A imagem de capa corresponde à uma fotografia de uma demolição próxima a Sé do Porto em Portugal.

“A ‘vocação’ do século XIX para o estudo da história e para a absoluta necessidade vital desse estudo tem o seu ano de nascimento na revolução francesa. A “história” é experimentada desde então como crise em permanência ou como revolução permanente, não susceptível de ser contida e impossível de sujeitar. Por isso, os historiadores e os filósofos da história concentraram-se, quer com um desejo conservador, quer com um desejo revolucionário, na dominação espiritual, política e social desta crise permanente. A ciência da história e a filosofia da história são forçadas a tornar compreensível a “história”, para deste modo tornar domináveis o caos, a catástrofe e as crises, e, com isso, a história enquanto tal. A orientação metafísico-cosmológica do mundo é substituída desde então por uma orientação filosófico-histórica do presente. Foi precisamente o derrubamento da continuidade histórica que provocou aquela apoteose da “história” que levou à religião da história nos movimentos messiânicos do século XIX”. – Jürgen Moltmann


“As revelações que os seus autores receberam de Deus eram muito diversas daquelas recebidas pelos profetas bíblicos. Não há, nos apocalipses, nenhuma sugestão de que os seres humanos possam, pela sua obediência ou desobediência, alterar a forma dos acontecimentos futuros. O futuro já está determinado; na verdade, o seu curso já está escrito num livro celestial. E o seu resultado será diverso de tudo o que havia sido indicado pela profecia clássica. Haverá um julgamento final. Haverá uma vida após a morte na qual os seres humanos, inclusive os mortos ressuscitados, irão receber as recompensas e as punições justas. E se alguns seres humanos serão transformados em anjos, outros serão condenados ao tormento eterno” . – Norman Cohn


Mas Deus alienou-se quando criou o mundo e, como perdeu o seu poder na criação, aguarda o seu resgate! Hoje é a impotência de Deus que nos revela o Apocalipse sem redenção possível: “Oh, os caminhos primaveris das meditações crepusculares do solitário. /Oh, filhos de uma ensombrada estirpe. /Oh, os filhos da noite. Oh, os malditos. /Estranhos são os caminhos nocturnos do homem. /Um morto vem visitar-te. Do coração corre-lhe o sangue que ele próprio verteu, e no sobrolho negro aninha-se um instante indizível. Encontro lúgubre. Tu – uma lua de púrpura, quando o outro aparece na sombra verde da oliveira. Segue-o a noite eterna” – Georg TraklAmigos da noite eterna, anjos de rosto negro, enterremos a soteriologia, porque já não precisamos de ilusões para viver!


Adoro as escadarias da Cidade do Porto e, sob o signo das escadas da Sé-Catedral do Porto, proponho a revisitação de alguns textos sobre Filosofia da História. A filosofia apocalíptica da História tem claramente um propósito político: preencher o vazio político deixado pelo marxismo. O seu conceito nuclear – o Apocalipse sem salvação possível como sentido derradeiro da história – visa minar a doutrina burguesa do progresso que move o capitalismo na sua marcha triunfal e que o conduzem à destruição da vida sobre a terra. A teoria de Marx é completamente depurada da presença de elementos ideológicos que lhe são estranhos e adversos: travar a marcha triunfal do capitalismo que mergulha o mundo no abismo é a tarefa de uma nova prática política marxista. Porém, ao rejeitar a doutrina do progresso, a nova teoria crítica abandona qualquer tipo de colonização do futuro: a sua função prática é iluminar uma prática política capaz de salvar o sofrimento passado do esquecimento, de modo a que ele não possa repetir-se no tempo de agora. Garantir a restituição integral da história em cada uma das sucessivas conjunturas políticas até ao fim do mundo do homem é resistir ao fluxo do tempo que ameaça aniquilar o mundo e adiar heroicamente a catástrofe final. A história deve ser lida e feita à luz deste final trágico da humanidade.

Apocalipse significa revelação antecipada da destruição do mundo: o homem pode tentar adiar por tempo indeterminado a catástrofe final, mas não pode evitá-la. A caducidade do homem não lhe permite sonhar uma vida futura garantida aqui na terra ou noutro lugar ou não-lugar qualquer: a Grande Política convida o homem a produzir sentido para aquilo que está condenado à destruição – o sentido derradeiro de toda a existência. Nada neste mundo caduco e entrópico está a salvo da aniquilação total, incluindo a própria alma do homem. O fim de todas as ilusões atiça a luta revolucionária contra as mentiras milenares das classes dominantes: nenhum homem tem direito a apropriar-se daquilo que pertence a todos por direito de nascimentoO capitalismo que gera continuamente pobreza e miséria não tem justificação possível: ele deve ser destruído para que o homem possa ter direito à dignidade humana. O sofrimento das vítimas da dominação e da crueldade só será resgatado quando os homens assumirem a caducidade da sua vida e tomarem coragem para sacrificar os carrascos e derramar o seu sangue sobre os altares das Catedrais. Nesse dia libertador até Deus será salvo da sua mentira milenar. (Os portugueses, os gregos e os irlandeses não precisam submeter-se aos caprichos da banca ladra e do FMI, desde que aceitem a sua condição de seres estranhos neste mundo caduco, vivendo livremente vidas austeras e, tanto quanto possível, sem angústia. O Poder que nos rouba essa vida efémera pode e deve ser destruído. Tem coragem e pensa que não nasceste para ser explorado e oprimido: esmaga e liquida os poderes opressores. Só depois desse acto rebelde poderás renegociar um novo “contrato social“. Aliás, até hoje não houve verdadeiramente contrato social…)

Post scriptum

As reflexões que juntei no texto “Apocalipse e História: a Filosofia da História revisitada” e que foram agora republicadas em formato digital giram em torno do “fim da humanidade”. Hoje quero acrescentar novas considerações:
Considerações geológicas: A terra está em constante transformação e, ao longo da sua história, tem sofrido diversos cataclismos naturais, alguns dos quais produziram extinções em massa. Neste momento, estamos a sofrer os efeitos nefastos das mudanças climáticas e não sabemos se estamos preparados para sobreviver num planeta mais quente e mais hostil.

Considerações biológicas e ecológicas: Os seres vivos nascem, vivem e morrem. A vida traz no seu cerne a caducidade. As próprias espécies extinguem-se, como testemunha o registo fóssil. Muitos são os “factores” que se conjugam para tornar a vida humana impossível neste planeta: mudanças climáticas, catástrofes naturais, epidemias, guerra nuclear, mutações genéticas deletérias, envelhecimento populacional, predomínio de doenças crónicas, caos cerebral e mental, fadiga paralisante, stress gerador de cloaca comportamental, degradação do cromossoma sexual Y e decadência da cultura.

A filosofia da história de Hegel articula os conceitos de mortalidade, individualidade, liberdade e historicidade, dando como garantida a realização plena da liberdade no mundo dos homens. Ora, este fim da história sempre foi questionado pelo marxismo sem que a própria ideia do “fim da história” fosse abandonada. A extinção do homem devido a catástrofes naturais e sociais será literalmente o fim da humanidade e da sua aventura histórica. Uma teoria apocalíptica da história joga com este cenário do “fim do mundo humano” para obrigar os homens a dar novos sentidos à história e a adiar o fim catastrófico. Na altura em que escrevi estes textos estava muito marcado por Benjamin e Bloch. Hoje prefiro descartar os elementos utópicos e messiânicos desses autores. Como dizia Marx, a história não deve ser “adorada como uma deusa”, porque quem faz a história são os homens. (Sendo feita pelos homens, cabe a eles dar um “sentido” à história que, na sua lógica interna, segue o mau caminho: o caminho da dominação e da destruição.) Ao contrário do que supunha Hegel, a história não seguiu o caminho da liberdade plena; pelo contrário, a história segue o mau caminho que, no limite, nos confronta de algum modo com a extinção da espécie humana. Neste sentido, não há redenção possível: o homem enquanto indivíduo e enquanto espécie está condenado à morte e à extinção. Não adianta colonizar o futuro com grandes projectos políticos que, quando realizados, ficam aquém das nossas expectativas. (A experiência comunista foi uma terrível desilusão.) A história mais não é do que a “marcha triunfal dos vencedores” (Engels) sobre os cadáveres dos vencidos. A própria história é uma catástrofe. O totalitarismo tecnológico está em ação para selar o fim catastrófico da humanidade. O progresso tecnológico – em articulação com a lógica capitalista do lucro – faz-se à custa do sofrimento humano e da “humanidade do homem”. (A ideia de progresso é nefasta e letal: a lógica interna do progresso é a lógica da destruição. O progresso económico devastou a natureza que, neste momento, nos fustiga com calor excessivo e com mudanças climáticas que ameaçam a vida na terra.) O máximo que podemos fazer é adiar o fim catastrófico da humanidade sem exigir sacrifícios a ninguém. Mas esta ideia tão simples é rejeitada pelas classes dominantes intoxicadas pela lógica do poder e da riqueza. O apocalipse é o destino final do homem e do seu mundo. Pensar que a humanidade pode durar até ao colapso do sol e colonizar outros planetas é um sonho catastrófico que implica sacrifícios humanos desnecessários em nome de uma perenidade desmentida pela lógica da vida. Mostrar o cenário catastrófico certo é convidar o homem a ser mais razoável nos seus projectos políticos e de vida. O que está em questão é construir um mundo melhor para todos sem exigir sacrifícios às classes exploradas e oprimidas e à natureza: viver bem em “harmonia” com a natureza antes da extinção em massa da humanidade. O que o homem tem feito ao longo da sua história é acelerar a chegada da grande catástrofe final.

Nota: Apesar da distância temporal em relação aos textos sobre o apocalipse, consigo reconstituir o essencial da teoria proposta. O meu pessimismo acentua-se cada vez mais sem que tenha deixado de ser exigente. Há sinais abundantes que apontam para a extinção do homem. Devemos aprender a ler esses sinais de diversa natureza para adiar a catástrofe final. Com este texto adicional fico mais confortável, porque na altura em que escrevi extensamente nos blogues estava sob efeito de um fármaco tóxico que produzia mal-estar corporal. A minha escrita era muito vacilante.

Há um forte elemento cabalístico e messiânico na minha filosofia que me inibe de criticar os judeus mesmo quando exageram nas questões de segurança. Houve momentos em que escrevi encarnando a figura do “messias místico” ou do “santo oculto” da cabala judaica. Esta tendência messiânica é quase uma tendência natural do meu espírito que recua até à infância quando imaginei a existência subterrânea de uma sociedade perfeita de ratinhos brancos. O texto que publiquei hoje sobre a “teoria apocalíptica da história” quase faz lembrar a “apostasia” de Sabatai Tzvi, o messias místico que trocou o judaísmo pelo islamismo. Hoje abandonei os elementos utópicos e messiânicos de Benjamin e de Bloch. No entanto, isso não significa que deixe de “sonhar com um mundo melhor”. O meu desejo secreto é quebrar a continuidade da história catastrófica e deixar o mundo ser iluminado pela luz messiânica da redenção. O problema é que deixei de acreditar no homem e na auto-superação humana. Continuo a revelar a catástrofe final – o apocalipse – sem a luz messiânica da redenção.


1.
 A concepção apocalíptica da história foi esboçada nestes dois textos:
1.1.Pensar o Futuro. (a ser publicado pela Zero à Esquerda)
1.2.BinPhilosophy: a Catástrofe Final. (a ser publicado pela Zero à Esquerda)


2. Há duas influências filosóficas determinantes que deixaram marca profunda no meu pensamento filosófico, mas com as quais me debato para formular e desenvolver a nova filosofia apocalíptica da História:
2.1. A Filosofia Messiânica da História de Walter Benjamin: Walter Benjamin Revisitado (6 textos sobre o pensamento filosófico de Walter Benjamin).
2.2. A Filosofia da Esperança de Ernst Bloch: Ernst Bloch Revisitado (7 textos sobre a filosofia de Ernst Bloch).


3. O confronto necessário com o pensamento conservador:
3.1.Oswald Spengler Revisitado: A Introdução e os 2 primeiros textos expõem a tese da decadência do Ocidente. A filosofia da História de Spengler exerceu uma grande influência sobre mim, até porque quando li a sua obra era ainda adolescente.
3.2.Pensamento Conservador Revisitado: Abomino a filosofia da História de Eric Voegelin, bem como a política que ela implica.
3.3. Ortega y Gasset e a História.
3.4. Wilhelm Dilthey: A Hermenêutica da Historicidade.
3.5. Michel Maffesoli: O Regresso do Quotidiano.
3.6. Henri Pirenne e a Idade Média.
3.7. Escola do Porto Revisitada.


4. Uma paixão juvenil: as afinidades da concepção apocalíptica da História com o pensamento mexicano, em especial Maia, Tolteca e, sobretudo, Asteca.
4.1.Civilizações Pré-Colombianas Revisitadas. A Introdução expõe a ideia nuclear da cosmologia asteca que a concepção apocalíptica da História retém numa fórmula filosófica e científica desembaraçada da sua matriz religiosa e mitológica.


5. A matriz originária do meu pensamento filosófico:
5.1. Max Horkheimer: Eclipse da Razão.
5.2.A Actualidade do Marxismo.
5.3. A Redescoberta de Georg Lukács1 e 2.
5.4. Elogio da Filosofia de Arthur Schopenhauer.
5.5. Psiquiatria Dialéctica Revisitada.
5.6. Lembrar Louis Althusser.
Como é evidente, a selecção de textos aqui apresentada não esgota todos os textos dedicados à filosofia da história, bastando clicar sobre a etiqueta (tag) Filosofia da História para o constatar. Porém, os textos escolhidos são suficientes para testemunhar o nascimento da Filosofia Apocalíptica da História.


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