Podemos ler (com) Hegel? — Catherine Malabou

A) Por uma hermenêutica especulativa

À luz das conclusões precedentes, o “olhar para trás” que a filosofia “faz” sobre “seu [próprio] conhecimento” não se apresenta como uma contemplação passiva, mas como um ato de leitura. Por não ter autor, o Sistema necessariamente tem intérpretes. O saber absoluto engaja o pensamento no movimento de uma hermenêutica especulativa com modalidades inéditas. Segundo Hegel, não há apreensão imediata do absoluto nem, consequentemente, transparência imediata do significado para si. O advento do saber absoluto pressupõe que as condições discursivas tanto para seu anúncio quanto para sua recepção sejam produzidas.

Essa operação de moldagem, que requer uma linguagem, um tipo de enunciado e uma disciplina de leitura, é responsabilidade do filósofo. De fato, o Si mesmo, ou sujeito absoluto, da filosofia permaneceria informe sem a subjetividade filosófica particular que o incorpora em um estilo. Em troca, a subjetividade filosófica recebe apenas sua própria forma do sujeito absoluto. A hermenêutica especulativa deve então surgir como uma doação mútua de forma do Si mesmo para o si.

O projeto para essa hermenêutica surge no prefácio à Fenomenologia do espírito, no momento em que Hegel anuncia o que verdadeiramente constitui o futuro da filosofia: a transição da proposição predicativa para a proposição especulativa:

A exposição filosófica adquirirá valor plástico somente quando excluir rigorosamente o tipo de relação ordinária entre as partes de uma proposição.

Ora, essa “exclusão” compromete expressamente o sujeito leitor da proposição. De fato, Hegel desenvolve sua análise da proposição especulativa se pondo no ponto de vista de seu destinatário, ou seja, seu leitor. É esse último que vivencia o conflito entre a forma e o conteúdo da proposição. É também ele quem deve “presentar” o “retorno do conceito a si mesmo”. A partir de então, a plasticidade do significado é inseparável de uma plasticidade da leitura que molda o enunciado à medida que é recebido. A passagem do predicativo para o especulativo determina uma nova modalidade de decisão filosófica, a da liberdade e responsabilidade da interpretação.

B) Objeções

Qual pode ser, se perguntará, o estatuto da subjetividade interpretativa se, como as análises precedentes estabeleceram, o Eu foi descartado? O Si mesmo, em seu anonimato e automatismo, não ameaça reduzir a nada toda iniciativa exegética individual? Não é possível ver, continuará, como o filósofo poderia sobreviver à precipitação especulativa da filosofia (precipitação entendida no duplo sentido de pressa e de “imprudente”). Qual poderia ser a tarefa do filósofo a partir do momento

em que o desdobramento do conteúdo especulativo se resume, diante de seus olhos, em determinações simplificadas? À primeira vista, o saber absoluto impõe ao filósofo uma economia restritiva, que, por sua vez, se impõe ao pensamento como um princípio de menor importância: o filósofo não se reduz ao seu aparato mais simples?

“Uma língua”, dissemos há pouco. Segundo Hegel, o filósofo deve pensar em sua língua, o único material para o trabalho filosófico, e abandonar todos os adornos da linguagem técnica:

A filosofia não precisa, em geral, de nenhuma terminologia específica; certamente necessita tomar emprestadas algumas palavras de línguas estrangeiras, mas essas, no entanto, adquiriram, pelo uso, uma carta de cidadania — um purismo afetado seria, no mínimo, deslocado aí, onde, da maneira mais decisiva, é a Coisa que importa.

Mas o que é uma hermenêutica sem a possibilidade de invenção conceitual?

“Um tipo de enunciado”, continuamos. Segundo Hegel, a substituição dialética da proposição predicativa só pode ocorrer na própria forma proposicional. Ela ocorre, como afirma a Ciência da lógica da Enciclopédia, “em relação à forma”. A transição de uma forma — predicativa — para outra — especulativa — não requer, então, outra linha além daquela da proposição.

Mas o que é uma hermenêutica que não seja capaz de produzir uma forma?

“Uma disciplina da leitura”, enfim. Hegel insiste, particularmente no prefácio à Fenomenologia do espírito, na necessidade de o filósofo “renunciar às suas incursões pessoais no ritmo imanente do conceito”.

Mas o que é uma hermenêutica sem ousadia? Pode a leitura ser uma simples repetição sem invenção? A objeção inicial retorna.

À primeira vista, resta pouco para o filósofo fazer, limitado a explorar os recursos do que já conhece. A língua natural e a proposição constituem o domínio ordinário da filosofia, do qual não fica claro que novidades ela pode conter.

C) A resposta de Hegel

Ao declarar que “as formas de pensamento emergem e são primeiramente depositadas na linguagem do homem”, Hegel descreve esse depósito natural como uma inscrição sem origem, sob a forma de queda, um dom que perdura. Niederlegen significa em alemão “depositar”, “colocar no papel”, mas também “alguém dispensa em”. A partir de então, ao trabalhar com a língua natural, o filósofo trabalha em um novo espaço e tempo: o dos estoques do espírito na linguagem.

O pensamento especulativo não se limita apenas ao léxico. A sintaxe também é fundamental para a linguagem; ela marca o registro de uma lógica elementar. Nos Textos pedagógicos, Hegel declara que as categorias lógicas são, em sua forma imediata, o “conteúdo da gramática”. Elas constituem “as letras singulares e, a bem da verdade, as vogais do reino espiritual” e, na medida em que contêm “as categorias e produções elementares do entendimento”, inauguram a “cultura lógica”. Nessa perspectiva, trabalhar a relação entre sujeito e predicado significa, para o filósofo, explorar a relação temporal da proposição filosófica em sua origem gramatical.

Eduardo Galeno

Formado em Letras pela Universidade Estadual do Piauí e estuda retórica, poética e semiótica

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *