A acrobacia de Thomas Mann: Sobre ‘O Escândalo da Distância’, de João Pedro Cachopo — Victor Hugo Amaro

I.

Theodor Adorno, em uma das passagens que cita a obra de Thomas Mann em sua Teoria Estética, designa por Künststück como um dos segredos da obra de arte1. O termo, que pode tanto significar simploriamente peça (de arte, ou de teatro), mas também truque, façanha ou até mesmo acrobacia, resulta da conjunção dos termos Kunst [arte] e stück [peça, pedaço], e seus múltiplos significados possíveis podem ter sido propositadamente escolhidos pelo frankfurtiano para tratar do segredo das obras de arte, de seu truque enigmático. O filósofo cita logo após essa passagem que, para Thomas Mann, a arte seria uma farsa do mais alto nível2, trazendo assim uma interpretação sobre como o ato de circo do equilibrista, na sua tentativa de vencer a gravidade, se torna o emblema do enigma da arte. Recusando a ideia de que a arte circense poderia estar em algum dos pares de uma ‘essência originária’ da obra de arte; ou como representante de algum tipo de degeneração da ‘arte elevada’, tal segredo seria na realidade o que as obras entregam no seu fim, mesmo que em silêncio. Assim, o momento ilusório da obra de arte, seu caráter enigmático, faz ver que ela não se constrange com elementos embelezados vistos de imediato, ou profundos de conteúdo que seriam apenas percebidos a posteriori, mas sim, no momento paradoxal de seu tour de force, conjecturados por Adorno na forma monstruosa de uma bailarina de circo sendo erguida por diversos elefantes de pé apenas pelas patas traseiras3, alegoria basilar do engano encantador da arte – que não deixa de ser escandaloso.

Parte desse tour de force, dessa acrobacia circense das obras de arte, está imbricado no trabalho crítico de João Pedro Cachopo sobre Thomas Mann. Fica explícito para o autor de O Escândalo da Distância que o esforço contemporâneo do intérprete de obras do passado, implica em um tensionamento da obra com o próprio presente. Ou seja: não somente nós lemos as obras de arte, elas também nos leem. E, como todo bom intérprete, a palavra final não cabe a ele próprio – e sim é jogada para o próprio leitor e sua configuração, na imagem quase circense do trampolim que sai do passado ao presente:

O Escândalo da Distância, tal como imagino – mas caberá ao leitor apropriar-se do livro como bem entender –, assemelhe-se a um exercício propedêutico: mergulhando numa obra publicada há cem anos, procurar nela um trampolim para se lançar no presente, o nosso presente, este presente de guerra iminente, radicalização política e aceleração tecnológica que nos envolve à beira do segundo quartel do século XXI.4

Uma frase benjaminiana que ilustra os esforços de Cachopo é aquela encontrada em sua Rua de Mão Única: “Crítica é uma questão de correto distanciamento”5. A “boa distância” é, para o nosso crítico lusitano, não somente importante como valor de hipótese, mas também como a orientação da sua mais recente interpretação literária. O teor luckasiano de A alma e as Formas6 reaparece aqui também: achar o destino da Montanha Mágica de Mann, para o nosso presente, parece ser a tarefa fundamental de Cachopo com seu agregado ensaístico de sete capítulos. Portanto, o Escândalo da Distância procura tanto introduzir Thomas Mann, sua vida, algumas de suas obras, e os problemas históricos abrigado em suas formas, ao mesmo tempo que também busca interpretar a obra em questão para o nosso presente, apresentando os temas que ela disserta, sua relação com a música, e a confrontação de suas personagens com as assustadoras novidades tecnológicas do séc. XX. Assim, enquanto a obra é apresentada pelo crítico, de forma aproximativa, seu destino se anuncia: que é o nosso próprio tempo, pois assim como o de Thomas Mann, nós também estamos cercados de “inquietações, decorrentes do espanto provocado pela emergência de certas tecnologias”7. Por esse motivo, Cachopo contorna os extremos entre um “manual de leitura Baedeker8” acadêmico sobre a Montanha Mágica, ou de um livro “prático-político” para o presente, como se almejasse ‘completar’ a formação não concluída de Castorp na militância política dos dias correntes. Uma acrobacia nada fácil de equilibrar9, e é só no seu tour de force que a força da interpretação é garantida.

Prima facie, se parte do grosso de quase cem anos de recepção da obra de Mann estão impregnados de análises alegóricas que perpassam entre a filosofia, a música, do tema da formação [bildung] e mais recentemente da tecnologia, o livro de Cachopo não só se formaliza para além desses sentidos tradicionais de leitura da Montanha Mágica apenas por ele concluir com seu começo – com a hipótese da boa distância, que volta aporeticamente ao leitor –; e muito menos por não entregar a cereja do bolo – o motivo da atualidade da obra – imediatamente para o leitor apressado. O estilo ensaístico de Cachopo permite que cada capítulo não se renda a ser mera nota de rodapé para coroar intepretações estéticas novas sobre a obra centenária de Mann, e muito menos busca a ‘solução mais fácil’ de entregar a suposta atualidade da obra por uma mera analogia histórica do período de transição de crises.

Trata-se de um daqueles livros em que cada capítulo pode ser bem avaliado tanto pelo expert da área de letras, quanto por um curioso que jamais lera literatura alemã, convidando-o para adentrá-la. Mesmo ciente que muito do esforço de seu livro ainda flutuem para a segunda dimensão – reconhecendo que muitas das questões sobre a Montanha Mágica não necessariamente poderão ser respondidas com ferro e fogo –, trata-se de reconhecer que a obra de Thomas Mann pode ser ainda mais lida sob o contexto de hoje. Se traz assim um combinado de citações e excertos da obra em questão, quanto também de comentários de especialistas e reflexão presentificada, se entrelaçando de forma fluída – como num passe de mágica. Entretanto, é justamente na transição do quarto para o quinto capítulo do Escândalo da Distância, que encontramos um dos momentos mais importantes da interpretação proposta pelo autor: do gesto de passar do período da obra de Mann para o nosso tempo, seguindo fielmente aquilo que Adorno dissera em seu “Retrato de Thomas Mann”: “O teor de uma obra começa onde a intenção de um autor termina”10. Essa citação é trazida por Cachopo precisamente no turning point de seu livro – ou se preferir, na sua descida da montanha: do passado para o presente, a partir da recepção inquietante de Mann sobre a tecnologia no começo do séc. XX. Como um equilibrista, seu Escândalo da Distância pode não fornecer elementos práticos imediatos nem análises estéticas renovadas para futuros papers, mas é no confronto com esses dois inimigos elegidos por Cachopo – o militante e o esteta – que quem sabe, pode-se trazer o elemento formal que Adorno implica nas obras de arte: da acrobacia circense de não entregar o segredo do ato sem ao menos dar ao destinatário o doce prazer do enigma.

II.

Muitas edições da Montanha Mágica, estampadas pelo Homem no mar de Nevóas de Caspar Frieridch – ironizadas por Cachopo em seu Escandâlo da Distância11 — são ao mesmo tempo ilustrativas e ilusórias. Ilustrativas: pois falam sobre aquela velha possibilidade dos benefícios da distância do solo social, da sujeira do mundo, objetivadas no livro de Mann pela distância que o sanatório nos alpes suíços fornece às personagens. Ilusórias: pois não se deve supor, como tradicionalmente ocorreu em determinadas interpretações que relacionam o livro de Thomas Mann como romance de formação [Bildungsroman], que tal distância na montanha é necessariamente proveitosa ou benéfica em algum sentido. Eis o motivo: a problemática de pensar os sete anos de Hans Castorp no sanatório como algum tipo de ‘formação’ ou ‘reconciliação’ é no mínimo problematizável, pois o personagem não retorna a planície por escolha própria, mas a chamado do próprio espírito objetivo de seu tempo: da guerra em si. A suposta formação é, assim, inconclusa. Talvez, menos pela incompetência de Castorp, mas talvez devido ao próprio tempo em que ele está inserido. Nesse sentido, a Montanha Mágica é um excelente retrato de como as causalidades da vida e a escolha individual do sujeito são repensadas no contexto catastrófico da 1ª Guerra Mundial.

Por isso Cachopo não declina da consagrada premissa de que o romance possui, de fato, algum teor filosófico – conseguindo mais um motivo para propor o tradicional arranjo entre filosofia e literatura. A razão do arranjo, entretanto, está mais na forma que no conteúdo: no gesto irônico, questionador e negativo na execução formal do romance de Mann. Em um período que a filosofia parece estar cada vez mais inadequada para determinados setores do presente, é justamente a indagação hesitante, inconclusa de Thomas Mann que a torna filosófica para o nosso tempo. Mesmo que se encontre-a em conteúdo na Montanha Mágica, nas discussões fatídicas de Settembrini e Naphta, a ideia de filosofia na obra permanece assentada nos momentos em que ela pergunta, na perplexidade de sua narrativa, que enclausura em sua inconclusão o momento histórico que determinada noção de progresso europeu estava com os dias contados.

A ironia de Mann com respeito à força da distância resulta, portanto, em ambiguidade – tal qual o gesto da interpretação de Cachopo: amar a montanha é como amar ilusoriamente a distância daquele que paira aquém da sociedade. Acima de tudo, se na montanha se vislumbra algum tipo de belo natural, é devido ao fato de que esse belo natural é a história suspensa, devir interrompido, como nos lembra Adorno na sua Teoria Estética12. Algo permanece ainda nas linhas que Felipe Catalani traz sobre a Montanha Mágica: “A magia da montanha mágica é a suspensão dos acontecimentos, a repetição como um feitiço. A montanha é mágica, ou enfeitiçada, de modo que seu tempo seja circular, um tempo não histórico, mas próximo do tempo mítico, um tempo imensurável”13. Estonteante, escandaloso, não se pode jamais deixar passar do fato de que se todo belo natural esconde algo de histórico, também não se pode esquecer que aquele que foge asceticamente da sociedade demonstra a insuficiência da própria formação perante o chamado inescapável da 1ª Guerra Mundial.

No recurso narrativo da Montanha Mágica, que desconfia quase que passivamente de tudo à sua volta, retraçou-se o imbricamento de dilatação entre a experiência do personagem e o conteúdo do romance14. Por isso, Cachopo afirma: é necessário descer da Montanha, e achar a boa distância. Trata-se de uma posição sem contemplação, longe do esteta, mas também do militante, talvez até uma posição negativa: antes de praticar a mudança, deve-se reconhecer a hora certa de tomar a posição.

Ainda sobre a ironia de Thomas Mann n’A Montanha Mágica, Luciano Gatti15 recorda que esse recurso literário é ambíguo na obra em questão, cambaleante, sendo historicamente recepcionado de formas diversas em sua obra – tanto como elogio à quebra da forma, no caso de Adorno, ou pela crítica severa do recurso da ironia, como fuga do processo histórico, visto em Heiner Müller. Ao olharmos os momentos em que Cachopo se posiciona16 diante da ironia da obra em si, ela se torna reveladora da indecisão do próprio personagem – para não dizer que é também do próprio Mann, personagem principal do Escândalo da Distância17. Nesse sentido, a mudança radical que ocorre no escritor Thomas Mann nos doze anos que correm a elaboração de sua obra, se refletem nas suas mudanças de posições políticas, e na incerteza de que aqueles tantos personagens que pairam sobre os alpes suíços podem, de fato, trazer alguma solução perante a torção dos sentidos que ele vislumbrou em sua época.

O segredo da atualidade da obra, e da sua mordaz ironia, está para Cachopo no tensionamento sobre o problema da tecnologia no livro de Thomas Mann. Sendo tal segredo uma continuação direta das reflexões de seu Torção dos Sentidos de 2020 – que em dada medida já tratava da distância dissonante ocasionado pelo isolamento social, tecnologicamente mediado, promovido pela pandemia do Covid-19 –, seus escritos sobre o período pandêmico têm como um de seus maiores trunfos não somente a recusa da posição filosófica de que a pandemia era o acontecimento, como Zizek desejou – fazendo a história ficar ao seu lado – mas também por já se ensejar nela a busca da boa distância18, no específico caso do amor nos tempos de isolamento social. Mas, acima de tudo, Cachopo defendeu também a possibilidade da filosofia em tempos de Pandemia. A aposta, feita cinco anos atrás, da força distanciada da filosofia no mundo pandêmico, ressurge dobrada aqui, no ceticismo de Thomas Mann sobre os avanços incessantes da ciência de seu tempo: a ausência de respostas de seu romance, que bem poderiam ser conjecturadas como quietistas, surgem como soluções para um tempo de extremismo político, avanço tecnológico incessante e crise social, tensões que parecem jogar nossas respostas prontas para elas diretamente na lata do lixo.

Assim, é na dúvida aporética de Mann, acolhida por Cachopo, que se encontra precisamente o tensionamento quasi-musical que fomenta as possibilidades de a “boa distância” serem frutíferas. As qualidades ambivalentes e experimentais do equilibrista Thomas Mann permanecem, nesse sentido, fundamentais para O Escândalo da Distância, até mesmo no poderoso argumento da atualidade d’A Montanha Mágica, centrado na sua recepção impactante da torção dos sentidos que a fotografia, o gramafone e a radiografia trazem ao sujeito19 do início do séc. XX:

É assim, de forma experimental e ambivalente, que A Montanha Mágica acolhe a tecnologia. Resiste-lhe e abraça-a; abraça-a e resiste-lhe. Encarnando o entusiasta e o céptico, o narrador – demasiado sóbrio para cantar loas aos prodígios do progresso inexorável, demasiado audaz para se esconder na poeira de arquivos e bibliotecas – esquiva-se de ambos.20

Melhor exemplo daquela liberdade Rastelliana21 que tal esquiva experimental da tecnologia implica, talvez não haja. Assim como Thomas Mann não era ele mesmo um entusiasta da morte em si, mas sim tratava-a de mantê-la e bani-la ao mesmo tempo como elemento de sua pessoa e de seus trabalhos, talvez a recomendação de boa distância na obra de Mann seja um atestado de formalizar o gesto estético como gesto filosófico. Nesse sentido, a boa distância de Cachopo não é sequer comparável ao “meio termo” aristotélico: talvez, ela se equivalha ao encolhimento da distância, afastamento de uma lonjura contemplativa que não cabe num presente catastrófico.

Da união tão desejada entre arte e vida, personificada no malabarista que nada precisa justificar-se sobre suas piruetas perante o público, ilustra-se o procedimento para encarar as idas e vindas de entusiasmos, frustrações e ameaças de um período histórico sem regras previamente dadas para o atravessar: de forma absolutamente concentrada e tenaz, mas, ao mesmo tempo, enigmática. É na preservação deste enigma que os esforços da distância filosoficamente orientada de Cachopo juram prestar contas ao presente.

III.

A tese do Escândalo da Distância, na sua defesa da boa distância, pode ser vista como algum tipo de “temperança” em relação aos problemas sociais que enfrentamos no séc. XXI, ou mesmo como “fuga do processo histórico”, ou até como “ausência de tomada de posição”. Mas o segredo de tal postura se encontra precisamente na força do equilibrista, que sabe muito bem da impossibilidade de vencer a gravidade em termos convencionais. Tal qual o amor na Torção dos Sentidos, não há nenhuma fórmula apriori capaz de resolver a mediação tecnológica dos nossos tempos. Ficar enfurnado na biblioteca ou cantar os louros da vitória do progresso são falsas alternativas. Na dúvida aporética, na ironia mordaz, há a possibilidade de contornar o convencionalismo de achar nos manuais alguma alternativa para o problema, e se possibilita uma reflexão que se posiciona com suspeita sobre o seu próprio tempo.

Nesse sentido, não é gratuito que uma das obras mais autobiográficas de Thomas Mann seja chamada O Palhaço. E nem um pouco que seu apelido nos ciclos familiares mais íntimos era de “O mágico”. E no próprio título do livro: Zauberberg, onde zauber implícita não apenas ‘magia’, mas também encantamento, feitiço. Parte do retrato de Adorno sobre Mann revela a ambiguidade de caráter que “O mágico” em si trazia, com uma proximidade ímpar: não lhe faria justiça reconhecê-lo como um “decadente” como os manuais incitavam, e muito menos como alguém cercado de vaidade. Mann estava “à serviço da ilusão”. Ora seus olhos eram azuis ou cinza- azulados, ora eram escuros e brasileiros. Vivia-se cambaleando entre extremos. Um mestre cheio de truques. Entretanto, o ponto de Adorno mais especial em seu retrato é de afastá-lo do amor à morte e da decadência – chegando até mesmo a afastá-lo de Wagner. O frankfurtiano pinta Thomas Mann quase como um nietzscheano brincante, um Pierrot caçoador que oscila entre extremos, sem necessariamente chamá-lo dessa forma. Nos termos de Foucault sobre Nietzsche – que também se aplicam para Marx e Freud –, um mestre da suspeita.

Se o próprio termo “crise” se torna caduco perante seu estatuto quase que perpétuo nos dias que correm, nada mais justo que um livro dos entreguerras para explicitar nosso momento no relógio do mundo, de nossa atual “festa universal da morte”. Afinal, a própria Montanha Mágica termina com esse chamado. Mas Cachopo não pretende ser catastrófico, pelo contrário: o que ele chama atenção é a mudança de posição de um autor que escreveu em prol do belicismo em 1914 com seu “Pensamentos na guerra”, para logo depois se arrepender ao ver os horrores da guerra em 1919, e se tornar posteriormente uma das vozes mais oposicionistas ao Fascismo anos depois. Para esse autor mudar de posição, aos olhos de Cachopo, foi necessário a dúvida, o distanciamento, e a possibilidade de rever seu lugar, tornando-as assim não somente características de Castorp e Mann, mas de uma posição renovada de filosofia – valorizada pela metáfora da descida da montanha –, renovação essa que é essencial no nosso momento de tensão social que estamos imersos.

E isso nos remete, novamente, ao Torção dos Sentidos de nosso crítico português. O diagnóstico de que a pandemia modificou nossa sensibilidade em termos profundos avançou de forma preponderante – e parece cada vez mais claro que não calculamos propriamente os danos deste acontecimento. Com o tensionamento extremista na política que só se estendeu após o período pandêmico, como se posicionar diante dessa tendência explosiva? Para Cachopo, achar a boa distância após a catástrofe, como ele escreveu no seu livro de 2020 sobre a pandemia, permite achar um freio de mão num mundo em que o medo é regra:

Importa esquivar-se do medo. E não ceder à chantagem, que é a do medo, de que em tempos de ameaça – em tempos de emergência e catástrofe – não há tempo para pensar. Também aí reside um perigo. E talvez esse seja o maior perigo: ignorar ou esquecer que a vontade de certeza e de segurança a qualquer preço conduz à hipoteca do pensamento e à renúncia a uma vida digna de ser vivida.22

Esquivar do medo – e aqui, podemos transcrever no presente, do medo da tecnologia – é esquivar-se, com a liberdade rastelliana de equilibrista, da tentação de que está tudo acabado. Sim, os pressupostos estão escassos, o medo toma conta, mas ainda há de se viver. Nesse sentido, aquela velha noção de “filosofia filosofante”, de uma filosofia que paira sob o ar com seus pensamentos em cima da montanha, cai por terra:

A filosofia distancia-se. Contudo, este distanciamento não é nem espera no tempo nem recua no espaço. Não é prudência. É busca do melhor ângulo na concomitância e na coincidência com o perigo. A filosofia existe como se o medo não pudesse tanto. Eis o escândalo: distancia-se, com as suas perguntas, suspeitas e hipóteses, como se ainda houvesse tempo para pensar23

Filosofia, nesse específico sentido que Cachopo procura em seu livro de 2020, é executada em 2024 na sua análise sobre a obra literária de Thomas Mann. A boa distância que esta noção implícita é de rever o que está tacitamente aceito no jogo. É pensar de maneira oposta ao seu tempo. “Recuar” para a literatura, nesse sútil gesto, é menos um desvio intelectualizante, e mais uma descida da montanha, da posição filosoficamente tradicional e confortável de planar “dois mil metros acima dos homens” como Nietzsche afirmou sob Sils Maria.

Estamos cegos de proximidade. Estamos encurralados e de frente para o abismo. Não há volta para trás na tendência nefasta que nossas sociedades nos levaram. Mas “resistir à tentação de desistência”, de achar um lugar correto para poder se refletir sobre ela, pode espraiar uma promessa. No fim da Montanha Mágica de Thomas Mann, a promessa não é dada gratuitamente, ela é posta – como o romance e seu narrador sempre implicaram durante a obra – como uma questão girada para o leitor. “Será que também da festa universal da morte, da perniciosa febre que ao nosso redor inflama o céu desta noite chuvosa, surgirá um dia o amor?”. É curioso que, para Cachopo, o termo da “boa distância” na época da pandemia estava justamente atrelado ao amor. O jogo de equilibrista volta mais uma vez, só que naquele momento, Cachopo procurava uma reinvenção no campo do amor, e da coabitação forçada pela pandemia, com a sua característica escrita cambaleante:

Ora juntos (lado a lado, frente a frente ou enlaçados) ora afastados (separados por paredes, ruas ou fronteiras) os amantes procuram sempre a boa distância: a distância que é vertigem antes de ser equilíbrio, a distância que é atrito antes de ser compatibilidade, a distância que é perigo antes de ser conforto. Esta arte da boa distância que é o amor, podendo e querendo libertar-se do senso comum e do bom senso, jamais se confunde com a boa gestão conjugal.24

Se a pandemia poderia “mostrar que o amor é uma arte da aproximação e do distanciamento”, a procura do amor que está implicada no fim do romance de Thomas Mann se completa, finalmente: com a boa distância. De fato, para Mann e Cachopo, tal amor é o momento em que, ao menos alegoricamente, poderíamos manter viva uma salvação, mesmo na cruzada com a morte, como o capítulo “Neve” da Montanha Mágica revela. É nessa “promessa de amor” – como irá afirmar Cachopo em seu Escândalo da Distância –, enigmática como o próprio ser humano – como irá afirmar Thomas Mann na conferência de Princeton de 1939 – que reside algo que possibilita, pela boa distância, entre o sonho e a catástrofe, uma via de saída. Para alcançá-la, entretanto, não se pode simplesmente amar, e “tudo se resolve”. O truque não funciona assim. Deve-se duvidar das respostas previamente dadas e descer da montanha. Mas não só: achar a boa distância é o segredo da promessa. Portanto, em ambos os casos, para poder realizar a promessa, deve-se dar um passo para trás, e retraçar a rota. Sair da plenitude da montanha é reconhecer as vantagens e desvantagens da distância. Há de se descer dela e achar uma boa posição em tempos de catástrofe. A montanha oferece vantagens, mas é ilusória em sua suspensão do tempo. Quebrar a doce ilusão da montanha, é parte do segredo da farsa de mais alto nível de Thomas Mann. De certa forma, o que Mann e Cachopo poderiam pedir, se não for insolente retraçar Adorno apenas mais uma vez, seria algo como o mote stendhaliano da “Promessa de Felicidade” várias vezes alocado na Teoria Estética, só que em uma variação peculiar: deve-se quebrar a promessa para mantê-la viva25.

Victor Hugo Amaro

  1. ADORNO, T. Teoria Estética. Edições 70, 2008, p.281. ↩︎
  2. Cf. o comentário de Katarzyna Trzeciak: https://www.goethe.de/prj/hum/pt/dos/man/26547003.html ↩︎
  3. ADORNO, T. Ibid, p. 435. ↩︎
  4. CACHOPO, J. P. O escândalo da distância, 2024, p.19. ↩︎
  5. BENJAMIN, W. Rua de Mão Única in: Obras Escolhidas II, Editora Brasiliense, 1987, p.57 ↩︎
  6. “O crítico é aquele que enxerga o destino nas formas, aquele cuja vivência mais forte é o conteúdo anímico que as formas indireta e inconscientemente abrigam em si mesmas. A forma é sua grande vivência, como realidade imediata, é o aspecto pictórico, o que há de realmente vivo em seus escritos.” ↩︎
  7. CACHOPO, J. O escândalo da Distância, Tinta de China, 2024, p.159. ↩︎
  8. O livro A Baedeker Of Decadence de Georg Schoolfield, foi um dos trabalhos do estilo “manual de leitura” que Adorno faz troça em seu Retrato de Thomas Mann ao falar das interpretações acadêmicas simplistas das obras literárias do seu amigo. O termo “Baedeker”, referente aos manuais de viagem europeus escritos por Karl Baedeker no séc. XIX, dá indício de um livro que deseja “ensinar” a conhecer um lugar – ou uma obra literária – ao invés de confiar ao leitor ou ao viajante, a capacidade de interpretá-la. ↩︎
  9. “As obras que são planeadas como tour de force, como ato equilibrista, revelam algo de superior a toda a arte: a realização do impossível.”. in: Adorno, T. Teoria Estética, Edições 70, 2008, p.165. ↩︎
  10. ADORNO, T. Zu einem Porträt Thomas Mann. In: Noten zu Literatur III, Surkhamp Verlag, 1980, p.20. ↩︎
  11. CACHOPO, J. O escândalo da Distância, 2024, Tinta de China, p.40. ↩︎
  12. ADORNO, T. Teoria Estética, Edições 70, 2008, p.165. ↩︎
  13. CATALANI, F. Louvor e crise da transitoriedade: Sobre A montanha mágica de Thomas Mann. In: Revista       Cisma.   Segundo                Semestre               2014.     P.70.       Disponível            em: https://www.academia.edu/10909985/Louvor_e_crise_da_transitoriedade_sobre_A_Montanha_M%C3% A1gica_de_Thomas_Mann ↩︎
  14. CACHOPO, J. O escândalo da Distância, Tinta de China, 2024, p.138. ↩︎
  15. GATTI, L. “A montanha mágica como romance de formação”. In: Viso: Cadernos de estética aplicada, v. VIII, n. 15 (jan-dez/2014), pp. 112-120. DOI: 10.22409/1981-4062/v15i/178 ↩︎
  16. CACHOPO, J, O escândalo da Distância, Tinta de China, 2024, p.102-103 ↩︎
  17. CACHOPO, J, O escândalo da Distância, Tinta de China, 2024, p.41. ↩︎
  18. “A pandemia, nesse sentido, recorda-nos que o amor é uma arte da boa distância. Mas permite-nos também constatar – é o que gostaria de sugerir – que as regras de uma tal arte não estão definidas a priori.” CACHOPO, J. A Torsão dos Sentidos: Pandemia e Remediação digital, Editora Elefante, 2021, p.94. ↩︎
  19. CACHOPO, J. O escândalo da distância, 2024, p.129. ↩︎
  20. CACHOPO, J. O escândalo da Distância, Tinta de China, 2024, p.130. ↩︎
  21. ADORNO, T. Zu einem Porträt Thomas Manns, in: Noten zur Literatur III, Surkhamp, 1980 p.28-29. Adorno aqui está se referindo à Enrico Rastelli, malabarista e artista circense italiano, que virou emblema da liberdade de Thomas Mann ao caçoar da morte nos seus últimos momentos em vida. ↩︎
  22. CACHOPO, J. Torsão dos Sentidos: Pandemia e Remediação digital, Editora Elefante, 2021, p.38. ↩︎
  23. CACHOPO, J. Torsão dos Sentidos: Pandemia e Remediação digital, Editora Elefante, 2021, ibid. ↩︎
  24. CACHOPO, J. A Torsão dos Sentidos: Pandemia e Remediação digital, Editora Elefante, 2021, p.95. ↩︎
  25. ADORNO, T. Teoria Estética. Edições 70, 2008., p. 472 ↩︎

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *