{"id":4869,"date":"2026-09-03T04:26:04","date_gmt":"2026-09-03T04:26:04","guid":{"rendered":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/?p=4869"},"modified":"2026-09-03T04:26:07","modified_gmt":"2026-09-03T04:26:07","slug":"o-fim-da-politica-uma-introducao-marcos-barreira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2026\/09\/03\/o-fim-da-politica-uma-introducao-marcos-barreira\/","title":{"rendered":"O fim da Pol\u00edtica: uma introdu\u00e7\u00e3o \u2014 Marcos Barreira"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>I<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise da \u201cforma pol\u00edtica\u201d \u00e9 uma parte essencial da cr\u00edtica do valor (<em>Wertkritik<\/em>). Para Robert Kurz, \u201cpol\u00edtica\u201d e \u201ceconomia\u201d s\u00e3o formas espec\u00edficas da modernidade capitalista e n\u00e3o categorias universais. Elas n\u00e3o existiam nas sociedades pr\u00e9-modernas, pois a socializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se encontrava diferenciada em esferas separadas. A an\u00e1lise dessa diferencia\u00e7\u00e3o permite apreender tanto a especificidade hist\u00f3rica do capitalismo quanto a din\u00e2mica de seu desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em <em>O fim da pol\u00edtica<\/em><strong>.<\/strong> <em>Teses sobre a crise do sistema de regula\u00e7\u00e3o da forma da mercadoria<\/em>, Kurz prop\u00f5e uma an\u00e1lise categorial da rela\u00e7\u00e3o entre mercado e Estado, economia e pol\u00edtica, entendendo a esfera pol\u00edtica n\u00e3o como dom\u00ednio aut\u00f4nomo ou uma dimens\u00e3o ontol\u00f3gica que constitui todas as sociedades, mas como um produto da cis\u00e3o estrutural da sociedade produtora de mercadorias, na qual o todo social se organiza em esferas funcionais aparentemente independentes. Essa diferencia\u00e7\u00e3o interna da totalidade social \u00e9 produto de uma automedia\u00e7\u00e3o antag\u00f4nica da pr\u00f3pria sociedade capitalista<strong>:<\/strong> o todo aparece como uma esfera econ\u00f4mica funcional (o mercado) que precisa se relacionar com uma dimens\u00e3o exteriorizada de si mesmo, a pol\u00edtica, historicamente respons\u00e1vel pela imposi\u00e7\u00e3o dessa ordem social e pela regula\u00e7\u00e3o dos conflitos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Kurz contrap\u00f5e essa configura\u00e7\u00e3o moderna \u00e0s antigas sociedades agr\u00e1rias, nas quais n\u00e3o havia diferencia\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica e economia, pois essas esferas apenas se constituem como tais na modernidade. Nessas forma\u00e7\u00f5es, o processo social era orientado por formas fetichistas atravessadas pelo sagrado, pelo costume e por rela\u00e7\u00f5es de dom\u00ednio mais imediatas. Na modernidade, ao contr\u00e1rio, a universalidade abstrata da forma-mercadoria estrutura o conjunto da vida social, produzindo uma socializa\u00e7\u00e3o indireta por meio do mercado. Essa media\u00e7\u00e3o torna o nexo social paradoxalmente \u201cinsoci\u00e1vel\u201d, pois as rela\u00e7\u00f5es diretas entre indiv\u00edduos se tornam secund\u00e1rias, e a pol\u00edtica emerge como resposta a uma car\u00eancia regulativa gerada pela autonomiza\u00e7\u00e3o da esfera econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No interior da forma social moderna, Kurz identifica dois tipos fundamentais de antagonismo: o antagonismo interno entre as esferas pol\u00edtica e econ\u00f4mica (estatismo em oposi\u00e7\u00e3o ao mercado) e o antagonismo hist\u00f3rico entre o sistema capitalista moderno e as formas sociais pr\u00e9-modernas. A hist\u00f3ria da modernidade \u00e9, assim, uma hist\u00f3ria daelimina\u00e7\u00e3o progressiva dos resqu\u00edcios pr\u00e9-modernos at\u00e9 se constituir umatotalidade sob a forma da mercadoria. Nesse processo, o polo pol\u00edtico-estatal foi continuamente refor\u00e7ado, n\u00e3o apenas como elemento imanente do sistema, mas tamb\u00e9m como o lugar em que se explicitavam as contradi\u00e7\u00f5es entre a din\u00e2mica capitalista e as formas sociais pr\u00e9-existentes, especialmente no contexto das revolu\u00e7\u00f5es burguesas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esse papel hist\u00f3rico da pol\u00edtica no processo de afirma\u00e7\u00e3o do capitalismo produziu uma invers\u00e3o ideol\u00f3gica: embora estruturalmente secund\u00e1ria, a pol\u00edtica foi percebida como esfera prim\u00e1ria na consci\u00eancia dos agentes sociais, ao passo que as categorias econ\u00f4micas afirmadas eram definidas como socialmente neutras. Os conflitos sociais passaram a ser formulados predominantemente em termos pol\u00edticos, e a pr\u00f3pria luta em torno da imposi\u00e7\u00e3o da socializa\u00e7\u00e3o capitalista ou da defesa das antigas rela\u00e7\u00f5es se deu no interior das formas de media\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Do ponto de vista ideol\u00f3gico, a direita, em diferentes contextos, lutou pela preserva\u00e7\u00e3o de antigos elementos estamentais ou assumiu, sob a forma do liberalismo, uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica paradoxalmente \u201cantiestatal\u201d<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, enquanto a esquerda se orientava para a \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d e para formas variadas de regula\u00e7\u00e3o da sociedade pelo Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O polo pol\u00edtico-estatal \u00e9 um complemento estrutural do mercado. A pol\u00edtica atuou ao mesmo tempo como momento da imposi\u00e7\u00e3o da socializa\u00e7\u00e3o capitalista indireta e como inst\u00e2ncia de administra\u00e7\u00e3o de suas contradi\u00e7\u00f5es internas. Como um produto da divis\u00e3o constitutiva no interior da totalidade na forma-mercadoria, ela \u00e9 uma exterioriza\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria ao funcionamento do sistema do capital.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">II<\/h2>\n\n\n\n<p>At\u00e9 a metade do s\u00e9culo XX, o fordismo levou a termo a din\u00e2mica iniciada pelo regime fabril do s\u00e9culo XIX, fazendo com que a l\u00f3gica do dinheiro e da mercadoria se tornasse mais abrangente. Os \u00faltimos vest\u00edgios dos setores e formas de vida pr\u00e9-modernos foram&nbsp; definitivamente destru\u00eddos e o capitalismo tornou-se, pela primeira vez, id\u00eantico a si mesmo como totalidade social. No modo de vida fordista, baseado no consumo de massa e na democracia de massa, a mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos grandes sujeitos coletivos tornou-se disfuncional. Esse per\u00edodo foi marcado pelo desaparecimento progressivo das identidades coletivas dos primeiros est\u00e1gios da moderniza\u00e7\u00e3o e pelo advento da individualiza\u00e7\u00e3o. Uma vez que j\u00e1 n\u00e3o se tratava de impor a nova forma das rela\u00e7\u00f5es contra antigas estruturas sociais, o antagonismo estrutural do sistema produtor de mercadorias entre \u201cEstado\u201d e \u201cmercado\u201d pode aparecer diretamente como conflito central. Consolidou-se, por meio da democratiza\u00e7\u00e3o e do Estado social, um processo de <em>desideologiza\u00e7\u00e3o <\/em>e <em>despolitiza\u00e7\u00e3o<\/em> das sociedades capitalistas avan\u00e7adas. Nesse contexto, teve in\u00edcio a \u201ceconomiciza\u00e7\u00e3o\u201d da pr\u00f3pria pol\u00edtica: conflitos e decis\u00f5es passaram a ser cada vez mais definidos por crit\u00e9rios econ\u00f4micos (crescimento, postos de trabalho etc.), enquanto os antagonismos ideol\u00f3gicos tradicionais se esvaziavam e a pol\u00edtica mostrava seu car\u00e1ter secund\u00e1rio e dependente da esfera econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com o aprofundamento da crise capitalista, a partir da d\u00e9cada de 1970, a pol\u00edtica revelou n\u00e3o apenas sua falta de autonomia frente \u00e0 din\u00e2mica do capital, mas tamb\u00e9m uma perda da capacidade de regula\u00e7\u00e3o. O campo da interven\u00e7\u00e3o estatal perdeu terreno rapidamente para a onda de desregula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Kurz argumenta que, no p\u00f3s-fordismo, a esfera pol\u00edtica j\u00e1 n\u00e3o pode lidar com os campos decisivos da reprodu\u00e7\u00e3o social: crise do trabalho, crise ecologia, crise do Estado-na\u00e7\u00e3o e das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero. Esse esgotamento da capacidade de interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 contingente nem resulta de erros de gest\u00e3o, mas deriva da depend\u00eancia estrutural da pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma do dinheirono mercado. Por isso, a crise da pol\u00edtica p\u00f4de aparecer como crise dos pr\u00f3prios sujeitos pol\u00edticos modernos: o Estado-na\u00e7\u00e3o, no plano da concorr\u00eancia global, e o partido, no plano interno.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; A globaliza\u00e7\u00e3o dos mercados e da produ\u00e7\u00e3o, a partir dos anos 1980, rompeu o quadro de coes\u00e3o interna das economias nacionais. Os Estados n\u00e3o exercem mais um controle efetivo sobre a din\u00e2mica do sistema, sendo for\u00e7ados a se adaptar permanentemente \u00e0s for\u00e7as do mercado mundial. A pr\u00f3pria ideia de \u201ceconomia nacional\u201d perdeu seus fundamentos: importa\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de mercadorias e de capital, que aparecem formalmente como trocas entre pa\u00edses, s\u00e3o nacionais apenas na apar\u00eancia, pois na realidade expressam o movimento de um capital total que se globaliza diretamente. Essas cadeias transnacionais de produ\u00e7\u00e3o, no entanto, apoiam-se em uma economia de bolhas financeiras que s\u00f3 pode funcionar fora do quadro de refer\u00eancia nacional. A perda dos instrumentos estatais de regula\u00e7\u00e3o manifesta-se, assim, tanto na desnacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o quanto na impot\u00eancia da pol\u00edtica diante dos fluxos de capital autonomizados, processos que a arrastam pelo curso cada vez mais inst\u00e1vel do capitalismo de crise global. Apesar disso, a polaridade entre economia e pol\u00edtica persiste, j\u00e1 que a economia transnacional n\u00e3o pode substituir fun\u00e7\u00f5es estatais como a cria\u00e7\u00e3o do dinheiro e a manuten\u00e7\u00e3o do poder militar \u2013 uma contradi\u00e7\u00e3o resolvida no p\u00f3s-guerra pela hegemonia dos EUA e que hoje se desdobra, com enorme potencial explosivo, como crise da moeda de refer\u00eancia mundial.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">III<\/h2>\n\n\n\n<p>Em <em>O fim da pol\u00edtica<\/em>, Kurz aborda n\u00e3o a supress\u00e3o da esfera estatal, mas o esgotamento hist\u00f3rico da promessa de autonomia da pol\u00edtica sobre os processos econ\u00f4micos. Esse esvaziamento da pol\u00edtica se traduz na redu\u00e7\u00e3o funcionalista do \u201cprocesso pol\u00edtico\u201d a uma administra\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia das crises cada vez mais frequentes e nas tend\u00eancias de simula\u00e7\u00e3o no debate pol\u00edtico e econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma vez que os antigos objetivos pol\u00edticos de desenvolvimento ou da democratiza\u00e7\u00e3o de massa no interior do sistema foram \u201crealizados\u201d, surge uma nova constela\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica no processo sist\u00eamico de automedia\u00e7\u00e3o. Desde os anos 1980, h\u00e1 um deslocamento geral da esfera pol\u00edtica para a direita, em que prevalece a \u00eanfase ideol\u00f3gica liberal-econ\u00f4mica. Abriu-se, assim, uma \u00e9poca de desmontagem social (inclusive no \u00e2mbito das pol\u00edticas ambientais) e de amplia\u00e7\u00e3o da pobreza em massa. Com isso, tornaram-se manifestos os aspectos diretamente insoci\u00e1veis do processo de valoriza\u00e7\u00e3o, que, durante a erade integra\u00e7\u00e3ofordista, ainda podiam ser politicamente amortecidos. Essa \u201cguinada \u00e0 direita\u201d n\u00e3o \u00e9 um simples deslocamento ideol\u00f3gico interno a um sistema est\u00e1vel, mas um efeito da desagrega\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio campo pol\u00edtico como momento da crise do sistema<strong>.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nessa nova constela\u00e7\u00e3o, as esquerdas ficaram reduzidas, em escala global, a uma posi\u00e7\u00e3o socialdemocrata<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, que corresponde ao contraponto pol\u00edtico-estatal no antagonismo b\u00e1sico e ideologicamente reduzido entre \u201ceconomia\u201d e \u201cpol\u00edtica\u201d. O intervencionismo estatal, por\u00e9m, j\u00e1 n\u00e3o constitui um programa coerente de reforma baseado na integra\u00e7\u00e3o social. As lutas por distribui\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses capitalistas centrais passaram a ser travadas unicamente em torno de diferen\u00e7as graduais no interior da forma do valor, da forma jur\u00eddica e da democracia de mercado plenamente desenvolvidas. Como essa \u201crealiza\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 tamb\u00e9m um esgotamento hist\u00f3rico da din\u00e2mica de integra\u00e7\u00e3o que alimentava a velha pol\u00edtica de reformas da socialdemocracia, a verdadeira tarefa da pol\u00edtica realista de esquerda pode ser apenas uma participa\u00e7\u00e3o na administra\u00e7\u00e3o da crise. Desde os anos 1990, a fun\u00e7\u00e3o sist\u00eamica da socialdemocracia, como parte do \u201cnovo centro\u201d, consiste basicamente em requentar a ideologia obsoleta do trabalho para organizar novos crit\u00e9rios de exclus\u00e3o social. A oposi\u00e7\u00e3o de esquerda encontra-se, assim, dividida: de um lado, um anticapitalismo desamparado; de outro, uma \u201crealpolitik\u201d sem as bases materiais necess\u00e1rias \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o de reformas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Enquanto os remanescentes da esquerda negam a realidade da crise sist\u00eamica, fixando-se na categoria da explora\u00e7\u00e3o (\u201co capital nunca explorou tanto\u201d) e propondo medidas fantasiosas de regula\u00e7\u00e3o, a cr\u00edtica do \u201csistema\u201d \u00e9 apropriada de forma populista e conspirat\u00f3ria pelos radicais de direita. A nova direita, j\u00e1 despida dos antigos trajes ideol\u00f3gicos da pol\u00edtica de massa, assumiu o ponto de vista do automovimento da economia, isto \u00e9, da concorr\u00eancia, contra a regula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O Estado deve ser usado unicamente para proteger as comunidades nacionais contra as ondas de imigrantes da crise global. Enquanto a pol\u00edtica sindical n\u00e3o prop\u00f5e nenhum melhoramento social, limitando-se a uma conten\u00e7\u00e3o de perdas para sua clientela, os radicais de direita aparecem como uma alternativa, especialmente para os jovens precarizados. Para Kurz, por\u00e9m, o populismo de direita, que ressurgiu na d\u00e9cada de 1990, n\u00e3o tem a for\u00e7a de s\u00edntese social para formar um projeto nacional coerente. Em vez disso, ele expressa a decomposi\u00e7\u00e3o da democracia de mercado em m\u00faltiplos planos interligados. Esse novo radicalismo \u201cp\u00f3s-pol\u00edtico\u201d apenas traduz a crise estrutural do trabalho, da pol\u00edtica, da subjetividade e da reprodu\u00e7\u00e3o social em pr\u00e1ticas de exclus\u00e3o, viol\u00eancia e regress\u00e3o cultural. Seu papel, portanto, n\u00e3o \u00e9 instaurar uma nova ordem, mas acompanhar e intensificar a passagem da crise sist\u00eamica para a barb\u00e1rie social.<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">IV<\/h2>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A simula\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de reformas pelos realistas e o novo apelo nacionalista superficial fazem parte de uma cultura da virtualidade e da simula\u00e7\u00e3o na qual as ideologias do processo de afirma\u00e7\u00e3o da modernidade s\u00e3o reeditadas uma ap\u00f3s a outra de modo quase arbitr\u00e1rio e sem qualquer resultado. Essa redu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica a uma encena\u00e7\u00e3o discursiva se estende tamb\u00e9m para o plano da identidade pessoal e das rela\u00e7\u00f5es interpessoais. A base material da cultura da simula\u00e7\u00e3o \u00e9 a crise da valoriza\u00e7\u00e3o capitalista. Isso naturalmente fez com que n\u00e3o apenas a esfera pol\u00edtica e cultural-simb\u00f3lica, mas a pr\u00f3pria economia entrasse na era da simula\u00e7\u00e3o. Tanto as economias j\u00e1 arruinadas quanto os pa\u00edses vencedores no mercado mundial precisam prolongar a sua reprodu\u00e7\u00e3o com base na forma da mercadoria atrav\u00e9s do crescimento financeiramente induzido.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com a Terceira Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, a base de trabalho vivo na produ\u00e7\u00e3o foi progressivamente erodida, ao mesmo tempo em que se expandiam os custos pr\u00e9vios de investimento assentados nas novas for\u00e7as produtivas. A contra\u00e7\u00e3o absoluta da massa de mais-valia global levou a reprodu\u00e7\u00e3o capitalista a depender cada vez mais do \u201ccapital fict\u00edcio\u201d, sob a forma da especula\u00e7\u00e3o comercial e do cr\u00e9dito governamental. De inicio, essa tend\u00eancia estava associada ao desencadeamento das \u201cfor\u00e7as de mercado\u201d. O resultado n\u00e3o foi uma nova era de prosperidade global e sim uma economia de bolhas, do \u201cmilagre japon\u00eas\u201d nos anos 1980 ao boom global das mat\u00e9rias-primas, passando pela bolha \u201cDotcom\u201d da \u201cNova Economia\u201d e a bolha imobili\u00e1ria nos EUA \u2013 e, mais recentemente, na China. Se antes a economia de bolhas surgia como um efeito colateral do crescimento e da acumula\u00e7\u00e3o real, agora \u00e9 o crescimento econ\u00f4mico que se encontra subordinado desde o in\u00edcio ao boom especulativo.<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ap\u00f3s a crise de 2008, no entanto, ocorreu uma mudan\u00e7a fundamental. Para retomar os n\u00edveis de investimento foi necess\u00e1ria uma ampla interven\u00e7\u00e3o dos bancos centrais, que Kurz descreveu como um paradoxal \u201ckeynesianismo neoliberal\u201d. Isso ocorreu inicialmente como um programa de socializa\u00e7\u00e3o das perdas financeiras. Em seguida, foram implementadas modifica\u00e7\u00f5es nas normas de contabilidade bancaria que, de um lado, obrigam os bancos a provisionar perdas esperadas; de outro, esses mesmos bancos t\u00eam de aceitar t\u00edtulos financeiros cada vez mais duvidosos como \u201cgarantia\u201d. No lugar das bolhas privadas alimentadas pelos sucessivos portadores de esperan\u00e7a, imp\u00f4s-se o papel central do cr\u00e9dito estatal e da emiss\u00e3o monet\u00e1ria em larga escala.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A pol\u00edtica fracassada de privatiza\u00e7\u00e3o e desregulamenta\u00e7\u00e3o das d\u00e9cadas de 1980 e 1990 deu lugar, assim, ao retorno da regula\u00e7\u00e3o estatal. As inje\u00e7\u00f5es de liquidez dos bancos centrais deixam de ter car\u00e1ter apenas conjuntural ou emergencial para tornarem-se mecanismos permanentes de est\u00edmulo econ\u00f4mico. Por meio dessa bolha de liquidez de magnitude in\u00e9dita, os Estados, j\u00e1 amplamente deficit\u00e1rios, tentam postergar a pr\u00f3xima irrup\u00e7\u00e3o da crise. Essa retomada do investimento estatal maci\u00e7o e das estatiza\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias, por\u00e9m, n\u00e3o pode ser vista como um regresso \u00e0 pol\u00edtica dos anos 1970. Na verdade, ela constitui apenas uma continua\u00e7\u00e3o do neoliberalismo por outros meios. A pol\u00edtica neoliberal, segundo Kurz, n\u00e3o foi um simples erro, mas uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 crise da valoriza\u00e7\u00e3o, que se manifestou inicialmente como crise fiscal do Estado. Em seguida, os problemas estruturais da valoriza\u00e7\u00e3o se deslocam da esfera p\u00fablica para a esfera privada agora se combinam em novas fugas para frente. Sinais de uma segunda onda da crise global j\u00e1 se manifestaram na forma de uma crise das finan\u00e7as p\u00fablicas na zona do euro e da bolha imobili\u00e1ria chinesa formada ap\u00f3s 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com a retomada do investimento p\u00fablico, o problema foi apenas estatizado e adiado pela expans\u00e3o do cr\u00e9dito, n\u00e3o superado. A reativa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria da centralidade estatal j\u00e1 havia sido antecipada por Kurz, em 1991, no auge das reformas neoliberais: \u201cem oposi\u00e7\u00e3o total \u00e0 ideologia e expectativa hoje predominante, a crise provocar\u00e1 tamb\u00e9m no Ocidente um novo salto hist\u00f3rico, do polo monetarista ao estatista. S\u00f3 que dessa vez n\u00e3o como outro surto de moderniza\u00e7\u00e3o, mas sim como progressiva administra\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia estatista do sistema global em colapso\u201d.<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Isso significa que a nova centralidade do Estado, como \u201c\u00faltima inst\u00e2ncia\u201d da administra\u00e7\u00e3o da crise, n\u00e3o abre caminho para pol\u00edticas sociais expansivas. Ao contr\u00e1rio, a intensifica\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia \u00e9 marcada pela continuidade \u2013 e, em muitos casos, pelo aprofundamento &#8211; da l\u00f3gica da austeridade. Essa tend\u00eancia manifesta-se quase simultaneamente em todos os pa\u00edses, inclusive na periferia capitalista, ainda que assuma configura\u00e7\u00f5es distintas conforme o contexto. Assim, n\u00e3o se trata de algo que possa ser explicado apenas pela vontade pol\u00edtica ou por estrat\u00e9gias empresariais, e sim de uma din\u00e2mica estrutural pr\u00f3pria \u00e0 fase atual da economia mundial, que aponta para a consolida\u00e7\u00e3o de um regime permanente de gest\u00e3o repressiva da crise sist\u00eamica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">V<\/h2>\n\n\n\n<p>Se a pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 parte da \u201ccondi\u00e7\u00e3o humana\u201d, nem constitui o espa\u00e7o da emancipa\u00e7\u00e3o social, e se o conflito pol\u00edtico \u00e9 a forma espec\u00edfica do conflito na modernidade capitalista, tanto no interior das sociedades quanto entre elas, ent\u00e3o a pol\u00edtica s\u00f3 \u00e9 necess\u00e1ria enquanto o capitalismo existir &#8211; e, justamente por isso, \u00e9 incapaz de super\u00e1-lo. A pol\u00edtica \u00e9 a forma fetichista de media\u00e7\u00e3o dos interesses pr\u00f3pria de uma totalidade social desdobrada em esferas sociais autonomizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nos embates ideol\u00f3gicos do s\u00e9culo XX, essa divis\u00e3o da totalidade social se manifestou de forma inconsciente entre o determinismo econ\u00f4mico e a afirma\u00e7\u00e3o da vontade pol\u00edtica. Nesse sentido, a cr\u00edtica ao economismo e ao primado da pol\u00edtica desenvolvida por Kurz, como parte da constitui\u00e7\u00e3o fetichista da modernidade, revela o nexo interno entre duas posi\u00e7\u00f5es apenas superficialmente opostas. O \u201ceconomicismo\u201d ignora a forma pol\u00edtica como momento da automedia\u00e7\u00e3o capitalista; o \u201cpoliticismo\u201d, por sua vez, absolutiza essa esfera derivada, convertendo-a em demiurgo da vida social, que estaria para al\u00e9m da sua pr\u00f3pria forma de mercadoria. Enquanto a primeira posi\u00e7\u00e3o tornou-se amplamente desacreditada na esquerda, tendo sido assumida basicamente pela ret\u00f3rica neoliberal, a segunda ainda desfruta de prest\u00edgio intelectual, embora n\u00e3o seja mais do que uma simples redu\u00e7\u00e3o da forma social da mercadoria \u00e0 esfera funcional da \u201ceconomia\u201d. A socializa\u00e7\u00e3o pelo valor \u00e9 constitu\u00edda pela rela\u00e7\u00e3o de divis\u00e3o estrutural entre economia e pol\u00edtica.<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Ao transformar essa oposi\u00e7\u00e3o interna entre as duas esferas em uma rela\u00e7\u00e3o externa de determina\u00e7\u00e3o, perde-se de vista seu fundamento comum na forma social fetichista e sua din\u00e2mica de exterioriza\u00e7\u00e3o e automedia\u00e7\u00e3o. Isso se aplica em primeiro lugar \u00e0 tentativa de derivar a esfera pol\u00edtica e os fen\u00f4menos sociais em geral diretamente da \u201ceconomia\u201d, mas tamb\u00e9m \u00e0 vis\u00e3o segundo a qual as categorias de base da socializa\u00e7\u00e3o capitalista podem ser livremente moldadas pela vontade pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Do ponto de vista da cr\u00edtica do valor, a pol\u00edtica \u00e9 estruturalmente incapaz de responder \u00e0 crise do sistema produtor de mercadorias. N\u00e3o se trata de um d\u00e9ficit de decis\u00e3o pol\u00edtica ou de um programa incorreto, mas de uma impossibilidade l\u00f3gica: a supera\u00e7\u00e3o da crise exigiria a supera\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio sistema, inclusive de sua esfera pol\u00edtica &#8211; algo que, por defini\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode ser formulado em termos pol\u00edticos. Por outro lado, as pessoas, sob o capitalismo, n\u00e3o t\u00eam como ignorar a esfera pol\u00edtica.<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Tal rela\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria implica uma tens\u00e3o crescente entre reivindica\u00e7\u00f5es imanentes dirigidas ao Estado e a necessidade de ruptura com a esfera pol\u00edtica, que absorve a oposi\u00e7\u00e3o social no interior do funcionamento sist\u00eamico e hoje se apresenta como simples administra\u00e7\u00e3o da crise. Ir al\u00e9m da socializa\u00e7\u00e3o capitalista exige, assim, pensar e ensaiar formas aut\u00f4nomas de reprodu\u00e7\u00e3o social, para al\u00e9m do mercado e do Estado.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns has-theme-palette-9-background-color has-background is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-61ecc280 wp-block-columns-is-layout-flex\" style=\"padding-top:2.5rem;padding-right:2.5rem;padding-bottom:2.5rem;padding-left:2.5rem\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:25%\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:75%\">\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Marcos Barreira<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-theme-palette-3-color has-text-color has-link-color wp-elements-da6e388022481457186f8457022db24b\">\u00e9 doutor em Psicologia Social pela UERJ e co-autor do livro No Rastro do Colapso com Maur\u00edlio Botelho, Consequ\u00eancia Editora, 2024. Tradutor e editor da edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas do site Krisis<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-theme-palette-3-color has-text-color has-link-color wp-element-button\">Autor<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Na primeira metade do s\u00e9culo XX, essa posi\u00e7\u00e3o \u201cantiestatal\u201d no campo da direita foi provisoriamente ofuscada pelas ideologias nacionalistas e fascistas durante o processo de \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o recuperadora\u201d em pa\u00edses retardat\u00e1rios na industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> O desaparecimento quase total da oposi\u00e7\u00e3o radical, segundo Kurz, n\u00e3o pode ser atribu\u00eddo simplesmente a \u201ct\u00e1ticas\u201d equivocadas. A antiga oposi\u00e7\u00e3o comunista e sindicalista expressava um ponto de vista de classe vinculado \u00e0s velhas forma\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias. Contudo, os processos de assalariamento generalizado, individualiza\u00e7\u00e3o e democratiza\u00e7\u00e3o corroeram a base social dessas ideologias, deixando seus representantes sem media\u00e7\u00e3o social. Permaneceram, por assim dizer, fixados de modo fantasmag\u00f3rico em est\u00e1gios j\u00e1 superados do desenvolvimento capitalista, incapazes de apreender as transforma\u00e7\u00f5es estruturais das \u00faltimas d\u00e9cadas e de redefinir o horizonte socialista para al\u00e9m de seu antigo ponto de vista.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Robert Kurz, <em>A democracia devora seus filhos<\/em>, Rio de Janeiro, Consequ\u00eancia, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:17px\"><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Isso diz respeito tamb\u00e9m ao forte crescimento chin\u00eas nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas. Sem o \u201cmilagre do consumo\u201d endividado nos EUA, n\u00e3o haveria o boom recente de exporta\u00e7\u00e3o nas economias emergentes, que, de um lado, impulsionou as exporta\u00e7\u00f5es em pa\u00edses perif\u00e9ricos e, de outro, se integrou com a economia norte-americana no que Kurz chamou de \u201ccircuito deficit\u00e1rio do Pac\u00edfico\u201d. Para uma s\u00edntese do processo de ascens\u00e3o econ\u00f4mica asi\u00e1tica a partir da teoria da crise da cr\u00edtica do valor, ver Le \u201ccapitalisme asiatique\u201d et la crise mondiale, Marcos Barreira &amp; Maurilio Lima Botelho, Jaggernaut n\u00b04.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Robert Kurz, <em>O colapso da moderniza\u00e7\u00e3o<\/em>, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1992, p.204.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Em <em>O fim da pol\u00edtica<\/em>,Kurz distingue entre uma divis\u00e3o ou clivagem (<em>Aufspaltung<\/em>) no interior da totalidade social em esferas separadas e o processo de cis\u00e3o (<em>Abspaltung<\/em>) com base nas rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, que constitui a pr\u00f3pria totalidade de forma fragmentada. Ele diferencia, assim, a esfera econ\u00f4mica privada &#8211; que, juntamente com a esfera p\u00fablica, comp\u00f5e a estrutura \u201cmasculina\u201d interna da socializa\u00e7\u00e3o pelo valor &#8211; da esfera privada no sentido da cis\u00e3o, isto \u00e9, do contexto \u201cdesvalorizado\u201d e exteriorizado da reprodu\u00e7\u00e3o social conotado como \u201cfeminino\u201d. Devido a essa constitui\u00e7\u00e3o da totalidade social, a crise simult\u00e2nea das esferas p\u00fablica e privada no interior da rela\u00e7\u00e3o de valor assume tamb\u00e9m a forma de uma crise fundamental das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Este tema n\u00e3o ser\u00e1 desenvolvido aqui. Algumas sugest\u00f5es sobre a rela\u00e7\u00e3o de media\u00e7\u00e3o entre cr\u00edtica te\u00f3rica, forma pol\u00edtica e movimentos sociais pode ser encontrada no ensaio de Robert Kurz, \u201cA derrocada do realismo\u201d, em <em>A democracia devora seus filhos<\/em>, Rio de Janeiro, Consequ\u00eancia, 2020.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I A an\u00e1lise da \u201cforma pol\u00edtica\u201d \u00e9 uma parte essencial da cr\u00edtica do valor (Wertkritik). Para Robert Kurz, \u201cpol\u00edtica\u201d e \u201ceconomia\u201d s\u00e3o formas espec\u00edficas da modernidade capitalista e n\u00e3o categorias universais. Elas n\u00e3o existiam nas sociedades pr\u00e9-modernas, pois a socializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se encontrava diferenciada em esferas separadas. 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