{"id":53,"date":"2019-02-10T05:58:18","date_gmt":"2019-02-10T07:58:18","guid":{"rendered":"http:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2019\/02\/10\/com-os-coletes-amarelos-contra-a-representacao-pela-democracia\/"},"modified":"2021-11-22T22:18:55","modified_gmt":"2021-11-22T22:18:55","slug":"com-os-coletes-amarelos-contra-a-representacao-pela-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2019\/02\/10\/com-os-coletes-amarelos-contra-a-representacao-pela-democracia\/","title":{"rendered":"Com os Coletes Amarelos: contra a representa\u00e7\u00e3o, pela democracia \u2014 Christian Laval, Pierre Dardot"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Pierre Dardot e Christian Laval, 12 de dezembro de&nbsp;2018<\/h4>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Os protestos dos Coletes Amarelos botaram de pernas pro ar o establishment pol\u00edtico franc\u00eas nestes \u00faltimos meses. Poucas vezes existiu um presidente t\u00e3o odiado quanto Macron \u00e9 hoje, e sua lideran\u00e7a aparenta cada vez mais fragilizada. Neste artigo, Dardot e Laval analisam os protestos e o que eles podem significar para a pol\u00edtica francesa.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><span>P<\/span>oucas vezes, durante a Hist\u00f3ria, um presidente da Rep\u00fablica Francesa foi t\u00e3o odiado quanto Emmanuel Macron \u00e9 hoje. Seu discurso para a TV em 10 de dezembro, por mais solene que fosse, e as migalhas que ele distribuiu com \u201ccompaix\u00e3o\u201d para os mais pobres naquela ocasi\u00e3o\u200a\u2014\u200asem mudar de qualquer forma as medidas altamente injustas por ele encorajadas ou tomadas, primeiro como conselheiro de Hollande, depois como ministro da Economia e por fim como presidente\u200a\u2014\u200an\u00e3o mudar\u00e3o esse fato. A explica\u00e7\u00e3o para uma rejei\u00e7\u00e3o t\u00e3o maci\u00e7a contra ele \u00e9 bem conhecida: o desd\u00e9m de classe por ele demonstrado, tanto em a\u00e7\u00f5es como em palavras, agora voltou para assombr\u00e1-lo, com toda a for\u00e7a de uma popula\u00e7\u00e3o irada, e Macron apenas est\u00e1 recebendo aquilo que ele merece, e muito. Por meio do caos social trazido pelos Coletes Amarelos, o v\u00e9u foi rasgado, pelo menos temporariamente. O \u201cnovo mundo\u201d de Macron \u00e9 apenas o velho, s\u00f3 que ainda pior: esta \u00e9 a mensagem principal sendo ofertada pelos Coletes desde novembro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2017, Macron e o seu projeto \u201cEn Marche\u201d utilizou-se, para prevalecer contra todas as expectativas na luta pela presid\u00eancia, do profundo \u00f3dio das classes m\u00e9dia e trabalhadora contra governantes os quais nunca paravam de piorar a situa\u00e7\u00e3o do povo no trabalho e na vida di\u00e1ria. Nesta conquista de institui\u00e7\u00f5es-chave, Macron n\u00e3o hesitou em usar cinicamente o registro populista de \u201crecome\u00e7ar do zero\u201d, mesmo nunca tendo sido outra coisa que n\u00e3o o \u201ccandidato da oligarquia\u201d, e em particular de sua por\u00e7\u00e3o de elite, a Inspection G\u00e9n\u00e9rale des Finances [<em>Inspetoria Geral de Finan\u00e7as<\/em>, IGF]. Essa manobra foi bem bronca, mas acabou funcionando bem. Apesar do apoio apenas minorit\u00e1rio de suas ideias, ele venceu por meio de duas rodadas de \u201cvoto \u00fatil\u201d\u200a\u2014\u200ano primeiro <em>round<\/em>, foi escolhido como forma de evitar os partidos autorit\u00e1rios-neoliberais (os g\u00eameos do Partido Socialista e dos Republicanos), e no segundo <em>round<\/em>, ganhou do candidato do partido neo-fascista. Sob o disfarce de renova\u00e7\u00e3o, os eleitores t\u00eam recebido desde a primavera de 2017 a agrava\u00e7\u00e3o e acelera\u00e7\u00e3o, sem precedentes, de tudo aquilo que eles se puseram contra. Eles foram despeda\u00e7ados por uma enxurrada de medidas que sucessivamente baixaram os padr\u00f5es de vida e desempoderaram as classes trabalhadora e m\u00e9dia, beneficiando os mais privilegiados e as grandes corpora\u00e7\u00f5es. As pesquisas de opini\u00e3o recentes n\u00e3o mentem: a divis\u00e3o de classes aparece clara como a luz do dia na condena\u00e7\u00e3o popular das pol\u00edticas macronianas. O fato de que os Coletes Amarelos reivindicam a restaura\u00e7\u00e3o do imposto sobre grandes fortunas, um aumento de benef\u00edcios [\u00e0 popula\u00e7\u00e3o] e do sal\u00e1rio m\u00ednimo, e da restaura\u00e7\u00e3o da indexa\u00e7\u00e3o de aposentadorias [aposentadoria cujo valor acompanha o \u00cdndice de Pre\u00e7os no Consumidor], demandas que v\u00e3o muito al\u00e9m de uma morat\u00f3ria no pre\u00e7o da eletricidade e g\u00e1s e da retirada do aumento no imposto de combust\u00edveis, fala muito sobre a import\u00e2ncia social do movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas a descarada propaganda governamental sobre as \u201cfacciosas\u201d e \u201csediciosas\u201d ligas de 1930, complacentemente divulgada pela m\u00eddia subserviente, por algumas \u201cpersonalidades midi\u00e1ticas\u201d e alguns l\u00edderes desorientados de sindicatos, poderia levar algumas pessoas a acreditarem que o movimento \u00e9 intrinsecamente fascista. Deve-se dizer e repetir com for\u00e7a: se a extrema-direita tem tentado cooptar esta ira popular, e se essa manobra acabar sendo bem-sucedida, isso ocorrer\u00e1 apenas pela fal\u00eancia da esquerda pol\u00edtica e dos sindicatos em exercerem sua fun\u00e7\u00e3o de defender os interesses da maioria do povo. Os Coletes Amarelos, quer gostem ou n\u00e3o do movimento, conseguiu aquilo que trinta anos de embates sociais n\u00e3o alcan\u00e7ou: por a quest\u00e3o da justi\u00e7a social no centro do debate. E melhor ainda: eles impuseram claramente a quest\u00e3o, fundamental para toda a humanidade, do elo entre justi\u00e7a social e justi\u00e7a ecol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Uma revolta anti-neoliberal<\/h4>\n\n\n\n<p>Esta revolta social s\u00f3 pode ser entendida em rela\u00e7\u00e3o ao tipo de transforma\u00e7\u00e3o que o governo atual se prop\u00f4s a realizar com brutalidade fiscal e regulat\u00f3ria. A \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d de Macron n\u00e3o foi outra coisa a n\u00e3o ser uma implementa\u00e7\u00e3o radical e apressada de uma concep\u00e7\u00e3o dominante de sociedade pautada na competi\u00e7\u00e3o, performance, lucratividade e no \u201ccrescer o bolo dos ricos para depois reparti-lo aos pobres\u201d. Estendendo uma pol\u00edtica constante de isen\u00e7\u00e3o de impostos para o capital e para empresas, essa \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d tem prolongado e amplificado a transfer\u00eancia da tributa\u00e7\u00e3o e dos encargos e fardos sociais para os lares, especialmente os mais pobres, por meio do aumento dos mais desiguais impostos sobre o consumo, em nome da \u201ccompetitividade\u201d. Em outras palavras, foi por meio da escolha do caminho mais puramente neoliberal que Macron buscou transformar a Fran\u00e7a, procurando portanto, por meio dessa \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d que serviu como seu programa de governo, tornar-se o bom pupilo dos neg\u00f3cios, dos comiss\u00e1rios europeus e dos \u201cinvestidores internacionais\u201d. Ele n\u00e3o foi o primeiro, nem ser\u00e1 provavelmente o \u00faltimo a fazer isso, mas ele quis exercer esse modelo com maestria, mais do que Sarkozy e Hollande juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas parece que ele n\u00e3o tinha culh\u00f5es ou habilidade suficiente para transformar os \u201crelutantes gauleses\u201d, os \u201canalfabetos\u201d e a \u201cral\u00e9\u201d em seguidores de sua \u201cna\u00e7\u00e3o <em>start-up<\/em>\u201d e apoiadores de custos de m\u00e3o-de-obra cada vez mais baixos. Gerir o Estado e dirigir o governo \u00e0 maneira de um chefe de uma grande multinacional, de acordo com as novas normas para servos civis de alto escal\u00e3o convertidos aos ideais capitalistas, n\u00e3o foi suficiente. A centraliza\u00e7\u00e3o e verticaliza\u00e7\u00e3o da Quinta Rep\u00fablica, a repress\u00e3o policial sem limites, a regimenta\u00e7\u00e3o destrutiva de uma maioria parlamentar composta de ne\u00f3fitos insossos e oportunistas legalizados, vem at\u00e9 agora sendo um meio institucionalmente poderoso, mas ainda assim incapaz de fazer a popula\u00e7\u00e3o aceitar tanto a deteriora\u00e7\u00e3o tanto de suas condi\u00e7\u00f5es de vida como tamb\u00e9m seu desempoderamento, simultaneamente nos postos de trabalho e a n\u00edvel municipal. A vida real prevaleceu sobre as ilus\u00f5es de uma oligarquia cegada por sua \u201cverdade\u201d, a qual acreditara que seus tempos de gl\u00f3ria haviam chegado com a elei\u00e7\u00e3o miraculosa de um presidente infantilmente embriagado por uma onipot\u00eancia pol\u00edtica que lhe foi concedida por institui\u00e7\u00f5es fundamentalmente anti-democr\u00e1ticas. A insurrei\u00e7\u00e3o social dos Coletes Amarelos, ao reprimir a m\u00e1quina neoliberal de Macron, demonstrou os limites daquilo que deveria ser chamado de seu bonapartismo gestorial.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Uma manobra&nbsp;final?<\/h4>\n\n\n\n<p>Esta pr\u00e1tica governamental autorit\u00e1ria trouxe o neoliberalismo a um ponto de ruptura. Os atuais governantes, apoiados pelos empregadores, est\u00e3o tentando uma manobra final, cuja natureza j\u00e1 pode ser adivinhada, utilizando-se da crise pol\u00edtica e social para fortalecerem a neoliberaliza\u00e7\u00e3o da sociedade mais sutilmente do que a \u201c<em>blitzkrieg<\/em>\u201d da \u201cprimeira temporada\u201d da gest\u00e3o Macron. J\u00e1 sabemos quais s\u00e3o seus argumentos principais. O primeiro destes, apoiado sem os menores escr\u00fapulos pelas esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio e emissoras de TV, \u00e9 o t\u00edpico clamor por ordem face a uma viol\u00eancia atribu\u00edda unilateralmente aos manifestantes, os quais \u201ccom toda certeza\u201d foram c\u00famplices dos furtos a lojas praticados por jovens criminosos durante os finais dos protestos. Amedrontar e simultaneamente buscar a ajuda de todas as for\u00e7as \u201crespons\u00e1veis\u201d n\u00e3o apenas ajuda a exonerar o governo de suas pr\u00f3prias responsabilidades, mas tamb\u00e9m mascara todas as viola\u00e7\u00f5es [cometidas por este] das liberdades mais fundamentais, como o direito \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o (2000 pris\u00f5es arbitr\u00e1rias), e justifica os m\u00e9todos violentos utilizados pela pol\u00edcia contra manifestantes (em particular o perigoso uso de bombas de som e das assim chamadas granadas \u201canti-cercamento\u201d ou \u201cestilingue\u201d [granadas de fragmenta\u00e7\u00e3o que emitem estilha\u00e7os de borracha n\u00e3o-letais, mas ainda assim capazes de ferir gravemente v\u00edtimas]). A partir deste ponto de vista, a humilha\u00e7\u00e3o coletiva imposta em estudantes de ensino m\u00e9dio em Mantes-la-Jolie relembra os piores m\u00e9todos do colonialismo, em continuidade com o \u201ctratamento\u201d dado aos manifestantes dos protestos de 2005, e torna as afirma\u00e7\u00f5es feitas por S\u00e9gol\u00e8ne Royal\u00b9 particularmente revoltantes.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda linha de defesa do governo \u00e9 selecionar dentre as d\u00edspares demandas dos manifestantes aquelas que seguem a dire\u00e7\u00e3o de redu\u00e7\u00e3o dos gastos p\u00fablicos. Esta \u00e9 a t\u00e1tica j\u00e1 escolhida por Geoffroy Roux de B\u00e9zieux, porta-voz da associa\u00e7\u00e3o dos patr\u00f5es da MEDEF, o qual n\u00e3o possui a menor hesita\u00e7\u00e3o em enaltecer a efetividade da redu\u00e7\u00e3o de impostos feita por Trump. Apresentar esta grande mobiliza\u00e7\u00e3o social como um movimento neo-poujadista de pequenas empresas esmagadas por impostos e mudan\u00e7as sociais, \u201ccansadas e debilitadas\u201d por esses fardos, e n\u00e3o pela injusti\u00e7a social, tem a vantagem de fazer as pessoas acreditarem que a \u00fanica maneira de aumentar o poder de compra \u00e9 \u201creduzir a por\u00e7\u00e3o socializada da renda e cortar servi\u00e7os p\u00fablicos conjuntamente com a redu\u00e7\u00e3o de impostos\u201d (j\u00e1 que a ideia de reduzir os gastos com o ex\u00e9rcito e com a pol\u00edcia est\u00e1 fora de cogita\u00e7\u00e3o neste contexto atual)\u200a\u2014\u200aa menos que Macron escolha, seguindo o mesmo caminho de Sarkozy, estimular \u201choras extras n\u00e3o tributadas\u201d\u200a\u2014\u200aoutro sonho da MEDEF. Claramente evita-se assim mexer nos privil\u00e9gios dos mais ricos: a liberdade de evadir a taxa\u00e7\u00e3o de fortunas, os esc\u00e2ndalos do CICE e do CIR\u00b2, mecanismos os quais, sem qualquer contrapartida, controle ou restri\u00e7\u00f5es, consistem em transferir dezenas de bilh\u00f5es de euros para empresas que n\u00e3o precisam desses recursos. Esta manobra requerer\u00e1 a designa\u00e7\u00e3o de bodes expiat\u00f3rios, \u00e9 claro. Por que n\u00e3o eleger como alvo, em vez dos ricos\u200a\u2014\u200acomo muitos dos Coletes Amarelos prefeririam -, um outro grupo mais humilde que o anterior, os funcion\u00e1rios p\u00fablicos, numerosos demais, bem-pagos demais, n\u00e3o produtivos o suficiente? Por que n\u00e3o pedir deles sacrif\u00edcios adicionais em nome da solidariedade com os mais pobres? N\u00f3s sabemos que h\u00e1 alguns l\u00edderes de sindicatos com suas canetas prontas para ratificar os cortes sociais mais descarados poss\u00edveis. A menos, e isto n\u00e3o \u00e9 a parte menos escandalosa do discurso presidencial, que o alvo seja focar o debate na \u201cquest\u00e3o imigrat\u00f3ria\u201d, ou mesmo no Isl\u00e3, mesmo que isso n\u00e3o seja de modo algum algo central \u00e0s declara\u00e7\u00f5es dos Coletes Amarelos.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Dois caminhos<\/h4>\n\n\n\n<p>Contudo, nada foi resolvido de vez pela interven\u00e7\u00e3o televisiva de Macron em 10 de dezembro. N\u00e3o h\u00e1 garantias de que a raiva passar\u00e1 t\u00e3o cedo. Isto seria, ali\u00e1s, muito surpreendente, visto o quanto as autoridades foram abaladas. Daqui a pouco tempo, a sociedade francesa, assim como outras pelo mundo, ter\u00e1 que escolher entre dois caminhos divergentes. O primeiro \u00e9 o caminho nacionalista, protecionista, hiper-autorit\u00e1rio e anti-ecol\u00f3gico\u200a\u2014\u200aaquele seguido por Trump, Bannon, Salvini, Le Pen, Bolsonaro, Orban ou Erdogan, o qual prospera no mundo inteiro aproveitando-se de todas as frustra\u00e7\u00f5es e ressentimentos gerados pelo neoliberalismo. Entretanto, longe de ser uma alternativa ao neoliberalismo, este caminho \u00e9 uma vers\u00e3o hist\u00f3rica nova e radicalmente antidemocr\u00e1tica desse mesmo sistema, em uma \u00e9poca na qual consequ\u00eancias sociais, pol\u00edticas e ambientais trazem \u00e0 tona a quest\u00e3o de uma mudan\u00e7a fundamental no sistema pol\u00edtico e econ\u00f4mico. O objetivo \u00e9 fazer com que as pessoas acreditem que a restaura\u00e7\u00e3o de um estado-Na\u00e7\u00e3o governado a punho de ferro, dotado de todos os atributos de soberania interna e externa, capaz de fechar suas fronteiras aos imigrantes, e impondo as leis financeiras e de mercado mais duras sobre o povo, e rejeitando todos os tratados internacionais de coopera\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, \u00e9 a \u00fanica maneira de melhorar a situa\u00e7\u00e3o social da grande maioria. Trump \u00e9 agora o campe\u00e3o mundial dessa linha pol\u00edtica, e \u00e9 grandemente assistido nesse papel por Macron.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo caminho, democr\u00e1tico, ecol\u00f3gico e igualit\u00e1rio, o qual foi afirmado por v\u00e1rias d\u00e9cadas em todas as lutas sociais e resist\u00eancia ao neoliberalismo, no altermundialismo, nos Movimentos dos Largos [<em>Occupy Wall Street<\/em> e <em>Indignados<\/em>], nos m\u00faltiplos laborat\u00f3rios de bens comunais, \u00e9 o \u00fanico capaz de evitar o colapso dos ecossistemas e a desintegra\u00e7\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o das sociedades. Sua \u00fanica fraqueza \u00e9 ainda n\u00e3o ter uma express\u00e3o majorit\u00e1ria e uma nova forma pol\u00edtica. Ele foi afetado, em primeiro lugar, pela trai\u00e7\u00e3o da esquerda governamental, em particular de sua vers\u00e3o \u201csocial-democrata\u201d, e agora est\u00e1 tragicamente enfraquecido pelas divis\u00f5es entre l\u00edderes de organiza\u00e7\u00f5es mais preocupadas com seus pr\u00f3prios interesses paroquiais do que com sua responsabilidade hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o mais primordial hoje \u00e9, portanto, se a insurrei\u00e7\u00e3o dos Coletes Amarelos permitir\u00e1 a posi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, ecol\u00f3gica e igualit\u00e1ria prevalecer sobre a frente nacionalista, e de identidade fascista, a qual venceu na It\u00e1lia e, mais recentemente, no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">A rejei\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a auto-organiza\u00e7\u00e3o do movimento<\/h4>\n\n\n\n<p>Assim como muitos j\u00e1 observaram, este movimento juntou indiv\u00edduos de classes, idades e opini\u00f5es diferentes. Alguns abusos de natureza racista, mis\u00f3gina ou francamente fascista ocorreram e ainda podem acontecer aqui e acol\u00e1, talvez at\u00e9 se desenvolverem. Saques e ataques a lojas por gangues juvenis tamb\u00e9m aconteceram em algumas partes da capital e em v\u00e1rios centros de cidades, e isso tem servido como um \u00e1libi para desacreditar o movimento social. Todavia, esta n\u00e3o \u00e9 a l\u00f3gica mais profunda e basilar instigando o movimento, este sendo diverso, plural e muitas vezes fruto de um impulso de base exercido por mulheres. Se um indiv\u00edduo isolado quis que um general tomasse o poder, ele n\u00e3o \u00e9 de forma alguma um representante leg\u00edtimo de um movimento que rejeita qualquer usurpa\u00e7\u00e3o de si por meio da representa\u00e7\u00e3o. A l\u00f3gica atual por detr\u00e1s do movimento \u00e9 n\u00e3o depender de um l\u00edder que sirva como encarna\u00e7\u00e3o do povo, seja l\u00e1 como os teoristas do populismo interpretem essa quest\u00e3o, j\u00e1 que para eles \u00e9 o representante que cria um povo e lhe d\u00e1 a sua unidade. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um objetivo basilar do movimento a renova\u00e7\u00e3o da \u201crepresenta\u00e7\u00e3o nacional\u201d por meio da dissolu\u00e7\u00e3o do parlamento, mesmo que os l\u00edderes tanto de La France Insoumise como do Rassemblement National (anteriormente chamado de Front National) procurem canalizar o movimento para que ele des\u00e1gue no espa\u00e7o eleitoral. Todo mundo sabe, ou deveria saber, que neste joguinho, \u00e9 o partido neo-fascista que venceria no fim das contas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem antecipar o resultado do movimento dos Coletes Amarelos, a primeira li\u00e7\u00e3o que podemos aprender a partir dele \u00e9 a capacidade inovativa que este demonstrou, rejeitando de antem\u00e3o qualquer coopta\u00e7\u00e3o e dependendo apenas de sua for\u00e7a coletiva para fazer-se ouvido e formular suas reivindica\u00e7\u00f5es sem o c\u00e1lculo t\u00e1tico de um aparato partid\u00e1rio, tendo como ponto de partida as condi\u00e7\u00f5es intoler\u00e1veis experimentadas por indiv\u00edduos reais e anteriormente invis\u00edveis. Aquilo que a televis\u00e3o retratou como a principal fraqueza do movimento\u200a\u2014\u200asua \u201cincapacidade\u201d de ser representado\u200a\u2014\u200a\u00e9 ainda assim a sua caracter\u00edstica mais not\u00e1vel, e o seu significado total precisa ser entendido: n\u00e3o \u00e9 uma \u201cincapacidade\u201d, e sim uma rejei\u00e7\u00e3o a princ\u00edpio de qualquer representa\u00e7\u00e3o. E tal recusa \u00e9 totalmente justa. \u00c9 bem improv\u00e1vel haver alguma d\u00favida de que isso n\u00e3o seja outra coisa al\u00e9m de uma consequ\u00eancia de uma profunda crise de legitimidade dos governos, dos representantes eleitos, da m\u00eddia e at\u00e9 dos sindicatos, crise esta causada e acentuada pela radicaliza\u00e7\u00e3o neoliberal das oligarquias. Mas h\u00e1 outro aspecto, o qual \u00e9 pouqu\u00edssimas vezes apontado em an\u00e1lises do movimento, que \u00e9 n\u00e3o obstante o lado positivo desta recusa em aceitar qualquer representa\u00e7\u00e3o: face ao esvaziamento de uma democracia representativa a qual n\u00e3o representa mais a sociedade, a resposta mais espont\u00e2nea dos Coletes Amarelos tem sido a auto-organiza\u00e7\u00e3o de suas a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o apenas de entraves nas estradas e de manifesta\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m a elabora\u00e7\u00e3o coletiva de reivindica\u00e7\u00f5es no decorrer de reuni\u00f5es e assembl\u00e9ias. Uma li\u00e7\u00e3o maravilhosa para partidos e sindicatos cuja rea\u00e7\u00e3o tradicional e autom\u00e1tica \u00e9 supervisionar as massas e emitir demandas, instru\u00e7\u00f5es e slogans de forma vertical.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode n\u00e3o ser a mesma coisa que o Nuit Debout, mas o ponto em comum do movimento atual com a ocupa\u00e7\u00e3o dos largos \u00e9 o desejo pr\u00e1tico da popula\u00e7\u00e3o de resolverem quest\u00f5es coletivas por si s\u00f3. O chamado dos Coletes Amarelos de Commercy \u00e9 um exemplo do esp\u00edrito de democracia direta que inspira os comit\u00eas de base. \u00c9 pertinente citar trechos grandes:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Aqui em Commercy, no Meuse, operamos desde o in\u00edcio fazendo assembl\u00e9ias populares di\u00e1rias, nas quais cada pessoa participa de maneira igualit\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o aos demais. Organizamos entraves na cidade e de postos de combust\u00edveis, e bloqueios de estrada seletivo. Simultaneamente, constru\u00edmos um barrac\u00e3o na pra\u00e7a central. L\u00e1, nos reunimos todos os dias para nos organizarmos, e recepcionar aqueles que se juntam ao movimento. N\u00f3s tamb\u00e9m organizamos \u201crefei\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias\u201d, para vivermos bons momentos juntos e conhecermos uns aos outros. Em total igualdade. Mas agora o governo, e algumas partes minorit\u00e1rias do movimento, est\u00e3o propondo que escolhamos representantes por regi\u00e3o! Em outras palavras, algumas pessoas as quais se tornariam os \u00fanicos \u201cinterlocutores\u201d para as autoridades p\u00fablicas, dando assim uma resumida na nossa diversidade. Mas n\u00f3s n\u00e3o queremos \u201crepresentantes\u201d que necessariamente acabariam falando por n\u00f3s! [\u2026] O governo n\u00e3o est\u00e1 exigindo \u201crepresentantes\u201d para conseguir entender melhor nossa raiva e nossas reivindica\u00e7\u00f5es, e sim para nos supervisionar e nos sufocar! Em conjunto com l\u00edderes de sindicatos, ele est\u00e1 procurando por intermedi\u00e1rios, pessoas com as quais ele poderia negociar. Por meio das quais ele poderia aplicar press\u00e3o e assim acalmar a erup\u00e7\u00e3o. Pessoas que ele poderia ent\u00e3o cooptar e impulsionar para dividirem o movimento e sufoc\u00e1-lo.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Mas isso n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o a for\u00e7a e a intelig\u00eancia de nosso movimento\u200a\u2014\u200asem contar que estamos constantemente pensando, nos organizando, desenvolvendo aquelas nossas a\u00e7\u00f5es que tanto lhes assustam, e amplificando o movimento! E acima de tudo, h\u00e1 uma coisa muito importante demandada de diversas formas pelo movimento dos Gilets Jaunes em todos os lugares, e que vai muito al\u00e9m de simplesmente comprar o poder! Isto \u00e9:<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>poder ao povo, pelo povo, para o povo. \u00c9 um novo sistema no qual \u201caqueles que nada s\u00e3o\u201d, como afirmam com desd\u00e9m, retomam o poder das m\u00e3os daqueles que se empanturram usando-se de l\u00edderes e dos poderes do dinheiro. \u00c9 igualdade. \u00c9 justi\u00e7a. \u00c9 liberdade. \u00c9 isso que queremos! E come\u00e7a-se pela base!<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Se escolhermos \u201crepresentantes\u201d e \u201cporta-vozes\u201d, isso acabar\u00e1 nos tornando passivos. Pior ainda: teremos reproduzido rapidamente o sistema e funcionando de forma verticalizada, igual aos canalhas que nos lideram. Esses assim chamados \u201crepresentantes do povo\u201d, os quais enriquecem imoralmente, fazem leis que arru\u00ednam nossas vidas e servem aos interesses dos ultra-ricos! N\u00e3o fiquemos preso na espiral da representa\u00e7\u00e3o e coopta\u00e7\u00e3o. Esta n\u00e3o \u00e9 a hora de confiarmos nossa voz a um grupo seleto, mesmo que este pare\u00e7a honesto. Que eles todos nos escutem, ou ent\u00e3o n\u00e3o ou\u00e7am ningu\u00e9m!<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A partir daqui, Commercy, n\u00f3s convocamos portanto a cria\u00e7\u00e3o de comit\u00eas populares por toda a Fran\u00e7a, para operarem como assembl\u00e9ias gerais constantes. Locais nos quais a fala seja livre, onde as pessoas ousem expressarem-se, praticar e ajudar uns aos outros. Se tiverem que haver representantes, que seja ao n\u00edvel de cada comit\u00ea popular local dos Coletes Amarelos, o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel da voz do povo. Com mandatos obrigat\u00f3rios, revog\u00e1veis e rotativos. Com transpar\u00eancia. Com confian\u00e7a.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Qualquer um que tenha visto os autores desse apelo se revezando no microfone para evitar qualquer captura de sua fala por um \u201crepresentante\u201d entender\u00e1 imediatamente a profundidade da demanda democr\u00e1tica que impulsiona este movimento. Mais uma vez, isso \u00e9 muito mais do que desconfian\u00e7a, e sim uma rejei\u00e7\u00e3o da substitui\u00e7\u00e3o, pela qual uma minoria assume o direito de falar e agir no lugar da maioria. A grande presci\u00eancia desta declara\u00e7\u00e3o \u00e9 bem vinda: desde 6 de dezembro, \u201crepresentantes\u201d dos sindicatos, com a not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o do Solidaires, foram r\u00e1pidos em socorrerem de um Macron totalmente isolado e cambaleante, algo que at\u00e9 provocou uma rea\u00e7\u00e3o dentro da pr\u00f3pria CGT [<em>Conf\u00e9d\u00e9ration g\u00e9n\u00e9rale du travail, <\/em>Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho, umas das cinco confedera\u00e7\u00f5es nacionais de sindicatos reconhecidas pelo governo franc\u00eas]. Estes famosos \u201ccorpos intermedi\u00e1rios\u201d s\u00e3o, por completo, parte da l\u00f3gica da representa\u00e7\u00e3o, e longe de agirem como pren\u00fancio de um resultado positivo para a crise do regime, eles apenas servem para ajudar Macron a readquirir controle.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro, n\u00e3o h\u00e1 garantias de que as possibilidades abertas por essa democracia em a\u00e7\u00e3o sejam tornadas reais. O que importa agora \u00e9 que vale a pena lutar por sua concretiza\u00e7\u00e3o. Deixemos o desprezo \u00e0 inven\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica com os neo-Blanquistas do \u201cA Insurrei\u00e7\u00e3o que Vem\u201d e outros celebradores da \u201cviol\u00eancia pura\u201d. Os <em>casseurs<\/em> [manifestantes que cometem atos de viol\u00eancia durante os protestos] que se enxertam nas manifesta\u00e7\u00f5es, sem participar de qualquer maneira das decis\u00f5es coletivas, tamb\u00e9m contribuem para despojar o movimento de sua democracia interna. A quest\u00e3o como um todo \u00e9 se o esp\u00edrito completamente democr\u00e1tico do movimento ser\u00e1 profundo o suficiente para fincar ra\u00edzes permanentes e imunizar a sociedade contra as tenta\u00e7\u00f5es fascistas que podem se desenvolver caso aquele falhe e se degenere. E esta \u00fanica quest\u00e3o claramente implica nossa responsabilidade, a responsabilidade de todos n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O quietismo pol\u00edtico<\/h4>\n\n\n\n<p>Um estranho racioc\u00ednio revela o profundo constrangimento de uma parte da tal esquerda \u201cradical\u201d face a este movimento singular e sem precedentes, o qual evade a todas as categorias do seu l\u00e9xico pol\u00edtico convencional. Essas pessoas afirmam que tal movimento \u201carrisca\u201d desviar-se para uma dire\u00e7\u00e3o ruim, reacion\u00e1ria ou fascista caso ele falhe em oferecer todas as categorias necess\u00e1rias para nos tranquilizar quanto a seu futuro pol\u00edtico. Esta avalia\u00e7\u00e3o de risco \u00e9 expressa por meio de uma atitude cautelosa, ou mesmo total recusa de envolverem-se com aqueles que n\u00e3o atendem aos crit\u00e9rios pelos quais eles reconhecem estarem lidando com o povo [people pode significar \u201cpessoas\u201d ou \u201cpovo\u201d, e o autor brincar\u00e1 com essa ambiguidade no pr\u00f3ximo par\u00e1grafo], o povo verdadeiro, aqueles que carregam em si os aut\u00eanticos valores da esquerda, identificam-se com seus objetivos e lutas, e certamente n\u00e3o correm o menor risco de serem empurrados ladeira abaixo em dire\u00e7\u00e3o ao fascismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Este racioc\u00ednio pede duas observa\u00e7\u00f5es. A primeira se refere ao uso da palavra \u201cpovo\u201d. Claramente, ele foi investido aqui com um significado totalmente idealizado: fala-se de \u201co povo\u201d, no singular [people como \u201cpovo\u201d, entidade singular e universal, e n\u00e3o como \u201cpessoas\u201d]; a popula\u00e7\u00e3o real, necessariamente impura e diversa, n\u00e3o \u00e9 nada frente a essa entidade, e \u00e9 convocada a conformar-se a esse ideal para serem merecedores dessa prestigiosa designa\u00e7\u00e3o. Caso falhem nesse objetivo, \u00e9 justific\u00e1vel afastar-se deles e deixar que se virem sozinhos. Infelizmente, este povo ideal n\u00e3o existe, exceto no para\u00edso quase plat\u00f4nico do esquerdismo incorrupt\u00edvel. Inexist\u00eancia tal qual aquela do \u201cpovo\u201d visto como uma \u201ccomunidade de cidad\u00e3os\u201d, t\u00e3o amado pela tradi\u00e7\u00e3o republicana e ao mesmo tempo ritualmente ressuscitado em toda grande elei\u00e7\u00e3o como a mistifica\u00e7\u00e3o do \u201cinteresse geral\u201d, o qual \u00e9 simplesmente um povo feito sob medida por institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas existentes para o bem maior das oligarquias. Devemos ser bem claros: o povo real nunca \u00e9 o povo ideal. Deixemos o sonho de um povo ideal aos burocratas e outros vanguardistas de carteirinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao fim da insurrei\u00e7\u00e3o popular de 17 de junho de 1953 na Alemanha Oriental, Brecht perguntou: \u201cN\u00e3o seria mais f\u00e1cil ent\u00e3o, para o governo, dissolver o povo e eleger outro?\u201d\u00b3 A menos que queiramos recorrer a reivindica\u00e7\u00f5es rid\u00edculas do tipo \u201cmudar o povo\u201d, as quais sem sombra de d\u00favidas oferecem prote\u00e7\u00e3o contra a decep\u00e7\u00e3o, precisamos aceitar a heterogeneidade e impureza das pessoas reais. Qualquer outra coisa n\u00e3o passa de distra\u00e7\u00e3o. Significaria isso que nenhuma distin\u00e7\u00e3o possa ser feita entre o \u201cpovo social\u201d e o \u201cpovo pol\u00edtico\u201d? O povo social \u00e9 definido por sua pobreza e mis\u00e9ria, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s elites ou \u00e0 oligarquia, mas eles s\u00e3o igualmente heterog\u00eaneos e diversos, atravessados por tens\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es, tal como vemos hoje em dia. O verdadeiro povo pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 nem as pessoas do eleitorado, nem as pessoas sociologicamente definidas por sua pobreza ou mis\u00e9ria, e sim aqueles que agem, as pessoas-atores inventando novas formas de auto-organiza\u00e7\u00e3o por meio da a\u00e7\u00e3o. Este povo nunca \u00e9 um \u201ctodo\u201d, \u00e9 sempre apenas uma parte, mas ela \u00e9 a por\u00e7\u00e3o que abre novas possibilidades para todos, isto \u00e9, para a sociedade inteira. O \u201cpovo da esquerda\u2019 n\u00e3o \u00e9 outra coisa a n\u00e3o ser uma falsa inven\u00e7\u00e3o de partidos antigos cuja \u00fanica fun\u00e7\u00e3o \u00e9 reativar sua base eleitoral quando certas consultas se aproximam ou quando eles est\u00e3o passando por dificuldades. Em geral, s\u00f3 h\u00e1 \u201cpovos\u201d no plural, sua emerg\u00eancia imprevis\u00edvel e todas as vezes \u00fanica, e a f\u00f3rmula \u201cum equivale a todos\u201d \u00e9 apenas uma fatal ilus\u00e3o. A coincid\u00eancia do social e do pol\u00edtico em um \u201cnovo amanhecer\u201d, \u00e9 apenas um devaneio, um mito que a esquerda cr\u00edtica deve jogar fora de uma vez por todas.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda observa\u00e7\u00e3o tem a ver com a conclus\u00e3o pr\u00e1tica que este argumento tem a inten\u00e7\u00e3o de justificar. Por mais surpreendente que seja, esse racioc\u00ednio \u00e9 mais ou menos similar a um argumento bem antigo, conhecido na filosofia grega como \u201cpregui\u00e7oso\u201d ou \u201cinerte\u201d. C\u00edcero o define em seu tratado Sobre o Destino, afirmando que se o aceitarmos, passar\u00edamos nossas vidas inteiras em completa ina\u00e7\u00e3o. Basicamente:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Se voc\u00ea est\u00e1 doente e seu destino \u00e9 curar-se, voc\u00ea se curar\u00e1, independentemente de chamar ou n\u00e3o o doutor; mas se seu destino \u00e9 n\u00e3o se curar, ent\u00e3o chamando ou n\u00e3o o doutor, ainda assim voc\u00ea n\u00e3o se curar\u00e1. Mas seu destino \u00e9 ou se curar, ou n\u00e3o se curar. Portanto, \u00e9 perda de tempo para voc\u00ea chamar o doutor.\u2074<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Agora d\u00e1 para entender porque esse argumento merece muito bem o nome de \u201cpregui\u00e7oso\u201d: ele justifica abster-se de qualquer a\u00e7\u00e3o e leva as pessoas ao quietismo (de quies, que significa \u201cdescanso\u201d em Latim). Algumas pessoas argumentar\u00e3o contra tal compara\u00e7\u00e3o afirmando que aqueles os quais alertam quanto ao perigo de uma guinada \u00e0 direita do movimento n\u00e3o est\u00e3o usando do destino ou do fatalismo, mas simplesmente reconhecendo riscos, meras possibilidades. Mas a quest\u00e3o aqui \u00e9 precisamente que atitude devemos tomar com rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo o qual, atualmente, consiste apenas de \u201cpossibilidades\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo deste comparativo proposto aqui \u00e9 destacar a atitude quietista resultante deste reconhecimento de possibilidades remotas. Essas pessoas argumentam como se a concretiza\u00e7\u00e3o de uma possibilidade, no lugar de outra, fosse completamente independente de suas a\u00e7\u00f5es. Eles dizem a si mesmos, sem realmente ousarem admitir isso: \u201cse a pior possibilidade tornar-se realidade, ela vai se tornar realidade, quer n\u00f3s intervenhamos ou n\u00e3o para impedi-la.\u201d Desta maneira, eles se livram de antem\u00e3o de qualquer responsabilidade. A premissa por detr\u00e1s dessa atitude \u00e9 que seja l\u00e1 qual das possibilidades possa acabar, eventualmente, tornando-se real, at\u00e9 mesmo a pior delas, n\u00f3s n\u00e3o tivemos nada a ver com isso. Ou isto ou aquilo ocorrer\u00e1, ou n\u00e3o, mas em qualquer caso \u00e9 in\u00fatil intervir. Se por algum acaso isso acabar acontecendo, a culpa ser\u00e1 dada, de antem\u00e3o, \u00e0s inadequa\u00e7\u00f5es e ambiguidades do movimento. Por\u00e9m, abster-se de fazer uma interven\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica n\u00e3o significa simplesmente observar a evolu\u00e7\u00e3o do movimento de longe, e sim, mesmo que isso seja ou n\u00e3o negado, promover a concretiza\u00e7\u00e3o da possibilidade mais preocupante e amea\u00e7adora, aquela precisamente respons\u00e1vel por justificar a recusa \u00e0 a\u00e7\u00e3o. \u00c9 bem f\u00e1cil dizer \u201cn\u00f3s avisamos\u201d ao t\u00e9rmino de tudo, se voc\u00ea mesmo contribuiu diretamente para tornar essa possibilidade negativa uma realidade. Hoje em dia, particularmente, \u00e9 importante alertar contra essa postura: o quietismo pol\u00edtico serve aos interesses do inimigo, e \u00e9 portanto imperdo\u00e1vel. A urg\u00eancia deste momento demanda de n\u00f3s que ajamos no movimento tal como ele \u00e9 e com os Coletes Amarelos, aceitando-os como s\u00e3o e n\u00e3o como gostar\u00edamos que eles fossem; resolutamente apoiando tudo que v\u00e1 na dire\u00e7\u00e3o da auto-organiza\u00e7\u00e3o e da democracia. Repito: ainda n\u00e3o acabou. O presente \u00e9 novo, o futuro est\u00e1 aberto e nossas a\u00e7\u00f5es importam, aqui e agora. Ato Cinco.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>[1] S\u00e9gol\u00e8ne Royal, o candidato socialista para o cargo de presidente em 2007, disse que o tratamento dado pela pol\u00edcia aos estudantes \u201cdeu uma li\u00e7\u00e3o neles\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>[2] O CICE, \u201cCr\u00e9dito tribut\u00e1rio para a competitividade e empregabilidade\u201d, efetivamente diminui os impostos sobre as empresas em \u20ac20 bilh\u00f5es por ano desde 2013. O CIR, \u201cCr\u00e9dito tribut\u00e1rio para a pesquisa\u201d, fazia por sua vez uma diminui\u00e7\u00e3o ainda maior, de \u20ac6 a\u20ac7 bilh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>[3] Bertolt Brecht, <em>A Solu\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>[4] Cicero, <em>De Fato<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2019\/02\/c2d91-1adh5f3wbis-dnacyluotjw.png\" alt=\"\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Autores: <\/strong>Pierre Dardot e Christian Laval<br><strong>Publicado em:<\/strong> 17 de dezembro, 2018<br><strong>Original: <\/strong><a href=\"https:\/\/blogs.mediapart.fr\/les-invites-de-mediapart\/blog\/121218\/avec-les-gilets-jaunes-contre-la-representation-pour-la-democratie\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/blogs.mediapart.fr\/les-invites-de-mediapart\/blog\/121218\/avec-les-gilets-jaunes-contre-la-representation-pour-la-democratie<\/a><br><strong>Tradu\u00e7\u00e3o original (franc\u00eas para ingl\u00eas): <\/strong>David Fernbach<br><strong>Tradu\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o: <\/strong>Eliel Micm\u00e1s [Comunidade dos Tradutores Prolet\u00e1rios]<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2019\/02\/be058-1wn4pejjxzlwgjyodrg7kyw.png\" alt=\"\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Arte de capa: <\/strong>Eliel Micm\u00e1s [Comunidade dos Tradutores Prolet\u00e1rios]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os protestos dos Coletes Amarelos botaram de pernas pro ar o establishment pol\u00edtico franc\u00eas nestes \u00faltimos meses. Poucas vezes existiu um presidente t\u00e3o odiado quanto Macron \u00e9 hoje, e sua lideran\u00e7a aparenta cada vez mais fragilizada. Neste artigo, Dardot e Laval analisam os protestos e o que eles podem significar para a pol\u00edtica francesa. 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