, coloquei uma citação de Annie Ernaux: “Quando eu era criança, o maior luxo para mim eram os casacos de pele, os vestidos longos e as mansões à beira-mar. Mais tarde, passei a achar que o luxo era ter uma vida intelectual. Agora me parece que é também a chance de viver uma paixão por alguém”.
21. PHOTOS D’ALIX
É um curta-metragem onde uma moça mostra fotografias e as descreve para um jovem. Em determinados momentos, as descrições não batem com as fotografias exibidas. Algumas vezes, há dúvida se aquela descrição é ou não da fotografia que aparece na tela. Algumas descrições condizem mais com a fotografia que aparece mesmo não pertencendo a ela.
22. ÁRVORE
e. e. cummings vê uma folha caindo de uma árvore e diz: solidão.
Roberto Piva vê folhas caindo das árvores e diz: panfletos!
Adrienne Rich escreveu um poema chamado Que tempos são esses?. Nesse poema, ela compara a situação do seu país com uma floresta e diz que: “e a velha estrada revolucionária acaba em sombras” e que os revolucionários desapareceram nessa escuridão. Ela diz que: “Eu não vou dizer onde fica este lugar, a trama escura da floresta / encontrando o feixe de luz não assinalado-” E se questiona: “E eu não lhe direi onde fica; então por que eu lhe conto essa outras / coisas?” e responde:
Porque você ainda me escuta, porque em tempos como estes
para você me escutar ao menos um pouco, é preciso
falar sobre árvores.
23. CLAIRE FONTAINE
Prefiro não.
24. PAIXÃO
Eros lança uma flecha que atinge o coração de Apolo que se apaixona instantaneamente por Dafne. Eros lança uma flecha de chumbo que atinge o coração de Dafne e torna seu coração frio às investidas de Apolo. Ele não desiste e a persegue o tempo todo. Cansada de tanta insistência, ela se transforma em uma árvore. Nas representações desse mito, Dafne aparece correndo ou parada com os braços transformados em troncos e seus dedos em galhos e nas pontas deles as folhas.
25. PERFORMANCE
A primeira missa realizada no Brasil, em 26 de abril de 1500, foi tematizada no quadro de Victor Meirelles, de 1861, e no filme de Humberto Mauro, Descobrimento do Brasil, em 1936. Árvores foram derrubadas para que se fizesse uma cruz que foi erguida para simbolizar a conquista dessa terra pelos europeus. Acima de tudo, as palavras proferidas inventaram esse espaço e as palavras gravadas na carta de Pero Vaz de Caminha foram um gesto de ocupação estatal.
Umoa outroa [como os zapatistas designam as pessoas trans] proferiu as seguintes palavras ao chegar na Europa:
“Em nome das mulheres, crianças, homens, anciãos e, naturalmente, outroas zapatistas, declaro que o nome desta terra, que seus nativos agora chamam de ‘Europa’, será doravante chamada: SLUMIL K’AJXEMK’OP, que significa ‘Terra Insubmissa’, ou ‘Terra que não se resigna, que não desmaia’. E assim será conhecida tanto pelos locais quanto por estranhos, desde que haja aqui alguém que não desista, que não se venda e que não se renda”.
26. KENNETH GOLDSMITH
Kenneth Goldsmith disse que tudo que tinha que ser escrito já foi escrito. Agora é questão de utilizar o que foi escrito.
Ele transcreveu transmissões de rádio e transformou em um livro. A linguagem oral foi convertida para a escrita e o meio radiofônico em papel.
27. PREGAÇÃO
Um senhor, com a bíblia na mão, grita, em plena Praça da Sé, uma pregação. Diz quem vai pro céu ou para o inferno, o que deve ou não ser feito. Alguém passa por mim e diz: que gritaria chata.
Em cima do carro de som, algum líder de um sindicato ou movimento social, grita o que deve ser feito. Diz que eles não passarão ou algo do tipo. Alguém passa por mim e diz: que gritaria chata.
28. SILÊNCIO
Em 2012, 40 mil zapatistas invadiram cinco cidades de Chiapas, de certa forma uma reencenação, desta vez sem armas, da ocupação das mesmas cidades em 1º de janeiro de 1994. Em cada uma das cidades, milhares de homens e mulheres marcharam em silêncio, passaram com o punho levantado por um pequeno palco montado na praça principal, antes de partir no mesmo silêncio com que chegaram. Horas depois, o comunicado: Escutaram? / É o som do seu mundo desabando. / É o som do nosso ressurgindo. / O dia que foi o dia, era noite. / E noite será o dia que será o dia.
Como diria Paulinho da Viola: mudo é quem só se comunica com palavras.
29. LEI
Em 1931, Ranganathan, um bibliotecário indiano, publicou um artigo que estipulava as 5 leis para a biblioteconomia. A primeira lei diz: os livros são para usar.
Guattari conta que o maior prazer que teve em escrever O Anti-Édipo foi quando uma pessoa parou ele na rua para dizer que tinha algo lindo escrito lá e tirou do bolso páginas arrancadas do livro que estavam amassadas e riscadas.
30. PANFLETO TRABALHO
Faço outra pergunta no panfleto: se trabalho é tudo aquilo que realizamos com esforço para alcançar um objetivo, quais trabalhos são realmente essenciais para que possamos viver intensamente? também coloco o mesmo número de telefone para as pessoas enviarem suas respostas. O G.S.C. também faz essa mesma pergunta nas redes (em francês e italiano). Recebemos diversas respostas. Alguns afirmam que a pergunta está errada logo de cara, já que trabalho é uma alienação e somente a atividade livre, ou atividade humana como outro sugere, seria essencial para nossa vida. Outro ainda sugere que deveria existir uma palavra para distinguir o trabalho alienado do trabalho como atividade humana, no caso do inglês: work e labour. Enfim, reproduzi algumas respostas com comentários em panfletos e distribuí. Essa ação ainda está em andamento.
31. PANFLETO ÓBVIO OVNI
O panfleto é composto só por 2 palavras: ÓBVIO ÓVNI. Estão no centro do panfleto e não há mais nada em volta.
A música Um Índio, de Caetano, fala de um indígena que sai de um óvni e as pessoas ficam perplexas por ele dizer nada de exótico, mas o óbvio.
Waly Salomão tem um poema chamado Óbvio & Óvni que diz: “luz estrela ficou flat / queremos radiância óvni”.
32. PERGUNTA
No leito de morte, Gertrude Stein se questiona qual é a resposta, como ninguém se pronuncia ela indaga: “Então, qual é a pergunta?”.
33. MÚSICA
Juçara Marçal rebate as críticas que o disco Amarelo recebeu dizendo que não há uma hierarquia entre a música e a letra, então elas podem ocupar o mesmo lugar, não precisa distingui-las separadamente.
Em um show de hard core, da banda Dente Canino, não consegui compreender nenhuma palavra do que foi dito. O vocalista balançava a cabeça, descia do palco, provocava a plateia, ia pra cima dela. A plateia respondia, também provocava o vocalista. A plateia se debatia entre si e se jogava em quem estava parado. Não entendi nenhuma palavra, mas compreendi o que foi dito.
Antigamente, as bandas de punk produziam fanzines com informações sobre o grupo e as letras das músicas para distribuir na entrada ou saída do show.
34. ERRAR
Andityas Matos ao explanar sobre o conceito que criou: radicaos, conta como surgiu esse neologismo: “[…] essa palavra – radicaos – surgiu não de uma longa meditação linguístico-criativa, mas de um rápido, banal e mesmo ridículo erro de digitação ao trocar a letra ‘L’ pela ‘O’, que está logo acima dela no teclado”.
Orora Analfabeta, música cantada por Jards Macalé, fala de uma moça que por não ter uma educação formal erra na escrita das palavras: “Mas escreve gato com ‘j’ / E escreve saudade com ‘c’”. Ela tem uma letra “O” bordada na blusa, pois seu nome é Orora. Orora, e não Aurora, escreve com intuição, contra todos os preceitos.
O compositor Luís Vieira conta que seu parceiro, João do Vale, que era semianalfabeto, depois do sucesso de Carcará começou a frequentar a elite da MPB e achou que devia usar palavras difíceis nas letras. Vieira discordou: “Só escreva sobre o que você conhece!”, ralhou.
Panfletos de Renan Brigadeiro
























