Mito e linguagem da coletividade — Furio Jesi

A Károly Kerényi com respeitosa amizade

Aceitar na vida as manifestações do mito genuíno significa, em rigor, adotar uma postura irracionalista. Mas, desde que o mito seja genuíno, não tecnificado com determinados fins nem deformado por quem projeta nele as próprias doenças ou culpas, essa postura pode ser definida com as palavras usadas por Thomas Mann sobre a psicanálise: “a forma do irracionalismo moderno que se opõe inequivocamente a todo abuso reacionário”.

O processo pelo qual as imagens míticas emergem do inconsciente para a consciência constitui, quando se trata de mitos genuínos, também um determinante do equilíbrio humanista entre o inconsciente e a consciência. O mito genuíno, que brota espontaneamente das profundezas da psique, determina com sua presença no nível da consciência uma realidade linguística cujo caráter coletivo corresponde ao valor coletivo reconhecido por Martin Buber no “estado de vigília ” a que se refere um fragmento de Heráclito: “os que estão acordados têm [em contraposição aos que dormem] um único cosmos em comum, ou seja, um único mundo do qual todos participam conjuntamente”. E essa realidade linguística — aquele λόγος[1]Logos. O sentido que Jesi dá à palavra é diferente da filosofia grega e da teologia cristã, apesar de ambas terem possibilidade de relação. Tem mais a ver com uma estruturação discursiva e … Continue reading  — impede com sua estrutura um eventual predomínio do inconsciente que conduza à aniquilação da consciência. O fluxo do mito genuíno dentro da psique humana evidencia espontaneamente algumas das imagens que jazem latentes nela e lhes confere uma “vitalidade” que, na realidade, é sua perspectiva no inconsciente. Mas no momento em que essas imagens são “vitalizadas”, sua estrutura — que é um elemento intrínseco da consciência — também experimenta um fortalecimento, ou seja, adquire um poder sobre o inconsciente ao ter sido colocada em relação “perspectiva” com este. A estrutura das imagens míticas se contrapõe assim ao inconsciente como uma barreira, excluindo seu predomínio indiscriminado.

O mesmo não se pode dizer das manifestações do mito não genuíno, do mito “tecnificado” — segundo a definição de Kerényi —, ou seja, evocado intencionalmente pelo homem para atingir determinados fins. De fato, nesse caso, a realidade linguística nascida do surgimento do mito não é digna de ser chamada de λόγος e, ao sofrer as restrições impostas ao fluxo mítico pelos tecnificadores, não possui caráter coletivo. Eles se propõem a usar determinadas imagens míticas para alcançar determinados fins (que geralmente são fins políticos, pois os tecnificadores do mito são, na maioria das vezes, discípulos de Sorel); sua linguagem não é, portanto, uma linguagem comum à humanidade, mas apenas comum a um determinado grupo social. As imagens do mito tecnificado são, além disso, imagens deformadas no sentido teleológico dos tecnificadores pelo próprio fato de terem sido evocadas por eles intencionalmente, e não apresentadas espontaneamente pelo fluxo mítico. Consequentemente, tais imagens constituem uma realidade linguística particularmente subjetiva, assim como é subjetivo o cosmos daquele que — nas palavras de Heráclito — se encontra em “estado de sonho”. O “estado de sonho” acaba sendo um símbolo apropriado da condição daquele que se serve de mitos tecnificados, especialmente se considerarmos que essas imagens míticas, por sua subjetividade, não podem de forma alguma servir de barreira contra o predomínio do inconsciente: a faculdade de se opor ao predomínio indiscriminado do inconsciente é, na verdade, própria das imagens evocadas pelo mito genuíno, uma vez que coincide com o caráter objetivo dessas imagens. Manifestar-se em sua objetividade “natural”, própria do mito genuíno, não contrasta de forma alguma com as funções da consciência nem enfraquece a força desta, permitindo que a estrutura das imagens evocadas — na qual repousa tal força — salvaguarde, juntamente com o caráter coletivo da realidade linguística da qual participam, o equilíbrio “humanístico” entre consciência e inconsciente. Mas o mito tecnificado, ao suprimir o valor coletivo e objetivo do processo cognitivo e linguístico, conduz novamente o homem ao “estado de sonho” e abre caminho para o predomínio do inconsciente. Se o inconsciente é efetivamente coletivo por si mesmo — segundo o ensinamento de C. G. Jung —, ele se mantém em equilíbrio na psique humana quando entra em relação com outro elemento coletivo como a consciência em “estado de vigília”; mas está destinado a prevalecer se, na psique, a consciência estiver em “estado de sonho”, isto é, viciada pelo subjetivismo.

A gênese da realidade linguística determinada pelo fluxo mítico é caracterizada por um fenômeno de reminiscência e, consequentemente, de relação com o passado, uma vez que o fluxo do mito constitui o afloramento de um passado tão remoto que pode ser identificado com um presente eterno e determina também o afloramento de imagens escolhidas entre aquelas que constituem o passado latente na psique. No entanto, essa relação com o passado também pode ser viciada se for determinada por uma evocação tecnicista do mito em vez de ser espontaneamente por um fenômeno mitológico genuíno. De fato, enquanto o passado com o qual se estabelece contato por meio do mito genuíno é verdadeiramente o passado, ou seja, uma realidade viva e genuína da qual a linguagem extrai elementos de valor objetivo e coletivo, o passado que perdura nas imagens do mito tecnificado não passa de uma sobrevivência deformada e subjetiva, na qual os tecnificadores projetaram suas culpas e seus males para dispor de um “precedente” mítico, eficaz como instrumento político. A linguagem que se alimenta dessas sobrevivências deformadas do passado é, ela também, necessariamente deformada, e é a linguagem que realmente se alimenta do passado através dos canais do mito feminino, como uma mobília de “estilo renascentista” é para uma autêntica criação do Renascimento.[2]O mito feminino remonta provavelmente ao matriarcado que Bachofen teorizou. Jesi espelha a cultura de massa na tecnificação e o modelo ginecológico de comunidade no Renascimento. 

O fenômeno da tecnificação do mito, e a relação viciada com o passado que isso implica, teve exemplos trágicos na história mais recente da cultura e da sociedade alemãs, tornando-se excepcionalmente evidente na vicissitude do nazismo. Seria, no entanto, superficial e impreciso implicar em uma única acusação moral tanto os pensadores e artistas cuja vicissitude espiritual foi marcada por elementos horríveis gerados por sua experiência do mito genuíno quanto os criminosos que, sem nenhum escrúpulo, tecnificaram o mito para seus fins mais baixos e criminosos.

O mito genuíno também pode assumir aparências horríveis na obra do artista que, longe de querer tecnificar o mito, está intimamente marcado por doenças espirituais. Mas, sem dúvida, nem mesmo os teóricos da “solidão” do artista chegaram a se deter, salvo em raras ocasiões, da complacência exclusivamente aristocrática de aristocratas eleitos ou de aristocratas doentes, dependendo da perspectiva do observador. O próprio esoterismo linguístico de Stefan George — pense-se na “língua secreta” de sua juventude — foi muitas vezes uma experiência sofrida de solidão; e certamente sofrida, além de vivida até o fim com um empenho ao qual não poderíamos negar moral e até heroísmo, foi a solidão de Rilke. Basta tomar como exemplo o curso das Duiniser Elegien para mostrar como Rilke acabará por reconquistar uma relação pura com o passado e o mito genuíno, mostrando-se triunfante para as imagens horríveis — o anjo, [3]Jeder Engel ist schrecklich. Todo Anjo é terrível, diz a primeira elegia, porque é Belo.  acima de todas — que haviam nascido da projeção das “culpas” anti-humanísticas do poeta no fluxo mítico: seu mergulho recorrente e deliberado nas zonas obscuras da psique com o objetivo de conceder-lhes um domínio total momentâneo sobre a consciência.

O vício da linguagem na experiência artística de Rilke é, portanto, um vício de cura e de retorno à coletividade, coincidindo com o retorno ao mito genuíno e a uma relação pura com o passado.

“Nunca procurei agradar a maioria; não sei o que realmente lhe agrada e, pelo contrário, o que eu sei ela não é capaz de compreender”: esta frase de Epicuro não deve ser entendida como uma rejeição estéril e aristocrática da coletividade, mas como uma defesa contra tudo o que significa coletividade de culpas e obscuridades subjetivas, embora tendo respeito pelo homem, pelo seu conhecimento e pela sua consciência. A frase alude também à dolorosa profundidade da experiência do pensador e do artista, solitário em trabalhar dentro de si a cura dos males que ameaçam a humanidade. Esse caminho solitário de acesso ao λόγος, à verdadeira linguagem da coletividade, só pode ser interpretado como orgulho aristocrático se não se levar em conta a humildade, os sofrimentos e as consequências pedagógicas que ele implica. Sim, também humildade: o propósito de vencer dentro de si os males e as culpas que oprimem o homem significa assumir humildemente os males e as culpas da humanidade com vistas a uma dolorosa cura que o meio pedagógico — o instrumento linguístico — torna coletiva. Nesse sentido, Kerényi tem razão ao reconhecer em Doktor Faustus, de Thomas Mann, um romance “cristão”.

Na atitude daqueles que tentam dolorosamente restabelecer um vínculo puro com o mito genuíno, aproximando-se do passado como uma fonte vital de cura, contrapõe-se a obra criminosa dos leaders que oferecem às massas um precedente mítico deformado de suas culpas. Um símbolo trágico dessa obra encontra-se no romance Die andere Seite [A outra parte], de Alfred Kubin, que narra as loucuras de um grupo de homens rendidos a um leader, Patera, que mantém sobre eles um “feitiço”, explorando suas complacências. No reino de Patera, vive-se rodeado de sobrevivências deformadas do passado, que se manifestam até na adoção de vestes de séculos anteriores e na exclusão de todos os utensílios que não tenham sido deteriorados pelo tempo. As próprias casas da cidade de Patera foram trazidas de todas as partes da Europa e escolhidas entre as mais antigas, as mais adequadas para simbolizar um passado deformado: entre os elementos discriminatórios da escolha dessas casas está o fato — silenciado — de que todas foram palco de algum crime.

Este vínculo viciado com o passado — emblema da tecnificação do mito levada a cabo por quem reflete nas imagens míticas as próprias culpas — é o pressuposto do “feitiço” que domina os súditos de Patera, assim como o edifício do Arquivo domina a sua cidade. O imenso e fechado arquivo, que é o coração do Estado de Patera, é justamente o símbolo de um passado reduzido a um repertório empoeirado e caótico de imagens, das quais uma vontade criminosa evoca aquelas que são úteis para manter o próprio poder.

Tal era o “passado” para os nazistas, cuja linguagem coincidiu com o mergulho nas imagens deformadas do passado oferecidas pela tecnificação do mito. Privada de todo valor coletivo, essa linguagem se alimentava de imagens míticas deformadas nas quais se projetavam as doenças e as culpas dos criminosos e nas quais cada um se entregava cegamente ao fluxo do inconsciente, encontrando naquele esoterismo monstruoso uma confirmação e um precedente mítico das próprias doenças e das próprias culpas.

Coletividade significa comunidade de homens que se reconhecem no respeito pelo homem, não nas suas doenças morais e nas suas culpas. Se o denominador comum de um grupo social é a culpa e a vontade culpada, e se tal denominador é explorado pelos “de cima” como elemento de coesão, se essa obra dos “de cima” se manifesta ainda no fornecimento de mitos deformados ad hoc e, portanto, no favorecimento do predomínio das “forças obscuras” sobre a consciência, então pode-se certamente falar de “estado de sonho” para quem faz parte desse grupo. Cada um dos adormecidos fala sua própria linguagem: própria, na medida em que privada de objetividade e deformada de acordo com as culpas. “O rancor infinito, a profunda e gangrenosa sede de vingança do inepto, do incapaz, do cem vezes fracassado, do preguiçoso extremo frequentador de casas de caridade, inapto para qualquer trabalho, do insignificante diletante rejeitado, do totalmente frustrado, ligam-se aos sentimentos de inferioridade (muito menos legítimos) de um povo vencido, que não sabe enfrentar, em sua derrota, o caminho certo e que só pensa na recuperação da própria “honra””: Thomas Mann fala novamente, e o diagnóstico do grande pedagogo da sociedade burguesa não é válido apenas para a Alemanha nazista: implica também, profeticamente, o destino daquela parte da sociedade e da cultura burguesas incapazes de — ou contrárias a — renunciar ao orgulho de suas próprias culpas, da relação viciada que mantêm com o passado; incapaz de renunciar ao subjetivismo do culpado, que considera bom e justo apenas a linguagem nascida da deformação do mito que reflete suas culpas e que se refugia em um esoterismo bem distante daquele experimentado por Rilke em vez de tomar o caminho da coletividade, do conhecimento nascido do equilíbrio entre consciência e inconsciente, de um humanismo renovado.                                             

     No ensaio Menschliches Allzumenschliches [Humano, demasiado humano], Nietzsche fala de “certos espíritos poderosos e impulsionadores, embora atrasados no tempo, que evocam mais uma vez uma época passada da humanidade, demonstrando assim que as novas tendências a que se opõem ainda não são suficientemente fortes para os manter vitoriosamente de cabeça erguida”. A reação como progresso;[4]Não sendo conservador, Pasolini talvez tenha feito o melhor projeto para uma revolução ao estilo do texto. Dentro do conjunto da arte do cinema, grande parte dos seus filmes aponta para … Continue reading esse conceito que Nietzsche exemplifica sobretudo no caso de Schopenhauer, que deveria nos permitir apreciar a contribuição à civilização de homens que revivem dentro de si o passado e que estabelecem, portanto, uma ponte entre o passado e o futuro.

A linguagem da propaganda política poderia extrair uma primeira justificativa desse pensamento de Nietzsche, uma vez que tal linguagem nasce precisamente da evocação deliberada de imagens míticas, destinadas a servir de instrumentos para alcançar um determinado fim político. O mito — o passado — seria assim revivido pelos tecnificadores e sua força seria reintegrada ao presente com o objetivo preciso de melhorar as relações entre os homens. Tal justificativa histórica e moral teria, além disso, a vantagem de induzir implicitamente uma primeira distinção entre aqueles que revivem as imagens do mito movidos por uma profunda e humana exigência social e aqueles que, ao contrário, se servem do mito apenas para colocar em prática seus propósitos criminosos. É indubitável, de fato, que o conceito de reação como progresso só é aplicável aos reacionários movidos por profundas e genuínas exigências morais, das quais — em todo caso — só pode derivar respeito e amor ao homem.

O recurso ao mito na linguagem da propaganda política é um elemento constante e é sempre — por sua própria natureza — um elemento “reacionário”. Mesmo a doutrina política mais progressista se serve de um instrumento intrinsecamente reacionário quando recorre ao mito, mesmo que o tecnifique, pois o mito nunca deixa de ser “passado”: um passado que exerce sobre os homens um certo poder, que é, precisamente, explorado pela propaganda.

Se, por outro lado, a doutrina política que faz uso do elemento propagandístico “reacionário” é verdadeiramente uma doutrina progressista, ela realiza plenamente em sua atuação o conceito de reação como progresso. Conceito que implica, no entanto, que fiquem sempre bem claros os objetivos do recurso ao mito, para que se possa verdadeiramente fundamentar o futuro na experiência do passado e em sua superação. É claro, naturalmente, que o mito tecnificado usado pela propaganda política é um passado deformado, um passado cujas sobrevivências ainda podem induzir os homens a um certo comportamento, mas que é desprovido da autenticidade capaz de tornar objetiva e intrinsecamente válida a sua experiência.

Superação: acreditamos que este seja o ponto fraco de quase todas as linguagens propagandísticas, que geralmente são utilizadas de forma moralmente condenável quando não se prevê, dentro da evocação técnica do mito, a superação da experiência alcançada. Se os resultados desta última são considerados como fins em si mesmos, se — isto é — a linguagem do mito tecnificado é considerada como uma linguagem objetiva e cheia de verdade intrínseca, a reação permanece como reação e resulta, consequentemente, apenas em contaminação do presente com um passado no qual se refletem as culpas dos tecnificadores.

Mas como é possível alcançar essa superação? Como é possível induzir os homens a se comportarem de uma determinada maneira — graças à força exercida por evocações míticas oportunas — e induzi-los sucessivamente a uma atitude crítica em relação ao motivo mítico de seu comportamento? Tudo isso não nos parece praticamente possível. E, mesmo assim, a maioria dos partidos políticos continua valendo-se de imagens míticas em sua propaganda; ou seja, continuam a basear o futuro na aceitação do passado, confiando na ilusão de trabalhar pelo progresso, quando, pelo contrário, aceitar cegamente uma propaganda baseada na tecnificação do mito significa mergulhar no que há de morto e deformado no passado: os mitos não espontâneos, não genuínos, tecnificados.

Mesmo que essa técnica propagandística possa induzir os homens a agir de maneira útil na afirmação de uma doutrina política progressista, permanece o engano perpetrado às custas de suas consciências. Resta o fato, ou seja, também se pode chegar à constituição de um Estado doutrinária e institucionalmente progressista, mas não se favorece nenhum tipo de progresso na consciência dos componentes desse Estado: isso significa uma fratura incurável entre o Estado e a consciência individual, entre a consciência de alguns poucos líderes “iluminados” do Estado e a consciência dos componentes da “massa”.

Por outro lado, é possível fazer uso, na propaganda política, de mitos genuínos, não tecnificados e, portanto, de forças do passado transmitidas de forma vital ao presente e ao futuro, e não de cadáveres do passado? À primeira vista, poderia parecer inevitável responder negativamente a essa pergunta, uma vez que a espontaneidade e o desinteresse que acompanham sua manifestação são prerrogativas específicas do mito genuíno. O objetivo moral e, em última análise, também político, deveria ser a desmitificação na propaganda política do mito tecnificado (já que o mito genuíno seria estranho a ela a priori). Mas isso equivale, em definitiva, à negação do conceito de “propaganda” política no sentido negativo de “engano” que tradicionalmente lhe é atribuído. No entanto, não ousaremos negar, por outro lado, a eficácia “propagandística” de uma linguagem que é própria dos homens em “estado de vigília” e que, consequentemente, se alimenta do mito não tecnicamente, mas por meio de um abandono genuíno e espontâneo ao seu fluxo, o que não implica diminuição da lucidez da consciência. Se o homem fala ao homem com uma linguagem que deriva de sua experiência do mito genuíno, o que confere à linguagem valor de objetividade e coletividade, é provável que se obtenha um passo adiante em direção a uma sociedade baseada na dignidade ao homem.

Em 34 a.C., Antônio, após conquistar a Armênia, mandou cunhar em Alexandria moedas que o representavam com a tiara real armênia, bem como outras nas quais figurava Cleópatra vestida como a “nova Ísis”. Essas representações constituíam quase uma resposta às que a política de Augusto havia inspirado aos oleiros de Aretino e aos vasos de terracota que aludiam a Antônio e Cleópatra, evocando o mito de Hércules e Onfália, um vestido com roupas femininas, a outra coberta com a pele de leão e empunhando a clava. As propagandas de Alexandria e Roma recorreram ao mito como repertório de imagens capazes de agir eficazmente sobre as massas e envolver as personalidades dos contendores em uma aura de divindade vitoriosa e salvadora ou de cruel ridículo. As imagens utilizadas, seja a de Ísis, seja a de Hércules e Onfália, pertenciam a um patrimônio comum a vastas camadas das populações submetidas às duas potências em luta. Recorrer a essas imagens com fins precisos de propaganda política não significava, porém, apelar para o que realmente constituía um vínculo comum entre as pessoas. A deformação técnica do mito não passava de uma monstruosa distorção do sentimento religioso, destinada a privá-lo de seu valor coletivo — à margem das crenças particulares — e a reduzi-lo a um devaneio sonâmbulo, de homens em “estado de sonho”.

Essa antiga deformação não é, infelizmente, apenas um documento de desvios e horrores superados. É atual a monstruosa deformidade de uma religião que — como a de Ísis — prevê a serena salvação moral do homem e, em contrapartida, é forçada a se tornar um instrumento de abjeção e morte.


Artigo publicado em Sigma, n. 7, setembro de 1965.
imagem: Ship of fools, Jane Lewis.



Eduardo Galeno

Formado em Letras pela Universidade Estadual do Piauí e estuda retórica, poética e semiótica

References
1 Logos. O sentido que Jesi dá à palavra é diferente da filosofia grega e da teologia cristã, apesar de ambas terem possibilidade de relação. Tem mais a ver com uma estruturação discursiva e compartilhada antropologicamente, interpretação mais moderna.
2 O mito feminino remonta provavelmente ao matriarcado que Bachofen teorizou. Jesi espelha a cultura de massa na tecnificação e o modelo ginecológico de comunidade no Renascimento. 
3 Jeder Engel ist schrecklich. Todo Anjo é terrível, diz a primeira elegia, porque é Belo. 
4 Não sendo conservador, Pasolini talvez tenha feito o melhor projeto para uma revolução ao estilo do texto. Dentro do conjunto da arte do cinema, grande parte dos seus filmes aponta para formações semióticas pré-industriais, como nas mitologias trágicas de Édipo e Medeia, além dos contos de Boccaccio e Chaucer e dos contraditórios Sade, o aristocrata libertino, e o apóstolo Mateus, o Evangelista.

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