{"id":55,"date":"2019-01-26T19:31:01","date_gmt":"2019-01-26T21:31:01","guid":{"rendered":"https:\/\/tradutoresproletarios.wordpress.com\/2019\/01\/26\/sinais-dos-tempos-imagens-do-futuro-uma-reflexao-sobre-os-gilets-jaunes-e-a-revolta-na-franca\/"},"modified":"2021-11-22T22:49:07","modified_gmt":"2021-11-22T22:49:07","slug":"sinais-dos-tempos-imagens-do-futuro-uma-reflexao-sobre-os-gilets-jaunes-e-a-revolta-na-franca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2019\/01\/26\/sinais-dos-tempos-imagens-do-futuro-uma-reflexao-sobre-os-gilets-jaunes-e-a-revolta-na-franca\/","title":{"rendered":"Sinais dos tempos, imagens do futuro: uma reflex\u00e3o sobre os Gilets Jaunes e a revolta na Fran\u00e7a \u2014 Void Circle"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Void Circle, 2 de janeiro de&nbsp;2019<\/h4>\n\n\n\n<p>Quase dois meses ap\u00f3s terem surgido, os Coletes Amarelos ainda est\u00e3o por aqui! O movimento come\u00e7ou a atrair aten\u00e7\u00e3o internacional e uma cobertura midi\u00e1tica mais extensiva ap\u00f3s os eventos que se sucederam no dia 1 de dezembro de 2018. Isto era previs\u00edvel, j\u00e1 que independentemente de qual acabe sendo o nosso julgamento pol\u00edtico quanto \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, estamos cara a cara com uma revolta nacional, a qual n\u00e3o simplesmente conjurou a possibilidade de um estado de emerg\u00eancia, mas na verdade efetivamente o implementou de forma informal, por meio das extensivas medidas policiais impostas durante as manifesta\u00e7\u00f5es de 8 de dezembro.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentre os numerosos textos escritos sobre os Gilets Jaunes, h\u00e1 os t\u00edpicos conselhos condescendentes advindos de comentaristas \u201crespons\u00e1veis\u201d, os quais se dirigem principalmente \u00e0s alas \u201cmoderadas\u201d do movimento. H\u00e1 tamb\u00e9m, dentre esses textos, um bocado de idealiza\u00e7\u00e3o e uma forma de pensar sonhadora e infantil, que acha que algo j\u00e1 \u00e9 verdade s\u00f3 porque se deseja que seja: \u00e9 poss\u00edvel ver, por exemplo, autores expressando a necessidade de \u201cver algo acontecer de verdade\u201d e assim criar uma for\u00e7a contr\u00e1ria a certos fen\u00f4menos alarmantes, em especial contra a ascens\u00e3o da extrema-direita em diversas partes do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, assim como em todos os outros movimentos recentes (o levante anti-austeridade na Gr\u00e9cia sendo um caso exemplar disto), os Coletes Amarelos tornaram-se o alvo de cr\u00edticas virulentas vindas daqueles que assumem uma perspectiva \u201cclassista\u201d e de extrema-esquerda. Antes mesmo que o movimento pudesse desenvolver seu \u00edmpeto total, uma verdadeira compuls\u00e3o tem levado alguns a declarar que os \u201cGilets Jaunes\u201d n\u00e3o s\u00e3o aquilo que realmente deveriam ser, pautando-se em alguma no\u00e7\u00e3o preconcebida de como um movimento \u201cverdadeiramente\u201d radical precisa ser.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio pontuar que o conte\u00fado da cr\u00edtica varia. Alguns v\u00eaem nos Coletes Amarelos apenas \u201cespet\u00e1culo\u201d no lugar de uma rebeli\u00e3o verdadeiramente composta das massas invadindo o espa\u00e7o p\u00fablico, como se fosse poss\u00edvel hoje existir um movimento popular que n\u00e3o seja capturado em imagens massivamente transmitidas e se torne portanto \u201cespet\u00e1culo\u201d. Outras cr\u00edticas confundem tese te\u00f3rica com ponto de vista pol\u00edtico, e ficam no aguardo de que a famosa contradi\u00e7\u00e3o entre \u201ccapital e trabalho\u201d saia perambulando pelas ruas, igualzinha a como est\u00e1 no papel, numa luta de classes desprovida de \u00e1reas cinzentas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado destas cr\u00edticas, caminham tamb\u00e9m acusa\u00e7\u00f5es de que o movimento \u00e9 \u201cpequeno-burgu\u00eas\u201d e \u201cinterclassista\u201d, como se fosse poss\u00edvel termos uma revolta em massa que n\u00e3o seja heterog\u00eanea, ou como se fosse imposs\u00edvel n\u00e3o existirem problemas, demandas e reivindica\u00e7\u00f5es as quais talvez n\u00e3o sejam estritamente \u201cprolet\u00e1rias\u201d, mas que de qualquer forma interessam a uma parte importante da classe trabalhadora\u200a\u2014\u200aainda mais hoje em dia, j\u00e1 que a generaliza\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos como o endividamento e a precariedade andam criando uma gama de afetos comuns e impasses dentre os estratos m\u00e9dio e baixo das forma\u00e7\u00f5es sociais capitalistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro, h\u00e1 cr\u00edticas que s\u00e3o sens\u00edveis e perspicazes, e que demarcam contradi\u00e7\u00f5es e problemas reais, como a presen\u00e7a de grupos de extrema-direita entre os Gilets Jaunes, a qual \u00e9 possibilitada por certas caracter\u00edsticas identific\u00e1veis do movimento. Tamb\u00e9m vimos ser salientado, astutamente, que apesar da intensidade das manifesta\u00e7\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1, a n\u00edvel de discurso pol\u00edtico, uma cr\u00edtica ou questionamento do \u201cEstado como provedor de direitos e do bem-estar\u201d, muito menos do capital como rela\u00e7\u00e3o social. Dito isto, \u00e9 importante frisar que a ret\u00f3rica \u201cpopulista\u201d sobre elites privilegiadas e um povo sem direitos, ou sobre a divis\u00e3o entre ricos e pobres, n\u00e3o est\u00e1 \u201cerrada\u201d em alguma esp\u00e9cie de n\u00edvel descritivo\u200a\u2014\u200a\u00e9 justamente por isso que essas mesmas descri\u00e7\u00f5es tem provado ser, vez ap\u00f3s vez, bem-sucedidas como representa\u00e7\u00f5es discursivas de divis\u00f5es sociais. O problema deste tipo de discurso \u00e9 outro, e est\u00e1 a n\u00edvel anal\u00edtico e ret\u00f3rico: ele n\u00e3o p\u00f5e em evid\u00eancia o problema das rela\u00e7\u00f5es e das formas que constituem a pressuposi\u00e7\u00e3o material da separa\u00e7\u00e3o entre povo\/elite e pobres\/ricos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eis o real dilema\u200a\u2014\u200amesmo que esses cr\u00edticos estejam certos, a externalidade relativa de suas cr\u00edticas em compara\u00e7\u00e3o \u00e0s lutas e ao que est\u00e1 em jogo para aqueles que participam destas revela algo: a incapacidade daqueles que criticam de exercerem qualquer influ\u00eancia significativa nos movimentos de massa. Por isso, a cr\u00edtica adquire um caminho de m\u00e3o-dupla, retornando \u00e0 sua pr\u00f3pria fonte. Na verdade, este problema n\u00e3o diz respeito apenas \u00e0 extrema-esquerda, mas j\u00e1 contamina todo o hemisf\u00e9rio esquerdista\u200a\u2014\u200ao que se torna vis\u00edvel, mais uma vez, \u00e9 a fraqueza da Esquerda e da Anarquia de exercerem hegemonia real, isto \u00e9, de afetarem a cultura (pol\u00edtica).<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente, \u00e9 necess\u00e1rio que caminhemos para al\u00e9m de um ponto de vista prescritivo e entendamos esta fraqueza como um fen\u00f4meno hist\u00f3rico. N\u00e3o obstante, se foi poss\u00edvel ver no Coletes Amarelos uma pequena guinada \u00e0 esquerda, isto tem a ver, em parte, com o fato de que esquerdistas e anarquistas participaram sim do movimento, no lugar de simplesmente julgarem-no de longe. Independentemente de como gostar\u00edamos que as coisas fossem, o fato de que n\u00e3o haviam milhares de bandeiras rubro-negras nas m\u00e3os dos Coletes Amarelos n\u00e3o significa, j\u00e1 de antem\u00e3o, que o movimento \u00e9 reacion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo vale para a presen\u00e7a de bandeiras nacionais\u200a\u2014\u200aa bandeira francesa concentra em si significados m\u00faltiplos e contradit\u00f3rios. Isto n\u00e3o quer dizer, todavia, que a presen\u00e7a de s\u00edmbolos nacionais n\u00e3o seja potencialmente problem\u00e1tica, especialmente no sentido de que ela tende a afirmar a divis\u00e3o entre cidad\u00e3os nativos e estrangeiros sobre a qual o Estado-na\u00e7\u00e3o moderno reside. Dito isto, a presen\u00e7a de elementos xenof\u00f3bicos n\u00e3o deve ser exagerada. A identidade do movimento n\u00e3o \u00e9 xenof\u00f3bica ou nacionalista, muito menos suas demandas e reivindica\u00e7\u00f5es. Qualquer um pode, em princ\u00edpio, tornar-se um Colete Amarelo, e esta \u00e9 a causa de ter sido relativamente f\u00e1cil grupos sociais diferentes adentrarem o movimento. Al\u00e9m disso, este \u00faltimo aborda problemas que interessam a muitas pessoas independentemente de sua identidade \u00e9tnica\u200a\u2014\u200aafinal, h\u00e1 algum assalariado que n\u00e3o queira um melhor sal\u00e1rio, ou algu\u00e9m vivendo em uma comunidade qualquer que n\u00e3o se beneficiaria de um maior acesso \u00e0 tomada de decis\u00f5es?<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o tais demandas e aspira\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas, referentes \u00e0 justi\u00e7a social e ao reconhecimento c\u00edvico, que oferecem a base material para uma unidade pluri\u00e9tnica\/internacional numa escala massiva, e sem a qual os clamores por tal uni\u00e3o permanecem como declara\u00e7\u00f5es evocativas, mas idealistas, daquilo que deveria acontecer. Mesmo que, sob nossa perspectiva, tais demandas e aspira\u00e7\u00f5es n\u00e3o sejam suficientes, a radicaliza\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ocorrer como um processo dial\u00e9tico imanente ao movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Coletes Amarelos s\u00e3o uma manifesta\u00e7\u00e3o popular\u200a\u2014\u200a\u201cplebeia\u201d tamb\u00e9m seria um adjetivo igualmente v\u00e1lido\u200a\u2014\u200ano sentido mais literal do termo: uma parte representativa \u201cdo povo\u201d levantou-se contra uma vida que se torna cada vez mais dif\u00edcil de se viver. Obviamente, em um n\u00edvel mais b\u00e1sico, as expectativas e demandas do movimento n\u00e3o podem expressar outra coisa que n\u00e3o seja a realidade das pessoas que o comp\u00f5em, j\u00e1 que essa mesma realidade \u00e9 determinada por uma economia do desejo j\u00e1 estabelecida.<\/p>\n\n\n\n<p>Realmente: o fato de que, apesar dos extensivos mecanismos de consenso e integra\u00e7\u00e3o que existem nas sociedades capitalistas modernas, a experi\u00eancia social nunca \u00e9 unit\u00e1ria, nem mesmo dentro de uma mesma classe, ajuda a explicar a pluralidade dos fluxos de desejo permeando o movimento, tal como tamb\u00e9m suas tens\u00f5es internas e contradi\u00e7\u00f5es. Entretanto, mesmo que os Coletes Amarelos permane\u00e7am ainda, em maioria, presos a uma realidade social contra a qual se rebelam sem que possam enxergar algo al\u00e9m dela, as demandas e reivindica\u00e7\u00f5es do movimento n\u00e3o s\u00e3o reacion\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>A extrema-direita tamb\u00e9m n\u00e3o foi capaz de adquirir hegemonia, mesmo que ap\u00f3s o fim do movimento Le Pen ou outros grupos de direita sejam capazes de angariar votos a partir dele. Ademais, enquanto um movimento ainda existe, ele \u00e9 por defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o-est\u00e1tico. Al\u00e9m da j\u00e1 manifesta e not\u00e1vel capacidade do movimento de adquirir uma escala massiva, e de exercer a\u00e7\u00e3o direta horizontal, tem ocorrido adicionalmente uma acentuada radicaliza\u00e7\u00e3o do movimento, como tamb\u00e9m um desvio deste para uma dire\u00e7\u00e3o mais \u201c\u00e0 esquerda\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O que poder\u00e1 resultar dos Gilets Jaunes? N\u00e3o d\u00e1 para deixar passar despercebido que o movimento for\u00e7ou Macron, o qual se porta como um reformista equilibrad\u00edssimo que \u201cn\u00e3o ceder\u00e1 sob hip\u00f3tese alguma\u201d, a fazer concess\u00f5es e (talvez bem mais crucialmente) reconhecer o movimento e seus interesses. Por outro lado, h\u00e1 sinais de fadiga e desmassifica\u00e7\u00e3o, e \u00e9 poss\u00edvel que os Coletes Amarelos estejam come\u00e7ando a encontrar os mesmos limites com os quais outros movimentos, no recente ciclo de lutas, acabaram se defrontando. N\u00e3o podemos nos dar o luxo de ignorar, em especial, que n\u00e3o surgiram quaisquer \u00f3rg\u00e3os e institui\u00e7\u00f5es capazes de agir como um \u201cpoder duplo\u201d. Por conseguinte, mesmo que sua persistente recusa a fazerem negocia\u00e7\u00f5es ou serem representados por algu\u00e9m seja uma for\u00e7a do movimento e uma fonte de potencial, a falta de \u00f3rg\u00e3os representativos leva a um impasse, pois as estruturas atuais de representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o sendo desafiadas ao n\u00edvel de uma alternativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra vez: o equil\u00edbrio entre uma compreens\u00e3o cr\u00edtica e um ponto de vista prescritivo \u00e9 a chave para uma interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica efetiva. N\u00e3o podemos, obviamente, simplesmente fazer num passe de m\u00e1gica com que um movimento siga o caminho que desejamos\u200a\u2014\u200ae se a revolta na Fran\u00e7a nos mostra alguma coisa, tal qual o movimento anti-austeridade na Gr\u00e9cia (e nem estamos falando dos outros movimentos bem mais minorit\u00e1rios em outros pa\u00edses ocidentais), \u00e9 que uma revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 na \u201cordem do dia\u201d. Dito isto, entretanto, a transforma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais \u00e9 um processo macro-hist\u00f3rico e perpassa por expectativas frustradas, instabilidade em massa e revoltas de ampla intensidade e extens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Gilets Jaunes s\u00e3o uma dessas revoltas. Na verdade, ela possui uma caracter\u00edstica crucial, que amplia sua signific\u00e2ncia: a sua composi\u00e7\u00e3o de classe \u00e9 nada mais nada menos do que a pr\u00f3pria espinha dorsal das sociedades capitalistas contempor\u00e2neas. Nesse sentido, essa revolta indica qu\u00e3o profunda \u00e9 a crise atual. De igual import\u00e2ncia \u00e9 o fato do movimento ter conseguido revelar a n\u00e3o-correspond\u00eancia entre um povo e sua representa\u00e7\u00e3o estatal\/jur\u00eddica. Isto confirma mais ainda que a maior amea\u00e7a a um Estado \u00e9 sempre sua popula\u00e7\u00e3o. Isto implica que, mesmo que a curto-prazo os Gilets Jaunes n\u00e3o sejam os precursores da primavera, ou pior, que eles sejam os espasmos de um longo inverno, eles n\u00e3o obstante predizem um poss\u00edvel surto revolucion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, seja qual for o conte\u00fado de uma revolu\u00e7\u00e3o, ela sempre ter\u00e1 mais import\u00e2ncia do que as a\u00e7\u00f5es de grupos pequenos e ideologicamente compactos\u200a\u2014\u200an\u00e3o porque tudo que \u00e9 de escala massiva seja necessariamente positivo, ou que experimentos a n\u00edvel molecular sejam irrelevantes, longe disso; mas sim porque \u00e9 politicamente absurdo defender a ideia de revolu\u00e7\u00e3o e achar que movimentos de massa que lutam por uma melhoria de vida e que tamb\u00e9m possuem qualidades horizontais\/igualit\u00e1rias ao mesmo tempo em que valorizam espa\u00e7os pequenos e ideologicamente homog\u00eaneos n\u00e3o sejam prefigura\u00e7\u00f5es de um grandioso futuro comunista. No lugar de usarmos uma l\u00f3gica \u201cou \u00e9 uma coisa ou \u00e9 outra\u201d, pensemos em como tais ambientes pol\u00edticos difusos podem positivamente favorecer movimentos homog\u00eaneos.<\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a revolucion\u00e1ria tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser reduzida a uma onda de ataques irregulares por parte dos \u201cexclu\u00eddos\u201d, tal como \u00e9 fantasiado por meio de representa\u00e7\u00f5es romantizadas do proletariado marginalizado vivendo nos guetos, <em>banlieues<\/em> e favelas das metr\u00f3poles modernas. Ao mesmo tempo em que estes grupos precisam ser, obviamente, empoderados, n\u00f3s simplesmente n\u00e3o podemos falar seriamente em uma transforma\u00e7\u00e3o social de larga escala (afinal, frente tanto ao que est\u00e1 acontecendo como ao que ir\u00e1 ocorrer no futuro, h\u00e1 algo que seja menos <em>[sic]<\/em> necess\u00e1rio?) que n\u00e3o abarque amplos segmentos das classes m\u00e9dia e trabalhadora. \u00c9 a partir deste ponto de vista que insistimos que os Coletes Amarelos, tanto no que diz respeito ao que eles tem feito como tamb\u00e9m no que se refere a todas essas coisas que eles poderiam (n\u00e3o) ter feito, s\u00e3o n\u00e3o apenas um sinal dos tempos, mas uma imagem de um futuro incerto, no qual uma esperan\u00e7a germina.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo e qualquer evento, \u00e9 f\u00e1cil julgar, elogiar e criticar \u00e0 dist\u00e2ncia. Todavia, at\u00e9 porque muitos de n\u00f3s j\u00e1 se encontraram numa posi\u00e7\u00e3o similar, permanece ainda a quest\u00e3o posta pelas minorias que continuam a erguer bandeiras rubro-negras: podemos participar de algo que nos excede, de lutas cujo resultado, este dependente de nossas tentativas de organiza\u00e7\u00e3o e de promo\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a, alcan\u00e7am escopo hist\u00f3rico? Somos aptos a permanecermos ao lado de pessoas com as quais n\u00e3o concordamos nem nos identificamos? Somos capazes de arriscar, de errar, de nos desapontarmos? Se a resposta dessas perguntas for negativa, ent\u00e3o podemos at\u00e9 falar o dia todo sobre revolu\u00e7\u00e3o, mas nunca seremos parte das for\u00e7as respons\u00e1veis por ela.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2019\/01\/988fd-1adh5f3wbis-dnacyluotjw.png\" alt=\"\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Autores:<\/strong> Void Circle &#8211; assembl\u00e9ia pol\u00edtica da Void Network (<a href=\"http:\/\/voidnetwork.gr\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/voidnetwork.gr<\/a>) \/ membro da Federa\u00e7\u00e3o Anarquista na Gr\u00e9cia&nbsp;<br><strong>Publicado em:<\/strong> 2 de janeiro, 2019<br><strong>Original: <\/strong><a href=\"http:\/\/voidnetwork.gr\/2019\/01\/02\/void-network-signs-timesimage-future-thoughts-yellow-vests-revolt-france\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/voidnetwork.gr\/2019\/01\/02\/void-network-signs-timesimage-future-thoughts-yellow-vests-revolt-france\/<\/a><br><strong>Tradu\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o: <\/strong>Eliel Micm\u00e1s [Comunidade dos Tradutores Prolet\u00e1rios]<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2019\/01\/d17c9-1_u9gzp6rr5qjnjwojpbc6q.png\" alt=\"\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Arte de capa: <\/strong>Eliel Micm\u00e1s [Comunidade dos Tradutores Prolet\u00e1rios]<br><strong>Recursos utilizados:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Foto do Ato IX da manifesta\u00e7\u00e3o dos Coletes Amarelos em Paris, por Olivier Ortelpa:(<a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Paris,_Gilets_Jaunes_-_Acte_IX_%2846724068321%29.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Paris,_Gilets_Jaunes_-_Acte_IX_(46724068321).jpg<\/a>) [Licen\u00e7a: CC BY 2.0]<\/li><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algo que vem causando muita, muita dor de cabe\u00e7a em quem se presta a analisar o movimento dos Coletes Amarelos \u00e9 a estranha unidade e coes\u00e3o que este possui, mesmo n\u00e3o tendo sido fruto de grandes organiza\u00e7\u00f5es e sim da reuni\u00e3o de diversas iniciativas locais. Neste texto que traduzimos, o soci\u00f3logo franc\u00eas Samuel Hayat oferece uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o para isso: a defesa, pela ampla maioria dos membros do movimento, de pautas que nascem de uma &#8220;economia moral&#8221;, termo criado por E. P. 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