Autor: Caeli

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    A técnica não chega intacta: produzir psicanálise fora do centro – Caeli Corvere

    Este ensaio parte de uma suspeita simples: a técnica psicanalítica não atravessa fronteiras sem ser tocada por elas. Quando deixa os centros históricos que a codificaram e legitimaram, não leva consigo apenas conceitos e procedimentos; encontra outras línguas, outras economias do cuidado, outras instituições e outros modos de organizar tempo, dinheiro, corpo e autoridade. Ferenczi oferece aqui uma primeira chave, ao pensar a elasticidade como rigor sem rigidez; Lacan permite separar direção do tratamento de padronização do dispositivo; Lélia Gonzalez torna impossível supor uma língua neutra; Virgínia Bicudo, Neusa Santos Souza e Isildinha Baptista Nogueira mostram que racialização, corpo e ideal não chegam à clínica como adereços sociológicos; e Paulo Arantes ajuda a pensar o que acontece quando uma tradição importada deixa de ser apenas recebida e começa a produzir problemas próprios. A hipótese que atravessa o texto é que a transmissão não se conserva íntegra — e que talvez seja justamente essa não-integridade, quando sustentada por critérios clínicos e teóricos, uma condição de rigor. Ao final, essa distinção entre função e forma é levada ao problema da neutralidade política: a abstinência clínica não é tomada como obrigação de silêncio diante da fascistização, e a compossibilidade entre psicanálise e política permite defender posições democráticas e de esquerda sem converter a transferência em pedagogia ideológica.