{"id":560,"date":"2020-07-31T16:38:58","date_gmt":"2020-07-31T19:38:58","guid":{"rendered":"https:\/\/tradutoresproletarios.wordpress.com\/?p=560"},"modified":"2021-01-23T05:22:56","modified_gmt":"2021-01-23T05:22:56","slug":"alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/","title":{"rendered":"Em defesa da com\u00e9dia \u2014 Alenka Zupan\u010di\u010d"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"  wp-image-564 alignleft\" src=\"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2020\/07\/artestandupcomedy.jpg\" alt=\"artestandupcomedy\" width=\"733\" height=\"488\"><\/p>\n<p>Vivemos em tempos em que a com\u00e9dia \u2013 e especialmente a com\u00e9dia \u2013 \u00e9 muitas vezes amea\u00e7ada pela direita e pela esquerda. Talvez ainda mais pela esquerda: como Angela Nagle apontou, temos testemunhado ultimamente uma giro curioso em que a nova direita populista est\u00e1 assumindo o lado da transgress\u00e3o e da rebeli\u00e3o, tradicionalmente associadas a esquerda: ela fala em quebrar tabus (de fala, mas tamb\u00e9m de conduta), ela ousa falar francamente, dizer coisas proibidas, desafiar as estruturas estabelecidas (incluindo a m\u00eddia) e denunciando as \u201celites\u201d. Mesmo quando no poder, a direita continua com sua ret\u00f3rica \u201cdissidente\u201d de oposi\u00e7\u00e3o e de corajosa transgress\u00e3o (por exemplo, contra institui\u00e7\u00f5es europeias, ou contra o \u201cEstado profundo\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>). Essa mudan\u00e7a geral do simples conservadorismo para a transgress\u00e3o pela direta tem tamb\u00e9m seus momentos c\u00f4micos. Por exemplo, mesmo a desconsidera\u00e7\u00e3o das normas mais benignas da civilidade pode ser vista como uma transgress\u00e3o corajosa. Insulto algu\u00e9m e, ent\u00e3o, afirmo que estou defendendo minha liberdade de express\u00e3o. A transgress\u00e3o parece ser \u201csexy\u201d, mesmo que signifique simplesmente n\u00e3o mais cumprimentar seu vizinho, porque \u201cQuem inventou essas regras est\u00fapidas e por que devo obedec\u00ea-las?\u201d Nessa constela\u00e7\u00e3o e ap\u00f3s desistir das ideias mais radicais de justi\u00e7a social, a esquerda paradoxalmente acabou no lado conservador: defendendo o Estado de Direito, conservando o que temos, e respondendo a contradi\u00e7\u00f5es, excessos, e mesmo cat\u00e1strofes geradas pelo atual sistema socioecon\u00f4mico (crises, colapsos ambientais iminentes, guerras, enormes desigualdades econ\u00f4micas, corrup\u00e7\u00e3o, a ascens\u00e3o das ideias neo-fascistas) atrav\u00e9s da introdu\u00e7\u00e3o de cada vez mais regras, regula\u00e7\u00f5es e ajustes que supostamente cont\u00eam as \u201canormalidades\u201d represadas. Esse crescimento \u2013 e corpo muitas vezes impenetr\u00e1vel de regras e sub-regras, que s\u00e3o facilmente desconsideradas pelos grandes jogadores, mas tende a complicar drasticamente a vida dos <em>players<\/em> e indiv\u00edduos menores \u2013 inclui regras e injun\u00e7\u00f5es \u201cculturais\u201d que se tornaram nas d\u00e9cadas passadas o principal campo de batalha entre a \u201cesquerda\u201d e a \u201cdireita\u201d, particularmente nos Estados Unidos. Quando a quest\u00e3o de obedecer e apoiar ou n\u00e3o as regras do politicamente correto (e de pol\u00edticas identit\u00e1rias) se torna o <em>principal<\/em> e exclusivo campo da luta social, ent\u00e3o algo deu muito errado. Ou muito certo, para a direita, certamente. A direita tem ganhado n\u00e3o simplesmente porque mais e mais as pessoas aderem \u00e0s suas ideias, mas porque o elemento que faz a diferen\u00e7a (entre direita e esquerda) mudou e tornou-se completamente redefinido como uma guerra cultural.<\/p>\n<p>Relacionado a isso, mas mais espec\u00edfico em seu funcionamento e seu papel ideol\u00f3gico est\u00e1 a \u00eanfase sobre o afeto, vitimiza\u00e7\u00e3o, vulnerabilidade, sentimentos feridos, ofensa, e o recurso \u00e0s autoridades sociais para nos proteger disso. Um tipo de \u201cinfantiliza\u00e7\u00e3o\u201d massiva das nossas sociedades. Somos encorajados a nos comportarmos como crian\u00e7as: a agir principalmente sobre como nos \u201csentimos\u201d, a demandar \u2013 e depender \u2013 prote\u00e7\u00e3o constante contra o \u201cmundo exterior\u201d, seus perigos e lutas, ou simplesmente contra o mundo dos outros, outros seres humanos.<\/p>\n<p>Importantes movimentos sociais (como o #MeToo) s\u00e3o frequentemente canalizados exclusivamente para a l\u00f3gica do \u201cjuntar-se ao clube\u201d (das v\u00edtimas) e demandando que o Outro (diferentes institui\u00e7\u00f5es sociais e medidas preventivas) nos proteja da vilania do poder, ao contr\u00e1rio de capacitar nosso empoderamento e nos tornar agentes ativos de luta e mudan\u00e7a social. A valoriza\u00e7\u00e3o da afetividade e dos sentimentos aparece no exato momento em que alguns problemas \u2013 injusti\u00e7a, para dizer \u2013 exigem uma revis\u00e3o mais radical e sist\u00eamica a respeito de suas causas e perpetua\u00e7\u00e3o. A valoriza\u00e7\u00e3o social dos afetos significa basicamente que pagamos ao queixoso com seu pr\u00f3prio dinheiro: Ah, mas seus sentimentos s\u00e3o t\u00e3o preciosos, voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o precioso! Quando mais voc\u00ea sente, mais precioso voc\u00ea \u00e9. Essa \u00e9 a uma t\u00edpica manobra neoliberal, que transforma at\u00e9 nossas experi\u00eancias traum\u00e1ticas em poss\u00edvel capital social. Se pudermos capitalizar nossos afetos, limitaremos nossos protestos a declara\u00e7\u00f5es desses afetos \u2013 ou seja, declara\u00e7\u00f5es de sofrimento e dor. N\u00e3o estou dizendo que nosso sofrimento n\u00e3o deve ser expressado e comentado, mas que isso n\u00e3o deveria \u201ccongelar\u201d o sujeito na figura da v\u00edtima. A revolta deve ser precisamente sobre recusar ser uma v\u00edtima, rejeitando essa posi\u00e7\u00e3o em todos os n\u00edveis poss\u00edveis.<\/p>\n<p>\u00c9 muito \u00f3bvio que essa mudan\u00e7a para os sentimentos, afetos, sensibilidade e sua considera\u00e7\u00e3o\/prote\u00e7\u00e3o (o oposto de estarem equipados para lutar, retrucar e lidar com as coisas) \u00e9 um meio n\u00e3o amistoso para a com\u00e9dia (e piadas). Em tempos quando precisamos de alertas para poder ler certas passagens de Shakespeare sem nos machucar, a com\u00e9dia tem pouco espa\u00e7o para respirar.<\/p>\n<p>Conheci uma garota uma vez que se tornou obcecada com a ideia de evitar todos os poss\u00edveis alimentos ruins e n\u00e3o saud\u00e1veis, e estabelecer uma perfeita harmonia em seu corpo. Em certo ponto, ela estava me dizendo qu\u00e3o perto ele chegou de atingir esse objetivo. Como prova, ela me disse que se ela comer apenas um pequeno peda\u00e7o de chocolate, ela vomita. Seu corpo encontrou a harmonia perfeita e \u00e9 agora capaz de detectar e imediatamente rejeitar o menor elemento estranho ou ruim.<\/p>\n<p>E podemos perguntar, com Nietzsche, do que se trata a \u201cboa sa\u00fade\u201d? Trata-se de ser capaz de digerir e <em>lidar com<\/em> alguma soma de comida \u201cruim\u201d e outros elementos \u201cestranhos\u201d, ou se trata de colapsar e vomitar violentamente ao menor sinal de algo \u201cruim\u201d ou \u201cestranho\u201d?<\/p>\n<p>A com\u00e9dia est\u00e1 claramente ao lado da primeira op\u00e7\u00e3o e \u00e9 de fato um fen\u00f4meno interessante a esse respeito: ela demanda muito sentimento e sensibilidade quando se trata de explorar as estruturas sociais e detecta seus paradoxos, contradi\u00e7\u00f5es e pontos nevr\u00e1lgicos, mas tamb\u00e9m exige algum grau de fraqueza e insensibilidade quando apresenta esses pontos em sua forma (c\u00f4mica) espec\u00edfica.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, algum grau de blasf\u00eamia e uma poss\u00edvel ofensa, de \u201ccruzar a linha\u201d, s\u00e3o elementos quase constitutivos da com\u00e9dia (e das piadas). N\u00e3o apenas porque a com\u00e9dia favorece transgress\u00e3o, mas porque ela essencialmente<em> funciona<\/em> <em>com<\/em> o que est\u00e1 no outro lado: com impulsos e ideias que tendemos a ter, mas n\u00e3o nos permitimos express\u00e1-las ou simplesmente n\u00e3o (queremos) pensar a respeito. E podemos dizer que, de um ponto de vista c\u00edvico e civilizado, muitas vezes \u00e9 ben\u00e9fico que n\u00e3o nos permitimos a expressar esses impulsos. Mas o que \u00e9, ou deveria ser <em>ben\u00e9fico<\/em> do ponto de vista c\u00edvico, \u00e9 que n\u00e3o apenas os <em>reprimimos<\/em>, mas os confrontamos e lidamos com eles atrav\u00e9s de outros meios que n\u00e3o a repress\u00e3o. O que est\u00e1 acontecendo a esse respeito \u00e9 uma gigantesca repress\u00e3o, acompanhado pelo necess\u00e1rio retorno do reprimido. (E a com\u00e9dia \u00e9 a forma social que permite por outros meios que lidemos com esses impulsos).<\/p>\n<p>No relato freudiano cl\u00e1ssico, a maioria das piadas (as t\u00e3o faladas piadas tendenciosas) trabalham com e por causa de nossa resist\u00eancia. H\u00e1 algo em n\u00f3s mesmos que resiste ao conte\u00fado, ou ao objetivo da piada \u2013 se expressa de forma clara e n\u00e3o-c\u00f4mica. A t\u00e9cnica de uma piada contorna essa resist\u00eancia ou a rompe completamente, gra\u00e7as a um prazer adicional e inesperado que deriva dessa pr\u00f3pria t\u00e9cnica. A oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas simplesmente entre uma forma direta e uma indireta de dizer algo (essa, ao contr\u00e1rio, constitui a forma da cortesia): uma piada diz coisas muito diretamente, mas por meios inesperados e sem um padr\u00e3o. Sua t\u00e9cnica permite ir direto ao ponto nos surpreendendo, nos apanhando desprevenidos.<\/p>\n<p>Mas vamos voltar um momento para a quest\u00e3o da resist\u00eancia. Podemos complicar essa quest\u00e3o ao distinguir entre dois tipos de resist\u00eancia. H\u00e1 uma configura\u00e7\u00e3o simples que poderia ser descrita da seguinte forma: eu (mais ou menos secretamente) concordo com o argumento da piada, mas resisto a isso porque regras \u201cculturais\u201d externas (\u201cn\u00e3o se deve dizer tais coisas em voz alta\u201d). E ent\u00e3o, quando algu\u00e9m encontra uma forma ing\u00eanua de dizer isso posso achar gra\u00e7a e rir.<\/p>\n<p>Em seguida, h\u00e1 outra forma de resist\u00eancia que \u00e9 mais interessante porque resisto ao pr\u00f3prio conte\u00fado: \u00e9 o conte\u00fado, e n\u00e3o apenas sua express\u00e3o, que eu acho perturbador ou inadmiss\u00edvel. Aqui estamos lidando usualmente com a configura\u00e7\u00e3o onde algo como a <em>repress\u00e3o<\/em> (no exato sentido freudiano de <em>Verdr\u00e4ngung<\/em>) concernente a um conte\u00fado espec\u00edfico de nosso desejo ocorre. Aqui a configura\u00e7\u00e3o se altera, n\u00e3o \u00e9 mais o que \u201ceu gostaria de dizer, mas normas culturais, considera\u00e7\u00f5es de respeito, polidez, etc. me impedem de faz\u00ea-lo.\u201d N\u00e3o, eu <em>n\u00e3o<\/em> gostaria de dizer ou ouvir, nesse caso. Quando ocorre a repress\u00e3o (de um certo impulso espec\u00edfico do conte\u00fado), isso n\u00e3o implica que eu queira secretamente fazer isso, apenas n\u00e3o o admito; isso, ao contr\u00e1rio, significa que estou profundamente repugnado por isso (tenho fortes <em>sentimentos<\/em> sobre a quest\u00e3o, ou contra ela). H\u00e1 um velho ditado segundo o qual diz que os mais zelosos, fervorosos e fan\u00e1ticos anti-gays s\u00e3o \u201chomossexuais recalcados\u201d. Provavelmente isso \u00e9 verdade, pelo menos alguns casos, mas n\u00e3o significa que eles sejam secretamente gays, mas apenas n\u00e3o admitir\u00e3o isso em p\u00fablico. N\u00e3o, eles genuinamente odeiam esse impulso em si mesmos, motivo pelo qual tentam reagir t\u00e3o violentamente quando eles percebem isso nos outros. N\u00e3o se trata apenas da duplicidade (p\u00fablico\/privado), trata-se do fato de que nossos sentimentos mais aut\u00eanticos podem j\u00e1 envolver alguma forma de repress\u00e3o que se manifesta precisamente em nossos sentimentos espont\u00e2neos, imediatos.<\/p>\n<p>Agora, novamente, isso n\u00e3o envolve uma postura culturalmente e moralmente clara e inequ\u00edvoca. A estrutura de algumas outras rea\u00e7\u00f5es de repuls\u00e3o (outras que n\u00e3o sejam homof\u00f3bica), rea\u00e7\u00f5es que achamos boas e dignas, n\u00e3o s\u00e3o menos \u201cpatol\u00f3gicas\u201d e tem uma origem similar. Por exemplo, \u00e9 seguindo o mesmo mecanismo que encontramos o canibalismo e a tortura, repulsivos e profundamente perturbador. Porque esses impulsos n\u00e3o s\u00e3o simplesmente desconhecidos para n\u00f3s, mas tem se <em>tornam<\/em> desconhecidos, \u201cestranhos\u201d no processo de lidar com eles de uma forma \u201ccivilizada\u201d (na maioria das vezes mediante a repress\u00e3o).<\/p>\n<p>Conservadores tradicionais e moralistas odiavam Freud por ele revelar e indicar uma fonte n\u00e3o-moral de toda moralidade, que supostamente levaria \u00e0 completa relativiza\u00e7\u00e3o e abandono desta \u00faltima. No entanto, Freud pontuou que essa fonte da moralidade era muito mais poderosa e resistente do que sua funda\u00e7\u00e3o em princ\u00edpios abstratos, no Bem (divino) ou na \u201craz\u00e3o pura\u201d. A afirma\u00e7\u00e3o que a fonte da moralidade n\u00e3o \u00e9 em si mesma \u201cmoral\u201d n\u00e3o solapa sua efici\u00eancia, mas ao contr\u00e1rio, a explica. Isso permitiu Freud dizer que \u201co homem normal n\u00e3o \u00e9 apenas muito mais imoral do que ele acredita, mas tamb\u00e9m muito mais moral do que ele sabe.\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> Moralidade ou consci\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o em si mesmas plenamente conscientes. Al\u00e9m disso, a moralidade e a censura moral n\u00e3o s\u00e3o simplesmente realizadas <em>sobre<\/em> o id, mas em cumplicidade com ele \u2013 como resultado os afetos da repuls\u00e3o ou atra\u00e7\u00e3o \u201cgenu\u00edna\u201d envolvidos em diferentes posturas morais. (O superego, ou consci\u00eancia, se <em>alimenta<\/em> das puls\u00f5es renunciadas\/reprimidas e de sua press\u00e3o ou \u201cenergia\u201d.) Ent\u00e3o, e colocando isso de forma simplificada, podemos dizer que de um ponto de vista social, existem muitas \u201cboas repress\u00f5es\u201d, no sentido de que podem ser maneiras muito eficientes e imediatas de lidar com muitos impulsos antissociais (ou socialmente destrutivos).<\/p>\n<p>Contudo, como Freud insistia, a moralidade baseada sobre repress\u00e3o tem um pre\u00e7o.&nbsp; Esse pre\u00e7o pode ser visto e sentido nos sintomas, ou, mais geralmente, no que ele denominou <em>das Unbehagen in der Kultur <\/em>(<em>Mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>). Quanto mais progredimos em nossa forma civilizada, e quando mais moralmente sofisticados ficamos, mas experenciamos o peso desse mal-estar.<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> Essa posi\u00e7\u00e3o freudiana foi e ainda \u00e9 percebida, algumas vezes, como implicando que a libera\u00e7\u00e3o viria com o abandono de toda moralidade; ou como implicando que dever\u00edamos <em>retornar<\/em> a algum est\u00e1gio mais simples e espont\u00e2neo das intera\u00e7\u00f5es sociais. No entanto, o argumento de Freud era diferente, e Lacan o entendeu sob a forma de uma pergunta expl\u00edcita, simples, mas dif\u00edcil<em>: poderia haver uma moral ou \u00e9tica, n\u00e3o baseada e alimentada sobre a repress\u00e3o?<\/em> E se a resposta for sim, o que seria essa \u00e9tica, como funcionaria? Como pr\u00e1tica cl\u00ednica, a psican\u00e1lise deve percorrer um longo caminho para levantar ou desmantelar o mecanismo de repress\u00e3o. Ficaremos imorais como resultado disso? Sim e n\u00e3o. Certamente n\u00e3o ficaremos sem restri\u00e7\u00f5es a respeito de nossos impulsos e desafiamos os outros por simplesmente segui-los. Lidar\u00edamos com eles por outros meios que n\u00e3o da repress\u00e3o (a sublima\u00e7\u00e3o, por exemplo). E precisamos lidar com eles, porque esses impulsos s\u00e3o (e permanecem) contradit\u00f3rios e conflitantes <em>em si mesmos<\/em>, e n\u00e3o simplesmente em vista ou por causa das normas culturais e sociais que os inibem. Em outras palavras, n\u00e3o \u00e9 \u201clevantando\u201d ou abandonando nossas regula\u00e7\u00f5es culturais que poderemos esperar que o mal-estar, que o descontentamento simplesmente desapare\u00e7a e que a vida se torne harm\u00f4nica. A cultura \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para as contradi\u00e7\u00f5es inerentes dos impulsos, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma solu\u00e7\u00e3o que produz novas contradi\u00e7\u00f5es e novos n\u00edveis de problemas. E ela n\u00e3o existe simplesmente em oposi\u00e7\u00e3o aos impulsos, mas em cumplicidade com eles.<\/p>\n<p>Agora, se olharmos dessa perspectiva para nosso atual panorama social e pol\u00edtico, o que vemos?<\/p>\n<p>A principal corrente da esquerda (a t\u00e3o chamada \u201ccultural\u201d ou \u201cesquerda-liberal\u201d) na maioria das vezes insiste que o mal-estar na <em>Kultur<\/em> apenas pode ser gerenciado por mais <em>Kultur<\/em>, por uma rede cada vez mais densa de regras e regulamenta\u00e7\u00f5es e que qualquer problema que ocorrer pode ser resolvido ou tratado por meio da institui\u00e7\u00e3o de outra regra (ainda mais espec\u00edfica). (Isso conduz, entre outras coisas, \u00e0 exclus\u00e3o de todas as manifesta\u00e7\u00f5es de prazer e desejo do espa\u00e7o social, porque o prazer e o desejo, como tais, j\u00e1 envolvem uma transgress\u00e3o, uma invas\u00e3o no espa\u00e7o do outro).<\/p>\n<p>A direita \u201cpopulista\u201d, por outro lado, opera por meios de realizar um corte entre dois tipos de leis\/regras: entre, de um lado, o que afirmam ser leis eternas, naturais (ou divinas) \u2013 como tal corporificada, por exemplo, em nossa \u201ctradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3\u201d, identidade nacional e \u201csexualidade natural\u201d; e, por outro lado, as leis meramente (multi-)\u201cculturais\u201d que s\u00e3o todas \u201cartificiais\u201d e inibem toda nossa liberdade e espontaneidade natural. Em outras palavras, a direita isenta algumas leis como sagradas e desvia toda a rebeli\u00e3o e descontentamento popular produzidos pela manuten\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o na qual <em>essas<\/em> leis tamb\u00e9m se baseiam, em contraposi\u00e7\u00e3o a outras leis que considera como \u201cculturais\u201d. Isso explica o deslumbrante investimento excedente que claramente existe para a direita quando ela come\u00e7a a atacar certas regras de corre\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Sou a primeira a dizer que a corre\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 uma estrat\u00e9gia bastante insuficiente e, na verdade, \u201cpoliticamente incorreta\u201d, porque evita a fonte do problema e substitui a tarefa de lidar com ele por regras adicionais. Mas o investimento excedente com o qual a direita recebe algumas dessas regras claramente indica que existe muito mais acontecendo aqui \u2013 uma genu\u00edna <em>Verschiebung<\/em> freudiana deslocada.<\/p>\n<p>O que ambas estrat\u00e9gias t\u00eam em comum \u00e9 que elas ignoram ou esquecem completamente a dif\u00edcil e irritante quest\u00e3o da repress\u00e3o; elas n\u00e3o querem saber nada sobre o que chamamos \u201ccausas sist\u00eamicas\u201d do problema. A esquerda \u201ccentrista\u201d est\u00e1 ocupada atendendo os sintomas, usando os sinais e express\u00f5es de descontentamento. A estrat\u00e9gia da direita, entretanto, prova ser muito mais eficiente, porque \u2013 para colocar de forma simples \u2013 essa estrat\u00e9gia permite \u00e0s pessoas mostrarem seu descontentamento e rebelar-se em certas regi\u00f5es, sem diminuir os n\u00edveis de repress\u00e3o e seu custo envolvido no sustento das leis \u201cfundamentais\u201d que definem sua vis\u00e3o de mundo e sua economia de mundo. Al\u00e9m disso, pelo acr\u00e9scimo do n\u00famero e da complexidade das regras e sub-regras, a esquerda liberal tende a aumentar os n\u00edveis de repress\u00e3o, <em>Verdr\u00e4ngung<\/em>, e a direita <em>lucra diretamente<\/em> com esse aumento, canalizando a sa\u00edda da press\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o que mais lhe conv\u00e9m em circunst\u00e2ncias concretas. Isso \u00e9 verdade nos n\u00edveis \u201cpessoal\u201d e \u201csocial\u201d, que s\u00e3o profundamente conectados de qualquer maneira.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui, nessa configura\u00e7\u00e3o, que a import\u00e2ncia pol\u00edtica da com\u00e9dia surge hoje mesmo quando seu conte\u00fado n\u00e3o tem nada para ver com pol\u00edtica. Obviamente, isso n\u00e3o significa dizer que a com\u00e9dia possa substituir a pol\u00edtica. A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 simplesmente que a com\u00e9dia \u00e9 uma forma cultural que pode operar sobre a repress\u00e3o, fazer algo para e com ela, e que \u00e9 tamb\u00e9m a\u00ed que a dimens\u00e3o pol\u00edtica reside. \u201cCom\u00e9dia\u201d \u00e9, obviamente, um termo muito geral. As coisas que listamos como com\u00e9dia (todas as coisas que nos faz rir) pode ter efeitos pol\u00edticos muito diferentes, incluindo efeitos muito reacion\u00e1rios. Mas o fato \u00e9 que a com\u00e9dia tem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o t\u00e9cnicas que, combinadas com o pensamento e com o talento certo, podem nos ajudar a lidar com esses impulsos mediante outros meios que n\u00e3o a repress\u00e3o e, desse jeito, torna-los \u00fateis como alimento e combust\u00edvel inconsciente de nossas a\u00e7\u00f5es. Com\u00e9dia pode nos atrair para fora de nossa cadeira (moral) bem consolidada, nos expondo a considera\u00e7\u00f5es e ideia que n\u00f3s normalmente tender\u00edamos a resistir. Nos atrai para fora desse conforto n\u00e3o por meio de um despertar de consci\u00eancia, mas atrav\u00e9s de um (tipo diferente de) de <em>prazer<\/em>. (Freud comparou essa <em>Vorlust<\/em> ao efeito da intoxica\u00e7\u00e3o, ao \u00e1lcool). Podemos tamb\u00e9m dizer que isso nos convida a pensar de uma forma a fazer-nos descobrir o pensar como possivelmente prazeroso, como uma frui\u00e7\u00e3o. Nietzsche cunhou a express\u00e3o \u201cgaia ci\u00eancia\u201d muito conhecida e popular com um dos t\u00edtulos de seus livros (<em>die Fr\u00f6hliche Wissenschaft<\/em>), mas o termo origin\u00e1rio da tradi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica prosadora de Proven\u00e7al (<em>gai saber<\/em>). Lacan escreveu extensivamente sobre essa tradi\u00e7\u00e3o no contexto da \u201csublima\u00e7\u00e3o\u201d (j\u00e1 definida por Freud como \u201csatisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o <em>sem repress\u00e3o<\/em>\u201d), e invoca um poss\u00edvel potencial emancipat\u00f3rio da \u201cgaia ci\u00eancia\u201d. Penso que a boa com\u00e9dia \u00e9 algo muito parecido com a <em>gaia ci\u00eancia<\/em>.<\/p>\n<p>Tem sido arguido \u2013 por mim e outros \u2013 que a com\u00e9dia pode ter efeitos reacion\u00e1rios e emancipat\u00f3rios, ela pode desarmar o poder e consolid\u00e1-lo, empoderar as pessoas ou apenas as entreter e divertir. Essa dupla forma de com\u00e9dia tem pouco a fazer com as escolhas e prefer\u00eancia pol\u00edticas <em>a priori<\/em> do comediante (esse \u00faltimo prefere seguir uma certa maneira de entender e de fazer com\u00e9dia). Na \u00faltima parte de minha fala, gostaria de propor alguns pontos para nos ajudar a navegar nesta \u00e1rea muitas vezes confusa dessa distin\u00e7\u00e3o, com a ajuda do que disse at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>Como os termos que podem nomear essas diferen\u00e7as, proponho \u201csit back comedy\u201d e \u201cstand up comedy\u201d. Ambos os termos s\u00e3o entendidos como met\u00e1foras, e n\u00e3o se referem a posturas nas quais algu\u00e9m faz com\u00e9dia (sentado ou de p\u00e9), nem \u2013 no caso da \u201cstand up\u201d \u2013 simplesmente se referem ao estilo de performasse conhecido como <em>stand-up<\/em>. A principal diferen\u00e7a entre eles consiste no que eles fazem, ou n\u00e3o, para e com a repress\u00e3o individual e social que alimenta qualquer \u201cestado de coisas\u201d atual. Eles os atacam, deslocam, desmantelam ou na maioria das vezes os usam e perpetuam?<\/p>\n<p>\u201cSit back comedy\u201d tipicamente lucra sobre nossa repress\u00e3o, al\u00e9m de nos consolidar em nossas cren\u00e7as e, mais importante, em nossa retid\u00e3o, nossa superioridade (moral ou intelectual). Isso pode envolver fortes elementos de ironia, entendidos como construindo e jogando com a linha entre n\u00f3s (aqueles que entendem e est\u00e3o do lado certo) e os outros (aqueles que n\u00e3o entendem). James Harvey esclareceu esse ponto:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Onde uma piada de sucesso o conecta a uma audi\u00eancia, uma ironia pode apenas fazer o oposto. Na maior parte das vezes, uma audi\u00eancia \u2018entende\u2019 uma piada ou ela fica sem gra\u00e7a, como dizemos. Mas a ironia, pode apenas confirmar a si mesma, pode parecer mais rico inicialmente, se metade da audi\u00eancia sentir falta dela.<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso pode ser do interesse do p\u00fablico presente, mas tamb\u00e9m pode se referir aos outros \u201cl\u00e1 fora\u201d que n\u00e3o (ou n\u00e3o) o entenderam; no entanto, esse lugar do \u201coutro (est\u00fapido)\u201d \u00e9 estruturalmente construindo na ironia e na diferencia\u00e7\u00e3o deslizante que isso implica.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou simplesmente identificando \u201csit back comedy\u201d com a ironia, apenas sugerindo que ela, muitas vezes, cont\u00e9m esse elemento particular de ironia. Se voc\u00ea est\u00e1 do lado da ironia, ent\u00e3o voc\u00ea nunca pode estar no lado errado, s\u00e3o sempre os outros, os \u201ccrentes ing\u00eanuos\u201d, os \u201ctolos\u201d que est\u00e3o errados.<\/p>\n<p>Por exemplo, eu gostaria muito de qualificar o que Stephen Colbert fez no <em>The Late Show<\/em> em rela\u00e7\u00e3o a Trump como \u201csit back comedy\u201d (mesmo quando ele se levanta para faz\u00ea-la): voc\u00ea enche a audi\u00eancia com votos democratas e ent\u00e3o faz piadas de Trump, semana ap\u00f3s semana, com piadas mais ou menos engra\u00e7adas. N\u00e3o h\u00e1 riscos tomados ali; voc\u00ea brinca contra o pano de fundo do consenso geral (que cuida para nunca perturbar), rindo da estupidez dos outros. O efeito disso \u00e9 amplamente conservador, mesmo se o teor for progressista. Desfrutamos do \u201cnosso Trump\u201d, assim como gostamos de n\u00e3o ser Trump, estar do lado certo da divis\u00e3o, estando certo. (Eu imagino que esta pode ser uma boa defini\u00e7\u00e3o da corrente majorit\u00e1ria da esquerda de hoje: tudo \u00e9 sobre <em>estar certo<\/em>, com toda ambiguidade que esse modo de p\u00f4r ter em ingl\u00eas. Ent\u00e3o eu estou tentada a perguntar: por que n\u00e3o estar errado para uma mudan\u00e7a?) Poucos minutos de ridiculariza\u00e7\u00e3o de Trump por dia parece ser o suficiente para preencher nossa agenda pol\u00edtica ou nosso dever.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhum questionamento (c\u00f4mico) real sobre o que faz Trump poss\u00edvel e o que o sustenta, ao contr\u00e1rio; ele \u00e9 apresentado como o \u00fanico e principal problema. Sem ele a Am\u00e9rica seria grande novamente, para pegar emprestado seu pr\u00f3prio <em>slogan<\/em>.<\/p>\n<p>O que chamo de \u201cstand up comedy\u201d n\u00e3o se encaixa ao \u201cstand-up\u201d enquanto performance, mas ela cont\u00e9m alguns de seus elementos. Para come\u00e7ar: voc\u00ea n\u00e3o realiza a performance em um ambiente controlado ou dirige seu ato \u00e0queles que j\u00e1 pensam como voc\u00ea e compartilham suas vis\u00f5es e convic\u00e7\u00f5es. Claramente, voc\u00ea se prepara bem para seu ato, mas voc\u00ea n\u00e3o o executa simplesmente, trabalha no seu roteiro. Voc\u00ea faz isso, em parte, respondendo ao comportamento da audi\u00eancia e n\u00e3o necessariamente por jogar simplesmente em suas m\u00e3os. Sobre isso, quero dizer: digamos que sua piada tenha uma opini\u00e3o que n\u00e3o vai muito bem com o p\u00fablico. Eu imagino que voc\u00ea, ent\u00e3o, tem a chance entre abandonar esse ponto e passar para outra coisa, ou aumentar as apostas, insistindo e encontrando uma maneira mais engra\u00e7ada de diz\u00ea-lo, que convence o p\u00fablico a assumir o ponto e a consider\u00e1-lo.<\/p>\n<p><em>Convencer<\/em> a audi\u00eancia, \u201cconquistando\u201d (tamb\u00e9m l\u00e1, onde isso ainda n\u00e3o \u00e9 \u201cseu\u201d), tentando n\u00e3o deixar ningu\u00e9m fora, \u00e9 um elemento muito importante da \u201cstand up comedy\u201d, que envolve tanto assumir riscos e engajar na arte do convencimento. Mas sobre tudo, o elemento crucial que chamo de \u201cstand up comedy\u201d \u00e9 fazer <em>a audi\u00eancia<\/em> levantar-se (em suas cabe\u00e7as), caminhar por a\u00ed e habitar em espa\u00e7os fora de sua \u00e1rea consolidada e estabelecer bem as divisas. E gostar disso.<\/p>\n<p>Deixe-me concluir com um exemplo, que \u00e9 interessante para meu objetivo, porque inclui ambas as com\u00e9dias \u201cstand up\u201d e \u201csit back\u201d e, efetivamente, usa a com\u00e9dia cultural \u201csit back\u201d para trazer ao \u201cstand-up\u201d e com isso as quest\u00f5es das causas sist\u00eamicas (da repress\u00e3o).<\/p>\n<p>O que tenho em mente \u00e9 um dos epis\u00f3dios mais famosos de <em>Who is America<\/em> de Sacha Baron Cohen, chamado \u201cBuilding a Mosque in Kingman Arizona\u201d. Cohen (em uma de seus personagens) discursa na assembleia da popula\u00e7\u00e3o local em Kingman Arizona. Ele primeiro os questiona se eles querem ver um \u201cenorme crescimento econ\u00f4mico\u201d na cidade, oriundo de um investimento de 385 milh\u00f5es de d\u00f3lares. Todos disseram sim. Ent\u00e3o, ele disse sobre do que o investimento se trata \u2013 a cidade deles foi escolhida para a constru\u00e7\u00e3o de uma \u201cnova mesquita moderna\u201d \u2013 n\u00e3o apenas uma mesquita, mas a maior mesquita fora do Oriente M\u00e9dio. O entusiasmo das pessoas desapareceu rapidamente, eles come\u00e7aram a protestar e proferir todas formas de obje\u00e7\u00f5es. Das mais razo\u00e1veis (porque eles iriam necessitar de uma mesquita como essa?) para as v\u00e1rias vers\u00f5es islamof\u00f3bicas de obje\u00e7\u00f5es (mesquitas \u00e9 igual a terrorismo). \u00c0 primeira vista, o epis\u00f3dio pode parecer simplesmente como uma tentativa de Cohen de provocar uma exibi\u00e7\u00e3o de islamafobia coletiva em uma pequena cidade de Arizona. Mas n\u00e3o acredito que essa agenda \u201cliberal\u201d (nos sentimos bem rindo dos moradores preconceituosos) esgote o interesse desse epis\u00f3dio. Penso que a \u201cislamofobia\u201d bastante previs\u00edvel est\u00e1 sendo usada aqui como meio de expor (ou ao menos apontar) uma mais geral, sutil e maliciosas chantagens liberais. A forma que Cohen apresenta esse projeto \u00e9 cunhado sobre uma cl\u00e1ssica manipula\u00e7\u00e3o \u201cliberal\u201d: se voc\u00ea quer que as pessoas aceitem algo, digamos A, voc\u00ea introduz A em um dado pano de fundo em que eles t\u00eam que escolher entre diferentes vers\u00f5es de A. Voc\u00ea n\u00e3o pergunta: \u201cVoc\u00ea quer A ou n\u00e3o?\u201d Voc\u00ea pergunta: \u201cVoc\u00ea quer um A verde, azul ou alguma outra vers\u00e3o poss\u00edvel? Seja o que voc\u00ea escolher, voc\u00ea \u00e9 livre para escolher\u201d. E no momento que come\u00e7am a considerar escolhas diferentes, pessoas s\u00e3o capturadas, elas j\u00e1 aceitaram A.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em seu discurso, Cohen come\u00e7a por dizer \u00e0 popula\u00e7\u00e3o local que elas \u201ct\u00eam que escolher entre dois diferentes projetos\u201d da mesquita, o projeto 1 e o projeto 2, que ele os mostrou por slides. Ent\u00e3o ele questiona: \u201cent\u00e3o, quem escolhe o primeiro projeto?\u201d Ningu\u00e9m, todos protestaram, e ele imediatamente concluiu: \u201cEnt\u00e3o, voc\u00eas todos escolhem o segundo.\u201d As pessoas est\u00e3o ultrajadas, elas n\u00e3o queriam nenhum deles, disseram. Cohen continuou com sua estrat\u00e9gia corporativa de vendedor: \u201cDeixe-me perguntar a voc\u00eas uma coisa. Voc\u00eas n\u00e3o gostam dessa constru\u00e7\u00e3o: ent\u00e3o contem-me sobre sua mesquita dos sonhos.\u201d Em outros termos: apenas manter as alternativas dentro de escolhas que eu estou impondo a voc\u00eas. Nesse ponto, um dos habitantes interrompe o debate gritando energicamente: \u201cN\u00e3o existe mesquita dos sonhos!\u201d Devemos pensar duas vezes antes de simplesmente destituir essa resposta por seu preconceito \u201cislamof\u00f3bico\u201d, e tom\u00e1-la como modelo do que deve ser nossa principal resposta para todas essas modalidades de situa\u00e7\u00f5es chantagistas de \u201cescolhas livres\u201d.<\/p>\n<p>Em outras palavras, talvez devemos complicar um pouco a causalidade com que usualmente \u201cexplicamos\u201d essas quest\u00f5es, e dizer: o homem n\u00e3o est\u00e1 dizendo isso porque \u00e9 um islamof\u00f3bico, ele torna-se \u201cislamof\u00f3bico\u201d (ou homof\u00f3bico, ou qualquer-coisa-f\u00f3bico) porque sujeitado a esse tipo de chantagem sutil e invis\u00edvel e suas consequ\u00eancias por d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>A <em>frustra\u00e7\u00e3o<\/em> acumulada, ainda que impotente, gerada por essa rede de escolhas liberais aparentemente neutra est\u00e1 sendo canalizada, na pol\u00edtica populista contempor\u00e2nea \u2013 com todo o suporte do lado econ\u00f4mico dessa chantagem \u2013 contra grupos designados de inimigos (mu\u00e7ulmanos, trabalhadores imigrantes&#8230;), precisamente para n\u00e3o ser direcionado contra suas causas sist\u00eamicas.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio de \u201cWho is America\u201d \u00e9 muito engenhoso porque ele gerencia para expor, <em>ao mesmo tempo<\/em>, o preconceito islamof\u00f3bico e a rede de <em>chantagens<\/em> liberal-capitalista. Ele usa um para expor o outro, e vice-versa.<\/p>\n<hr>\n<p>Alenka Zupan\u010di\u010d \u00e9 fil\u00f3sofa e cientista social. Ela trabalha como pesquisadora orientadora no Instituto de Filosofia, Centro de Pesquisa Cient\u00edfica da Academia de Ci\u00eancia da Eslov\u00eania. Ela tamb\u00e9m \u00e9 professora na <em>European Graduate School<\/em> na Su\u00ed\u00e7a. Not\u00e1vel por seu trabalho que interseciona filosofia e psican\u00e1lise, ela \u00e9 autora de in\u00fameros artigos e livros, incluindo <em>Ethics of the Real: Kant and Lacan; The Shortest Shadow: Nietzsche&#8217;s Philosophy of the Two; Why Psychoanalysis: Three Interventions; The Odd One In: On Comedy; <\/em>e, mais recentemente,<em> What is Sex?<\/em><\/p>\n<hr>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> O conceito de <em>Deep State<\/em> busca expressar a ideia de um \u201cEstado dentro do Estado\u201d, ou seja, fra\u00e7\u00f5es da burocracia estatal que operam \u00e0 revelia de quer que esteja do poder.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Sigmund Freud, \u2018The Ego and the Id\u2019,&nbsp;<em>The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud<\/em>, ed. James Stachey, Hoharth Press, London 1953-1974, vol. 19, p.52.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Alterando da autoridade externa para a constitui\u00e7\u00e3o do Superego (consci\u00eancia): no caso de uma simples autoridade externa ela renuncia \u00e0 sua satisfa\u00e7\u00e3o (das puls\u00f5es) para evitar puni\u00e7\u00f5es. \u201cSe algu\u00e9m tem executado sua ren\u00fancia, algu\u00e9m est\u00e1, ou estava, renunciar com a autoridade e nenhum sentido de culpa deve permanecer. Mas com o medo do superego a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente. Aqui, a ren\u00fancia instintual n\u00e3o \u00e9 suficiente para o desejo persistir e n\u00e3o pode ser conciliado com o superego. Ent\u00e3o, na maldade da ren\u00fancia que tem sido feita, um senso de culpa surge. [&#8230;] a ren\u00fancia instintual agora sem demora tem um efeito completamente liberalizado; consci\u00eancia virtuosa \u00e9 sem demora gratificada com uma seguran\u00e7a de amor. Uma amea\u00e7a externa de infelicidade \u2013 perda de amor e puni\u00e7\u00e3o por parte da autoridade externa \u2013 foram substitu\u00eddos por uma infelicidade interna permanente, para a tens\u00e3o do senso de culpa.\u201d S. Freud, <em>SE<\/em> 21, p. 127-128.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> James Harvey: <em>Romantic Comedy in Hollywood<\/em>.<em> From Lubitsch to Sturges<\/em>, New York: Da capo Press, 1998, p. 672.<\/p>\n<p>[5] James Harvey: <em>Romantic Comedy in Hollywood<\/em>.<em> From Lubitsch to Sturges<\/em>, New York: Da capo Press, 1998, p. 672.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Autor: Alenka Zupan\u010di\u010d<\/strong><\/p>\n<p><strong>Publicado:&nbsp; Maio de 2019<\/strong><br \/>\n<strong><br \/>\nOriginal:&nbsp;<a href=\"https:\/\/fallsemester.org\/2020-1\/2020\/4\/26\/alenka-zupani-stand-up-for-comedy\">Link aqui<\/a><\/strong><br \/>\n<strong><br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Mois\u00e9s Jo\u00e3o Rech<\/strong><br \/>\n<strong><br \/>\nRevis\u00e3o: Ricardo Menezes e Leonardo Mendon\u00e7a<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos em tempos em que a com\u00e9dia \u2013 e especialmente a com\u00e9dia \u2013 \u00e9 muitas vezes amea\u00e7ada pela direita e pela esquerda. Talvez ainda mais pela esquerda: como Angela Nagle apontou, temos testemunhado ultimamente uma giro curioso em que a nova direita populista est\u00e1 assumindo o lado da transgress\u00e3o e da rebeli\u00e3o, tradicionalmente associadas a&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_kadence_starter_templates_imported_post":false,"_kad_post_transparent":"","_kad_post_title":"","_kad_post_layout":"","_kad_post_sidebar_id":"","_kad_post_content_style":"","_kad_post_vertical_padding":"","_kad_post_feature":"","_kad_post_feature_position":"","_kad_post_header":false,"_kad_post_footer":false,"_kad_post_classname":"","footnotes":""},"categories":[345,1],"tags":[],"class_list":["post-560","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arquivo-tradutores-proletarios","category-uncategorized"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Em defesa da com\u00e9dia \u2014 Alenka Zupan\u010di\u010d - Zero \u00e0 Esquerda<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Em defesa da com\u00e9dia \u2014 Alenka Zupan\u010di\u010d - Zero \u00e0 Esquerda\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Vivemos em tempos em que a com\u00e9dia \u2013 e especialmente a com\u00e9dia \u2013 \u00e9 muitas vezes amea\u00e7ada pela direita e pela esquerda. Talvez ainda mais pela esquerda: como Angela Nagle apontou, temos testemunhado ultimamente uma giro curioso em que a nova direita populista est\u00e1 assumindo o lado da transgress\u00e3o e da rebeli\u00e3o, tradicionalmente associadas a...\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Zero \u00e0 Esquerda\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/revistazeroaesquerda\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2020-07-31T19:38:58+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2021-01-23T05:22:56+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2020\/07\/artestandupcomedy.jpg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Zero \u00e0 Esquerda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:creator\" content=\"@z3roaesquerda\" \/>\n<meta name=\"twitter:site\" content=\"@z3roaesquerda\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Zero \u00e0 Esquerda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"26 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/index.php\\\/2020\\\/07\\\/31\\\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/index.php\\\/2020\\\/07\\\/31\\\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"Zero \u00e0 Esquerda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/04e72095a4fbe77f00c7b047955ed0b8\"},\"headline\":\"Em defesa da com\u00e9dia \u2014 Alenka Zupan\u010di\u010d\",\"datePublished\":\"2020-07-31T19:38:58+00:00\",\"dateModified\":\"2021-01-23T05:22:56+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/index.php\\\/2020\\\/07\\\/31\\\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\\\/\"},\"wordCount\":5205,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/#organization\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/index.php\\\/2020\\\/07\\\/31\\\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\\\/2020\\\/07\\\/artestandupcomedy.jpg\",\"articleSection\":[\"Arquivo (Tradutores Prolet\u00e1rios)\",\"Uncategorized\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/index.php\\\/2020\\\/07\\\/31\\\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/index.php\\\/2020\\\/07\\\/31\\\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\\\/\",\"name\":\"Em defesa da com\u00e9dia \u2014 Alenka Zupan\u010di\u010d - Zero \u00e0 Esquerda\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/#website\"},\"primaryImageOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/index.php\\\/2020\\\/07\\\/31\\\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\\\/#primaryimage\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/index.php\\\/2020\\\/07\\\/31\\\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\\\/2020\\\/07\\\/artestandupcomedy.jpg\",\"datePublished\":\"2020-07-31T19:38:58+00:00\",\"dateModified\":\"2021-01-23T05:22:56+00:00\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/index.php\\\/2020\\\/07\\\/31\\\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\\\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/index.php\\\/2020\\\/07\\\/31\\\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\\\/\"]}]},{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/index.php\\\/2020\\\/07\\\/31\\\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\\\/#primaryimage\",\"url\":\"https:\\\/\\\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\\\/2020\\\/07\\\/artestandupcomedy.jpg\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\\\/2020\\\/07\\\/artestandupcomedy.jpg\"},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/index.php\\\/2020\\\/07\\\/31\\\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\\\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Em defesa da com\u00e9dia \u2014 Alenka Zupan\u010di\u010d\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/\",\"name\":\"Zero \u00e0 Esquerda\",\"description\":\"Tra\u00e7ando tend\u00eancias para al\u00e9m do capitalismo.\",\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/#organization\"},\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Organization\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/#organization\",\"name\":\"Zero \u00e0 Esquerda\",\"url\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/\",\"logo\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/#\\\/schema\\\/logo\\\/image\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2021\\\/01\\\/4-simbolo-zero-a-esquerda-favicon-alt.png\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2021\\\/01\\\/4-simbolo-zero-a-esquerda-favicon-alt.png\",\"width\":1271,\"height\":1069,\"caption\":\"Zero \u00e0 Esquerda\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/#\\\/schema\\\/logo\\\/image\\\/\"},\"sameAs\":[\"https:\\\/\\\/www.facebook.com\\\/revistazeroaesquerda\",\"https:\\\/\\\/x.com\\\/z3roaesquerda\",\"https:\\\/\\\/www.instagram.com\\\/revistazeroaesquerda\\\/\",\"https:\\\/\\\/www.youtube.com\\\/channel\\\/UCIaGx271Qw6D1QwqYBojrLw\"]},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/04e72095a4fbe77f00c7b047955ed0b8\",\"name\":\"Zero \u00e0 Esquerda\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/secure.gravatar.com\\\/avatar\\\/a417d8eccb1cec435aa9a93213f41ee528a636232351421dedc4ada2160b3f1b?s=96&d=mm&r=g\",\"url\":\"https:\\\/\\\/secure.gravatar.com\\\/avatar\\\/a417d8eccb1cec435aa9a93213f41ee528a636232351421dedc4ada2160b3f1b?s=96&d=mm&r=g\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/secure.gravatar.com\\\/avatar\\\/a417d8eccb1cec435aa9a93213f41ee528a636232351421dedc4ada2160b3f1b?s=96&d=mm&r=g\",\"caption\":\"Zero \u00e0 Esquerda\"},\"description\":\"Tra\u00e7ando tend\u00eancias para al\u00e9m do capitalismo.\",\"sameAs\":[\"http:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\"],\"url\":\"https:\\\/\\\/zeroaesquerda.com.br\\\/index.php\\\/author\\\/revistazeroaesquerdagmail-com\\\/\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Em defesa da com\u00e9dia \u2014 Alenka Zupan\u010di\u010d - Zero \u00e0 Esquerda","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/","og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"Em defesa da com\u00e9dia \u2014 Alenka Zupan\u010di\u010d - Zero \u00e0 Esquerda","og_description":"Vivemos em tempos em que a com\u00e9dia \u2013 e especialmente a com\u00e9dia \u2013 \u00e9 muitas vezes amea\u00e7ada pela direita e pela esquerda. Talvez ainda mais pela esquerda: como Angela Nagle apontou, temos testemunhado ultimamente uma giro curioso em que a nova direita populista est\u00e1 assumindo o lado da transgress\u00e3o e da rebeli\u00e3o, tradicionalmente associadas a...","og_url":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/","og_site_name":"Zero \u00e0 Esquerda","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/revistazeroaesquerda","article_published_time":"2020-07-31T19:38:58+00:00","article_modified_time":"2021-01-23T05:22:56+00:00","og_image":[{"url":"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2020\/07\/artestandupcomedy.jpg","type":"","width":"","height":""}],"author":"Zero \u00e0 Esquerda","twitter_card":"summary_large_image","twitter_creator":"@z3roaesquerda","twitter_site":"@z3roaesquerda","twitter_misc":{"Escrito por":"Zero \u00e0 Esquerda","Est. tempo de leitura":"26 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/"},"author":{"name":"Zero \u00e0 Esquerda","@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/#\/schema\/person\/04e72095a4fbe77f00c7b047955ed0b8"},"headline":"Em defesa da com\u00e9dia \u2014 Alenka Zupan\u010di\u010d","datePublished":"2020-07-31T19:38:58+00:00","dateModified":"2021-01-23T05:22:56+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/"},"wordCount":5205,"publisher":{"@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/#organization"},"image":{"@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2020\/07\/artestandupcomedy.jpg","articleSection":["Arquivo (Tradutores Prolet\u00e1rios)","Uncategorized"],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/","url":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/","name":"Em defesa da com\u00e9dia \u2014 Alenka Zupan\u010di\u010d - Zero \u00e0 Esquerda","isPartOf":{"@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/#website"},"primaryImageOfPage":{"@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/#primaryimage"},"image":{"@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2020\/07\/artestandupcomedy.jpg","datePublished":"2020-07-31T19:38:58+00:00","dateModified":"2021-01-23T05:22:56+00:00","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/"]}]},{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-BR","@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/#primaryimage","url":"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2020\/07\/artestandupcomedy.jpg","contentUrl":"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2020\/07\/artestandupcomedy.jpg"},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2020\/07\/31\/alenka-zupancic-em-defesa-da-comedia\/#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Em defesa da com\u00e9dia \u2014 Alenka Zupan\u010di\u010d"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/#website","url":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/","name":"Zero \u00e0 Esquerda","description":"Tra\u00e7ando tend\u00eancias para al\u00e9m do capitalismo.","publisher":{"@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/#organization"},"potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Organization","@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/#organization","name":"Zero \u00e0 Esquerda","url":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/","logo":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-BR","@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/#\/schema\/logo\/image\/","url":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/4-simbolo-zero-a-esquerda-favicon-alt.png","contentUrl":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/4-simbolo-zero-a-esquerda-favicon-alt.png","width":1271,"height":1069,"caption":"Zero \u00e0 Esquerda"},"image":{"@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/#\/schema\/logo\/image\/"},"sameAs":["https:\/\/www.facebook.com\/revistazeroaesquerda","https:\/\/x.com\/z3roaesquerda","https:\/\/www.instagram.com\/revistazeroaesquerda\/","https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCIaGx271Qw6D1QwqYBojrLw"]},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/#\/schema\/person\/04e72095a4fbe77f00c7b047955ed0b8","name":"Zero \u00e0 Esquerda","image":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-BR","@id":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/a417d8eccb1cec435aa9a93213f41ee528a636232351421dedc4ada2160b3f1b?s=96&d=mm&r=g","url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/a417d8eccb1cec435aa9a93213f41ee528a636232351421dedc4ada2160b3f1b?s=96&d=mm&r=g","contentUrl":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/a417d8eccb1cec435aa9a93213f41ee528a636232351421dedc4ada2160b3f1b?s=96&d=mm&r=g","caption":"Zero \u00e0 Esquerda"},"description":"Tra\u00e7ando tend\u00eancias para al\u00e9m do capitalismo.","sameAs":["http:\/\/zeroaesquerda.com.br"],"url":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/author\/revistazeroaesquerdagmail-com\/"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/560","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=560"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/560\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1143,"href":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/560\/revisions\/1143"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=560"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=560"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=560"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}