{"id":3751,"date":"2025-05-30T23:45:14","date_gmt":"2025-05-30T23:45:14","guid":{"rendered":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/?p=3751"},"modified":"2025-12-12T13:56:40","modified_gmt":"2025-12-12T13:56:40","slug":"noticia-da-atual-literatura-brasileira-instinto-de-nacionalidade-machado-de-assis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2025\/05\/30\/noticia-da-atual-literatura-brasileira-instinto-de-nacionalidade-machado-de-assis\/","title":{"rendered":"Not\u00edcia da atual literatura brasileira &#8211; Instinto de nacionalidade &#8211; Machado de Assis"},"content":{"rendered":"\n<p>Texto-Fonte:<br>Obra Completa de Machado de Assis,<br>Rio de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.<br>Publicado originalmente em O Novo Mundo, 24\/03\/1873.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Os textos em destaque foram feitos por n\u00f3s da Revista Zero \u00e0 Esquerda.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro tra\u00e7o, certo instinto de nacionalidade. Poesia, romance, todas as formas liter\u00e1rias do pensamento buscam vestir-se com as cores do pa\u00eds, e n\u00e3o h\u00e1 negar que semelhante preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 sintoma de vitalidade e abono de futuro. As tradi\u00e7\u00f5es de Gon\u00e7alves Dias, Porto-Alegre e Magalh\u00e3es s\u00e3o assim continuadas pela gera\u00e7\u00e3o j\u00e1 feita e pela que ainda agora madruga, como aqueles continuaram as de Jos\u00e9 Bas\u00edlio da Gama e Santa Rita Dur\u00e3o. Escusado \u00e9 dizer a vantagem deste universal acordo. Interrogando a vida brasileira e a natureza americana, prosadores e poetas achar\u00e3o ali farto manancial de inspira\u00e7\u00e3o e ir\u00e3o dando fisionomia pr\u00f3pria ao pensamento nacional. Esta outra independ\u00eancia n\u00e3o tem Sete de Setembro nem campo de Ipiranga; n\u00e3o se far\u00e1 num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; n\u00e3o ser\u00e1 obra de uma gera\u00e7\u00e3o nem duas; muitas trabalhar\u00e3o para ela at\u00e9 perfaz\u00ea-la de todo.<\/p>\n\n\n\n<p> Sente-se aquele instinto at\u00e9 nas manifesta\u00e7\u00f5es da opini\u00e3o, ali\u00e1s mal formada ainda, restrita em extremo, pouco sol\u00edcita, e ainda menos apaixonada nestas quest\u00f5es de poesia e literatura. H\u00e1 nela um instinto que leva a aplaudir principalmente as obras que trazem os toques nacionais. A juventude liter\u00e1ria, sobretudo, faz deste ponto uma quest\u00e3o de leg\u00edtimo amor-pr\u00f3prio. Nem toda ela ter\u00e1 meditado os poemas de Uruguai e Caramuru com aquela aten\u00e7\u00e3o que tais obras est\u00e3o pedindo; mas os nomes de Bas\u00edlio da Gama e Dur\u00e3o s\u00e3o citados e amados, como precursores da poesia brasileira. A raz\u00e3o \u00e9 que eles buscaram em roda de si os elementos de uma poesia nova, e deram os primeiros tra\u00e7os de nossa fisionomia liter\u00e1ria, enquanto que outros, Gonzaga por exemplo, respirando ali\u00e1s os ares da p\u00e1tria, n\u00e3o souberam desligar-se das faixas da Arc\u00e1dia nem dos preceitos do tempo. Admira-se-lhes o talento, mas n\u00e3o se lhes perdoa o cajado e a pastora, e nisto h\u00e1 mais erro que acerto. <\/p>\n\n\n\n<p>Dado que as condi\u00e7\u00f5es deste escrito o permitissem, n\u00e3o tomaria eu sobre mim a defesa do mau gosto dos poetas arc\u00e1dicos nem o fatal estrago que essa escola produziu nas literaturas portuguesa e brasileira. N\u00e3o me parece, todavia, justa a censura aos nossos poetas coloniais, iscados daquele mal; nem igualmente justa a de n\u00e3o haverem trabalhado para a independ\u00eancia liter\u00e1ria, quando a independ\u00eancia pol\u00edtica jazia ainda no ventre do futuro, e mais que tudo, quando entre a metr\u00f3pole e a col\u00f4nia criara a hist\u00f3ria a homogeneidade das tradi\u00e7\u00f5es, dos costumes e da educa\u00e7\u00e3o. As mesmas obras de Bas\u00edlio da Gama e Dur\u00e3o quiseram antes ostentar certa cor local do que tornar independente a literatura brasileira, literatura que n\u00e3o existe ainda, que mal poder\u00e1 ir alvorecendo agora. <\/p>\n\n\n\n<p>Reconhecido o instinto de nacionalidade que se manifesta nas obras destes \u00faltimos tempos, conviria examinar se possu\u00edmos todas as condi\u00e7\u00f5es e motivos hist\u00f3ricos de uma nacionalidade liter\u00e1ria; esta investiga\u00e7\u00e3o (ponto de diverg\u00eancia entre literatos), al\u00e9m de superior \u00e0s minhas for\u00e7as, daria em resultado levar-me longe dos limites deste escrito. Meu principal objeto \u00e9 atestar o fato atual; ora, o fato \u00e9 o instinto de que falei, o geral desejo de criar uma literatura mais independente.<\/p>\n\n\n\n<p> A apari\u00e7\u00e3o de Gon\u00e7alves Dias chamou a aten\u00e7\u00e3o das musas brasileiras para a hist\u00f3ria e os costumes indianos. Os Timbiras, I-Juca Pirama, Tabira e outros poemas do egr\u00e9gio poeta acenderam as imagina\u00e7\u00f5es; a vida das tribos, vencidas h\u00e1 muito pela civiliza\u00e7\u00e3o, foi estudada nas mem\u00f3rias que nos deixaram os cronistas, e interrogadas dos poetas, tirando-lhes todos alguma coisa, qual um id\u00edlio, qual um canto \u00e9pico. <\/p>\n\n\n\n<p>Houve depois uma esp\u00e9cie de rea\u00e7\u00e3o. Entrou a prevalecer a opini\u00e3o de que n\u00e3o estava toda a poesia nos costumes semib\u00e1rbaros anteriores \u00e0 nossa civiliza\u00e7\u00e3o, o que era verdade, \u2014 e n\u00e3o tardou o conceito de que nada tinha a poesia com a exist\u00eancia da ra\u00e7a extinta, t\u00e3o diferente da ra\u00e7a triunfante, \u2014 o que parece um erro. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 certo que a civiliza\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o est\u00e1 ligada ao elemento indiano, nem dele recebeu influxo algum; e isto basta para n\u00e3o ir buscar entre as tribos vencidas os t\u00edtulos da nossa personalidade liter\u00e1ria. Mas se isto \u00e9 verdade, n\u00e3o \u00e9 menos certo que tudo \u00e9 mat\u00e9ria de poesia, uma vez que traga as condi\u00e7\u00f5es do belo ou os elementos de que ele se comp\u00f5e. Os que, como o Sr. Varnhagen, negam tudo aos primeiros povos deste pa\u00eds, esses podem logicamente exclu\u00ed-los da poesia contempor\u00e2nea. Parece-me, entretanto, que, depois das mem\u00f3rias que a este respeito escreveram os Srs. Magalh\u00e3es e Gon\u00e7alves Dias, n\u00e3o \u00e9 l\u00edcito arredar o elemento indiano da nossa aplica\u00e7\u00e3o intelectual. Erro seria constitu\u00ed-lo um exclusivo patrim\u00f4nio da literatura brasileira; erro igual fora certamente a sua absoluta exclus\u00e3o. As tribos ind\u00edgenas, cujos usos e costumes Jo\u00e3o Francisco Lisboa cotejava com o livro de T\u00e1cito e os achava t\u00e3o semelhantes aos dos antigos germanos, desapareceram, \u00e9 certo, da regi\u00e3o que por tanto tempo fora sua; mas a ra\u00e7a dominadora que as freq\u00fcentou, colheu informa\u00e7\u00f5es preciosas e no-las transmitiu como verdadeiros elementos po\u00e9ticos. A piedade, a minguarem outros argumentos de maior valia, devera ao menos inclinar a imagina\u00e7\u00e3o dos poetas para os povos que primeiro beberam os ares destas regi\u00f5es, consorciando na literatura os que a fatalidade da hist\u00f3ria divorciou. <\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 hoje a opini\u00e3o triunfante. Ou j\u00e1 nos costumes puramente indianos, tais quais os vemos n&#8217;Os Timbiras, de Gon\u00e7alves Dias, ou j\u00e1 na luta do elemento b\u00e1rbaro com o civilizado, tem a imagina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria do nosso tempo ido buscar alguns quadros de singular efeito, dos quais citarei, por exemplo, a Iracema, do Sr. J. de Alencar, uma das primeiras obras desse fecundo e brilhante escritor. <\/p>\n\n\n\n<p>Compreendendo que n\u00e3o est\u00e1 na vida indiana todo o patrim\u00f4nio da literatura brasileira, mas apenas um legado, t\u00e3o brasileiro como universal, n\u00e3o se limitam os nossos escritores a essa s\u00f3 fonte de inspira\u00e7\u00e3o. Os costumes civilizados, ou j\u00e1 do tempo colonial, ou j\u00e1 do tempo de hoje, igualmente oferecem \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o boa e larga mat\u00e9ria de estudo. N\u00e3o menos que eles, os convida a natureza americana, cuja magnific\u00eancia e esplendor naturalmente desafiam a poetas e prosadores. O romance, sobretudo, apoderou-se de todos esses elementos de inven\u00e7\u00e3o, a que devemos, entre outros, os livros dos Srs. Bernardo Guimar\u00e3es, que brilhante e ingenuamente nos pinta os costumes da regi\u00e3o em que nasceu, J. de Alencar, Macedo, S\u00edlvio Dinarte (Escragnolle Taunay), Franklin T\u00e1vora, e alguns mais. <\/p>\n\n\n\n<p>Devo acrescentar que neste ponto manifesta-se \u00e0s vezes uma opini\u00e3o, que tenho por err\u00f4nea: \u00e9 a que s\u00f3 reconhece esp\u00edrito nacional nas obras que tratam de assunto local, doutrina que, a ser exata, limitaria muito os cabedais da nossa literatura. Gon\u00e7alves Dias, por exemplo, com poesias pr\u00f3prias seria admitido no pante\u00e3o nacional; se excetuarmos Os Timbiras, os outros poemas americanos, e certo n\u00famero de composi\u00e7\u00f5es, pertencem os seus verses pelo assunto a toda a mais humanidade, cujas aspira\u00e7\u00f5es, entusiasmo, fraquezas e dores geralmente cantam; e excluo da\u00ed as belas Sextilhas de Frei Ant\u00e3o, que essas pertencem unicamente \u00e0 literatura portuguesa, n\u00e3o s\u00f3 pelo assunto que o poeta extraiu dos historiadores lusitanos, mas at\u00e9 pelo estilo que ele habilmente fez antiquado. O mesmo acontece com os seus dramas, nenhum dos quais tem por teatro o Brasil. Iria longe se tivesse de citar outros exemplos de casa, e n\u00e3o acabaria se fosse necess\u00e1rio recorrer aos estranhos. Mas, pois que isto vai ser impresso em terra americana e inglesa, perguntarei simplesmente se o autor do Song of Hiawatha n\u00e3o \u00e9 o mesmo autor da Golden Legend, que nada tem com a terra que o viu nascer, e cujo cantor admir\u00e1vel \u00e9; e perguntarei mais se o Hamlet, o Otelo, o J\u00falio C\u00e9sar, a Julieta e Romeu t\u00eam alguma coisa com a hist\u00f3ria inglesa nem com o territ\u00f3rio brit\u00e2nico, e se, entretanto, Shakespeare n\u00e3o \u00e9, al\u00e9m de um g\u00eanio universal, um poeta essencialmente ingl\u00eas. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><strong>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua regi\u00e3o; mas n\u00e3o estabele\u00e7amos doutrinas t\u00e3o absolutas que a empobre\u00e7am. <\/strong><\/p><cite>mACHADO DE ASSIS<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>O que se deve exigir do escritor antes de tudo, \u00e9 certo sentimento \u00edntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu pa\u00eds, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espa\u00e7o. Um not\u00e1vel cr\u00edtico da Fran\u00e7a, analisando h\u00e1 tempos um escritor escoc\u00eas, Masson, com muito acerto dizia que do mesmo modo que se podia ser bret\u00e3o sem falar sempre do tojo, assim Masson era bem escoc\u00eas, sem dizer palavra do cardo, e explicava o dito acrescentando que havia nele um scotticismo interior, diverso e melhor do que se fora apenas superficial.<\/p>\n\n\n\n<p> Estes e outros pontos cumpria \u00e0 cr\u00edtica estabelec\u00ea-los, se tiv\u00e9ssemos uma cr\u00edtica doutrin\u00e1ria, ampla, elevada, correspondente ao que ela \u00e9 em outros pa\u00edses. N\u00e3o a temos. H\u00e1 e tem havido escritos que tal nome merecem, mas raros, a espa\u00e7os, sem a influ\u00eancia cotidiana e profunda que deveram exercer. A falta de uma cr\u00edtica assim \u00e9 um dos maiores males de que padece a nossa literatura; \u00e9 mister que a an\u00e1lise corrija ou anime a inven\u00e7\u00e3o, que os pontos de doutrina e de hist\u00f3ria se investiguem, que as belezas se estudem, que os sen\u00f5es se apontem, que o gosto se apure e eduque, para que a literatura saia mais forte e vi\u00e7osa, e se desenvolva e caminhe aos altos destinos que a esperam. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O Romance<\/h2>\n\n\n\n<p> De todas as formas v\u00e1rias as mais cultivadas atualmente no Brasil s\u00e3o o romance e a poesia l\u00edrica; a mais apreciada \u00e9 o romance, como ali\u00e1s acontece em toda a parte, creio eu. S\u00e3o f\u00e1ceis de perceber as causas desta prefer\u00eancia da opini\u00e3o, e por isso n\u00e3o me demoro em apont\u00e1-las. N\u00e3o se fazem aqui (falo sempre genericamente) livros de filosofia, de lingu\u00edstica, de cr\u00edtica hist\u00f3rica, de alta pol\u00edtica, e outros assim, que em alheios pa\u00edses acham f\u00e1cil acolhimento e boa extra\u00e7\u00e3o; raras s\u00e3o aqui essas obras e escasso o mercado delas. O romance pode-se dizer que domina quase exclusivamente. N\u00e3o h\u00e1 nisto motivo de admira\u00e7\u00e3o nem de censura, tratando-se de um pa\u00eds que apenas entra na primeira mocidade, e esta ainda n\u00e3o nutrida de s\u00f3lidos estudos. Isto n\u00e3o \u00e9 desmerecer o romance, obra d&#8217;arte como qualquer outra, e que exige da parte do escritor qualidades de boa nota. <\/p>\n\n\n\n<p>Aqui o romance, como tive ocasi\u00e3o de dizer, busca sempre a cor local. A subst\u00e2ncia, n\u00e3o menos que os acess\u00f3rios, reproduzem geralmente a vida brasileira em seus diferentes aspectos e situa\u00e7\u00f5es. Naturalmente os costumes do interior s\u00e3o os que conservam melhor a tradi\u00e7\u00e3o nacional; os da capital do pa\u00eds, e em parte, os de algumas cidades, muito mais chegados \u00e0 influ\u00eancia europeia, trazem j\u00e1 uma fei\u00e7\u00e3o mista e ademanes diferentes. Por outro lado, penetrando no tempo colonial, vamos achar uma sociedade diferente, e dos livros em que ela \u00e9 tratada, alguns h\u00e1 de m\u00e9rito real. <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o faltam a alguns de nossos romancistas qualidades de observa\u00e7\u00e3o e de an\u00e1lise, e um estrangeiro n\u00e3o familiar com os nossos costumes achar\u00e1 muita p\u00e1gina instrutiva. Do romance puramente de an\u00e1lise, rar\u00edssimo exemplar temos, ou porque a nossa \u00edndole n\u00e3o nos chame para a\u00ed, ou porque seja esta casta de obras ainda incompat\u00edvel com a nossa adolesc\u00eancia liter\u00e1ria. <\/p>\n\n\n\n<p>O romance brasileiro recomenda-se especialmente pelos toques do sentimento, quadros da natureza e de costumes, e certa viveza de estilo muito adequada ao esp\u00edrito do nosso povo. H\u00e1 em verdade ocasi\u00f5es em que essas qualidades parecem sair da sua medida natural, mas em regra conservam-se estremes de censura, vindo a sair muita coisa interessante, muita realmente bela. O espet\u00e1culo da natureza, quando o assunto o pede, ocupa not\u00e1vel lugar no romance, e d\u00e1 p\u00e1ginas animadas e pitorescas, e n\u00e3o as cito por me n\u00e3o divertir do objeto exclusivo deste escrito, que \u00e9 indicar as excel\u00eancias e os defeitos do conjunto, sem me demorar em pormenores. H\u00e1 boas p\u00e1ginas, como digo, e creio at\u00e9 que um grande amor a este recurso da descri\u00e7\u00e3o, excelente, sem d\u00favida, mas (como dizem os mestres) de mediano efeito, se n\u00e3o avultam no escritor outras qualidades essenciais. <\/p>\n\n\n\n<p>Pelo que respeita \u00e0 an\u00e1lise de paix\u00f5es e caracteres s\u00e3o muito menos comuns os exemplos que podem satisfazer \u00e0 cr\u00edtica; alguns h\u00e1, por\u00e9m, de merecimento incontest\u00e1vel. Esta \u00e9, na verdade, uma das partes mais dif\u00edceis do romance, e ao mesmo tempo das mais superiores. Naturalmente exige da parte do escritor dotes n\u00e3o vulgares de observa\u00e7\u00e3o, que, ainda em literaturas mais adiantadas, n\u00e3o andam a rodo nem s\u00e3o a partilha do maior n\u00famero. <\/p>\n\n\n\n<p>As tend\u00eancias morais do romance brasileiro s\u00e3o geralmente boas. Nem todos eles ser\u00e3o de princ\u00edpio a fim irrepreens\u00edveis; alguma coisa haver\u00e1 que uma cr\u00edtica austera poderia apontar e corrigir. Mas o tom geral \u00e9 bom. Os livros de certa escola francesa, ainda que muito lidos entre n\u00f3s, n\u00e3o contaminaram a literatura brasileira, nem sinto nela tend\u00eancias para adotar as suas doutrinas, o que \u00e9 j\u00e1 not\u00e1vel m\u00e9rito. As obras de que falo, foram aqui bem-vindas e festejadas, como h\u00f3spedes, mas n\u00e3o se aliaram \u00e0 fam\u00edlia nem tomaram o governo da casa. Os nomes que principalmente seduzem a nossa mocidade s\u00e3o os do per\u00edodo rom\u00e2ntico; os escritores que se v\u00e3o buscar para fazer compara\u00e7\u00f5es com os nossos, \u2014 porque h\u00e1 aqui muito amor a essas compara\u00e7\u00f5es \u2014 s\u00e3o ainda aqueles com que o nosso esp\u00edrito se educou, os V\u00edtor Hugos, os Gautiers, os Mussets, os Gozlans, os Nervals.<\/p>\n\n\n\n<p> Isento por esse lado o romance brasileiro, n\u00e3o menos o est\u00e1 de tend\u00eancias pol\u00edticas, e geralmente de todas as quest\u00f5es sociais, \u2014 o que n\u00e3o digo por fazer elogio, nem ainda censura, mas unicamente para atestar o fato. Esta casta de obras conserva-se aqui no puro dom\u00ednio de imagina\u00e7\u00e3o, desinteressada dos problemas do dia e do s\u00e9culo, alheia \u00e0s crises sociais e filos\u00f3ficas. Seus principais elementos s\u00e3o, como disse, a pintura dos costumes, a luta das paix\u00f5es, os quadros da natureza, alguma vez o estudo dos sentimentos e dos caracteres; com esses elementos, que s\u00e3o fecund\u00edssimos, possu\u00edmos j\u00e1 uma galeria numerosa e a muitos respeitos not\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p> No g\u00eanero dos contos, \u00e0 maneira de Henri Murger, ou \u00e0 de Trueba, ou \u00e0 de Ch. Dickens, que t\u00e3o diversos s\u00e3o entre si, t\u00eam havido tentativas mais ou menos felizes, por\u00e9m raras, cumprindo citar, entre outros, o nome do Sr. Lu\u00eds Guimar\u00e3es J\u00fanior, igualmente folhetinista elegante e jovial. \u00c9 g\u00eanero dif\u00edcil, a despeito da sua aparente facilidade, e creio que essa mesma apar\u00eancia lhe faz mal, afastando-se dele os escritores, e n\u00e3o lhe dando, penso eu, o p\u00fablico toda a aten\u00e7\u00e3o de que ele \u00e9 muitas vezes credor. <\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, o romance, forma extremamente apreciada e j\u00e1 cultivada com alguma extens\u00e3o, \u00e9 um dos t\u00edtulos da presente gera\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Nem todos os livros, repito, deixam de se prestar a uma cr\u00edtica minuciosa e severa, e se a houv\u00e9ssemos em condi\u00e7\u00f5es regulares, creio que os defeitos se corrigiriam, e as boas qualidades adquiririam maior realce. H\u00e1 geralmente viva imagina\u00e7\u00e3o, instinto do belo, ing\u00eanua admira\u00e7\u00e3o da natureza, amor \u00e0s coisas p\u00e1trias, e al\u00e9m de tudo isto agudeza e observa\u00e7\u00e3o. Boa e fecunda terra, j\u00e1 deu frutos excelentes e os h\u00e1 de dar em muito maior escala. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Poesia <\/h2>\n\n\n\n<p>A a\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica seria sobretudo eficaz em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 poesia. Dos poetas que apareceram no dec\u00eanio de 1850 a 1860, uns levou-os a morte ainda na flor dos anos, como \u00c1lvares de Azevedo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu, cujos nomes excitam na nossa mocidade leg\u00edtimo e sincero entusiasmo, e bem assim outros de n\u00e3o menor porte. Os que sobreviveram calaram as liras; e se uns voltaram as suas aten\u00e7\u00f5es para outro g\u00eanero liter\u00e1rio, como Bernardo Guimar\u00e3es, outros vivem dos louros colhidos, se \u00e9 que n\u00e3o preparam obras de maior tomo, como se diz de Varela, poeta que j\u00e1 pertence ao dec\u00eanio de 1860 a 1870. Neste \u00faltimo prazo outras voca\u00e7\u00f5es apareceram e numerosas, e basta citar um Crespo, um Serra, um Trajano, um Gentil-Homem de Almeida Braga, um Castro Alves, um Lu\u00eds Guimar\u00e3es, um Rosendo Moniz, um Carlos Ferreira, um L\u00facio de Mendon\u00e7a, e tantos mais, para mostrar que a poesia contempor\u00e2nea pode dar muita coisa; se algum destes, como Castro Alves, pertence \u00e0 eternidade, seus versos podem servir e servem de incentivo \u00e0s voca\u00e7\u00f5es nascentes.<\/p>\n\n\n\n<p> Competindo-me dizer o que acho da atual poesia, atenho-me s\u00f3 aos poetas de recent\u00edssima data, melhor direi a uma escola agora dominante, cujos defeitos me parecem graves, cujos dotes \u2014 valiosos, e que poder\u00e1 dar muito de si, no caso de adotar a necess\u00e1ria emenda. <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o faltam \u00e0 nossa atual poesia fogo nem estro. Os versos publicados s\u00e3o geralmente ardentes e trazem o cunho da inspira\u00e7\u00e3o. N\u00e3o insisto na cor local; como acima disse, todas as formas a revelam com mais ou menos brilhante resultado; bastando-me citar neste caso as outras duas recentes obras, as Miniaturas de Gon\u00e7alves Crespo e os Quadros de J. Serra, versos estremados dos defeitos que vou assinalar. Acrescentarei que tamb\u00e9m n\u00e3o falta \u00e0 poesia atual o sentimento da harmonia exterior. Que precisa ela ent\u00e3o? Em que peca a gera\u00e7\u00e3o presente? Falta-lhe um pouco mais de corre\u00e7\u00e3o e gosto; peca na intrepidez \u00e0s vezes da express\u00e3o, na impropriedade das imagens na obscuridade do pensamento. A imagina\u00e7\u00e3o, que h\u00e1 deveras, n\u00e3o raro desvaira e se perde, chegando \u00e0 obscuridade, \u00e0 hip\u00e9rbole, quando apenas buscava a novidade e a grandeza. Isto na alta poesia l\u00edrica, \u2014 na ode, diria eu, se ainda subsistisse a antiga po\u00e9tica; na poesia \u00edntima e eleg\u00edaca encontram-se os mesmos defeitos, e mais um amaneirado no dizer e no sentir, o que tudo mostra na poesia contempor\u00e2nea grave doen\u00e7a, que \u00e9 for\u00e7a combater. <\/p>\n\n\n\n<p>Bem sei que as cenas majestosas da natureza americana exigem do poeta imagens e express\u00f5es adequadas. O condor que rompe dos Andes, o pampeiro que varre os campos do Sul, os grandes rios, a mata virgem com todas as suas magnific\u00eancias de vegeta\u00e7\u00e3o, \u2014 n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que s\u00e3o pain\u00e9is que desafiam o estro, mas, por isso mesmo que s\u00e3o grandes, devem ser trazidos com oportunidade e expressos com simplicidade. Ambas essas condi\u00e7\u00f5es faltam \u00e0 poesia contempor\u00e2nea, e n\u00e3o \u00e9 que escasseiem modelos, que a\u00ed est\u00e3o, para s\u00f3 citar tr\u00eas nomes, os versos de Bernardo Guimar\u00e3es, Varela e \u00c1lvares de Azevedo. Um \u00fanico exemplo bastar\u00e1 para mostrar que a oportunidade e a simplicidade s\u00e3o cabais para reproduzir uma grande imagem ou exprimir uma grande id\u00e9ia. N&#8217;Os Timbiras, h\u00e1 uma passagem em que o velho Ogib ouve censurarem-lhe o filho, porque se afasta dos outros guerreiros e vive s\u00f3. A fala do anci\u00e3o come\u00e7a com estes primorosos versos: <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><strong>S\u00e3o torpes os anuns, que em bandos folgam, <br>S\u00e3o maus os caititus que em varas pascem: <br>Somente o sabi\u00e1 geme sozinho, <br>E sozinho o condor aos c\u00e9us remonta.<\/strong><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p> Nada mais oportuno nem mais singelo do que isto. A escola a que aludo n\u00e3o exprimiria a id\u00e9ia com t\u00e3o simples meios, e faria mal, porque o sublime \u00e9 simples. Fora para desejar que ela versasse e meditasse longamente estes e outros modelos que a literatura brasileira lhe oferece. Certo, n\u00e3o lhe falta, como disse, imagina\u00e7\u00e3o; mas esta tem suas regras, o estro leis, e se h\u00e1 casos em que eles rompem as leis e as regras, \u00e9 porque as fazem novas, \u00e9 porque se chamam Shakespeare, Dante, Goethe, Cam\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<p>Indiquei os tra\u00e7os gerais. H\u00e1 alguns defeitos peculiares a alguns livros, como por exemplo, a ant\u00edtese, creio que por imita\u00e7\u00e3o de V\u00edtor Hugo. Nem por isso acho menos conden\u00e1vel o abuso de uma figura que, se nas m\u00e3os do grande poeta produz grandes efeitos, n\u00e3o pode constituir objeto de imita\u00e7\u00e3o, nem sobretudo elementos de escola. <\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma parte da poesia que, justamente preocupada com a cor local, cai muitas vezes numa funesta ilus\u00e3o. Um poeta n\u00e3o \u00e9 nacional s\u00f3 porque insere nos seus versos muitos nomes de flores ou aves do pa\u00eds, o que pode dar uma nacionalidade de vocabul\u00e1rio e nada mais. Aprecia-se a cor local, mas \u00e9 preciso que a imagina\u00e7\u00e3o lhe d\u00ea os seus toques, e que estes sejam naturais, n\u00e3o de acarreto. Os defeitos que resumidamente aponto n\u00e3o os tenho por incorrig\u00edveis; a cr\u00edtica os emendaria; na falta dela, o tempo se incumbir\u00e1 de trazer \u00e0s voca\u00e7\u00f5es as melhores leis. Com as boas qualidades que cada um pode reconhecer na recente escola de que falo, basta a a\u00e7\u00e3o do tempo, e se entretanto aparecesse uma grande voca\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, que se fizesse reformadora, \u00e9 fora de d\u00favida que os bons elementos entrariam em melhor caminho, e \u00e0 poesia nacional restariam as tradi\u00e7\u00f5es do per\u00edodo rom\u00e2ntico. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O Teatro <\/h2>\n\n\n\n<p>Esta parte pode reduzir-se a uma linha de retic\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 atualmente teatro brasileiro, nenhuma pe\u00e7a nacional se escreve, rar\u00edssima pe\u00e7a nacional se representa. As cenas teatrais deste pa\u00eds viveram sempre de tradu\u00e7\u00f5es, o que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o admitissem alguma obra nacional quando aparecia. Hoje, que o gosto p\u00fablico tocou o \u00faltimo grau da decad\u00eancia e pervers\u00e3o, nenhuma esperan\u00e7a teria quem se sentisse com voca\u00e7\u00e3o para compor obras severas de arte. Quem lhas receberia, se o que domina \u00e9 a cantiga burlesca ou obscena, o canc\u00e3, a m\u00e1gica aparatosa, tudo o que fala aos sentidos e aos instintos inferiores? <\/p>\n\n\n\n<p>E todavia a continuar o teatro, teriam as voca\u00e7\u00f5es novas alguns exemplos n\u00e3o remotos, que muito as haviam de animar. N\u00e3o falo das com\u00e9dias do Pena, talento sincero e original, a quem s\u00f3 faltou viver mais para aperfei\u00e7oar-se e empreender obras de maior vulto; nem tamb\u00e9m das trag\u00e9dias de Magalh\u00e3es e dos dramas de Gon\u00e7alves Dias, Porto-Alegre e Agr\u00e1rio. Mais recentemente, nestes \u00faltimos doze ou catorze anos, houve tal ou qual movimento. Apareceram ent\u00e3o os dramas e com\u00e9dias do Sr. J. de Alencar, que ocupou o primeiro lugar na nossa escola realista e cujas obras Dem\u00f4nio Familiar e M\u00e3e s\u00e3o de not\u00e1vel merecimento. Logo em seguida apareceram v\u00e1rias outras composi\u00e7\u00f5es dignas do aplauso que tiveram, tais como os dramas dos Srs. Pinheiro Guimar\u00e3es, Quintino Bocai\u00fava e alguns mais; mas nada disso foi adiante. Os autores cedo se enfastiaram da cena que a pouco e pouco foi decaindo at\u00e9 chegar ao que temos hoje, que \u00e9 nada. <\/p>\n\n\n\n<p>A prov\u00edncia ainda n\u00e3o foi de todo invadida pelos espet\u00e1culos de feira; ainda l\u00e1 se representa o drama e a com\u00e9dia, \u2014 mas n\u00e3o aparece, que me conste, nenhuma obra nova e original. E com estas poucas linhas fica liquidado este ponto. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A L\u00edngua <\/h2>\n\n\n\n<p>Entre os muitos m\u00e9ritos dos nossos livros nem sempre figura o da pureza da linguagem. N\u00e3o \u00e9 raro ver intercalado em bom estilo os solecismos da linguagem comum, defeito grave, a que se junta o da excessiva influ\u00eancia da l\u00edngua francesa. Este ponto \u00e9 objeto de diverg\u00eancia entre os nossos escritores. Diverg\u00eancia digo, porque, se alguns caem naqueles defeitos por ignor\u00e2ncia ou pregui\u00e7a, outros h\u00e1 que os adotam por princ\u00edpio, ou antes por uma exagera\u00e7\u00e3o de princ\u00edpio. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que as l\u00ednguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes. Querer que a nossa pare no s\u00e9culo de quinhentos, \u00e9 um erro igual ao de afirmar que a sua transplanta\u00e7\u00e3o para a Am\u00e9rica n\u00e3o lhe inseriu riquezas novas. A este respeito a influ\u00eancia do povo \u00e9 decisiva. H\u00e1, portanto, certos modos de dizer, locu\u00e7\u00f5es novas, que de for\u00e7a entram no dom\u00ednio do estilo e ganham direito de cidade. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><strong>Mas se isto \u00e9 um fato incontest\u00e1vel, e se \u00e9 verdadeiro o princ\u00edpio que dele se deduz, n\u00e3o me parece aceit\u00e1vel a opini\u00e3o que admite todas as altera\u00e7\u00f5es da linguagem, ainda aquelas que destroem as leis da sintaxe e a essencial pureza do idioma. A influ\u00eancia popular tem um limite; e o escritor n\u00e3o est\u00e1 obrigado a receber e dar curso a tudo o que o abuso, o capricho e a moda inventam e fazem correr. Pelo contr\u00e1rio, ele exerce tamb\u00e9m uma grande parte de influ\u00eancia a este respeito, depurando a linguagem do povo e aperfei\u00e7oando-lhe a raz\u00e3o.<\/strong><\/p><cite>machado de assis<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p> Feitas as exce\u00e7\u00f5es devidas n\u00e3o se l\u00eaem muito os cl\u00e1ssicos no Brasil. Entre as exce\u00e7\u00f5es poderia eu citar at\u00e9 alguns escritores cuja opini\u00e3o \u00e9 diversa da minha neste ponto, mas que sabem perfeitamente os cl\u00e1ssicos. Em geral, por\u00e9m, n\u00e3o se l\u00eaem, o que \u00e9 um mal. Escrever como Azurara ou Fern\u00e3o Mendes seria hoje um anacronismo insuport\u00e1vel. Cada tempo tem o seu estilo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><strong> Mas estudar-lhes as formas mais apuradas da linguagem, desentranhar deles mil riquezas, que, \u00e0 for\u00e7a de velhas se fazem novas, \u2014 n\u00e3o me parece que se deva desprezar. Nem tudo tinham os antigos, nem tudo t\u00eam os modernos; com os haveres de uns e outros \u00e9 que se enriquece o pec\u00falio comum. <\/strong><\/p><cite>mACHADO DE aSSIS<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>Outra coisa de que eu quisera persuadir a mocidade \u00e9 que a precipita\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe afian\u00e7a muita vida aos seus escritos. H\u00e1 um prurido de escrever muito e depressa; tira-se disso gl\u00f3ria, e n\u00e3o posso negar que \u00e9 caminho de aplausos. H\u00e1 inten\u00e7\u00e3o de igualar as cria\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito com as da mat\u00e9ria, como se elas n\u00e3o fossem neste caso inconcili\u00e1veis. Fa\u00e7a muito embora um homem a volta ao mundo em oitenta dias; para uma obra-prima do esp\u00edrito s\u00e3o precisos alguns mais. Aqui termino esta not\u00edcia. Viva imagina\u00e7\u00e3o, delicadeza e for\u00e7a de sentimentos, gra\u00e7as de estilo, dotes de observa\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise, aus\u00eancia \u00e0s vezes de gosto, car\u00eancias \u00e0s vezes de reflex\u00e3o e pausa, l\u00edngua nem sempre pura, nem sempre copiosa, muita cor local, eis aqui por alto os defeitos e as excel\u00eancias da atual literatura brasileira, que h\u00e1 dado bastante e tem cert\u00edssimo futuro.<br><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-61ecc280 wp-block-columns-is-layout-flex\" style=\"padding-top:2.5rem;padding-right:2.5rem;padding-bottom:2.5rem;padding-left:2.5rem\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:25%\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img data-dominant-color=\"7b583b\" data-has-transparency=\"true\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"562\" height=\"860\" sizes=\"auto, (max-width: 562px) 100vw, 562px\" src=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/machado.avif\" alt=\"\" class=\"wp-image-3754 has-transparency\" style=\"--dominant-color: #7b583b; width:125px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/machado.avif 562w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/machado-196x300.avif 196w\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:75%\">\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Machado de Assis<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto-Fonte:Obra Completa de Machado de Assis,Rio de Janeiro: Nova Aguilar, vol. 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