{"id":4949,"date":"2026-08-10T20:28:43","date_gmt":"2026-08-10T20:28:43","guid":{"rendered":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/?p=4949"},"modified":"2026-08-10T21:37:12","modified_gmt":"2026-08-10T21:37:12","slug":"seis-anos-depois-como-e-porque-ler-bernard-stiegler-cian-barbosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2026\/08\/10\/seis-anos-depois-como-e-porque-ler-bernard-stiegler-cian-barbosa\/","title":{"rendered":"Seis anos depois: como e porque ler Bernard Stiegler \u2014 Cian Barbosa"},"content":{"rendered":"\n<p>Algo caracter\u00edstico do exerc\u00edcio e da experi\u00eancia filos\u00f3fica sobre a hist\u00f3ria \u00e9 o elemento de retroatividade: o presente sempre oferece a possibilidade de novos termos <em>ressignificarem<\/em> \u2014 para citar um termo (talvez ainda) na moda \u2014 nossa compreens\u00e3o sobre o passado. Essa ressignifica\u00e7\u00e3o, ou reorganiza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, age sobre os fatos, mas tamb\u00e9m sobre os conceitos anteriores (at\u00e9 porque n\u00e3o existem fatos separados de conceitos; i.e., n\u00e3o existe acesso \u201cdireto\u201d \u00e0 \u201crealidade imediata\u201d, mas isso \u00e9 outra hist\u00f3ria). Bernard Stiegler foi, sem d\u00favidas, um dos grandes fil\u00f3sofos, nos \u00faltimos tempos, a intervir nesse processo de retroa\u00e7\u00e3o. Esse texto ser\u00e1 assim tamb\u00e9m, uma breve introdu\u00e7\u00e3o retroativa \u00e0 sua obra.<\/p>\n\n\n\n<p>Filho de uma banc\u00e1ria e de um engenheiro el\u00e9trico \u201cautodidata\u201d, sua vida e obra te\u00f3rica carecem de verdadeira aten\u00e7\u00e3o hoje, especialmente na medida em que se dedicou a refletir sobre a radicalidade da t\u00e9cnica \u2014 e da tecnologia \u2014 no contempor\u00e2neo, e na hist\u00f3ria da filosofia. Completados seis anos ap\u00f3s sua morte agora, no dia 5 de agosto, vale ressaltarmos alguns aspectos do seu pensamento, e como ele pode auxiliar \u00e0 reflex\u00e3o dos imbr\u00f3glios atuais que perpassam o imperativo digital, a economia pulsional e as crises globais caracter\u00edsticas do presente.<\/p>\n\n\n\n<p>Stiegler foi um fil\u00f3sofo franc\u00eas fora da curva, em v\u00e1rios sentidos. Nascido em 1\u00ba de abril de 1952, n\u00e3o seguiu o percurso acad\u00eamico padr\u00e3o da <em>intelligentsia<\/em> francesa: ainda secundarista, abandonou os estudos em 1968, com seus 16 anos, na \u00e9poca do famoso levante de maio, ainda militante do Partido Comunista Franc\u00eas. Posteriormente, ap\u00f3s exercer uma s\u00e9rie de of\u00edcios \u2014 desde trabalhador rural a dono de um bar de <em>jazz<\/em> \u2014, ingressou no nobre of\u00edcio de assalto a bancos, pelo qual seria eventualmente preso em flagrante, cumprindo pena entre 1978 e 1983. \u00c9 a\u00ed ent\u00e3o, entre seus 26 e 30 anos, que ir\u00e1 realizar uma forma\u00e7\u00e3o (remota) em filosofia, por correspond\u00eancia e incentivado por G\u00e9rard Granel, estabelecendo um contato mediado \u2014 e, depois da soltura, pessoal \u2014 com Jacques Derrida, que se tornaria seu orientador e principal interlocutor filos\u00f3fico.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed em diante, Stiegler desenvolveria uma carreira marcada tanto pela atua\u00e7\u00e3o acad\u00eamica quanto pr\u00e1tica, em duas vias institucionais, ambas atravessadas pela reflex\u00e3o sobre a tecnologia, mas com implica\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas al\u00e9m desta. N\u00e3o me entenda mal, caro leitor, mas com isso quero dizer que para compreendermos a filosofia de Stiegler \u00e9 necess\u00e1rio notar que sua obra trata de uma filosofia da t\u00e9cnica, mas vai al\u00e9m disso. Suas reflex\u00f5es e seu trabalho intercedem sobre a filosofia, a antropologia, a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, simb\u00f3lica e libidinal, de modo amplo. Algo que j\u00e1 \u00e9 percept\u00edvel desde sua tese, defendida em 1993 pela <em>\u00c9cole des Hautes \u00c9tudes en Sciences Sociales<\/em> (EHESS), sob orienta\u00e7\u00e3o de Derrida, que constituiria o n\u00facleo do primeiro volume de<em> La Technique et le Temps<\/em>. <span class=\"footnote_referrer\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" onclick=\"footnote_moveToReference_4949_1('footnote_plugin_reference_4949_1_1');\" onkeypress=\"footnote_moveToReference_4949_1('footnote_plugin_reference_4949_1_1');\" ><sup id=\"footnote_plugin_tooltip_4949_1_1\" class=\"footnote_plugin_tooltip_text\">[1]<\/sup><\/a><span id=\"footnote_plugin_tooltip_text_4949_1_1\" class=\"footnote_tooltip\">STIEGLER, Bernard. La technique et le temps: 1. La Faute d \u00c9pim\u00e9th\u00e9e. 2. La D\u00e9sorientation 3. Le Temps du cin\u00e9ma et la question du mal-\u00eatre. Fayard, 2018.<\/span><\/span><script type=\"text\/javascript\"> jQuery('#footnote_plugin_tooltip_4949_1_1').tooltip({ tip: '#footnote_plugin_tooltip_text_4949_1_1', tipClass: 'footnote_tooltip', effect: 'fade', predelay: 0, fadeInSpeed: 200, delay: 400, fadeOutSpeed: 200, position: 'top center', relative: true, offset: [-7, 0], });<\/script><\/p>\n\n\n\n<p>Seu debate te\u00f3rico remonta \u00e0 intersec\u00e7\u00e3o j\u00e1 cl\u00e1ssica da filosofia francesa no s\u00e9culo XX com a fenomenologia alem\u00e3, especialmente sobre a rela\u00e7\u00e3o entre experi\u00eancia e mem\u00f3ria na obra de Edmund Husserl: dele, Stiegler extrai a no\u00e7\u00e3o de <em>sistemas retencionais<\/em> prim\u00e1rios (experi\u00eancia) e secund\u00e1rios (mem\u00f3ria), mas interv\u00e9m acrescentando um terceiro sistema retencional que retroage sobre ambos. Esse terceiro sistema compreende os artefatos de exterioriza\u00e7\u00e3o que atravessam os sistemas anteriores, inclusive de forma transgeracional, reconfigurando-os. Enquanto \u201csistemas de produ\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o para a reten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e secund\u00e1ria\u201d<span class=\"footnote_referrer\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" onclick=\"footnote_moveToReference_4949_1('footnote_plugin_reference_4949_1_2');\" onkeypress=\"footnote_moveToReference_4949_1('footnote_plugin_reference_4949_1_2');\" ><sup id=\"footnote_plugin_tooltip_4949_1_2\" class=\"footnote_plugin_tooltip_text\">[2]<\/sup><\/a><span id=\"footnote_plugin_tooltip_text_4949_1_2\" class=\"footnote_tooltip\">STIEGLER, Bernard. Pharmacology of desire: Drive-based capitalism and libidinal dis-economy. New Formations, v. 72, n. 72, p. 150-161, 2011.<\/span><\/span><script type=\"text\/javascript\"> jQuery('#footnote_plugin_tooltip_4949_1_2').tooltip({ tip: '#footnote_plugin_tooltip_text_4949_1_2', tipClass: 'footnote_tooltip', effect: 'fade', predelay: 0, fadeInSpeed: 200, delay: 400, fadeOutSpeed: 200, position: 'top center', relative: true, offset: [-7, 0], });<\/script> constituem, juntos, os processos de individua\u00e7\u00e3o. Obviamente, temos aqui uma refer\u00eancia a Gilbert Simondon, outro interlocutor ao qual Stiegler presta refer\u00eancias elementares.<\/p>\n\n\n\n<p>Simondon fornece a Stiegler o vocabul\u00e1rio da individua\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, ps\u00edquica e coletiva. Ou seja, a tese de que o sujeito n\u00e3o \u00e9 uma subst\u00e2ncia dada, mas um processo inacabado de individua\u00e7\u00e3o que se realiza sempre em rela\u00e7\u00e3o a um meio pr\u00e9-individual e a um coletivo \u2014 o que ser\u00e1 chamado, no vocabul\u00e1rio te\u00f3rico, de transindividua\u00e7\u00e3o. \u00c9 assim que Stiegler ir\u00e1 articular a teoria simondoniana da individua\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pr\u00f3pria teoria da reten\u00e7\u00e3o terci\u00e1ria: os objetos t\u00e9cnicos, enquanto suportes de mem\u00f3ria compartilhada, s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es materiais da transindividua\u00e7\u00e3o. Isso, posteriormente, \u00e9 o que lhe permite pensar tanto os processos de forma\u00e7\u00e3o da identidade coletiva quanto os processos patol\u00f3gicos de desindividua\u00e7\u00e3o sob o capitalismo hiperindustrial. N\u00e3o menos importante ser\u00e1 a refer\u00eancia \u00e0 paleoantropologia, especificamente de Andr\u00e9 Leroi-Gourhan, de quem apreende a hip\u00f3tese da exterioriza\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es corporais e cognitivas (em utens\u00edlios t\u00e9cnicos) como fundamental ao processo de \u201chominiza\u00e7\u00e3o\u201d \u2014 a tese do \u201ccortex exteriorizado\u201d, presente em <em>Le Geste et la Parole<\/em>. Assim, a concep\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre \u201cess\u00eancia e t\u00e9cnica\u201d \u00e9 subvertida: o que define a condi\u00e7\u00e3o humana e o artefato produzido por essa \u201ccondi\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 uma coextens\u00e3o negativa \u2014 ambos retroagem sobre si, retroalimentam-se, revelando uma aus\u00eancia de determina\u00e7\u00e3o teleol\u00f3gica, que apenas \u201caparenta\u201d ser assim em processo. O humano constitui seu pr\u00f3prio ser co-originariamente com seus artefatos.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, a no\u00e7\u00e3o fundamental de <em>Pharmakon<\/em> ir\u00e1 delinear uma esp\u00e9cie de ambiguidade fundamental, influenciada pela filosofia cl\u00e1ssica \u2014 desde Plat\u00e3o \u2014, passando por Georges Canguilhem e Derrida: a ambival\u00eancia da condi\u00e7\u00e3o humana se reflete na t\u00e9cnica, nos artefatos, que retroagem sobre a pr\u00f3pria (aus\u00eancia de) ess\u00eancia da humanidade. \u00c9 essa ambiguidade entre veneno e rem\u00e9dio que Stiegler ir\u00e1, posteriormente, elaborar sobre a \u201cfarmacologia do desejo\u201d e suas dicotomias libidinais e pulsionais nas condi\u00e7\u00f5es do capitalismo contempor\u00e2neo. Essa ser\u00e1 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o fundamental em sua teoria da t\u00e9cnica: a cr\u00edtica \u00e0 economia pol\u00edtica, que toma a forma da cr\u00edtica aos processos de expropria\u00e7\u00e3o, o que Stiegler relaciona com o que chama de <em>proletariza\u00e7\u00e3o <\/em>\u2014 justamente, um processo de expropria\u00e7\u00e3o dos saberes. Desde a expropria\u00e7\u00e3o do saber-fazer, at\u00e9 o saber-viver e o saber-teorizar. Primeiro, em rela\u00e7\u00e3o ao <em>savoir-faire<\/em>: o saber-fazer \u00e9 a primeira dimens\u00e3o expropriada na din\u00e2mica do capitalismo industrial do s\u00e9culo XIX. O capitalismo industrial fragmenta a rela\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica com saberes espec\u00edficos que se tornam serializados, i.e., tornam-se parte da segmenta\u00e7\u00e3o industrial necess\u00e1ria para a produ\u00e7\u00e3o em larga escala de mercadorias. Assim, tem-se o primeiro processo de <em>proletariza\u00e7\u00e3o<\/em> enquanto expropria\u00e7\u00e3o.<span class=\"footnote_referrer\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" onclick=\"footnote_moveToReference_4949_1('footnote_plugin_reference_4949_1_3');\" onkeypress=\"footnote_moveToReference_4949_1('footnote_plugin_reference_4949_1_3');\" ><sup id=\"footnote_plugin_tooltip_4949_1_3\" class=\"footnote_plugin_tooltip_text\">[3]<\/sup><\/a><span id=\"footnote_plugin_tooltip_text_4949_1_3\" class=\"footnote_tooltip\">STIEGLER, Bernard. Automatic society. <strong>The future of work<\/strong>, 2015 <\/span><\/span><script type=\"text\/javascript\"> jQuery('#footnote_plugin_tooltip_4949_1_3').tooltip({ tip: '#footnote_plugin_tooltip_text_4949_1_3', tipClass: 'footnote_tooltip', effect: 'fade', predelay: 0, fadeInSpeed: 200, delay: 400, fadeOutSpeed: 200, position: 'top center', relative: true, offset: [-7, 0], });<\/script><\/p>\n\n\n\n<p>Dialogando posteriormente com a teoria frankfurtiana, Stiegler ir\u00e1 conceituar o processo operado pela <em>Ind\u00fastria Cultural <\/em>no s\u00e9culo XX como uma expropria\u00e7\u00e3o do <em>savoir-vivre<\/em> \u2014 o roubo do \u201csaber viver\u201d. A homogeneiza\u00e7\u00e3o industrial da cultura desdobra-se em uma redu\u00e7\u00e3o da complexidade \u2014 i.e. da diferen\u00e7a \u2014 nos modos de vida. A subjetiva\u00e7\u00e3o se torna serializada, e o processo descrito por Freud nos termos da <em>identifica\u00e7\u00e3o<\/em> (especificamente a identifica\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria), tende \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse momento que o conceito de \u201cpsicopoder\u201d \u2014 em di\u00e1logo, mas tamb\u00e9m em oposi\u00e7\u00e3o ao de \u201cbiopoder\u201d \u2014 aparece.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o biopoder se caracteriza pelas t\u00e9cnicas disciplinares, o psicopoder \u201ccontrola o comportamento individual e coletivo dos consumidores ao canalizar sua energia libidinal para as mercadorias.\u201d Surge, enfim, a influ\u00eancia da psican\u00e1lise em seu pensamento \u2014 que passa por Freud, Winnicott e Lacan. Come\u00e7amos a vislumbrar a maneira pela qual Stiegler mobiliza sua leitura psicanal\u00edtica para a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, fundamentalmente pela distin\u00e7\u00e3o entre puls\u00e3o e desejo, apontando para a historicidade do inconsciente que se estabelece pela rela\u00e7\u00e3o entre economia de subsist\u00eancia (i.e., necessidades) e de exist\u00eancia (i.e, desejos) \u2014 algo que dialoga diretamente com uma certa \u201cantropologia\u201d da metapsicologia freudiana, e que remonta \u00e0 materialidade hist\u00f3rica da libido e da puls\u00e3o, diferen\u00e7a mediadora em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 categoria de natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>A dimens\u00e3o dos desejos pressup\u00f5e ent\u00e3o uma economia das \u201cconsist\u00eancias\u201d dos objetos de idealiza\u00e7\u00e3o (infantil, amorosa, art\u00edstica, cient\u00edfica, filos\u00f3fica, pol\u00edtica e religiosa, entre outras), o que remete \u00e0 categoria constitutiva do narcisismo e das identifica\u00e7\u00f5es elaborada desde Freud (como se encontra, por exemplo, desde a introdu\u00e7\u00e3o ao narcisismo at\u00e9 a psicologia das massas). Assim, denota-se a relev\u00e2ncia do chamado <em>ideal de Eu<\/em>, na medida em que \u00e9 inserido no circuito da mercadoria. \u00c9 esse o fundamento te\u00f3rico de expropria\u00e7\u00e3o do saber-viver: um achatamento dos modos de subjetiva\u00e7\u00e3o que reduz \u00e0 heterogeneidade, i.e., reduz a diferen\u00e7a enquanto complexidade entre as possibilidades de exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa expropria\u00e7\u00e3o sobre os saberes da vida \u00e9 elemento fundamental para compreendermos a homogeneiza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica n\u00e3o apenas do mundo, genericamente, mas tamb\u00e9m da esquerda, e da sua constante rela\u00e7\u00e3o fantasiosa com um passado perdido que, via de regra, nunca existiu. Aqui, Stiegler encontraria Fanon. Mas essa tamb\u00e9m \u00e9 outra conversa. O que importa aqui \u00e9 nos atentarmos ao fato de que a infraestrutura tecnol\u00f3gica organiza uma rela\u00e7\u00e3o totalizante que toma dimens\u00f5es in\u00e9ditas na era digital. Finalmente, nosso autor ir\u00e1 apresentar a tese de uma terceira expropria\u00e7\u00e3o: a do saber teorizar \u2014 ou do que poder\u00edamos chamar tamb\u00e9m de expropria\u00e7\u00e3o do saber-pensar, i.e., a crescente automa\u00e7\u00e3o que abarca toda cogni\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica no regime do que Stiegler chama de <em>Sociedade Autom\u00e1tica.<\/em> Essa passagem \u00e9 marcada pela \u201cdeseconomia libidinal\u201d, um processo que inibe o desejo \u2014 enquanto possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o da libido \u2014 pela extrapola\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o. Stiegler considera esse momento como um \u201ccapitalismo de base pulsional\u201d, o que implicaria na fragmenta\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia e da mem\u00f3ria (i.e., das reten\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias e secund\u00e1rias) pelo efeito retroativo dos artefatos digitais (que formam as condi\u00e7\u00f5es atuais das reten\u00e7\u00f5es terci\u00e1rias, de acordo com sua teoria). \u00c9 isso que Stiegler considera como processo de implos\u00e3o da transmiss\u00e3o geracional simb\u00f3lica \u2014 um impasse que ele chama de dessimboliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"is-style-default has-theme-palette-7-background-color has-background has-small-font-size\">Ora, a economia consumista, ao postular em princ\u00edpio a descartabilidade intr\u00ednseca de todos os objetos, provoca um curto-circuito na identifica\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e, de modo mais geral, na rela\u00e7\u00e3o de cuidado. A economia consumista constitui, enquanto tal, um imenso processo de <em>desaprendizado <\/em>e de destrui\u00e7\u00e3o dos <em>milieus<\/em> associativos e dial\u00f3gicos \u2014 uma vez que o simb\u00f3lico, submetido \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o funcional entre produtores industriais de s\u00edmbolos e consumidores dessa produ\u00e7\u00e3o \u00e9, por meio desse mesmo processo, dessimbolizado. <span class=\"footnote_referrer\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" onclick=\"footnote_moveToReference_4949_1('footnote_plugin_reference_4949_1_4');\" onkeypress=\"footnote_moveToReference_4949_1('footnote_plugin_reference_4949_1_4');\" ><sup id=\"footnote_plugin_tooltip_4949_1_4\" class=\"footnote_plugin_tooltip_text\">[4]<\/sup><\/a><span id=\"footnote_plugin_tooltip_text_4949_1_4\" class=\"footnote_tooltip\"> STIEGLER, Bernard. Pharmacology of desire: Drive-based capitalism and libidinal dis-economy. New Formations, v. 72, n. 72, p. 150-161, 2011. <\/span><\/span><script type=\"text\/javascript\"> jQuery('#footnote_plugin_tooltip_4949_1_4').tooltip({ tip: '#footnote_plugin_tooltip_text_4949_1_4', tipClass: 'footnote_tooltip', effect: 'fade', predelay: 0, fadeInSpeed: 200, delay: 400, fadeOutSpeed: 200, position: 'top center', relative: true, offset: [-7, 0], });<\/script><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Essa dessimboliza\u00e7\u00e3o leva \u00e0 desintegra\u00e7\u00e3o libidinal, ou seja, \u00e0 libera\u00e7\u00e3o pulsional regressiva. Stiegler, dialogando com a psican\u00e1lise em sua fase te\u00f3rica tardia, aponta enfim para um imperativo da desintegra\u00e7\u00e3o, i.e., em termos freudianos, um imperativo da puls\u00e3o de morte como princ\u00edpio dissociativo \u2014 uma \u201cdeseconomia libidinal\u201d. Essa leitura influencia toda sua conceitua\u00e7\u00e3o posterior sobre o antropoceno, carregada de reinterpreta\u00e7\u00f5es sobre categorias termodin\u00e2micas \u2014 como a entropia e a neguentropia \u2014 que incidem tamb\u00e9m sobre conceitos informacionais. Todas essas dimens\u00f5es te\u00f3ricas s\u00e3o fundamentais para compreendermos sua interven\u00e7\u00e3o no contexto pol\u00edtico e hist\u00f3rico do contempor\u00e2neo. A cr\u00edtica ao antropoceno formulada por Stiegler \u00e9 baseada em Marx e Freud, mas parte de uma reinterpreta\u00e7\u00e3o que atualiza, de modo retroativo, os conceitos de ambos. Apesar das ambiguidades e do poss\u00edvel otimismo que sua farmacologia oferece, seria inadimplente ignorar a negatividade \u2014 em sentido produtivo \u2014 que sua teoriza\u00e7\u00e3o tardia apresenta. Sua cr\u00edtica sobre a dimens\u00e3o <em>no\u00e9tica <\/em>e o achatamento da teoria em um contexto de imaginariza\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico revelam uma atualidade fundamental, que precisa ser retomada, aqu\u00e9m de qualquer neutraliza\u00e7\u00e3o do potencial cr\u00edtico da an\u00e1lise que sua obra oferece. Seria fundamental traduzirmos suas obras hoje, para pensarmos, junto de suas reflex\u00f5es, os impasses do presente. Stiegler segue vivo hoje, mais do que nunca, especialmente em sua capacidade de transformar a pr\u00f3pria reflex\u00e3o te\u00f3rica sob a luz do presente.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-theme-palette-1-color has-alpha-channel-opacity has-theme-palette-1-background-color has-background\"\/>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" src=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/fotocopia-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3518\" style=\"width:198px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/fotocopia-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/fotocopia-300x300.jpg 300w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/fotocopia-150x150.jpg 150w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/fotocopia-768x768.jpg 768w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/fotocopia.jpg 1492w\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cian Barbosa<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00e9 soci\u00f3logo e mestre em psicologia (UFF), Doutor em Filosofia (Unifesp) e doutorando em Psicologia (UFRJ), onde integra o Laborat\u00f3rio em Estudos sobre a Subjetividade e Emerg\u00eancias Humanit\u00e1rias. \u00c9 tradutor e ensa\u00edsta, al\u00e9m de professor e coordenador no Centro de Forma\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 integrante da revista Zero \u00e0 Esquerda e colunista na revista Opera Mundi.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\">Autor<\/a><\/div>\n\n\n<\/div>\n<div class=\"speaker-mute footnotes_reference_container\"> <div class=\"footnote_container_prepare\"><p><span role=\"button\" tabindex=\"0\" class=\"footnote_reference_container_label pointer\" onclick=\"footnote_expand_collapse_reference_container_4949_1();\">&#x202F;<\/span><span role=\"button\" tabindex=\"0\" class=\"footnote_reference_container_collapse_button\" style=\"display: none;\" onclick=\"footnote_expand_collapse_reference_container_4949_1();\">[<a id=\"footnote_reference_container_collapse_button_4949_1\">+<\/a>]<\/span><\/p><\/div> <div id=\"footnote_references_container_4949_1\" style=\"\"><table class=\"footnotes_table footnote-reference-container\"><caption class=\"accessibility\">References<\/caption> <tbody> \r\n\r\n<tr class=\"footnotes_plugin_reference_row\"> <th scope=\"row\" id=\"footnote_plugin_reference_4949_1_1\" class=\"footnote_plugin_index pointer\" onclick=\"footnote_moveToAnchor_4949_1('footnote_plugin_tooltip_4949_1_1');\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" class=\"footnote_plugin_link\" ><span class=\"footnote_index_arrow\">&#8593;<\/span>1<\/a><\/th> <td class=\"footnote_plugin_text\">STIEGLER, Bernard. La technique et le temps: 1. La Faute d \u00c9pim\u00e9th\u00e9e. 2. La D\u00e9sorientation 3. Le Temps du cin\u00e9ma et la question du mal-\u00eatre. Fayard, 2018.<\/td><\/tr>\r\n\r\n<tr class=\"footnotes_plugin_reference_row\"> <th scope=\"row\" id=\"footnote_plugin_reference_4949_1_2\" class=\"footnote_plugin_index pointer\" onclick=\"footnote_moveToAnchor_4949_1('footnote_plugin_tooltip_4949_1_2');\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" class=\"footnote_plugin_link\" ><span class=\"footnote_index_arrow\">&#8593;<\/span>2<\/a><\/th> <td class=\"footnote_plugin_text\">STIEGLER, Bernard. Pharmacology of desire: Drive-based capitalism and libidinal dis-economy. New Formations, v. 72, n. 72, p. 150-161, 2011.<\/td><\/tr>\r\n\r\n<tr class=\"footnotes_plugin_reference_row\"> <th scope=\"row\" id=\"footnote_plugin_reference_4949_1_3\" class=\"footnote_plugin_index pointer\" onclick=\"footnote_moveToAnchor_4949_1('footnote_plugin_tooltip_4949_1_3');\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" class=\"footnote_plugin_link\" ><span class=\"footnote_index_arrow\">&#8593;<\/span>3<\/a><\/th> <td class=\"footnote_plugin_text\">STIEGLER, Bernard. Automatic society. <strong>The future of work<\/strong>, 2015 <\/td><\/tr>\r\n\r\n<tr class=\"footnotes_plugin_reference_row\"> <th scope=\"row\" id=\"footnote_plugin_reference_4949_1_4\" class=\"footnote_plugin_index pointer\" onclick=\"footnote_moveToAnchor_4949_1('footnote_plugin_tooltip_4949_1_4');\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" class=\"footnote_plugin_link\" ><span class=\"footnote_index_arrow\">&#8593;<\/span>4<\/a><\/th> <td class=\"footnote_plugin_text\"> STIEGLER, Bernard. Pharmacology of desire: Drive-based capitalism and libidinal dis-economy. New Formations, v. 72, n. 72, p. 150-161, 2011. <\/td><\/tr>\r\n\r\n <\/tbody> <\/table> <\/div><\/div><script type=\"text\/javascript\"> function footnote_expand_reference_container_4949_1() { jQuery('#footnote_references_container_4949_1').show(); jQuery('#footnote_reference_container_collapse_button_4949_1').text('\u2212'); } function footnote_collapse_reference_container_4949_1() { jQuery('#footnote_references_container_4949_1').hide(); jQuery('#footnote_reference_container_collapse_button_4949_1').text('+'); } function footnote_expand_collapse_reference_container_4949_1() { if (jQuery('#footnote_references_container_4949_1').is(':hidden')) { footnote_expand_reference_container_4949_1(); } else { footnote_collapse_reference_container_4949_1(); } } function footnote_moveToReference_4949_1(p_str_TargetID) { footnote_expand_reference_container_4949_1(); var l_obj_Target = jQuery('#' + p_str_TargetID); if (l_obj_Target.length) { jQuery( 'html, body' ).delay( 0 ); jQuery('html, body').animate({ scrollTop: l_obj_Target.offset().top - window.innerHeight * 0.2 }, 380); } } function footnote_moveToAnchor_4949_1(p_str_TargetID) { footnote_expand_reference_container_4949_1(); var l_obj_Target = jQuery('#' + p_str_TargetID); if (l_obj_Target.length) { jQuery( 'html, body' ).delay( 0 ); jQuery('html, body').animate({ scrollTop: l_obj_Target.offset().top - window.innerHeight * 0.2 }, 380); } }<\/script>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algo caracter\u00edstico do exerc\u00edcio e da experi\u00eancia filos\u00f3fica sobre a hist\u00f3ria \u00e9 o elemento de retroatividade: o presente sempre oferece a possibilidade de novos termos ressignificarem \u2014 para citar um termo (talvez ainda) na moda \u2014 nossa compreens\u00e3o sobre o passado. 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