{"id":3672,"date":"2025-05-07T15:15:06","date_gmt":"2025-05-07T15:15:06","guid":{"rendered":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/?p=3672"},"modified":"2025-07-17T21:15:28","modified_gmt":"2025-07-17T21:15:28","slug":"o-problema-da-filosofia-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2025\/05\/07\/o-problema-da-filosofia-no-brasil\/","title":{"rendered":"O PROBLEMA DA FILOSOFIA NO BRASIL &#8211; Bento Prado Jr."},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-large-font-size\">                                                                                      <strong>I<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Falar sobre a filosofia no Brasil<sup data-fn=\"4c2ef709-8b87-4e53-9235-8aa6af02f363\" class=\"fn\"><a id=\"4c2ef709-8b87-4e53-9235-8aa6af02f363-link\" href=\"#4c2ef709-8b87-4e53-9235-8aa6af02f363\">1<\/a><\/sup> \u00e9 tarefa particularmente embara\u00e7osa. Poder\u00edamos definir esta dificuldade em termos aristot\u00e9licos: como saber <em>o que \u00e9 <\/em>uma coisa, se n\u00e3o sabermos ao certo <em>se ela \u00e9<\/em>? A esta dificuldade fundamental soma-se outra, mais geral, relativa ao pr\u00f3prio sentido da no\u00e7\u00e3o de <em>filosofia nacional: <\/em>n\u00e3o est\u00e1, nesta no\u00e7\u00e3o, essencialmente, prejudicado o ideal de universidade inerente \u00e0 filosofia? Certamente houve, e ainda h\u00e1, historiadores preocupados em recortar a hist\u00f3ria do pensamento segundo as fronteiras dos \u201cesp\u00edritos das na\u00e7\u00f5es\u201d. A tarefa do historiador consistiria, dessa perspectiva, em ultrapassar a diversidade dos estilos e dos temas que separa aparentemente os pensadores e as gera\u00e7\u00f5es, em dire\u00e7\u00e3o de uma \u201cvis\u00e3o do mundo\u201d mais ou menos constante. N\u00e3o cabe aqui a discuss\u00e3o da pertin\u00eancia desta perspectiva: indicamo-la para abandon\u00e1-la em seguida. O que nos interessa nela \u00e9 apenas o <em>contraponto <\/em>para atribuir um sentimento m\u00ednimo e provis\u00f3rio \u00e0 no\u00e7\u00e3o de filosofia nacional e situar corretamente a \u00e1rea da quest\u00e3o relativa \u00e0 filosofia do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de filosofia nacional recobre habitualmente dois preconceitos nem sempre discern\u00edveis: um preconceito psicologista e um preconceito historicista. A filosofia \u00e9 a\u00ed pensada como a <em>express\u00e3o de <\/em>uma alma ou de um esp\u00edrito cuja natureza permanece inalterada ao longo da Hist\u00f3ria. \u00c9 a identidade do esp\u00edrito que garante a continuidade da Hist\u00f3ria e que faz com que as v\u00e1rias filosofias pare\u00e7am suceder-se dentro de um mesmo tempo, como as frases sucessivas de um \u00fanico discurso. A \u00eanfase no eixo diacr\u00f4nico e a tese da express\u00e3o est\u00e3o intimamente entretecidas na raiz da ideia de filosofia nacional. Mas, na cumplicidade entre esses pressupostos, o que se perde \u00e9 a autonomia da hist\u00f3ria da filosofia e a natureza do pr\u00f3prio discurso filos\u00f3fico: a filosofia apenas exprime algo que a precede e n\u00e3o podemos distingui-la jamais da mera ideologia.<\/p>\n\n\n\n<p>Significa isto que todo estudo de uma cultura nacional seja necessariamente historicista e psicologista? Certamente n\u00e3o, e a prova disto pode ser encontrada na pr\u00f3pria bibliografia relativa \u00e0 hist\u00f3ria da cultura brasileira. Referindo-nos \u00e0 <em>Forma\u00e7\u00e3o da Literatura Brasileira <\/em>de Antonio Candido e, mais precisamente, aos conceitos que prop\u00f5e em sua \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o\u201d. O que n\u00f3s ai encontramos \u00e9 o esbo\u00e7o de uma compreens\u00e3o da literatura brasileira \u2013 de sua hist\u00f3ria e de sua identidade &#8211; que se coloca para al\u00e9m das dificuldades do psicologismo e do historicismo. E isto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel atrav\u00e9s da distin\u00e7\u00e3o essencial que A. Candido a\u00ed estabelece entre a simples <em>manifesta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria <\/em>e a <em>literatura <\/em>propriamente dita. Nesta oposi\u00e7\u00e3o, a no\u00e7\u00e3o de literatura significa algo a mais do que a simples cole\u00e7\u00e3o das obras ou das manifesta\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias: ela significa essencialmente um <em>Sistema. <\/em>Nem \u00e9, tampouco, a unidade da <em>l\u00edngua <\/em>que confere sistematicidade a uma literatura. \u00c9 como se a leitura se localizasse menos na l\u00edngua que lhe serve de suporte, ou na soma das obras que constituem a sua mat\u00e9ria do que no espa\u00e7o branco que as articula, separando-as. H\u00e1 literatura e existe um tal sistema quando ler um autor significa interpretar a dist\u00e2ncia que o separa dos demais, N\u00e3o \u00e9, assim, uma \u201calma nacional\u201d que se exprime nesse sistema \u2013 \u00e9, ao contr\u00e1rio, nele que os indiv\u00edduos e os grupos interpretam e reinterpretam suas \u201calmas\u201d. Antipsicologista, esta perspectiva \u00e9 tamb\u00e9m anti-historicista: \u00e9 s\u00f3 no interior de um sistema sincr\u00f4nico desse tipo que a hist\u00f3ria assume sentido positivo e que a diacronia se torna intelig\u00edvel. \u00c9 s\u00f3 quando se estabelece um sistema desse tipo que \u00e9 poss\u00edvel a :<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><strong>(\u2026) forma\u00e7\u00e3o da continuidade liter\u00e1ria \u2013 esp\u00e9cie de transmiss\u00e3o da tocha entre corredores, que assegura no tempo o movimento conjunto, definindo os lineamentos de um todo<\/strong><sup data-fn=\"b5216d17-f1eb-4598-ac72-6119f5f954a8\" class=\"fn\"><a id=\"b5216d17-f1eb-4598-ac72-6119f5f954a8-link\" href=\"#b5216d17-f1eb-4598-ac72-6119f5f954a8\">2<\/a><\/sup>.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c9 essa distin\u00e7\u00e3o ou esta atitude que permite, por exemplo, a A. Candido, ao contr\u00e1rio da rotina dos manuais, datar a instaura\u00e7\u00e3o da literatura brasileira, a iniciar a sua hist\u00f3ria real a partir de meados do s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n\n\n\n<p>Se nos voltarmos, com o mesmo esp\u00edrito, da literatura para a filosofia brasileira, a nossa conclus\u00e3o ser\u00e1 diferente: o seu registro de nascimento ainda n\u00e3o foi lavrado. H\u00e1 obras, \u00e9 certo, e nenhuma \u201cescola\u201d filos\u00f3fica, provavelmente, deixa de estar representada nas \u201cmanifesta\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas\u201d de nosso pa\u00eds. Sem diminuir o interesse dessas obras \u2013 pois h\u00e1 not\u00e1veis -, cabe assinalar que resenh\u00e1-las n\u00e3o implicaria nenhuma informa\u00e7\u00e3o para o leitor europeu; sem contar com o fato de que um \u201cpanorama\u201d dessa ordem n\u00e3o caberia nos limites de um artigo. Aqui <em>tamb\u00e9m <\/em>se faz marxismo, fenomenologia, existencialismo, positivismo etc.: mas, quase sempre, o que se faz \u00e9 <em>divulga\u00e7\u00e3o. <\/em>Essas obras e esses trabalhos n\u00e3o se organizam no tempo pr\u00f3prio de uma tradi\u00e7\u00e3o, nem se articulam no interior de um sistema pr\u00f3prio: \u00e9 de fora, sempre, que lhe vem a sua coes\u00e3o. E \u00e9 por isso que um historiador das ideias no Brasil afirma que o pensador brasileiro, mantendo a sua postura de consumidor, conserva ainda os tra\u00e7os de Macuna\u00edma, o curioso personagem do romance de M\u00e1rio de Andrade:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><strong>Macuna\u00edma trata de fartar-se de todas as comezainas, de todas as frutas. Fala de indument\u00e1ria, mas veste-se pouco (\u2026) canta todas as can\u00e7\u00f5es e dan\u00e7a todas as m\u00fasicas. \u00c9 o herdeiro ladino mais ignorante de todas as culturas, todos os instintos.<\/strong><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-large-font-size\">                                                                       <strong>               II<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 incontest\u00e1vel, assim, que n\u00e3o h\u00e1 no Brasil um conjunto de obras filos\u00f3ficas que componha um sistema ou uma tradi\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma. Mas, justamente por isso, talvez possamos falar de uma experi\u00eancia particular da filosofia no Brasil, que tem essa car\u00eancia como horizonte. Talvez, a maneira mais adequada de descrever a situa\u00e7\u00e3o da filosofia do Brasil seja a de mostrar como os pensadores assumem essa car\u00eancia da cultura nacional e como interrogam, atrav\u00e9s dela, a possibilidade de sua pr\u00f3pria filosofia.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez pud\u00e9ssemos caracterizar inicialmente essa experi\u00eancia como a experi\u00eancia de uma temporalidade invertida: nela a reflex\u00e3o precede a percep\u00e7\u00e3o, a filosofia precede a pr\u00f3pria filosofia. Aqui, a coruja de Minerva levanta voo ao amanhecer. Isto quer dizer que a consci\u00eancia do vazio cultural faz com que at\u00e9 mesmo o historiador das ideias tenha uma preocupa\u00e7\u00e3o essencialmente prospectiva: o que ele busca no passado s\u00e3o os germes do que ele acredita que a filosofia <em>deve ser <\/em>no futuro. \u00c9 como se tent\u00e1ssemos, na inspe\u00e7\u00e3o de um passado n\u00e3o-filos\u00f3fico, adivinhar os tra\u00e7os de uma filosofia que est\u00e1 por vir. Nessa busca do tempo perdido, h\u00e1 algo de pat\u00e9tico, algo como uma Na\u00e7\u00e3o \u00e0 procura do seu pr\u00f3prio \u201cesp\u00edrito\u201d. Adiante, procuraremos mostrar o equ\u00edvoco que acreditamos encontrar na raiz das tentativas desse tipo \u2013 por ora, limitamo-nos a exp\u00f4-las.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos s\u00e3o os estudos sobre a filosofia no Brasil e cada um traz consigo n\u00e3o s\u00f3 uma imagem diferente do que foi a hist\u00f3ria de nosso pensamento, como tamb\u00e9m uma ideia diversa da natureza da pr\u00f3pria filosofia e das tarefas do fil\u00f3sofo num pa\u00eds subdesenvolvido. Na impossibilidade de tra\u00e7ar um mapa completo de todos os trabalhados dessa \u00e1rea e conscientes da injusti\u00e7a de n\u00e3o lembrar outras tantas tentativas significativas, deter-nos-emos na considera\u00e7\u00e3o de duas obras t\u00edpicas: a de Jo\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>Cruz Costa e a de \u00c1lvaro Vieira Pinto<sup data-fn=\"f7178414-e419-4289-bbf7-23c5d896afae\" class=\"fn\"><a id=\"f7178414-e419-4289-bbf7-23c5d896afae-link\" href=\"#f7178414-e419-4289-bbf7-23c5d896afae\">3<\/a><\/sup>. Embora os estilos sejam radicalmente opostos e recorram a m\u00e9todos diferentes, os dois autores colocam, em \u00faltima inst\u00e2ncia, como veremos, o mesmo problema: que \u00e9 a que deve ser a filosofia no Brasil? Um pouco da \u201catmosfera\u201d, pelo menos, da filosofia em nosso pa\u00eds poder\u00e1 ficar patente atrav\u00e9s da resenha desses ensaios:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>Nas obras de Jo\u00e3o Cruz Costa, o exame da filosofia brasileira \u00e9 feito sob o signo de <em>historicismo, <\/em>do qual n\u00e3o podem escapar, segundo ele, mesmo aqueles que o contestam. A caracteriza\u00e7\u00e3o da natureza do pensamento brasileiro, o desenho de seu perfil atual, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel, nessa perspectiva, atrav\u00e9s da recupera\u00e7\u00e3o de sua <em>origem. <\/em>\u00c9 assim o legado colonial que serve de matriz primitiva para esse pensamento e \u00e9 a sua estrutura que governa nossa experi\u00eancia e explica as contradi\u00e7\u00f5es de nossa aventura intelectual. A hist\u00f3ria do pensamento no Brasil passa ent\u00e3o a ser interpretada como a hist\u00f3ria da domestica\u00e7\u00e3o de uma nova experi\u00eancia pelas <em>formas <\/em>oferecidas pela cultura portuguesa.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Mas qual \u00e9 a experi\u00eancia da filosofia que a heran\u00e7a lus\u00edada prefigura ou propicia? Essa heran\u00e7a \u00e9 descrita, inicialmente, de maneira negativa e aparece, antes de mais nada, como <em>obst\u00e1culo <\/em>\u00e0 filosofia. Pois \u00e9 exatamente no momento quem se inicia a coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil que os jesu\u00edtas e a Contra Reforma fecham o pensamento portugu\u00eas ao sopro de renova\u00e7\u00e3o que atravessa a Europa e que viria a instaurar o pensamento e a ci\u00eancia moderna. \u00c9 o humanismo formalista e livresco dessa nova escol\u00e1stica que domina e cristaliza a cultura da metr\u00f3pole e que estende a sua hegemonia \u00e0 nova col\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>O humanismo artificial, que foi infligido a Portugal, impressionou com tal for\u00e7a a sua intelig\u00eancia que alguns de seus tra\u00e7os se notam ainda na nossa: o <em>formalismo <\/em>em que esta ainda se debate, vem \u2013 cremos \u2013 dessa origem. A <em>ret\u00f3rica, <\/em>o <em>gramaticismo, <\/em>a <em>erudi\u00e7\u00e3o livresca <\/em>s\u00e3o tra\u00e7os que herdamos da forma\u00e7\u00e3o, dita <em>humanista, <\/em>derivada do s\u00e9culo XVI portugu\u00eas<sup data-fn=\"fa257761-3b1d-448a-bf50-86b4e73e02b7\" class=\"fn\"><a id=\"fa257761-3b1d-448a-bf50-86b4e73e02b7-link\" href=\"#fa257761-3b1d-448a-bf50-86b4e73e02b7\">4<\/a><\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Transplantado para os tr\u00f3picos, esses escolasticismo assume fei\u00e7\u00e3o nova e o seu formalismo se torna tanto mais radical quanto se destaca sobre o fundo da nova paisagem. O <em>desenraizamento <\/em>e a <em>aliena\u00e7\u00e3o <\/em>peculiares dessa atitude persistem, segundo Jo\u00e3o da Cruz Costa, at\u00e9 nas produ\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas, sob a forma do entusiasmo pelo jarg\u00e3o esot\u00e9rico da \u00faltima filosofia da moda. A\u00ed j\u00e1 temos os tra\u00e7os fundamentais de uma esp\u00e9cie de psicossociologia do pensador brasileiro: <em>\u00e9 na fascina\u00e7\u00e3o pela ret\u00f3rica <\/em>da filosofia que ele esquece e esconde a sua condi\u00e7\u00e3o real e \u00e9 com palavras que constr\u00f3i o seu pal\u00e1cio imagin\u00e1rio. E \u00e9 a pr\u00f3pria cultura que deixa, assim, de ser instrumento de decifra\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia e de cr\u00edtica, para tornar-se <em>qualidade, <\/em>marca de privil\u00e9gio ou de distin\u00e7\u00e3o de classe, para transformar-se em realidade camuflada. \u00c9 praticamente, apenas em meados do s\u00e9culo XIX e, mais profundamente, depois da primeira guerra mundial que come\u00e7a a ser usada, n\u00e3o apenas como campo de <em>r\u00eaverie <\/em>do exilado no tr\u00f3pico, mas como forma de cr\u00edtica da realidade brasileira. Essa muta\u00e7\u00e3o e, ali\u00e1s, contempor\u00e2nea do surgimento da preocupa\u00e7\u00e3o com a \u201crealidade brasileira\u201d: segundo Jo\u00e3o Cruz Costa, o esp\u00edrito livresco e formalista s\u00f3 come\u00e7a a entrar em recesso quando a filosofia se volta para sua radica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e o fil\u00f3sofo liga a sua tarefa te\u00f3rica aos destinos da Na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nem tudo, na heran\u00e7a colonial, \u00e9 formalismo e obst\u00e1culo ao pensamento cr\u00edtico. Mesmo a liberta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito livresco acha-se prefigurada na matriz do pensamento portugu\u00eas. Reportando-se \u00e0 hist\u00f3ria da cultura portuguesa, Jo\u00e3o Cruz Costa lembra o realismo e o pragmatismo como caracter\u00edsticas que nem a pedagogia jesu\u00edtica conseguiu apagar inteiramente:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><strong>Desde muito cedo, pois, o pensamento portugu\u00eas se apresentou marcado por uma finalidade <em>pr\u00e1tica. <\/em>Ele gravitar\u00e1 em torno de uma problem\u00e1tica realista, de <em>objeto preciso, limitado, concreto. <\/em>O sentido do \u00fatil, do imediato \u00e9 o que de prefer\u00eancia a\u00ed transparece. \u00c9 como dir\u00e1 o poeta Jo\u00e3o de Barros: <em>\u201co terrestre amor das realidades humanas, o profundo sentido realista da exist\u00eancia\u201d. <\/em>N\u00e3o fugiu a este sentido pr\u00e1tico da exist\u00eancia o pr\u00f3prio jesu\u00edta<\/strong><sup data-fn=\"8c8650b6-c026-43de-9008-9aadd93356b0\" class=\"fn\"><a id=\"8c8650b6-c026-43de-9008-9aadd93356b0-link\" href=\"#8c8650b6-c026-43de-9008-9aadd93356b0\">5<\/a><\/sup>.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c9 este pragmatismo origin\u00e1rio que nos convida a mudar a estrat\u00e9gia da nossa leitura: \u00e9 preciso \u201cdescascar\u201d as obras filos\u00f3ficas para ler o seu sentido verdadeiro. Por debaixo de sua linguagem universalizante e de sua aparente inten\u00e7\u00e3o te\u00f3rica \u00e9 preciso desenterrar a inten\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica imediata e a refer\u00eancia a uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica precisa. Mesmo quando a sua linguagem \u00e9 celeste, esse filosofia fala do s\u00f3lido mundo terreno: o que implica que a \u00fanica leitura poss\u00edvel dessas obras \u00e9 a leitura <em>ideol\u00f3gica. <\/em>\u00c9 o pragmatismo lusitano, que se perpetua na voca\u00e7\u00e3o essencialmente pol\u00edtica e ideol\u00f3gica, que Jo\u00e3o Cruz Costa rastreia ao longo da hist\u00f3ria das ideias no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Como interpretar, dessa perspectiva, o sentido do \u00eaxito do ecletismo na primeira metade do s\u00e9culo XIX brasileiro? Jo\u00e3o Cruz Costa no-lo apresenta como a ideologia exigida pela circunst\u00e2ncia peculiar ao Segundo Imp\u00e9rio. Nos discursos do Frei Francisco de Mont&#8217;Alverne, no elogio de Cousin &#8211; que, segundo o \u201cverbos\u00edssimo frade\u201d , \u201cse levantou como um Deus, no meio do caos\u201d, e \u201creconstruiu a filosofia, apresentando as verdades, de que o esp\u00edrito humano esteve sempre de posse\u201d -, o que se estabelece e, na realidade, a justifica\u00e7\u00e3o te\u00f3rica das necessidades pol\u00edticas da classe dominante no per\u00edodo que vai da abdica\u00e7\u00e3o de Pedro I at\u00e9 a Maioridade de Pedro II. A \u201cpaz filos\u00f3fica\u201d institu\u00edda pelo ecletismo \u00e9 o fundamento da \u201cpaz pol\u00edtica\u201d desejada pelos moderados, cujos interesses est\u00e3o expressos na frase de um pol\u00edtico da \u00e9poca: <em>\u201cNada de excessos. Queremos a Constitui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o queremos a revolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma maneira, quando na segunda metade do s\u00e9culo XIX o surto do positivismo, do spencerismo e do evolucionismo, permite uma revis\u00e3o global de todas as \u00e1reas da cultura nacional, ele exprime a presen\u00e7a de uma nova consci\u00eancia pol\u00edtica: essa renova\u00e7\u00e3o intelectual corresponde \u00e0s primeiras tentativas da burguesia para assumir o comando econ\u00f4mico e pol\u00edtico da na\u00e7\u00e3o. \u00c9 nos seguintes termos que Jo\u00e3o Cruz Costa caracteriza, por exemplo, o fundamento hist\u00f3rico da difus\u00e3o do positivismo:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><strong>Deste modo, na segunda metade do s\u00e9culo XIX, ao mesmo tempo em que se acentuava o antagonismo econ\u00f4mico entre os tradicionais burgueses, propriet\u00e1rios de terra \u2013 que governavam o pa\u00eds como se governassem suas fazendas -, e os representantes de nossos interesses, acentuava-se tamb\u00e9m a simpatia pelas ideias novas que as transforma\u00e7\u00f5es havidas desde os princ\u00edpios do s\u00e9culo haviam posto em circula\u00e7\u00e3o. A partir de 1870, esta <em>nova burguesia <\/em>assume papel de import\u00e2ncia sobretudo no setor intelectual. \u00c9 dessa burguesia, formada por militares, m\u00e9dicos e engenheiros \u2013 mais pr\u00f3ximos das ci\u00eancias positivas, gra\u00e7as \u00e0 \u00edndole de suas profiss\u00f5es \u2013 que ir\u00e1 surgir o movimento positivista no Brasil. Alguns dos que ir\u00e3o aderir ao movimento s\u00e3o homens desiludidos do ecletismo espiritualista que se ensinava entre n\u00f3s e que se confundia com uma ret\u00f3rica palavrosa e in\u00fatil (\u2026) S\u00e3o homens que se voltam para a ci\u00eancia e que nela creem encontrar resposta satisfat\u00f3ria e solu\u00e7\u00f5es definitivas para todos os problemas. Em outros, ajunta-se ainda o antagonismo que se estabelecia entre as cren\u00e7as religiosas tradicionais e as tend\u00eancias republicanas as quais haviam dado a sua ades\u00e3o<\/strong><sup data-fn=\"b1227611-342f-4cfa-ae5b-bb6c3eaafb79\" class=\"fn\"><a id=\"b1227611-342f-4cfa-ae5b-bb6c3eaafb79-link\" href=\"#b1227611-342f-4cfa-ae5b-bb6c3eaafb79\">6<\/a><\/sup>.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>Se examinarmos globalmente a interpreta\u00e7\u00e3o que Cruz Costa nos oferece da hist\u00f3ria das ideias no Brasil, verificamos que ela \u00e9 comandada essencialmente por uma dial\u00e9tica que op\u00f5e formalismo a realismo, especula\u00e7\u00e3o a pragmatismo, transoceanismo a radia\u00e7\u00e3o da cultura nacional, metaf\u00edsica a cr\u00edtica social. Este sistema de oposi\u00e7\u00f5es define, \u00e9 claro, n\u00e3o apenas o fio condutor da interpreta\u00e7\u00e3o do passado, mas projeta tamb\u00e9m uma concep\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria filosofia, seu ideal e seu programa. Nesse programa, o trabalho filos\u00f3fico deve passar necessariamente pela an\u00e1lise cr\u00edtica da realidade nacional e a reflex\u00e3o n\u00e3o pode jamais abandonar o seu referente hist\u00f3rico, sob a pena de transformar-se em mero galimatias. Necessidade que se revela de maneira mais que evidente nas Am\u00e9ricas:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><strong>A intelig\u00eancia nos pa\u00edses americanos \u2013 como escreve Alfonso Reyes \u2013 n\u00e3o teve tempo de romper com os est\u00edmulos da a\u00e7\u00e3o, como aconteceu nos pa\u00edses de velhas civiliza\u00e7\u00f5es, nos quais podem edificar-se torres de marfim e teorias extravagantes, segundo as quais o homem de pensamento que participe da vida de seu s\u00e9culo tem que ser um cl\u00e9rigo traidor. Para n\u00f3s, a filosofia aut\u00eantica sempre esteve ligada \u00e0 a\u00e7\u00e3o. Tinha raz\u00e3o, pois, a nosso ver, Cl\u00f3vis Bevil\u00e1cqua quando dizia <em>que se algum dia pudermos alcan\u00e7ar mais significativa produ\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, ela n\u00e3o surgir\u00e1 dos cimos da metaf\u00edsica<\/em><\/strong><sup data-fn=\"06d42234-138b-488c-8f14-1bc54b0f63c8\" class=\"fn\"><a id=\"06d42234-138b-488c-8f14-1bc54b0f63c8-link\" href=\"#06d42234-138b-488c-8f14-1bc54b0f63c8\">7<\/a><\/sup>.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9, assim, uma infelicidade que a intelig\u00eancia americana n\u00e3o tenha rompido com os \u201cest\u00edmulos da a\u00e7\u00e3o\u201d: o que Jo\u00e3o Cruz Costa aponta, atrav\u00e9s das palavras de Alfonso Reyes, \u00e9 que na juventude da civiliza\u00e7\u00e3o americana podemos encontrar algo a mais do que uma simples imaturidade. O que ocorre aqui \u00e9 uma s\u00fabita invers\u00e3o, no qual o simples negativo passa a positivo: o que era pensado como car\u00eancia e vazio cultural passa a ser pensado como liberdade diante do peso da tradi\u00e7\u00e3o. A metaf\u00edsica \u2013 ruptura com os est\u00edmulos da a\u00e7\u00e3o ou <em>esquecimento da origem \u2013, <\/em>fruto de uma consci\u00eancia serva da tradi\u00e7\u00e3o, dificilmente pode florescer no novo continente. Se \u201cpara n\u00f3s a filosofia aut\u00eantica sempre esteve ligada \u00e0 a\u00e7\u00e3o\u201d, podemos estar seguros de que dificilmente cairemos nas ilus\u00f5es das \u201cteorias extravagantes\u201d que encerram o fil\u00f3sofo numa torre de marfim.<\/p>\n\n\n\n<p>Se acompanharmos, assim, o movimento de an\u00e1lise de Jo\u00e3o Cruz Costa, na passagem da sua reconstru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria das ideias no Brasil \u00e0 ideia de filosofia que nos prop\u00f5e, verificamos que o pragmatismo herdado da cultura portuguesa vem finalmente transformar-se numa filosofia <em>engag\u00e9e, <\/em>que n\u00e3o quer esquecer a sua radica\u00e7\u00e3o na <em>pr\u00e1xis.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>2. Embora num estilo inteiramente diverso, a obra de \u00c1lvaro Vieira Pinto visa o mesmo problema. Aqui tamb\u00e9m a discuss\u00e3o da especificidade do pensamento brasileiro parte da considera\u00e7\u00e3o da radica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da filosofia e de sua efic\u00e1cia pol\u00edtica. Aqui tamb\u00e9m encontramos a formula\u00e7\u00e3o de um projeto essencialmente pr\u00e1tico: a filosofia no Brasil n\u00e3o deve ser a mera reprodu\u00e7\u00e3o da metaf\u00edsica europeia, ela deve transformar-se numa forma aut\u00f4noma de compreender e de dirigir o destino da na\u00e7\u00e3o. Mais do que isso, a condi\u00e7\u00e3o de consumidor de cultura e de filosofia, que caracteriza o pensador brasileiro, \u00e9 a\u00ed diretamente interpretada em termos pol\u00edticos: o subdesenvolvimento econ\u00f4mico e a depend\u00eancia cultural se superp\u00f5em e a filosofia europeia assume a fisionomia do imperialismo. Assim como o judeu ou o negro para Sartre, o pensador brasileiro deve, para \u00c1lvaro Vieira Pinto, assumir a sua \u201cbrasilidade\u201d para atingir a sua \u201cautenticidade\u201d, para passar da condi\u00e7\u00e3o de \u201cobjeto\u201d \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u201csujeito\u201d aut\u00f4nomo, da aliena\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade. Os la\u00e7os que unem o pensamento nacional ao pensamento europeu s\u00e3o aqueles que definem a dial\u00e9tica do Mestre e do Escravo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como j\u00e1 se pode adivinhar, agora n\u00e3o mais nos encontramos diante da tentativa de caracterizar o pensamento brasileiro atrav\u00e9s do exame da hist\u00f3ria das ideias. Aqui, se se pode falar de uma \u201chist\u00f3ria\u201d, encontramo-nos diante de uma hist\u00f3ria \u201cpura\u201d, diante de uma esp\u00e9cie de Fenomenologia do Esp\u00edrito. N\u00e3o se trata de descobrir o estilo de um pensamento atrav\u00e9s da an\u00e1lise das obras em que se objetivou, mas de tra\u00e7ar a dial\u00e9tica que deve percorrer a consci\u00eancia no \u201celemento\u201d de uma cultura dependente. N\u00e3o \u00e9 mais o historicismo que fornece a perspectiva de \u00c1lvaro Vieira Pinto, mas um hegelianismo interpretado \u00e0 luz da filosofia contempor\u00e2nea, saturado de existencialismo e de marxismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O hegelianismo transparece no projeto de examinar o problema da filosofia no Brasil \u00e0 luz de uma teoria da g\u00eanese da consci\u00eancia: do movimento que a conduz das trevas da passividade \u00e0 compreens\u00e3o clara e \u00e0 domina\u00e7\u00e3o da <em>totalidade. <\/em>Consci\u00eancia e Totalidade, tais s\u00e3o as categorias a que recorre \u00c1lvaro Vieira Pinto para descrever a odisseia do pensamento nacional, o itiner\u00e1rio que o conduz de sua primitiva aliena\u00e7\u00e3o \u00e0 autonomia a que come\u00e7a a ter acesso. Como em Hegel, a consci\u00eancia \u00e9 apenas o <em>lugar <\/em>onde a \u201csubst\u00e2ncia\u201d pode tornar-se transparente para si mesma, ela n\u00e3o \u00e9 exterior ao Ser ou ao Todo de que \u00e9 consci\u00eancia. Mas, aqui, a \u201csubst\u00e2ncia\u201d \u00e9 a Na\u00e7\u00e3o que, na situa\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento, permanece opaca a si mesma, incapaz de al\u00e7ar-se ao n\u00edvel do Saber; o tema real deste discurso \u00e9 o subdesenvolvimento especulativamente definido como inadequa\u00e7\u00e3o entre o <em>em- si <\/em>e o <em>para-si.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Mas, nesta dial\u00e9tica, na qual a no\u00e7\u00e3o de Ser foi substitu\u00edda pela ideia de Na\u00e7\u00e3o, a tarefa da media\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser desempenhada pelo <em>conceito. <\/em>A media\u00e7\u00e3o ou a reconcilia\u00e7\u00e3o entre o em-si e o para-si, entre a verdade objetiva e a certeza subjetiva, entre a realidade nacional e a consci\u00eancia pol\u00edtica que lhe corresponde, s\u00f3 pode ser desempenhada por uma <em>ideologia<\/em>, pela ideologia <em>do desenvolvimento<\/em>. Nesta ideologia, em que os <em>interesses <\/em>da na\u00e7\u00e3o com um todo v\u00eam \u00e0 luz, \u00e9 a pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o que realiza o seu destino e se encarna como <em>universal concreto:<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><strong>Existencialmente, a na\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre singular e concreta. Logo \u00e9 mera exig\u00eancia abstrata e sem sentido real, pedir ao fil\u00f3sofo que pense em geral, ou seja, de modo v\u00e1lido indistintamente, a realidade hist\u00f3rica. N\u00e3o lhe \u00e9 dado conceber a realidade sen\u00e3o fundando-se no ponto do espa\u00e7o e na \u00e9poca em que viva; por isso, perde todo senso a exig\u00eancia de universalidade abstrata, s\u00f3 se justifica a pretens\u00e3o de universalidade concreta. Desde que a na\u00e7\u00e3o a qual perten\u00e7o \u00e9 \u00fanica, pois para mim n\u00e3o h\u00e1 outra, \u00e9 por isso mesmo universal. \u00c9 o universal concreto<\/strong><sup data-fn=\"7c3e5f43-4868-42a9-83f1-325f7465a7af\" class=\"fn\"><a id=\"7c3e5f43-4868-42a9-83f1-325f7465a7af-link\" href=\"#7c3e5f43-4868-42a9-83f1-325f7465a7af\">8<\/a><\/sup>.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>Mas, atrav\u00e9s desta nova vers\u00e3o da ideia hegeliana de <em>Universal Concreto <\/em>n\u00f3s deslizamos para fora do universo hegeliano: ela nos conduz para uma filosofia de tipo existencial, em que \u00e9 essencial a tese da <em>finidade da consci\u00eancia. <\/em>Pois se a na\u00e7\u00e3o \u00e9 universal porque \u201cpara mim n\u00e3o h\u00e1 outra coisa\u201d, essa universalidade tamb\u00e9m <em>\u00e9 para mim<\/em>, isto \u00e9, repousa da <em>finidade da minha perspectiva. <\/em>O que se pensa, aqui, portanto, sob o nome de \u201cuniversal concreto\u201d \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a no\u00e7\u00e3o de <em>situa\u00e7\u00e3o<\/em>, tal como definem os fil\u00f3sofos da exist\u00eancia. A recusa da universalidade abstrata n\u00e3o significa aqui a substitui\u00e7\u00e3o da perspectiva do <em>Verstand, <\/em>do entendimento \u201cseparador\u201d pela <em>Vernunft, <\/em>raz\u00e3o totalizadora e absoluta, mas a substitui\u00e7\u00e3o da perspectiva objetivista da <em>explica\u00e7\u00e3o <\/em>pela perspectiva da <em>compreens\u00e3o. <\/em>O concreto n\u00e3o \u00e9 mais, tamb\u00e9m, o objeto do saber conceitual que percorreu a totalidade das media\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 o objeto de uma experi\u00eancia vivida: o concreto emigrou do campo do <em>Logos <\/em>para o dom\u00ednio do <em>Lebenswelt. <\/em>O grande advers\u00e1rio da \u201cideologia do desenvolvimento\u201d seria aquilo que Merleau-Ponty chamava de \u201c<em>la pens\u00e9e de survol\u201d <\/em>e a tarefa do pensador, que promove essa ideologia, \u00e9 a de fazer o pensamento coincidir com o \u201cponto-de-vista nacional\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>A consci\u00eancia ing\u00eanua (<em>aquela que n\u00e3o coincide com o ponto-de-vista concreto e v\u00ea a na\u00e7\u00e3o \u201cde <\/em>fora<em>\u201d<\/em>) (\u2026) n\u00e3o problematiza a realidade nacional, que lhe aparece como facilmente redut\u00edvel aos conceitos de que disp\u00f5e, geralmente recebidos da maneira tradicional de julgar. A consci\u00eancia critica, por\u00e9m, considera-se um desafio, a que cumpre responder, mas, e isto \u00e9 o que a caracteriza, para faz\u00ea-lo, serve-se da l\u00f3gica que induz da pr\u00f3pria realidade onde se oferece tal problema. Ora, essa l\u00f3gica, como tivemos ocasi\u00e3o de indicar, n\u00e3o \u00e9 nem formal nem abstrata, antes \u00e9 a forma e a lei da reflex\u00e3o que abrange e exprime o mundo a partir de um contexto hist\u00f3rico e social definido, mais concretamente ainda, de um ponto-de-vista nacional, aquele a que pertence o pensador<sup data-fn=\"e5d3db64-bba4-4dd7-b9ae-e92c3aba8af0\" class=\"fn\"><a id=\"e5d3db64-bba4-4dd7-b9ae-e92c3aba8af0-link\" href=\"#e5d3db64-bba4-4dd7-b9ae-e92c3aba8af0\">9<\/a><\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esse <em>glissement <\/em>das significa\u00e7\u00f5es, que nos conduz da dial\u00e9tica hegeliana \u00e0 compreens\u00e3o existencial, da objetividade do conceito \u00e0 subjetividade da consci\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 o \u00faltimo: a dial\u00e9tica da consci\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 o \u00faltimo: a dial\u00e9tica da consci\u00eancia finita vem finalmente superpor-se a uma dial\u00e9tica <em>materialista. <\/em>Pois, a realidade de que se fala e que a consci\u00eancia nacional deve recuperar e interiorizar \u00e9, finalmente, <em>o processo da produ\u00e7\u00e3o.<\/em>. A liberdade a que essa consci\u00eancia pode ter acesso, ao eliminar a sua \u201cingenuidade\u201d ou a sua aliena\u00e7\u00e3o, \u00e9 a liberdade do <em>planejamento de sua vida material. <\/em>O fil\u00f3sofo n\u00e3o \u00e9 mais aqui o <em>funcion\u00e1rio da humanidade<\/em>, que deve tornar poss\u00edvel a tomada de consci\u00eancia radical do sentido da experi\u00eancia humana em sua totalidade: ele \u00e9 o <em>assessor de um governo \u201cdesenvolvimentista\u201d. <\/em>A tarefa do fil\u00f3sofo n\u00e3o \u00e9 outra sen\u00e3o a de destruir os obst\u00e1culos ideol\u00f3gicos que se op\u00f5em ao desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, nesta superposi\u00e7\u00e3o de perspectivas filos\u00f3ficas diversas, \u00e9 a dimens\u00e3o da exist\u00eancia que acaba por ser privilegiada: pois a dial\u00e9tica da \u201crealidade nacional\u201d tem sempre sua raiz num <em>projeto<\/em>, isto \u00e9, numa dial\u00e9tica da consci\u00eancia. N\u00e3o se busca aqui a dial\u00e9tica que engloba ou dissolve as estruturas objetivas que comandam a exist\u00eancia material, mas aquela dial\u00e9tica interna atrav\u00e9s da qual a consci\u00eancia cr\u00ea poder coincidir consigo mesma e, como Narciso diante de sua pr\u00f3pria imagem, recuperar o Mundo no sil\u00eancio de sua intimidade. A constitui\u00e7\u00e3o da filosofia \u201cnacional\u201d, mesmo estando ligada a uma tarefa essencialmente pol\u00edtica, teria algo da ternura com que uma subjetividade complacente se descobre e se fascina pela sua incr\u00edvel identidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-large-font-size\">                                                                                      <strong>III<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como pensar estas duas maneiras de situar o problema da filosofia no Brasil e da ideia de filosofia que nos prop\u00f5em?<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>No caso de \u00c1lvaro Vieira Pinto, como vimos, a filosofia \u00e9 pensada simultaneamente como <em>express\u00e3o <\/em>e como <em>cr\u00edtica <\/em>da \u201crealidade nacional\u201d. Mas \u00e9 justamente a simultaneidade desses dois tra\u00e7os que torna dif\u00edcil esta ideia da filosofia. Pens\u00e1-la como express\u00e3o significa dissolv\u00ea-la sobre o fundo da pr\u00e9-hist\u00f3ria, recusar-lhe a autonomia da teoria. A filosofia nada mais \u00e9, assim, do que uma formula\u00e7\u00e3o mais refinada daquilo que j\u00e1 est\u00e1 presente no n\u00edvel da experi\u00eancia e n\u00e3o representa nenhuma ruptura radical em rela\u00e7\u00e3o ao senso comum. \u00c1lvaro Vieira Pinto descreve, \u00e9 verdade, a convers\u00e3o da \u201catitude ing\u00eanua\u201d na \u201cconsci\u00eancia cr\u00edtica\u201d, e sabemos que a filosofia \u00e9, para ele, essa convers\u00e3o. Mas a oposi\u00e7\u00e3o a\u00ed estabelecida \u00e9 mais de natureza \u00e9tica ou existencial do que de ordem epistemol\u00f3gica: trata-se antes de uma rejei\u00e7\u00e3o tal como a que se pode estabelecer entre a autenticidade e a inautenticidade, do que da rela\u00e7\u00e3o que se estabelece entre ci\u00eancia e percep\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 essencial , \u00e9 que n\u00e3o se define o estatuto <em>te\u00f3rico <\/em>da filosofia e que n\u00e3o se pode distingui-la da ideologia. De resto, a indistin\u00e7\u00e3o entre teoria e ideologia \u00e9 explicitamente assumida por \u00c1lvaro Vieira Pinto. N\u00e3o se trata, apenas, de reconhecer que o discurso filos\u00f3fico \u00e9 suscept\u00edvel de um uso ideol\u00f3gico ou de que todo conceito, na medida em que mergulha na pr\u00e1tica social, se transforma em instrumento: trata-se de afirmar que a filosofia n\u00e3o deve aspirar a outro destino, que ela <em>deve <\/em>ser ideologia.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o se trata, apenas, de uma superposi\u00e7\u00e3o que torna problem\u00e1tica a concep\u00e7\u00e3o da filosofia: a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de ideologia se torna amb\u00edgua. Ela n\u00e3o mais significa a consci\u00eancia deformada ou interessada que os indiv\u00edduos e os grupos podem ter da realidade social, em virtude de sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o no interior da sociedade: ela significa, tamb\u00e9m, uma forma de consci\u00eancia privilegiada, algo como uma subjetividade \u201cboa\u201d ou eficaz. N\u00e3o que n\u00e3o se possa falar de uma ideologia ou de uma forma de consci\u00eancia privilegiada \u2013 basta pensarmos no caso do marxismo \u2013 mas, no caso do marxismo, o privil\u00e9gio \u00e9 justificado (ao menos \u00e9 essa sua pretens\u00e3o) de maneira objetiva e cient\u00edfica, o que garante a dist\u00e2ncia entre ci\u00eancia e ideologia. \u00c9 a superposi\u00e7\u00e3o entre a teoria marxista da ideologia e a psicologia existencialista da autenticidade que d\u00e1 forma a essa concep\u00e7\u00e3o peculiar de ideologia que encontramos na obra de \u00c1lvaro Vieira Pinto. \u00c9 dessa superposi\u00e7\u00e3o que derivam as dificuldades impl\u00edcitas na sua defini\u00e7\u00e3o e que envolve a combina\u00e7\u00e3o, em seu recesso, de voluntarismo e espontane\u00edsmo, impulso e opera\u00e7\u00e3o, tend\u00eancia e programa. \u00c9 o que aparece, por exemplo, no simples projeto de \u201cconstruir uma ideologia\u201d: que se \u201cconstrua\u201d uma teoria, ou que se analise uma ideologia \u00e9 coisa compreens\u00edvel: mais bizarra parece ser a ideia de elaborar uma vis\u00e3o n\u00e3o-cient\u00edfica da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas todas essas dificuldades derivam, em \u00faltima an\u00e1lise, do fato de que \u00e9 uma metaf\u00edsica da consci\u00eancia que encontramos na obra de \u00c1lvaro Vieira Pinto: uma filosofia que \u00e9 incapaz de distinguir entre a consci\u00eancia, pura e simples, e o conhecimento. A \u00eanfase no polo da consci\u00eancia A\u00ed aparece com a fun\u00e7\u00e3o de abandonar a metaf\u00edsica objetivista eu empirismo que se denuncia, com justi\u00e7a, nas ra\u00edzes de certos trabalhos na \u00e1rea das ci\u00eancias humanas. Mas, como j\u00e1 observou um cr\u00edtico agudo do livro de \u00c1lvaro Vieira Pinto, \u00e9 o pr\u00f3prio ideal da objetividade e de racionalidade que se abandona quando se mergulha no \u201cperspectivismo\u201d protag\u00f3rico que, desdenhando a universalidade \u201cmeramente formal\u201d, s\u00f3 reconhece a substancialidade da \u201cverdade-para-a-consci\u00eancia-nacional\u201d<sup data-fn=\"52b56087-ef2b-4259-b19b-426a46a7e6ae\" class=\"fn\"><a id=\"52b56087-ef2b-4259-b19b-426a46a7e6ae-link\" href=\"#52b56087-ef2b-4259-b19b-426a46a7e6ae\">10<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><strong>Arrogando-se o direito de constituir uma \u201cl\u00f3gica\u201d particular e apropriada a cada situa\u00e7\u00e3o dada, n\u00e3o se recusa apenas a universalidade \u201cabstrata\u201d da l\u00f3gica formal, \u00e9 a <em>pr\u00f3pria ideia de universalidade <\/em>que entrou em f\u00e9rias. Da inseparabilidade da teoria e da pr\u00e1tica, chega-se \u00e0 possibilidade de alterar as categorias segundo as exig\u00eancias da pr\u00e1tica atual, de adotar as categorias \u201cque nos conv\u00eam&#8230;\u201d Marx, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 Prot\u00e1goras. Quando induz suas pr\u00f3prias categorias a partir da an\u00e1lise de uma forma\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica dada, apresenta-as como universais. Se esta universalidade n\u00e3o tem mais o mesmo conte\u00fado que o da l\u00f3gica formal, guarda ainda o mesmo sentido. Se agora se afirma que as categorias do pensamento universalista devem ser <em>adaptadas <\/em>a cada realidade nacional e a cada um de seus momentos, ent\u00e3o \u00e9 preciso dar exemplos desta adapta\u00e7\u00e3o; distinguir antes de tudo os conceitos heur\u00edsticos das ci\u00eancias humanas e os conceitos ideol\u00f3gicos puros. Pois a palavra \u201cadapta\u00e7\u00e3o\u201d ter\u00e1 sentido diferente quando se tratar: a) da teoria aristot\u00e9lica do ju\u00edzo; b) do teorema de Fermat ou do princ\u00edpio de Carnot; c) da teoria marxista do valor ; d) da intui\u00e7\u00e3o bergsoniana. Cabe ao leitor decidir em que casos a adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 absurda, \u00e9 fecunda ou in\u00fatil. Na aus\u00eancia destas distin\u00e7\u00f5es, a \u201cconsci\u00eancia cr\u00edtica\u201d arrisca-se a cair no subjetivismo<\/strong><sup data-fn=\"aeae782e-89ba-4ab2-8e5c-1a68f4d77290\" class=\"fn\"><a id=\"aeae782e-89ba-4ab2-8e5c-1a68f4d77290-link\" href=\"#aeae782e-89ba-4ab2-8e5c-1a68f4d77290\">11<\/a><\/sup>.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 apenas O conhecimento racional e a <em>teoria \u2013 <\/em>an\u00e1lise cient\u00edfica ou cr\u00edtica filos\u00f3fica \u2013 que perde seu estatuto ou sua especificidade no interior deste subjetivismo. O mesmo, poder\u00edamos dizer, ocorre com a pr\u00e1tica pol\u00edtica, embora esta filosofia tenha essencialmente a preocupa\u00e7\u00e3o de fundament\u00e1-la. Pois, se a consci\u00eancia \u201caut\u00eantica\u201d \u00e9 uma consci\u00eancia <em>nacional, <\/em>se a na\u00e7\u00e3o \u00e9 um universal concreto, a ess\u00eancia da pol\u00edtica emigra para o espa\u00e7o que <em>separa <\/em>as na\u00e7\u00f5es, nas suas rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia ou de contesta\u00e7\u00e3o: esses \u201corganismos\u201d desconhecem toda contradi\u00e7\u00e3o interna. Toda crise interna s\u00f3 poder\u00e1 ser entendida como a interioriza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o que a na\u00e7\u00e3o suporta em rela\u00e7\u00e3o ao exterior e uma ideia como a de <em>classe social <\/em>n\u00e3o pode receber significa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica essencial. Assim como reduzir o conhecimento \u00e0 mera tomada de consci\u00eancia, esta metaf\u00edsica reduz a pol\u00edtica \u00e0 t\u00e9cnica do desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>2.&nbsp; Na obra de Jo\u00e3o Cruz Costa n\u00e3o encontramos a exposi\u00e7\u00e3o de uma metaf\u00edsica assim discut\u00edvel e sim uma minuciosa hist\u00f3ria das ideias. Mas nem por isso essa hist\u00f3ria deixa de implicar uma s\u00e9ria de pressupostos de natureza filos\u00f3fica. E \u00e9 precisamente a natureza dessa filosofia impl\u00edcita \u2013 do historicismo a que j\u00e1 aludimos \u2013 que deve ser analisada e discutida.<\/p>\n\n\n\n<p>O pressuposto b\u00e1sico desta exegese do pensamento brasileiro \u00e9 o da perman\u00eancia, atrav\u00e9s do tempo, de um mesmo horizonte \u2013 a hist\u00f3ria que descreve e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a hist\u00f3ria de uma <em>mesma <\/em>experi\u00eancia, interpretada por uma <em>mesma <\/em>consci\u00eancia. As mudan\u00e7as que aponta se inscrevem sobre o fundo unit\u00e1rio de um mesmo processo ou de um mesmo progresso. \u00c9 por isso que podemos reconhecer nessa hist\u00f3ria \u2013 embora sua mat\u00e9ria seja antes a ideologia do que a ci\u00eancia \u2013 a marca de L\u00e9on Brunschvicg, que foi seu mestre. Mas \u00e9 justamente o car\u00e1ter unit\u00e1rio que se acredita descobrir na hist\u00f3ria da Raz\u00e3o ou da Consci\u00eancia que \u00e9 suscept\u00edvel de discuss\u00e3o: e que seria oportuno contrapor, ao modelo de Brunschvicg, aquele proposto nas an\u00e1lises da hist\u00f3ria do pensamento feitas por G. Canguilhem. Pois \u00e9 nessas an\u00e1lises que a ideia de progresso ou de enriquecimento \u00e9 substitu\u00edda pela ideia de descontinuidade e transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 a\u00ed que se percebe que:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><em><strong>L&#8217;histoire des \u201cid\u00e9es\u201d ou des \u201csciences\u201d ne doit plus \u00eatre le relev\u00e9 des innovations, mais l&#8217;analyse descriptive des diff\u00e9rentes transformations effectu\u00e9es<\/strong><\/em><sup data-fn=\"3a9ed822-f604-4e60-8eca-83dccbc56ecc\" class=\"fn\"><a id=\"3a9ed822-f604-4e60-8eca-83dccbc56ecc-link\" href=\"#3a9ed822-f604-4e60-8eca-83dccbc56ecc\">12<\/a><\/sup><em>.<\/em><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>Mas qual \u00e9 a necessidade de substituir uma perspectiva pela outra? O que \u00e9 que nos impede de manter a perspectiva de uma hist\u00f3ria linear das ideias ou das ci\u00eancias? O que se perde, dessas perspectiva, \u00e9 a heterogeneidade dos <em>campos epistemol\u00f3gicos <\/em>nos quais gravitam os diversos discursos e onde eles v\u00e3o buscar as suas regras de forma\u00e7\u00e3o. Sem a descri\u00e7\u00e3o desse horizonte, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sequer a interpreta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Tomemos um exemplo concreto: o conselheiro de D. Jo\u00e3o VI, Silvestre Pinheiro Ferreira, pol\u00edgrafo portugu\u00eas que permaneceu no Brasil de 1809 a 1821, e que no Rio de Janeiro pontifica sobre filosofia, desde a Teoria do Discurso at\u00e9 a Cosmologia. Falando da introdu\u00e7\u00e3o no Brasil, por volta dos \u00faltimos anos do s\u00e9culo XVIII, de comp\u00eandios como o de Ant\u00f4nio Genovesi, Jo\u00e3o Cruz Costa nos diz que esse manual:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><strong>(\u2026) vai influenciar em certo momento o pr\u00f3prio Silvestre Pinheiro Ferreira, que n\u00e3o se dava muito bem com o <em>tenebroso barbarismo dos her\u00e1clitos da Alemanha <\/em>nem com <em>a fantasmagoria dos ecl\u00e9ticos de Fran\u00e7a <\/em>(\u2026) C\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o aos sistemas de filosofia, inimigo declarado deles, Genovesi estava talhado a servir ao tra\u00e7o fundamental do esp\u00edrito do pensamento portugu\u00eas, voltado para a pr\u00e1tica, para uma concep\u00e7\u00e3o muito terrena do sentido da filosofia<\/strong><sup data-fn=\"4cad5291-4332-4d32-99e7-58c97e65f065\" class=\"fn\"><a id=\"4cad5291-4332-4d32-99e7-58c97e65f065-link\" href=\"#4cad5291-4332-4d32-99e7-58c97e65f065\">13<\/a><\/sup>.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 o pragmatismo lusitano que est\u00e1 na raiz desta recusa do \u201ctenebroso barbarismo dos her\u00e1clitos da Alemanha\u201d e da \u201cfantasmagoria dos ecl\u00e9ticos de Fran\u00e7a\u201d? Ser\u00e1 a psicologia nacional que impede a Silvestre Pinheiro compreender as aulas de Fichte e de Schelling a que assiste na Alemanha? Com efeito, \u00e9 com humor que caracteriza a filosofia desses disc\u00edpulos de Kant: <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><strong>Nem um s\u00f3 encontramos que n\u00e3o dissesse que ele s\u00f3 entendia Kant. Por este modo, o em que todos concordavam \u00e9 que ningu\u00e9m o entendia<\/strong><sup data-fn=\"93feebbf-61e6-4f83-8bf5-f2310685e93c\" class=\"fn\"><a id=\"93feebbf-61e6-4f83-8bf5-f2310685e93c-link\" href=\"#93feebbf-61e6-4f83-8bf5-f2310685e93c\">14<\/a><\/sup>.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel, ao menos, formular uma outra hip\u00f3tese<sup data-fn=\"98cea554-089e-4e51-afd6-66074d890069\" class=\"fn\"><a id=\"98cea554-089e-4e51-afd6-66074d890069-link\" href=\"#98cea554-089e-4e51-afd6-66074d890069\">15<\/a><\/sup>: n\u00e3o \u00e9 o pensador portugu\u00eas que n\u00e3o compreende o idealismo alem\u00e3o, e sim o pensador <em>ilustrado<\/em>; n\u00e3o \u00e9 o fil\u00f3sofo pragm\u00e1tico que recusa esse \u201cbarbarismo\u201d, \u00e9 o pensador que n\u00e3o abandonou o campo da <em>epist\u00e9me <\/em>cl\u00e1ssica (no sentido que Foucault atribui \u00e0 palavra), que n\u00e3o sabe e n\u00e3o pode movimentar-se no campo aberto pela modernidade. Com efeito, mostrou-se como, na obra de Silvestre Pinheiro, a Gram\u00e1tica Geral, a Hist\u00f3ria Natural, a An\u00e1lise das Riquezas, a Teoria dos Sinais, enfim, guardam a figura que lhes havia dado o pensamento cl\u00e1ssico. Se desloc\u00e1ssemos Condillac de seu tempo eu fiz\u00e9ssemos assistir aulas de Schelling, n\u00e3o poderia ele tamb\u00e9m pensar no \u201ctenebroso barbarismo dos Her\u00e1clitos da Alemanha\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>Mais dif\u00edcil ainda nos parece interpretar a situa\u00e7\u00e3o atual do pensamento no Brasil, suas perplexidades e suas contradi\u00e7\u00f5es, sobre o fundo da matriz fundamental do legado colonial. Certamente n\u00e3o somos capazes de explicitar o horizonte da contemporaneidade como \u00e9 poss\u00edvel fazer para um pensamento <em>passado, <\/em>e menos ainda de circunscrever, com precis\u00e3o, os seus pontos cr\u00edticos. De tudo que se afirmar a esse respeito, poderemos dizer com Foucault?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><strong>Bien s\u00fbr, ce ne sont pas l\u00e1 des affirmations, tout au plus des questions auxquelles, il n&#8217;est pas possible de r\u00e9pondre; il faut les laisser em suspens l\u00e0 o\u00f9 eles se posent em sachant seulement que la possibilit\u00e9 de les poser ouvre sans doute sur une pens\u00e9e future<\/strong><sup data-fn=\"6d82d823-68dc-4759-8ae0-d82909ddf442\" class=\"fn\"><a id=\"6d82d823-68dc-4759-8ae0-d82909ddf442-link\" href=\"#6d82d823-68dc-4759-8ae0-d82909ddf442\">16<\/a><\/sup>.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>Mas o que podemos dizer \u00e9 que o legado colonial, ou a \u201cpsicologia\u201d do pensador do pa\u00eds subdesenvolvido, n\u00e3o \u00e9 mais determinante do que a coer\u00e7\u00e3o exercida sobre seu pensamento pela \u201cpositividade\u201d que visa, pelos conceitos de que lan\u00e7a m\u00e3o e pelas exig\u00eancias pr\u00f3prias do discurso que desdobra. S\u00e3o esses elementos que aparecem como regra de suas op\u00e7\u00f5es e limite de seu discurso, s\u00e3o essas estruturas que, contempor\u00e2neas, pro\u00edbem ou libertam uma proposi\u00e7\u00e3o, que fazem a partilha ente o que deve ser dito eu que deve ser calado. \u00c9 certo que ele pode e deve pensar seu pa\u00eds e sua hist\u00f3ria \u2013 mas nesse caso o pa\u00eds e a hist\u00f3ria ser\u00e3o um objeto, como outros, e n\u00e3o uma \u201cestrutura transcendental\u201d ou um <em>a priori <\/em>subjetivo. Pensar de outra maneira \u00e9 tornar novamente imposs\u00edvel a distin\u00e7\u00e3o entre experi\u00eancia e ci\u00eancia, entre ideologia e filosofia, \u00e9 esquecer as exig\u00eancias mais essenciais da pr\u00f3pria filosofia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-large-font-size\">                                                                                     <mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-theme-palette-4-color\"><strong> IV<\/strong><\/mark><\/p>\n\n\n\n<p>Indicamos, no in\u00edcio deste artigo, como a ideia de \u201cfilosofia nacional\u201d pode recobrir uma concep\u00e7\u00e3o bastante discut\u00edvel da Hist\u00f3ria da Filosofia, fundada num psicologismo e num historicismo dogm\u00e1ticos, e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, numa metaf\u00edsica da consci\u00eancia. Mas, quando a ideia de filosofia nacional deixa de ser um instrumento nas m\u00e3os do historiador para transformar-se num ideal ou num programa do pr\u00f3prio fil\u00f3sofo, as dificuldades se multiplicam ao infinito. Esse programa s\u00f3 pode encontrar as suas justificativas fora da filosofia, na <em>ideologia do nacionalismo. <\/em>De um nacionalismo que n\u00e3o se entende como <em>etapa<\/em>, que se det\u00e9m na preocupa\u00e7\u00e3o com a <em>autonomia, <\/em>que n\u00e3o suspeita que a autonomia nacional pode exigir mudan\u00e7as mais radicais, que acredita que ela pode ser promovida atrav\u00e9s de uma harmoniosa alian\u00e7a entre as classes: de um nacionalismo, enfim, que parece ter sido desqualificado na hist\u00f3ria mais recente dos pa\u00edses latino-americanos, em benef\u00edcio de uma teoria e de uma pr\u00e1tica mais radicais.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez a expectativa de uma \u201cfilosofia brasileira\u201d esteja, de fato, essencialmente associada a essa perspectiva pol\u00edtica, cuja inconsist\u00eancia veio \u00e0 luz com o golpe militar de 1\u00ba de Abril de 1964. Talvez seja por essa raz\u00e3o, ainda, que a preocupa\u00e7\u00e3o com a filosofia brasileira ou com a sua hist\u00f3ria seja t\u00e3o rara ente as mais jovens gera\u00e7\u00f5es de estudiosos de filosofia, os nossos alunos que, h\u00e1 sete anos, alimentados pela literatura do Instituto Superior de Estudos Brasileiros do governo \u201cdesenvolvimentista\u201d de Juscelino Kubitschek, exigiam cursos sobre \u201cl\u00f3gica brasileira\u201d, leem hoje preferencialmente Marx e Heidegger, Althusser e Foucault e protestam menos \u2013 ou de maneira diferente \u2013 contra o car\u00e1ter \u201ct\u00e9cnico\u201d dos cursos que recebem. Se isto for verdade, a \u201catmosfera\u201d que procuramos descrever nestas p\u00e1ginas j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o atual. Mas as \u201catmosferas\u201d s\u00f3 se tornam vis\u00edveis e descrit\u00edveis quando j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o \u201cvividas\u201d sem dist\u00e2ncia e iniciam o seu eclipse.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>(O presente texto est\u00e1 publicado em PRADO J\u00daNIOR, Bento. Alguns Ensaios: Filosofia, Literatura e Psican\u00e1lise. 2\u00aa ed. S\u00e3o Paulo, Paz e Terra, 200, p. 153-171.)<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-61ecc280 wp-block-columns-is-layout-flex\" style=\"padding-top:2.5rem;padding-right:2.5rem;padding-bottom:2.5rem;padding-left:2.5rem\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:25%\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"601\" height=\"833\" sizes=\"auto, (max-width: 601px) 100vw, 601px\" src=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/dossie_abre-ineditos_Bento-Prado-Junior-1993-e1723133212904.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3674\" style=\"width:217px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/dossie_abre-ineditos_Bento-Prado-Junior-1993-e1723133212904.jpg 601w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/dossie_abre-ineditos_Bento-Prado-Junior-1993-e1723133212904-216x300.jpg 216w\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:75%\">\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Bento Prado Junior<\/h2>\n\n\n\n<p>Fil\u00f3sofo que ri da filosofia. Not\u00f3rio caminhante da cena filos\u00f3fica noturna da Maria Antonia. Dizem que era poss\u00edvel saber as horas com exatid\u00e3o conforme o fil\u00f3sofo flanava pelos bares.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\">Autor<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"4c2ef709-8b87-4e53-9235-8aa6af02f363\">Este texto foi publicado, em tradu\u00e7\u00e3o italiana, em <em>Aut-Aut, Rivista di Filosofia e Cultura, <\/em>n\u00ba 109-110, Mil\u00e3o, 1969. Mais recentemente(numa confer\u00eancia proferida no <em>campus <\/em>de Araraquara da UNESP, a qual n\u00e3o cheguei a dar forma liter\u00e1ria final) tive oportunidade de nuan\u00e7ar muito meu coment\u00e1rio \u00e0 obra do mestre Jo\u00e3o Cruz Costa. Hoje, sem d\u00favida, n\u00e3o mais poderia reconhecer-me no <em>p\u00e1thos <\/em>\u201cestruturalo-gauchista\u201d de <em>bom tom <\/em>no ano de 1968, e minha cr\u00edtica de ent\u00e3o aparece-me hoje antes como um confirma\u00e7\u00e3o da acuidade do \u201cgolpe de vista\u201d hist\u00f3rico de Cruz Costa, para usar a linguagem de Paulo Eduardo Arantes e para a qual eu era cego na ocasi\u00e3o. Se me permito publicar, tal e qual, o texto de 1968, sem acrescentar a indispens\u00e1vel revis\u00e3o e autocr\u00edtica, \u00e9 porque o mesmo Paulo Arantes acaba de publicar um ensaio (\u201cCruz Costa e herdeiros nos idos de 60\u201d) na revista <em>Filosofia Pol\u00edtica, <\/em>n\u00ba 2, onde comenta tanto o meu texto da <em>Aut-Aut <\/em>como a reformula\u00e7\u00e3o posterior de minha atitude. As cr\u00edticas de Paulo Arantes a meu primeiro texto, que endosso integralmente, dispensam, de minha parte, o prolongamento imediato da discuss\u00e3o. <a href=\"#4c2ef709-8b87-4e53-9235-8aa6af02f363-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"b5216d17-f1eb-4598-ac72-6119f5f954a8\">Antonio Candido, <em>Forma\u00e7\u00e3o da Literatura Brasileira, <\/em>S\u00e3o Paulo, Livraria Martins, vol. 1, p.18. <a href=\"#b5216d17-f1eb-4598-ac72-6119f5f954a8-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"f7178414-e419-4289-bbf7-23c5d896afae\">Jo\u00e3o Cruz Costa, antigo professor de Filosofia da Faculdade de Filosofia da Universidade de S\u00e3o Paulo: referimo-nos, neste artigo, particularmente a seu livro <em>Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria das Ideias no Brasil (O desenvolvimento da filosofia no Brasil), <\/em>(S\u00e3o Paulo, Jos\u00e9 Olympio). \u00c1lvaro Vieira Pinto, antigo professor de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi tamb\u00e9m respons\u00e1vel pelo departamento de Filosofia do Instituto Superior de Estudos Brasileiros do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura; referimo-nos aqui especialmente o seu livro <em>Consci\u00eancia e Realidade Nacional <\/em>(ISEB, 1960). <a href=\"#f7178414-e419-4289-bbf7-23c5d896afae-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"fa257761-3b1d-448a-bf50-86b4e73e02b7\">Jo\u00e3o Cruz Costa, <em>Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria das Ideias no Brasil, <\/em>p.36. <a href=\"#fa257761-3b1d-448a-bf50-86b4e73e02b7-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 4 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"8c8650b6-c026-43de-9008-9aadd93356b0\">Jo\u00e3o Cruz Costa, <em>op. cit.<\/em>, p. 438. <a href=\"#8c8650b6-c026-43de-9008-9aadd93356b0-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 5 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"b1227611-342f-4cfa-ae5b-bb6c3eaafb79\">Jo\u00e3o Cruz Costa, <em>op. cit.<\/em>, p. 142-143. <a href=\"#b1227611-342f-4cfa-ae5b-bb6c3eaafb79-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 6 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"06d42234-138b-488c-8f14-1bc54b0f63c8\">Jo\u00e3o Cruz Costa, <em>op. cit.<\/em>, p. 442. <a href=\"#06d42234-138b-488c-8f14-1bc54b0f63c8-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 7 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"7c3e5f43-4868-42a9-83f1-325f7465a7af\">\u00c1lvaro Vieira Pinto, <em>Consci\u00eancia e Realidade Nacional, <\/em>vol. 2., p. 361. <a href=\"#7c3e5f43-4868-42a9-83f1-325f7465a7af-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 8 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"e5d3db64-bba4-4dd7-b9ae-e92c3aba8af0\">\u00c1lvaro Vieira Pinto, <em>op. cit.<\/em>, vol. 1, p. 214. <a href=\"#e5d3db64-bba4-4dd7-b9ae-e92c3aba8af0-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 9 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"52b56087-ef2b-4259-b19b-426a46a7e6ae\">Referimo-nos ao ensaio cr\u00edtico de G\u00e9rard Lebrun: \u201cA &#8216;Realidade Nacional&#8217; e seus equ\u00edvocos\u201d, de que nos utilizamos largamente neste artigo. <a href=\"#52b56087-ef2b-4259-b19b-426a46a7e6ae-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 10 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"aeae782e-89ba-4ab2-8e5c-1a68f4d77290\">G\u00e9rard Lebrun, \u201cA &#8216;Realidade Nacional&#8217; e seus equ\u00edvocos\u201d, <em>Revista Brasiliense, <\/em>n\u00ba 44, p.49. <a href=\"#aeae782e-89ba-4ab2-8e5c-1a68f4d77290-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 11 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"3a9ed822-f604-4e60-8eca-83dccbc56ecc\">Michel Foucault, <em>R\u00e9ponse \u00e0 une question, <\/em>\u201cEsprit\u201d, n\u00ba 5, mai 1968, p. 857. <a href=\"#3a9ed822-f604-4e60-8eca-83dccbc56ecc-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 12 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"4cad5291-4332-4d32-99e7-58c97e65f065\">Jo\u00e3o Cruz Crosta, <em>op. cit.<\/em>, p. 73. <a href=\"#4cad5291-4332-4d32-99e7-58c97e65f065-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 13 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"93feebbf-61e6-4f83-8bf5-f2310685e93c\">Jo\u00e3o Cruz Crosta, <em>op. cit.<\/em>, p. 70. <a href=\"#93feebbf-61e6-4f83-8bf5-f2310685e93c-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 14 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"98cea554-089e-4e51-afd6-66074d890069\">\u00c9 a hip\u00f3tese formulada na tese de doutoramento, in\u00e9dita, de Maria Beatriz Marques Nizza da Silva: <em>Metodologia da Hist\u00f3ria do Pensamento, (An\u00e1lise Concreta: o pensamento de Silvestre Pinheiro Ferreira). <\/em>Nesta tese, a autora mostra a solidariedade essencial que une o pensamento de Silvestre Pinheiro \u00e0 rede do pensamento cl\u00e1ssico. <a href=\"#98cea554-089e-4e51-afd6-66074d890069-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 15 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"6d82d823-68dc-4759-8ae0-d82909ddf442\">Michel Foucault, <em>Les Mots et les Choses, <\/em>Paris, Gallimard, p. 192. <a href=\"#6d82d823-68dc-4759-8ae0-d82909ddf442-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 16 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I Falar sobre a filosofia no Brasil1 \u00e9 tarefa particularmente embara\u00e7osa. Poder\u00edamos definir esta dificuldade em termos aristot\u00e9licos: como saber o que \u00e9 uma coisa, se n\u00e3o sabermos ao certo se ela \u00e9? A esta dificuldade fundamental soma-se outra, mais geral, relativa ao pr\u00f3prio sentido da no\u00e7\u00e3o de filosofia nacional: n\u00e3o est\u00e1, nesta no\u00e7\u00e3o, essencialmente,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":3674,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_kadence_starter_templates_imported_post":false,"_kad_post_transparent":"","_kad_post_title":"","_kad_post_layout":"","_kad_post_sidebar_id":"","_kad_post_content_style":"","_kad_post_vertical_padding":"","_kad_post_feature":"","_kad_post_feature_position":"","_kad_post_header":false,"_kad_post_footer":false,"_kad_post_classname":"","footnotes":"[{\"content\":\"Este texto foi publicado, em tradu\u00e7\u00e3o italiana, em <em>Aut-Aut, Rivista di Filosofia e Cultura, <\/em>n\u00ba 109-110, Mil\u00e3o, 1969. 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