[Tradução de Eduardo Galeno da primeira seção do capítulo IV da terceira parte de L’avenir de Hegel: plasticité, temporalité, dialectique, da autoria original de Catherine Malabou. Notas do tradutor].
Podemos ler (com) Hegel?
A) Por uma hermenêutica especulativa
À luz das conclusões precedentes, o “olhar para trás” que a filosofia “faz” sobre “seu [próprio] conhecimento” não se apresenta como uma contemplação passiva, mas como um ato de leitura. Por não ter autor, o Sistema necessariamente tem intérpretes. O saber absoluto engaja o pensamento no movimento de uma hermenêutica especulativa com modalidades inéditas. Segundo Hegel, não há apreensão imediata do absoluto nem, consequentemente, transparência imediata do significado para si. O advento do saber absoluto pressupõe que as condições discursivas tanto para seu anúncio quanto para sua recepção sejam produzidas.
Essa operação de moldagem, que requer uma língua, um tipo de enunciado e uma disciplina de leitura, é responsabilidade do filósofo. Com efeito, o Si mesmo, ou sujeito absoluto, da filosofia permaneceria informe sem a subjetividade filosófica particular que o incorpora em um estilo. Em troca, a subjetividade filosófica recebe apenas sua própria forma do sujeito absoluto. A hermenêutica especulativa deve então surgir como uma doação mútua de forma do Si mesmo para o si1.
O projeto para essa hermenêutica surge no prefácio à Fenomenologia do espírito, no momento em que Hegel anuncia o que verdadeiramente constitui o futuro da filosofia: a transição da proposição predicativa para a proposição especulativa:
A exposição filosófica (philosophische Exposition) adquirirá valor plástico (würde es erreichen, plastisch zu sein) somente quando excluir rigorosamente (strenge… ausschlösse) o tipo de relação ordinária entre as partes de uma proposição.
Ora, essa “exclusão” compromete expressamente o sujeito leitor da proposição. De fato, Hegel desenvolve sua análise da proposição especulativa se pondo no ponto de vista de seu destinatário, ou seja, seu leitor. É esse último que vivencia o conflito entre a forma e o conteúdo da proposição. É também ele quem deve “presentar” (darstellen)o “retorno do conceito a si mesmo” (das Zurückgehen des Begriffs in sich). A partir de então, a plasticidade do significado é inseparável de uma plasticidade da leitura que molda o enunciado à medida que é recebido2. A passagem do predicativo para o especulativo determina uma nova modalidade de decisão filosófica, a da liberdade e responsabilidade da interpretação.
B) Objeções
Qual pode ser, se perguntará, o estatuto da subjetividade interpretativa se, como as análises precedentes estabeleceram, o Eu foi descartado? O Si mesmo, em seu anonimato e automatismo, não ameaça reduzir a nada toda iniciativa exegética individual? Não é possível ver como o filósofo poderia sobreviver à precipitação especulativa da filosofia (precipitação entendida no duplo sentido de pressa e de “imprudente”). Qual poderia ser a tarefa do filósofo a partir do momento em que o desdobramento do conteúdo especulativo se resume, diante de seus olhos, em determinações simplificadas? Num primeiro lance, o saber absoluto impõe ao filósofo uma economia restritiva que, por sua vez, se impõe ao pensamento como um princípio de alcance castrado: a filosofia aqui não se encontra reduzida ao seu aparato mínimo?3
“Uma língua”, dissemos há pouco. Segundo Hegel, o filósofo deve pensar em sua língua, o único material para o trabalho filosófico, e abandonar todos os adornos da língua técnica (Kunstsprache):
A filosofia não precisa, em geral, de nenhuma terminologia específica; certamente necessita tomar emprestadas algumas palavras de línguas estrangeiras, mas essas, no entanto, adquiriram, pelo uso, uma carta de cidadania — um purismo afetado seria, no mínimo, deslocado aí, onde, da maneira mais decisiva, é a Coisa que importa.
Mas o que é uma hermenêutica sem a possibilidade de invenção conceitual?
“Um tipo de enunciado”, continuamos. Segundo Hegel, a substituição dialética da proposição predicativa só pode ocorrer na própria forma proposicional. Ela ocorre, como afirma a Ciência da lógica da Enciclopédia, “em relação à forma” (an der Form). A transição de uma forma — predicativa — para outra — especulativa — não requer, então, outra linha além daquela da proposição.
Mas o que é uma hermenêutica que não é capaz de produzir outra figura?
“Uma disciplina de leitura”, enfim. Hegel insiste, particularmente no prefácio à Fenomenologia do espírito, na necessidade de o filósofo “renunciar às suas incursões pessoais no ritmo imanente do conceito”.
Mas o que é uma hermenêutica se não é ousada? Pode a leitura ser uma mera repetição? A objeção inicial retorna.
À primeira vista, resta pouco para o filósofo fazer, limitado a explorar os recursos do que já conhece. A língua natural e a proposição constituem o domínio ordinário da filosofia, do qual não fica claro que novidades ela pode conter.
C) A resposta de Hegel
Ao declarar que “as formas de pensamento emergem (heraus gesetzt sind) e são primeiramente depositadas (niedergelegt) na linguagem do homem”4, Hegel descreve esse depósito natural como uma inscrição sem origem, sob a forma de queda, um dom que perdura. Niederlegen significa em alemão “depositar”, “colocar no papel”, mas também “alguém dispensa em”5. A partir de então, quando trabalha com a língua natural, o filósofo fabrica em um novo espaço e tempo: o dos estoques do espírito na linguagem.
O pensamento especulativo não se limita apenas ao léxico. A sintaxe também é fundamental para a língua; ela marca o registro de uma lógica elementar. Nos Textos pedagógicos, Hegel declara que as categorias lógicas são, em sua vida imediata, o “conteúdo da gramática”. Elas constituem “as letras singulares e, a bem da verdade, as vogais do reino espiritual” e, na medida em que contêm “as categorias e produções elementares do entendimento”, inauguram a “cultura lógica”. Nessa perspectiva, trabalhar a relação entre sujeito e predicado significa, para o filósofo, explorar a relação temporal da proposição filosófica em sua origem gramatical.
Eduardo Galeno
Formado em Letras pela Universidade Estadual do Piauí e estuda retórica, poética e semiótica
- Passagem dialética que introduz o reconhecimento e a unidade pura. ↩︎
- Isso explica basicamente a entrada da disciplina hermenêutica no lugar da arte retórica, que cumpria o papel de ciência do significado antes do Sturm und Drang. ↩︎
- O contexto da pergunta é que esse simples se refere ao momento do foco subjetivista. Melhor dizendo: solipsista. ↩︎
- No segundo parágrafo do prefácio à Ciência da lógica (1831), Hegel escancara a sua posição que nomeia o hábito do lógico, a naturalidade com que as determinações do pensamento são feitas, principalmente, segundo ele, na língua alemã (que possui a riqueza de verbos e substantivos). Ou seja: como diz a citação que desmotiva os adornos técnicos, a filosofia está na língua. ↩︎
- O próprio Hegel, novamente no prefácio da Ciência da lógica, fala do duplo na língua alemã que “pode proporcionar uma alegria ao pensar embater em tais palavras e achar já a unificação de opostos, […] o que é resultado da especulação…”, provando justo o ponto da plasticidade que Malabou toca no seu projeto. Niederlegen surge tanto no registro (positivo) quanto na renúncia (negativo): a língua é um estoque que pressupõe demanda. Ganhos e perdas são inerentes no movimento. ↩︎