(Publicado em 1 de maio de 1924, Lima)

O 1° de Maio é, em todo o mundo, um dia de unidade do proletariado revolucionário, uma data que reúne todos os trabalhadores organizados em uma imensa frente única nacional. Nessa data ressoam em unanimidade obedecidas e acatadas as palavras de Karl Marx: “Proletários do mundo, uni-vos”. Nessa data caem espontaneamente todas as barreiras que diferenciam e separam a vanguarda proletária em vários grupos e escolas.

O 1° de Maio não pertence a uma Internacional; é a data de todas as Internacionais. Socialistas, comunistas e libertários de todos os graus se confundem e se misturam hoje em um só exército que marcha até a luta final.

Esta data, em suma, é uma afirmação e uma constatação de que a frente única e proletária é possível e praticável e de que sua realização não se opõe a nenhum interesse e a nenhuma exigência do presente

Esta data internacional convida a muitas meditações. Para os trabalhadores peruanos, a mais atual e mais oportuna é a referente à necessidade e possibilidade da frente única. Ultimamente se produziram algumas tentativas sectárias. E urge entender-nos, urge que se concretize [a frente única], para evitar que o sectarismo prospere, evitando que solapem e minem a nascente vanguarda proletária do Peru.

Minha atitude, desde que me incorporei a esta vanguarda, é sempre a de um facilitador convencido, a de um propagandista fervoroso da frente única. Recordo tê-lo declarado em uma das conferências iniciais do meu curso de história da crise mundial. Respondendo os primeiros gestos de resistência e de apreensão de alguns antigos e solenes libertários, mais preocupados com a rigidez do dogma que com a eficácia e fecundidade da ação, disse desde a tribuna da Universidade Popular: “Ainda somos poucos para dividir-nos. Não façamos questão de etiquetas nem de títulos”.

Posteriormente repeti estas ou palavras análogas. E não me cansarei de reiterá-las. O movimento de classe, entre nós, ainda é muito incipiente, muito limitado para que pensemos em fracioná-lo e separá-lo. Antes que chegue a hora, inevitável acaso, de uma divisão, nos corresponde realizar muitas ações juntas, muito trabalho solidário. Precisamos empreender juntos muitas jornadas longas. Cabe-nos, por exemplo, suscitar na maioria do proletariado peruano, consciência de classe e sentimento de classe. Esta tarefa pertence por igual aos socialistas e sindicalistas, aos comunistas e libertários. Todos temos o dever de afastar o proletariado das assembleias amarelas e das falsas “instituições representativas”. Todos temos o dever de lutar contra os ataques e as repressões reacionárias. Todos temos o dever de defender a tribuna, a imprensa e a organização proletária. Todos temos o dever de levantar as reivindicações da escravizada e oprimida raça indígena. No cumprimento desses deveres históricos, desses deveres elementares, nossos caminhos se encontrarão e juntarão, qualquer que seja nossa meta final.

A frente única não anula a personalidade, não anula a filiação de ninguém que a compõe. Não significa a confusão nem o amálgama de todas as doutrinas em uma doutrina única. É uma ação contingente, concreta, prática. O programa da frente única considera exclusivamente a realidade imediata, fora de toda abstração e de toda utopia. Apoiar a frente única não é apoiar a confusão ideológica. Dentro da frente única cada qual deve conservar sua própria filiação e seu próprio ideário. Cada qual deve trabalhar pelo seu próprio credo. Mas todos devem sentir-se unidos pela solidariedade de classe, vinculados pela luta contra o adversário comum, ligados pela mesma vontade revolucionária e pela mesma paixão renovadora. Formar uma frente única é ter uma atitude solidária diante de um problema concreto, diante de uma necessidade urgente. Não é renunciar à doutrina a que cada um serve nem à posição que cada um ocupa na vanguarda, a variedade de tendências e a diversidade de tons ideológicos é inevitável nessa imensa legião humana chamada proletariado. A existência de tendências e grupos definidos e precisos não é um mal: é, pelo contrário, sinal de um período avançado do processo revolucionário. O que importa é que esses grupos e tendências saibam estender-se diante da realidade concreta do dia. Que não se esterilizem bizantinamente em confissões e excomunhões recíprocas. Que não afastem as massas da revolução com o espetáculo das rinhas dogmáticas de seus predicadores. Que não empreguem suas armas nem dilapidem seu tempo ferindo uns aos outros, senão combatendo a ordem social, suas instituições, suas injustiças e seus crimes.

Tratemos de sentir cordialmente o laço histórico que nos une a todos da vanguarda, a todos os facilitadores da renovação. Os exemplos que cotidianamente chegam de fora são inumeráveis e magníficos. O mais recente e emocionante destes exemplos é o de Germaine Berthon. Germaine Berthon, anarquista, disparou certeiramente seu revólver contra um organizador do terror branco para vingar o assassinato do socialista Jean Jaurés. Os espíritos nobres, elevados e sinceros da revolução percebem e respeitam, por cima de toda barreira teórica, a solidariedade histórica de seus reforços e suas obras. Pertence aos espíritos mesquinhos, sem horizontes e sem asas, a mentalidade dogmática que quer petrificar e imobilizar a vida em uma fórmula rígida, o privilégio da incompreensão e do egotismo sectário. 

A frente única proletária, por sorte, é entre nós uma decisão e um desejo evidente do proletariado. As massas conclamam a unidade. As massas querem fé. E, por isso, sua alma recusa a voz corrosiva, dissolvente e pessimista dos que negam e dos que duvidam, e buscam a voz otimista, cordial, juvenil e fecunda dos que afirmam e dos que creem. 

José Carlos Matiátegui


Tradução: Clarice Filgueiras
Revisão:
Maria Betânia

Original: https://www.marxists.org/espanol/mariateg/1924/may/01.htm

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