{"id":647,"date":"2020-09-14T11:39:16","date_gmt":"2020-09-14T14:39:16","guid":{"rendered":"https:\/\/tradutoresproletarios.wordpress.com\/?p=647"},"modified":"2021-01-23T05:22:56","modified_gmt":"2021-01-23T05:22:56","slug":"giorgio-agamben-a-musica-suprema-musica-e-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/09\/14\/giorgio-agamben-a-musica-suprema-musica-e-politica\/","title":{"rendered":"A m\u00fasica suprema. M\u00fasica e pol\u00edtica \u2014 Giorgio Agamben"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2020\/09\/bb278798-a3e6-448f-ba5a-9d00bd556f44.jpg?w=748\" alt=\"\" class=\"wp-image-656\" width=\"748\" height=\"600\"\/><figcaption>A musa &#8211; Pablo Picasso (1935). Em exposi\u00e7\u00e3o no Centre Pompidou em Paris.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><li><br><br>A filosofia s\u00f3 se pode dar hoje como reforma da m\u00fasica. Se chamamos m\u00fasica \u00e0 experi\u00eancia da Musa, isto \u00e9, da origem e do ter lugar da palavra, ent\u00e3o em uma certa sociedade e em um certo tempo a m\u00fasica exprime e governa a rela\u00e7\u00e3o que os homens t\u00eam para com o evento da palavra. Esse evento &#8211; isto \u00e9, o arquievento que constitui o homem como ser falante &#8211; n\u00e3o pode ser dito no interior da linguagem: pode somente ser evocado e rememorado musaicamente ou musicalmente. As musas exprimiam na Gr\u00e9cia essa articula\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria do evento de palavra que, advindo, destina-se e se partilha em novas formas ou modalidades, sem que seja poss\u00edvel para o falante remontar-se para al\u00e9m dele. Essa impossibilidade de aceder ao lugar origin\u00e1rio da palavra \u00e9 a m\u00fasica. Nela se expressa qualquer coisa que na linguagem n\u00e3o pode ser dita. Como \u00e9 imediatamente evidente quando se faz ou se escuta m\u00fasica, o canto celebra ou lamenta antes de tudo uma impossibilidade de dizer, a impossibilidade &#8211; dolorosa ou alegre,h\u00ednica ou eleg\u00edaca &#8211; de aceder ao evento de palavra que constitui o homem como humano.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><em>\u05d0<\/em><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O hino \u00e0s Musas, que serve de pro\u00eamio \u00e0 <\/em>Teogonia <em>de Hes\u00edodo<a href=\"#_edn1\"><strong>[i]<\/strong><\/a>, mostra que os poetas est\u00e3o desde h\u00e1 muito tempo conscientes do problema que coloca o in\u00edcio do canto num contexto musaico. A dupla estrutura do pro\u00eamio, que repete duas vezes o ex\u00f3rdio (v.1: &#8220;Pelas Musas helicon\u00edades comecemos a cantar&#8221;; v.36: &#8220;Eia! pelas Musas comecemos&#8230;&#8221;) n\u00e3o \u00e9 devida t\u00e3o somente, como sugeriu de forma aguda Paul Friedl\u00e4nder<a href=\"#_edn2\"><strong>[ii]<\/strong><\/a>, \u00e0 necessidade de introduzir o in\u00e9dito epis\u00f3dio do encontro do poeta com as Musas em uma estruturah\u00ednica tradicional em que isso n\u00e3o era absolutamente previsto. H\u00e1, para essa repeti\u00e7\u00e3o inesperada, uma outra e mais significativa raz\u00e3o, que diz respeito \u00e0 tomada mesma de palavra pela parte do poeta, ou, mais precisamente, \u00e0 posi\u00e7\u00e3o da inst\u00e2ncia enunciativa em um \u00e2mbito em que n\u00e3o \u00e9 claro se ela cabe ao poeta ou \u00e0s Musas. Decisivos s\u00e3o os vv.22-25, em que, como n\u00e3o deixaram de notar os estudiosos, o discurso ultrapassa bruscamente uma narra\u00e7\u00e3o em terceira pessoa para atingir uma inst\u00e2ncia enunciativa que cont\u00e9m o shifter<\/em> <em>&#8220;eu&#8221; (uma primeira vez no acusativo &#8211; <\/em>\u03bc\u03b5 <em>&#8211; e depois, nos versos sucessivos, no dativo &#8211; <\/em>\u03bc\u03bf\u03b9<em>):<\/em><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/em><\/p><p>  <em>Elas (as Musas) um dia (\u03c0\u03bf\u03c4\u03b5) ensinaram a Hes\u00edodo belo canto<\/em><\/p><p><em>&nbsp;&nbsp;quando pastoreava ovelhas ao p\u00e9 do H\u00e9licon divino.<\/em><\/p><p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;Esta palavra primeiro (<strong>&#8230;<\/strong>) disseram-me (<\/em>\u03bc\u03b5)<em> as Deusas<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/em><br><em>Trata-se, segundo todas as evid\u00eancias, de inserir o eu do poeta como sujeito da enuncia\u00e7\u00e3o em um contexto em que o in\u00edcio do canto pertence incontestavelmente \u00e0s Musas e \u00e9, todavia, proferido pelo poeta:<strong>&nbsp; <\/strong>\u041c\u03bf\u03c5\u03c3\u03ac\u03c9\u03bd \u03ac\u03c6\u03c7\u03ce\u03bc\u03b5\u03b8\u03b1<\/em>,<em> &#8220;pelas Musas comecemos&#8221; &#8211; ou, melhor, se se tem em conta a forma m\u00e9dia e n\u00e3o ativa do verbo: &#8220;Das musas \u00e9 o in\u00edcio, pelas Musas iniciemos e sejamos iniciados&#8221;; as Musas, de fato, dizem com vozes aliadas &#8220;o presente, o futuro e o passado&#8221; e &#8220;infatig\u00e1vel flui o som das bocas, suave&#8221; (vv.38-40).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O contraste entre a origem musaica da palavra e a inst\u00e2ncia subjetiva da enuncia\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o mais forte, visto que todo o resto do hino (e do poema inteiro, salvo a retomada enunciativa por parte do poeta em vv.963-965: &#8220;Alegrai agora&#8230;&#8221;) se refere em forma narrativa ao nascimento das Musas de Mnemosine, que se une por nove noites a Zeus, elenca seus nomes &#8211; que, naquele est\u00e1gio, n\u00e3o correspondiam ainda a um g\u00eanero liter\u00e1rio determinado (&#8220;Clio e Euterpe e T\u00e1lia e Melpomene \/ Tersicore e Erato e Polimnia e Urania \/ e Cal\u00edope, a mais ilustre de todas&#8221;<a href=\"#_edn3\"><strong>[iii]<\/strong><\/a>) &#8211; e descreve sua rela\u00e7\u00e3o para com os aedos (vv. 94-97: &#8220;Pelas Musas e pelo golpeante Apolo \/ h\u00e1 cantores e citaristas sobre a terra, \/ [&#8230;] Feliz \u00e9 quem as Musas \/ amam, doce de sua boca flui a voz.&#8221;)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A origem da palavra \u00e9 musaicamente &#8211; isto \u00e9, musicalmente &#8211; determinada e o sujeito falante &#8211; o poeta &#8211; deve a cada vez prestar contas \u00e0 problem\u00e1tica do pr\u00f3prio in\u00edcio. Ainda que a Musa tenha perdido o significado cultural que tinha no mundo antigo, o estatuto da poesia depende ainda hoje do modo pelo qual o poeta sucede em dar forma musical \u00e0 dificuldade de sua tomada de palavra &#8211; de como, isto \u00e9, consegue fazer pr\u00f3pria uma palavra que n\u00e3o lhe pertence e \u00e0 qual se limita a emprestar a voz.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>2.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Musa canta, d\u00e1 ao homem o canto porque simboliza a impossibilidade para o ser falante de se apropriar integralmente da linguagem de que fez sua morada vital. Essa estranheza marca a dist\u00e2ncia que separa o canto humano daquele dos outros seres vivos. H\u00e1 m\u00fasica, o homem n\u00e3o se limita a falar e sente, ao inv\u00e9s disso, a necessidade de cantar porque a linguagem n\u00e3o \u00e9 a sua voz, porque ele habita na linguagem sem poder dela fazer a sua voz. Cantando, o homem celebra e comemora a voz que n\u00e3o tem mais e que, como ensina o mito das cigarras no <em>Fedro<\/em>, poderia reencontrar s\u00f3 a custo de deixar de ser homem e se tornar animal (&#8220;Quando estas [as Musas] vieram ao mundo, e trouxeram a revela\u00e7\u00e3o do canto, alguns homens desse tempo deixaram-se sugestionar de tal maneira por esse canto que, assim embevecidos, se esqueciam de comer e de beber, tendo morrido sem dar por isso! \u00c9 justamente desses homens que prov\u00e9m a esp\u00e9cie das cigarras&#8230;&#8221;, 259 b-c<a href=\"#_edn4\">[iv]<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por isso, \u00e0 m\u00fasica correspondem necessariamente, ainda antes que as palavras, tonalidades emotivas: equilibrada, corajosa e firme no modo d\u00f3rico; lamentosa e frouxa no j\u00f4nio e no l\u00eddio (<strong><em>Resp. 398 e &#8211; 399 a<\/em><\/strong>). E \u00e9 singular que ainda na obra prima da filosofia do s\u00e9culo XX, <em>Ser e Tempo<\/em>, a abertura origin\u00e1ria do homem ao mundo n\u00e3o advenha atrav\u00e9s do conhecimento racional e da linguagem, mas antes de tudo em uma <em>Stimmung<\/em>, em uma tonalidade emotiva cuja terminologia mesma remonta \u00e0 esfera ac\u00fastica (<em>Stimme<\/em> \u00e9 a voz). A Musa &#8211; a m\u00fasica &#8211; marca a cis\u00e3o entre o homem e sua linguagem, entre a voz e o<em> logos<\/em>. A abertura prim\u00e1ria ao mundo n\u00e3o \u00e9 l\u00f3gica, \u00e9 musical.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><em>\u05d0<\/em><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/em><em>Da\u00ed a obstina\u00e7\u00e3o com que Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, mas tamb\u00e9m te\u00f3ricos da m\u00fasica como Damon e mesmo os legisladores, afirmam a necessidade de n\u00e3o se separar m\u00fasica e palavra. &#8220;O que no canto \u00e9 linguagem&#8221;, argumenta S\u00f3crates na Rep\u00fablica (<\/em>398 d<em>), &#8220;n\u00e3o difere em nada da linguagem n\u00e3o cantada (\u03bc\u03ae \u03ac\u03b4\u03bf\u03bc\u03ad\u03bd\u03bf\u03c5 \u03bb\u03cc\u03b3\u03bf\u03c5) e deve conformar-se aos mesmos modelos que ela&#8221; e enuncia logo depois com firmeza o teorema segundo o qual &#8220;a harmonia e o ritmo devem seguir o discurso (\u03ac\u03ba\u03bf\u03bb\u03bf\u03c5\u03b8\u03b5\u03af\u03bd \u03c4\u03ce \u03bb\u03bf\u03b3\u03ce)&#8221; (ibid.). A formula\u00e7\u00e3o mesma, &#8220;o que no canto \u00e9 linguagem&#8221;, implica, todavia, que haja nele alguma coisa de irredut\u00edvel \u00e0 palavra, assim como a insist\u00eancia em sancionar a inseparabilidade de ambos traduz a consci\u00eancia de que a m\u00fasica \u00e9 eminentemente separ\u00e1vel. Exatamente porque a m\u00fasica marca a estranheza do lugar origin\u00e1rio da palavra, \u00e9 perfeitamente compreens\u00edvel que ela possa tender a exasperar sua pr\u00f3pria autonomia frente \u00e0 linguagem; e todavia, pelas mesmas raz\u00f5es, tamb\u00e9m compreens\u00edvel \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o para que n\u00e3o se rompa completamente o nexo que as mantinha ligadas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entre o fim do s\u00e9culo V e os primeiros dec\u00eanios do s\u00e9culo IV, assiste-se de fato na Gr\u00e9cia a uma verdadeira e pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o dos estilos musicais, ligada aos nomes de Melanippide, Cinesia, Frinide e, sobretudo, Timoteo de Mileto. A fratura entre sistema lingu\u00edstico e sistema musical se torna cada vez mais irremedi\u00e1vel, at\u00e9 que no s\u00e9culo III a m\u00fasica termina por predominar decisivamente sobre a palavra. Mas j\u00e1 nos dramas de Eur\u00edpedes, um observador atento como Arist\u00f3fanes podia perceber, fazendo disso a par\u00f3dia nas <\/em>R\u00e3s<em>, que a rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o da melodia com seu suporte m\u00e9trico no verso se encontrava j\u00e1 subvertida. Na par\u00f3dia aristofanesca, a multiplica\u00e7\u00e3o das notas frente \u00e0s s\u00edlabas \u00e9 incisivamente expressa atrav\u00e9s da transforma\u00e7\u00e3o do verbo\u03b5\u03af\u03bb\u03af\u03c3\u03c3\u03c9 (virar) em \u03b5\u03af\u03b5\u03b9\u03b5\u03b9\u03b5\u03b9\u03bb\u03af\u03c3\u03c3\u03c9. Em todo caso, malgrado a tenaz resist\u00eancia dos fil\u00f3sofos, em sua obra sobre a m\u00fasica, Arist\u00f3xenes, que era um dos alunos de Arist\u00f3teles e criticava as mudan\u00e7as introduzidas pela nova m\u00fasica, n\u00e3o coloca mais no fundamento do canto a unidade fonem\u00e1tica do p\u00e9 m\u00e9trico, mas uma unidade puramente musical, que chama de &#8220;tempo primeiro&#8221; (\u03ba\u03c6\u03cc\u03bd\u03bf\u03c2 \u03c0\u03c6\u03ce\u03c4\u03bf\u00e7) e \u00e9 independente da s\u00edlaba.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se, no plano da hist\u00f3ria da m\u00fasica, as cr\u00edticas dos fil\u00f3sofos (que deveriam se repetir muitos s\u00e9culos depois com a redescoberta da monodia cl\u00e1ssica por parte da Camerata florentina e de Vicenzo Galilei e na perempt\u00f3ria prescri\u00e7\u00e3o de Carlo Borromeo: &#8220;cantum ita temperari, ut verba intelligerentur&#8221;) n\u00e3o podiam parecer sen\u00e3o excessivamente conservadoras, interessa mais aqui a raz\u00e3o profunda dessa sua oposi\u00e7\u00e3o, raz\u00e3o da qual eles mesmos n\u00e3o eram sempre conscientes. Se a m\u00fasica, como hoje parece acontecer, rompe para com sua necess\u00e1ria rela\u00e7\u00e3o com a palavra, isso significa, por um lado, que ela perde consciencia de sua natureza musaica (isto \u00e9, de seu situar-se no lugar origin\u00e1rio da palavra) e, por outro, que o homem falante esquece que seu ser j\u00e1 sempre musicalmente disposto deve constitutivamente lidar com a impossibilidade de aceder ao lugar musaico da palavra.<\/em> Homo canens<em> e<\/em> homo loquens<em> dividem suas vias e perdem a mem\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o que os vinculava \u00e0 Musa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se o acesso \u00e0 palavra \u00e9, nesse sentido, musaicamente determinado, compreende-se que, para os gregos, o nexo entre m\u00fasica e pol\u00edtica fosse t\u00e3o evidente que Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles trataram de quest\u00f5es musicais somente em suas obras consagradas \u00e0 pol\u00edtica. A rela\u00e7\u00e3o daquilo que eles chamavam \u03bc\u03bf\u03c5\u03c3\u03b9\u03ba\u03ae (que compreendia a poesia, a m\u00fasica em sentido pr\u00f3prio e a dan\u00e7a) com a pol\u00edtica era t\u00e3o estreita que, na Rep\u00fablica, Plat\u00e3o pode subscrever o aforisma de Damon segundo o qual &#8220;n\u00e3o se pode transformar os modos musicais sem se transformar as leis fundamentais da cidade&#8221; (424 c). Os homens se re\u00fanem e organizam a constitui\u00e7\u00e3o de sua cidade atrav\u00e9s da linguagem, mas a experi\u00eancia da linguagem &#8211; visto n\u00e3o ser poss\u00edvel agarrar e padronizar sua origem &#8211; \u00e9, por sua vez, j\u00e1 sempre musicalmente condicionada. A n\u00e3o-fundamenta\u00e7\u00e3o do \u03bb\u03cc\u03b3\u03bf\u03c2 funda o primado da m\u00fasica e faz com que todo discurso seja j\u00e1 sempre musaicamente acordado. Por isso, os homens de cada tempo s\u00e3o mais ou menos conscientemente educados e dispostos politicamente atrav\u00e9s da m\u00fasica, ainda antes que atrav\u00e9s das tradi\u00e7\u00f5es e preceitos que se transmitem por meio da l\u00edngua. Os gregos sabiam perfeitamente isso que n\u00f3s fingimos ignorar, isto \u00e9, que \u00e9 poss\u00edvel manipular e controlar uma sociedade somente atrav\u00e9s da linguagem, mas antes de tudo atrav\u00e9s da m\u00fasica. Assim como o mais eficaz no comando do oficial \u00e9, para o soldado, o toque da trombeta ou o rufar do tambor, em cada \u00e2mbito e antes de cada discurso, os sentimentos e os estados de \u00e2nimo que precedem a a\u00e7\u00e3o e o pensamento s\u00e3o determinados e orientados musicalmente. Nesse sentido, o estatuto da m\u00fasica (incluindo nessa termina\u00e7\u00e3o toda a esfera que imprecisamente definimos com o termo &#8220;arte&#8221;) define a condi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de uma determinada sociedade melhor e antes que qualquer outro \u00edndice e, se se quiser mudar verdadeiramente o ordenamento de uma cidade, \u00e9 antes de tudo necess\u00e1rio reformar a m\u00fasica. A m\u00fasica cativa que invade hoje &#8211; a todo instante e em todos os lugares &#8211; as nossas cidades s\u00e3o insepar\u00e1veis da pol\u00edtica cativa que as governa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><em>\u05d0<\/em><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 significativo que a <\/em>Pol\u00edtica <em>de Arist\u00f3teles se conclua com um verdadeiro e pr\u00f3prio tratado sobre a m\u00fasica &#8211; ou, melhor, sobre a import\u00e2ncia da m\u00fasica para a educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos cidad\u00e3os. Arist\u00f3teles come\u00e7a na verdade com a declara\u00e7\u00e3o de que se ocupar\u00e1 da m\u00fasica n\u00e3o como divertimento (\u03c0\u03b1\u03b9\u03b4\u03b9\u03ac), mas como parte essencial da educa\u00e7\u00e3o (\u03c0\u03b1\u03b9\u03b4\u03b5\u03af\u03b1), visto ter ela por fim a virtude: &#8220;como a gin\u00e1stica produz uma certa qualidade do corpo, tamb\u00e9m a m\u00fasica produz um certo <\/em>ethos<em>&#8221; (1339 a, 24). O motivo central da concess\u00e3o aristot\u00e9lica \u00e0 m\u00fasica \u00e9 a influ\u00eancia que esta exerce sobre a alma: &#8220;\u00c9 evidente que n\u00f3s somos afetados e transformados de um certo modo pelos diversos g\u00eaneros de m\u00fasica, como, especialmente, as melodias do Olimpo. \u00c9 opini\u00e3o comum que elas deixem a alma entusiasmada (\u03c0\u03bf\u03b9\u03b5\u03af \u03c4\u03ac\u03c2 \u03c8\u03c5\u03c7\u03ac\u03c2 \u03ad\u03bd\u03b8\u03bf\u03c5\u03c3\u03b9\u03b1\u03c3\u03c4\u03b9\u03ba\u03ac\u03c2) e o entusiasmo \u00e9 uma paix\u00e3o (\u03c0\u03ac\u03b8\u03bf\u03c2) do <\/em>ethos<em> relativa \u00e0 alma. Todos, escutando as imita\u00e7\u00f5es (musicais), gra\u00e7as ao ritmo e \u00e0 melodia entram em um estado de \u00e2nimo emp\u00e1tico ((\u03b3\u03af\u03b3\u03bd\u03bf\u03bd\u03c4\u03b1\u03b9 \u03c3\u03c5\u03bc\u03c0\u03b1\u03b8\u03b5\u03af\u03c2), at\u00e9 mesmo na aus\u00eancia de palavras&#8221; (1340 a, 5-11). Isso acontece, explica Arist\u00f3teles, porque os ritmos e as melodias cont\u00eam imagens (\u03cc\u03bc\u03bf\u03b9\u03ce\u03bc\u03b1\u03c4\u03b1) e imita\u00e7\u00f5es (\u03bc\u03b9\u03bc\u03ae\u03bc\u03b1\u03c4\u03b1) da ira e da clem\u00eancia, da coragem, da prud\u00eancia e de outras qualidades \u00e9ticas. Por isso, quando os escutamos a alma \u00e9 afetada de formas diversas em correspond\u00eancia a cada um dos modos musicais: de modo &#8220;lamentoso e for\u00e7oso&#8221; no mixol\u00eddio, em um estado de \u00e2nimo &#8220;equilibrado (\u03bc\u03ad\u03c3\u03c9\u03c2) e mais firme&#8221; no d\u00f3rico, &#8220;entusiasmado&#8221; no fr\u00edgio (1340 b, 1-5). Ele aceita assim a classifica\u00e7\u00e3o das melodias em \u00e9ticas, pr\u00e1ticas e entusiasmadas e recomenda para a educa\u00e7\u00e3o dos jovens o modo d\u00f3rico, sendo ele &#8220;mais firme&#8221; (\u03c3\u03c4\u03b1\u03c3\u03b9\u03bc\u03ce\u03c4\u03b5\u03c1\u03bf\u03bd) e de car\u00e1ter viril (\u03ac\u03bd\u03b4\u03c1\u03b5\u03af\u03bf\u03bd, 1342 b 14). Como havia j\u00e1 feito Plat\u00e3o, Arist\u00f3teles se refere aqui a uma antiga tradi\u00e7\u00e3o, que identificava o significado pol\u00edtico da m\u00fasica em sua capacidade de ordenar a alma (ou, ao contr\u00e1rio, de excitar nela confus\u00e3o). As fontes nos informam que, no s\u00e9culo VII a.C., quando Esparta se encontrava em uma situa\u00e7\u00e3o de discord\u00e2ncia civil, o or\u00e1culo sugeriu chamar o &#8220;cantor de Lesbo&#8221; Terpandro, que, com seu canto, restituiu ordem \u00e0 cidade. O mesmo se dizia de Estesicoro no que tange \u00e0s batalhas intestinas na cidade de Locri.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">4.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <br><br>             Com Plat\u00e3o, a filosofia se afirma como cr\u00edtica e supera\u00e7\u00e3o do ordenamento musical da <em>polis<\/em> ateniense. Tal ordenamento, personificado no rapsodo Ion, que se encontra possu\u00eddo pela Musa como um anel de metal que \u00e9 atra\u00eddo por uma calamita, implica a impossibilidade de dar raz\u00e3o aos pr\u00f3prios saberes e a\u00e7\u00f5es, de &#8220;pensa-los&#8221;. &#8220;Essa pedra (a calamita) n\u00e3o s\u00f3 atrai os an\u00e9is de ferro, mas tamb\u00e9m infunde neles a capacidade de fazer aquilo que faz a pedra, isto \u00e9, atrair outros an\u00e9is, de modo que se produzir\u00e1 uma grande corrente de an\u00e9is presos uns aos outros, para cada um dos quais essa capacidade depende da pedra. Do mesmo modo, tamb\u00e9m a Musa dota alguns homens de inspira\u00e7\u00e3o divina e atrav\u00e9s deles se solda uma corrente de outros homens igualmente entusiasmados [&#8230;] o espectador n\u00e3o \u00e9 mais que o \u00faltimo anel [&#8230;] o anel do meio \u00e9 voc\u00ea, o rapsodo, enquanto que o primeiro \u00e9 o poeta mesmo [&#8230;] e um poeta se atrela a uma certa Musa, um outro a uma outra e em tal caso dizemos que est\u00e1 possu\u00eddo [&#8230;] na verdade, voc\u00ea n\u00e3o diz o que diz de Homero por arte e ci\u00eancia, mas por uma sorte divina (\u03b8\u03b5\u03af\u03b1 \u03bc\u03bf\u03af\u03c1\u03b1) [&#8230;]&#8221; (Plat. <em>Ion<\/em>. 533 d &#8211; 534 c).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Contrariamente \u00e0 \u03c0\u03b1\u03b9\u03b4\u03b5\u03b9\u03b1 [educa\u00e7\u00e3o] musaica, a reivindica\u00e7\u00e3o da filosofia como &#8220;a verdadeira Musa&#8221; (<em>Resp<\/em>. 548 b 8) e &#8220;a m\u00fasica suprema&#8221; (<em>Phaid. <\/em>61 a) significa a tentativa de remontar para l\u00e1 da inspira\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0quele evento de palavra, cujo limiar est\u00e1 guardado e bloqueado pela Musa. Enquanto os poetas, os rapsodos e, de um modo mais geral, cada homem virtuoso age por uma \u03b8\u03b5\u03af\u03b1 \u03bc\u03bf\u03af\u03c1\u03b1 [inspira\u00e7\u00e3o divina], um destino divino de que n\u00e3o se pode dar conta, trata-se de fundar os discursos e as a\u00e7\u00f5es em um lugar mais origin\u00e1rio da inspira\u00e7\u00e3o musaica e de sua \u03bc\u03bf\u03af\u03c1\u03b1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por isso, na <em>Rep\u00fablica<\/em> (499 d), Plat\u00e3o pode definir a filosofia como \u03b1\u03cd\u03c4\u03ae \u03ae \u041c\u03bf\u03cd\u03c3\u03b1, a Musa mesma (ou a ideia da Musa \u2013 \u03b1\u03cd\u03c4\u03cc\u03c2 seguido do artigo \u00e9 o termo t\u00e9cnico para exprimir a ideia). Aqui est\u00e1 em quest\u00e3o o lugar pr\u00f3prio da filosofia: este coincide com aquele da Musa, isto \u00e9, com a origem da palavra &#8211; \u00e9, nesse sentido, necessariamente proemial. Situando-se desse modo no evento origin\u00e1rio da linguagem, o fil\u00f3sofo reconduz o homem ao lugar do seu tornar-se humano, a partir do qual somente ele pode se recordar do tempo em que n\u00e3o era ainda homem (<em>Men<\/em>. 86 a: \u03cc \u03c7\u03c1\u03cc\u03bd\u03bf\u03c2 \u03cc\u03c4\u2019 \u03bf\u03cd\u03ba \u03ae\u03bd \u03ac\u03bd\u03b8\u03c1\u03c9\u03c0\u03bf\u03c2). A filosofia ultrapassa o princ\u00edpio musaico em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria, de Mnemosine como m\u00e3e das Musas e deste modo libera o homem da <a>\u03b8\u03b5\u03af\u03b1 \u03bc\u03bf\u03af\u03c1\u03b1 <\/a>e torna poss\u00edvel o pensamento. O pensamento \u00e9, de fato, a dimens\u00e3o que se abre quando, remontando para l\u00e1 da inspira\u00e7\u00e3o musaica que n\u00e3o o permite conhecer aquilo que diz, o homem se torna de certo modo <em>auctor<\/em>, isto \u00e9, guardi\u00e3o e testemunha das pr\u00f3prias palavras e a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><em>\u05d0<\/em><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 decisivo, por\u00e9m, que, no <\/em>Fedro<em>, a tarefa filos\u00f3fica n\u00e3o seja confiada simplesmente a um saber, mas a uma forma especial de <\/em>mania<em>, ao mesmo tempo afim e diversa das outras. Essa quarta esp\u00e9cie de mania, na verdade &#8211; a mania er\u00f3tica &#8211; n\u00e3o \u00e9 homog\u00eanea \u00e0s outras tr\u00eas (a prof\u00e9tica, a tel\u00e9stica e a po\u00e9tica), mas delas se distingue essencialmente por duas caracter\u00edsticas. Ela est\u00e1, fundamentalmente, conjugada ao automovimento da alma (\u03b1\u03cd\u03c4\u03bf\u03ba\u03af\u03bd\u03b7\u03c4\u03bf\u03bd, 245 c), ao seu n\u00e3o ser movida por outro e ao seu ser, por isso, imortal; \u00e9, al\u00e9m disso, uma opera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, que recorda aquilo que a alma viu em seu voo divino (&#8220;esta \u00e9 uma reminisc\u00eancia (\u03ac\u03bd\u03ac\u03bc\u03bd\u03b7\u03c3\u03b9\u03c2) daquilo que a alma viu uma vez&#8230;&#8221;, 249 c) e \u00e9 essa anamnese que define sua natureza (&#8220;esse \u00e9 o ponto de chegada de todo discurso sobre a quarta mania, quando algu\u00e9m vendo qualquer coisa de bela se recorda do verdadeiro belo [&#8230;]&#8221;, 249 d). Essas duas caracter\u00edsticas a op\u00f5e pontualmente \u00e0s outras formas de mania, em que o princ\u00edpio de movimento \u00e9 exterior (no caso da loucura po\u00e9tica, a Musa) e a inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 preparada para remontar com a mem\u00f3ria \u00e0quilo que a determina e faz falar. Aquilo que inspira aqui n\u00e3o s\u00e3o mais as Musas, mas sua m\u00e3e, Mnemosine. Plat\u00e3o inverte a inspira\u00e7\u00e3o em mem\u00f3ria, e essa invers\u00e3o da \u03b8\u03b5\u03af\u03b1 \u03bc\u03bf\u03af\u03c1\u03b1&nbsp; &#8211; do destino &#8211; em mem\u00f3ria define seu gesto filos\u00f3fico.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto mania que move e inspira a si mesma, a mania filos\u00f3fica (porque \u00e9 disso que se trata: &#8220;S\u00f3 a mente do fil\u00f3sofo usa as asas&#8221;, 249 c) \u00e9, por assim dizer, uma mania da mania, uma mania que tem por objeto a mania ou inspira\u00e7\u00e3o mesma e atinge, portanto, o lugar mesmo do princ\u00edpio musaico. Quando, no fim da <\/em>Mnemone<em> (99 e &#8211; 100 b), S\u00f3crates afirma que a virtude pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 natural (\u03a6\u03cd\u03c3\u03b5\u03b9) nem transmiss\u00edvel por ensinamento (\u03b4\u03b9\u03b4\u03b1\u03ba\u03c4\u03cc\u03bd), mas se produz por uma \u03b8\u03b5\u03af\u03b1 \u03bc\u03bf\u03af\u03c1\u03b1 sem consci\u00eancia, e que por isso os pol\u00edticos n\u00e3o s\u00e3o capazes de comunica-la aos outros cidad\u00e3os, ele apresenta implicitamente a filosofia como uma coisa que, n\u00e3o por sorte divina ou ci\u00eancia, \u00e9 capaz de produzir nas almas a virtude pol\u00edtica. Mas isso s\u00f3 pode significar que ela se situa no lugar da Musa e a substitui.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Walter Otto observou justamente, em outro lugar, que &#8220;a voz que precede a palavra humana pertence ao ser mesmo das coisas, como uma revela\u00e7\u00e3o divina que o deixa vir \u00e0 luz em sua ess\u00eancia e gl\u00f3ria&#8221;<a href=\"#_edn5\"><strong>[v]<\/strong><\/a>. A palavra que a Musa d\u00e1 ao poeta prov\u00e9m das coisas mesmas e a Musa n\u00e3o \u00e9, nesse sentido, mais que o desvelar-se e comunicar-se do ser. Por isso as figura\u00e7\u00f5es mais antigas da Musa, como a estupenda Melpomene no Museu Nacional do Pal\u00e1cio Massimo, em Roma, a apresentam simplesmente como uma garota em sua plenitude ninfal. Remontando at\u00e9 o princ\u00edpio musaico da palavra, o fil\u00f3sofo deve medir-se n\u00e3o somente com algo lingu\u00edstico, mas tamb\u00e9m e principalmente com o ser mesmo que a palavra revela.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>5.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se a m\u00fasica est\u00e1 constitutivamente ligada \u00e0 experi\u00eancia dos limites da linguagem e se, vice-versa, a experi\u00eancia dos limites da linguagem &#8211; e, com essa, a pol\u00edtica &#8211; \u00e9 musicalmente condicionada, ent\u00e3o uma an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o da m\u00fasica no nosso tempo deve partir da constata\u00e7\u00e3o de que \u00e9 precisamente essa experi\u00eancia dos limites musaicos que nela acaba por faltar. A linguagem se d\u00e1 hoje como tagarelice que nunca se choca com o pr\u00f3prio limite e parece ter perdido toda consci\u00eancia do seu \u00edntimo nexo com o que n\u00e3o se pode dizer, isto \u00e9, com o tempo em que o homem n\u00e3o era ainda falante. A uma linguagem sem margens nem fronteiras corresponde uma m\u00fasica n\u00e3o mais musaicamente acordada; e a uma m\u00fasica que voltou as costas \u00e0 pr\u00f3pria origem, uma pol\u00edtica sem consist\u00eancia nem lugar. Onde tudo parece indiferentemente se poder dizer, perde-se o canto e, com isso, as tonalidades emotivas que musaicamente o articulam. A nossa sociedade &#8211; onde a m\u00fasica parece penetrar freneticamente em todo lugar &#8211; \u00e9, na verdade, a primeira comunidade humana n\u00e3o musaicamente (ou amusaicamente) acordada. A sensa\u00e7\u00e3o de depress\u00e3o e apatia generalizada n\u00e3o faz mais que registrar a perda do nexo musaico com a linguagem, travestindo como uma s\u00edndrome m\u00e9dica o eclipse da pol\u00edtica que da\u00ed resultou. Isso significa que o nexo musaico, que perdeu sua rela\u00e7\u00e3o com os limites da linguagem, produz n\u00e3o mais uma \u03b8\u03b5\u03af\u03b1 \u03bc\u03bf\u03af\u03c1\u03b1, mas uma esp\u00e9cie de miss\u00e3o ou inspira\u00e7\u00e3o em branco, que n\u00e3o se articula mais segundo a pluralidade dos conte\u00fados musicais, mas que por assim dizer roda no vazio. Imemoradas de sua solidariedade origin\u00e1ria, linguagem e m\u00fasica dividem seus destinos e permanecem, todavia, unidas em uma mesma vacuidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><em>\u05d0<\/em><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 nesse sentido que a filosofia pode se dar hoje t\u00e3o somente como reforma da m\u00fasica. Porque o eclipse da pol\u00edtica faz par com a perda da experi\u00eancia do musaico, a tarefa pol\u00edtica \u00e9 hoje consitutivamente uma tarefa po\u00e9tica, frente \u00e0 qual \u00e9 necess\u00e1rio que artistas e fil\u00f3sofos unam suas for\u00e7as. Os homens pol\u00edticos atuais n\u00e3o s\u00e3o capazes de pensar porque tanto sua linguagem quanto sua m\u00fasica rodam amusaicamente no vazio. Se chamamos pensamento o espa\u00e7o que se abre cada vez que acedemos \u00e0 experi\u00eancia do princ\u00edpio musaico da palavra, ent\u00e3o \u00e9 com a incapacidade de pensar do nosso tempo que devemos nos medir. E se, segundo sugere Hannah Arendt, o pensamento coincide com a capacidade de interromper o fluxo insensato das frases e dos sons, travar esse fluxo para restitui-lo ao seu lugar musaico \u00e9 hoje a tarefa filos\u00f3fica por excel\u00eancia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref1\">[i]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; HES\u00cdODO. <strong>Teogonia<\/strong>: a origem dos deuses. Tradu\u00e7\u00e3o de Jaa Torrano. 3\u00aaed. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 1995. (N.T.)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref2\">[ii]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; FRIEDL\u00c4NDER, Paul. <strong>Das Pro\u00f6mium von Hesiods Theogonie<\/strong>. &#8220;Hermes&#8221;, 49. pp. 14-16. 1974.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><a href=\"#_ednref3\">[iii]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aqui se traduziu do texto de Agamben, visto que no texto de Torrano optou-se por nomear as Musas a partir dos g\u00eaneros liter\u00e1rios. No texto de Torrano: &#8220;Gl\u00f3ria, Alegria, Festa, Dan\u00e7arina, \/ Alegra-coro, Amorosa, Hin\u00e1ria, Celeste \/ e Belavoz, que dentre todas vem \u00e0 frente.&#8221; (N.T.)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref4\">[iv]<\/a>&nbsp;&nbsp; PLAT\u00c3O. <strong>Fedro<\/strong> ou da Beleza. Tradu\u00e7\u00e3o de Pinharanda Gomes. 6\u00aaed. Lisboa: Guimar\u00e3es Editores, 2000. (N.T.)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><a href=\"#_ednref5\">[v]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aqui traduziu-se diretamente do texto de Agamben. O livro de Otto de que fala Agamben na passagem \u00e9: OTTO, Walter.<strong> Die Musen und der g\u00f6ttliche Ursprung des Singens und Sagens<\/strong>. Diederichs, D\u00fcsseldorf. 1954. (N.T.)<br><br><br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Autor: Giorgio Agamben<\/strong><br><br><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Pedro Rodrigues Naccarato<\/strong><\/strong><br><strong><br>Revis\u00e3o: Wesley Costa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A filosofia s\u00f3 se pode dar hoje como reforma da m\u00fasica. 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