{"id":624,"date":"2020-08-24T18:38:55","date_gmt":"2020-08-24T21:38:55","guid":{"rendered":"https:\/\/tradutoresproletarios.wordpress.com\/?p=624"},"modified":"2021-01-23T05:22:56","modified_gmt":"2021-01-23T05:22:56","slug":"hegel-e-freud","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/08\/24\/hegel-e-freud\/","title":{"rendered":"Hegel e Freud \u2014 Mladen Dolar"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-625\" src=\"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2020\/08\/artehegelefreudversao3.jpg\" alt=\"artehegelefreudvers\u00e3o3\" width=\"1600\" height=\"1043\"><\/p>\n<p><strong>Por Mladen Dolar<\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/>\n<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n<p>Hegel e Freud n\u00e3o t\u00eam nada em comum, ao que parece; h\u00e1 tudo para op\u00f4-los. Por um lado: o fil\u00f3sofo especulativo do Esp\u00edrito Absoluto, cujo sistema abrangeu todas as esferas do ser \u2013 l\u00f3gica, natureza, e esp\u00edrito \u2013 e que \u00e9 considerado como o fil\u00f3sofo mais obscuro e dif\u00edcil de toda a tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica; de outro lado: um homem de forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, um terapeuta que, em todo seu trabalho, exerceu a pr\u00e1tica cl\u00ednica como sua diretriz e apenas gradualmente expandiu algumas ideias psicol\u00f3gicas nos maiores c\u00edrculos de cultura, civiliza\u00e7\u00e3o e hist\u00f3ria. Por um lado: n\u00e3o apenas um fil\u00f3sofo, mas um fil\u00f3sofo <em>par excellence<\/em>, o exemplo paradigm\u00e1tico de um fil\u00f3sofo que encapsulou em seu sistema todos os temas e conquistas da tradi\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica; por outro lado: um homem das ci\u00eancias naturais que se op\u00f4s inflexivelmente \u00e0 filosofia como tal e at\u00e9 viu tentativas de tornar a psican\u00e1lise em uma nova corrente filos\u00f3fica como um dos maiores perigos de sua disciplina. Por um lado: n\u00e3o apenas um alem\u00e3o, mas aparentemente um alem\u00e3o <em>par excellence<\/em>, um modelo do esp\u00edrito alem\u00e3o ou mesmo o fil\u00f3sofo do Estado prussiano, como afirma o ad\u00e1gio; de outro lado: um judeu que j\u00e1 em seus dias de juventude experimentou a press\u00e3o do antissemitismo e, apesar de sua fama, viveu seus \u00faltimos dias em ex\u00edlio, seus livros foram queimados por um regime que, ironicamente, evocava Hegel. E, finalmente, por um lado, o fil\u00f3sofo que confiou mais que qualquer um na hist\u00f3ria da filosofia sobre os poderes da raz\u00e3o, conceitos e conhecimento; de outro lado, algu\u00e9m que mais do que qualquer outro se inspirou em algo que inerentemente escapa desses poderes ou apresenta suas fissuras \u2013 essa fissura constitui o pr\u00f3prio objeto da psican\u00e1lise, de entidades como o inconsciente e as puls\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse \u00faltimo ponto, h\u00e1 algo que estranhamente conecta Hegel e Freud. Ambos sustentam o excesso, de modo que, quando algu\u00e9m invoca seus nomes a temperatura aumenta, parece que n\u00e3o existe forma de poder falar sobre um ou outro de um ponto de vista neutro, objetivo e imparcial, para apenas os colocar em um lugar na galeria das grandes mentes, como se ambos, embora por raz\u00f5es opostas, representassem algo que o conhecimento estabelecido \u2013 o que Lacan chamou economicamente de discurso universit\u00e1rio \u2013 n\u00e3o pudesse aceitar. Ambos tendem a produzir seguidores zelosos ou igualmente inimigos zelosos; eles ainda mant\u00eam a capacidade de provocar paix\u00f5es, embora a natureza de seus excessos seja oposta. Hegel, o derradeiro professor universit\u00e1rio, se \u00e9 que existia, como um excesso de conhecimento melhor resumido por sua reivindica\u00e7\u00e3o do Saber Absoluto \u2013 o momento em que uma forma de conhecimento faz uma reivindica\u00e7\u00e3o ao Absoluto \u00e9 um ponto nevr\u00e1lgico que nenhum discurso universit\u00e1rio pode digerir se \u00e9 para manter seu comportamento de neutralidade e objetividade. Freud, com uma afirma\u00e7\u00e3o oposta para uma verdade errante, sem garantia e sem verifica\u00e7\u00e3o usual, o que lhe nega credenciais acad\u00eamicas. Em suma, o Saber Absoluto e o inconsciente, dois limites do conhecimento, o mais alto e o mais baixo \u2013 de um lado, o conhecimento que se esfor\u00e7a para superar seus limites pela reivindica\u00e7\u00e3o do Absoluto; de outro lado, um buraco no conhecimento, um desvio do conhecimento onde desejos, puls\u00f5es, sintomas e fantasias come\u00e7am a se infiltrar. Se o Saber Absoluto e o inconsciente ainda funcionam como excessos insubstitu\u00edveis, qual poderia ser o elo entre eles?<\/p>\n<p>Talvez algu\u00e9m poderia dizer, <em>prima facie<\/em>, que o que Hegel e Freud t\u00eam em comum \u00e9 que ambos juram pela ci\u00eancia. Para Hegel, n\u00e3o \u00e9 preciso procurar muito: ele publicou seu primeiro livro, <em>Fenomenologia do Esp\u00edrito<\/em>, como a primeira parte de um trabalho mais geral intitulado <em>O Sistema da Ci\u00eancia<\/em>; seu segundo livro chamava-se <em>Ci\u00eancia da L\u00f3gica<\/em>; seu terceiro livro era <em>Enciclop\u00e9dia das Ci\u00eancias Filos\u00f3ficas<\/em>. Ent\u00e3o, \u201cci\u00eancia\u201d \u00e9 visivelmente sua palavra mestra. Existe uma tese nisso: qualquer ci\u00eancia digna desse nome deve ter um fundamento filos\u00f3fico, e qualquer filosofia digna de seu nome deve erguer a reivindica\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, para que, finalmente, filosofia e ci\u00eancia coincidam em sinon\u00edmia. Para Freud, a ci\u00eancia que ele procura n\u00e3o deve se tornar filosofia e s\u00f3 ser\u00e1 capaz de manter suas alega\u00e7\u00f5es cient\u00edficas se ficar longe de filosofia. Ele se via enfaticamente como um homem da ci\u00eancia, mas de uma ci\u00eancia longe da no\u00e7\u00e3o que Hegel poderia ter.<\/p>\n<p>Suas atitudes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia podem ser ilustradas por dois ditos aned\u00f3ticos. Hegel notoriamente sustentou que, se os fatos contradizem a teoria, ent\u00e3o \u201cum so schlimmer f\u00fcr die Fakten\u201d \u2013 t\u00e3o pior para os fatos. Isso pode ser visto como indicativo de uma suprema arrog\u00e2ncia de uma filosofia que n\u00e3o percebe trivialidades como dados emp\u00edricos. Mas, para Hegel, os fatos n\u00e3o podem contradizer a teoria por causa de sua natureza humilde, mas porque eles s\u00e3o fatos apenas se apreendidos por um conceito; um fato pode adquirir a dignidade de um fato apenas em virtude de um conceito que o selecionou e o representou como relevante, de forma que n\u00e3o haja um terreno comum onde fatos e conceitos possam se encontrar, sem intera\u00e7\u00e3o entre os dois e, se hover de fato uma confronta\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 apenas sempre entre conceitos e conceitos. A posi\u00e7\u00e3o de Freud \u00e9 sumarizada por uma afirma\u00e7\u00e3o de seu mentor em assuntos psiqui\u00e1tricos, Charcot: \u201cla th\u00e9orie, c\u2019est bon, mais \u00e7a n\u2019emp\u00eache pas d\u2019emp\u00eache pas d\u2019exister\u201d, ou a teoria est\u00e1 sempre certa, mas ela n\u00e3o impede que algo exista. Portanto, algo existe, a despeito da teoria, obstinadamente diante do conceito; a posi\u00e7\u00e3o seria: n\u00e3o ceder ao que se apresenta e se reapresenta, apesar das teorias recebidas (incluindo as do pr\u00f3prio Freud, que n\u00e3o tinha escr\u00fapulos em comprometer suas pr\u00f3prias teorias se algo continuasse a existir a despeito delas), sejam t\u00e3o delicadas quanto um escorreg\u00e3o da l\u00edngua ou t\u00e3o intrusivo quanto um trauma e sintomas. E o que \u00e9 o inconsciente sen\u00e3o algo que se manifesta a despeito de todas as teorias espont\u00e2neas que estruturam nosso entendimento? O que \u00e9, por exemplo, a puls\u00e3o de morte sen\u00e3o um impulso de pura insist\u00eancia que nunca pode ser presa aos fatos. Mas como algu\u00e9m pode fazer uma teoria do que existe a despeito da teoria, do que \u00e9 recalcitrante \u00e0 teoria? Que tipo de universalidade algu\u00e9m pode construir sobre as bases dessa fr\u00e1gil e fugidia factualidade, algo que desaparece no momento em que \u00e9 produzido?<\/p>\n<p>H\u00e1 uma trajet\u00f3ria oposta a tra\u00e7ar: Hegel aloca-se em um reino da universalidade desde o in\u00edcio, mas essa universalidade inicial pode apenas ser vazia, e tem que imediatamente perder a si mesma, tem que passar por dentro de seu outro se quiser ser universal, precisa esposar e abarcar toda factualidade em seu pr\u00f3prio movimento de tornar-se-outro (<em>Sichanderswerden<\/em>), e apenas pode ser um conceito se tem a capacidade para abarcar completamente esse outro, ou seja, pelo processo de sua media\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o h\u00e1 nenhum conceito fora de sua media\u00e7\u00e3o com seu outro. De outro lado, Freud situou a si mesmo nas rachaduras da universalidade, nas peculiaridades, algo que n\u00e3o pode se envolver com nenhum esfor\u00e7o conceitual, por\u00e9m algo que n\u00e3o est\u00e1 fora do conceito, e sim, ao contr\u00e1rio, est\u00e1 em seu limite interior. \u00c9 preciso manter a posi\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia para alcan\u00e7\u00e1-la, mas <em>encore un effort<\/em> [um esfor\u00e7o consider\u00e1vel] \u00e9 necess\u00e1rio para ampliar o empreendimento da ci\u00eancia galileana a pequenas fissuras, como sonhos, lapsos e piadas. Pode haver uma ci\u00eancia galileana dessas pequenas coisas? Para chegar em uma universalidade a partir dessa posi\u00e7\u00e3o exige-se um esfor\u00e7o especulativo n\u00e3o menor que o de Hegel.<\/p>\n<p>Hegel e Freud n\u00e3o t\u00eam uma medida comum, mas h\u00e1 um ponto de encontro contingente. Existem mais ou menos meia d\u00fazia de extensos retratos de Hegel, que o retratam em v\u00e1rias idades. Todos eles s\u00e3o bem conhecidos e fazem o que retratos devem fazer: apresentam sua imagem p\u00fablica, nas posturas um pouco r\u00edgidas que inevitavelmente se assume quando aos olhos do p\u00fablico. Todos, exceto um, que \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o not\u00e1vel: a litografia de Ludwing Sebbers, que mostrou Hegel em sua casa, sentando \u00e0 sua mesa, vestindo um roup\u00e3o e alguma coisa como uma touca de dormir. \u00c9 uma imagem impactante por causa de sua discrep\u00e2ncia ir\u00f4nica, sem d\u00favida consciente, entre as afirma\u00e7\u00f5es massivas desse fil\u00f3sofo do esp\u00edrito universal do mundo e seu vestu\u00e1rio dom\u00e9stico.<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a> Foi com essa imagem em mente que Heinrich Heine escreveu (ao final de 1820, enquanto Hegel ainda estava vivo) o que s\u00e3o, sem d\u00favida, os melhores versos devotados a Hegel; n\u00e3o havia muita competi\u00e7\u00e3o para isso, pois Hegel n\u00e3o inspirou poesia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><em>Life and the world\u2019s too fragmented for me!<\/em><\/p>\n<p><em>A German professor can give me the key.<\/em><\/p>\n<p><em>He puts life in order with skill magisterial,<\/em><\/p>\n<p><em>Builds a rational system for better or worse;<\/em><\/p>\n<p><em>With nightcap and dressing-gown scraps for material<\/em><\/p>\n<p><em>He chinks up the holes in the universe.<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Heine, dividido entre sua afei\u00e7\u00e3o por Hegel e suas fortes cr\u00edticas a ele, produziu um curto-circuito entre o sistema racional da filosofia hegeliana, reputado como sendo capaz de colocar vida na ordem racional e dar-lhe sentido, e o particular e trivial vestu\u00e1rio privado de Hegel, muito distante dos conceitos, mas cujo material paliativo \u00e9, mesmo assim, posto a um uso filos\u00f3fico; e mais, sua miss\u00e3o secreta \u00e9 unir o edif\u00edcio filos\u00f3fico mediante o preenchimento de suas rachaduras. O ponto principal \u00e9 que o roup\u00e3o pode representar a verdade secreta do sistema, ou mesmo que exista uma equa\u00e7\u00e3o entre os dois, em uma par\u00f3dia do julgamento infinito: Hegel sustentou a famosa frase que \u201co esp\u00edrito \u00e9 um osso\u201d, justapondo duas entidades \u00e0 m\u00e1xima dist\u00e2ncia sem qualquer medida comum. Pode-se dizer, seguindo Heine, o \u201cesp\u00edrito \u00e9 uma touca de dormir.\u201d<\/p>\n<p>Freud estava muito afei\u00e7oado a Heine e n\u00e3o perdeu oportunidade de citar sua linha de racioc\u00ednio em sua pr\u00f3pria obra. Ele gostava particularmente das \u00faltimas duas linhas do mesmo poema, embora nunca as tenha referido a Hegel em particular, mas apenas \u00e0 filosofia em geral. Em <em>The New Introductory Lectures<\/em> (1932), quando debate a quest\u00e3o da <em>Weltanschauun<\/em>, \u201ca vis\u00e3o de mundo\u201d, arguindo que a psican\u00e1lise n\u00e3o pode apresentar uma vis\u00e3o de mundo e que a filosofia n\u00e3o pode escapar de ser uma, Freud diz o seguinte:<\/p>\n<blockquote><p>A [filosofia] se afasta da [ci\u00eancia] agarrando-se \u00e0 ilus\u00e3o do ser capaz de apresentar uma imagem do universo coerente e isento de lacunas [&#8230;]. Desvia-se de seu m\u00e9todo por superestimar o valor epistemol\u00f3gico de nossas opera\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas [&#8230;]. E muitas vezes parece que o coment\u00e1rio ir\u00f4nico do poeta n\u00e3o se justifica quando ele diz que o fil\u00f3sofo: \u201c<em>Mit seinen Nachtm\u00fctzen und Schlafrockfetzen \/ Stopft er die L\u00fccken des Weltenbaus<\/em>. [Com sua touca de dormir e os farrapos de seu roup\u00e3o, ele corrige as lacunas na estrutura do universo.]\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Ent\u00e3o, o fil\u00f3sofo \u2013 e Hegel, como o fil\u00f3sofo arquet\u00edpico, \u00e9 o alvo, apesar de que Freud n\u00e3o estivesse ciente disso \u2013 faz duas coisas que s\u00e3o aparentemente opostas, mas que se ap\u00f3iam: ele superestima a l\u00f3gica e a epistemologia, depende das opera\u00e7\u00f5es da raz\u00e3o e do conhecimento, tem confian\u00e7a excessiva e autoilus\u00f3ria em seu poder e, por outro lado, remenda as rachaduras desse edif\u00edcio com os meios dispon\u00edveis, com o trivial, o acolhedor, literalmente com os intervalos, os restos paliativos \u2013 os objetos parciais? H\u00e1 uma concorr\u00eancia do alto e do baixo, de elevadas preocupa\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas e epistemol\u00f3gicas e a insignific\u00e2ncia, o fr\u00edvolo que deve suplementar seu oposto. A constru\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica do universo n\u00e3o pode ter sucesso sem a produ\u00e7\u00e3o de lacunas, e o fil\u00f3sofo deve ent\u00e3o se esfor\u00e7ar para preenche-las com algum meio muito modesto. Para empurrar o paradoxo al\u00e9m, como podemos trazer juntos a reivindica\u00e7\u00e3o de Hegel do Saber Absoluto, a touca de dormir e os restos do roup\u00e3o? O segredo da raz\u00e3o n\u00e3o reside finalmente na incongruente touca de dormir?<\/p>\n<figure id=\"attachment_629\" aria-describedby=\"caption-attachment-629\" style=\"width: 495px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-629 alignleft\" src=\"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2020\/08\/hegelpic.jpg\" alt=\"hegelpic\" width=\"495\" height=\"706\"><figcaption id=\"caption-attachment-629\" class=\"wp-caption-text\">Ludwig Sebbers,&nbsp;<em>Hegel at Age Fifty-Eight<\/em>, 1828. Lithograph.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Freud usa as mesmas linhas de Heine em <em>A Interpreta\u00e7\u00e3o dos Sonhos<\/em> (1900), tamb\u00e9m, em uma forma muito diferente, mas tamb\u00e9m de uma forma muito reveladora. A discuss\u00e3o aqui diz respeito a um ponto complexo na teoria dos sonhos, o que Freud chamou <em>die sekund\u00e4re Bearbeitung<\/em>, a revis\u00e3o secund\u00e1ria. O sonho prossegue de uma forma aleat\u00f3ria, a partir de um elemento para o outro (isso \u00e9 o que constitui para Freud o processo prim\u00e1rio), \u00e9 tudo uma mistura, mas, \u00e0 medida que o sonho avan\u00e7a, ele continua se revisando, permanece tentando encaixar os elementos que emergiram em uma narrativa, em uma sequ\u00eancia dotada de alguma l\u00f3gica e sentido. O paradoxo \u00e9 que isso acontece enquanto estamos sonhando, como parte integrante do pr\u00f3prio trabalho do sonho, para que nunca sejamos confrontados com um sonho puro e simples, mas com uma vers\u00e3o que \u201csempre j\u00e1\u201d foi revisada, submetida a ajustes secund\u00e1rios e modifica\u00e7\u00f5es dentro do pr\u00f3prio sonho. A interpreta\u00e7\u00e3o acontece durante o sonho, em uma parte dele, antes de qualquer interpreta\u00e7\u00e3o consciente. Os sonhos (alguns, n\u00e3o todos) \u201cpodem ter sido interpretados uma vez, antes de serem submetidos \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o acordada\u201d.<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a> \u00c9 aqui que Freud traz as falas de Heine:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Essa fun\u00e7\u00e3o se comporta da maneira que o poeta atribui maliciosamente aos fil\u00f3sofos: preenche as lacunas da estrutura do sonho com fragmentos e remendos. Como resultado de seus esfor\u00e7os, o sonho perde sua apar\u00eancia de absurdidade e desconex\u00e3o para o modelo de uma experi\u00eancia intelig\u00edvel.<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 um fil\u00f3sofo inconsciente \u00e0 espreita no meio do sonho, o fil\u00f3sofo sonhador repousa no processo prim\u00e1rio, tornando o prim\u00e1rio em secund\u00e1rio \u2013 e, para ser breve, n\u00e3o existe processo prim\u00e1rio sem o processo secund\u00e1rio. O inconsciente puro, o inconsciente virgem, nunca se apresenta como tal, \u201cem pessoa\u201d, suas lacunas e inconsist\u00eancias s\u00e3o sempre parcialmente preenchidas e feitas de forma apresent\u00e1vel. O fil\u00f3sofo inconsciente \u00e9 um mau fil\u00f3sofo que n\u00e3o esconde seus vest\u00edgios, ele sempre deixa o gato, ao menos parte do gato, fora da bolsa. A revis\u00e3o secund\u00e1ria n\u00e3o pode cobrir as marcas e os vest\u00edgios do processo prim\u00e1rio \u2013 e se, em alguns casos muito raros isso acontecer, se ela manejar para vir com uma narrativa \u201cperfeitamente l\u00f3gica e razo\u00e1vel\u201d, ent\u00e3o Freud nos afirma que esses s\u00e3o casos mais dif\u00edceis de interpretar:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Sonhos desse tipo foram submetidos a uma revis\u00e3o de longo alcance, por essa fun\u00e7\u00e3o ps\u00edquica que \u00e9 semelhante ao pensamento de vig\u00edlia; eles parecem tem um significado, mas esse significado \u00e9 o mais distante poss\u00edvel de seu real significado.<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Existem sonhos que aparecem para fazer sentido porque foram completamente modelados e interpretados por uma inst\u00e2ncia que faz sentido no pr\u00f3prio sonho, mas \u00e9 por isso que o seu aparente sentido \u00e9 t\u00e3o enganoso. Eles parecem n\u00e3o estar precisando de nenhuma interpreta\u00e7\u00e3o, mas requerem esfor\u00e7o m\u00e1ximo da parte do int\u00e9rprete para desmascarar o que est\u00e1 escondido por tr\u00e1s da fachada do sonho (de modo que a maior ilus\u00e3o pertence ao que evidentemente faz sentido e aparentemente n\u00e3o necessita de interpreta\u00e7\u00e3o). Se o fil\u00f3sofo inconsciente for minucioso e n\u00e3o deixar vest\u00edgios, ent\u00e3o essa \u00e9 a maior miragem, a aparente transpar\u00eancia \u00e9 a maior opacidade. Pode-se considerar a filosofia como um sonho desse tipo: um sonho totalmente revisado e bem-sucedido, que supostamente conseguiu encobrir todos os vest\u00edgios, preenchendo todas a rachaduras, e, portanto, apresenta a noz mais dif\u00edcil de quebrar para a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica.<\/p>\n<p>Em poucas palavras, para seguir a imagem de Freud, o inconsciente \u00e9 uma lacuna, e o significado \u00e9 seu preenchimento. O significado fornece uma narrativa, que j\u00e1 inicia no trabalho do \u201cfil\u00f3sofo inconsciente\u201d; o trabalho do significado \u00e9 uma contraparte do funcionamento do inconsciente. O inconsciente e o fil\u00f3sofo s\u00e3o uma dupla em uma divis\u00e3o estranha do trabalho: um faz os buracos, e o outro os preenche. Se houver um diagn\u00f3stico do esfor\u00e7o filos\u00f3fico como tal, ent\u00e3o a quest\u00e3o da filosofia j\u00e1 come\u00e7a no inconsciente \u2013 o fil\u00f3sofo tem um c\u00famplice no inconsciente, que come\u00e7a e acaba com as lacunas mesmo antes de a filosofia come\u00e7ar a preench\u00ea-las. O inconsciente \u00e9 apagado ao mesmo tempo que \u00e9 produzido, e quem o apaga \u00e9 o fil\u00f3sofo inconsciente lutando para fazer sentido e providenciar uma narrativa livre de lacunas. A ilus\u00e3o filos\u00f3fica \u00e9 estrutural, ela tem sua base no pr\u00f3prio inconsciente como suprimido.<\/p>\n<p>Freud nunca se envolveu realmente com Hegel, nunca considerou usar alguns de seus conceitos, como fez com muitos outros fil\u00f3sofos, para melhor ou pior. Ainda, h\u00e1 uma cena inesperada de confronto involunt\u00e1rio, mediante o vi\u00e9s de Heine, onde o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas Hegel, mas a natureza do esfor\u00e7o filos\u00f3fico, Hegel funcionando mais uma vez como o modelo de fil\u00f3sofo. O diagn\u00f3stico: h\u00e1 um ponto cego na filosofia, a saber, sua incapacidade de lidar com o inconsciente, sendo v\u00edtima de uma fantasia que n\u00e3o pode desistir enquanto permanecer filosofia. Mas esse movimento n\u00e3o \u00e9 algo que acontece nos altos reinos do Esp\u00edrito; ao contr\u00e1rio, j\u00e1 est\u00e1 funcionando no inconsciente, que apenas pode prosseguir pela oblitera\u00e7\u00e3o de si mesmo e que n\u00e3o pode ajudar, mas sim, fazer sentido. A divis\u00e3o j\u00e1 \u00e9 a divis\u00e3o interna do inconsciente, a fantasia filos\u00f3fica interv\u00e9m no meio do sonho, na divis\u00e3o entre o prim\u00e1rio e o secund\u00e1rio; a busca por intervalos dispon\u00edveis desde sempre j\u00e1 come\u00e7ou.<\/p>\n<p>Essa imagem da touca de dormir e das lacunas na estrutura do universo, pitoresca e divertida como \u00e9, \u00e9 sem d\u00favida ing\u00eanua e dependente de uma vis\u00e3o indiscriminada da filosofia como um todo, mas tamb\u00e9m de Hegel em particular. Estou usando isso n\u00e3o para confirmar, mas porque isso nos conduz a algo essencial. Perseguindo essa imagem, pode-se dizer que a grande conquista de Hegel reside em apresentar o exato oposto dessa imagem da filosofia, n\u00e3o em concertar as rachaduras do universo, mas em assumir as pr\u00f3prias fissuras como os princ\u00edpios reais do universo, se eu puder adotar esse tipo de linguagem. Se h\u00e1 algo desconcertante e interessante em Hegel, reside em seu grandioso esfor\u00e7o para procurar a rachaduras n\u00e3o como uma falha, uma disfun\u00e7\u00e3o, mas como um princ\u00edpio possibilitador, para assumi-lo como a produtividade do negativo. Ele viu sua tarefa n\u00e3o como preencher as fissuras, mas como produzir cis\u00f5es onde parecia n\u00e3o haver nenhuma, uma cis\u00e3o que possibilita qualquer entidade positiva. Mas aqui est\u00e1 um limite: est\u00e3o Hegel e Freud falando da mesma rachadura? Se h\u00e1 uma cis\u00e3o, ent\u00e3o ela est\u00e1 entre o que?<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>Deixe-me prosseguir com uma cita\u00e7\u00e3o. No Pref\u00e1cio da <em>Fenomenologia<\/em>, Hegel pecou, pela primeira vez, contra seu pr\u00f3prio princ\u00edpio de que qualquer princ\u00edpio fundamental da filosofia \u00e9 defeituoso no exato sentido de ser um princ\u00edpio fundamental. O m\u00e9rito de uma filosofia n\u00e3o pode ser medido em nenhuma afirma\u00e7\u00e3o ou proposi\u00e7\u00e3o fundamental; um princ\u00edpio pode provar seu m\u00e9rito apenas atrav\u00e9s de sua media\u00e7\u00e3o, deixando para tr\u00e1s e, ent\u00e3o, negando o momento fundacional atrav\u00e9s de um desenvolvimento, um desdobramento, uma produ\u00e7\u00e3o, que por si s\u00f3 pode decifrar o que o princ\u00edpio deveria ser. Contudo, pela primeira vez, Hegel prop\u00f4s o ad\u00e1gio fundamental de que tudo depende de uma \u00fanica afirma\u00e7\u00e3o, a saber, de que a verdade n\u00e3o pode ser compreendida como uma subst\u00e2ncia, mas como sujeito \u2013 ou seja, subst\u00e2ncia \u00e9 sujeito. Isso opera como um meta-princ\u00edpio que desqualifica e torna inoperante todos os princ\u00edpios fundamentais. N\u00e3o vou insistir em uma interpreta\u00e7\u00e3o disso aqui \u2013 volumes j\u00e1 foram escritos sobre essa \u00fanica senten\u00e7a \u2013 (em particular por Slavoj \u017di\u017eek) \u2013 vou assumir alguns deles aqui. Tentarei esclarecer as quest\u00f5es por um \u00e2ngulo espec\u00edfico, a cita\u00e7\u00e3o que tenho em mente, que segue a seguir:<\/p>\n<blockquote><p>A disparidade que ocorre na consci\u00eancia entre o eu e a subst\u00e2ncia, que \u00e9 seu objeto, \u00e9 sua distin\u00e7\u00e3o, o pr\u00f3prio <em>negativo<\/em>. Pode ser visto como uma <em>falta<\/em> [<em>Mangel<\/em>] dos dois, mas \u00e9 pr\u00f3pria alma deles, ou seja, \u00e9 o que os move. Esse \u00e9 o motivo porque certas concep\u00e7\u00f5es antigas de <em>vazio <\/em>[<em>das Leere<\/em>] como o que move coisas [<em>das Bewegende<\/em>], uma vez que conceberam o que move as coisas como o <em>negativo<\/em>, mas ainda n\u00e3o entenderam esse negativo como o si [das Selbst].<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Ent\u00e3o, o que mant\u00e9m unidos os dois termos dessa not\u00f3ria proposi\u00e7\u00e3o, a subst\u00e2ncia e o sujeito? A subst\u00e2ncia como suposto princ\u00edpio unit\u00e1rio subjacente ao ser \u00e0 subjetividade? A afirma\u00e7\u00e3o de Hegel afirma que ambos os termos s\u00e3o afetados por uma falta, um vazio, uma negatividade. A alma de cada um \u00e9 a falta, a alma de cada um \u00e9 a falta, e cada alma \u00e9 uma falta na alma que os move. Subst\u00e2ncia e sujeito se sobrep\u00f5em \u00e0 falta como o \u00fanico ponto que t\u00eam em comum \u2013 mas como entender isso? Hegel, a fim de ilustrar isso e dar a essa posi\u00e7\u00e3o uma longa linhagem que remonta ao in\u00edcio da hist\u00f3ria da filosofia, a vincula ao atomismo antigo. Hegel, o arque-idealista, sempre v\u00ea no atomismo uma virada especulativa crucial. Ele escreve em sua <em>L\u00f3gica<\/em>,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>&nbsp;O princ\u00edpio atom\u00edstico, com seus primeiros pensadores, n\u00e3o permaneceu na exterioridade, mas, al\u00e9m de sua abstra\u00e7\u00e3o, continha uma determina\u00e7\u00e3o especulativa de que o vazio foi reconhecido como a fonte do movimento. Isso implica uma rela\u00e7\u00e3o completamente diferente entre \u00e1tomos e o vazio que o mero um-ao-lado-do-outro [<em>Nebeneinander<\/em>] e indiferen\u00e7a m\u00fatua entre os dois. [&#8230;] A vis\u00e3o que a causa do movimento reside no vazio cont\u00e9m aquele profundo pensamento de que a causa do devir pertence ao negativo.<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A grandeza do atomismo, para Hegel, reside no que ele introduziu como objeto do pensamento, na forma como o elemento m\u00ednimo \u00e9 sempre dividido em si mesmo e em um vazio. A atomiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma simples e radical de submeter a mat\u00e9ria para contar, reduzindo-a em elementos indivis\u00edveis e cont\u00e1veis (que pode ser contado como um), mas no mesmo movimento esse elemento at\u00f4mico, essa part\u00edcula elementar, introduz o vazio, em os \u00e1tomos se movem e que s\u00e3o de fato o princ\u00edpio real de seu movimento, <em>das Bewegende<\/em>. Um elemento e o vazio n\u00e3o existem simplesmente um ao lado do outro, eles juntos pertencem ao ponto de forma\u00e7\u00e3o de uma entidade singular redobrada, composta pelo \u00e1tomo e pelo vazio, um e a falta. Entretanto, por mais que se procure um elemento m\u00ednimo, nunca chegamos a um m\u00ednimo e indivis\u00edvel, mas \u00e0 divis\u00e3o como irredut\u00edvel. O elemento m\u00ednimo \u00e9 a pr\u00f3pria divis\u00e3o, n\u00e3o qualquer entidade positiva. O vazio \u00e9, por assim dizer, a meia-falta plat\u00f4nica do elemento como um, e responde essa descri\u00e7\u00e3o pelo fato de estar realmente ausente. O \u00e1tomo de Hegel, sua part\u00edcula elementar, \u00e9, portanto, o pr\u00f3prio \u00e1tomo no seu exato sentido: o que n\u00e3o pode ser divido \u00e9 a divis\u00e3o, a divis\u00e3o sobre a qual a unidade \u00e9 a premissa.<\/p>\n<p>Mas Hegel persegue nessa passagem, enquanto os antigos viam bem o princ\u00edpio da negatividade no vazio, dividindo qualquer elemento em sua raiz, eles n\u00e3o conseguiam compreender nessa negatividade o lugar do eu, o sujeito. Eles perceberam que a subst\u00e2ncia \u00e9 permeada pelo vazio, envolvendo a falta em seu seio, mas eles n\u00e3o tinham ideia de que isso teria uma rela\u00e7\u00e3o com o lugar do sujeito. Isso \u00e9 Hegel em seu m\u00ednimo \u2013 o lugar do sujeito, no ad\u00e1gio \u201csubst\u00e2ncia \u00e9 sujeito\u201d, n\u00e3o \u00e9 outra coisa que sua pr\u00f3pria cis\u00e3o, esse corte ao ser introduzido pelo vazio como princ\u00edpio movente. \u00c9 no vazio que o ser e o pensar se intersecionam. Como ele afirmou na <em>Hist\u00f3ria da Filosofia:<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Esse intervalo [interrup\u00e7\u00e3o, <em>Unterbrechung<\/em>] \u00e9 o outro lado dos \u00e1tomos, o vazio. O movimento do pensamento \u00e9 um movimento que tem em si a ruptura (o pensamento \u00e9 no homem precisamente o que os \u00e1tomos e o vazio s\u00e3o nas coisas, o interior) [das Denken ist im Menschen eben das, was die Atome und das Leere in den Dingen, sein Inneres]).<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Portanto, o pensamento \u00e9 a ruptura do ser, sua <em>Unterbrechung<\/em>, sua interrup\u00e7\u00e3o, e o que o pensamento e seus objetos t\u00eam em comum \u00e9 a ruptura que interrompe objetivamente atrav\u00e9s do vazio. Pensamento e mundo se intersecionam-se no vazio. N\u00e3o se trata aqui de saber se o atomismo \u00e9 uma boa teoria \u2013 Hegel n\u00e3o o endossar\u00e1 em sua pr\u00f3pria descri\u00e7\u00e3o do ser \u2013 nem se essa \u00e9 uma boa interpreta\u00e7\u00e3o do atomismo; o ponto \u00e9 que o atomismo inclui uma certa percep\u00e7\u00e3o que Hegel v\u00ea como v\u00e1lida e de longo-alcance, a saber, que existe um princ\u00edpio de negatividade que move ser e pensar, que esse princ\u00edpio forma o interior de ambos, <em>sein Inneres<\/em>, e o modo pela qual subst\u00e2ncia e sujeito permanecem juntos deve ser vinculada a esse princ\u00edpio.<\/p>\n<p>O sujeito, como Hegel entende essa entidade, n\u00e3o \u00e9 um ser positivo e n\u00e3o existe, \u00e9 localizado nos intervalos, e isso \u00e9 o que empurra cada entidade em um mal-estar (eben diese Unruhe ist das Selbst) \u2013 o eu n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m do mal-estar do Um, sua divis\u00e3o, reside na impossibilidade de qualquer entidade ser igual a si mesma. O sujeito \u00e9 o que o empurra para al\u00e9m de si mesmo, n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m de suas disparidades, a parte invis\u00edvel que causa disparidades (<em>Ungleichheit<\/em>). Se algu\u00e9m quiser decifrar o projeto de Hegel em uma frase, para dar-lhe uma forma at\u00f4mica, para chegar no \u00e1tomo de pensamento de Hegel, poderia dizer: <em>do \u00e1tomo ao cogito<\/em>. H\u00e1 um curto-circuito nessa frase que vincula imediatamente a introdu\u00e7\u00e3o do vazio pelos atomistas, a unidade especulativa do Um e do vazio, com a figura da subjetividade que emerge com o <em>cogito<\/em> cartesiano. A novidade do <em>cogito<\/em> foi precisamente o fato de ter descartado os modos anteriores de pensamento sobre a subjetividade (alma, consci\u00eancia, individualidade) e ter introduzido o sujeito no ponto de uma ruptura na grande cadeira do ser. (\u017di\u017eek destacou isso muitas vezes: \u201ccogito \u00e9 a rachadura no edif\u00edcio do ser\u201d). N\u00e3o \u00e9 uma subst\u00e2ncia, apesar de o pr\u00f3prio Descartes apontar no momento seguinte para a <em>res cogitans<\/em>, mas \u00e9 exatamente o oposto, pelo menos no entendimento radical de Hegel, \u00e9 o que impede qualquer subst\u00e2ncia, qualquer princ\u00edpio subjacente de unidade de persistir mesmo em equidade consigo mesmo. H\u00e1 uma rachadura no ser j\u00e1 encapsulado pelo vazio no antigo atomismo, como um lugar que estava esperando pelo sujeito, por assim dizer. Para simplificar o que foi dito, se <em>subst\u00e2ncia<\/em> \u00e9 a palavra chave da filosofia, a ideia que guia a multiplicidade para um princ\u00edpio subjacente, al\u00e9m das apar\u00eancias e das mudan\u00e7as, ent\u00e3o se poderia dizer que o sujeito, em Hegel, \u00e9 o nome da unidade dividida em dois, da impossibilidade de qualquer subst\u00e2ncia ser uma unidade. Mas qual dualidade? O \u00e1tomo e o vazio s\u00e3o suficientes para essa divis\u00e3o?<\/p>\n<p>Hegel trata a no\u00e7\u00e3o de <em>clinamen<\/em> com algum desprezo. Ele diz na <em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em> que Epicuro considera os \u00e1tomos iguais em peso e, portanto, se movendo da mesma forma at\u00e9 que o movimento direto seja inclinado.<\/p>\n<p>Em uma linha torta [<em>in einer krummen Linie<\/em>] que devia um pouco da linha reta, de forma que colidem entre si, formam, assim, uma unidade meramente superficial, n\u00e3o resultante de sua ess\u00eancia.<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a><\/p>\n<p>De certa forma, toda ambiguidade de Hegel est\u00e1 contida nessa passagem. Poder\u00edamos fazer a seguinte quest\u00e3o: o <em>cliname<\/em> pertence \u00e0 ess\u00eancia? Ou \u00e9 apenas uma adi\u00e7\u00e3o externa? \u00c9 o destino essencial ou externo do \u00e1tomo? Deixe-me trazer aqui Deleuze, que n\u00e3o \u00e9 exatamente um hegeliano, mas que d\u00e1 a essa quest\u00e3o uma resposta muito hegeliana, mais hegeliana que o pr\u00f3prio Hegel. Isso \u00e9 do ap\u00eandice de <em>A L\u00f3gica do Sentido<\/em> sobre Lucr\u00e9cio:<\/p>\n<p>Cliname ou declina\u00e7\u00e3o nada tem a ver com um movimento obl\u00edquo que viria a modificar acidentalmente uma queda vertical. Est\u00e1 presente desde sempre: n\u00e3o \u00e9 um movimento secund\u00e1rio, nem uma determina\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria do movimento que deveria ocorrer em certo momento e em um local determinado. <em>Clinamen<\/em> \u00e9 a determina\u00e7\u00e3o original da dire\u00e7\u00e3o do movimento de um \u00e1tomo.<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[12]<\/a><\/p>\n<p>Assim, <em>clinamen<\/em> sempre aconteceu, \u00e9 a disparidade inscrita na defini\u00e7\u00e3o do \u00e1tomo desde o in\u00edcio, sua disparidade consigo mesmo. O \u00e1tomo \u00e9 sua pr\u00f3pria declina\u00e7\u00e3o, a unidade dividida n\u00e3o meramente de um e do vazio, mas tamb\u00e9m nisso e atrav\u00e9s disso a unidade da entidade com sua pr\u00f3pria declina\u00e7\u00e3o, afastando-se de si mesmo. N\u00e3o \u00e9 um destino secund\u00e1rio que aconteceria com o \u00e1tomo em seu suposto caminho reto \u2013 uma vez que se afastou do caminho, se sup\u00f5e a dire\u00e7\u00e3o reta, mas uma dire\u00e7\u00e3o que n\u00e3o existe em si mesma. Desviar-se retroativamente produz o pr\u00f3prio em-si-mesmo, e esse \u00e9 o lugar onde o sujeito surge. Poder\u00edamos dizer sumariamente, apontados conjuntamente, que o sujeito \u00e9 o <em>clinamen<\/em> da subst\u00e2ncia, da maneira que sempre necessariamente desvia de si mesmo.<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[13]<\/a><\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o poder ser isolado em si mesmo \u00e9 o desvio do \u201cem si mesmo\u201d, sempre retroativamente apagado em seus efeitos, o mediador desaparecido. O <em>clinamen<\/em> n\u00e3o \u00e9 nem o \u00e1tomo nem o vazio, nem algo terceiro, mas o pr\u00f3prio desvio que os condiciona. Ent\u00e3o, poder\u00edamos dizer que, a fim de entender a no\u00e7\u00e3o singular de <em>clinamen<\/em>, o um traz consigo os v\u00e1rios componentes de si: vazio, subst\u00e2ncia, sujeito e negatividade. Estamos chegando na quest\u00e3o essencial: como essa concep\u00e7\u00e3o de negatividade hegeliana relaciona-se com a psican\u00e1lise? O que aconteceu com essa negatividade e a divis\u00e3o entre Hegel e Freud? Deixe-me tomar o <em>clinamen<\/em> como um simples fio vermelho. A maneira de entender o que est\u00e1 em jogo no <em>clinamen<\/em> talvez seja o fator discriminante.<\/p>\n<p>A negatividade freudiana \u00e9 um vocabul\u00e1rio de seis palavras \u201cVer\u201d: <em>Verneinung<\/em>, nega\u00e7\u00e3o; <em>Verdr\u00e4ngung<\/em>, repress\u00e3o; <em>Verwerfung<\/em>, foraclus\u00e3o; <em>Verleugnung<\/em>, desmentido; <em>Verdichtung<\/em>, condensa\u00e7\u00e3o; <em>Verschiebung<\/em>, deslocamento. O que essas seis palavras t\u00eam em comum, \u00e0 primeira vista, \u00e9 o prefixo <em>Ver-<\/em>, que o dicion\u00e1rio Wahrig define primeiro como <em>Abweichen<\/em>, ou desvio, digress\u00e3o, afastar-se. De <em>Ver-<\/em> para <em>clinamen<\/em>, existe apenas um passo, um passo no sentido errado, um passo fora dos trilhos. H\u00e1 um desvio da nega\u00e7\u00e3o em jogo, e se a nega\u00e7\u00e3o hegeliana j\u00e1 \u00e9 um desvio, um desvio de sua rota e se divide em dois, ent\u00e3o o que est\u00e1 em jogo aqui podemos descrever como um desvio do desvio, um cliname do clinamen, uma duplica\u00e7\u00e3o do clinamen. <em>Ver-<\/em> \u00e9 como um clinamen do <em>nein<\/em>, algo no interior da nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o hegeliana, mas um pouco fora dos trilhos. Freud, que era t\u00e3o afei\u00e7oado a trocadilhos e encontro contingente de palavras, nunca despendeu nenhum minuto ponderando sobre esse <em>Ver-<\/em> que traz conjuntamente seus termos-chave como em uma condensa\u00e7\u00e3o on\u00edrica.<\/p>\n<p>Mas, al\u00e9m do v\u00ednculo casual de <em>Ver-<\/em>, esses conceitos s\u00e3o relacionados atrav\u00e9s de um objetivo comum. Eles nomeiam v\u00e1rios modos de negatividade, mas uma negatividade que falha. Uma negatividade que n\u00e3o \u00e9 bem-sucedida em cumprir sua fun\u00e7\u00e3o de negar uma determinada entidade. Eles evocam algo que persiste a despeito da nega\u00e7\u00e3o e atrav\u00e9s da nega\u00e7\u00e3o, ou mais precisamente, algo que a nega\u00e7\u00e3o produz em primeiro lugar. Em todas eles, a nega\u00e7\u00e3o produz algo que a pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode negar. H\u00e1 uma persist\u00eancia da negatividade no pr\u00f3prio fracasso da negatividade.<\/p>\n<p>O fracasso da nega\u00e7\u00e3o \u00e9 mais claro na primeira forma, o caso apesentado em <em>Verneinung<\/em> (1925), onde Freud, em um golpe de tirar o f\u00f4lego, realiza a trajet\u00f3ria da forma gramatical de nega\u00e7\u00e3o \u00e0 puls\u00e3o de morte. Freud inicia com caso elementar e not\u00f3rio do paciente que afirma,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\u201cVoc\u00ea me questiona quem essa pessoa pode ser no sonho. <em>N\u00e3o<\/em> \u00e9 minha m\u00e3e.\u201d Na interpreta\u00e7\u00e3o, tomamos a liberdade de desconsiderar a nega\u00e7\u00e3o [&#8230;]. \u00c9 como se o paciente tivesse dito: \u201c\u00c9 verdade que minha m\u00e3e veio \u00e0 minha mente quando eu pensei nessa pessoa, mas eu n\u00e3o me sinto inclinado a fazer essa associa\u00e7\u00e3o.\u201d<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[14]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um exemplo de nega\u00e7\u00e3o que tornou-se um prov\u00e9rbio, \u201cessa n\u00e3o \u00e9 minha m\u00e3e\u201d, uma nega\u00e7\u00e3o que n\u00e3o acerta seu alvo, n\u00e3o consegue negar a m\u00e3e. Mas esse fundamento \u00e9 suficiente para uma leitura da afirma\u00e7\u00e3o? A verdade de \u201cessa n\u00e3o \u00e9 minha m\u00e3e\u201d \u00e9 o oposto afirmativo da afirma\u00e7\u00e3o \u201cessa \u00e9 minha m\u00e3e\u201d? Freud considera a nega\u00e7\u00e3o como um sinal de repress\u00e3o, <em>Verdr\u00e4ngung<\/em>, o pr\u00f3ximo item de nossa lista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Ent\u00e3o, o conte\u00fado de uma imagem ou ideia reprimida pode fazer seu caminho para a consci\u00eancia, sob condi\u00e7\u00e3o que seja <em>negado<\/em>. Nega\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de tomar conhecimento do que \u00e9 reprimido [&#8230;]. O resultado disso \u00e9 um tipo de aceita\u00e7\u00e3o intelectual do reprimido, enquanto que, ao mesmo tempo, o que \u00e9 essencial para a repress\u00e3o persiste.<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[15]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Portanto, \u201cessa n\u00e3o \u00e9 minha m\u00e3e\u201d pode ser traduzido como \u201cessa \u00e9 minha m\u00e3e\u201d, e o paciente pode bem aceitar isso como o verdadeiro conte\u00fado de sua afirma\u00e7\u00e3o, mas isso n\u00e3o afeta a forma da pr\u00f3pria repress\u00e3o. A nega\u00e7\u00e3o pode habilitar a aceita\u00e7\u00e3o de determinado conte\u00fado, mas o que persiste como recalcitrante da nega\u00e7\u00e3o e sua eleva\u00e7\u00e3o \u00e9 a pr\u00f3pria lacuna na qual o conte\u00fado est\u00e1 estabelecido. Essa lacuna n\u00e3o se esgota pelas alternativas \u201cessa n\u00e3o \u00e9 minha m\u00e3e\u201d e \u201cessa \u00e9 minha m\u00e3e\u201d. Nega\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o s\u00e3o localizadas no mesmo n\u00edvel sem afetar a forma da repress\u00e3o, irredut\u00edvel ao seu conte\u00fado.<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\">[16]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Negar algo em um julgamento \u00e9, no m\u00ednimo, dizer: \u201cIsso \u00e9 algo que prefiro reprimir\u201d. Um julgamento negativo \u00e9 um substituto intelectual da repress\u00e3o; seu \u201cn\u00e3o\u201d \u00e9 a marca da repress\u00e3o, um certificado de origem \u2013 como, digamos, \u201cMade in Germany\u201d. Com a ajuda no s\u00edmbolo da nega\u00e7\u00e3o, o pensamento se liberta das restri\u00e7\u00f5es da repress\u00e3o.<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\">[17]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A nega\u00e7\u00e3o \u00e9 como um certificado de origem, atesta a origem da repress\u00e3o, e se h\u00e1 de fato uma nega\u00e7\u00e3o feita na Alemanha, de todos os lugares, deve ser a nega\u00e7\u00e3o hegeliana. Pode-se dizer, com toda a ambiguidade da afirma\u00e7\u00e3o: \u201cessa n\u00e3o \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o hegeliana\u201d, no mesmo molde de \u201cessa n\u00e3o \u00e9 minha m\u00e3e\u201d. A nega\u00e7\u00e3o hegeliana \u00e9 ent\u00e3o, aceita ou rejeitada? Temos que decidir entre \u201cessa \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o hegeliana\u201d e \u201cessa n\u00e3o \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o hegeliana\u201d? Talvez, de acordo com a leitura de Freud, ambas afirma\u00e7\u00f5es percam a forma de nega\u00e7\u00e3o que surge entre essas alternativas e n\u00e3o \u00e9 esgotada por elas. H\u00e1 uma lacuna na nega\u00e7\u00e3o (da nega\u00e7\u00e3o) hegeliana, \u00e0 espreita do mesmo local, n\u00e3o em outro lugar.<\/p>\n<p>Nega\u00e7\u00e3o em <em>Verneinung<\/em>, como Freud a l\u00ea, \u00e9 um exemplo especial da repress\u00e3o, o segundo conceito da lista. A repress\u00e3o apresenta, \u00e0 primeira vista, um caso ampliado do fio que tenho seguido, a falha da nega\u00e7\u00e3o. Repress\u00e3o significa: algo \u00e9 negado e rejeitado, mas apenas sob o pre\u00e7o de seu retorno. \u00c9 repress\u00e3o apenas na medida em que a nega\u00e7\u00e3o n\u00e3o obt\u00e9m sucesso, na medida em que fracassa. \u00c9 claro, \u00e9 poss\u00edvel encontrar todos os tipos de raz\u00f5es para a repress\u00e3o, pode-se invocar a repressiva moralidade sexual que tenta impedir que um determinado conte\u00fado seja aceito na consci\u00eancia, determinado por san\u00e7\u00f5es e tabus, mas dessa maneira se concentraria no conte\u00fado da repress\u00e3o e negligenciaram sua forma. (E existe o fato de que a maior parte das proibi\u00e7\u00f5es e injun\u00e7\u00f5es morais com as quais Freud teve que lidar perderam sua validade e impacto durante o s\u00e9culo passado, mas isso n\u00e3o eliminou o dilema que tem de algum modo se tornado mais intrat\u00e1vel. A psican\u00e1lise, que contribuiu muito para a emancipa\u00e7\u00e3o sexual, tamb\u00e9m sempre foi c\u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o a isso como uma solu\u00e7\u00e3o salutar.) Se nos concentrarmos na forma da repress\u00e3o, ent\u00e3o o termo-chave de Freud n\u00e3o \u00e9 apenas repress\u00e3o, mas <em>Urverdr\u00e4ngung<\/em>, repress\u00e3o prim\u00e1ria e origin\u00e1ria, n\u00e3o a respeito deste ou daquele conte\u00fado em particular, igualmente n\u00e3o redut\u00edvel aos fundamentos espec\u00edficos da repress\u00e3o social, mas instituindo a pr\u00f3pria forma da repress\u00e3o que pode ser preenchida por conte\u00fados e justificativas particulares. Repress\u00e3o antes de raz\u00e3o suficiente.<\/p>\n<p>O conceito de repress\u00e3o envolve mais dois conceitos <em>Ver-<\/em>, o de <em>Verdichtung<\/em> e <em>Verschiebung<\/em>, condensa\u00e7\u00e3o e deslocamento, que para Freud nomeiam os mecanismos b\u00e1sicos do trabalho do sonho, <em>Traumarbeit<\/em>. Se o sonho aparece como uma mistura, isso se deve ao fato de que cada um de seus elementos apresentar uma condensa\u00e7\u00e3o e um deslocamento de v\u00e1rios elementos. Com uma adi\u00e7\u00e3o crucial que determina o destino da nega\u00e7\u00e3o freudiana e sobre a qual Freud insiste diversas vezes: o sonho n\u00e3o conhece o \u201cn\u00e3o\u201d, n\u00e3o h\u00e1 \u201cn\u00e3o\u201d em seu vocabul\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>A maneira pela qual os sonhos tratam a categoria do contr\u00e1rio e da contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 muito not\u00e1vel. S\u00e3o simplesmente desconsideradas. O \u201cn\u00e3o\u201d parece inexistir no que concerne aos sonhos. Eles mostram uma prefer\u00eancia particular por combinar contr\u00e1rios em uma unidade ou para represent\u00e1-los como a mesma coisa. Al\u00e9m disso, os sonhos sentem-se na liberdade de representar qualquer elemento pelo seu desejo contr\u00e1rio; ent\u00e3o, n\u00e3o existe forma de decidir, em um primeiro momento, se algum elemento que admite o contr\u00e1rio est\u00e1 presente no pensamento on\u00edrico como positivo ou negativo.<a href=\"#_edn18\" name=\"_ednref18\">[18]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sonhos possuem um vasto vocabul\u00e1rio, mas uma palavra parece estar faltando conspicuamente, a palavra \u201cn\u00e3o\u201d. Nega\u00e7\u00e3o, contrariedade, contradi\u00e7\u00e3o \u2013 tudo isso existe nos sonhos, seja por simples justaposi\u00e7\u00e3o, onde entidades contradit\u00f3rias e contr\u00e1rias aparecem lado a lado, ou por coincid\u00eancia imediata, condensa\u00e7\u00e3o dos opostos e um elemento, para que n\u00e3o possamos dizer se \u00e9 positivamente ou negativamente. Cada elemento positivo \u00e9 dotado de reversibilidade, de forma que essa nega\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser isolada; ela existe apenas em uma teia de substitui\u00e7\u00f5es, condensa\u00e7\u00f5es e deslocamentos. Essa teia de negatividades ub\u00edquas tem como premissa paradoxal a elis\u00e3o, a omiss\u00e3o do \u201cn\u00e3o\u201d como um marcador singular de nega\u00e7\u00e3o. Essa literal \u201cnega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o\u201d torna a nega\u00e7\u00e3o onipresente; precisamente em sua aus\u00eancia, o \u201cn\u00e3o\u201d est\u00e1 presente em todas as palavras. Essa \u201cnega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o\u201d no inconsciente fica presa em algo aparentemente infantil demais para a dial\u00e9tica, em semelhan\u00e7as contingentes, trocadilhos, reverbera\u00e7\u00f5es hom\u00f4nimas, deslizamentos improvisados. O que poderia estar mais longe do rigor da concatena\u00e7\u00e3o conceitual na <em>L\u00f3gica<\/em> de Hegel, cada passo vincula-se inerentemente com o anterior pela nega\u00e7\u00e3o autorreflexiva, do que o deslizamento infinito sobre hom\u00f4nimos, semelhan\u00e7as e deslizamentos? O primeiro \u00e9 determinado por um \u201cn\u00e3o\u201d, e a cada passo o \u00faltimo ignora o \u201cn\u00e3o\u201d completamente.<\/p>\n<p>Se existe um sujeito do inconsciente \u2013 algo que Lacan inflexivelmente insistiu em todo seu trabalho, contra a corrente estruturalista \u2013, ent\u00e3o seu sujeito \u00e9, estritamente falando, correlativo a elis\u00e3o do \u201cn\u00e3o\u201d. Mas \u201cn\u00e3o\u201d n\u00e3o \u00e9 uma palavra como qualquer outra, ela simboliza uma propriedade b\u00e1sica da linguagem. Pode-se dizer, de forma simples, que o \u201cn\u00e3o\u201d se encontra no pr\u00f3prio n\u00facleo da linguagem, ou seja, \u00e9 algo que existe apenas na linguagem e n\u00e3o possui contrapartida \u201cnatural\u201d. Com ele, a linguagem nomeia algo que n\u00e3o \u00e9, e sua capacidade de nomear o n\u00e3o-ser \u00e9 o que faz a linguagem. A maior testemunha disso \u00e9 o <em>Sofista<\/em> de Plat\u00e3o, que articula inteiramente a capacidade da linguagem de infundir o ser com o n\u00e3o-ser. (A produ\u00e7\u00e3o de buracos e lacunas j\u00e1 iniciou com Plat\u00e3o). A linguagem traz a nega\u00e7\u00e3o para dentro do mundo, n\u00e3o meramente um contraste ou um contr\u00e1rio, um conflito ou tens\u00e3o, mas a possibilidade de induzir o n\u00e3o-ser. O pr\u00f3prio simb\u00f3lico, por extens\u00e3o, \u00e9 como um \u201cn\u00e3o\u201d na grande cadeia do ser, a pr\u00f3pria possibilidade da negatividade, algo que introduz uma lacuna, uma divis\u00e3o, uma fratura, na qual, para Hegel, depende a pr\u00f3pria capacidade de pensamento \u2013 mas, ap\u00f3s tudo, foi isso o que assombrou a filosofia no seu alvorecer pr\u00e9-socr\u00e1tico, a quest\u00e3o de saber se as entidades negativas s\u00e3o meras criaturas da linguagem ou, ao contr\u00e1rio, se possuem uma contraparte ontol\u00f3gica (ver <em>Parm\u00eanides<\/em>, de Plat\u00e3o). \u00c9 com essa quest\u00e3o que a filosofia come\u00e7ou.<\/p>\n<p>Para completar esse panorama r\u00e1pido do resto da palavra freudiana <em>Ver<\/em>-, posso apenas dar algumas dicas apressadas sobre as duas palavras restantes. Foraclus\u00e3o, <em>Verwerfung<\/em>, \u00e9 o mecanismo pela qual Freud define a psicose. Se psicose \u00e9 baseada na foraclus\u00e3o, ela n\u00e3o pode ser sobre a foraclus\u00e3o da palavra \u201cn\u00e3o\u201d, uma vez que a psicose disp\u00f5e de um vocabul\u00e1rio inteiro e sem faltas \u2013 ou seja, n\u00e3o falta nada. N\u00e3o falta o \u201cn\u00e3o\u201d, mas ao contr\u00e1rio, falta seu impacto simb\u00f3lico, a lacuna que poderia separar a realidade de si mesma, a realidade do real. O que foi foraclu\u00eddo ent\u00e3o retorna como o real emergindo da realidade, coincidindo com a realidade, sem nenhuma lacuna \u2013 alucina\u00e7\u00f5es, vozes, conspira\u00e7\u00f5es, persecu\u00e7\u00f5es, raios divinos, milagres. Psisicose literalmente desencadeia a nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o, desmantelando os poderes da negatividade, n\u00e3o apenas a nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o, mas sua destitui\u00e7\u00e3o e elimina\u00e7\u00e3o. Se seguirmos a linha do fracasso da nega\u00e7\u00e3o, na psicose, a nega\u00e7\u00e3o fracassa com um sucesso espetacular, ela consegue aniquilar a si mesma a tal ponto que a realidade emerge como a corporifica\u00e7\u00e3o da negatividade, sem escapat\u00f3ria poss\u00edvel. A nega\u00e7\u00e3o foraclu\u00edda materializa a si mesma na positividade da realidade. O triunfo da nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o na psicose \u00e9 seu grande fracasso, ela se justifica dde maneira mais grandiosa do que qualquer outra.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, <em>Verleugnung<\/em>, desmentido. Freud a coloca como o principal mecanismo da pervers\u00e3o, em seu sentido t\u00e9cnico, e deve-se marcar desde o in\u00edcio que <em>per-verto<\/em> \u00e9 uma vers\u00e3o latina de <em>Ver-<\/em>. Existe um <em>Ver-<\/em> constitutivo na natureza da sexualidade humana, um <em>Ver-<\/em> natural, seu desvio. Freud inicia seu argumento nos <em>Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade<\/em> (1905) considerando aberra\u00e7\u00f5es sexuais, <em>Abirrungen<\/em>, e ent\u00e3o procede para considerar <em>Abweichungen<\/em> sexual, desvios em rela\u00e7\u00e3o ao objeto sexual e ao objetivo sexual. A partir da\u00ed, podemos afirmar que a sexualidade para Freud pode ser definida como <em>Abirrung<\/em>, <em>Abweichung<\/em>, em uma palavra, pelo <em>clinamen<\/em> da trajet\u00f3ria da causalidade natural e da satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades fisiol\u00f3gicas. H\u00e1 um <em>clinamen<\/em> no conceito de sexualidade, o pr\u00f3prio conceito de puls\u00e3o, isto \u00e9, puls\u00e3o apenas pela virtude de seu desvio e n\u00e3o pode ser apreendido independentemente dele. Existe o famoso ad\u00e1gio da <em>Threepenny Opera<\/em>, de Brecht: o que o roubo de um banco comparado \u00e0 funda\u00e7\u00e3o de um? O que s\u00e3o todos esses pequenos roubos comparados com o roubo sistem\u00e1tico, legalizado, duradouro perpetrado pelos bancos? Por analogia, pode-se dizer que o tratamento de Freud \u00e0 pervers\u00e3o nos <em>Tr\u00eas ensaios<\/em> coloca a seguinte quest\u00e3o: o que s\u00e3o todas as pervers\u00f5es, todos os desvios do objeto ou objetivo sexual comum, em compara\u00e7\u00e3o com a sexualidade como tal, que em si mesma n\u00e3o \u00e9 nada mais que um grande desvio? No que concerne \u00e0 pervers\u00e3o, em um sentido mais limitado e t\u00e9cnico, a nega\u00e7\u00e3o pode ser entendida no relato freudiano do fetichismo, o fetiche como algo que preenche o vazio por sua presen\u00e7a fascinante, nega a castra\u00e7\u00e3o e a falta ao apegar-se ao objeto que disfar\u00e7a o vazio, como o famoso cen\u00e1rio freudiano. A negatividade \u00e9 nega\u00e7\u00e3o ao se apegar ao objeto que o cobre no esplendor de sua exist\u00eancia positiva, apegando-se a uma cren\u00e7a contra um conhecimento melhor (\u201cEu sei muito bem, mas mesmo assim&#8230;\u201d). Aqui podemos ver uma atitude que poderia incorporar a imagem filos\u00f3fica de Heine e de Freud como preenchendo as lacunas \u2013 o pervertido n\u00e3o seria algu\u00e9m que iria meramente usar a touca de dormir como um meio \u00e0 m\u00e3o para preencher as rachaduras, mas a tornaria em um objeto de venera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 o meio desesperado e casual de preencher as rachaduras, mas o objeto a ser saboreado, o objeto parcial tornado um todo. (E aqui \u00e9 poss\u00edvel dar um exemplo singular do Marques de Sade, o maior fil\u00f3sofo entre os perversos \u2013 n\u00e3o havia muita competi\u00e7\u00e3o nessa categoria, por raz\u00f5es estruturais \u2013 cuja <em>Filosofia da Alcova<\/em> \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de um remendo dr\u00e1stico e literal da lacuna).<\/p>\n<p>Tr\u00eas das palavras de <em>Ver-<\/em>, <em>Verdr\u00e4ngung, Verwerfung<\/em>, e&nbsp;<em>Verleugnung<\/em> servem como a base das tr\u00eas estruturas cl\u00ednicas destacadas por Freud \u2013 neurose, psicose e pervers\u00e3o \u2013 como a base de sua classifica\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. Pode-se dizer que elas apresentam as tr\u00eas maneiras de nega\u00e7\u00e3o, tr\u00eas formas pelas quais a nega\u00e7\u00e3o fracassa e se justifica ou trabalha atrav\u00e9s de seus pr\u00f3prios desvios. Elas s\u00e3o como a vers\u00e3o freudiana do que Hegel chamou, no come\u00e7o da <em>Enciclop\u00e9dia<\/em>, \u201cdrei Stellungen des Gedanken zur Objektivit\u00e4t.\u201d<\/p>\n<p>Se agora eu trouxer todas os t\u00f3picos juntos e fazer uma conclus\u00e3o provis\u00f3ria, diria que a dist\u00e2ncia entre Hegel e Freud talvez possa ser mais economicamente encapsulada pela dist\u00e2ncia entre duas palavras, ou melhor, uma palavra e uma palavra parcial, <em>nein<\/em> e <em>Ver-<\/em>. Como na condena\u00e7\u00e3o on\u00edrica, as duas palavras s\u00e3o fundidas em uma \u00fanica palavra alem\u00e3, <em>Verneinung<\/em>. Curiosamente, ela n\u00e3o est\u00e1 no vocabul\u00e1rio de Hegel; ele prefere a <em>nega\u00e7\u00e3o<\/em> latina. <em>Ver-<\/em> e <em>nein<\/em>: a nega\u00e7\u00e3o de <em>nein<\/em> na contiguidade imediata com <em>Ver-<\/em>, que a desvia. <em>Ver-<\/em> n\u00e3o \u00e9 outra coisa \u2013 completamente diferente de <em>nein<\/em>, ele habita a nega\u00e7\u00e3o por dentro e d\u00e1 outro giro em si mesmo. Se para Hegel cada entidade positiva est\u00e1 sempre marcada pela negatividade, sempre em disparidade consigo mesma, um desvio de si mesma, ent\u00e3o a opera\u00e7\u00e3o freudiana pode ser vista como um desvio dentro desse desvio, um <em>clinamen<\/em> de seu <em>clinamen<\/em>. <em>Ver-<\/em> corr\u00f3i o \u201cn\u00e3o\u201d, opera em seu seio. A nega\u00e7\u00e3o (hegeliana) \u00e9 o <em>sine qua non<\/em> do <em>Ver-<\/em>. Nesse sentido, Hegel, por levar a quest\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o ao auge, \u00e9 o <em>sine qua non<\/em> da negatividade freudiana. Ou, em outras palavras: j\u00e1 h\u00e1 uma nega\u00e7\u00e3o hegeliana que \u00e9 um <em>Ver-<\/em>, de <em>Verstand<\/em> ou <em>Vernuft<\/em>, que n\u00e3o \u00e9 nada mais que o reino do desdobramento da negatividade hegeliana, e o <em>Ver-<\/em> freudiano n\u00e3o \u00e9 nada sen\u00e3o sua extens\u00e3o, o que muda tudo.<\/p>\n<p>No mesmo sentido, o inconsciente pode ser visto como um cliname do cogito. Lacan causou algum esc\u00e2ndalo com sua afirma\u00e7\u00e3o de que o cogito \u00e9 o sujeito do inconsciente, que est\u00e1 na dire\u00e7\u00e3o oposta da vis\u00e3o geral de que n\u00e3o havia duas coisas mais distantes do que o sujeito cartesiano racional e os caprichos do inconsciente. No entanto, uma das reivindica\u00e7\u00f5es das afirma\u00e7\u00f5es de Lacan \u00e9 que o sujeito do inconsciente apenas pode ser apreendido com base do cogito, dentro da estrutura do cogito e da subjetividade moderna, n\u00e3o de sua contraparte irracional. \u00c9 poss\u00edvel afirmar que o sujeito do inconsciente \u00e9 o <em>Ver-<\/em> do cogito, apresentando exatamente uma virada como a <em>Ver-<\/em> faz em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nega\u00e7\u00e3o hegeliana. E se o Saber Absoluto hegeliano pode ser concebido n\u00e3o como um preenchimento definitivo das rachaduras \u2013 a lacuna na estrutura do universo \u2013, mas como a maneira de mant\u00ea-las, em um gesto em que a rachadura deve ser a predica\u00e7\u00e3o autorreflexiva sobre si mesma, ent\u00e3o o inconsciente freudiano \u00e9 a rachadura dentro dessa pr\u00f3pria rachadura.<\/p>\n<p>\u201c\u00c7a n\u2019emp\u00eache pas d\u2019exister\u201d, diz Freud, seguindo Charcot: isso n\u00e3o impede a exist\u00eancia de algo que insiste a despeito da nega\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da nega\u00e7\u00e3o, em seu seio, mas algo que n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel a alguma factualidade positiva e, por fim, n\u00e3o existe \u2013 mas que algo n\u00e3o pode ser concebido sem nega\u00e7\u00e3o, al\u00e9m disso, sem um clinamen da nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o. Pode-se alterar um pouco a frase: \u201cl\u2019\u00eatre n\u2019emp\u00eache pas d\u2019exister,\u201d ou ser n\u00e3o impede algo de existir e insistir. Toda a no\u00e7\u00e3o hegeliana de ser depende da negatividade e da cis\u00e3o, e o passo impl\u00edcito pelo <em>Ver-<\/em> \u00e9 a cis\u00e3o da pr\u00f3pria cis\u00e3o. \u00c9 por essa cis\u00e3o que o pensamento se apega ao ser, na dupla figura do Saber Absoluto e do inconsciente, esse excesso e defici\u00eancia, ou falha, do conhecimento. Mais pontualmente: o sujeito da psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 apenas o <em>Ver-<\/em> do cogito, mas o <em>Ver-<\/em> desse entendimento do cogito levado ao extremo, no fim da imponente tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, pelo Saber Absoluto.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mladen Dolar<\/strong> ensinou por 20 anos do Departamento de Filosofia da Universidade de Ljubljana, Eslov\u00eanina, onde ele agora trabalha como Pesquisador S\u00eanio. Ele \u00e9 membro do conselho editorial da revista <em>Problemi<\/em> e da cole\u00e7\u00e3o <em>Analecta<\/em>. Ele \u00e9 tamb\u00e9m um dos fundadores da Sociedade de Psicanalise Te\u00f3rica e da Sociedade de Estudos Culturais. Sua pesquisa cient\u00edfica concentra-se sobre: Filosofia cl\u00e1ssica alem\u00e3, estruturalismo, psican\u00e1lise te\u00f3rica e filosofia da m\u00fasica. Ele \u00e9 autores de in\u00fameros livros, como <em>A Voice and Nothing More<\/em> (2006) e mais recentemente <em>Opera\u2019s Second Death<\/em> (com Slavoj Zizek).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Heinrich Heine, <em>Heimkehr<\/em> LVIII. H\u00e1 tamb\u00e9m um subtexto que este atrai refere-se ao uso noturno. Em uma famosa se\u00e7\u00e3o do pref\u00e1cio de <em>A Filosofia do Direito<\/em>, Hegel descreve a noite como o adequado tempo para o cumprimento de filosofia. \u201cA coruja de Minerva inicia seu v\u00f4o ao entardecer [mit der einbrechenden D\u00e4mmerung].\u201d Assim, \u00e9 apenas apropriado imaginar Hegel no momento apical da filosofia, entre o crep\u00fasculo e o ir dormir.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Heinrich Heine, <em>The Complete Poems of Heinrich Heine<\/em>: <em>A Modern English Version<\/em>, trans. Hal Draper (Boston: Suhrkamp \/ Insel, 1982), 99. \u201cZu fragmentarisch ist Welt und Leben! \/ Ich will mich zum deutschen Professor begeben. \/ Der weiss das Leben zusammenzusetzen, \/ Und er macht ein verst\u00e4ndlich System daraus; \/ Mit seinen Nachtm\u00fctzen und Schlafrockfetzen \/ Stopft er die L\u00fccken des Weltenbaus.\u201d<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Vida e o mundo s\u00e3o muito fragmentados para mim! \/ Um professor alem\u00e3o pode me dar a chave.<\/p>\n<p>Ele coloca a vida em ordem com habilidades magistrais; \/ Constr\u00f3i um sistema racional para melhor ou pior; \/ Com touca de dormir e roup\u00e3o e restos para material; \/ Ele abre os buracos no universo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Sigmund Freud, <em>New Introductory Lectures on Psychoanalysis<\/em>, (Penguin Freud Library, vol. 2), 196.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Sigmund Freud, <em>The Interpretation of Dreams<\/em>, (Penguin Freud Library, vol. 4), 631.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Ibid., 630.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Ibid., 630-1.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Badiou inicia sua <em>Th\u00e9orie du sujet<\/em> alegando que \u201cno cora\u00e7\u00e3o da dial\u00e9tica hegeliana deve desembara\u00e7ar dois processos, dois conceitos de movimento, e n\u00e3o apenas uma vis\u00e3o em tornar o que \u00e9 corrompido\/distorcido por um sistema subjetivo de conhecimento. Digamos, por exemplo: a) uma matriz dial\u00e9tica coberta pela palavra aliena\u00e7\u00e3o, a ideia de um simples termo que se implanta por seu tornar-se outro para vir de volta a si mesmo como um conceito preenchido; b) uma matriz dial\u00e9tica cujo operador \u00e9 a cis\u00e3o, o tema \u2018n\u00e3o h\u00e1 unidade exceto uma ruptura&#8217; [<em>il ny a d\u00b4unit\u00e9 that scind\u00e9<\/em>]. Sem ao menos o retorno sobre si mesmo, sem a conex\u00e3o entre o final e a inicial (inaugural).&#8221; Alain Badiou, <em>Th\u00e9orie du sujet<\/em> (Paris: Seuil, 1982), pp. 21\u20132. O bom Hegel seria o Hegel da cis\u00e3o, isto \u00e9, de uma contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o sim\u00e9trica que n\u00e3o pode ser sublocada em uma unidade de n\u00edvel mais alto.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Modificado de G. W. F. Hegel, <em>Phenomenology of Spirit<\/em>, trans. Terry Pinkard (2010), 20. Ver: http:\/\/web.mac.com\/titpaul\/Site\/Phenomenology_of_Spirit_page.html. \u201cDie Ungleichheit, die im Bewu\u00dftsein zwischen dem Ich und der Substanz, die sein Gegenstand ist, stattfindet, ist ihr Unterschied, dasNegative\u00fcberhaupt. Es kann als der Mangel beider angesehen werden, ist aber ihre Seele oder das Bewegende derselben; weswegen einige Alte das Leere als das Bewegende begriffen, indem sie das Bewegende zwar als dasNegative, aber dieses noch nicht als das Selbst erfa\u00dften.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> G. W. F. Hegel, <em>Science of Logic<\/em> (TWA 5), 185-6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> G. W. F. Hegel, <em>History of Philosophy<\/em> (TWA 19), str. 311.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> Ibid., 313.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> Gilles Deleuze, <em>The Logico f Sense<\/em>, trans. Mark Lester and Charles Stivale (New York: Columbia UP, 1990), 311.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[13]<\/a> Pode-se ler aqui Deleuze com Badiou, que est\u00e1 ciente da tor\u00e7\u00e3o hegeliana: \u201c[Clinamen] n\u00e3o se refere ao vazio nem aos \u00e1tomos nem a\u00e7\u00e3o causal de um por outro. Nem \u00e9 um terceiro componente, um terceiro princ\u00edpio. [&#8230;] Clinamen \u00e9 o \u00e1tomo como fora-do-espa\u00e7o [<em>hors-lieu<\/em>] do vazio. Digamos numa vis\u00e3o mais ampla, e longe de os gregos, esse clinamen \u00e9 o sujeito, ou mais precisamente, subjetiva\u00e7\u00e3o.&#8221; Alain Badiou, <em>Th\u00e9orie du sujet<\/em>, p. 77. \u201c\u00c9 absolutamente necess\u00e1rio que clinamen seja abolido pelo seu pr\u00f3prio giro. [&#8230;] Qualquer explica\u00e7\u00e3o particular de qualquer coisa particular n\u00e3o deve exigir clinamen, embora a exist\u00eancia de uma coisa em geral \u00e9 impens\u00e1vel sem ele.&#8221; Ibid., p. 79. \u201cO \u00e1tomo afetado por desvio produz o Todo sem resto ou tra\u00e7o nessa afeta\u00e7\u00e3o. Melhor ainda: o efeito \u00e9 a supress\u00e3o retroativa da causa [\u2026] o desvio, n\u00e3o sendo nem o \u00e1tomo nem o vazio nem a a\u00e7\u00e3o do vazio nem do sistema de \u00e1tomos, \u00e9 inintelig\u00edvel. &#8221; Ibid., p. 80.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[14]<\/a> Sigmund Freud, \u201cNegation,\u201d in On Metapsychology, The Pelican Freud Library, vol. 11 (Harmondsworth: Penguin Books, 1977), 437.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[15]<\/a> Ibid., 437-8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[16]<\/a> Essa linha de argumenta\u00e7\u00e3o eu devo a Alenka a Zupan\u010di\u010d. Ver tamb\u00e9m Jean-Fran\u00e7ois Lyotard, <em>Discours, Figure<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\">[17]<\/a> Sigmund Freud, \u201cNegation,\u201d 438-9.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref18\" name=\"_edn18\">[18]<\/a> Sigmund Freud, <em>The Interpretation of Dreams<\/em>, 429\u201330. Cf. Sigmund Freud, <em>Jokes and their Relation to the Unconscious<\/em> (Penguin Freud Library, vol. 6), 233.<\/p>\n<hr>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/>\n<\/strong><strong>Autor: Mladen Dolar<\/strong><\/p>\n<p><strong>Publicado:&nbsp; Abril de 2012<\/strong><br \/>\n<strong><br \/>\nOriginal:<\/strong>&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.e-flux.com\/journal\/34\/68360\/hegel-and-freud\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Link aqui<\/a><br \/>\n<strong><br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Mois\u00e9s Jo\u00e3o Rech<\/strong><br \/>\n<strong><br \/>\nRevis\u00e3o: Carla Oliveira e Leonardo Mendon\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p><strong>Arte: Felipe Aiello<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Mladen Dolar Hegel e Freud n\u00e3o t\u00eam nada em comum, ao que parece; h\u00e1 tudo para op\u00f4-los. 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