Resumo: Trata-se de uma tradução de um seminal artigo da Marxologia, escrito por Chris Arthur. O artigo mostra que o jovem Marx nunca mencionou a famosa dialética hegeliana mestre-escravo. Ele também não a tinha em mente em seus Manuscritos de 1844. Os argumentos de Arthur são compostos de vários níveis, incluindo o filológico. Sua tese é que aquilo que Marx tem em vista quando menciona a Fenomenologia do Espírito é todo o movimento do espírito: sua dialética da negatividade.
Palavras-chave: Reconhecimento. Dialética senhor-servo. Marx. Hegel. Negatividade.
Hegel’s Master Slave Dialectic and a Myth of Marxology
Abstract: This is a translation of the seminal ‘Marxology’ paper by Chris Arthur. The paper shows that the young Marx never mentions the famous Hegelian master-slave dialectic. Neither did he have it in mind in his Manuscripts of 1844. The arguments of Arthur are composed of several levels, including the philological one. His thesis is that what Marx has in mind when he mentions the Phenomenology of Spirit is the entire movement of spirit: its dialectic of negativity.
Keywords: Recognition. Master-Slave Dialectic. Marx. Hegel. Negativity.
A dialética do Senhor-Escravo de Hegel e um Mito da Marxologia
Há uma visão amplamente difundida segundo a qual Marx teria sido profundamente influenciado pela dialética do Senhor-Servo (‘Herrschaft und Knechtschaft’) presente na Fenomenologia do Espírito (1807) de Hegel. Tal visão foi popularizada primeiramente por Jean-Paul Sartre, em O ser e o nada (1943) ele se refere à “famosa relação ‘Senhor-Escravo’, que tão profundamente influenciou Marx”[1]. Sartre não explica como o sabe.[2] Provavelmente essa observação reflete a influência das aulas sobre Hegel lecionadas por Alexandre Kojève na década de 30. Kojève apresenta uma leitura da Fenomenologia,em uma interpretação quase-marxista, que centraliza o lugar da dialética do Senhor-Servo[3]. (Talvez Kojève tenha presumido que o próprio Marx a tenha lido da mesma forma. Porém, uma coisa é ler o marxismo voltado a Hegel, outra é gerá-lo a partir de Hegel.) Três anos depois de Sartre, encontramos Jean Hyppolite afirmando que a dialética da dominação e da servidão é a seção mais conhecida da Fenomenologia por causa da “influência que esta teve na filosofia social e política dos sucessores de Hegel, especialmente Marx”[4]. Na verdade, apesar das afirmações de numerosos comentadores dizerem o contrário, Sartre e Hippolyte não compareceram às aulas de Kojève. O mito de que eles estavam sentados aos pés de um “superior desconhecido” é hoje em dia amplamente difundido, no entanto, a literatura de apoio não fornece nenhuma evidência para isso.[5] Voltemos nossa atenção às explicações de primeira-mão. Raymond Queneau, o discípulo de Kojève encarregado de coletar e publicar as aulas de 1947, apresentou uma lista dos participantes em que não constam Sartre ou Hyppolite[6]. No que concerne aHyppolite, temos o testemunho adicional da Sra. Hyppolite[7] confirmando que ele não compareceu “por medo de ser influenciado”[8].
Seja como for, um documento crucial produzido por Kojève já estava em domínio público enquanto Sartre e Hyppolite elaboravam suas equações de Hegel com Marx. Na edição da Mesures de 14 de janeiro de 1939, Kojève publicou uma tradução, intercalada de suas glosas, da seção da Fenomenologia intitulada “Autonomia e dependência da Autoconsciência: senhorio e servidão”. Para nossos propósitos é ainda mais interessante o fato de que Kojève adicionou uma epígrafe com as seguintes palavras de Marx: “Hegel… erfast die Arbeit als das Wesen, als das sich bewährende Wesen des Menschen”[9]. (Hegel… toma o trabalho como a essência, como a essência auto-certificada do ser humano). Nenhuma referência foi apresentada, mas, de fato, esta é uma citação dos Manuscritos de Paris de 1844 de Marx, os quais não foram publicados até a década de trinta. Portanto, Kojève foi a primeira pessoa a traçar uma conexão direta entre o famoso juízo de Marx sobre Hegel e a dialética do Senhor-Servo na Fenomenologia.
Nos dias atuais é dogmaticamente afirmado, em numerosos livros, que Marx seinspirou na análise de Hegel acerca do trabalho da servidão[10]. Esta visão é completamente falsa. A presente nota busca demonstrar que esse é o caso e explicar o significado real da apropriação crítica de Marx da Fenomenologia.
Se for questão de considerar a influência da Fenomenologia de Hegel em Marx, os textos cruciais a serem analisados devem ser os seus manuscritos de 1844, nos quais ele introduz sua teoria da alienação e, por conseguinte, dedica um espaço considerável auma profunda crítica da Fenomenologia. Na última seção dos manuscritos, Marx elogia Hegel por ter compreendido o ser humano como resultado de seu próprio trabalho. Quase todos os comentadores, assumindo ingenuamente que o trabalho material é o que está em questão aqui, recorrem à Fenomenologia e descobrem, de fato, uma discussão fascinante na seção “Senhor-Servo” sobre o significado do trabalho material; nele e por meio dele o servo “encontra a si mesmo”. Mais do que isso, o fato de Hegel enxergar a realização deste trabalho no contexto da servidão leva alguns desses comentadores a fazer a afirmação mais extravagante segundo a qual Marx, em sua teoria da alienação, se baseia na mesma seção. Provavelmente Herbert Marcuse foi o primeiro a assumir tal posição; em Razão e Revolução (1941) Marcuse comenta que “Em 1844, Marx aprofundou os conceitos básicos de sua própria teoria através de uma análise crítica da Fenomenologia do Espírito de Hegel. Ele descreveu a “alienação” do trabalho nos termos da discussão hegeliana sobre a condição do senhor e do servo […]”.[11]
A única dificuldade para este tipo de pressuposição que faz a literatura de apoio é que, em seus manuscritos de 1844, quando Marx desenvolve uma ‘crítica da dialética de Hegel’, ele nunca se refere a essa seção da Fenomenologia – nem mesmo dando-lhe qualquer importância!Marx discute a Fenomenologia como um todo e chama atenção especialmente para o último capítulo; ele destaca o mérito de outras três seções, mas nenhuma delas diz respeito à dialética do senhor-servo[12]. Isso deve nos tornar suspeitos em relação às afirmações feitas sobre o “senhor-escravo”.
Antes de examinar o modo como Marx lida com a Fenomenologia, relembremos a dialética entre Herrschaft und Knechtschaft. (A propósito, apesar de ser popularmente chamada de “Senhor-Escravo”, a tradução correta para Knecht é “Servo”[13]). Trata-se de uma seção presente no início da Fenomenologia, na passagem da consciência para a autoconsciência. Hegel acredita que o self somente pode se tornar consciente de si mesmo através da e na mediação com outra autoconsciência. Para Hegel, a primeira relação fixa que emerge do desenvolvimento dialético deste tópico é a do Senhorio e da Servidão. O senhor é reconhecido como tal por seu servo e, assim, satisfaz imediatamente seus desejos por meio dos bens e serviços que o trabalho do servo lhe fornece. Todavia, é precisamente através do servo que a dialética progride porque “por meio do trabalho… o servo torna-se consciente do que realmente é”. O trabalho forma e molda as coisas e é através deste agir formativo que, agora, a consciência do servo, no trabalho externalizado, torna-se “algo permanente”; pois o servo passa a perceber neste ser independente do objeto “a sua própria independência”. Mais adiante, Hegel diz que
A forma não se torna um outro que a consciência pelo fato de se ter exteriorizado, pois justamente essa forma é seu puro ser-para-si.
Sendo assim, conclui:
Mediante o reencontro de si por si mesmo, o servo percebe que é precisamente em seu trabalho, no qual aparentemente ele apenas vive a vida de um estranho [fremder Sinn], que ele encontra sentido próprio [eigner Sinn][14].
De uma forma superficial estes termos comparam-se aos de Marx, já que tanto Hegel quanto Marx consideram o trabalho, para além de seu aspecto meramente utilitarista, como um veículo de autorrealização; tanto é assim que não concebem o senhor, mas o servo como o locus de uma existência humana mais desenvolvida. No entanto, quando notamos que, por um lado, Marx sustenta que somente uma transformação no modo de produção reestabelecerá o sentido próprio e a realização para o trabalhador e, por outro, Hegel pensa que, mesmo dentro de uma relação de produção espoliadora, os efeitos educativos do trabalho são suficientes para o trabalhador representar para si mesmo o “sentido próprio” em seu produto, ficam nítidas as diferenças fundamentais entre Marx e Hegel. Além disso, neste estágio da dialética fenomenológica, a condição “do temor e do serviço” é estipulada como necessária para tal finalidade: a saber, a do servo tornar-se objetivo para si mesmo[15].
Hegel define o trabalho como um “desejo refreado”: a definição requer que seja traçada uma distância entre os impulsos imediatos da vontade própria e o agir formativo fundado em princípios objetivos. Se quisermos, é o senhor quem é um escravo porque o seu objeto é o “sentimento absoluto de autossatisfação”: o que significa dizer que ele é escravo de seus desejos (appetites), mas as suas satisfações são “apenas evanescentes”, carecendo da permanência de objetividade[16]. Por outro lado, o servo alcança o senhorio de suas habilidades no trabalho por ele criado; é ele quem ascende ao nível da razão humana universal. Contudo, Hegel introduz a noção de que “o temor e o serviço” são necessários para induzir ao refreamento do desejo e, também, para garantir que a consciência supere seus propósitos autorreferidos e ascenda à liberdade originada na consciência do “poder universal” da atividade humana criadora[17]. Aparentemente, de uma forma bastante arbitrária, Hegel assume que todos devemos experienciar uma transgressão da vontade própria, mediante a sujeição a um poder alheio, antes de nos tornarmos capazes da liberdade racional[18].
Examinemos agora a passagem crucial na complexa discussão de Marx sobre a Fenomenologia, na qual Marx elogia Hegel por compreender a importância do trabalho:
A grandeza da “Fenomenologia” hegeliana e de seu resultado final – da dialética, da negatividade como princípio motor e gerador – consiste em que Hegel, por um lado, concebe a autogeração do ser humano como um processo, a objetivação (Vergegenständlichung) como desobjetivação (Entgegenständlichung), como alienação (Entäusserung) e como superação (Aufhebung) dessa alienação; que apreende essência do trabalho e concebe o ser humano objetivado […] como o resultado de seu próprio trabalho. A realização de si mesmo […] somente é possível se o humano […] exteriorizar todas as suas forças genéricas […] comportando-se perante elas como diante de objetos, o que, por sua vez, só é possível inicialmente sob a forma do estranhamento (Entfremdung)[19].
Será que este juízo – tal como Kojève insinua e tantos outros comentadores posteriores afirmam com ousadia – tem em vista a discussão hegeliana acerca do trabalho da servidão? A primeira coisa em que devemos nos deter é que, logo após este elogio, Marx o qualifica, lamentando o fato de que “o único trabalho que Hegel conhece e reconhece é o trabalho abstrato do espírito”[20]. O trabalho do servo é claramente material e, por conseguinte, observar isto implica mostrar não apenas que Marx não tinha em vista tal análise, mas que ele realmente esqueceu tudo a respeito dela e fez uma pequena injustiça a Hegel![21]
Aquilo a que Marx de fato nos remete é ao “capítulo final da ‘Fenomenologia’ – ‘O saber absoluto’ […]” que, por sua vez, “contém o espírito resumido da Fenomenologia” e a sua dialética.[22] Reside aí o resultado completo de seu movimento. O “trabalho abstrato do espírito” mencionado por Marx é o trabalho do espírito. A Fenomenologia é uma odisseia do espírito ou, talvez, uma Bildungsroman do espírito em que o espírito descobre que as formas objetivas dadas a ele na consciência e na autoconciência não são nada além de sua própria autodeterminação. O espírito vem a se conhecer mediante a produção de si mesmo, na primeira instância na qualidade de algo que se coloca em oposição a si mesmo. Marx observa que, no capítulo final, o mundo do estranhamento, assim trazido à vida, é superado, ou negado, de uma maneira peculiar, na medida em que —como Hegel coloca – a “autoconsciência […] superou e recuperou dentro de si essa alienação (Entäusserung) e a objetividade, e assim está junto de si no seu ser-outro como tal”[23]. Dentro deste quadro de referência, as esferas do estranhamento tais como religião, estado, sociedade civil etc. são consideradas trabalho do próprio espírito. Hegel enfatiza que o espírito pode chegar a si mesmo apenas mediante o estabelecimento de uma oposição e, após isso, negando-a. Isto é o que ele chama de “trabalho do negativo”[24].
No trecho em que Marx afirma que o “resultado final” da Fenomenologia é “a dialética da negatividade como princípio motor e gerador”, é a todo este trabalho do espírito, presente na Fenomenologia, a que ele se refere. Naturalmente, na concepção de Marx, o ser humano produz a si mesmo através do trabalho material. Porém, seria um erro derivar daí que seu elogio a Hegel se deve ao fato deste falar a respeito do trabalho material, tal como o trabalho do servo. Assim como, quando Marx declara que Hegel apreende o trabalho como sendo a essência, ele não está falando do que Hegel realmente diz sobre o trabalho material (daí a ausência de referência a “Senhorio e a Servidão”), mas está se referindo ao significado esotérico da dialética da negatividade na totalidade do movimento de autoposição do espírito (daí a afirmação de Marx segundo a qual o único trabalho que Hegel reconhece é o trabalho abstrato do espírito). Marx identifica na dialética da negatividade de Hegel a hipóstase da reflexão abstrata na filosofia do processo material através do qual o ser humano produz a si mesmo por meio de seu próprio trabalho, um processo que (e aqui Marx está de acordo com Hegel) deve passar por um estágio de estranhamento.
É preciso situar a relação “Senhor-Escravo” dentro dessa perspectiva do desenvolvimento da autoconsciência do espírito. Como já observamos e agora enfatizamos, trata-se de um momento inicial na história da recuperação do espírito. É muito menos ‘concreto’ (no jargão de Hegel) do que as conquistas culturais, como o direito, a arte, a religião e a filosofia.[25] Apesar disso, está situada em um ponto de inflexão de notável importância, uma vez que o problema ali enfrentado por Hegel é o de como desenvolver dialeticamente a autoconsciência a partir da mera consciência dos objetos externos. A consciência não apreende a si mesma nas coisas. Ela deve se distinguir absolutamente delas por meio de sua negação radical. O consumo dos objetos de desejo efetiva isso de maneira fugaz. Arriscar a vida para forçar outra consciência a admitir o seu reconhecimento representa uma mediação mais promissora. Ocorre que o senhor se percebe frustrado ao se dar por vencido ao servo, à sua coisa. A autoconsciência somente consegue adquirir o reconhecimento apropriado mediante o respeito mútuo, tal como aquele que é proporcionado aos indivíduos e constituído nas relações éticas e jurídicas, cujo desenvolvimento é tardiamente desenvolvido por Hegel no texto.[26] Nesse estágio, a dialética progride por meio do servo menosprezado. Como vimos, ele “encontra a si mesmo” mediante a ação negadora do trabalho sobre as coisas. Não obstante, devemos enfatizar que o ponto em questão é que isto promove um avanço na autoconsciência.
Tudo isso não tem muito a ver com o interesse de Marx na realização de um ser objetivo na formação do mundo material. Trata-se antes de uma parte do projeto da Fenomenologia como um todo. Vale a pena lembrar que, na “Fenomenologia” da Enciclopédia, Hegel não faz menção alguma ao trabalhador que encontra a si mesmo em seu produto; lá a ênfase no desenredo da relação “Senhor-Escravo” está na “comunidade das carências” e no fato de que o “temor do senhor é o início da sabedoria”.[27] No tocante à Fenomenologia do Espírito, em virtude de se tratar de uma odisseia do espírito, nada poderia ser mais errado do que despender uma ênfase especial no momento do trabalho material (como é o caso das leituras ‘marxistas’ de Marcuse e de Kojève), uma vez que sua importância não se deve ao resultado material, mas ao espiritual. A próxima etapa na dialética é que, uma vez que a autoconsciência carece de unidade ao estar dividida entre diferentes ‘eus’ (selves), ela tenta encontrar sua “liberdade” no “pensamento”; a objetividade é ‘negada’ na pura universalidade do pensamento nas atitudes que Hegel identifica com o Estoicismo e o Ceticismo.[28] Para Hegel, a ‘liberdade’ da vida interior é compatível com qualquer posição social.[29]
Diante disso, será que Marx, tal como Marcuse afirma (acima), seguiu os termos hegelianos da relação entre senhor e servo em sua teoria da alienação? Já dissemos o suficiente para que isso seja colocado em dúvida. Além disso, não bastando o próprio Marx não citar tal seção, a própria discussão hegeliana acerca disso não menciona a alienação. Evidentemente, como se poderia supor, o trabalho material imediato não é um problema para Hegel tão só pelo fato de ser material.[30] Contrariamente, Hegel confere ao trabalho material um sentido positivo no desenvolvimento do espírito. Entretanto, é perfeitamente verdadeiro que Marx descobre em Hegel o tema da alienação (Entäusserung) e do estranhamento (Entfremdung) – mas ele não deriva isto do trabalho da servidão. Mesmo aqueles comentadores que se concentram no capítulo “O espírito alienado de si mesmo” (‘Der sich entfremdete Geist’) estão apenas parcialmente corretos. É verdade que Marx faz algumas referências favoráveis a partes desse material; ele diz: “estas seções isoladas encerram os elementos críticos – embora ainda numa forma estranhada – de esferas tais, como a religião, o Estado, a vida civil etc.”[31] No entanto, nas seções citadas Hegel está lidando com o reino do espírito finito, historicamente correspondente ao período que se desenha a partir do Feudalismo e que atravessa o Iluminismo até à Revolução Francesa. Marx não se preocupa tanto com isso, mas principalmente com o movimento de ‘negatividade absoluta’ do espírito, e especialmente com o capítulo final “Saber Absoluto” (e quando menciona a Enciclopédia, é a Ideia Absoluta e sua alienação de si na natureza que ele discute).
Um aspecto complicado no debate de tais questões é que a tradução dos textos, tanto os de Hegel quanto de Marx, pode induzir à tradução de ambos “Entäusserung” e “Entfremdung” por “alienação”. Todavia, em Hegel, os termos são muito bem separados no texto e possuem funções diferentes. Recém mencionamos o capítulo sobre Entfremdung. Como bem nota Lukács,[32] “Entäusserung” é o conceito-chave no desfecho da Fenomenologia: o espírito concebe a esfera do estranhamento como produto de sua própria autoalienação. Entfremdung é a forma da Entäusserung como o resultado fenomenológico do processo ativo no qual o espírito põe a si mesmo em seu ser-outro.[33]
Por mais que Marx tenha se impressionado com a descrição fenomenológica do estranhamento feita por Hegel, o que realmente o entusiasmou foi o aspecto ‘metafísico’ da Fenomenologia – o espírito se mediando com ele mesmo na alienação (Entäusserung). Esse não é senão o processo da “negatividade absoluta” e é a isso a que Marx se refere quando ele diz que, ainda que de forma mistificada, Hegel apreende o ser humano como o produto do seu próprio trabalho, através da alienação e da superação da alienação.
Ainda assim, Marx sustenta que a discussão dos problemas da alienação, por parte de Hegel, está inserida em ilusões especulativas e, por essa razão, é uma “crítica meramente aparente”, mistificando um “positivismo acrítico”. Por esse ângulo, devemos chamar atenção para o uso sofisticado da citação feita por Kojève na epígrafe acima mencionada segundo a qual Hegel apreende o trabalho como essência. O trecho citado por Kojève é o seguinte (enfatizo aqui as partes citadas por Kojève):
Hegel se coloca do ponto de vista da economia política moderna. Ele apreende o trabalho como a essência, como a essência do ser humano que se confirma; ele vê somente o lado positivo do trabalho, não seu lado negativo. O trabalho é o vir-a-ser para si do ser humano no interior da alienação [Entäusserung] ou como humano alienado.[34]
Por que Marx qualifica o seu elogio de Hegel dessa maneira?
Em primeiro lugar, apesar do rico conteúdo da Fenomenologia, lá tudo é tratado sob a forma da consciência ou da autoconsciência. O que significa que mudanças na consciência abolem o estranhamento porque o próprio estranhamento é entendido somente como uma atitude adotada pela consciência. Tal “abolição” deixa a realidade como ela é. Por isso, o aparato crítico redunda em “positivismo acrítico”[35].
Em segundo lugar, uma vez que o “sujeito” do movimento é o “espírito”, Hegel não pode conceber a objetificação a não ser como resultando em estranhamento – portanto, ele substitui a categoria da objetificação (Vergegenständlichung) por aquela da alienação (Entäusserung – que, tal como a Vergegenständlichung, possui a conotação de posicionar algo como objetivo, mas que também implica a renúncia daquilo que é manifestado, constituindo assim uma alienação).[36] Não obstante, Hegel enxerga algo positivo neste processo[37] porque nessa alienação o espírito torna-se objetivo para si mesmo. Trata-se de um momento essencial na autoconscientização e autorrealização do espírito. Logo, Hegel não se opõe à objetificação sob o argumento de que esta leva ao estranhamento. Certamente ele pensa que isto leva ao estranhamento, mas isso não significa que ele pense que o espírito deva permanecer em si mesmo e evitar a desventura da alienação de si próprio. Porém, ao invés de uma solução real histórica, Hegel nos fornece uma mudança de eixo em relação ao problema, dirigindo-o à reflexão filosófica geral e se permite colocar uma solução exclusivamente dentro do terreno da filosofia, o que mantém o estranhamento (“o ser-outro como tal”) como um momento do absoluto. Para Marx, isto é um “criticismo apenas aparente”.[38] Na verdade, a igualação, por parte de Hegel, entre objetificação e alienação o torna acrítico do estranhamento que ganha vida na autorrealização do espírito. É dizer, do mesmo modo que os economistas políticos modernos, Hegel compreende o trabalho como a essência do desenvolvimento humano, mas não como alienado de si na sociedade capitalista, pois, caso não sejamos capazes de posicionar uma genuína negação histórica da negação, as condições existentes tornam-se o horizonte que bloqueia a possibilidade de um ponto de vista crítico. De fato, tais condições que distorcem e esclerosam a objetificação do homem no e através do trabalho passam a ser endossadas como o fundamento necessário dentro do qual o vir-a-ser do homem deve ocorrer para si mesmo. O mundo do estranhamento aparece como sendo a expressão-de-si absoluta do trabalho[39].
À guisa de conclusão podemos dizer que o foco na dialética do senhor-escravo reflete dois vieses. O primeiro: devemos observar que em Kojève e Hyppolite estão as origens de uma leitura “existencialista” da Fenomenologia que apresenta uma absurda hiperênfase na “luta entre vida e morte” e o seu corolário na “Dominação e Servidão” – tudo se passando como se as outras seiscentas páginas da Fenomenologia fossem meramente assuntos secundários! O segundo: enquanto o debate marxista se dedicou aos problemas imediatamente políticos como aqueles da dominação e das lutas de classes, a difusão de textos como os Manuscritos de 1844, a Ideologia Alemã e, mais recentemente, os Grundrisse, fizeram com que fosse possível uma série de importantes debates acerca de questões ontológicas; por isso a influência de Hegel e da Fenomenologia em Marx deve ser diferentemente interpretada.
Christopher J. Arthur
Filósofo britânico, ex-professor da University of Sussex. Associado à chamada “Nova Dialética”, sua obra investiga as relações entre a lógica hegeliana e a exposição categorial de O capital. Entre seus livros destacam-se Dialectics of Labour: Marx and his Relation to Hegel (1986), The New Dialectic and Marx’s Capital (2002) e The Spectre of Capital: Idea and Reality (2022).

Felipe Taufer
Professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade de Caxias do Sul (UCS). Autor de Marx’s Anti-Practical Philosophy: The Roots and the Aftermath of the First Critique of Political Economy (2026).
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[1] SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada, p. 308.
[2] Em um comentário acerca de O Ser e O Nada, Marcuse diz o seguinte: “Sartre faz referência aos escritos juvenis de Marx…” In: MARCUSE, Herbert. Existentialism, p. 334. No entanto, não existe no texto original esta referência. Provavelmente Marcuse estava pensando sobre a influência da dialética “Senhor-Escravo” em Marx – uma visão sustentada independentemente por ele mesmo, cuja relação ele já tinha atribuído aos escritos juvenis de Marx (veja abaixo).
[3] KOJÈVE, Alexandre. Introdução à leitura de Hegel. A data original do livro é de 1947.
[4] HYPPOLITE, Jean. Genesis and the structure of Hegel’s Phenomenology of Spirit, p. 172; Também ver: “a famosa dialética do senhor e do escravo que se tornou inspiração para a filosofia marxiana” in: HYPPOLITE, Jean. Studies on Marx and Hegel, p. 29.
[5] Um típico exemplo é Georg L. Kline que diz que Sartre, Merleau-Ponty e Hyppolite “compareceram a algumas das aulas de Kojève e, quando não compareceram, sem dúvida leram as versões mimeografadas”. Ver KLINE, Georg L. The Existentialist Rediscovery of Hegel and Marx, p. 120. Kline fornece como autoridade de sua afirmação o livro de Wilfred Dean, no qual se lê o seguinte “[…] suas primeiras aulas incluíram intelectuais de elite como Sartre, Merleau-Ponty, Hippolyte […]” e, posteriormente, em uma nota de rodapé “Sartre aprendeu a estudar Hegel nas aulas de Kojève logo antes da Segunda Guerra Mundial” in: DESAN, Wilfred. The marxism of Jean-Paul Sartre, p. 24 e p. 50. Não obstante, Desan não apresenta evidências. Mark Poster, por sua vez, é mais cuidadoso: “até mesmo se diz que o próprio Jean-Paul Sartre estava envolvido, muito embora sua participação nas aulas nunca tenha sido lembrada” in: POSTER, Mark. Existential Marxism in postwar France, p. 8-9.
[6] QUINEAU, Raymond. Premières Confrontations Avec Hegel, 694-700. A lista é citada por Vincent Descombes em DESCOMBES, Vincent. Modern French Philosophy, p. 10n.
[7] Trata-se de uma entrevista da esposa de Jean Hyppolite como consta em HECKMAN, John. Introduction in: HYPPOLITE, Jean. Genesis and the structure of Hegel’s Phenomenology of Spirit, p. xxiii.
[8] Isto curiosamente joga uma luz sobre o juízo de Kline: “Durante o final da década de trinta, Jean Hyppolite, influenciado por Kojève, começou a publicar artigos sobre Hegel e a Fenomenologia; seu comentário ‘fundamenta-se livremente tanto em Wahl quanto em Kojève’ […]”. In: KLINE, Georg L. The Existentialist Rediscovery of Hegel and Marx, p. 120.
[9] As glosas foram republicadas por Quineau como primeiro capítulo da sua coleção dos escritos de Kojève com o título “À guisa de introdução”. Ela está incluída na tradução (parcial) inglesa (ver nota 3 acima), também como primeiro capítulo. (O leitor deve notar que os termos alemães Mensch ou Mesnch não possuem gênero específico, muito embora seja encontrar um outro equivalente no inglês que não seja man ou men). // Nota do tradutor: está presente também na edição em português. KOJÈVE, Alexandre. Introdução à Leitura de Hegel, pp. 11-34. //
[10] // Nota modificada pelo tradutor (fiz questão de buscar as versões traduzidas do texto e colocar os trechos que Arthur tem em mente): Por exemplo, “Em 1844, Marx aprofundou os conceitos básicos de sua própria teoria através de uma análise crítica da Fenomenologia do Espírito de Hegel. Ele descreveu a “alienação” do trabalho nos termos da discussão hegeliana sobre a condição do senhor e do escravo” in: MARCUSE, Herbert. Razão e revolução, p. 115-116.; STRUIK, Dirk J. Introduction. In: MARX, Karl. Economic and philosophic Manuscripts of 1844, p. 34; “Marx sentiu que possuía autoridades de peso científico como pano de fundo em sua elaboração. O hegelianismo era o guia principal e parece que, neste momento, ele tinha em mente a seção da Fenomenologia na qual Hegel trata da dualização do espírito em ‘Senhor e Escravo’ […]” in: TUCKER, Robert C. Philosophy and Mytht in Karl Marx, p. 147; “Muito inteligentemente, em seus Manuscritos, Marx explorou a dialética hegeliana do Senhor e do Escravo [….] in: DESAN, Wilfred. The marxism of Jean-Paul Sartre, p. 34; “A ironia presente na dialética do senhor-escravo de Hegel reside na sua ideia de que é o escravo quem guia a humanidade a um nível maior de autorrealização, noção da qual Marx é profundamente tributário no desenvolvimento do seu conceito de proletário como emancipador da humanidade […]” in: POSTER, Mark. Existential Marxism in postwar France, p. 13-16. Depois dessa passagem, que ocorre na página 13, Poster desenvolve até a página 16 a mesma interpretação; “Uma apropriação crítica da dialética hegeliana do Senhor e do Escravo levou Marx à elaboração de um conceito de homem que […] transcende o escopo da antropologia contemplativamente limitada de Feuerbach.” in: HANFI, Zawar. Introduction. In: FEUERBACH, Ludwig. The Fiery Brook, p. 42; “De longe este é o ponto mais importante que emerge na seção “Senhor e Escravo”, pois de fato é um ponto de virada nesta seção e na Fenomenologia como um todo […] Isto exerceu uma grande influência sobre Marx […]” e “Claramente esta visão acerca do trabalho não-alienado e do reconhecimento universal deve ter exercido uma grande influência nos escritos juvenis de Marx, não menos do que a famosa seção do “Senhor e Escravo” […]” in: NORMAN, Richard J. Hegel’s Phenomenology, p. 53 e p. 73;“Um ponto importante a se notar seria a característica do tratamento moderno fornecido por Hegel ao famoso cenário da ‘Escravidão e da Servitude’, a abordagem da libertação através do trabalho influenciou tão profundamente o jovem Marx em seus Manuscritos de 1844” in: KELLY, Georg Armstrong. Hegel’s Retreat from Eleusis, p. 30; ISRAEL, Joachim. The Language of Dialectic and the Dialectics of Language, p. 122; “Como é amplamente reconhecido, Marx seguiu como linha de interpretação com referência em particular à relação senhor-escravo […]” in: PETRY, Michael John. Introduction. In: HEGEL, George W. F. The Berlin Phenomenology, p. lxxxix.
[11] Ver a nota acima. // Nota do tradutor: na tradução brasileira do texto de Marcuse, o termo utilizado é “escravo”, mas na citação de Arthur aparece “servo” //
[12] MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos, p. 263 // Nota do tradutor: Provavelmente Arthur tem em mente o fato de que aqui Marx menciona as seções “consciência infeliz”, “consciência honrada” e “consciência nobre e vil” //
[13] A ponderação sobre o uso desta terminologia é justificada na medida em que tomamos consciência da distinção traçada por Hegel entre der Sklave e der Knecht em suas aulas em Berlim sobre Herrschaft und Knechtschaft. Ver, por exemplo: HEGEL, George W. F. Hegel’s Philosophy of Subjective Spirit, § 357, p. 342-43 e HEGEL, George W. F. The Berlin Phenomenology, § 435, p. 86-89.
[14] Respectivamente na tradução brasileira: 1. § 195: “a consciência aí é para ela mesma, mas não é o ser-para-si; porém, encontra-se a si mesma por meio do trabalho”; 2. § 195: “A relação negativa para com o objeto torna-se a forma do mesmo e algo permanente […]”; 3. § 195: “[…] chega assim à intuição do ser independente, como [intuição] de si mesma […]”; 4. Esta passagem do § 196 é reproduzida fielmente tal como está na tradução brasileira; 5. § 196 “[…] Assim, precisamente no trabalho, onde parecia ser apenas um sentido alheio, a consciência, mediante esse reencontrar-se de si por si mesma, vem-a-ser sentido próprio […]” in: HEGEL, George W. F. Fenomenologia do Espírito, p. 149-150.
[15] HEGEL, George W. F. Fenomenologia do Espírito, § 195, p. 149.
[16] HEGEL, George W. F. Fenomenologia do Espírito, § 195, p. 149.
[17] HEGEL, George W. F. Fenomenologia do Espírito, § 196, p. 150-151.
[18] Isto está exposto de maneira mais clara em HEGEL, George W. F. Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Compêndio, § 434 e § 435, p. 205-6.
[19] MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos, pp. 263-264.
[20] MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos, p. 264.
[21] Talvez David McLellan tenha sido o único a notar isso; ele também lembra que Marx não faz nenhuma alusão à seção “Senhor-Escravo”. Ver McLELLAN, David. Marx before marxism, p. 197.
[22] MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos, p. 264. trad. modif.
[23] HEGEL, George W. F. Fenomenologia do Espírito, § 788, p. 517. // Nota do tradutor: algumas modificações foram feitas: (a) o tempo verbal de “superou” e “recuperou”; (b) substitui “extrusão” por “alienação”; (c) substitui “suprassumir” por “superar” //
[24] HEGEL, George W. F. Fenomenologia do Espírito, § 19, p. 33.
[25] Este ponto é sublinhado por Phil Slater em um breve artigo não-publicado apresentado no contexto das polêmicas contra a confusão feita por Marcuse, em sua obra juvenil, sobre a “objetificação” em Hegel e Marx, a saber, “Objetification, alienation and labour: Notes on Hegel, Marx and Marcuse” (1980).
[26] Jonathan Rée chamou minha atenção para o fato de que Hegel realmente não está discutindo a individualidade aqui e a fortiori nem mesmo relações sociais. Por isso que não há discussão acerca das relações de senhores com senhores e das dos servos com servos. Aqui a preocupação diz respeito apenas à consciência em geral diante dos objetos.
[27] HEGEL, George W. F. Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Compêndio, § 434 e § 435, p. 205. Diferentemente, na Fenomenologia Hegel diz o seguinte: “[…] embora o temor do senhor seja, sem dúvida, o início da sabedoria, a consciência aí é para ela mesma, mas não é o ser-para-si; porém encontra-se a si mesma por meio do trabalho” e, na página seguinte, continua: “Para que haja tal reflexão são necessários os dois momentos; o momento do medo e do serviço em geral, e também o momento do formar […]” in: HEGEL, George W. F. Fenomenologia do Espírito, § 195 e § 196, p. 149 e p. 150. // Nota do tradutor: optei por traduzir “needs” por “carências”, o que resulta diferente da tradução de Paulo Meneses da Enciclopédia //.
[28] Norman é perpiscaz em notar a ausência do “final feliz” para o servo e o progresso da dialética. Ver NORMAN, Richard J. Hegel’s Phenomenology, p. 46-66. Ver também KOJÈVE, Alexandre. Introdução à leitura de Hegel, p. 157-252.
[29] “[…] seu agir é livre, no trono como nas cadeiras” in: HEGEL, George W. F. Fenomenologia do Espírito, § 199, p. 153.
[30] Ernest Mandel sugere que, para Hegel, o trabalho material é alienante “porque o trabalho é, por sua natureza, exteriorização (Veräusserung) de uma capacidade humana, que faz com que o homem perca alguma coisa que lhe pertencia antes” in: MANDEL, Ernest. A Formação do Pensamento Econômico de Karl Marx, p. 160. Mandel parece ter em mente o § 67 das Linhas fundamentais da Filosofia do Direito de Hegel no qual a Veräusserung (= alienação no sentido de venda) das forças humanas é abordada. Se assim for, então trata-se de um completo mal-entendido acerca do texto hegeliano. A léguas da posição que postula que o trabalho “por sua natureza” diz respeito à alienação, Hegel, nas Linhas fundamentais da Filosofia do Direito § 56, atribui ao “dar forma às coisas” um papel na efetivação da liberdade. Seja como for, para Hegel, a liberdade humana torna-se mais efetiva no processo de alienação das coisas por meio dos contratos. No momento em que ele encara o problema de que a liberdade da alienação é utilizada para vender capacidades humanas – habilidades físicas e mentais inerentes à pessoa – “somente pela mediação do espírito, que rebaixa o que há de interior […] à exterioridade” in: HEGEL, George W. F. Linhas fundamentais da Filosofia do Direito, Adendo ao § 43, p. 84. Em virtude da restrição temporal à esta alienação no trabalho assalario, a força de trabalho vendida adiciona uma “relação exterior” à substância da personalidade do trabalhador que, apesar disso, permanece um sujeito livre (§ 67). Com isso, fica claro que Hegel não postula que o trabalho “por sua natureza” de “exteriorização” é alienante; ao contrário, Hegel diz que são as mediações sociais complexas que alienam, colocando o trabalho em uma relação externa (artificial) com a pessoa. (Para um tratamento completo deste tema ver o meu ARHTUR, Christopher J. Personality and the Dialectic of Labour and Property: Locke, Hegel, Marx. Radical Philosophy, v. 26, autumn-1980. p. 3-15).
[31] MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos, p. 263.
[32] Ver a seção “A “alienação” como conceito filosófico central de Fenomenologia do espírito” In: LUKÁCS, György. O jovem Hegel, p. 687-724. A propósito, Lukács não relaciona os Manuscritos de 1844 de Marx com a relação “Senhor-Escravo”.
[33] Da mesma maneira diz Marx: “O estranhamento (Entfremdung), que forma, portanto, o interesse próprio dessa alienação (Entäusserung) […]” in: MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos, p. 261.
[34] MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos, p. 264.
[35] MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos, p. 262.
[36] Lukács foi o primeiro a interpretar dessa maneira em seu O Jovem Hegel, p. 705. Para uma defesa de Hegel, neste ponto, ver seção “Alienação e o fim da história” de Alienation and Objetification: Commentary on G. Lukács’ The Young Hegel presente em HYPPOLITE, Jean. Studies on Marx and Hegel, p. 86-90.
[37] HEGEL, Georg W. F. Fenomenologia do Espírito, § 788, p. 517 e MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos, p. 278-279.
[38] MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos, p. 275.
[39] Este parágrafo é uma versão sumarizada de um argumento desenvolvido ao longo do meu texto ARTHUR, Christopher. Objectification and Alienation in Hegel and Marx. Radical Philosophy, v. 30., spring-1982 // ARTHUR, Christopher. Objetivação e Alienação em Hegel e Marx. Trad. Felipe Taufer. Dissonância – Revista de Teoria Crítica, v. 5, 2021.