Em continuidade das reflexões iniciadas em “Porque a guerra?, as condições políticas de uma nova ordem mundial” e “Os impasses do pensamento crítico ocidental”, o filósofo Maurizio Lazzarato sustenta que a fase histórica que se abre não será determinada pela ordem econômica e suas mudanças contratuais, mas será por forças políticas que serão as mesmas a assumirem um plano estratégico amigo-inimigo. Para esclarecer os desafios de tal decisão, Lazzarato retoma o processo sangrento que levou à “imposição” do neoliberalismo à escala global e mais especificamente na América Latina. A partir daí, debate-se a superficial oposição entre democracia e fascismo.
L’accumulation primitive, l’état de nature du capital, est le prototype de la crise capitaliste. [A acumulação primitiva é o estado de natureza do capital, é o protótipo da crise capitalista]
– Hans Jürgen Krahl
O capitalismo não se reduz a um ciclo de acumulação, pois é sempre precedido, acompanhado e seguido por um ciclo estratégico definido por conflito, guerra, guerra civil e, eventualmente, revolução. Esse ciclo estratégico inclui a assim chamada “acumulação primitiva” descrita por Marx, mas apenas como sua primeira fase, seguida pelo exercício da violência encarnada na “produção” e sua erupção na forma de guerra e guerra civil quando o ciclo econômico chega ao fim. Para uma descrição completa do ciclo estratégico, ele teve que esperar até o século XX e sua transformação no ciclo das revoluções soviética e chinesa — uma transformação que, de diferentes perspectivas, corrige e complementa Marx.
Os dois ciclos funcionam em conjunto. Suas dinâmicas estão interligadas, mas também podem se separar: desde 2008, o ciclo de conflito, guerra e guerra civil (e a remota possibilidade de revolução) tem se separado gradualmente do ciclo de acumulação propriamente dito. Impasses e bloqueios na acumulação de capital exigem a intervenção do ciclo estratégico, que opera com base nas relações de poder e na relação não econômica entre amigo-inimigo.
Desde a ascensão do imperialismo, a importância do ciclo estratégico só se intensificou. Ciclos de guerra, violência extrema e uso arbitrário da força se sucedem rapidamente. Os EUA impuseram regras econômicas e jurídicas ao mercado global e à Ordem Mundial três vezes (1945, 1971 e 1991), e três vezes apagaram ou modificaram as próprias normas que haviam imposto porque estas já não atendiam aos seus propósitos, a fim de estabelecer novas. O Fordismo de 1945 foi desmantelado na década de 1970, enquanto o assim chamado “neoliberalismo” escolhido para substituí-lo — e que se espalhou pelo mundo em 1991, após a queda da União Soviética — entrou em colapso em 2008. A atual acumulação primitiva está, mais uma vez, mudando as regras do jogo na improvável esperança de “Fazer a América Grande Novamente”.
A análise do ciclo estratégico no capitalismo contemporâneo deve se concentrar principalmente nos Estados Unidos, porque é lá que se concentram seus aparatos de poder — as instituições militares, financeiras e monetárias sobre as quais o país detém monopólios proibidos à Europa “aliada” ou ao Leste Asiático, ou seja, aos países subjugados pela guerra (Alemanha, Japão, Itália) ou pelo poder econômico e financeiro (França, Reino Unido) e, sobretudo, ao “Sul” global.
Desde a crise de 2008, o ciclo estratégico passou a ocupar o primeiro plano, a ponto de suplantar até mesmo o “mercado”, as regulamentações econômicas, o direito internacional, as relações diplomáticas entre os Estados, etc., buscando evitar o colapso do ciclo de acumulação e revitalizar a economia dos EUA, que agora se encontra em profunda dificuldade.
Temos a “oportunidade” de poder observar em primeira mão o desenrolar desse ciclo primitivo de acumulação e desse ciclo estratégico. Trump desencadeou um “estado de exceção”. Mas esse estado é muito diferente daquele canonicamente definido por Carl Schmitt ou abordado por Giorgio Agamben. Em vez de se referir ao “direito público” e à constituição formal do Estado-Nação, ele visa principalmente as regras que governam a constituição material do mercado global e as normas jurídicas internacionais da ordem mundial. Com o estado de exceção global, o espaço em que se traça o nomos da Terra, com suas linhas de amizade e hostilidade, é a guerra civil mundial. Ao invés de se concentrar no direito, o estado de exceção global integra profundamente a economia, a política, as forças armadas e o sistema jurídico.
A guerra civil global se alastra para a guerra civil interna, intensificando o racismo e o sexismo, a militarização de territórios, a deportação de migrantes, ataques a universidades, museus etc. A população dos Estados Unidos está profundamente dividida — não entre os 99% e o 1%, mas entre os 20% que representam a vasta maioria do consumo no enorme mercado interno (3/4 do PIB) e os 80% cujo consumo está estagnado ou em declínio. Políticas fiscais são implementadas para garantir a propriedade e o hiperconsumo para o segmento mais rico da população.
Trump tem o mérito por politizar aquilo que o assim chamado neoliberalismo tentou desesperadamente despolitizar, sem sucesso. Uma vez todas as regras suspensas, o uso da força extra-econômica torna-se um pré-requisito para a produção econômica, o estabelecimento do direito e a constituição de qualquer instituição. Primeiro, as relações de poder devem ser impostas pela força. Depois, uma vez estabelecida a divisão entre quem manda e quem obedece (e a situação se estabilizar por ser aceita pelos subjugados), é possível reconstruir normas econômicas e jurídicas, os automatismos da economia, as instituições nacionais e internacionais, a expressão de uma nova “ordem”.
O ciclo estratégico que opera através do “estado de exceção global” é assegurado por decisões políticas arbitrárias e unilaterais tomadas pela administração americana, com o objetivo de impor uma série de “confiscações” (apropriações, expropriações, pilhagens [ 1 ][1]As tarifas variam entre 15% e 50%. Uma redução na taxa de imposto foi prometida sob a condição (1) de compra de títulos no mercado americano que estão com dificuldades para encontrar … Continue reading ) da riqueza de outros — extorquida diretamente, sem mediação, sem exploração industrial, nem predação por dívida e financeirização.
Qual o significado desta longa (e aqui parcial) lista de decisões políticas tomadas com base no poder coercitivo do Estado imperial? A mudança nas relações “econômicas” não é inerente à produção. Nem é resultado das “leis” das finanças, da indústria ou do comércio estabelecidas pela teoria econômica.
Os mecanismos econômicos “automatizados” impostos politicamente pelos Estados Unidos nas décadas de 1970 e 1980 só conseguem reproduzir os próprios fins para os quais foram instituídos politicamente (financeirização, economia da dívida, deslocalização da produção industrial, etc.) e, assim, reproduzem a crise. Esses sistemas não têm a capacidade de inovação — nem pela redistribuição de poder, nem pela geração de novas relações entre Estados e classes, que possam servir de condição para uma “nova” forma de produção. A configuração de poder que estamos examinando exige uma ruptura. Ela não pode ser deduzida da situação que conduziu a esta crise. Requer um salto para fora dessa situação. Esse salto deve ser concebido e organizado por uma “nova” classe dominante, capaz de subjetivar a ruptura, ocupar o Estado e utilizá-lo estrategicamente.
A administração assume o papel e a função de estrategista, o líder de guerra que decide, com base na relação amigo-inimigo, e não mais na “igualdade” da troca entre os contratantes, quem deve pagar e quanto deve ser pago pela crise nos Estados Unidos.
Para entender a “política” dos Estados Unidos, que há um tempo gerencia essas fases de acumulação primitiva, não devemos opô-la à “economia” nem reduzi-la à classe política como um todo. Ela constitui a coordenação de vários centros de poder (administrativo, financeiro, militar, monetário, industrial, midiático), cada um com sua estratégia. Os interesses heterogêneos que os caracterizam encontram um certo grau de mediação na necessidade de lutar um “inimigo comum” — o resto do mundo, mas especialmente os BRICS, e em particular a Rússia e a China. O governo Trump assume o papel de capitalista coletivo, de líder capaz de negociar uma estratégia com outras potências financeiras, militares e monetárias, que continuarão a agir de acordo com seus próprios interesses, interesses que, no fim, devem convergir — porque o que está em jogo não é a saúde da economia americana, mas a possibilidade do colapso da máquina político-econômica do capitalismo financeiro e da dívida, uma máquina em seus últimos suspiros.
A intimidação e chantagem econômica, a chantagem e as ameaças de intervenção militar, guerras e genocídios estão sendo mobilizadas simultaneamente. Os Estados Unidos ameaçam intervir em seu “quintal” (América Latina) sob o pretexto do tráfico de drogas na Colômbia, México, Haiti e El Salvador, enquanto simultaneamente apontam suas armas para a Venezuela. Convocaram os ministros da defesa da região a Buenos Aires (19 a 21 de agosto) para exigir alinhamento inabalável contra a China e impor uma presença militar americana reforçada nos “estreitos” (Magalhães, Panamá, etc.) “que poderiam ser usados pelo Partido Comunista Chinês para expandir seu poder, interromper o comércio e desafiar a soberania de nossas nações, bem como a neutralidade da Antártida”.
Nas condições atuais, é difícil até mesmo falar em capitalismo, em um “modo de produção”, porque nos deparamos com as ações de um “senhor” que decide arbitrariamente quanta riqueza tem o direito de extrair da produção de seus “servos”. O Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, declarou sem o menor constrangimento que os Estados Unidos tratariam a riqueza de seus “aliados” como se fosse sua própria: Japão, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos e, principalmente, a Europa, prometeram investir “de acordo com os desejos do Presidente”. Isso se trata de um “fundo soberano administrado a critério do Presidente para financiar a nova industrialização”. O apresentador da Fox News, surpreso, descreve isso como um “fundo de apropriação exterior”. Bessent responde: “Ah, é um fundo soberano americano, mas com o dinheiro de outras pessoas”.
As relações impessoais do mercado tornam-se pessoais novamente ao colocar “mestre e escravo”, colonizador e colonizado, uns contra os outros. Não é o fetichismo da mercadoria — não os automatismos do dinheiro, do mercado, da dívida, etc. — que governam e decidem, mas a força, a expressão da vontade política. Os Estados Unidos não designam mais o concorrente, mas o inimigo — um inimigo que agora identificaram como o resto do mundo, incluindo seus aliados (na verdade, principalmente aliados na medida em que pertencem à mesma classe dominante e estão aterrorizados com a ideia do colapso do núcleo do sistema, o que também acarretaria sua própria ruína; para salvar o capitalismo, estão dispostos a saquear suas populações, especialmente a Europa, que, como o Japão na década de 1980, será forçada a pagar pela crise dos Estados Unidos, sacrificando sua economia e suas classes trabalhadoras, enquanto se expõe aos riscos de uma guerra civil).
A lei do valor ou da utilidade marginal — isto é, todas as categorias da economia clássica ou neoclássica — é completamente inútil. Elas não explicam nada sobre o que está acontecendo agora. Em vez de modelos econométricos tão complexos, uma simples operação matemática aprendida no ensino fundamental é tudo o que é necessário para calcular as “tarifas” aplicadas ao resto do mundo. A assim chamada complexidade das sociedades contemporâneas se dissolve com muita facilidade diante da dualidade política amigo-inimigo. A “destruição criativa” não é prerrogativa do empresário, mas a obra dos tomadores de decisão políticos, econômicos e militares.
Mesmo O Capital de Karl Marx (pelo menos se não partirmos da acumulação primitiva ao invés da mercadoria) é de pouca utilidade para explicar a situação. Pierre Clastres, cuja leitura de Nietzsche — centrada na vontade de poder — difere profundamente da leitura de Foucault, pode nos oferecer material para reflexão: as relações econômicas são relações de poder que jamais podem ser separadas da guerra. Sua descrição do funcionamento do “poder” quando este se afirma em detrimento das primeiras “sociedades contra o Estado” permanece o comentário mais pertinente que já li sobre o atual funcionamento da máquina Estado/capital que é a administração dos Estados Unidos.
“A ordem econômica, isto é, a divisão da sociedade entre ricos e pobres, exploradores e explorados, resulta de uma divisão mais fundamental dentro da sociedade: a divisão entre aqueles que mandam e aqueles que obedecem, entre aqueles que exercem o poder e aqueles que a ele estão sujeitos. É, então, essencial compreender quando e como surge na sociedade a relação entre poder, comando e obediência. De que maneira aqueles que detêm o poder se tornam exploradores, e como aqueles que a ele estão sujeitos — ou o reconhecem, a diferença é de pouca importância — se tornam explorados? O ponto de partida, muito simplesmente, é o tributo. É fundamental. Nunca devemos esquecer que o poder existe apenas em seu exercício: poder que não é exercido não é poder. O sinal do poder, a prova de que ele realmente existe é, para aqueles que o reconhecem, a obrigação de pagar tributo. A essência de uma relação de poder é uma relação de dívida. Quando a sociedade está dividida entre aqueles que mandam e aqueles que obedecem, o primeiro ato daqueles que mandam é dizer aos outros: ‘Nós mandamos, e podemos provar isso a vocês exigindo que paguem tributo’”. [2]R. Bellour e P. Clastres, “Entretien avec Pierre Clastres”, em R. Bellour, Le livre des autres. Entretiens avec M. Foucault, C. Lévi -Strauss, R. Barthes, P. Francastel, Union générale … Continue reading
Podemos facilmente interpretar a relação entre comandar e obedecer como determinada pela violência da acumulação primitiva, que se repete constantemente, e a relação entre explorador e explorado como o exercício do poder na “produção”, uma vez que a “ordem” foi estabelecida e a situação “normalizada”: as duas relações (comandar/obedecer e explorador/explorado) são ações complementares da mesma máquina estatal-capitalista. A crítica de Clastres à “economia”, capaz de determinar até mesmo a “política”, em última análise, parece-nos pertinente, desde que consideremos a vontade de poder e a vontade de acumular como duas faces da mesma moeda.
O tributo a ser pago à administração americana deve sinalizar uma nova redistribuição de poder — capaz de traçar um novo “nomos da terra”, ou seja, uma relação de subordinação colonial dos aliados aos Estados Unidos, por um lado, e, numa operação mais difícil, a subjugação dos BRICS, por outro. Dentro de cada Estado, o tributo deve ser reconhecido como um sinal da submissão das classes trabalhadoras, presumivelmente as verdadeiras pagadoras. A arrogância de Trump mascara sua fraqueza: querer impor uma nova ordem mundial enquanto tenta lidar com a derrota da OTAN na Ucrânia, uma monstruosa crise econômica e um Sul Global que não se submete tão facilmente quanto a Europa.
A nova ordem só pode ser estabelecida através do imperialismo, caracterizado desde sua origem pela complementaridade entre economia e política, guerra e produção. O imperialismo coletivo definido por Samir Amin na década de 1970, no qual o papel central recaía sobre os Estados Unidos, transformou-se em uma verdadeira subordinação colonial de seus aliados: Europa, Coreia do Sul, Japão, Canadá, etc. A Europa encontra-se na mesma condição de subordinação colonial imposta pela Inglaterra à Índia no século XIX, pois, assim como esta, deve pagar tributo ao país “ocupante” construindo e financiando exércitos europeus, com recursos adquiridos dos Estados Unidos, para travar guerra contra inimigos definidos pela potência imperial (a guerra na Ucrânia é uma experiência nesse sentido, um teste geral para esse tipo de guerra).
“Neoliberalismo” e a reversibilidade do fascismo e do capitalismo
A nova sequência do ciclo estratégico, iniciada em 2008 e que culminou em guerra aberta, traz uma novidade significativa. A máquina estatal-capitalista não delega mais a violência extrema aos fascistas. Pelo contrário, ela própria organiza essa violência — talvez ainda receosa da autonomia adquirida pelo nazismo na primeira metade do século XX. O genocídio lança uma luz perturbadora sobre a natureza tanto do capitalismo quanto da democracia, obrigando-nos a enxergá-los como talvez nunca os tenhamos visto antes.
O capitalismo e as democracias estão orquestrando o genocídio em conjunto, em seu próprio nome, como se fosse a coisa mais normal e natural do mundo. Numerosas corporações (logística, armamentos, comunicações, vigilância, etc.) participaram economicamente da ocupação da Palestina e agora orquestram, sem o menor escrúpulo, a economia do genocídio. Assim como as empresas alemãs nas décadas de 1930 e 1940, elas prometem lucros exorbitantes com a limpeza étnica dos palestinos. O principal índice da Bolsa de Valores de Tel Aviv subiu 200% durante o genocídio, garantindo um fluxo contínuo de capital — principalmente americano e europeu — para Israel.
Com o genocídio, as democracias liberais se reconectaram com suas genealogias que, antes reprimidas, agora retornam com renovado vigor. Os Estados Unidos construíram sua democracia sobre o genocídio dos povos indígenas e sobre as instituições do racismo e da escravidão, enquanto que as democracias europeias fizeram o mesmo, ainda que em suas colônias distantes. A questão colonial, juntamente com as questões do racismo e da escravidão, está no cerne das duas revoluções liberais do final do século XVIII.
O racismo estrutural que caracteriza o capitalismo — e que hoje se volta contra os muçulmanos — foi desencadeado descaradamente por israelenses, por toda a mídia ocidental e por todas as classes políticas ocidentais. Também aqui, não há necessidade de novos fascistas, pois são os Estados, particularmente os europeus, que alimentam esse racismo desde a década de 1980 (enquanto nos Estados Unidos ele é endêmico e central para o exercício do poder). O racismo está profundamente enraizado na democracia e no capitalismo desde a conquista das Américas, porque a desigualdade reina nesses sistemas, e um dos principais meios de legitimar essa desigualdade é o racismo.
O debate sobre os fascismos contemporâneos está muito aquém da realidade, porque nenhum desses “novos fascismos” é capaz de tamanha violência ou de promover destruição em tal escala. Por diversas razões, eles não guardam qualquer semelhança com seus predecessores, cuja missão era travar uma contrarrevolução maciça contra o socialismo. A principal razão, porém, é esta: não existe um inimigo real que sequer remotamente se assemelhe ao que representavam os bolcheviques. Os movimentos políticos contemporâneos não representam ameaça alguma. Eles são completamente inofensivos.
As novas formas de fascismo são marginais em comparação com o fascismo histórico e, quando chegam ao poder, alinham-se imediatamente com o capital e o Estado, limitando-se a intensificar a legislação autoritária/repressiva e a influenciar as esferas simbólica e cultural. É isso que os fascistas italianos estão fazendo.
As ações de Trump não têm nada a ver com o folclore fascista histórico, exceto marginalmente: quando ele age no nível geopolítico para salvar o capitalismo americano da implosão, ele representa os interesses do grande capital, enquanto impõe, dentro do Estado, uma transformação fascista em todos os aspectos da sociedade americana.
O capitalismo não precisa mais delegar poder ao fascismo, como fazia no passado, porque a democracia foi esvaziada por dentro desde a década de 1970 (ver a Comissão Trilateral). Ele produz guerra, guerra civil e genocídio a partir de suas próprias instituições — assim como o capitalismo o faz a partir das finanças e o Estado a partir de sua administração e exército. O que chamamos de “novos fascismos” ou “pós-fascismo” são meros atores desempenhando papéis secundários. Eles não têm escolha a não ser aceitar as decisões tomadas pelos centros de poder financeiro, militar, monetário e estatal.
Como compreender esta situação sem precedentes? Suas raízes profundas encontram-se na fase precedente de acumulação primitiva que orquestrou a transição do fordismo para o chamado “neoliberalismo”. O ciclo estratégico orquestrado pelo governo Nixon para fazer o resto do mundo pagar, como acontece hoje, pelas crises acumuladas da década de 1960 foi ainda mais violento do que as ações de Trump: a decisão unilateral de tornar o dólar inconversível em ouro³, as tarifas de 10%, a abertura do capital japonês aos Estados Unidos, o “acordo” Plaza que desmantelou o Japão e, na época, a China, sacrificando a economia desta última para salvar o capitalismo americano; o restabelecimento das relações políticas com a China, que se provaria decisivo para a globalização; a decisão política de construir um “superimperialismo” em torno do dólar, e assim por diante.
Os episódios mais dramáticos desse ciclo estratégico foram as guerras civis na América Latina, que simultaneamente sinalizaram o fim da revolução global e inauguraram os primeiros experimentos ditos neoliberais. Nesse sentido, vale a pena revisitar a análise econômica de Paul Samuelson, ganhador do Prêmio Nobel, que é quase sempre negligenciada.
Interpretamos a análise de Foucault sobre “O nascimento da biopolítica” como uma antecipação do neoliberalismo, enquanto, ao mesmo tempo, a interpretação de Samuelson contrastava fortemente com a “admiração” de Foucault pelo mercado, pelas liberdades, pela tolerância às minorias, pela governamentalidade e assim por diante, ao descrever a economia neoliberal como “capitalismo fascista”: com o mercado neoliberal, os dois termos tornam-se reversíveis. Essa categoria, esquecida nos anos que se seguiram, talvez possa nos ajudar a compreender a genealogia do genocídio democrático-capitalista.
“O que estou a referir é obviamente a solução fascista. Se as leis do mercado implicam instabilidade política, então os simpatizantes fascistas concluem: ‘abolir a democracia e impor o sistema de mercado à sociedade. Não importa se os sindicatos têm de ser quebrados e os intelectuais problemáticos são presos ou exilados’”. [3]Paul A. Samuelson, «The World Economy at Century’s End», Human Resources, Employment and Development. Vol 1, the Issues: Proceedings of the Sixth World Congress of the International Economic … Continue reading
Desde a década de 1970, o “mercado” vem destruindo progressivamente a democracia do pós-guerra, a única que ainda podia remotamente se assemelhar ao seu próprio conceito, visto que nascera das guerras civis globais contra o nazismo. Uma vez esgotada essa energia política, o capitalismo fascista começou a se estabelecer. A lógica do mercado, em vez de ser uma alternativa à guerra e à violência extrema, as conteve, as alimentou e, por fim, as praticou — inclusive o genocídio. Na era dos monopólios, o mercado — essa forma supostamente automática de mediação — constitui, na verdade, o fim de toda mediação, pois coloca a força em primeiro plano como o ator decisivo: a força dos monopólios, a força das finanças, a força do Estado, e assim por diante. Não só requer uma guerra civil para se estabelecer, como também delega o funcionamento do capitalismo à força. Nesse sentido, o mercado já é uma economia fascista.
Samuelson derruba a crença mais arraigada: a economia dos Chicago Boys — Hayek, Friedman, etc. — é uma forma de fascismo e constitui um paradigma para a economia em geral. A experiência neoliberal é a de uma “economia imposta”, que é precisamente o que o governo Trump está tentando alcançar: um “capitalismo imposto” (outro termo apropriado de Samuelson), um capitalismo imposto pela força.
“A décima primeira edição (1980) da minha Economia contém uma nova seção dedicada ao desagradável tema do fascismo capitalista. Por assim dizer, se o Chile e os Chicago Boys não tivessem existido, teriam de ser inventados como paradigma.” [4]Samuelson, «The World Economy», 75. [En français, « capitalisme imposé » résonne avec « l’imposition » (la taxation). — trad.[/fn} Aceitamos a narrativa liberal em vez de nos … Continue reading
Na realidade, a função do mercado “fascista” nunca foi econômica. Era primordialmente repressiva e, em seguida, disciplinadora: a individualização do proletariado e a supressão de toda ação coletiva ou baseada na solidariedade. O mercado era uma construção ideológica sob cuja cobertura a predação podia prosseguir sem perturbações, uma predação possibilitada pelo monopólio do “dólar” e das “finanças”, bem como pela violência militar dos Estados Unidos, os verdadeiros agentes políticos e econômicos do neoliberalismo, que jamais foram regulados ou governados pelo mercado.
Como podemos confirmar a relevância do conceito de Samuelson envolvendo o oximoro “democracia fascista”? Lutamos para compreender a realidade porque a violência atual perpetrada pela democracia e pelo capitalismo oculta, com desconcertante facilidade, os valores do Ocidente, consagrados em suas constituições. O jovem Marx nos lembra que o cerne das constituições liberais não é a liberdade, nem a igualdade, nem a fraternidade, mas a propriedade privada burguesa. Esta é uma verdade inegável, tanto mais que constitui “o direito mais sagrado do homem”, como proclamado pela Revolução Francesa — o único valor verdadeiro do Ocidente capitalista.
A propriedade é certamente a forma mais relevante de definir a situação dos oprimidos. A acumulação primitiva instituída por Nixon na década de 1970 impôs politicamente uma nova apropriação e uma distribuição sem precedentes, estabelecendo uma divisão de propriedade também sem precedentes: essa nova divisão não se dava primordialmente entre capitalistas, donos dos meios de produção, e trabalhadores desprovidos de toda propriedade, mas entre proprietários de ações e títulos, ou seja, entre detentores de títulos financeiros e aqueles que não possuem nenhum. Essa “economia” funciona como as tarifas de Trump, extraindo riqueza da sociedade dos “servos”, com a única diferença de que a predação procede por meio dos “automatismos” das finanças e da dívida, automatismos continuamente mantidos por controle político.
A sociedade está mais dividida do que nunca: no topo estão os detentores de títulos financeiros, abaixo deles encontra-se a vasta maioria da população, que, na realidade, já não é composta por sujeitos políticos, mas por indivíduos “excluídos”. Tal como acontecia com os servos do Antigo Regime, a “função” econômica não implica qualquer reconhecimento político. A integração do movimento operário, reconhecido como ator político na economia e na democracia no pós-guerra, regrediu para a exclusão das classes trabalhadoras de qualquer órgão de tomada de decisão política. A financeirização permitiu que os “no topo” praticassem a secessão. Organiza a sua relação com as classes mais baixas como uma relação exclusivamente de exploração e dominação. Os servos não só foram expropriados economicamente, como também privados de qualquer identidade política, ao ponto de adotarem a cultura e a identidade do inimigo — o individualismo, o consumismo e o espírito da televisão e da publicidade. Hoje, são pressionados a assumir uma identidade fascista e uma subjetividade militante.
Os “servos” estão fragmentados, dispersos, individualizados, divididos mil vezes (por gênero, raça, renda, riqueza) — mas todos participam, em graus variados, da sociedade estabelecida pela máquina estatal-capitalista, uma máquina que já não precisa de legitimação, tão favoráveis são os atuais equilíbrios de poder. Decisões sobre genocídio, rearmamento, guerra e políticas econômicas são tomadas sem que ninguém precise prestar contas a seus subordinados. O consentimento já não é necessário porque o proletariado é fraco demais para exigir qualquer coisa. É evidente que, nessa situação, a democracia não tem sentido. A condição dos oprimidos assemelha-se mais à dos colonizados (uma colonização generalizada) do que à dos “cidadãos”.
Walter Benjamin nos alertou: “O espanto de que as coisas que estamos vivenciando ainda sejam possíveis no século XX não é filosófico. Esse espanto não marca o início do conhecimento — a menos que seja o conhecimento de que a concepção de história que o provoca é insustentável.” [fn]Walter Benjamin, «Sur le concept d’histoire », trad. Harry Zohn, Selected Writings, Vol. IV, 1938–1940, Harvard, 2006, 392.[/fn}
O que também é insustentável é uma certa concepção de capitalismo, mesmo dentro do marxismo ocidental. Lênin definiu o capitalismo imperialista como reacionário, ao contrário do capitalismo competitivo, no qual Marx ainda via aspectos “progressistas”. A financeirização e a economia da dívida criaram um monstro, uma fusão de capitalismo, democracia e fascismo que não representa absolutamente nenhum problema para as classes dominantes. Devemos analisar a natureza do ciclo estratégico do inimigo, visando transformá-lo em um ciclo estratégico de revolução.

Maurizio Lazzarato
É sociólogo e filósofo italiano.

Wesley Sousa
Doutorando em Filosofia pela UFMG
Imagem: Vicent Peal
Traduzido da versão em inglês publicada em Ill Will
Uma tradução para o espanhol está disponível aqui
| ↑1 | As tarifas variam entre 15% e 50%. Uma redução na taxa de imposto foi prometida sob a condição (1) de compra de títulos no mercado americano que estão com dificuldades para encontrar compradores e (2) de transferência livre de bilhões de dólares para os Estados Unidos. — As tarifas têm um duplo propósito: um econômico (os Estados Unidos precisam de dinheiro novo para cobrir seus déficits) e um político (a Índia negocia livremente com a Rússia, etc., e o Brasil está “perseguindo” Bolsonaro). — Impostos sobre compras de energia americana a quatro vezes o preço de mercado: a Europa prometeu… — Obrigação de investir bilhões de dólares na reindustrialização americana (Japão, Europa, Coreia do Sul e Emirados Árabes Unidos prometeram somas astronômicas, sendo os 600 bilhões da Europa considerados por Trump como um “presente”). Esses investimentos ficarão a critério dos Estados Unidos, sob ameaça de aumentos tarifários. A Lei GENIUS autoriza os bancos a manterem stablecoins como moeda de reserva para lidar com as dificuldades em colocar as enormes quantidades de títulos da dívida pública. A condição política para essas stablecoins é que elas sejam atreladas ao dólar e usadas para comprar dívida dos EUA. |
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| ↑2 | R. Bellour e P. Clastres, “Entretien avec Pierre Clastres”, em R. Bellour, Le livre des autres. Entretiens avec M. Foucault, C. Lévi -Strauss, R. Barthes, P. Francastel, Union générale d’éditions, 1978, 425–442. |
| ↑3 | Paul A. Samuelson, «The World Economy at Century’s End», Human Resources, Employment and Development. Vol 1, the Issues: Proceedings of the Sixth World Congress of the International Economic Association held in Mexico City, 1980, éd. Shigeto Tsuru, Palgrave International Economic Association Series, 1, 1983, 75. |
| ↑4 | Samuelson, «The World Economy», 75. [En français, « capitalisme imposé » résonne avec « l’imposition » (la taxation). — trad.[/fn} Aceitamos a narrativa liberal em vez de nos perguntarmos por que a governança leva à guerra, ao fascismo e ao genocídio, tal como aconteceu na primeira metade do século XX. Nós mesmos fomos incapazes de tirar as conclusões necessárias e, no entanto, passamos das supostas liberdades do neoliberalismo ao genocídio democrático-capitalista sem um golpe, sem uma “marcha sobre Roma”, sem uma contrarrevolução em massa, como se fosse uma evolução natural. Ninguém no establishment, muito menos nas classes políticas e midiáticas, se incomodou ou se sentiu constrangido com isso. Pelo contrário, alinharam-se com uma velocidade assombrosa a uma narrativa que contradizia, de cima a baixo, a ideologia proclamada durante décadas de direitos humanos, direito internacional, democracia versus autocracia e assim por diante. Para que tudo isso acontecesse sem o menor problema, os horrores físicos e midiáticos do genocídio tiveram que ser incorporados às próprias estruturas do sistema, que não os considerava uma aberração, mas sim a norma. Tudo se desenrolou como se o horror fosse autoevidente. O capitalismo “liberal”, naturalmente, encontrou sua plena expressão e realização no genocídio, sem mediação fascista e sem que os fascistas constituíssem uma força política “autônoma” como haviam sido na década de 1920. Não conseguimos enxergar o que estava bem diante de nossos olhos porque aplicamos filtros “democráticos” em excesso — uma ideia pacificada de capitalismo que nos impede de compreender adequadamente o que aconteceu com a construção do neoliberalismo na América Latina. Releia-se Samuelson, levando em conta todos os comentários de pensadores críticos que continuam, mesmo depois de 2008, a falar de neoliberalismo:
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