Entrevista realizada pela revista Zero à Esquerda com a participação de Neto Onirê, agricultor, Dirigente Estadual da Brigada Ojeffersson-MST e conselheiro da Teia dos Povos.


O que é a Teia dos Povos?

A Teia é uma articulação. Uma retomada das lutas que conseguiram apontar horizontes para além do Capital. Não é a primeira vez que surge uma articulação dos povos, no entanto, é a primeira com um nível de tecnologia capaz de conectar vários territórios a muitos quilômetros de distância.

De que maneira, na sua visão, movimentos do campo e movimentos da cidade podem se articular?

Responder essa pergunta de maneira satisfatória é encontrar o caminho das pedras na trilha da revolução. Penso que só teremos uma articulação sólida quando as lutas estiverem conectadas e as soluções das demandas concretas de cada território forem mediadas por essa aliança. De maneira simples, temos demandas que se completam.

A cidade tem excesso de gente e falta comida, o campo tem comida e falta gente para produzir. Sendo assim, demonstrar um caminho de volta para a terra é a primeira tarefa do campo. A segunda, é garantir que as lutas da cidade não se enfraqueçam por falta de comida.

Quando uma ocupação precisar comprar comida, o fará de uma área do MST, assim como a demanda por profissionais serão atendidas pelos movimentos urbanos. Para além disso, é importante saber que uma articulação existe em torno de uma demanda concreta de um dos elos da articulação, é a necessidade que comanda a vontade e assim dará forma a essa aliança. Penso que tenho uma tarefa: garantir que uma ocupação urbana próxima de uma área da Brigada ofereça espaço para que os companheiros possam produzir comida, gerar renda e quando precisarmos de apoio, esses mesmos “compas” deverão ajudar a defender o território.

Sendo uma liderança do MST na Bahia, como você compreende essa relação do Movimento Sem Terra com a Teia dos Povos?

É uma relação necessária. A TEIA não pretende comandar e sim articular as lutas que existem. Nós não somos inimigos, o capital e suas manifestações é que o são, então por quê lutar separados? É verdade que existem divergências quanto às táticas, no entanto, à medida que nossos inimigos avançam, celebrar uma aliança de luta será inevitável. Está evidente para mim que a revolução só será possível com a aliança dos povos, o MST tem um papel decisivo nessa jornada.

Assentamentos na Bahia tem sido alvo de ataques por parte do governo local e federal, como está a luta pela terra na Bahia haja vista as ofensivas do estado?

A luta pela terra passa por um momento crítico no que tange à desapropriação de terras e consolidação de assentamentos. Não teremos novas áreas desapropriadas e existe um movimento de titulação, cujo objetivo é tornar as terras dos assentamentos passíveis de venda e assim apropriáveis pelo agronegócio.

Penso que a reforma agrária enquanto política pública chegou ao seu fim. Essa é uma reforma liberal para garantir a produção de matéria prima para a indústria nacional.

Passando o Brasil a adotar o agronegócio como modelo de produção agrícola baseado na produção de commodity, abriu mão de consolidar um complexo industrial nacional e também “resolveu” o dilema dos latifúndios improdutivos. Contudo, a luta pela terra ainda é necessária para garantir a soberania alimentar do país e por isso o MST defende a Reforma Agrária Popular baseada na produção de alimentos saudáveis e acessíveis à classe trabalhadora. Minha opinião pessoal é que entramos num momento em que a luta pela terra precisa romper o limite da legalidade e assumir um caráter de Revolução Agrária, baseada na posse coletiva da terra e no processo de resistência ainda maior do que historicamente já fizemos. Isso porque nenhum governo na esfera municipal, estadual ou federal tem compromisso com uma política de redistribuição e terra que altere drasticamente os índices de concentração de terra no país, ferindo assim os interesses do agronegócio e das empresas que controlam as terras agricultáveis no país.

Como combater a visão que coloca a natureza como mero recurso a ser explorado pelo ser humano?

Destruindo o capitalismo! Ao dizer isso, quero afirmar a necessidade de enfrentar os valores e as práticas capitalistas introjetadas em nós. É preciso reconectar o homem, o capital nos separou da natureza e com isso criou a ilusão que é possível viver sem os bens naturais.

A floresta é vista como um empecilho para o desenvolvimento e por isso derrubar e queimar é progresso.

Sendo assim, religar é sinônimo de evidenciar a nossa dependência unilateral da natureza, pois nenhum desses recursos dependem do homem para se desenvolver e perpetuar. Consolidar uma visão inspirada na cosmovisão dos povos originários de guardiões da natureza, substituir a ideia de recursos naturais que estão para serem usado por uma lógica de patrimônio comum dos povos.

Como você vê o lugar da agroecologia na construção dos movimentos de luta pela terra? Qual a importância da agroecologia para se opor ao discurso do “capitalismo verde”, discurso esse que mascara uma lógica absolutamente insustentável? 

A agroecologia é o que permite a existência de movimentos de luta pela terra. Isso porque os saberes agroecológicos justificam a tomada de terra do agronegócio para produzir comida saudável (sem agrotóxicos) e a preservação ambiental. Qualquer movimento de luta pela terra que seja sério tem a agroecologia como modo de produção e também como valor moral e organizativo. Não tem agroecologia sem comunidade, sem soberania alimentar, preservação da natureza (flora, fauna, solo, águas).

O “capitalismo verde” pode ser orgânico, mas jamais será agroecológico. É possível ter um selo do IBD e ter relações machistas, reproduzir homofobias, racismo, ter monocultivo. Um latifúndio orgânico ainda é um latifúndio e causa problemas sociais, concentra renda e terra e põe em risco a soberania alimentar dos povos.

Nesse sentido, a agroecologia é o que permite, inclusive, o religar do homem com a natureza enfrentado a lógica predatória de seu uso enquanto mercadoria e recurso de produção. Por fim, a agroecologia não é uma alternativa ao “capitalismo verde” é uma alternativa ao capitalismo em si, como destruição da humanidade.

Atualmente há um grande esforço, pelos que se dizem progressistas, para estabelecer a chamada Frente Ampla ou algum tipo de unidade para enfrentar a ascensão do fascismo. Qual sua posição sobre a pauta da unidade nacional? E como a Teia se posiciona quanto a isso?

Não tenho como falar pela Teia, já que ela é uma articulação, sendo assim temos pautas, lutas, objetivos e estratégias em comum, porém, cada organização fala por si. Minha opinião pessoal é que o limite da frente ampla é proporcional à variação da taxa média de lucro do capital internacional e parcela da burguesia nacional. Há um erro nas leituras que apontam a frente ampla abarcando, inclusive, partidos de direita como o PSDB por exemplo que: discordar de falas de Bolsonaro ou de sua postura na condução do enfrentamento à crise sanitária, não significa discordar do projeto que ele conduz. Ou um grupo que viu nele a possibilidade de implementar as reformas necessária para aumentar a margem de lucro após a crise de 2008 e, por isso, a composição da frente com eles representa alimentar o inimigo. As esquerdas vivem uma crise de liderança e projetos, as eleições de 2018 deixaram isso evidente. Não foi apresentado um projeto capaz de dialogar com as massas, a campanha eleitoral foi feita baseada em denunciar o machismo, homofobia, racismo de Bolsonaro, fazendo parecer que “nós somos bons porque ele é ruim”. Penso que uma frente só se sustenta em torno de um projeto de nação que vá além da eleição de 2022 e precisa estar organizado desde a base e, para isso, retomar a unidade de luta é fundamental, assim como consolidar pautas que atendam a demandas imediatas do povo e formem consciência para além delas. Num nível muito pessoal de pensamento avalio que uma frente como a que elegeu Lula em 2002 deixou claro que elas podem até nos levar ao poder mas não nos dará poder.

Algo que chama a atenção em muitos dos vídeos de apresentação à Teia é a presença constante da arte. Qual é, para você, o papel que a arte tem a desempenhar na luta política?

Li em um poema de Ferreira Gullar que “a arte existe porque a vida não basta” e tenho total acordo com isso: a arte em suas várias expressões dá sentido à vida e à existência humana. Ela é um instrumento poderoso de luta política porque consegue tocar a alma e o coração. Vivemos um tempo de embrutecimento da humanidade, das experiências cada vez mais superficiais de sociabilidade, e a arte permite esse mergulho mais profundo. Sem contar que nossos povos são artistas, “ritualizam” os processos da vida, têm música para a colheita, outra para o plantio, dança que marca o tempo da pisada no barro que se barrea a casa. Avalio que precisamos ter cuidado com a mercantilização da arte e sua apropriação pelo capital para propagar sua ideologia. As músicas de sucesso comercial são instrumentos para socialização capitalista e consolidação de sua hegemonia, baseado no consumo, individualismo, machismo, homofobia e exemplos não faltam. Por isso, acredito que precisamos fomentar a produção e circulação de nossas expressões artísticas e culturais em suas várias facetas.

É preciso cantar o plantio, versar a luta, ler a vitória, dançar o enfrentamento. É urgente que a juventude encontre abrigo na arte que fala da vida dela no assentamento e se sinta abraçada e feliz por isso.

Um dos princípios da Teia fala em “pedagogia do exemplo”, tomando-a como um instrumento para a emancipação. Vocês poderiam explicar melhor em que exatamente consiste essa pedagogia?

Há um dito que fala “palavras comovem e o exemplo arrasta”. Um outro que aprendi no MST é que: “o agricultor é igual São Tomé, precisa ver para crer”. Não adianta falarmos que plantar sem queimar aumenta a saúde do solo, se não tivermos uma área para mostrar e, preferencialmente, que ele tenha participado do processo para que assim não tenha dúvidas que funciona. Outra dimensão dessa pedagogia é para fora, para os outros movimentos, a TEIA defende a construção de territórios autônomos e a consolidação de alianças de lutas táticas e estratégicas e para isso é preciso aceitaram que esses desafios façam acontecer na prática, mostrando resultados e assim fazendo com que os outros acreditem e tenham referências a seguir e não mais apenas uma teoria. Um movimento ou organização pode até duvidar de que diz avançar sem dependência do Estado, mas não pode duvidar de quem faz!

A Teia enuncia como um dos seus princípios “reafirmar o olhar ancestral na edificação de um novo tempo, contextualizado à nossa forma.” O que seria essa reafirmação do olhar ancestral? Como, a partir desse princípio, se entende o saber atualmente produzido nas universidades?

Uma árvore frondosa tem uma raiz compatível com seu porte, do contrário ela será arrancada pelo vento ou tombará por não suportar seu peso. Desse modo, pretendemos garantir o crescimento saudável de nossas raízes, somente assim suportaremos o mal tempo e quando estivermos grandes não teremos medo da caminhada. Como disse, é preciso religar a humanidade à natureza e, para isso, precisamos nos abrir para o saber ancestral, para a cosmovisão dos povos originários, do povo preto e esse saber não é inimigo do saber construído na universidade, ainda que o saber produzido na universidade se coloque como oposto, negue os conhecimentos produzidos pelos nossos ancestrais, até se apropriarem dele e o transformarem em teoria, mercadoria. A TEIA não nega a universidade, no entanto as nossas raízes se alimentam dos encantados, dos orixás. Em vários territórios dos povos originários, são os encantados que determinam quem será a liderança, auxiliam na definição da estratégia de luta e isso não é algo atrasado ou romantizado.

É um fundamento do tempo que precisamos construir, um tempo conectado com a natureza onde o saber “cientifico“ é aliado à ancestralidade e seus ensinamentos, pois a primazia do saber cientifico desconectado da nossa ancestralidade está nos levando para a extinção.

Em um vídeo presente no site da TEIA, fala-se o seguinte: “[…] é tempo, sobretudo, de deixar de ser a solitária vanguarda de nós mesmos.” Como uma luta que tem por fundamento a territorialidade seria capaz de induzir transformações efetivas fora dos territórios em que é travada? Como fazer isso sem ter de abrir mão do caráter local dos diversos núcleos de base e elos que fazem parte da Teia?

Pela politica de alianças. Essa é a tarefa fundamental da TEIA! Articular os vários territórios em luta para que os caminhos que possibilitem o avanço para outro. Exemplo prático disso: A Brigada Ojefferson tem uma política de troca e venda justa com o Território Quilombola e Pesqueiro de Salinas da Conceição, vinculado ao MPP. O beneficiamento do cupuaçu permitiu levar para o quilombo polpas 4 reais mais baratas que as vendidas na região por atravessadores e com qualidade superior. Por outro lado os assentados tiveram acesso a peixes frescos com preços menores, qualidade superior e maior variedade além do incremento da renda para os dois territórios. Outro exemplo prático foi a construção de uma cisterna na Ocupação Paraiso, ligada ao MSTB no subúrbio de Salvador, pelos companheiros do MPA que dominavam a tecnologia de armazenamento de água. Um território não avança sozinho, não vence sozinho, ele sempre vai precisar de apoio. O que a TEIA faz é permitir que esse suporte venha dos outros territórios, das outras organizações sem a primazia de uma sobre a outra mas uma aliança baseada no trabalho e unidade de lutas.

Sabemos que a Teia prioriza aqueles e aquelas que, acima de tudo, habitam e conhecem suas terras de modo enraizado, produzindo a subsistência pelo cuidado com a natureza e com a vida em comunidade. A América Latina é um continente com uma grande multiplicidade de movimentos desse tipo. No horizonte da Teia, há intenção de se conectar com outros movimentos na América Latina?

Essa é uma relação que extrapola a vontade e se torna uma tarefa que já está em curso. É impossível se manter fora dessa conexão. Hoje há relação com o zapatismo, recebemos na VI Jornada de Agroecologia, os companheiros da rádio zapatista, que nos presentearam com pôsteres. Temos uma coluna mensal saindo em um jornal no México e para qual eu mesmo já escrevi. Traduzimos as VI Declarações da Selva Lacandona do Enlace Zapatista. Já esta em curso essa aliança e temos muito que aprender com todos esses movimentos. As realidades têm suas diferenças, mas o inimigos são os mesmos!



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