{"id":5077,"date":"2026-10-13T08:02:00","date_gmt":"2026-10-13T08:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/?p=5077"},"modified":"2026-10-13T00:26:17","modified_gmt":"2026-10-13T00:26:17","slug":"a-tecnica-nao-chega-intacta-produzir-psicanalise-fora-do-centro-caeli-corvere","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2026\/10\/13\/a-tecnica-nao-chega-intacta-produzir-psicanalise-fora-do-centro-caeli-corvere\/","title":{"rendered":"A t\u00e9cnica n\u00e3o chega intacta: produzir psican\u00e1lise fora do centro\u00a0&#8211; Caeli Corvere"},"content":{"rendered":"\n<p><br><strong>Resumo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este ensaio parte de uma suspeita simples: a t\u00e9cnica psicanal\u00edtica n\u00e3o atravessa fronteiras sem ser tocada por elas. Quando deixa os centros hist\u00f3ricos que a codificaram e legitimaram, n\u00e3o leva consigo apenas conceitos e procedimentos; encontra outras l\u00ednguas, outras economias do cuidado, outras institui\u00e7\u00f5es e outros modos de organizar tempo, dinheiro, corpo e autoridade. Ferenczi oferece aqui uma primeira chave, ao pensar a elasticidade como rigor sem rigidez; Lacan permite separar dire\u00e7\u00e3o do tratamento de padroniza\u00e7\u00e3o do dispositivo; L\u00e9lia Gonzalez torna imposs\u00edvel supor uma l\u00edngua neutra; Virg\u00ednia Bicudo, Neusa Santos Souza e Isildinha Baptista Nogueira mostram que racializa\u00e7\u00e3o, corpo e ideal n\u00e3o chegam \u00e0 cl\u00ednica como adere\u00e7os sociol\u00f3gicos; e Paulo Arantes ajuda a pensar o que acontece quando uma tradi\u00e7\u00e3o importada deixa de ser apenas recebida e come\u00e7a a produzir problemas pr\u00f3prios. A hip\u00f3tese que atravessa o texto \u00e9 que a transmiss\u00e3o n\u00e3o se conserva \u00edntegra \u2014 e que talvez seja justamente essa n\u00e3o-integridade, quando sustentada por crit\u00e9rios cl\u00ednicos e te\u00f3ricos, uma condi\u00e7\u00e3o de rigor. Ao final, essa distin\u00e7\u00e3o entre fun\u00e7\u00e3o e forma \u00e9 levada ao problema da neutralidade pol\u00edtica: a abstin\u00eancia cl\u00ednica n\u00e3o \u00e9 tomada como obriga\u00e7\u00e3o de sil\u00eancio diante da fascistiza\u00e7\u00e3o, e a compossibilidade entre psican\u00e1lise e pol\u00edtica permite defender posi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e de esquerda sem converter a transfer\u00eancia em pedagogia ideol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Palavras-chave: psican\u00e1lise; elasticidade da t\u00e9cnica; ra\u00e7a e psican\u00e1lise; L\u00e9lia Gonzalez; Paulo Arantes; Lacan; centro e periferia; pol\u00edtica; fascistiza\u00e7\u00e3o; neutralidade.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>1. A t\u00e9cnica tamb\u00e9m viaja<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-dominant-color=\"85766e\" data-has-transparency=\"false\" style=\"--dominant-color: #85766e;\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" src=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-1-1024x683.avif\" alt=\"Sala de espera de Freud na Berggasse 19, Viena.\" class=\"wp-image-5080 not-transparent\" srcset=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-1-1024x683.avif 1024w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-1-300x200.avif 300w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-1-768x512.avif 768w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-1-1536x1024.avif 1536w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-1.avif 2048w\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\" style=\"font-style:italic;font-weight:600\">Sala de espera do consult\u00f3rio de Sigmund Freud na Berggasse 19, em Viena.<\/p>\n\n\n\n<p>A psican\u00e1lise viaja mal quando imagina viajar inteira. H\u00e1 algo de quase colonial nessa fantasia de transporte sem resto: a teoria muda de pa\u00eds, atravessa o oceano, troca de l\u00edngua, mas continua supondo que seu endere\u00e7o epistemol\u00f3gico permaneceu o mesmo. Viena, Paris, Londres ou Buenos Aires tornam-se, ent\u00e3o, nomes do universal; os outros lugares aparecem como cen\u00e1rios em que esse universal ser\u00e1 aplicado com maior ou menor fidelidade. A diferen\u00e7a de l\u00edngua, de classe, de ra\u00e7a, de forma\u00e7\u00e3o institucional, de pre\u00e7o, de mobilidade ou de acesso \u00e0 privacidade fica do lado de fora, como se a t\u00e9cnica pudesse passar por tudo isso sem adquirir uma marca. Mas talvez seja o contr\u00e1rio. Talvez a viagem tenha precisamente a virtude de mostrar o que, na t\u00e9cnica, parecia necess\u00e1rio apenas porque durante muito tempo permaneceu im\u00f3vel. Quando o dispositivo encontra outras condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia, come\u00e7a a aparecer a diferen\u00e7a entre uma fun\u00e7\u00e3o e a forma hist\u00f3rica que um dia a sustentou. \u00c9 nesse ponto que a discuss\u00e3o deixa de ser simplesmente sobre adapta\u00e7\u00e3o. Adaptar ainda pressup\u00f5e um original intacto, em rela\u00e7\u00e3o ao qual as varia\u00e7\u00f5es s\u00e3o concess\u00f5es. Produzir exige admitir que a pr\u00f3pria c\u00f3pia possa devolver uma pergunta ao modelo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que os autores reunidos aqui n\u00e3o formam uma linhagem homog\u00eanea, nem precisam formar. Ferenczi comparece quando a regra amea\u00e7a converter-se em defesa contra a experi\u00eancia; Lacan, quando a fidelidade passa a significar conforma\u00e7\u00e3o; L\u00e9lia Gonzalez, quando a l\u00edngua culta se oferece como se n\u00e3o tivesse hist\u00f3ria; Bicudo, Neusa e Isildinha, quando ra\u00e7a e corpo s\u00e3o empurrados para a condi\u00e7\u00e3o de contexto; Paulo Arantes, quando importar ideias parece condenar-nos \u00e0 alternativa pobre entre imita\u00e7\u00e3o e autenticidade. Mais do que compor uma \u201cpsican\u00e1lise perif\u00e9rica\u201d, interessa acompanhar uma pergunta: o que uma tradi\u00e7\u00e3o precisa perder \u2014 ou deixar de imaginar que possui \u2014 para continuar viva quando muda de endere\u00e7o?<\/p>\n\n\n\n<p>Essa viagem da t\u00e9cnica obriga, antes de tudo, a perguntar onde se deposita o rigor. Ferenczi talvez seja especialmente inc\u00f4modo porque o desloca de um lugar confort\u00e1vel. Em \u201cElasticidade da t\u00e9cnica psicanal\u00edtica\u201d (1928\/2011), ele associa elasticidade a tato, mod\u00e9stia e reconhecimento dos limites do saber. N\u00e3o \u00e9 uma defesa da espontaneidade do analista, menos ainda uma licen\u00e7a para que tudo dependa de gosto pessoal. O que ele recusa \u00e9 a ideia de que a regra, por ter sido uma vez justificada, permane\u00e7a justificada por si mesma. Sil\u00eancio, regularidade, reserva, frequ\u00eancia: cada um desses elementos pode sustentar uma an\u00e1lise e, em outra situa\u00e7\u00e3o, funcionar como ritual, intimida\u00e7\u00e3o ou simples incapacidade de responder. A mesma forma pode produzir efeitos opostos; formas diferentes podem, \u00e0s vezes, proteger uma mesma fun\u00e7\u00e3o. Isso desloca a pergunta. Em vez de \u201c\u00e9 assim que se faz?\u201d, torna-se necess\u00e1rio perguntar \u201co que isto est\u00e1 fazendo aqui?\u201d. A elasticidade n\u00e3o diminui a responsabilidade t\u00e9cnica; ela a torna mais pesada, porque retira do analista o abrigo oferecido pelo costume. Dizer que \u201cna psican\u00e1lise se faz assim\u201d \u00e9 sempre mais simples do que responder pelo que uma decis\u00e3o produz naquele tratamento. E \u00e9 justamente quando o setting encontra outras condi\u00e7\u00f5es materiais \u2014 outro regime de trabalho, outro acesso \u00e0 privacidade, outra rela\u00e7\u00e3o com deslocamento, dinheiro ou tempo \u2014 que essa exig\u00eancia se torna incontorn\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-dominant-color=\"9a9180\" data-has-transparency=\"false\" style=\"--dominant-color: #9a9180;\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"684\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" src=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-3-1024x684.avif\" alt=\"\" class=\"wp-image-5082 not-transparent\" srcset=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-3-1024x684.avif 1024w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-3-300x200.avif 300w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-3-768x513.avif 768w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-3-1536x1025.avif 1536w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-3-2048x1367.avif 2048w\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\" style=\"font-style:italic;font-weight:600\">Karl-Marx-Hof, um dos s\u00edmbolos da Viena Vermelha.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma consequ\u00eancia pol\u00edtica que n\u00e3o precisa ser transformada em programa identit\u00e1rio. Sujeitos pobres, negros, ind\u00edgenas, trans, trabalhadores precarizados ou moradores de cidades pequenas n\u00e3o demandam, por isso, uma \u201cpsican\u00e1lise especial\u201d. Seria apenas trocar uma normatividade por outra e antecipar, pela categoria social, aquilo que a escuta deveria permitir que se singularizasse. O que muda \u00e9 menos o sujeito da psican\u00e1lise do que a visibilidade das condi\u00e7\u00f5es em que a an\u00e1lise acontece. Quando mobilidade, estabilidade financeira, espa\u00e7o privado ou disponibilidade de tempo deixam de ser pressupostos silenciosos, aquilo que parecia detalhe come\u00e7a a mostrar seu peso. A periferia, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 o lugar de uma outra psique. \u00c9 o lugar em que certos pressupostos da t\u00e9cnica deixam de poder passar por natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo problema reaparece em Lacan, e h\u00e1 algo de ir\u00f4nico em transform\u00e1-lo em garantia de padroniza\u00e7\u00e3o. Em \u201cVariantes do tratamento-padr\u00e3o\u201d (1955\/1998) e \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder\u201d (1958\/1998), a t\u00e9cnica n\u00e3o aparece como um conjunto de gestos que conservariam, por repeti\u00e7\u00e3o, sua identidade anal\u00edtica. Ela depende da posi\u00e7\u00e3o do analista, da fala, da transfer\u00eancia, do modo como o saber \u00e9 distribu\u00eddo na cena. A f\u00f3rmula segundo a qual o analista dirige o tratamento, mas n\u00e3o dirige o paciente, \u00e9 decisiva porque impede que dire\u00e7\u00e3o se confunda com governo. Uma an\u00e1lise n\u00e3o se reconhece pela semelhan\u00e7a fotogr\u00e1fica com um consult\u00f3rio ideal. Tampouco qualquer modifica\u00e7\u00e3o merece o nome de inven\u00e7\u00e3o. A mudan\u00e7a s\u00f3 pode ser julgada pelo que faz com a fala, com a transfer\u00eancia, com a responsabilidade do sujeito, com o lugar do saber e com a possibilidade de que algo ainda n\u00e3o previsto apare\u00e7a. H\u00e1 pr\u00e1ticas perfeitamente ortodoxas que se tornam administrativas; h\u00e1 dispositivos pouco ortodoxos que preservam uma tens\u00e3o propriamente anal\u00edtica. Entre uma coisa e outra, o crit\u00e9rio n\u00e3o \u00e9 a apar\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00edngua torna essa quest\u00e3o ainda mais evidente. Desde \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise\u201d (1953\/1998), n\u00e3o faria sentido imaginar uma estrutura pura pairando acima das l\u00ednguas concretas. O inconsciente n\u00e3o fala \u201ca linguagem\u201d; ele trope\u00e7a em palavras, sons, ritmos, equ\u00edvocos, sotaques, homofonias, insultos, nomes pr\u00f3prios. Ainda assim, quando a teoria viaja, \u00e9 frequente que a l\u00edngua de origem adquira o estatuto de garantia. Termos franceses deixam de ser apenas termos e tornam-se pequenos passaportes de pertencimento; a dic\u00e7\u00e3o se aproxima da prova de fidelidade; a tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 descrita sobretudo como perda. Mas uma teoria que leva o significante a s\u00e9rio deveria suportar o fato de que traduzir tamb\u00e9m produz. Ao mudar de l\u00edngua, um conceito perde vizinhan\u00e7as e ganha outras; encontra falsos amigos, resson\u00e2ncias inesperadas, impossibilidades que o original n\u00e3o precisava enfrentar. Talvez uma transmiss\u00e3o rigorosa seja aquela que aceita esse teste. Produzir Lacan fora do centro n\u00e3o \u00e9 recobri-lo com cores locais, mas deixar que outra l\u00edngua mostre o que, na recep\u00e7\u00e3o, era conceito e o que era rever\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>2. L\u00edngua, corpo e produ\u00e7\u00e3o fora do centro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e9lia Gonzalez n\u00e3o escreveu uma teoria da t\u00e9cnica psicanal\u00edtica, e seria uma viol\u00eancia transform\u00e1-la retroativamente em comentadora de Lacan. O que sua obra faz aqui \u00e9 mais perturbador: retira da l\u00edngua brasileira a apar\u00eancia de neutralidade. Racismo, sexismo, amefricanidade e \u201cpretugu\u00eas\u201d n\u00e3o entram como temas que poderiam ou n\u00e3o interessar \u00e0 psican\u00e1lise; eles alteram a pr\u00f3pria cena em que algu\u00e9m imagina que uma teoria passa de uma l\u00edngua a outra sem ser afetada (GONZALEZ, 1984; 1988; 2020). No Brasil, falar nunca foi apenas falar portugu\u00eas. A l\u00edngua carrega hierarquias de escolariza\u00e7\u00e3o, ra\u00e7a, regi\u00e3o, classe, corre\u00e7\u00e3o e prest\u00edgio. Certas pron\u00fancias aparecem como naturais, outras como erro; certas constru\u00e7\u00f5es s\u00e3o escutadas como estilo, outras como falta. Para uma pr\u00e1tica cuja mat\u00e9ria \u00e9 a fala, isso n\u00e3o \u00e9 exterior. Uma aten\u00e7\u00e3o flutuante pode ser menos flutuante do que imagina quando foi treinada, culturalmente, para deixar cair justamente aquilo que aprendeu a chamar de linguagem menor. Nesse ponto, a aproxima\u00e7\u00e3o com Virg\u00ednia Bicudo, Neusa Santos Souza e Isildinha Baptista Nogueira torna-se decisiva. A racializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um tema que chega depois de constitu\u00eddo o sujeito; ela participa dos ideais, das imagens do corpo, das expectativas de reconhecimento e das formas de viol\u00eancia que atravessam a vida ps\u00edquica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-dominant-color=\"5c5c5d\" data-has-transparency=\"false\" style=\"--dominant-color: #5c5c5d;\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"738\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" src=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-4.avif\" alt=\"\" class=\"wp-image-5083 not-transparent\" srcset=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-4.avif 1000w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-4-300x221.avif 300w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-4-768x567.avif 768w\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\" style=\"font-style:italic;font-weight:600\">L\u00e9lia Gonzalez durante atividade p\u00fablica do Movimento Negro Unificado, no Rio de Janeiro, em 1983.<\/p>\n\n\n\n<p>Interpretar, ent\u00e3o, n\u00e3o pode significar corrigir a fala do analisando at\u00e9 que ela caiba na l\u00edngua da teoria. \u00c9dipo, fantasia, gozo, narcisismo, demanda, objeto a: conceitos s\u00e3o instrumentos de leitura, n\u00e3o um idioma superior para o qual toda experi\u00eancia deveria ser traduzida. Quando isso ocorre, a interpreta\u00e7\u00e3o corre o risco de domesticar aquilo que pretendia escutar. Em Tornar-se negro, Neusa Santos Souza (1983\/2021) mostra como o ideal branco pode organizar a economia narc\u00edsica e devolver ao corpo negro uma medida imposs\u00edvel; Isildinha Baptista Nogueira (2021) acompanha as significa\u00e7\u00f5es raciais que se inscrevem na imagem corporal sem fazer da negritude um destino cl\u00ednico. A for\u00e7a desses trabalhos est\u00e1 justamente a\u00ed: nem sociologizam o inconsciente, nem purificam o inconsciente de sua hist\u00f3ria. A frase \u201co inconsciente n\u00e3o tem cor\u201d pode ser correta num n\u00edvel e profundamente enganosa em outro, sobretudo quando serve para tratar a racializa\u00e7\u00e3o como ru\u00eddo advent\u00edcio. L\u00e9lia Gonzalez empurra a quest\u00e3o um pouco mais longe ao recusar uma Am\u00e9rica Latina pensada como simples deriva\u00e7\u00e3o europeia. Sua amefricanidade n\u00e3o pede uma origem pura em substitui\u00e7\u00e3o a outra; insiste na forma\u00e7\u00e3o feita de viol\u00eancia, mistura, apagamento, resist\u00eancia e inven\u00e7\u00e3o. Algo semelhante pode ser dito, com cautela, da psican\u00e1lise que se faz aqui: ela n\u00e3o precisa inventar uma ess\u00eancia brasileira, mas tampouco precisa continuar se descrevendo como transporte bem-sucedido de uma teoria europeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o problema da l\u00edngua se desloca para o da importa\u00e7\u00e3o intelectual, Paulo Arantes oferece uma imagem particularmente \u00fatil. Em Um departamento franc\u00eas de ultramar (1994), a forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica uspiana aparece marcada por m\u00e9todos franceses de leitura, por uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia que seria f\u00e1cil denunciar e f\u00e1cil demais simplesmente ridicularizar. O interesse est\u00e1 na ambival\u00eancia: a importa\u00e7\u00e3o produz provincianismo, mas produz tamb\u00e9m disciplina, acumula\u00e7\u00e3o, rotina intelectual \u2014 e, em certo momento, a possibilidade de olhar para a pr\u00f3pria matriz com dist\u00e2ncia. A c\u00f3pia deixa de ser apenas submiss\u00e3o quando adquire espessura suficiente para perceber que copia. Talvez seja essa uma das passagens decisivas de qualquer tradi\u00e7\u00e3o intelectual perif\u00e9rica: n\u00e3o a descoberta de uma autenticidade anterior \u00e0 influ\u00eancia, mas a capacidade de fazer do empr\u00e9stimo um objeto de elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A psican\u00e1lise brasileira conhece bem esse circuito. Freud, Lacan e Ferenczi chegaram por tradu\u00e7\u00f5es, escolas, viagens, supervis\u00f5es, filia\u00e7\u00f5es internacionais, media\u00e7\u00f5es argentinas e francesas. Nada disso constitui, em si, um problema. O problema come\u00e7a quando a origem funciona como certificado permanente de autoridade: o centro formula; n\u00f3s aplicamos. Enquanto as categorias chegam de fora e os casos saem daqui, a divis\u00e3o do trabalho conceitual permanece intacta. Uma altera\u00e7\u00e3o de hor\u00e1rio, de honor\u00e1rio, de frequ\u00eancia ou de linguagem aparece, ent\u00e3o, como mera concess\u00e3o local, uma esp\u00e9cie de desconto que a realidade imp\u00f5e \u00e0 pureza da t\u00e9cnica. Mas a situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ser lida ao contr\u00e1rio. Talvez seja justamente a exce\u00e7\u00e3o que revele aquilo que a regra havia confundido consigo mesma.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse instante que a margem deixa de ser apenas lugar de exce\u00e7\u00e3o. Se uma frequ\u00eancia distinta sustenta o trabalho, ela n\u00e3o precisa ser tratada apenas como concess\u00e3o local; pode devolver uma pergunta \u00e0 pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o da frequ\u00eancia. O mesmo vale para o pre\u00e7o, para a l\u00edngua, para o espa\u00e7o e para o tempo da sess\u00e3o. O interesse te\u00f3rico come\u00e7a quando a diferen\u00e7a deixa de ser administrada como desvio e passa a produzir uma quest\u00e3o geral.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa dist\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 virtuosa por natureza. H\u00e1 periferias profundamente conservadoras, c\u00f3pias caricaturais e nacionalismos te\u00f3ricos que apenas invertem o sinal da depend\u00eancia. Arantes \u00e9 \u00fatil justamente porque n\u00e3o oferece uma reden\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica da margem. Para que o desajuste se torne cr\u00edtica, \u00e9 preciso forma\u00e7\u00e3o, compara\u00e7\u00e3o, leitura rigorosa e disposi\u00e7\u00e3o para deixar-se contrariar pelo objeto (ARANTES, 1994; 2021). Produzir fora do centro n\u00e3o significa fabricar \u201cnosso Lacan\u201d, como se um nome pr\u00f3prio nacional resolvesse o problema. Significa trabalhar o que recebemos at\u00e9 que deixe de funcionar como autoridade exterior e se torne material efetivamente nosso \u2014 isto \u00e9, material que tamb\u00e9m pode ser interrogado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-dominant-color=\"989795\" data-has-transparency=\"false\" style=\"--dominant-color: #989795;\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"712\" height=\"524\" sizes=\"auto, (max-width: 712px) 100vw, 712px\" src=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-8.avif\" alt=\"\" class=\"wp-image-5089 not-transparent\" srcset=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-8.avif 712w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-8-300x221.avif 300w\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\" style=\"font-style:italic;font-weight:600\">L\u00e9lia Gonzalez no Planet\u00e1rio da G\u00e1vea, Rio de Janeiro, d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa discuss\u00e3o deixa de ser apenas intelectual quando retorna ao consult\u00f3rio. As disputas sobre fidelidade anal\u00edtica gostam de se fixar em objetos vis\u00edveis: div\u00e3, frequ\u00eancia, dura\u00e7\u00e3o da sess\u00e3o, pagamento, presen\u00e7a f\u00edsica, sil\u00eancio, f\u00e9rias, faltas, contato fora do hor\u00e1rio. \u00c9 compreens\u00edvel. O setting d\u00e1 \u00e0 an\u00e1lise uma materialidade e uma regularidade sem as quais ela facilmente se dissolve. O problema \u00e9 outro: quando a forma come\u00e7a a valer como prova de fun\u00e7\u00e3o. Um div\u00e3 n\u00e3o produz associa\u00e7\u00e3o livre por propriedade do m\u00f3vel; cinquenta minutos n\u00e3o garantem escuta; um pre\u00e7o alto n\u00e3o produz seriedade; o sil\u00eancio do analista pode abrir uma fala ou apenas ocupar a sala como signo de poder. Separar fun\u00e7\u00e3o e forma n\u00e3o \u00e9 tornar o enquadre dispens\u00e1vel. \u00c9 exigir que ele volte a responder pelaquilo que faz. Regularidade, limite, possibilidade de associa\u00e7\u00e3o, manejo da transfer\u00eancia, responsabilidade, corte e endere\u00e7amento n\u00e3o existem fora de formas concretas, mas nenhuma forma os possui de uma vez por todas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando se olha para a materialidade do dispositivo, essa diferen\u00e7a deixa de ser abstrata. O pagamento participa da transfer\u00eancia, da d\u00edvida, da perda e da materialidade do trabalho; nada disso, por\u00e9m, determina um pre\u00e7o universal. A l\u00edngua \u00e9 feita de corte, equ\u00edvoco, repeti\u00e7\u00e3o e homofonia, mas essas opera\u00e7\u00f5es s\u00f3 existem em uma l\u00edngua efetivamente falada, atravessada por sotaque, erro, g\u00edria e contra\u00e7\u00e3o. O corpo tampouco espera ser tematizado para come\u00e7ar a operar: olhar, vergonha, idealiza\u00e7\u00e3o, amea\u00e7a e reconhecimento j\u00e1 distribuem lugares antes que o analisando diga \u201cquero falar de ra\u00e7a\u201d. Muitas vezes, aquilo que a teoria chama de conting\u00eancia \u00e9 apenas uma condi\u00e7\u00e3o social que permaneceu invis\u00edvel porque coincidia com a experi\u00eancia de quem formulava a regra.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso tamb\u00e9m impede que acessibilidade seja convertida em novo fetiche. Uma mudan\u00e7a pode ser socialmente necess\u00e1ria e ainda assim produzir efeitos transferenciais que precisam ser lidos. Reduzir honor\u00e1rios, alterar a frequ\u00eancia, atender remotamente ou flexibilizar hor\u00e1rios pode manter uma an\u00e1lise poss\u00edvel; pode tamb\u00e9m produzir d\u00edvida, favor, exce\u00e7\u00e3o, medo de abandono ou fantasia de privil\u00e9gio. Nenhuma dessas consequ\u00eancias invalida a mudan\u00e7a. Apenas lembra que responder a condi\u00e7\u00f5es materiais n\u00e3o suspende o trabalho anal\u00edtico. Ao contr\u00e1rio: recoloca essas condi\u00e7\u00f5es dentro da an\u00e1lise, em vez de trat\u00e1-las como justificativa administrativa exterior a ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Se tudo pudesse variar sem crit\u00e9rio, a pr\u00f3pria ideia de t\u00e9cnica perderia sentido. A elasticidade s\u00f3 interessa porque alguma coisa precisa continuar operando quando a forma muda: a primazia da fala e de suas forma\u00e7\u00f5es sobre explica\u00e7\u00f5es prontas; a diferen\u00e7a entre demanda e dire\u00e7\u00e3o do tratamento; a divis\u00e3o do saber, que impede o analista de instalar-se como propriet\u00e1rio da verdade do sujeito; a transfer\u00eancia como campo de trabalho; a responsabilidade pela interven\u00e7\u00e3o e por seus efeitos. Nada disso \u00e9 garantido por um consult\u00f3rio ortodoxo. Nada disso sobrevive automaticamente a uma inova\u00e7\u00e3o. Talvez a pergunta mais fecunda, portanto, n\u00e3o seja \u201cat\u00e9 onde podemos mudar sem deixar de fazer psican\u00e1lise?\u201d, mas \u201co que, ao mudar, ainda precisa acontecer para que possamos chamar isso de an\u00e1lise?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, \u201ccentro\u201d e \u201cperiferia\u201d n\u00e3o designam apenas mapas: tamb\u00e9m distribuem direitos de enuncia\u00e7\u00e3o. Centro \u00e9 o lugar de onde uma formula\u00e7\u00e3o pode apresentar-se como universal sem explicar demais de onde veio; periferia \u00e9 o lugar cuja fala chega acompanhada de endere\u00e7o. Uma teoria produzida em franc\u00eas circula facilmente como teoria. Uma formula\u00e7\u00e3o nascida de uma experi\u00eancia brasileira corre o risco de chegar j\u00e1 classificada como caso, contexto, testemunho local. Essa assimetria \u00e9 mais profunda do que uma bibliografia pouco diversa. Pode-se acrescentar autores negros, latino-americanos ou perif\u00e9ricos e conservar intacta a divis\u00e3o segundo a qual alguns fornecem conceito e outros fornecem experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que a representatividade, embora importante, n\u00e3o resolve o problema. Se Freud e Lacan continuam autorizados a falar sobre linguagem, desejo, sujeito e m\u00e9todo enquanto L\u00e9lia Gonzalez comparece apenas para \u201cfalar de ra\u00e7a\u201d, pouco mudou na arquitetura do saber. L\u00e9lia interessa tamb\u00e9m porque torna inst\u00e1vel a ideia de l\u00edngua neutra e de universalidade sem endere\u00e7o. Neusa Santos Souza n\u00e3o oferece apenas exemplos de sofrimento racial; obriga a recolocar ideal do eu e narcisismo em uma ordem social racializada. Isildinha Baptista Nogueira n\u00e3o adiciona \u201co corpo negro\u201d a uma teoria geral previamente completa; sua obra pergunta como essa generalidade se constituiu como neutra. A periferia come\u00e7a a produzir pensamento quando deixa de ser convocada apenas como conte\u00fado.<\/p>\n\n\n\n<p>O ponto decisivo n\u00e3o \u00e9 adaptar uma superf\u00edcie para preservar um n\u00facleo intocado, mas admitir que certas experi\u00eancias obriguem o pr\u00f3prio n\u00facleo a ser diferenciado. Uma cl\u00ednica sob outras condi\u00e7\u00f5es pode revelar que o formato cl\u00e1ssico cumpria fun\u00e7\u00f5es que n\u00e3o coincidiam com sua apar\u00eancia; uma tradu\u00e7\u00e3o pode expor ambiguidades invis\u00edveis na l\u00edngua de origem; uma transforma\u00e7\u00e3o institucional pode mostrar que determinada exig\u00eancia era menos anal\u00edtica do que sociol\u00f3gica. Nesse sentido, a elasticidade tamb\u00e9m tem for\u00e7a epistemol\u00f3gica: um saber rigoroso precisa poder sofrer efeitos daquilo que faz.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 duas tenta\u00e7\u00f5es sim\u00e9tricas. A primeira \u00e9 metropolitana: imaginar uma forma completa da psican\u00e1lise que deveria ser reproduzida com o m\u00ednimo poss\u00edvel de perda. A segunda \u00e9 identit\u00e1ria: transformar a margem em novo lugar de verdade, como se exclus\u00e3o, negritude, nordestinidade, experi\u00eancia popular ou dist\u00e2ncia do centro produzissem por si mesmas um saber mais aut\u00eantico. Ambas resolvem cedo demais o problema da autoridade. A singularidade anal\u00edtica n\u00e3o coincide com ra\u00e7a, classe, territ\u00f3rio, g\u00eanero ou nacionalidade; mas tampouco aparece depois que essas determina\u00e7\u00f5es foram deixadas na porta. O sujeito n\u00e3o se reduz \u00e0 sua hist\u00f3ria, embora s\u00f3 possa falar a partir dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Sustentar esse intervalo exige reconhecer os efeitos de ra\u00e7a, classe, territ\u00f3rio, g\u00eanero e l\u00edngua sem transform\u00e1-los em destino interpretativo; admitir que uma teoria tem endere\u00e7o sem reduzi-la ao contexto; aceitar que o dispositivo varie sem concluir que toda varia\u00e7\u00e3o \u00e9 equivalente. Produzir psican\u00e1lise fora do centro \u00e9 fazer da depend\u00eancia uma mat\u00e9ria de pensamento, em vez de escond\u00ea-la sob rever\u00eancia ou resolv\u00ea-la pelo mito de uma autenticidade perdida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>3. Quando a neutralidade toma partido<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma consequ\u00eancia inc\u00f4moda desse argumento. Se a t\u00e9cnica n\u00e3o chega intacta, tampouco chega intacta a no\u00e7\u00e3o de neutralidade que as institui\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas aprenderam a apresentar como dedu\u00e7\u00e3o direta da cl\u00ednica. A abstin\u00eancia regula o poder do analista na transfer\u00eancia: impede que sua moral, sua fantasia ou seu programa de vida sejam oferecidos ao analisando como resposta para o desejo. Nada nela exige que o analista, fora da sess\u00e3o, se torne um cidad\u00e3o sem endere\u00e7o pol\u00edtico. O erro come\u00e7a quando uma regra do dispositivo \u00e9 convertida em teoria geral da desimplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma pequena controv\u00e9rsia recente em torno de Ana Suy torna essa confus\u00e3o vis\u00edvel numa escala quase dom\u00e9stica. Circularam nas redes relatos de usu\u00e1rios que afirmaram ter sido bloqueados depois de cobrar um posicionamento pol\u00edtico da psicanalista ou de curtir coment\u00e1rios que faziam essa cobran\u00e7a. Vieram acusa\u00e7\u00f5es de \u201cpsican\u00e1lise isentona\u201d, ironias eleitorais e, no sentido contr\u00e1rio, a defesa de que exigir declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica de uma analista seria incompat\u00edvel com a \u00e9tica da psican\u00e1lise. N\u00e3o interessa aqui descobrir o voto privado de Ana Suy nem transformar stories e bloqueios em tribunal ideol\u00f3gico. A cena interessa justamente por sua pequenez: mostra com que rapidez uma decis\u00e3o contingente \u2014 falar, calar, responder, bloquear \u2014 pode ser elevada \u00e0 dignidade de princ\u00edpio cl\u00ednico. A fofoca funciona, assim, como miniatura de uma quest\u00e3o institucional maior.<\/p>\n\n\n\n<p>Gabriel Tupinamb\u00e1 oferece uma chave especialmente \u00fatil para escapar dessa falsa alternativa entre milit\u00e2ncia cl\u00ednica e sil\u00eancio c\u00edvico. Em O desejo de psican\u00e1lise, ao reconstruir a crise pol\u00edtica da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise e da Escola da Causa Freudiana em torno das elei\u00e7\u00f5es francesas de 2017, ele mostra a estranheza de uma institui\u00e7\u00e3o que, depois de d\u00e9cadas de desconfian\u00e7a diante da pol\u00edtica radical, decidiu mobilizar-se contra Marine Le Pen e em defesa do Estado de direito. O problema, para Tupinamb\u00e1, n\u00e3o estava em considerar a extrema direita uma amea\u00e7a; estava na maneira como a psican\u00e1lise se autorizava a transformar sua pr\u00f3pria doutrina em tribunal da pol\u00edtica, enquanto reprimia ou desqualificava articula\u00e7\u00f5es marxistas que pretendiam interrogar a psican\u00e1lise de fora de seus pr\u00f3prios pressupostos (TUPINAMB\u00c1, 2024). A opera\u00e7\u00e3o \u00e9 reveladora: a pol\u00edtica podia entrar na psican\u00e1lise quando vinha traduzida no idioma da preserva\u00e7\u00e3o institucional, da democracia liberal e da estabilidade, mas tornava-se suspeita quando colocava em quest\u00e3o propriedade, classe, dinheiro, organiza\u00e7\u00e3o ou as condi\u00e7\u00f5es materiais de reprodu\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio campo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 aqui que a no\u00e7\u00e3o de compossibilidade proposta por Tupinamb\u00e1 se torna mais interessante do que a velha pergunta sobre se a psican\u00e1lise \u00e9 \u201cde esquerda\u201d. N\u00e3o precisamos provar que o inconsciente \u00e9 socialista, nem extrair de Lacan um programa econ\u00f4mico. Pol\u00edtica e psican\u00e1lise n\u00e3o precisam falar a mesma l\u00edngua para que uma possa impor problemas reais \u00e0 outra. A pol\u00edtica marxista pode perguntar quem disp\u00f5e de dinheiro, tempo, moradia, privacidade e capital cultural para sustentar uma an\u00e1lise; quem consegue pagar uma forma\u00e7\u00e3o prolongada; quem pode transformar-se de paciente em analista; quem trabalha gratuitamente para manter institui\u00e7\u00f5es cuja autoridade continua concentrada em poucos nomes. A psican\u00e1lise, por sua vez, pode permanecer atenta ao fato de que nenhuma posi\u00e7\u00e3o de classe esgota a divis\u00e3o subjetiva. Compossibilidade n\u00e3o \u00e9 subordina\u00e7\u00e3o rec\u00edproca. \u00c9 justamente a possibilidade de que dois campos permane\u00e7am irredut\u00edveis e, ainda assim, sejam capazes de perturbar os pontos cegos um do outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Visto desse \u00e2ngulo, a hist\u00f3ria vienense deixa de funcionar como decora\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica. A Sociedade Psicanal\u00edtica de Viena atra\u00edra social-democratas e participantes da esquerda; com a consolida\u00e7\u00e3o do austrofascismo, analistas socialistas j\u00e1 encontravam cada vez menos condi\u00e7\u00f5es para permanecer na cidade. Em mar\u00e7o de 1938, depois da anexa\u00e7\u00e3o da \u00c1ustria pela Alemanha nazista, a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia institucional tornou-se o problema. A Sociedade decidiu que seus membros deveriam sair do pa\u00eds; o apartamento e a editora de Freud foram invadidos; Anna Freud foi interrogada pela Gestapo; em 4 de junho, Freud deixou Viena para Londres. O fascismo n\u00e3o respeitou a fronteira entre pol\u00edtica e cl\u00ednica: entrou pela Berggasse 19.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-dominant-color=\"4d5054\" data-has-transparency=\"false\" style=\"--dominant-color: #4d5054;\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"750\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" src=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-5.avif\" alt=\"\" class=\"wp-image-5084 not-transparent\" srcset=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-5.avif 1000w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-5-300x225.avif 300w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-5-768x576.avif 768w\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\" style=\"font-style:italic;font-weight:600\">Sigmund Freud ap\u00f3s deixar Viena em 1938, com a anexa\u00e7\u00e3o da \u00c1ustria pela Alemanha nazista.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-dominant-color=\"8d8d8d\" data-has-transparency=\"false\" style=\"--dominant-color: #8d8d8d;\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"694\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" src=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-6.avif\" alt=\"\" class=\"wp-image-5085 not-transparent\" srcset=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-6.avif 700w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-6-300x297.avif 300w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-6-150x150.avif 150w\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\" style=\"font-style:italic;font-weight:600\">Berggasse 19, Viena, 1938. O endere\u00e7o hist\u00f3rico da psican\u00e1lise sob ocupa\u00e7\u00e3o nazista: a pol\u00edtica j\u00e1 n\u00e3o aparece como contexto exterior, mas como condi\u00e7\u00e3o concreta de possibilidade \u2014 ou impossibilidade \u2014 da pr\u00f3pria pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>A reconstru\u00e7\u00e3o retomada por Tupinamb\u00e1 e por \u017di\u017eek torna o contraste ainda mais agudo: em 1934, diante do austrofascismo de Dollfuss e da repress\u00e3o aos social-democratas, a orienta\u00e7\u00e3o institucional fora preservar o trabalho anal\u00edtico sem envolver a psican\u00e1lise diretamente no conflito. A pergunta que resta n\u00e3o \u00e9 se todo analista deveria ter se tornado militante, mas o que acontece com a ideia de neutralidade quando um lado dissolve o parlamento, destr\u00f3i organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias e altera as pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es. Nessas conjunturas, a recusa de escolher n\u00e3o cria um terceiro lugar; ela j\u00e1 se inscreve na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil de 2018 recolocou esse problema em uma gram\u00e1tica pr\u00f3pria. Bolsonaro n\u00e3o foi simplesmente \u201cmais um candidato conservador\u201d: sua ascens\u00e3o condensou elogios \u00e0 ditadura, nostalgia da tortura, guerra cultural contra universidades, ataques a minorias e uma pol\u00edtica fundada na fabrica\u00e7\u00e3o reiterada de inimigos internos. O que veio depois tornou imposs\u00edvel tratar tudo isso apenas como excesso ret\u00f3rico de campanha. E o ciclo n\u00e3o terminou com sua derrota eleitoral. A recomposi\u00e7\u00e3o internacional da extrema direita \u2014 a volta de Donald Trump \u00e0 Presid\u00eancia dos Estados Unidos, a experi\u00eancia ultraliberal e autorit\u00e1ria de Javier Milei na Argentina e a perman\u00eancia do bolsonarismo como for\u00e7a social brasileira \u2014 indica menos uma sucess\u00e3o de c\u00f3pias id\u00eanticas do fascismo hist\u00f3rico do que um processo contempor\u00e2neo de fascistiza\u00e7\u00e3o: nacionalismo ressentido, anticomunismo, ataque a direitos, culto da for\u00e7a, produ\u00e7\u00e3o paranoide de inimigos, misoginia, transfobia e racismo articulados \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o neoliberal. Chamar esse processo de fascistiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica, n\u00e3o um diagn\u00f3stico cl\u00ednico aplicado a eleitores. Justamente por isso n\u00e3o precisa fingir neutralidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse ponto que uma posi\u00e7\u00e3o de esquerda pode ser afirmada sem pedir autoriza\u00e7\u00e3o \u00e0 metapsicologia. Diante desse ciclo, a social-democracia aparece menos como horizonte radical do que como piso defensivo: elei\u00e7\u00f5es, direitos trabalhistas, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas, prote\u00e7\u00e3o de minorias, redistribui\u00e7\u00e3o, liberdade de organiza\u00e7\u00e3o e limites democr\u00e1ticos ao poder econ\u00f4mico. Nada na abstin\u00eancia \u00e9 incompat\u00edvel com essa defesa. Uma posi\u00e7\u00e3o marxista pode ir al\u00e9m e perguntar por que a democracia liberal produz repetidamente as condi\u00e7\u00f5es de sua captura pela extrema direita, por que a austeridade fabrica desamparo enquanto privatiza suas solu\u00e7\u00f5es e por que a cl\u00ednica deveria tratar como exterior o regime econ\u00f4mico que decide quem tem tempo e dinheiro para chegar at\u00e9 ela. Reconhecer a autonomia da pol\u00edtica significa tamb\u00e9m aceitar que Marx, a organiza\u00e7\u00e3o coletiva e a luta social possam interrogar os pontos cegos da psican\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ainda uma fic\u00e7\u00e3o mais funda sustentando essa imagem de neutralidade: a extrapola\u00e7\u00e3o da assimetria cl\u00ednica para uma assimetria social entre analista e analisando. Na sess\u00e3o, as posi\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o intercambi\u00e1veis; h\u00e1 diferen\u00e7a de fun\u00e7\u00e3o, responsabilidade e manejo da transfer\u00eancia. Mas isso n\u00e3o transforma o analista em sujeito exterior \u00e0s determina\u00e7\u00f5es que atravessam quem o procura. Ambos respiram o mesmo ar pol\u00edtico e atravessam, ainda que de modos desiguais, infla\u00e7\u00e3o, pandemia, racismo, sexismo, viol\u00eancia estatal, precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, colapso dos servi\u00e7os p\u00fablicos, cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas e campanhas de \u00f3dio. A fantasia de que a fun\u00e7\u00e3o anal\u00edtica suspenderia essa coexposi\u00e7\u00e3o converte uma diferen\u00e7a interna ao dispositivo em privil\u00e9gio epistemol\u00f3gico: o analista como algu\u00e9m capaz de escutar a hist\u00f3ria sem estar dentro dela.<\/p>\n\n\n\n<p>A assimetria organiza o trabalho cl\u00ednico; n\u00e3o concede ao analista um ponto de vista acima da sociedade. Um analisando de direita continua tendo direito a uma an\u00e1lise que n\u00e3o o trate como material defeituoso a ser reeducado, assim como um analisando de esquerda n\u00e3o deveria receber a confirma\u00e7\u00e3o narc\u00edsica de que sua consci\u00eancia pol\u00edtica resolveu seu inconsciente. A dire\u00e7\u00e3o do tratamento n\u00e3o \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o do voto. Mas disso n\u00e3o se segue equival\u00eancia entre fascismo e antifascismo, persegui\u00e7\u00e3o e defesa dos perseguidos, destrui\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o de direitos. A neutralidade anal\u00edtica limita o poder do analista sobre o analisando; ela n\u00e3o obriga o analista a ser neutro diante do poder que decide quem poder\u00e1 continuar falando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>4. Deixar-se afetar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No fim, talvez a pergunta n\u00e3o seja como preservar a psican\u00e1lise de suas viagens, mas que tipo de psican\u00e1lise precisa imaginar-se intacta para continuar reconhecendo a si mesma. Ferenczi ensina que rigor n\u00e3o \u00e9 rigidez; Lacan separa dire\u00e7\u00e3o de padroniza\u00e7\u00e3o; L\u00e9lia Gonzalez torna suspeita qualquer l\u00edngua que se apresente sem hist\u00f3ria; Bicudo, Neusa Santos Souza e Isildinha Baptista Nogueira mostram que racializa\u00e7\u00e3o, ideal e corpo n\u00e3o esperam do lado de fora da cl\u00ednica; Paulo Arantes permite pensar a importa\u00e7\u00e3o sem escolher entre submiss\u00e3o e pureza. Nenhum desses movimentos autoriza uma celebra\u00e7\u00e3o ing\u00eanua da diferen\u00e7a. Todos, por\u00e9m, tornam mais dif\u00edcil manter a imagem de uma t\u00e9cnica que simplesmente se conserva enquanto o mundo ao redor muda.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma diferen\u00e7a importante entre heran\u00e7a e autoridade. Freud, Lacan, Ferenczi e outras tradi\u00e7\u00f5es permanecem indispens\u00e1veis porque nos legaram problemas, conceitos, impasses, experi\u00eancias de leitura e formas de interven\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o porque ocupem um exterior metropolitano capaz de certificar, \u00e0 dist\u00e2ncia, o que fazemos. Pela mesma raz\u00e3o, deslocar o centro n\u00e3o exige substituir um c\u00e2none europeu por um c\u00e2none local blindado contra cr\u00edtica. Forma\u00e7\u00e3o, estudo, an\u00e1lise, supervis\u00e3o e interlocu\u00e7\u00e3o continuam sendo condi\u00e7\u00f5es do trabalho. O que pode mudar \u00e9 o estatuto dessas media\u00e7\u00f5es: menos pedigree, mais exerc\u00edcio; menos prova de pertencimento, mais capacidade de fazer a tradi\u00e7\u00e3o responder ao presente.<\/p>\n\n\n\n<p>A t\u00e9cnica, afinal, n\u00e3o viaja como pe\u00e7a lacrada. Ela chega com amassados, perde coisas na tradu\u00e7\u00e3o, ganha outras sem perceber, encontra obst\u00e1culos materiais que a obrigam a dizer o que antes podia deixar impl\u00edcito. Isso n\u00e3o \u00e9 uma falha acidental da transmiss\u00e3o; pode ser sua condi\u00e7\u00e3o de trabalho. O desafio n\u00e3o \u00e9 impedir toda deforma\u00e7\u00e3o, mas distinguir aquelas que fazem a experi\u00eancia anal\u00edtica trabalhar daquelas que apenas a esvaziam. Talvez o universal da psican\u00e1lise n\u00e3o esteja na repeti\u00e7\u00e3o de uma mesma forma em qualquer lugar, e sim na possibilidade de certas fun\u00e7\u00f5es persistirem justamente porque suas formas n\u00e3o precisam ser id\u00eanticas. Produzir psican\u00e1lise fora do centro seria, ent\u00e3o, aceitar uma consequ\u00eancia pouco confort\u00e1vel: a margem n\u00e3o serve apenas para receber a teoria. Em alguns momentos, ela devolve o olhar \u2014 e, ao faz\u00ea-lo, obriga a teoria a descobrir o que havia aprendido a chamar de neutro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-dominant-color=\"93928f\" data-has-transparency=\"false\" style=\"--dominant-color: #93928f;\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"712\" height=\"456\" sizes=\"auto, (max-width: 712px) 100vw, 712px\" src=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-7.avif\" alt=\"\" class=\"wp-image-5086 not-transparent\" srcset=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-7.avif 712w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-7-300x192.avif 300w\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\" style=\"font-style:italic;font-weight:600\">L\u00e9lia Gonzalez em atividade do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras. A teoria tamb\u00e9m ganha endere\u00e7o quando deixa de tratar a periferia apenas como objeto e passa a reconhecer nela um lugar de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ARANTES, Paulo Eduardo. Um departamento franc\u00eas de ultramar: estudos sobre a forma\u00e7\u00e3o da cultura filos\u00f3fica uspiana: uma experi\u00eancia nos anos 60. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 1994.<\/p>\n\n\n\n<p>ARANTES, Paulo Eduardo. Forma\u00e7\u00e3o e desconstru\u00e7\u00e3o: uma visita ao Museu da Ideologia Francesa. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>BICUDO, Virg\u00ednia Leone. Atitudes raciais de pretos e mulatos em S\u00e3o Paulo. Edi\u00e7\u00e3o organizada por Marcos Chor Maio. S\u00e3o Paulo: Sociologia e Pol\u00edtica, 2010. Trabalho original de 1945.<\/p>\n\n\n\n<p>FERENCZI, S\u00e1ndor. Elasticidade da t\u00e9cnica psicanal\u00edtica. In: FERENCZI, S\u00e1ndor. Obras completas: Psican\u00e1lise IV. 2. ed. S\u00e3o Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. p. 28-42. Trabalho original publicado em 1928.<\/p>\n\n\n\n<p>GONZALEZ, L\u00e9lia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Ci\u00eancias Sociais Hoje, Bras\u00edlia, p. 223-244, 1984.<\/p>\n\n\n\n<p>GONZALEZ, L\u00e9lia. A categoria pol\u00edtico-cultural de amefricanidade. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, n. 92\/93, p. 69-82, jan.\/jun. 1988.<\/p>\n\n\n\n<p>GONZALEZ, L\u00e9lia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, interven\u00e7\u00f5es e di\u00e1logos. Organiza\u00e7\u00e3o de Flavia Rios e M\u00e1rcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>LACAN, Jacques. Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise. In: LACAN, Jacques. Escritos. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 238-324.<\/p>\n\n\n\n<p>LACAN, Jacques. Variantes do tratamento-padr\u00e3o. In: LACAN, Jacques. Escritos. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 325-364.<\/p>\n\n\n\n<p>LACAN, Jacques. A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder. In: LACAN, Jacques. Escritos. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 591-652.<\/p>\n\n\n\n<p>NOGUEIRA, Isildinha Baptista. A cor do inconsciente: significa\u00e7\u00f5es do corpo negro. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: ou As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascens\u00e3o social. Rio de Janeiro: Zahar, 2021. Trabalho original publicado em 1983.<\/p>\n\n\n\n<p>TUPINAMB\u00c1, Gabriel. O desejo de psican\u00e1lise: exerc\u00edcios de pensamento lacaniano. Tradu\u00e7\u00e3o de Gabriel Lisboa Ponciano. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>TUPINAMB\u00c1, Gabriel. \u201cPandora\u2019s Box Has Been Opened\u201d: Lacanian Psychoanalysis and Politics after 2017. Crisis &amp; Critique, v. 6, n. 1, p. 341-363, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>FREUD MUSEUM LONDON. Leaving Today: the Freuds in Exile 1938. Londres, 2018. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.freud.org.uk\/exhibitions\/leaving-today-the-freuds-in-exile-1938\/. Acesso em: 12 out. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p>SIGMUND FREUD MUSEUM. The Viennese Psychoanalytic Society and its Executive Decision of March 13, 1938. Viena, s.d. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.freud-museum.at\/en\/subsites-organized-escape\/articles\/the-viennese-psychoanalytic-society-and-its-executive-decision-of-march-13-1938. Acesso em: 12 out. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este ensaio parte de uma suspeita simples: a t\u00e9cnica psicanal\u00edtica n\u00e3o atravessa fronteiras sem ser tocada por elas. Quando deixa os centros hist\u00f3ricos que a codificaram e legitimaram, n\u00e3o leva consigo apenas conceitos e procedimentos; encontra outras l\u00ednguas, outras economias do cuidado, outras institui\u00e7\u00f5es e outros modos de organizar tempo, dinheiro, corpo e autoridade. Ferenczi oferece aqui uma primeira chave, ao pensar a elasticidade como rigor sem rigidez; Lacan permite separar dire\u00e7\u00e3o do tratamento de padroniza\u00e7\u00e3o do dispositivo; L\u00e9lia Gonzalez torna imposs\u00edvel supor uma l\u00edngua neutra; Virg\u00ednia Bicudo, Neusa Santos Souza e Isildinha Baptista Nogueira mostram que racializa\u00e7\u00e3o, corpo e ideal n\u00e3o chegam \u00e0 cl\u00ednica como adere\u00e7os sociol\u00f3gicos; e Paulo Arantes ajuda a pensar o que acontece quando uma tradi\u00e7\u00e3o importada deixa de ser apenas recebida e come\u00e7a a produzir problemas pr\u00f3prios. A hip\u00f3tese que atravessa o texto \u00e9 que a transmiss\u00e3o n\u00e3o se conserva \u00edntegra \u2014 e que talvez seja justamente essa n\u00e3o-integridade, quando sustentada por crit\u00e9rios cl\u00ednicos e te\u00f3ricos, uma condi\u00e7\u00e3o de rigor. Ao final, essa distin\u00e7\u00e3o entre fun\u00e7\u00e3o e forma \u00e9 levada ao problema da neutralidade pol\u00edtica: a abstin\u00eancia cl\u00ednica n\u00e3o \u00e9 tomada como obriga\u00e7\u00e3o de sil\u00eancio diante da fascistiza\u00e7\u00e3o, e a compossibilidade entre psican\u00e1lise e pol\u00edtica permite defender posi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e de esquerda sem converter a transfer\u00eancia em pedagogia ideol\u00f3gica.<\/p>\n","protected":false},"author":43,"featured_media":5093,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_kadence_starter_templates_imported_post":false,"_kad_post_transparent":"","_kad_post_title":"","_kad_post_layout":"","_kad_post_sidebar_id":"","_kad_post_content_style":"","_kad_post_vertical_padding":"","_kad_post_feature":"","_kad_post_feature_position":"","_kad_post_header":false,"_kad_post_footer":false,"_kad_post_classname":"","footnotes":""},"categories":[703,347,1],"tags":[265,266,272],"class_list":["post-5077","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-caeli-corvere","category-producoes","category-uncategorized","tag-politica","tag-politica-brasileira","tag-psicanalise"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.1 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A t\u00e9cnica n\u00e3o chega intacta: produzir psican\u00e1lise fora do centro\u00a0- Caeli Corvere - Zero \u00e0 Esquerda<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2026\/10\/13\/a-tecnica-nao-chega-intacta-produzir-psicanalise-fora-do-centro-caeli-corvere\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A t\u00e9cnica n\u00e3o chega intacta: produzir psican\u00e1lise fora do centro\u00a0- Caeli Corvere - Zero \u00e0 Esquerda\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Este ensaio parte de uma suspeita simples: a t\u00e9cnica psicanal\u00edtica n\u00e3o atravessa fronteiras sem ser tocada por elas. 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Quando deixa os centros hist\u00f3ricos que a codificaram e legitimaram, n\u00e3o leva consigo apenas conceitos e procedimentos; encontra outras l\u00ednguas, outras economias do cuidado, outras institui\u00e7\u00f5es e outros modos de organizar tempo, dinheiro, corpo e autoridade. Ferenczi oferece aqui uma primeira chave, ao pensar a elasticidade como rigor sem rigidez; Lacan permite separar dire\u00e7\u00e3o do tratamento de padroniza\u00e7\u00e3o do dispositivo; L\u00e9lia Gonzalez torna imposs\u00edvel supor uma l\u00edngua neutra; Virg\u00ednia Bicudo, Neusa Santos Souza e Isildinha Baptista Nogueira mostram que racializa\u00e7\u00e3o, corpo e ideal n\u00e3o chegam \u00e0 cl\u00ednica como adere\u00e7os sociol\u00f3gicos; e Paulo Arantes ajuda a pensar o que acontece quando uma tradi\u00e7\u00e3o importada deixa de ser apenas recebida e come\u00e7a a produzir problemas pr\u00f3prios. A hip\u00f3tese que atravessa o texto \u00e9 que a transmiss\u00e3o n\u00e3o se conserva \u00edntegra \u2014 e que talvez seja justamente essa n\u00e3o-integridade, quando sustentada por crit\u00e9rios cl\u00ednicos e te\u00f3ricos, uma condi\u00e7\u00e3o de rigor. 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