Algo característico do exercício e da experiência filosófica sobre a história é o elemento de retroatividade: o presente sempre oferece a possibilidade de novos termos ressignificarem — para citar um termo (talvez ainda) na moda — nossa compreensão sobre o passado. Essa ressignificação, ou reorganização simbólica, age sobre os fatos, mas também sobre os conceitos anteriores (até porque não existem fatos separados de conceitos; i.e., não existe acesso “direto” à “realidade imediata”, mas isso é outra história). Bernard Stiegler foi, sem dúvidas, um dos grandes filósofos, nos últimos tempos, a intervir nesse processo de retroação. Esse texto será assim também, uma breve introdução retroativa à sua obra.
Filho de uma bancária e de um engenheiro elétrico “autodidata”, sua vida e obra teórica carecem de verdadeira atenção hoje, especialmente na medida em que se dedicou a refletir sobre a radicalidade da técnica — e da tecnologia — no contemporâneo, e na história da filosofia. Completados seis anos após sua morte agora, no dia 5 de agosto, vale ressaltarmos alguns aspectos do seu pensamento, e como ele pode auxiliar à reflexão dos imbróglios atuais que perpassam o imperativo digital, a economia pulsional e as crises globais características do presente.
Stiegler foi um filósofo francês fora da curva, em vários sentidos. Nascido em 1º de abril de 1952, não seguiu o percurso acadêmico padrão da intelligentsia francesa: ainda secundarista, abandonou os estudos em 1968, com seus 16 anos, na época do famoso levante de maio, ainda militante do Partido Comunista Francês. Posteriormente, após exercer uma série de ofícios — desde trabalhador rural a dono de um bar de jazz —, ingressou no nobre ofício de assalto a bancos, pelo qual seria eventualmente preso em flagrante, cumprindo pena entre 1978 e 1983. É aí então, entre seus 26 e 30 anos, que irá realizar uma formação (remota) em filosofia, por correspondência e incentivado por Gérard Granel, estabelecendo um contato mediado — e, depois da soltura, pessoal — com Jacques Derrida, que se tornaria seu orientador e principal interlocutor filosófico.
Daí em diante, Stiegler desenvolveria uma carreira marcada tanto pela atuação acadêmica quanto prática, em duas vias institucionais, ambas atravessadas pela reflexão sobre a tecnologia, mas com implicações teóricas além desta. Não me entenda mal, caro leitor, mas com isso quero dizer que para compreendermos a filosofia de Stiegler é necessário notar que sua obra trata de uma filosofia da técnica, mas vai além disso. Suas reflexões e seu trabalho intercedem sobre a filosofia, a antropologia, a crítica da economia política, simbólica e libidinal, de modo amplo. Algo que já é perceptível desde sua tese, defendida em 1993 pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), sob orientação de Derrida, que constituiria o núcleo do primeiro volume de La Technique et le Temps. [1]STIEGLER, Bernard. La technique et le temps: 1. La Faute d Épiméthée. 2. La Désorientation 3. Le Temps du cinéma et la question du mal-être. Fayard, 2018.
Seu debate teórico remonta à intersecção já clássica da filosofia francesa no século XX com a fenomenologia alemã, especialmente sobre a relação entre experiência e memória na obra de Edmund Husserl: dele, Stiegler extrai a noção de sistemas retencionais primários (experiência) e secundários (memória), mas intervém acrescentando um terceiro sistema retencional que retroage sobre ambos. Esse terceiro sistema compreende os artefatos de exteriorização que atravessam os sistemas anteriores, inclusive de forma transgeracional, reconfigurando-os. Enquanto “sistemas de produção de critérios de seleção para a retenção primária e secundária”[2]STIEGLER, Bernard. Pharmacology of desire: Drive-based capitalism and libidinal dis-economy. New Formations, v. 72, n. 72, p. 150-161, 2011. constituem, juntos, os processos de individuação. Obviamente, temos aqui uma referência a Gilbert Simondon, outro interlocutor ao qual Stiegler presta referências elementares.
Simondon fornece a Stiegler o vocabulário da individuação técnica, psíquica e coletiva. Ou seja, a tese de que o sujeito não é uma substância dada, mas um processo inacabado de individuação que se realiza sempre em relação a um meio pré-individual e a um coletivo — o que será chamado, no vocabulário teórico, de transindividuação. É assim que Stiegler irá articular a teoria simondoniana da individuação à sua própria teoria da retenção terciária: os objetos técnicos, enquanto suportes de memória compartilhada, são as condições materiais da transindividuação. Isso, posteriormente, é o que lhe permite pensar tanto os processos de formação da identidade coletiva quanto os processos patológicos de desindividuação sob o capitalismo hiperindustrial. Não menos importante será a referência à paleoantropologia, especificamente de André Leroi-Gourhan, de quem apreende a hipótese da exteriorização de funções corporais e cognitivas (em utensílios técnicos) como fundamental ao processo de “hominização” — a tese do “cortex exteriorizado”, presente em Le Geste et la Parole. Assim, a concepção da relação entre “essência e técnica” é subvertida: o que define a condição humana e o artefato produzido por essa “condição” é uma coextensão negativa — ambos retroagem sobre si, retroalimentam-se, revelando uma ausência de determinação teleológica, que apenas “aparenta” ser assim em processo. O humano constitui seu próprio ser co-originariamente com seus artefatos.
Aqui, a noção fundamental de Pharmakon irá delinear uma espécie de ambiguidade fundamental, influenciada pela filosofia clássica — desde Platão —, passando por Georges Canguilhem e Derrida: a ambivalência da condição humana se reflete na técnica, nos artefatos, que retroagem sobre a própria (ausência de) essência da humanidade. É essa ambiguidade entre veneno e remédio que Stiegler irá, posteriormente, elaborar sobre a “farmacologia do desejo” e suas dicotomias libidinais e pulsionais nas condições do capitalismo contemporâneo. Essa será também uma questão fundamental em sua teoria da técnica: a crítica à economia política, que toma a forma da crítica aos processos de expropriação, o que Stiegler relaciona com o que chama de proletarização — justamente, um processo de expropriação dos saberes. Desde a expropriação do saber-fazer, até o saber-viver e o saber-teorizar. Primeiro, em relação ao savoir-faire: o saber-fazer é a primeira dimensão expropriada na dinâmica do capitalismo industrial do século XIX. O capitalismo industrial fragmenta a relação prática com saberes específicos que se tornam serializados, i.e., tornam-se parte da segmentação industrial necessária para a produção em larga escala de mercadorias. Assim, tem-se o primeiro processo de proletarização enquanto expropriação.[3]STIEGLER, Bernard. Automatic society. The future of work, 2015
Dialogando posteriormente com a teoria frankfurtiana, Stiegler irá conceituar o processo operado pela Indústria Cultural no século XX como uma expropriação do savoir-vivre — o roubo do “saber viver”. A homogeneização industrial da cultura desdobra-se em uma redução da complexidade — i.e. da diferença — nos modos de vida. A subjetivação se torna serializada, e o processo descrito por Freud nos termos da identificação (especificamente a identificação secundária), tende à repetição. É nesse momento que o conceito de “psicopoder” — em diálogo, mas também em oposição ao de “biopoder” — aparece.
Enquanto o biopoder se caracteriza pelas técnicas disciplinares, o psicopoder “controla o comportamento individual e coletivo dos consumidores ao canalizar sua energia libidinal para as mercadorias.” Surge, enfim, a influência da psicanálise em seu pensamento — que passa por Freud, Winnicott e Lacan. Começamos a vislumbrar a maneira pela qual Stiegler mobiliza sua leitura psicanalítica para a crítica da economia política, fundamentalmente pela distinção entre pulsão e desejo, apontando para a historicidade do inconsciente que se estabelece pela relação entre economia de subsistência (i.e., necessidades) e de existência (i.e, desejos) — algo que dialoga diretamente com uma certa “antropologia” da metapsicologia freudiana, e que remonta à materialidade histórica da libido e da pulsão, diferença mediadora em relação à categoria de natureza.
A dimensão dos desejos pressupõe então uma economia das “consistências” dos objetos de idealização (infantil, amorosa, artística, científica, filosófica, política e religiosa, entre outras), o que remete à categoria constitutiva do narcisismo e das identificações elaborada desde Freud (como se encontra, por exemplo, desde a introdução ao narcisismo até a psicologia das massas). Assim, denota-se a relevância do chamado ideal de Eu, na medida em que é inserido no circuito da mercadoria. É esse o fundamento teórico de expropriação do saber-viver: um achatamento dos modos de subjetivação que reduz à heterogeneidade, i.e., reduz a diferença enquanto complexidade entre as possibilidades de existência.
Essa expropriação sobre os saberes da vida é elemento fundamental para compreendermos a homogeneização simbólica não apenas do mundo, genericamente, mas também da esquerda, e da sua constante relação fantasiosa com um passado perdido que, via de regra, nunca existiu. Aqui, Stiegler encontraria Fanon. Mas essa também é outra conversa. O que importa aqui é nos atentarmos ao fato de que a infraestrutura tecnológica organiza uma relação totalizante que toma dimensões inéditas na era digital. Finalmente, nosso autor irá apresentar a tese de uma terceira expropriação: a do saber teorizar — ou do que poderíamos chamar também de expropriação do saber-pensar, i.e., a crescente automação que abarca toda cognição e produção teórica no regime do que Stiegler chama de Sociedade Automática. Essa passagem é marcada pela “deseconomia libidinal”, um processo que inibe o desejo — enquanto possibilidade de realização da libido — pela extrapolação da pulsão. Stiegler considera esse momento como um “capitalismo de base pulsional”, o que implicaria na fragmentação da experiência e da memória (i.e., das retenções primárias e secundárias) pelo efeito retroativo dos artefatos digitais (que formam as condições atuais das retenções terciárias, de acordo com sua teoria). É isso que Stiegler considera como processo de implosão da transmissão geracional simbólica — um impasse que ele chama de dessimbolização.
Ora, a economia consumista, ao postular em princípio a descartabilidade intrínseca de todos os objetos, provoca um curto-circuito na identificação primária e, de modo mais geral, na relação de cuidado. A economia consumista constitui, enquanto tal, um imenso processo de desaprendizado e de destruição dos milieus associativos e dialógicos — uma vez que o simbólico, submetido à oposição funcional entre produtores industriais de símbolos e consumidores dessa produção é, por meio desse mesmo processo, dessimbolizado. [4] STIEGLER, Bernard. Pharmacology of desire: Drive-based capitalism and libidinal dis-economy. New Formations, v. 72, n. 72, p. 150-161, 2011.
Essa dessimbolização leva à desintegração libidinal, ou seja, à liberação pulsional regressiva. Stiegler, dialogando com a psicanálise em sua fase teórica tardia, aponta enfim para um imperativo da desintegração, i.e., em termos freudianos, um imperativo da pulsão de morte como princípio dissociativo — uma “deseconomia libidinal”. Essa leitura influencia toda sua conceituação posterior sobre o antropoceno, carregada de reinterpretações sobre categorias termodinâmicas — como a entropia e a neguentropia — que incidem também sobre conceitos informacionais. Todas essas dimensões teóricas são fundamentais para compreendermos sua intervenção no contexto político e histórico do contemporâneo. A crítica ao antropoceno formulada por Stiegler é baseada em Marx e Freud, mas parte de uma reinterpretação que atualiza, de modo retroativo, os conceitos de ambos. Apesar das ambiguidades e do possível otimismo que sua farmacologia oferece, seria inadimplente ignorar a negatividade — em sentido produtivo — que sua teorização tardia apresenta. Sua crítica sobre a dimensão noética e o achatamento da teoria em um contexto de imaginarização do simbólico revelam uma atualidade fundamental, que precisa ser retomada, aquém de qualquer neutralização do potencial crítico da análise que sua obra oferece. Seria fundamental traduzirmos suas obras hoje, para pensarmos, junto de suas reflexões, os impasses do presente. Stiegler segue vivo hoje, mais do que nunca, especialmente em sua capacidade de transformar a própria reflexão teórica sob a luz do presente.

Cian Barbosa
é sociólogo e mestre em psicologia (UFF), Doutor em Filosofia (Unifesp) e doutorando em Psicologia (UFRJ), onde integra o Laboratório em Estudos sobre a Subjetividade e Emergências Humanitárias. É tradutor e ensaísta, além de professor e coordenador no Centro de Formação. Também é integrante da revista Zero à Esquerda e colunista na revista Opera Mundi.
| ↑1 | STIEGLER, Bernard. La technique et le temps: 1. La Faute d Épiméthée. 2. La Désorientation 3. Le Temps du cinéma et la question du mal-être. Fayard, 2018. |
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| ↑2 | STIEGLER, Bernard. Pharmacology of desire: Drive-based capitalism and libidinal dis-economy. New Formations, v. 72, n. 72, p. 150-161, 2011. |
| ↑3 | STIEGLER, Bernard. Automatic society. The future of work, 2015 |
| ↑4 | STIEGLER, Bernard. Pharmacology of desire: Drive-based capitalism and libidinal dis-economy. New Formations, v. 72, n. 72, p. 150-161, 2011. |