{"id":4929,"date":"2026-07-29T18:12:22","date_gmt":"2026-07-29T18:12:22","guid":{"rendered":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/?p=4929"},"modified":"2026-07-29T18:12:24","modified_gmt":"2026-07-29T18:12:24","slug":"mito-e-linguagem-da-coletividade-furio-jesi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2026\/07\/29\/mito-e-linguagem-da-coletividade-furio-jesi\/","title":{"rendered":"Mito e linguagem da coletividade \u2014 Furio Jesi"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>A K\u00e1roly Ker\u00e9nyi com respeitosa amizade<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Aceitar na vida as manifesta\u00e7\u00f5es do mito genu\u00edno significa, em rigor, adotar uma postura irracionalista. Mas, desde que o mito seja genu\u00edno, n\u00e3o tecnificado com determinados fins nem deformado por quem projeta nele as pr\u00f3prias doen\u00e7as ou culpas, essa postura pode ser definida com as palavras usadas por Thomas Mann sobre a psican\u00e1lise: \u201ca forma do irracionalismo moderno que se op\u00f5e inequivocamente a todo abuso reacion\u00e1rio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo pelo qual as imagens m\u00edticas emergem do inconsciente para a consci\u00eancia constitui, quando se trata de mitos genu\u00ednos, tamb\u00e9m um determinante do equil\u00edbrio humanista entre o inconsciente e a consci\u00eancia. O mito genu\u00edno, que brota espontaneamente das profundezas da psique, determina com sua presen\u00e7a no n\u00edvel da consci\u00eancia uma realidade lingu\u00edstica cujo car\u00e1ter coletivo corresponde ao valor coletivo reconhecido por Martin Buber no \u201cestado de vig\u00edlia \u201d a que se refere um fragmento de Her\u00e1clito: \u201cos que est\u00e3o acordados t\u00eam [em contraposi\u00e7\u00e3o aos que dormem] um \u00fanico cosmos em comum, ou seja, um \u00fanico mundo do qual todos participam conjuntamente\u201d. E essa realidade lingu\u00edstica \u2014 aquele <em>\u03bb\u03cc\u03b3\u03bf\u03c2<\/em><span class=\"footnote_referrer\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" onclick=\"footnote_moveToReference_4929_1('footnote_plugin_reference_4929_1_1');\" onkeypress=\"footnote_moveToReference_4929_1('footnote_plugin_reference_4929_1_1');\" ><sup id=\"footnote_plugin_tooltip_4929_1_1\" class=\"footnote_plugin_tooltip_text\">[1]<\/sup><\/a><span id=\"footnote_plugin_tooltip_text_4929_1_1\" class=\"footnote_tooltip\">Logos. O sentido que Jesi d\u00e1 \u00e0 palavra \u00e9 diferente da filosofia grega e da teologia crist\u00e3, apesar de ambas terem possibilidade de rela\u00e7\u00e3o. Tem mais a ver com uma estrutura\u00e7\u00e3o discursiva e&nbsp;&#x2026; <span class=\"footnote_tooltip_continue\"  onclick=\"footnote_moveToReference_4929_1('footnote_plugin_reference_4929_1_1');\">Continue reading<\/span><\/span><\/span><script type=\"text\/javascript\"> jQuery('#footnote_plugin_tooltip_4929_1_1').tooltip({ tip: '#footnote_plugin_tooltip_text_4929_1_1', tipClass: 'footnote_tooltip', effect: 'fade', predelay: 0, fadeInSpeed: 200, delay: 400, fadeOutSpeed: 200, position: 'top center', relative: true, offset: [-7, 0], });<\/script> <em>&nbsp;<\/em>\u2014 impede com sua estrutura um eventual predom\u00ednio do inconsciente que conduza \u00e0 aniquila\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. O fluxo do mito genu\u00edno dentro da psique humana evidencia espontaneamente algumas das imagens que jazem latentes nela e lhes confere uma \u201cvitalidade\u201d que, na realidade, \u00e9 sua perspectiva no inconsciente. Mas no momento em que essas imagens s\u00e3o \u201cvitalizadas\u201d, sua estrutura \u2014 que \u00e9 um elemento intr\u00ednseco da consci\u00eancia \u2014 tamb\u00e9m experimenta um fortalecimento, ou seja, adquire um poder sobre o inconsciente ao ter sido colocada em rela\u00e7\u00e3o \u201cperspectiva\u201d com este. A estrutura das imagens m\u00edticas se contrap\u00f5e assim ao inconsciente como uma barreira, excluindo seu predom\u00ednio indiscriminado.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo n\u00e3o se pode dizer das manifesta\u00e7\u00f5es do mito n\u00e3o genu\u00edno, do mito \u201ctecnificado\u201d \u2014 segundo a defini\u00e7\u00e3o de Ker\u00e9nyi \u2014, ou seja, evocado intencionalmente pelo homem para atingir determinados fins. De fato, nesse caso, a realidade lingu\u00edstica nascida do surgimento do mito n\u00e3o \u00e9 digna de ser chamada de <em>\u03bb\u03cc\u03b3\u03bf\u03c2 <\/em>e, ao sofrer as restri\u00e7\u00f5es impostas ao fluxo m\u00edtico pelos tecnificadores, n\u00e3o possui car\u00e1ter coletivo. Eles se prop\u00f5em a usar determinadas imagens m\u00edticas para alcan\u00e7ar determinados fins (que geralmente s\u00e3o fins pol\u00edticos, pois os tecnificadores do mito s\u00e3o, na maioria das vezes, disc\u00edpulos de Sorel); sua linguagem n\u00e3o \u00e9, portanto, uma linguagem comum \u00e0 humanidade, mas apenas comum a um determinado grupo social. As imagens do mito tecnificado s\u00e3o, al\u00e9m disso, imagens deformadas no sentido teleol\u00f3gico dos tecnificadores pelo pr\u00f3prio fato de terem sido evocadas por eles intencionalmente, e n\u00e3o apresentadas espontaneamente pelo fluxo m\u00edtico. Consequentemente, tais imagens constituem uma realidade lingu\u00edstica particularmente subjetiva, assim como \u00e9 subjetivo o cosmos daquele que \u2014 nas palavras de Her\u00e1clito \u2014 se encontra em \u201cestado de sonho\u201d. O \u201cestado de sonho\u201d acaba sendo um s\u00edmbolo apropriado da condi\u00e7\u00e3o daquele que se serve de mitos tecnificados, especialmente se considerarmos que essas imagens m\u00edticas, por sua subjetividade, n\u00e3o podem de forma alguma servir de barreira contra o predom\u00ednio do inconsciente: a faculdade de se opor ao predom\u00ednio indiscriminado do inconsciente \u00e9, na verdade, pr\u00f3pria das imagens evocadas pelo mito genu\u00edno, uma vez que coincide com o car\u00e1ter objetivo dessas imagens. Manifestar-se em sua objetividade \u201cnatural\u201d, pr\u00f3pria do mito genu\u00edno, n\u00e3o contrasta de forma alguma com as fun\u00e7\u00f5es da consci\u00eancia nem enfraquece a for\u00e7a desta, permitindo que a estrutura das imagens evocadas \u2014 na qual repousa tal for\u00e7a \u2014 salvaguarde, juntamente com o car\u00e1ter coletivo da realidade lingu\u00edstica da qual participam, o equil\u00edbrio \u201chuman\u00edstico\u201d entre consci\u00eancia e inconsciente. Mas o mito tecnificado, ao suprimir o valor coletivo e objetivo do processo cognitivo e lingu\u00edstico, conduz novamente o homem ao \u201cestado de sonho\u201d e abre caminho para o predom\u00ednio do inconsciente. Se o inconsciente \u00e9 efetivamente coletivo por si mesmo \u2014 segundo o ensinamento de C. G. Jung \u2014, ele se mant\u00e9m em equil\u00edbrio na psique humana quando entra em rela\u00e7\u00e3o com outro elemento coletivo como a consci\u00eancia em \u201cestado de vig\u00edlia\u201d; mas est\u00e1 destinado a prevalecer se, na psique, a consci\u00eancia estiver em \u201cestado de sonho\u201d, isto \u00e9, viciada pelo subjetivismo.<\/p>\n\n\n\n<p>A g\u00eanese da realidade lingu\u00edstica determinada pelo fluxo m\u00edtico \u00e9 caracterizada por um fen\u00f4meno de reminisc\u00eancia e, consequentemente, de rela\u00e7\u00e3o com o passado, uma vez que o fluxo do mito constitui o afloramento de um passado t\u00e3o remoto que pode ser identificado com um presente eterno e determina tamb\u00e9m o afloramento de imagens escolhidas entre aquelas que constituem o passado latente na psique. No entanto, essa rela\u00e7\u00e3o com o passado tamb\u00e9m pode ser viciada se for determinada por uma evoca\u00e7\u00e3o tecnicista do mito em vez de ser espontaneamente por um fen\u00f4meno mitol\u00f3gico genu\u00edno. De fato, enquanto o passado com o qual se estabelece contato por meio do mito genu\u00edno \u00e9 <em>verdadeiramente <\/em>o passado, ou seja, uma realidade viva e genu\u00edna da qual a linguagem extrai elementos de valor objetivo e coletivo, o passado que perdura nas imagens do mito tecnificado n\u00e3o passa de uma sobreviv\u00eancia deformada e subjetiva, na qual os tecnificadores projetaram suas culpas e seus males para dispor de um \u201cprecedente\u201d m\u00edtico, eficaz como instrumento pol\u00edtico. A linguagem que se alimenta dessas sobreviv\u00eancias deformadas do passado \u00e9, ela tamb\u00e9m, necessariamente deformada, e \u00e9 a linguagem que realmente se alimenta do passado atrav\u00e9s dos canais do mito feminino, como uma mob\u00edlia de \u201cestilo renascentista\u201d \u00e9 para uma aut\u00eantica cria\u00e7\u00e3o do Renascimento.<span class=\"footnote_referrer\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" onclick=\"footnote_moveToReference_4929_1('footnote_plugin_reference_4929_1_2');\" onkeypress=\"footnote_moveToReference_4929_1('footnote_plugin_reference_4929_1_2');\" ><sup id=\"footnote_plugin_tooltip_4929_1_2\" class=\"footnote_plugin_tooltip_text\">[2]<\/sup><\/a><span id=\"footnote_plugin_tooltip_text_4929_1_2\" class=\"footnote_tooltip\">O <em>mito feminino<\/em> remonta provavelmente ao matriarcado que Bachofen teorizou. Jesi espelha a cultura de massa na tecnifica\u00e7\u00e3o e o modelo ginecol\u00f3gico de comunidade no Renascimento.\u00a0<\/span><\/span><script type=\"text\/javascript\"> jQuery('#footnote_plugin_tooltip_4929_1_2').tooltip({ tip: '#footnote_plugin_tooltip_text_4929_1_2', tipClass: 'footnote_tooltip', effect: 'fade', predelay: 0, fadeInSpeed: 200, delay: 400, fadeOutSpeed: 200, position: 'top center', relative: true, offset: [-7, 0], });<\/script><\/p>\n\n\n\n<p>O fen\u00f4meno da tecnifica\u00e7\u00e3o do mito, e a rela\u00e7\u00e3o viciada com o passado que isso implica, teve exemplos tr\u00e1gicos na hist\u00f3ria mais recente da cultura e da sociedade alem\u00e3s, tornando-se excepcionalmente evidente na vicissitude do nazismo. Seria, no entanto, superficial e impreciso implicar em uma \u00fanica acusa\u00e7\u00e3o moral tanto os pensadores e artistas cuja vicissitude espiritual foi marcada por elementos horr\u00edveis gerados por sua experi\u00eancia do mito genu\u00edno quanto os criminosos que, sem nenhum escr\u00fapulo, tecnificaram o mito para seus fins mais baixos e criminosos.<\/p>\n\n\n\n<p>O mito genu\u00edno tamb\u00e9m pode assumir apar\u00eancias horr\u00edveis na obra do artista que, longe de querer tecnificar o mito, est\u00e1 intimamente marcado por doen\u00e7as espirituais. Mas, sem d\u00favida, nem mesmo os te\u00f3ricos da \u201csolid\u00e3o\u201d do artista chegaram a se deter, salvo em raras ocasi\u00f5es, da complac\u00eancia exclusivamente aristocr\u00e1tica de aristocratas eleitos ou de aristocratas doentes, dependendo da perspectiva do observador. O pr\u00f3prio esoterismo lingu\u00edstico de Stefan George \u2014 pense-se na \u201cl\u00edngua secreta\u201d de sua juventude \u2014 foi muitas vezes uma experi\u00eancia sofrida de solid\u00e3o; e certamente sofrida, al\u00e9m de vivida at\u00e9 o fim com um empenho ao qual n\u00e3o poder\u00edamos negar moral e at\u00e9 hero\u00edsmo, foi a solid\u00e3o de Rilke. Basta tomar como exemplo o curso das <em>Duiniser Elegien<\/em> para mostrar como Rilke acabar\u00e1 por reconquistar uma rela\u00e7\u00e3o pura com o passado e o mito genu\u00edno, mostrando-se triunfante para as imagens horr\u00edveis \u2014 o <em>anjo<\/em>, <span class=\"footnote_referrer\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" onclick=\"footnote_moveToReference_4929_1('footnote_plugin_reference_4929_1_3');\" onkeypress=\"footnote_moveToReference_4929_1('footnote_plugin_reference_4929_1_3');\" ><sup id=\"footnote_plugin_tooltip_4929_1_3\" class=\"footnote_plugin_tooltip_text\">[3]<\/sup><\/a><span id=\"footnote_plugin_tooltip_text_4929_1_3\" class=\"footnote_tooltip\"><em>Jeder Engel ist schrecklich<\/em>. Todo Anjo \u00e9 terr\u00edvel, diz a primeira elegia, porque \u00e9 Belo.\u00a0<\/span><\/span><script type=\"text\/javascript\"> jQuery('#footnote_plugin_tooltip_4929_1_3').tooltip({ tip: '#footnote_plugin_tooltip_text_4929_1_3', tipClass: 'footnote_tooltip', effect: 'fade', predelay: 0, fadeInSpeed: 200, delay: 400, fadeOutSpeed: 200, position: 'top center', relative: true, offset: [-7, 0], });<\/script> acima de todas \u2014 que haviam nascido da proje\u00e7\u00e3o das \u201cculpas\u201d anti-human\u00edsticas do poeta no fluxo m\u00edtico: seu mergulho recorrente e deliberado nas zonas obscuras da psique com o objetivo de conceder-lhes um dom\u00ednio total moment\u00e2neo sobre a consci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>O v\u00edcio da linguagem na experi\u00eancia art\u00edstica de Rilke \u00e9, portanto, um v\u00edcio de cura e de retorno \u00e0 coletividade, coincidindo com o retorno ao mito genu\u00edno e a uma rela\u00e7\u00e3o pura com o passado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNunca procurei agradar a maioria; n\u00e3o sei o que realmente lhe agrada e, pelo contr\u00e1rio, o que eu sei ela n\u00e3o \u00e9 capaz de compreender\u201d: esta frase de Epicuro n\u00e3o deve ser entendida como uma rejei\u00e7\u00e3o est\u00e9ril e aristocr\u00e1tica da coletividade, mas como uma defesa contra tudo o que significa coletividade de culpas e obscuridades subjetivas, embora tendo respeito pelo homem, pelo seu conhecimento e pela sua consci\u00eancia. A frase alude tamb\u00e9m \u00e0 dolorosa profundidade da experi\u00eancia do pensador e do artista, solit\u00e1rio em trabalhar dentro de si a cura dos males que amea\u00e7am a humanidade. Esse caminho solit\u00e1rio de acesso ao <em>\u03bb\u03cc\u03b3\u03bf\u03c2<\/em>, \u00e0 verdadeira linguagem da coletividade, s\u00f3 pode ser interpretado como orgulho aristocr\u00e1tico se n\u00e3o se levar em conta a humildade, os sofrimentos e as consequ\u00eancias pedag\u00f3gicas que ele implica. Sim, tamb\u00e9m humildade: o prop\u00f3sito de vencer dentro de si os males e as culpas que oprimem o homem significa assumir humildemente os males e as culpas da humanidade com vistas a uma dolorosa cura que o meio pedag\u00f3gico \u2014 o instrumento lingu\u00edstico \u2014 torna coletiva. Nesse sentido, Ker\u00e9nyi tem raz\u00e3o ao reconhecer em <em>Doktor Faustus<\/em>, de Thomas Mann, um romance \u201ccrist\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na atitude daqueles que tentam dolorosamente restabelecer um v\u00ednculo puro com o mito genu\u00edno, aproximando-se do passado como uma fonte vital de cura, contrap\u00f5e-se a obra criminosa dos <em>leaders <\/em>que oferecem \u00e0s massas um precedente m\u00edtico deformado de suas culpas. Um s\u00edmbolo tr\u00e1gico dessa obra encontra-se no romance <em>Die andere Seite<\/em> [A outra parte], de Alfred Kubin, que narra as loucuras de um grupo de homens rendidos a um <em>leader<\/em>, Patera, que mant\u00e9m sobre eles um \u201cfeiti\u00e7o\u201d, explorando suas complac\u00eancias. No reino de Patera, vive-se rodeado de sobreviv\u00eancias deformadas do passado, que se manifestam at\u00e9 na ado\u00e7\u00e3o de vestes de s\u00e9culos anteriores e na exclus\u00e3o de todos os utens\u00edlios que n\u00e3o tenham sido deteriorados pelo tempo. As pr\u00f3prias casas da cidade de Patera foram trazidas de todas as partes da Europa e escolhidas entre as mais antigas, as mais adequadas para simbolizar um passado deformado: entre os elementos discriminat\u00f3rios da escolha dessas casas est\u00e1 o fato \u2014 silenciado \u2014 de que todas foram palco de algum crime.<\/p>\n\n\n\n<p>Este v\u00ednculo viciado com o passado \u2014 emblema da tecnifica\u00e7\u00e3o do mito levada a cabo por quem reflete nas imagens m\u00edticas as pr\u00f3prias culpas \u2014 \u00e9 o pressuposto do \u201cfeiti\u00e7o\u201d que domina os s\u00faditos de Patera, assim como o edif\u00edcio do Arquivo domina a sua cidade. O imenso e fechado arquivo, que \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o do Estado de Patera, \u00e9 justamente o s\u00edmbolo de um passado reduzido a um repert\u00f3rio empoeirado e ca\u00f3tico de imagens, das quais uma vontade criminosa evoca aquelas que s\u00e3o \u00fateis para manter o pr\u00f3prio poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal era o \u201cpassado\u201d para os nazistas, cuja linguagem coincidiu com o mergulho nas imagens deformadas do passado oferecidas pela tecnifica\u00e7\u00e3o do mito. Privada de todo valor coletivo, essa linguagem se alimentava de imagens m\u00edticas deformadas nas quais se projetavam as doen\u00e7as e as culpas dos criminosos e nas quais cada um se entregava cegamente ao fluxo do inconsciente, encontrando naquele esoterismo monstruoso uma confirma\u00e7\u00e3o e um precedente m\u00edtico das pr\u00f3prias doen\u00e7as e das pr\u00f3prias culpas.<\/p>\n\n\n\n<p>Coletividade significa comunidade de homens que se reconhecem no respeito pelo homem, n\u00e3o nas suas doen\u00e7as morais e nas suas culpas. Se o denominador comum de um grupo social \u00e9 a culpa e a vontade culpada, e se tal denominador \u00e9 explorado pelos \u201cde cima\u201d como elemento de coes\u00e3o, se essa obra dos \u201cde cima\u201d se manifesta ainda no fornecimento de mitos deformados<em> ad hoc<\/em> e, portanto, no favorecimento do predom\u00ednio das \u201cfor\u00e7as obscuras\u201d sobre a consci\u00eancia, ent\u00e3o pode-se certamente falar de \u201cestado de sonho\u201d para quem faz parte desse grupo. Cada um dos adormecidos fala sua pr\u00f3pria linguagem: <em>pr\u00f3pria<\/em>, na medida em que privada de objetividade e deformada de acordo com as culpas. \u201cO rancor infinito, a profunda e gangrenosa sede de vingan\u00e7a do inepto, do incapaz, do cem vezes fracassado, do pregui\u00e7oso extremo frequentador de casas de caridade, inapto para qualquer trabalho, do insignificante <em>diletante <\/em>rejeitado, do totalmente frustrado, ligam-se aos sentimentos de inferioridade (muito menos leg\u00edtimos) de um povo vencido, que n\u00e3o sabe enfrentar, em sua derrota, o caminho certo e que s\u00f3 pensa na recupera\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria \u201chonra\u201d\u201d: Thomas Mann fala novamente, e o diagn\u00f3stico do grande pedagogo da sociedade burguesa n\u00e3o \u00e9 v\u00e1lido apenas para a Alemanha nazista: implica tamb\u00e9m, profeticamente, o destino daquela parte da sociedade e da cultura burguesas incapazes de \u2014 ou contr\u00e1rias a \u2014 renunciar ao orgulho de suas pr\u00f3prias culpas, da rela\u00e7\u00e3o viciada que mant\u00eam com o passado; incapaz de renunciar ao subjetivismo do culpado, que considera bom e justo apenas a linguagem nascida da deforma\u00e7\u00e3o do mito que reflete suas culpas e que se refugia em um esoterismo bem distante daquele experimentado por Rilke em vez de tomar o caminho da coletividade, do conhecimento nascido do equil\u00edbrio entre consci\u00eancia e inconsciente, de um humanismo renovado.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0No ensaio<em> Menschliches Allzumenschliches<\/em> [Humano, demasiado humano], Nietzsche fala de \u201ccertos esp\u00edritos poderosos e impulsionadores, embora atrasados no tempo, que evocam mais uma vez uma \u00e9poca passada da humanidade, demonstrando assim que as novas tend\u00eancias a que se op\u00f5em ainda n\u00e3o s\u00e3o suficientemente fortes para os manter vitoriosamente de cabe\u00e7a erguida\u201d. A rea\u00e7\u00e3o como progresso;<span class=\"footnote_referrer\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" onclick=\"footnote_moveToReference_4929_1('footnote_plugin_reference_4929_1_4');\" onkeypress=\"footnote_moveToReference_4929_1('footnote_plugin_reference_4929_1_4');\" ><sup id=\"footnote_plugin_tooltip_4929_1_4\" class=\"footnote_plugin_tooltip_text\">[4]<\/sup><\/a><span id=\"footnote_plugin_tooltip_text_4929_1_4\" class=\"footnote_tooltip\">N\u00e3o sendo conservador, Pasolini talvez tenha feito o melhor projeto para uma revolu\u00e7\u00e3o ao estilo do texto. Dentro do conjunto da arte do cinema, grande parte dos seus filmes aponta para&nbsp;&#x2026; <span class=\"footnote_tooltip_continue\"  onclick=\"footnote_moveToReference_4929_1('footnote_plugin_reference_4929_1_4');\">Continue reading<\/span><\/span><\/span><script type=\"text\/javascript\"> jQuery('#footnote_plugin_tooltip_4929_1_4').tooltip({ tip: '#footnote_plugin_tooltip_text_4929_1_4', tipClass: 'footnote_tooltip', effect: 'fade', predelay: 0, fadeInSpeed: 200, delay: 400, fadeOutSpeed: 200, position: 'top center', relative: true, offset: [-7, 0], });<\/script> esse conceito que Nietzsche exemplifica sobretudo no caso de Schopenhauer, que deveria nos permitir apreciar a contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o de homens que revivem dentro de si o passado e que estabelecem, portanto, uma ponte entre o passado e o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>A linguagem da propaganda pol\u00edtica poderia extrair uma primeira justificativa desse pensamento de Nietzsche, uma vez que tal linguagem nasce precisamente da evoca\u00e7\u00e3o deliberada de imagens m\u00edticas, destinadas a servir de instrumentos para alcan\u00e7ar um determinado fim pol\u00edtico. O mito \u2014 o passado \u2014 seria assim revivido pelos tecnificadores e sua for\u00e7a seria reintegrada ao presente com o objetivo preciso de melhorar as rela\u00e7\u00f5es entre os homens. Tal justificativa hist\u00f3rica e moral teria, al\u00e9m disso, a vantagem de induzir implicitamente uma primeira distin\u00e7\u00e3o entre aqueles que revivem as imagens do mito movidos por uma profunda e humana exig\u00eancia social e aqueles que, ao contr\u00e1rio, se servem do mito apenas para colocar em pr\u00e1tica seus prop\u00f3sitos criminosos. \u00c9 indubit\u00e1vel, de fato, que o conceito de rea\u00e7\u00e3o como progresso s\u00f3 \u00e9 aplic\u00e1vel aos reacion\u00e1rios movidos por profundas e genu\u00ednas exig\u00eancias morais, das quais \u2014 em todo caso \u2014 s\u00f3 pode derivar respeito e amor ao homem.<\/p>\n\n\n\n<p>O recurso ao mito na linguagem da propaganda pol\u00edtica \u00e9 um elemento constante e \u00e9 sempre \u2014 por sua pr\u00f3pria natureza \u2014 um elemento \u201creacion\u00e1rio\u201d. Mesmo a doutrina pol\u00edtica mais progressista se serve de um instrumento intrinsecamente reacion\u00e1rio quando recorre ao mito, mesmo que o tecnifique, pois o mito nunca deixa de ser \u201cpassado\u201d: um passado que exerce sobre os homens um certo poder, que \u00e9, precisamente, explorado pela propaganda.<\/p>\n\n\n\n<p>Se, por outro lado, a doutrina pol\u00edtica que faz uso do elemento propagand\u00edstico \u201creacion\u00e1rio\u201d \u00e9 verdadeiramente uma doutrina progressista, ela realiza plenamente em sua atua\u00e7\u00e3o o conceito de rea\u00e7\u00e3o como progresso. Conceito que implica, no entanto, que fiquem sempre bem claros os objetivos do recurso ao mito, para que se possa verdadeiramente fundamentar o futuro na experi\u00eancia do passado e em sua supera\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro, naturalmente, que o mito tecnificado usado pela propaganda pol\u00edtica \u00e9 um passado deformado, um passado cujas sobreviv\u00eancias ainda podem induzir os homens a um certo comportamento, mas que \u00e9 desprovido da autenticidade capaz de tornar objetiva e intrinsecamente v\u00e1lida a sua experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Supera\u00e7\u00e3o<\/em>: acreditamos que este seja o ponto fraco de quase todas as linguagens propagand\u00edsticas, que geralmente s\u00e3o utilizadas de forma moralmente conden\u00e1vel quando n\u00e3o se prev\u00ea, dentro da evoca\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do mito, a supera\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia alcan\u00e7ada. Se os resultados desta \u00faltima s\u00e3o considerados como fins em si mesmos, se \u2014 isto \u00e9 \u2014 a linguagem do mito tecnificado \u00e9 considerada como uma linguagem objetiva e cheia de verdade intr\u00ednseca, a rea\u00e7\u00e3o permanece como rea\u00e7\u00e3o e resulta, consequentemente, apenas em contamina\u00e7\u00e3o do presente com um passado no qual se refletem as culpas dos tecnificadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas como \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar essa supera\u00e7\u00e3o? Como \u00e9 poss\u00edvel induzir os homens a se comportarem de uma determinada maneira \u2014 gra\u00e7as \u00e0 for\u00e7a exercida por evoca\u00e7\u00f5es m\u00edticas oportunas \u2014 e induzi-los sucessivamente a uma atitude cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao motivo m\u00edtico de seu comportamento? Tudo isso n\u00e3o nos parece praticamente poss\u00edvel. E, mesmo assim, a maioria dos partidos pol\u00edticos continua valendo-se de imagens m\u00edticas em sua propaganda; ou seja, continuam a basear o futuro na aceita\u00e7\u00e3o do passado, confiando na ilus\u00e3o de trabalhar pelo progresso, quando, pelo contr\u00e1rio, aceitar cegamente uma propaganda baseada na tecnifica\u00e7\u00e3o do mito significa mergulhar no que h\u00e1 de morto e deformado no passado: os mitos n\u00e3o espont\u00e2neos, n\u00e3o genu\u00ednos, tecnificados.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que essa t\u00e9cnica propagand\u00edstica possa induzir os homens a agir de maneira \u00fatil na afirma\u00e7\u00e3o de uma doutrina pol\u00edtica progressista, permanece o engano perpetrado \u00e0s custas de suas consci\u00eancias. Resta o fato, ou seja, tamb\u00e9m se pode chegar \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de um Estado doutrin\u00e1ria e institucionalmente progressista, mas n\u00e3o se favorece nenhum tipo de progresso na consci\u00eancia dos componentes desse Estado: isso significa uma fratura incur\u00e1vel entre o Estado e a consci\u00eancia individual, entre a consci\u00eancia de alguns poucos l\u00edderes \u201ciluminados\u201d do Estado e a consci\u00eancia dos componentes da \u201cmassa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, \u00e9 poss\u00edvel fazer uso, na propaganda pol\u00edtica, de mitos genu\u00ednos, n\u00e3o tecnificados e, portanto, de for\u00e7as do passado transmitidas de forma vital ao presente e ao futuro, e n\u00e3o de cad\u00e1veres do passado? \u00c0 primeira vista, poderia parecer inevit\u00e1vel responder negativamente a essa pergunta, uma vez que a espontaneidade e o desinteresse que acompanham sua manifesta\u00e7\u00e3o s\u00e3o prerrogativas espec\u00edficas do mito genu\u00edno. O objetivo moral e, em \u00faltima an\u00e1lise, tamb\u00e9m pol\u00edtico, deveria ser a desmitifica\u00e7\u00e3o na propaganda pol\u00edtica do mito tecnificado (j\u00e1 que o mito genu\u00edno seria estranho a ela <em>a priori<\/em>). Mas isso equivale, em definitiva, \u00e0 nega\u00e7\u00e3o do conceito de \u201cpropaganda\u201d pol\u00edtica no sentido negativo de \u201cengano\u201d que tradicionalmente lhe \u00e9 atribu\u00eddo. No entanto, n\u00e3o ousaremos negar, por outro lado, a efic\u00e1cia \u201cpropagand\u00edstica\u201d de uma linguagem que \u00e9 pr\u00f3pria dos homens em \u201cestado de vig\u00edlia\u201d e que, consequentemente, se alimenta do mito n\u00e3o tecnicamente, mas por meio de um abandono genu\u00edno e espont\u00e2neo ao seu fluxo, o que n\u00e3o implica diminui\u00e7\u00e3o da lucidez da consci\u00eancia. Se o homem fala ao homem com uma linguagem que deriva de sua experi\u00eancia do mito genu\u00edno, o que confere \u00e0 linguagem valor de objetividade e coletividade, \u00e9 prov\u00e1vel que se obtenha um passo adiante em dire\u00e7\u00e3o a uma sociedade baseada na dignidade ao homem.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 34 a.C., Ant\u00f4nio, ap\u00f3s conquistar a Arm\u00eania, mandou cunhar em Alexandria moedas que o representavam com a tiara real arm\u00eania, bem como outras nas quais figurava Cle\u00f3patra vestida como a \u201cnova \u00cdsis\u201d. Essas representa\u00e7\u00f5es constitu\u00edam quase uma resposta \u00e0s que a pol\u00edtica de Augusto havia inspirado aos oleiros de Aretino e aos vasos de terracota que aludiam a Ant\u00f4nio e Cle\u00f3patra, evocando o mito de H\u00e9rcules e Onf\u00e1lia, um vestido com roupas femininas, a outra coberta com a pele de le\u00e3o e empunhando a clava. As propagandas de Alexandria e Roma recorreram ao mito como repert\u00f3rio de imagens capazes de agir eficazmente sobre as massas e envolver as personalidades dos contendores em uma aura de divindade vitoriosa e salvadora ou de cruel rid\u00edculo. As imagens utilizadas, seja a de \u00cdsis, seja a de H\u00e9rcules e Onf\u00e1lia, pertenciam a um patrim\u00f4nio comum a vastas camadas das popula\u00e7\u00f5es submetidas \u00e0s duas pot\u00eancias em luta. Recorrer a essas imagens com fins precisos de propaganda pol\u00edtica n\u00e3o significava, por\u00e9m, apelar para o que realmente constitu\u00eda um v\u00ednculo comum entre as pessoas. A deforma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do mito n\u00e3o passava de uma monstruosa distor\u00e7\u00e3o do sentimento religioso, destinada a priv\u00e1-lo de seu valor coletivo \u2014 \u00e0 margem das cren\u00e7as particulares \u2014 e a reduzi-lo a um devaneio son\u00e2mbulo, de homens em \u201cestado de sonho\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa antiga deforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, infelizmente, apenas um documento de desvios e horrores superados. \u00c9 atual a monstruosa deformidade de uma religi\u00e3o que \u2014 como a de \u00cdsis \u2014 prev\u00ea a serena salva\u00e7\u00e3o moral do homem e, em contrapartida, \u00e9 for\u00e7ada a se tornar um instrumento de abje\u00e7\u00e3o e morte.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">Artigo publicado em <em>Sigma<\/em>, n. 7, setembro de 1965.<br>imagem:  <em>Ship of fools<\/em>, Jane Lewis.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><br><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Eduardo Galeno<\/h2>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\">Tradutor<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Formado em Letras pela Universidade Estadual do Piau\u00ed e estuda ret\u00f3rica, po\u00e9tica e semi\u00f3tica<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n<div class=\"speaker-mute footnotes_reference_container\"> <div class=\"footnote_container_prepare\"><p><span role=\"button\" tabindex=\"0\" class=\"footnote_reference_container_label pointer\" onclick=\"footnote_expand_collapse_reference_container_4929_1();\">&#x202F;<\/span><span role=\"button\" tabindex=\"0\" class=\"footnote_reference_container_collapse_button\" style=\"display: none;\" onclick=\"footnote_expand_collapse_reference_container_4929_1();\">[<a id=\"footnote_reference_container_collapse_button_4929_1\">+<\/a>]<\/span><\/p><\/div> <div id=\"footnote_references_container_4929_1\" style=\"\"><table class=\"footnotes_table footnote-reference-container\"><caption class=\"accessibility\">References<\/caption> <tbody> \r\n\r\n<tr class=\"footnotes_plugin_reference_row\"> <th scope=\"row\" id=\"footnote_plugin_reference_4929_1_1\" class=\"footnote_plugin_index pointer\" onclick=\"footnote_moveToAnchor_4929_1('footnote_plugin_tooltip_4929_1_1');\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" class=\"footnote_plugin_link\" ><span class=\"footnote_index_arrow\">&#8593;<\/span>1<\/a><\/th> <td class=\"footnote_plugin_text\"><em>Logos<\/em>. O sentido que Jesi d\u00e1 \u00e0 palavra \u00e9 diferente da filosofia grega e da teologia crist\u00e3, apesar de ambas terem possibilidade de rela\u00e7\u00e3o. Tem mais a ver com uma estrutura\u00e7\u00e3o discursiva e compartilhada antropologicamente, interpreta\u00e7\u00e3o mais moderna.<\/td><\/tr>\r\n\r\n<tr class=\"footnotes_plugin_reference_row\"> <th scope=\"row\" id=\"footnote_plugin_reference_4929_1_2\" class=\"footnote_plugin_index pointer\" onclick=\"footnote_moveToAnchor_4929_1('footnote_plugin_tooltip_4929_1_2');\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" class=\"footnote_plugin_link\" ><span class=\"footnote_index_arrow\">&#8593;<\/span>2<\/a><\/th> <td class=\"footnote_plugin_text\">O <em>mito feminino<\/em> remonta provavelmente ao matriarcado que Bachofen teorizou. Jesi espelha a cultura de massa na tecnifica\u00e7\u00e3o e o modelo ginecol\u00f3gico de comunidade no Renascimento.\u00a0<\/td><\/tr>\r\n\r\n<tr class=\"footnotes_plugin_reference_row\"> <th scope=\"row\" id=\"footnote_plugin_reference_4929_1_3\" class=\"footnote_plugin_index pointer\" onclick=\"footnote_moveToAnchor_4929_1('footnote_plugin_tooltip_4929_1_3');\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" class=\"footnote_plugin_link\" ><span class=\"footnote_index_arrow\">&#8593;<\/span>3<\/a><\/th> <td class=\"footnote_plugin_text\"><em>Jeder Engel ist schrecklich<\/em>. Todo Anjo \u00e9 terr\u00edvel, diz a primeira elegia, porque \u00e9 Belo.\u00a0<\/td><\/tr>\r\n\r\n<tr class=\"footnotes_plugin_reference_row\"> <th scope=\"row\" id=\"footnote_plugin_reference_4929_1_4\" class=\"footnote_plugin_index pointer\" onclick=\"footnote_moveToAnchor_4929_1('footnote_plugin_tooltip_4929_1_4');\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" class=\"footnote_plugin_link\" ><span class=\"footnote_index_arrow\">&#8593;<\/span>4<\/a><\/th> <td class=\"footnote_plugin_text\">N\u00e3o sendo conservador, Pasolini talvez tenha feito o melhor projeto para uma revolu\u00e7\u00e3o ao estilo do texto. Dentro do conjunto da arte do cinema, grande parte dos seus filmes aponta para forma\u00e7\u00f5es semi\u00f3ticas pr\u00e9-industriais, como nas mitologias tr\u00e1gicas de \u00c9dipo e Medeia, al\u00e9m dos contos de Boccaccio e Chaucer e dos contradit\u00f3rios Sade, o aristocrata libertino, e o ap\u00f3stolo Mateus, o Evangelista.<\/td><\/tr>\r\n\r\n <\/tbody> <\/table> <\/div><\/div><script type=\"text\/javascript\"> function footnote_expand_reference_container_4929_1() { jQuery('#footnote_references_container_4929_1').show(); jQuery('#footnote_reference_container_collapse_button_4929_1').text('\u2212'); } function footnote_collapse_reference_container_4929_1() { jQuery('#footnote_references_container_4929_1').hide(); jQuery('#footnote_reference_container_collapse_button_4929_1').text('+'); } function footnote_expand_collapse_reference_container_4929_1() { if (jQuery('#footnote_references_container_4929_1').is(':hidden')) { footnote_expand_reference_container_4929_1(); } else { footnote_collapse_reference_container_4929_1(); } } function footnote_moveToReference_4929_1(p_str_TargetID) { footnote_expand_reference_container_4929_1(); var l_obj_Target = jQuery('#' + p_str_TargetID); if (l_obj_Target.length) { jQuery( 'html, body' ).delay( 0 ); jQuery('html, body').animate({ scrollTop: l_obj_Target.offset().top - window.innerHeight * 0.2 }, 380); } } function footnote_moveToAnchor_4929_1(p_str_TargetID) { footnote_expand_reference_container_4929_1(); var l_obj_Target = jQuery('#' + p_str_TargetID); if (l_obj_Target.length) { jQuery( 'html, body' ).delay( 0 ); jQuery('html, body').animate({ scrollTop: l_obj_Target.offset().top - window.innerHeight * 0.2 }, 380); } }<\/script>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A K\u00e1roly Ker\u00e9nyi com respeitosa amizade Aceitar na vida as manifesta\u00e7\u00f5es do mito genu\u00edno significa, em rigor, adotar uma postura irracionalista. Mas, desde que o mito seja genu\u00edno, n\u00e3o tecnificado com determinados fins nem deformado por quem projeta nele as pr\u00f3prias doen\u00e7as ou culpas, essa postura pode ser definida com as palavras usadas por 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