O futuro depois de Gaza  – Thomas Amorim

É o DÉCIMO primeiro dia do conflito, mas todos os dias já se fundiram numa
coisa só: hoje é como ontem, o mesmo bombardeio, as mesmas notícias, o
mesmo medo, o mesmo cheiro. Nada muda. Você convive com os mísseis, os
sons das explosões, o zumbido dos drones, o estrondo sônico dos F-16. Essa
cacofonia parece a trilha sonora de um filme, só que o filme é a sua vida. Você
precisa conviver com isso e lembrar a si mesmo de que está vivo, de que isso
não é um filme. Mas então você duvida de si mesmo: talvez seja um filme, um
filme biográfico sobre você, e você já morreu¹.

O futuro está ameaçado por um zumbido de drones e bombardeios, por um fluxo invasivo do presente e por uma torrente de fúria e violência. O que esperar do futuro depois de Gaza? O que resta de perspectiva quando um massacre tão hediondo e duradouro é transmitido, em tempo real, para todo o mundo e nenhuma reação é capaz de impedi-lo? Como lutar contra a barbárie e o colapso social? A catástrofe que se abateu sobre o povo palestino é, sem dúvida, um sintoma evidente das tendências sombrias do tempo em que vivemos. A chamada “palestinização do mundo”² tem como reverso a “israelização do mundo”: Israel se tornou a utopia da extrema-direita mundial, porque construiu o mais bem-sucedido regime de apartheid do presente e pelo modelo autoritário de controle sobre uma população sobre a qual detém o poder de vida ou morte. A utopia dos fortes e dominadores é a distopia dos fracos e dominados.

A gestão violenta das populações dominadas tem rendido como exportação tecnológica, ideológica e militar para o regime sionista. Os limites de violência transpostos em Gaza são os limites que tendem a ser ultrapassados e alargados mundo afora quando os governos e poderes tiverem de lidar com elementos perturbadores da ordem. Dessa forma, a hecatombe recente foi um experimento, mais ou menos deliberado, em que a classe dominante tateou e testou tanto a capacidade de controle da opinião pública internacional quanto o poderio de rastreamento e extermínio de seus inimigos.

I
O genocídio

O genocídio da população palestina e a destruição de Gaza não se compara a nada que o mundo testemunhou no curso da última geração. Os 365 km2 da Faixa de Gaza receberam 85 mil toneladas de explosivos e produziram 50 milhões de toneladas de escombros, que podem levar décadas para serem removidos, e mataram diretamente 67 mil pessoas³ – uma cifra que alcança centenas de milhares quando consideramos os assassinatos indiretos por meio da privação de alimentos, de energia, equipamentos de saúde e medicamentos essenciais.

Mas a forma como o genocídio se deu conferiu um ineditismo ainda mais terrível para essa barbárie, porque o regime sionista conduziu cinicamente a devastação e a carnificina de toda uma população diante da audiência global. A despeito das narrativas oficiais e dos esforços cínicos da mídia, a sociedade pós-moderna é uma sociedade dominada pelo voyeurismo e pela visibilidade, ou seja, não permite o absoluto desconhecimento de semelhantes horrores. Os mais de 20 mil bombardeios realizados por Israel, a destruição de toda a infraestrutura civil, das universidades aos hospitais, o assassinato de dezenas de milhares de civis indefesos, a morte e mutilação de crianças, a fome catastrófica e ajuda humanitária transformada em arma de guerra pela infame Fundação Humanitária de Gaza e muitos outros crimes contra a humanidade, foram registrados, transmitidos e conhecidos quase em tempo real por grande parte do mundo.

A perversidade expressa pelo ministro da defesa Yoav Gallant no começo do genocídio é apenas mais um retrato da mentalidade sionista em geral: “Não haverá nem eletricidade, nem comida, nem água, nem combustível. Tudo fechado. Nós estamos combatendo animais humanos e estamos agindo em conformidade com esse contexto”⁴. Ou seja, pensam os sionistas que podem implantar a barbárie e se tornar animais porque veem os mais de 2 milhões de palestinos na Faixa de Gaza como animais.

Nenhuma racionalização simples ou empatia seletiva poderia explicar tal monstruosidade e orgulhosa desumanização do outro e de si mesmo. Mas Adorno e Horkheimer já identificaram corretamente que a projeção do ódio no alvo do mesmo é fundamental na psicologia do fascismo, um espelhamento justificador:

O indivíduo obcecado pelo desejo de matar sempre viu na vítima o perseguidor que o forçava a uma desesperada e legítima defesa, e os mais poderosos impérios sempre consideravam o vizinho mais fraco como uma ameaça insuportável antes de cair sobre eles. A racionalização era uma finta e, ao mesmo tempo, algo de compulsivo. Quem é escolhido como inimigo é percebido como inimigo.

A brutalidade com que se vislumbra o outro é índice da pobreza interior. O projeto etnonacionalista do sionismo sempre portou o germe dessa bestialidade, porque, mesmo no período de hegemonia do “sionismo socialista”, ele só podia ver na identidade judaica algo de essencialmente contraposto à identidade árabe. Desde David Ben-Gurion, a utopia do Bem-Estar, das fazendas coletivas, do trabalho auto-organizado e da justiça assumia a forma de um enclave étnico e as instituições se organizavam através de identidades exclusivas⁵. Tal equilíbrio dinâmico entre a ideologia igualitária e a particularista terminou por marginalizar a primeira à medida que o ambiente internacional se deteriorou e a realpolitik fez mais lucrativo investir no colonialismo e no apartheid.

O slogan do “povo sem terra para uma terra sem povo” guardava o pior das ideologias europeias, o chauvinismo e o racismo, o apelo da terra e do sangue. E tal como o colonialismo do Império Britânico, Israel desenvolveu a tecnologia da fome como mecanismo de dominação e técnica de controle da população colonizada. De acordo com o Programa Mundial de Alimentos, da ONU, 900 mil crianças passavam fome em Gaza e 70 mil delas se encontravam em estado de desnutrição em julho de 2025. Um a cada três palestinos estava há dias sem comer, enquanto um pacote de farinha passava a custar 100 dólares⁶. Ao mesmo tempo, Israel espalhava terror e fazia até mesmo dos centros de ajuda humanitária um inferno permanente, executando indivíduos famintos nas filas de distribuição de comida e nos centros de ajuda humanitária:

Um rapaz estava sentado ao meu lado e, de repente, levou um tiro na cabeça (…) nem sabemos de onde veio a bala. Estávamos lá correndo atrás da nossa sobrevivência, mas nos vimos afogados em sangue. Hoje, qualquer pessoa que pegasse um saco de farinha, era recebida com tiros⁷.

O relato dos trabalhadores da ajuda humanitária em Gaza revela que sua experiência foi como trabalhar em valas coletivas em que estavam enterrados tanto mortos quanto vivos. Esse pesadelo pôde ser acompanhado em primeira pessoa tanto nos registros feitos pelos sobreviventes quanto nas filmagens exibidas pelos próprios soldados israelenses, muitas vezes em estado de júbilo diante da carnificina que cometiam.

E o mais perturbador foi constatar o contraste entre as vidas completamente arruinadas, as milhares de crianças mortas ou mutiladas, as famílias destruídas de um lado e, de outro, a alegria, a zombaria e o orgulho de inúmeros executores das Forças de Defesa de Israel (FDI). Os militares postaram no TikTok vídeos em que se divertiam com os seus crimes, desde a promessa de liquidar as memórias dos palestinos enquanto destruíam a infraestrutura civil até a fantasia com roupas íntimas palestinas após a invasão de suas casas. Ao mesmo tempo, influenciadores israelenses fizeram dinheiro com vídeos virais que alcançaram milhares de visualizações ao escarnecerem da morte, dos ferimentos, da falta de água e de luz da população de Gaza⁸. A máquina de propaganda sionista foi capaz de disseminar a mentalidade fascista não apenas no meio militar, mas também em amplos setores da sociedade civil.

II
A violência desnudada

Não devemos, no entanto, considerar o sionismo isolado do contexto internacional. Os terríveis episódios recentes fazem parte de uma escalada histórica da dominação israelense, mas também de uma série crescente de violações de regulamentos e convenções em nível global. As guerras permanentes dos Estados Unidos, o belicismo e a expansão da OTAN, a invasão russa da Ucrânia e o rearmamento da Europa fazem parte dessa cronologia mais ampla, que agora inclui o autoritarismo interno, a chantagem externa e até execuções extrajudiciais pelo governo de Donald Trump. Ou seja, o pesadelo palestino foi tanto a resultante imediata da crise capitalista quanto, ao mesmo tempo, o sinistro presságio de acontecimentos futuros.

Nesse sentido, a perversidade sionista é o sintoma mais recente da crise do ordenamento político que vigorou no pós-guerra. A violência devastadora que se abateu sobre os palestinos é o rosto da pura dominação quando ela já não precisa ou não pode se camuflar com a etiqueta e as boas maneiras que vigoravam durante a Pax Americana. O neofascismo é uma das respostas que a crise sistêmica faz emergir e, dessa perspectiva, o sionismo é tanto a fera que o Ocidente liberou para disputar as terras do Oriente Médio quanto o modelo inspirador de grande parte de suas lideranças de extrema-direita – Zelensky, por exemplo, diz:

Vamos nos tornar uma grande Israel, com características próprias. Não ficaremos surpresos se tivermos representantes das Forças Armadas ou da Guarda Nacional em cinemas, supermercados, gente armada por todos os lados. A Ucrânia definitivamente não será o que queríamos que fosse desde o início. Impossível. Completamente liberal, europeia – não será assim⁹.

A classe dominante dos Estados Unidos e da Europa foi exposta em sua hipocrisia ilimitada enquanto dissimulava indignação diante da invasão russa da Ucrânia e bradava o “direito de defesa” de Israel num conflito em que se via a mais monstruosa desproporção de forças entre uma potência militar e colonialista e uma população civil desamparada, desarmada, violada, mutilada e em estado de fome. Mas não se tratou apenas de uma impostura ideológica, mas de uma colaboração com a ofensiva genocida: 69% das importações de armas de Israel provinham dos Estados Unidos e 30% da Alemanha, enquanto a Inglaterra providenciava suporte aéreo e vigilância¹⁰. Igualmente, entre os principais financiadores de Israel estão grandes companhias de investimento e bancos das potências atlânticas – como a Allianz (Alemanha), a Vanguard (EUA), BPER Banca (Itália), o Crédit Agricole (França) e mesmo o Itaú (Brasil). Bilhões de dólares fluíram desses fundos para o investimento em títulos israelenses comercializados sob o slogan “Israel está em guerra. Nós apoiamos Israel”¹¹.

Nos Estados Unidos, o antagonismo entre a posição de Joe Biden, que pesou contra a reeleição dos Democratas, e a de Donald Trump foi imperceptível até o momento em que o último resolveu dedicar energia para obter um cessar-fogo – que se pretende acordo de paz e, na verdade, é um projeto de recolonização da Palestina. Na Inglaterra, tampouco houve diferença entre o comportamento do primeiro-ministro conservador Rishi Sunak e o trabalhista Keir Starmer, demostrando que não há nada mais conservador do que um neoliberal progressista no governo. Já a civilizada e democrática União Europeia direcionou sua economia para a venda e doação de armas, ao mesmo tempo em que continua a política de austeridade, reduzindo gastos sociais, encolhendo as aposentadorias e buscando cortar até os feriados nacionais¹².

O fato de os governos árabes terem ficado inertes diante das atrocidades cometidas em Gaza foi igualmente revelador e demonstra até que ponto estão integrados e comprometidos com os aparelhos do capitalismo ocidental, fazendo da conivência um negócio mais vantajoso do que a resistência. As teocracias e ditaduras da região, em geral, estão bem acomodadas aos interesses econômicos e geopolíticos dos países centrais e ávidos por negócios, seja a destruição ou a reestruturação da Palestina. Mas, enquanto se prestam ao papel de colaboradores locais na liquidação ou na reconstrução de Gaza, suas populações são integralmente solidárias à resistência do povo palestino.

Esse desencontro entre a ideologia e a prática dos governos e suas respectivas populações, sem dúvidas, é o átomo de esperança que sobrevive nos escombros da catástrofe. A fraqueza da sociedade burguesa se mostra nos momentos de crise quando as formas consagradas e cerimoniosas da dominação são substituídas pela “exploração aberta, direta, despudorada e brutal”¹³. Hoje essa verdade se apresenta de maneira mais pura à medida que se torna evidente que o parâmetro moral do Ocidente se reduz aos interesses das grandes potências. Depois de Gaza, a verdade está escancarada e o futuro dos espoliados, desvalidos e descartáveis está anunciado frente ao mundo.

A desumanização absoluta dessa parcela da população não escapou ao radar da classe trabalhadora de outras partes do mundo. Em todos os países citados e em incontáveis outros, ocorreram grandes manifestações de solidariedade à Palestina e de protesto contra a cumplicidade de seus respectivos governos. Nos Estados Unidos, o simbólico movimento de ocupação dos campi de grandes universidades mapeou os investimentos e parcerias do bilionário sistema universitário do país com o setor de produção de armas e mecanismos de vigilância de Israel, que, dentre outras coisas, era usado para destruir as universidades na Faixa de Gaza. Protestos de massa explodiram nas grandes cidades da Europa como Paris, Berlim e Londres, mas especialmente na Itália ocorreu a sublevação mais significativa: 75 cidades entraram em greve geral em setembro de 2025, exigindo o rompimento dos laços econômicos, militares, políticos e econômicos do país com o Estado sionista. Milhões de pessoas foram às ruas em mais 100 cidades sob o slogan “Vamos bloquear tudo” (Blocchiamo Tutto), inspirado no movimento homônimo na França (Bloquons Tout). O experimento levado a cabo pelos trabalhadores italianos foi o mais importante porque conectou a indignação política com a interrupção da circulação, com o bloqueio das artérias econômicas da sociedade, paralisando grandes infraestruturas, rodovias e portos.

Assim pressionados pelas massas, Reino Unido, Austrália, Canadá, Portugal e França, num movimento extremamente hipócrita, foram levados a reconhecer um fantasmagórico Estado Palestino. No Oriente Médio, por sua vez, os governos só parecem ter visto a necessidade de pressionar de forma decisiva os Estados Unidos contra a aniquilação dos palestinos após verem sua soberania violada inúmeras vezes pelo caráter criminoso e descontrolado do sionismo, que atacou repetidamente países vizinhos¹⁴. Desde os Acordos de Abraão (2020), países como Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos, tornaram-se sócios de Israel com acordos de segurança e livre comércio, enquanto países como a Síria, o Iêmen e a Líbia se viram desestabilizados desde a Primavera Árabe. Muito mais eloquentes do que a condenação verbal de líderes como Erdogan, da Turquia, ao genocídio foram seus laços econômicos continuados com Israel e o mesmo vale para a postura da ditadura militar egípcia que censura o massacre do outro lado da fronteira, enquanto fornece energia para Israel.

Mas o contraste entre a razão de Estado e o desejo popular não poderia ser maior: Síria, Líbia, Tunísia, Argélia, Marrocos e Egito testemunharam enormes manifestações de solidariedade à Palestina. No Egito, foi planejada a Marcha Global para Gaza, que pretendia sair de Arish e percorrer 50 quilômetros para alcançar a cidade palestina de Rafah, criando pressão midiática e política contra o regime sionista, porém foi reprimida e boicotada pelo governo egípcio. Os protestos mundiais também se fizeram sentir em enormes proporções em outras regiões e países: da Cidade do Cabo a Amsterdã, de Melbourne a Jacarta, de Toronto a Cisjordânia.

Depois dessa pressão global e de mais uma grave violação das leis internacionais por parte de Israel no ataque à cúpula que negociava a paz em Doha, Catar, Donald Trump impôs seu cessar-fogo, e a ofensiva genocida foi interrompida, sob pressão dos regimes árabes aliados dos Estados Unidos. Essa suspensão é uma ameaça que continua a pairar sobre Gaza, mas é também o momento da classe trabalhadora internacional tentar elaborar a experiência acumulada por esta última onda de levantes populares e lutas.

III
O avanço do neofascismo

A Palestina tem funcionado como um laboratório, não no sentido de ser um experimento deliberado a ser replicado em outros lugares, mas como um horizonte que revela tendências para a gestão violenta dos grupos vulneráveis de toda a população mundial. A Palestina é um espelho ampliado que revela em detalhes o extremo a que a ordem social pode chegar. O discurso que desumaniza os palestinos não é distinto daquele que odeia os migrantes, viola os seus direitos, territórios e memórias e não é diverso da espoliação e da guerra levada a lugares como o Sudão, a Líbia, a Síria, o Iraque ou o Afeganistão, a sua resistência ou fuga não difere qualitativamente da de várias outras populações expropriadas. O capitalismo contemporâneo é uma totalidade espoliativa em metástase que se espalha destruindo todas as normatividades civilizacionais que haviam sido duramente arrancadas ao sistema no curso de décadas de luta. E é por isso que observar atentamente os terríveis acontecimentos em Gaza é perceber autoritarismo e controle latentes na sociedade contemporânea.

O essencialismo que divide os indivíduos ordinários e impõe a lógica dicotômica de “eles” e “nós” é fruto da escassez planejada do neoliberalismo e funcional para sufocar a solidariedade entre os povos. O apartheid em Israel não é opressor unicamente em relação aos palestinos na Cisjordânia e Faixa de Gaza, mas também limita severamente os direitos dos árabe-israelenses e, na prática, favorece os judeus asquenazes em relação a outros grupos judeus. Em Gaza, a construção de um muro ao redor de um território de 365 km2, o controle absoluto do fluxo de pessoas e a vigilância permanente de seus subcidadãos, ou seja, a guetificação de uma população de mais de 2 milhões de pessoas que já dura quase 20 anos, é o protótipo do que os governos crescentemente autoritários ao redor do mundo buscam reproduzir.

Na Faixa de Gaza, Israel construiu o maior campo de prisioneiros a céu aberto do mundo, dependendo da solidariedade internacional, porque a água, a eletricidade, a entrada e a saída de pessoas, tudo está controlado pelo estado sionista¹⁵.

Os palestinos, dessa maneira, vivem a distopia futurista mais bem desenhada do mundo. Eles são controlados, vigiados, monitorados, chantageados, presos e assassinados de forma absolutamente livre por um colonizador que está tecnologicamente décadas à frente, que é inúmeras vezes mais poderoso e é absolutamente implacável em seu propósito de dominação. Se o rainbow washing israelense atrai democratas e progressistas, é essa imposição militar que fascina a extrema-direita em todo o mundo:

O TRATAMENTO INCLEMENTE QUE ISRAEL dedica aos palestinos e o perfilamento racial sancionado pelo Estado criaram um paradoxo: popularizaram o país entre grupos que tradicionalmente odeiam os judeus. Uma bandeira israelense podia ser vista no ato em frente ao Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021 antes do prédio ser invadido por manifestantes de extrema-direita […] O Estado judeu defende fronteiras fortes com orgulho, rejeita qualquer tentativa de organismos de governança global como a organização das Nações Unidas (ONU) de se imiscuir em seus assuntos domésticos e se vende como um Estado onde os judeus estão acima de tudo¹⁶.

No capitalismo tardio, a gestão da população excedente é uma questão para todos os países, dadas as realidades da crise da acumulação, do desemprego estrutural e do consequente colapso da legitimidade dos regimes políticos. A vantagem comparativa de Israel é ser a vanguarda na gestão autoritária de uma população indesejada que o acompanha desde a origem de seu Estado-nação. O militarismo é a doutrina fundadora do país e logo se tornou seu grande negócio, tendo hoje 10% de toda a sua força de trabalho ligada ao comércio de armas. Principalmente após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, o sionismo passou a ver no militarismo um nicho de mercado e passou a colaborar com ditaduras, regimes autoritários e entidades etnonacionalistas em todo o mundo: a Indonésia, a Romênia, o Paraguai, a Argentina, a Guatemala e a África do Sul são apenas alguns exemplos históricos. No século XXI, os drones de vigilância e repressão (por exemplo, o Sea of Tears), a biometria, a genética, o monitoramento de redes sociais, o hackeamento, a inteligência artificial e a propaganda online (a Instaguerra) com finalidades políticas e militares entram para o rol de contribuições israelenses para o mundo¹⁷.

Toda essa violência inspira e ensina à extrema-direita dos Estados Unidos sobre o seu combate aos imigrantes, incluindo a construção de cercas e sistemas de vigilância na fronteira com o México e a perseguição à população indesejada. Os europeus igualmente utilizam as máquinas e tecnologias humanas israelenses no seu controle de fronteiras, na permanente caçada aos refugiados das guerras que eles próprios provocaram, alimentaram ou financiaram em outras regiões do mundo. Os europeus empregam drones para vigiar o Mediterrâneo, mas não com a intenção de salvar imigrantes, e sim para impedi-los de chegar à costa, deixando-os morrer no mar ou entregando-os ilegalmente para prisões, torturas e extorsões na Líbia. As tecnologias empregadas nos palestinos também são úteis: detectores de mentira alimentados por inteligência artificial, barreiras digitais, canhões de som ensurdecedores. Processos de controle e violência que naturalmente estão sendo preparados para ser empregados contra as populações nativas desses países, contra protestos, adversários políticos ou grupos étnicos minoritários.

O caso alemão é o mais elucidativo, porque a ideologia fundadora da Alemanha reunificada foi a expiação pelos horrores de seu passado, em especial o Holocausto. No entanto, devemos desconfiar da boa-fé de um discurso que recorre à culpa com relação aos crimes do passado enquanto fomenta o militarismo e a corrida armamentista no presente. De fato, na Alemanha, o autoritarismo se desenvolve desenfreadamente simultaneamente ao crescimento do Alternative Für Deutschland (AfD), e os demais partidos se assemelham e aproximam cada vez mais das propostas da extrema direita. A Alemanha não só tem criminalizado manifestações em solidariedade à Palestina nos últimos anos, como tem perseguido intelectuais e ativistas que não se mostrem alinhados aos discursos e interesses oficiais do Estado. Entidades acadêmicas, como o DAAD, e a agência pública de notícias Deutsche Welle (DW), bem como os profissionais a elas relacionados tiveram sua autonomia seriamente restringidas pela implementação de medidas retaliatórias e ameaças em casos de crítica ao genocídio e o projeto de limpeza étnica sionista.

Como observa Masha Gessen, o culto alemão à memória, desde há muito, começou a parecer ritual e estático, mais um engessamento do que sincera autocrítica com relação aos crimes contra a humanidade do nazismo, “como se fosse um esforço não para lembrar a história, mas também para garantir que apenas esta versão da história fosse lembrada – e apenas dessa maneira” Com a memória convertida em dogma, com a intencional confusão de qualquer crítica a Israel com antissemitismo, a Alemanha erige um imperativo à obediência incondicional. A própria AfD, com seus laços com o nazifascismo, abraça cinicamente o sionismo porque ele pode contribuir para encobrir seu próprio etnonacionalismo e ser um instrumento para perseguir o inimigo interno da vez, os imigrantes muçulmanos. O dogma como ordenamento cultural casa bem com o autoritarismo e a extrema-direita emergente, pois qualquer outro crime alemão deve empalidecer e seus críticos se calarem diante daquele crime excepcional e incomparável. A Alemanha não precisa temer a repetição da monstruosidade, porque ela já aconteceu, está selada no passado e é “irrepetível”.

Depois de Gaza, já não teremos motivo para a ingênua convicção de que o fascismo não voltará e nem para a ideia de que o futuro reserva uma sociedade de direitos iguais para todos. Depois de Gaza, ficará ainda mais evidente o colapso do sistema de relativa estabilidade do pós-guerra, dos equilíbrios de pesos e contrapesos do direito internacional. Depois de Gaza, o autoritarismo, as medidas de exceção e as tecnologias de repressão se espalharão ainda mais rápido pelo mundo. Depois de Gaza, ainda haverá uma Gaza sitiada e oprimida, mas também haverá uma fugaz reminiscência das lutas, do sentimento de solidariedade e da revolta internacional que Gaza fez despertar.

Referências:

¹SAIF, ATEF ABU. Quero estar acordado quando morrer: diário do genocídio em Gaza. São Paulo: Editora Elefante, 2024, p. 60.
²BENTO, Berenice. Palestinização do mundo. Blog da Boitempo, 2024. Disponível em:https://blogdaboitempo.com.br/2024/05/30/palestinizacao-do-mundo. Acesso em: 5 set. 2025
³MAGALHÃES, Juan. A algoritmização da morte e o paradigma da “guerra” permanente. Le Monde Diplomatique, 2025. Disponível em: https://diplomatique.org.br/a-algoritmizacao-da-morte-e-o- paradigma-da-guerra-permanente. Acesso em: 15 nov. 2025.
⁴JONAH MANDEL; ADEL ZAANOUN. “Sem eletricidade, comida, água e combustível”, ministro da Defesa de Israel anuncia cerco total a Gaza, onde vivem 2 milhões. Disponível em: http://<https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/10/09/sem-eletricidade-comida-agua-e-combustivel- ministro-da-defesa-de-israel-anuncia-cerco-total-a-gaza-onde-vivem-2-milhoes.ghtml>. Acesso em 1 nov. 2025.
⁵ALTMAN, Breno. Contra o Sionismo: Retrato de uma Doutrina Colonial e Racista. São Paulo: Alameda, 2023.
⁶NATARAJAN, Swaminathan. A fome extrema em Gaza: “Eu morreria por um pacote de farinha”. BBC. Disponível em:https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4gen9p673go. Acesso em: 15 nov. 2025.
⁷NATARAJAN, Swaminathan. A fome extrema em Gaza: “Eu morreria por um pacote de farinha”. BBC. Disponível em:https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4gen9p673go. Acesso em: 15 nov. 2025.
⁸AL JAZEERA. Investigating war crimes in Gaza. Doha: Al Jazeera, 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kPE6vbKix6A. Acesso em: 15 nov. 2025.
⁹SOKOL, Sam. “Zelenskyy says post‐war Ukraine will emulate Israel, won’t be ‘liberal, European’”. Haaretz, 5 abr. 2022. Disponível em: https://www.haaretz.com/world news/europe/2022-04-05/ty-article/.highlight/zelenskyy says-post-war-ukraine-will-emulate-israel-wont-be-liberal- european/00000180-5bc4-d718-afd9-dffcdfdd0000). Acesso em: 10 set. 2025.
¹⁰WIKIPÉDIA. List of countries supplying arms to Israel. In: Wikipédia. [s.l.: s.n.], 2024. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_supplying_arms_to_Israel. Acesso em: 20 nov. 2025.
¹¹EIKELENBOOM, Siem; ROUFFAER, Casper. Genocídio: a mão oculta do sistema financeiro. Outras Palavras, 2025. acesso em: 10 nov. 2025.
¹²BARTOLO, Ana Beatriz. Entenda por que a França quer excluir dois feriados nacionais do calendário de 2026. Valor Econômico, 2025. acesso em: 20 nov. 2025.
¹³MARX, Karl; FRIEDERICH, Engels. Manifesto do partido comunista. São Paulo: Boitempo Editorial, 1998, p. 42.
¹⁴XAVIER, César. Israel ataca seis países em 72 horas e escala conflito regional. Vermelho, 2025. acesso em: 20 out. 2025.
¹⁵ALTMAN, Breno. Contra o Sionismo: Retrato de uma Doutrina Colonial e Racista. São Paulo: Alameda, 2023.
¹⁶LOEWENSTEIN, Antony. Laboratório Palestina. São Paulo: Elefante, 2024, p. 24.
¹⁷LAYAN KHAYED et al. Na sombra do Holocausto: Genocídio em Gaza. São Paulo: Contrabando editorial, 2024, p. 9.
¹⁸LAYAN KHAYED et al. Na sombra do Holocausto: Genocídio em Gaza. São Paulo: Contrabando editorial, 2024, p.16



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