{"id":4470,"date":"2026-02-11T00:53:54","date_gmt":"2026-02-11T00:53:54","guid":{"rendered":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/?p=4470"},"modified":"2026-02-12T19:40:03","modified_gmt":"2026-02-12T19:40:03","slug":"uma-conversa-sobre-o-discurso-filosofico-da-acumulacao-primitiva-de-pedro-rocha-de-oliveira-natalia-rodrigues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2026\/02\/11\/uma-conversa-sobre-o-discurso-filosofico-da-acumulacao-primitiva-de-pedro-rocha-de-oliveira-natalia-rodrigues\/","title":{"rendered":"Uma conversa sobre o &#8220;Discurso filos\u00f3fico da acumula\u00e7\u00e3o primitiva&#8221;, de Pedro Rocha de Oliveira \u2014 Natalia Rodrigues"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"> <strong><em>Os coment\u00e1rios a seguir foram feitos durante o debate de lan\u00e7amento do livro, ocorrido em 20 de maio na UERJ. Como debatedora, optei por concentrar-me no posf\u00e1cio, As raz\u00f5es do negacionismo: guerra civil e imagin\u00e1rio pol\u00edtico moderno, afinal, \u00e9 nele que o autor conduz o horror que atravessa a alvorada da modernidade capitalista at\u00e9 os dias infernais de hoje. Este texto \u00e9 um adento a uma resenha feita outrora. Dispon\u00edvel em &lt; <a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/discurso-filosofico-da-acumulacao-primitiva\/\">Discurso filos\u00f3fico da acumula\u00e7\u00e3o primitiva &#8211;<\/a> &gt;<\/em><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA expans\u00e3o capitalista aguardou os intelectuais na curva\u201d. \u00c9 assim que Chico de Oliveira, em seu impressionante ensaio de 1985, <em>Aves de Arriba\u00e7\u00e3o: a migra\u00e7\u00e3o dos intelectuais<\/em>, chama aten\u00e7\u00e3o para esse setor da classe m\u00e9dia brasileira que tanto se beneficiou desde o processo de Abertura. Em compara\u00e7\u00e3o com a m\u00e9dia dos trabalhadores, tiveram seus sal\u00e1rios aumentados, subiram de status, passaram a escrever nos principais jornais, sendo considerados inclusive \u201cor\u00e1culos\u201d do que se passa no tempo do mundo. Pelo consumo e pelo modo de vida, essa gente muito sabida passou a aproximar-se muito mais das burguesias \u2014 com a diferen\u00e7a essencial de que s\u00e3o muito mais requintados: n\u00e3o viajam em excurs\u00f5es, distinguem o bom do mau vinho, falam outras l\u00ednguas, t\u00eam algum conhecimento da cultura de outros povos e, ao mesmo tempo, consomem os produtos em alta no mercado \u2014 mas tudo discretamente, discretamente\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;O que me parece interessante nesta descri\u00e7\u00e3o de Chico \u00e9 justamente o fato de ele apontar com muita lucidez \u2014 porque nesta quadra da vida nacional brasileira \u2014 como grande parte dos intelectuais passou a elevar suas demandas espec\u00edficas ao n\u00edvel de demandas gerais da sociedade, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Ora, o que o soci\u00f3logo est\u00e1 tensionando \u00e9 justamente o assombrosamente moderno e contempor\u00e2neo \u201cn\u00f3s\u201d que Pedro traz \u00e0 tona em mais um de seus estudos sobre a acumula\u00e7\u00e3o primitiva. Isto \u00e9, essa liga entre os interesses dos intelectuais \u2014 ou dos progressistas, se quisermos \u2014 e os das pessoas realmente comuns. Digamos que esse enla\u00e7amento, embora n\u00e3o seja coisa inventada nem exclusivamente nossa, tem sim sua contribui\u00e7\u00e3o local \u2014 se \u00e9 que se pode falar assim \u2014 neste c\u00edrculo infernal de cinismo e viol\u00eancia de classe que remete, na verdade, aos tempos de Francis Bacon, Thomas More e Thomas Smith, te\u00f3ricos-pontes da alvorada da modernidade, e que seguem, sem que notemos, arrancando suspiros dos progressistas de ontem e de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, mas em que sentido? Fiquemos primeiro na forma como tais letrados muito bem-intencionados pensam conceitos chaves como<em>rep\u00fablica\/sociedad<\/em>e ou mesmo<em>sociedade civil. <\/em>A partir deles, os autores costuram um \u201ccomum\u201d an\u00e1logo ao sentido instaurado anos depois com o Terceiro Estado, durante a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, onde \u201c\u00e9 comum qualquer um que n\u00e3o seja nobre nem cl\u00e9rigo\u201d.<a id=\"_ftnref2\" href=\"#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Acontece que esse gesto dos te\u00f3ricos de incluir tanta gente em um s\u00f3 balaio conceitual findava abarcando as oligarquias citadinas, a pequena nobreza letrada, os terratenentes n\u00e3o-nobres, entre outros homens propriet\u00e1rios interessad\u00edssimos na ascens\u00e3o do capitalismo e, evidentemente, na parte que cabia a eles no grande latif\u00fandio que se tornavam as terras. Fazendo estas distin\u00e7\u00f5es de classe, o que Pedro nos faz ver \u00e9 o sentido hist\u00f3rico recalcado sobre por tr\u00e1s destas ideias de \u201crep\u00fablica\u201d ou \u201csociedade civil\u201d que, na real, surgia para extirpar qualquer simpatia para com as experi\u00eancias sociais pr\u00e9-modernas, dentre elas: a lida direta com a terra, a satisfa\u00e7\u00e3o imediata das necessidades e claro, as maneiras de se vestir, de se comportar e de se falar.<\/p>\n\n\n\n<p>Haveria toda uma higieniza\u00e7\u00e3o a ser feita para que o reino de <em>Utopia<\/em>, para ficarmos talvez no melhor exemplo do livro, pudesse ser alcan\u00e7ado. Mas higieniza\u00e7\u00e3o contra quem? Ele mesmo, o povo embrutecido, tosco, vulgar, brucutu, grosseiro, rude, jumento, abestado, seboso, sujismundo \u2013 todos os despossu\u00eddos produzidos na viol\u00eancia da acumula\u00e7\u00e3o de capital, e que s\u00f3 muda de nome a depender da regi\u00e3o. Neste ponto, a discuss\u00e3o que o autor traz sobre a literatura realizada nesta \u00e9poca e que nos enche os olhos at\u00e9 hoje como \u00e9 o caso de Boccaccio e a de Shakespeare, \u00e9 interessant\u00edssima; depois, se Pedro quiser comentar, ficaria grata. Mas voltando \u00e0s formas de nomea\u00e7\u00e3o da gente comum, poder\u00edamos lembrar ainda da implica\u00e7\u00e3o que essa gente tem e aqui cito o autor no \u201cdescompasso moderno concreto, objetivo, entre as verdades cient\u00edficas estabelecidas e as pr\u00e1ticas de assist\u00eancia e manuten\u00e7\u00e3o da vida\u201d.<a id=\"_ftnref3\" href=\"#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> A quem interessava ou interessa as verdades cient\u00edficas que atravessam nosso pensamento ontem e hoje e que foram forjadas enquanto um m\u00e9todo rigoroso, ainda nos tempos de Bacon? Para a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o \u00e9. Neste sentido nosso amigo aqui n\u00e3o est\u00e1 inventando roda alguma, afinal, n\u00e3o s\u00e3o poucos os autores e autoras que questionam o sentido da ci\u00eancia no mundo moderno. Poder\u00edamos falar de Adorno, mas tamb\u00e9m mais recentemente dos trabalhos da pr\u00f3pria Federici. Em termos bastante concretos se hoje a maioria das pessoas se mostram indiferentes \u00e0s verdades cient\u00edficas \u2013 ou mais explicitamente contra elas \u2013, n\u00e3o \u00e9 porque vivemos numa realidade extempor\u00e2nea obscurantista, mas porque a pr\u00f3pria modernidade tem, desde a sua origem, encontrado alimento nos descompassos brutais entre as tais verdades cient\u00edficas e a manuten\u00e7\u00e3o da vida mesma. O exemplo de Pedro \u00e9 cristalino: hoje mais de 1,7 milh\u00f5es de pessoas s\u00e3o vitimadas por doen\u00e7as diarreicas que poderiam ser resolvidas com h\u00e1bitos b\u00e1sicos de higiene, mas por que isso n\u00e3o acontece? Por que h\u00e1 uma grande campanha negacionista contra o sabonete?<\/p>\n\n\n\n<p>O piadista aqui parece querer implodir o jarg\u00e3o da nossa \u00e9poca: em tese, vivemos em tempos negacionistas. Mas seria mesmo o caso? Quem seriam os negacionistas realmente existentes? Fiquemos com mais dois palavreados ordin\u00e1rios: \u201cvamos juntas\u201d ou \u201cningu\u00e9m solta a m\u00e3o de ningu\u00e9m\u201d. Creio n\u00e3o estar falando nenhuma l\u00edngua que voc\u00eas n\u00e3o dominam. Quem aqui n\u00e3o ficou apavorada ou apavorado com a ascens\u00e3o da extrema-direita ao poder e que hoje, sabidamente, est\u00e1 \u00e0 espreita, s\u00f3 aguardando para dar mais um bote? Mas vejam, n\u00e3o seria o caso de perguntar: vamos exatamente quem? E para onde? Tamb\u00e9m aqui se pressup\u00f5e um \u201cn\u00f3s\u201d: eu, Nat\u00e1lia, uma mulher progressista branca, de classe m\u00e9dia, e outras mulheres. A faxineira que participa do grupo de ora\u00e7\u00e3o na hora do almo\u00e7o junto com os alunos do IFRJ-Maracan\u00e3, onde fa\u00e7o est\u00e1gio, entra no jogo? Mais ainda, porque talvez eu esteja mais desesperada que ela com toda essa ascens\u00e3o do que estamos chamando, por conven\u00e7\u00e3o, de extrema-direita. Ser\u00e1 que \u00e9 porque sou uma mulher sabida e ela n\u00e3o sabe que n\u00e3o sabe?<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 um dos tantos pontos que Pedro nos leva a pensar. Estamos \u00e0s voltas com um \u201cn\u00f3s\u201d fabricado desde o in\u00edcio da modernidade e que pouco se tensiona. Ocorre que, na hora hist\u00f3rica atual, a desfa\u00e7atez de classe que o velho Chico denunciava ainda em 1985 parece n\u00e3o encontrar mais lastro social para que se reproduza assim, t\u00e3o cinicamente. As pessoas realmente comuns sabem que, na verdade, somos n\u00f3s que estamos negando a realidade. Sabem que nunca fizeram parte de pacto social algum, que nunca participaram da tal \u201csociedade civil\u201d t\u00e3o cara \u00e0 economia pol\u00edtica. A quest\u00e3o agora \u00e9 que a viol\u00eancia corrente sobre grande parte da popula\u00e7\u00e3o mundial \u2014 e com a qual n\u00f3s, em tese, nos solidarizamos escrevendo textos como este \u2014 invadiu os espa\u00e7os da cidadania. E aqui, cidadania est\u00e1 sendo compreendida em seu sentido mais original, ou seja, olig\u00e1rquico. O racismo, o machismo, a misoginia, a xenofobia, a transfobia e, \u00e9 claro, a viol\u00eancia de classe n\u00e3o s\u00e3o desgra\u00e7as que vieram \u00e0 tona com o bolsonarismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Permitam-me apresentar mais um exemplo: a Para\u00edba, estado em que morei por pouco mais de seis anos, tem uma plaquinha em todo estabelecimento comercial que alerta para o crime de agress\u00e3o contra a popula\u00e7\u00e3o LGBT+. Isso ocorre n\u00e3o porque a Para\u00edba seja mais sens\u00edvel a tais problemas em compara\u00e7\u00e3o com outros estados, mas porque j\u00e1 era, antes de Bolsonaro, um dos estados mais violentos para essa popula\u00e7\u00e3o. A irracionalidade pr\u00f3pria \u00e0 racionalidade capitalista sempre encontrou alimento nessas viol\u00eancias. O que muda, ent\u00e3o? Por que o p\u00e2nico generalizado entre os setores progressistas? Qual a resili\u00eancia \u2014 para usar a palavra da moda \u2014 de Bolsonaro ou de qualquer outro representante da extrema-direita global, que vem arregimentando cora\u00e7\u00f5es e mentes de tanta gente pobre, preta, favelada, mulher, gay, nordestina? Teria o carro alegre da hist\u00f3ria capotado? Seria esse povar\u00e9u um bando de ingratos? Uns burros enfeiti\u00e7ados pela l\u00e1bia de um brucutu como Bolsonaro? Mais ainda: por que, quando nos pronunciamos sobre tais assuntos, tendemos sempre a dizer que estamos retornando \u00e0 Idade M\u00e9dia, \u00e0 Idade das Trevas? Que \u00f3dio \u00e9 esse do medievo que se transforma em uma paix\u00e3o arrebatadora pela modernidade \u2014 mais ou menos nos termos em que Pedro coloca no livro?<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A quest\u00e3o aqui \u00e9 que, tendo o carro da hist\u00f3ria capotado e pegando fogo h\u00e1 anos, parece que ainda nos apegamos \u00e0s cinzas que cimentaram o caminho que ele trilhou: a tal da Forma\u00e7\u00e3o, isto \u00e9 a dial\u00e9tica entre a forma\u00e7\u00e3o cultural e nacional. E neste ponto, n\u00e3o posso deixar de me referir a alguns autores chaves que se empenharam neste imagin\u00e1rio de certa forma com um encontro marcado com o futuro, refiro-me aqui a Caio Prado, S\u00e9rgio Buarque e, por um longo per\u00edodo, tamb\u00e9m Celso Furtado. No primeiro, havia a tese de que precis\u00e1vamos superar nossa \u201cinorganicidade\u201d social trazida da Col\u00f4nia; j\u00e1 no segundo, o pa\u00eds estaria formado quando ultrapassasse a heran\u00e7a portuguesa, rural e autorit\u00e1ria. Neste bojo, estaria tamb\u00e9m Celso Furtado, com a tese de que s\u00f3 nos tornar\u00edamos uma na\u00e7\u00e3o integrada quando as principais decis\u00f5es econ\u00f4micas fossem tomadas endogenamente, e n\u00e3o no estrangeiro \u2014 posi\u00e7\u00e3o que ele revisaria no fim dos anos 1980 e in\u00edcio dos anos 1990, mas sobre a qual pouco se fala. Enla\u00e7ando-o no mais das vezes como um desenvolvimentista qualquer. Sobre Celso, talvez seja interessante lembrar, como algu\u00e9m j\u00e1 disse, que \u00e9 de sua autoria um dos t\u00edtulos mais belos produzidos endogenamente e que sintetiza bem todo esse esfor\u00e7o. Refiro-me ao livro <em>A fantasia organizada<\/em>, de 1985. O que muitos esquecem de comentar \u00e9 que, logo em seguida, veio outro livro, com um t\u00edtulo menos simp\u00e1tico, mas talvez mais verdadeiro: <em>A fantasia desfeita<\/em>, de 1989<em>&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ora, nesses tr\u00eas pensadores h\u00e1 um empenho comum em torno de um ponto de chegada crucial: um certo projeto de homogeneiza\u00e7\u00e3o social, com as devidas especificidades locais, mas que estaria mais adiante, quando enfim gozar\u00edamos de \u201cuma virada decisiva para a vida nacional\u201d.<a id=\"_ftnref4\" href=\"#_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Da conceitualiza\u00e7\u00e3o feita por tais autores para c\u00e1, muita coisa j\u00e1 se passou: o duro processo de Abertura, a \u201credemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d, a cretinice de um Collor, a Era do Fhnist\u00e3o, a chegada de um oper\u00e1rio ao poder, uma mulher logo descartada para que um vampiro a substitu\u00edsse; em seguida, a ascens\u00e3o do Mito, at\u00e9 a volta recente de Lula \u2014 respirando no governo, at\u00e9 onde se sabe, por aparelhos. C\u00e1 estamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em que exatamente nos distinguimos daqueles que apostavam \u2014 em outro tempo hist\u00f3rico \u2014 nessa integra\u00e7\u00e3o futura, ou \u201cno dia D\u201d, como chama Pedro no livro? Quando, enfim, as pessoas comuns v\u00e3o ter realmente acesso \u00e0 rapadura, tamb\u00e9m conhecida como sociedade civil? Esse \u00e9 o trolol\u00f3 identificado pelo antiprogressismo, e com o qual ele tem deitado e rolado \u2014 para desespero de todos n\u00f3s, progressistas, que, muito na defensiva, temos apostado em qu\u00ea? Em geral, na cultura, ou talvez, para ser mais precisa, num processo de forma\u00e7\u00e3o cultural \u2013 que se completou ou n\u00e3o, tanto faz. Afinal, o que seria de nossas vidas sem um M\u00e1rio de Andrade para chamar de nosso? De um Machado de Assis? Sim, estou exagerando (n\u00e3o me arremessem uma chinelada) para que talvez consigamos ver este lugar social muito preciso (e precioso por que n\u00e3o?) que ocupamos e que sequer enrubescemos quando \u2013 nesta hora hist\u00f3rica \u2013 chamamos aten\u00e7\u00e3o para a cultura end\u00f3gena dita: \u201cnossa\u201d. Mesmo em um dos nossos mestres da negatividade, isso parece ecoar. No ensaio <em>Sete F\u00f4legos de um Livro<\/em>, salvo engano de 1999, no qual me baseei aqui para mencionar esse pequeno balan\u00e7o da nossa Forma\u00e7\u00e3o, Roberto Schwarz analisa como Antonio Candido conseguiu, em seu livro <em>A Forma\u00e7\u00e3o da Literatura Brasileira<\/em>, mostrar que a forma\u00e7\u00e3o em Machado de Assis n\u00e3o tinha um encontro com o futuro \u2014 ela j\u00e1 ocorrera, j\u00e1 se completara, convivendo com a escravid\u00e3o. Isto \u00e9, paradoxalmente, formou-se uma literatura end\u00f3gena, robusta e aut\u00f4noma, sem que o mesmo ocorresse com o processo de forma\u00e7\u00e3o nacional. No entanto, em vez de dizer que de <em>nada adiantou esse esfor\u00e7o civilizat\u00f3rio<\/em>, o que Roberto Schwarz diz \u00e9 o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cA cultura formada, que alcan\u00e7ou uma certa organicidade, funciona como um ant\u00eddoto para a tend\u00eancia dissociadora da economia. \u00c9 preciso reconhecer que nossa unidade cultural mais ou menos realizada \u00e9 um elemento de antibarb\u00e1rie, na medida em que diz que aqui se formou um todo, e que esse todo existe e faz parte interior de todos n\u00f3s que nos ocupamos do assunto, e tamb\u00e9m de muitos que n\u00e3o se ocupam dele\u201d.<\/em><a id=\"_ftnref5\" href=\"#_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ora essa, mas ant\u00eddoto para quem? E durante quanto tempo? Que \u201cn\u00f3s\u201d \u00e9 esse? S\u00f3 mesmo dentro das nossas cabe\u00e7as progressistas, acostumadas a uma hegemonia cultural de esquerda \u2014 que evaporou no tempo e no espa\u00e7o j\u00e1 faz um tempinho, se \u00e9 que um dia existiu. E vejam aqui que coisa interessante nos traz o Pedro: n\u00f3s, progressistas, conhecedores de coisas e pessoas interessantes, temos um irm\u00e3o bastardo que n\u00e3o queremos assumir. Quem \u00e9 ele? Justamente os antiprogressistas que, como n\u00f3s, buscam se distinguir como conhecedores de algo \u2014 cito Pedro: \u201cgente especial por causa daquilo que leu, ouviu dizer, as ideias que defende\u201d<a id=\"_ftnref6\" href=\"#_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>; enfim, a cren\u00e7a num ideal de cultura no sentido moderno do termo. A semelhan\u00e7a n\u00e3o termina a\u00ed. H\u00e1 mais uma coisa que nos aproxima desse irm\u00e3o que n\u00e3o pedimos: justamente a quest\u00e3o de classe. Um lado como o outro pode, em geral, pintar o sete que nada acontece. Estamos dentro do pacto civil. N\u00e3o \u00e0 toa, Olavo de Carvalho, o principal intelectual do bolsonarismo, pintou todas e nada aconteceu \u2014 um \u201cmicr\u00f3bio maldito\u201d teve que lev\u00e1-lo desta para outra, a esta altura n\u00e3o sei se para um lugar melhor ou pior.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo mesmo privil\u00e9gio de classe compartilhado pelos progressistas, o antiprogressismo se insurge, jogando na nossa fu\u00e7a que \u2014 aqui cito Pedro \u2014 \u201ca tradi\u00e7\u00e3o progressista n\u00e3o \u00e9 sustentada por seu valor intr\u00ednseco; seu monop\u00f3lio pode ser destru\u00eddo facilmente por um monte de autodidatas [os inimigos da Marilena Chau\u00ed] com celulares mais ou menos baratos e uma certa quantidade de tempo e conex\u00e3o\u201d.<a id=\"_ftnref7\" href=\"#_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Vejam voc\u00eas: por que diabos, nessa grande guerra entre progressistas e anti-progressistas, estes t\u00eam levado a melhor, e n\u00e3o n\u00f3s? Segundo nosso amigo aqui, para al\u00e9m do lado dito populista da est\u00e9tica bolsonarista \u2014 que joga com o vocabul\u00e1rio for\u00e7osamente escrachado, por vezes rude \u2014 h\u00e1 o tensionamento das contradi\u00e7\u00f5es e limites da civiliza\u00e7\u00e3o moderna que n\u00f3s, mais uma vez, tentamos fazer o qu\u00ea? Resolver positivamente. Uns insistindo numa democracia que nunca existiu, outros numa cren\u00e7a na cultura, ou no desejo de vanguarda (sic) que guarda um certo parentesco com aquele processo de forma\u00e7\u00e3o cultural, interessante, importante \u2013 afinal, mobilizou muitas interpreta\u00e7\u00f5es, no cinema, no teatro, na filosofia \u2013 mas absolutamente restrito e problem\u00e1tico desde sua origem.<\/p>\n\n\n\n<p>Observem que estando dentro desse cercadinho privilegiado, os antiprogressistas conseguem mobilizar, do lado de fora \u2014 onde a gente comum sempre esteve \u2014 uma certa verdade. Insistindo em achar que a verdade est\u00e1 do nosso lado, permanecemos cegos. Sabendo da falsidade disso e apostando no conhecido \u201ccada um por si\u201d, que atravessa a hist\u00f3ria da popula\u00e7\u00e3o deste pa\u00eds, os antiprogressistas \u2014 adoradores das institui\u00e7\u00f5es modernas, como os bancos, a pol\u00edcia \u2014 decidem ent\u00e3o virar a mesa com as cartas do jogo e tudo o mais, para o lugar mais longe poss\u00edvel, pois sabem que, em geral, n\u00e3o ser\u00e3o prejudicados.<\/p>\n\n\n\n<p>Notem, portanto, que a linguagem da destrui\u00e7\u00e3o, \u00e0 qual a extrema-direita constantemente recorre \u2014 destacada por Pedro, mas tamb\u00e9m por outros como Miguel Lago<a id=\"_ftnref8\" href=\"#_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> \u2014 assenta-se justamente na percep\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es e limites da civiliza\u00e7\u00e3o moderna, que h\u00e1 muito transformou o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas em for\u00e7as destrutivas. Essa gente sabe muito bem que, sem os mesmos governos progressistas \u2014 nos quais n\u00e3o titubeamos em votar de quatro em quatro anos \u2014 n\u00e3o ter\u00edamos acesso \u00e0 cultura tal qual a imaginamos e que, portanto, j\u00e1 ter\u00edamos \u201cdan\u00e7ado\u201d, como disse certa vez Fernando Henrique sobre os \u201cinempreg\u00e1veis\u201d. Vejam voc\u00eas que, nesse lance da cultura, parece que n\u00e3o nos damos conta de que \u2014 aqui cito Pedro \u2014 \u201cas pessoas comuns, historicamente arrastadas para dentro da civiliza\u00e7\u00e3o a contragosto, s\u00f3 ocasionalmente podem perceber se existem ou inexistem pol\u00edticas p\u00fablicas para a cultura\u201d.<a id=\"_ftnref9\" href=\"#_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Mas fingimos que n\u00e3o. Todo esse \u201cac\u00famulo cultural\u201d ou processo social edificante e que esteve materialmente ligado \u00e0 \u201cexpans\u00e3o capitalista\u201d de que falava Chico (com a interdi\u00e7\u00e3o que se sabe desde o Golpe de 64), n\u00e3o existe mais. Da\u00ed porque em nega\u00e7\u00e3o ou por simples mania, seguimos insistindo em valores modernos como o individualismo, o materialismo, as evid\u00eancias cient\u00edficas, o ate\u00edsmo militante e letrado<a id=\"_ftnref10\" href=\"#_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> \u2014 ou na cultura como destaquei aqui, pr\u00e1ticas estas \u00e0s voltas de um horroroso pacto civil olig\u00e1rquico, hoje em crise, e que sempre se lixou para o que as pessoas verdadeiramente comuns pensam, sonham e desejam. Saber\u00edamos, a esta altura, usar alguns \u00f3culos que n\u00e3o este? Se isso fosse poss\u00edvel, quais seriam os termos mobilizados? Acho que \u00e9 um pouco isso que o livro e em especial esse posf\u00e1cio que o Pedro escreveu nos leva a pensar.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cf: Pedro Rocha, <em>Discurso filos\u00f3fico da acumula\u00e7\u00e3o primitiva<\/em>: estudo sobre as origens do pensamento moderno, Elefante, 2025, p. 19.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cf: Pedro Rocha, <em>Discurso filos\u00f3fico da acumula\u00e7\u00e3o primitiva<\/em>: estudo sobre as origens do pensamento moderno, Elefante, 2025, p. 462.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este resumo sobre alguns dos intelectuais que se empenharam neste processo de Forma\u00e7\u00e3o \u00e9, como se sabe, de Roberto Schwarz em seu ensaio: Os s<em>ete f\u00f4legos de um livro,<\/em> presente no livro Sequ\u00eancias Brasileiras, 1999. p. 46-58<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ibidem, p. 57 \u2013 os grifos s\u00e3o meus.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cf: Pedro Rocha, <em>Discurso filos\u00f3fico da acumula\u00e7\u00e3o primitiva<\/em>: estudo sobre as origens do pensamento moderno, Elefante, 2025, p. 466.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ibidem, p. 476. Par\u00eanteses meu.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cf: Miguel Lago, <em>Como explicar a resili\u00eancia de Bolsonaro?<\/em> Linguagem da destrui\u00e7\u00e3o: a democracia brasileira em crise. Companhia das Letras, 2022. p.19-67<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cf: Pedro Rocha, <em>Discurso filos\u00f3fico da acumula\u00e7\u00e3o primitiva<\/em>: estudo sobre as origens do pensamento moderno, Elefante, 2025, p. 479.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ibidem, p. 67.<\/p>\n\n\n<style>.wp-block-kadence-column.kb-section-dir-horizontal > .kt-inside-inner-col > .kt-info-box4470_612d9a-21 .kt-blocks-info-box-link-wrap{max-width:unset;}.kt-info-box4470_612d9a-21 .kt-blocks-info-box-link-wrap{border-color:#d70141;border-top-width:23px;border-right-width:23px;border-bottom-width:23px;border-left-width:23px;background:#d70141;padding-top:var(--global-kb-spacing-sm, 1.5rem);padding-right:var(--global-kb-spacing-sm, 1.5rem);padding-bottom:var(--global-kb-spacing-sm, 1.5rem);padding-left:var(--global-kb-spacing-sm, 1.5rem);margin-top:50px;}.kt-info-box4470_612d9a-21 .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover{border-color:#d70141;background:#d70141;}.kt-info-box4470_612d9a-21.wp-block-kadence-infobox{max-width:100%;}.kt-info-box4470_612d9a-21 .kadence-info-box-image-inner-intrisic-container{max-width:212px;}.kt-info-box4470_612d9a-21 .kadence-info-box-image-inner-intrisic-container .kadence-info-box-image-intrisic{padding-bottom:100%;width:640px;height:0px;max-width:100%;}.kt-info-box4470_612d9a-21 .kadence-info-box-icon-container .kt-info-svg-icon, .kt-info-box4470_612d9a-21 .kt-info-svg-icon-flip, .kt-info-box4470_612d9a-21 .kt-blocks-info-box-number{font-size:50px;}.kt-info-box4470_612d9a-21 .kt-blocks-info-box-media{color:#444444;background:#f7e6d4;border-color:#f7e6d4;border-top-width:5px;border-right-width:5px;border-bottom-width:5px;border-left-width:5px;padding-top:0px;padding-right:0px;padding-bottom:0px;padding-left:0px;}.kt-info-box4470_612d9a-21 .kt-blocks-info-box-media-container{margin-top:-75px;margin-right:0px;margin-bottom:20px;margin-left:0px;}.kt-info-box4470_612d9a-21 .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover .kt-blocks-info-box-media{color:#444444;background:#f7e6d4;border-color:#f7e6d4;}.kt-info-box4470_612d9a-21 .kt-infobox-textcontent h2.kt-blocks-info-box-title{color:#f7e6d4;padding-top:0px;padding-right:0px;padding-bottom:0px;padding-left:0px;margin-top:5px;margin-right:0px;margin-bottom:10px;margin-left:0px;}.kt-info-box4470_612d9a-21 .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover h2.kt-blocks-info-box-title{color:#f7e6d4;}.kt-info-box4470_612d9a-21 .kt-infobox-textcontent .kt-blocks-info-box-text{color:#f4dcc3;}.kt-info-box4470_612d9a-21 .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover .kt-blocks-info-box-text{color:#f4dcc3;}.kt-info-box4470_612d9a-21 .kt-blocks-info-box-learnmore{background:transparent;border-width:0px 0px 0px 0px;padding-top:4px;padding-right:8px;padding-bottom:4px;padding-left:8px;margin-top:10px;margin-right:0px;margin-bottom:10px;margin-left:0px;}<\/style>\n<div class=\"wp-block-kadence-infobox kt-info-box4470_612d9a-21\"><span class=\"kt-blocks-info-box-link-wrap info-box-link kt-blocks-info-box-media-align-top kt-info-halign-left\"><div class=\"kt-blocks-info-box-media-container\"><div class=\"kt-blocks-info-box-media kt-info-media-animate-none\"><div class=\"kadence-info-box-image-inner-intrisic-container\"><div class=\"kadence-info-box-image-intrisic kt-info-animate-none\"><div class=\"kadence-info-box-image-inner-intrisic\"><img data-dominant-color=\"7f9099\" data-has-transparency=\"false\" style=\"--dominant-color: #7f9099;\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image.avif\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"640\" class=\"kt-info-box-image wp-image-4471 not-transparent\" srcset=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image.avif 640w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image-300x300.avif 300w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image-150x150.avif 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><div class=\"kt-infobox-textcontent\"><h2 class=\"kt-blocks-info-box-title\">Natalia Teixeira Rodrigues<\/h2><p class=\"kt-blocks-info-box-text\">\u00c9 doutoranda em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)<\/p><\/div><\/span><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os coment\u00e1rios a seguir foram feitos durante o debate de lan\u00e7amento do livro, ocorrido em 20 de maio na UERJ. 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Em termos bastante concretos se hoje a maioria das pessoas se mostram indiferentes \u00e0s verdades cient\u00edficas \u2013 ou mais explicitamente contra elas \u2013, n\u00e3o \u00e9 porque vivemos numa realidade extempor\u00e2nea obscurantista, mas porque a pr\u00f3pria modernidade tem, desde a sua origem, encontrado alimento nos descompassos brutais entre as tais verdades cient\u00edficas e a manuten\u00e7\u00e3o da vida mesma. O exemplo de Pedro \u00e9 cristalino: hoje mais de 1,7 milh\u00f5es de pessoas s\u00e3o vitimadas por doen\u00e7as diarreicas que poderiam ser resolvidas com h\u00e1bitos b\u00e1sicos de higiene, mas por que isso n\u00e3o acontece?\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2026\/02\/11\/uma-conversa-sobre-o-discurso-filosofico-da-acumulacao-primitiva-de-pedro-rocha-de-oliveira-natalia-rodrigues\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Uma conversa sobre o &quot;Discurso filos\u00f3fico da acumula\u00e7\u00e3o primitiva&quot;, de Pedro Rocha de Oliveira \u2014 Natalia Rodrigues - Zero \u00e0 Esquerda\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Poder\u00edamos falar de Adorno, mas tamb\u00e9m mais recentemente dos trabalhos da pr\u00f3pria Federici. 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