{"id":363,"date":"2019-04-16T20:20:32","date_gmt":"2019-04-16T23:20:32","guid":{"rendered":"https:\/\/tradutoresproletarios.wordpress.com\/?p=363"},"modified":"2021-02-04T17:39:02","modified_gmt":"2021-02-04T17:39:02","slug":"o-reino-da-liberdade-e-o-reino-da-necessidade-uma-reconsideracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2019\/04\/16\/o-reino-da-liberdade-e-o-reino-da-necessidade-uma-reconsideracao\/","title":{"rendered":"O reino da liberdade e o reino da necessidade: uma reconsidera\u00e7\u00e3o \u2014 Herbert Marcuse"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Herbert Marcuse, 1969<\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2019\/03\/o-reino-da-necessidade-e-o-reino-da-liberdade-01.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-364\" width=\"2500\" height=\"1500\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-white-color has-dark-gray-background-color has-text-color has-background\"><em>     Neste texto, Marcuse nos rememora a import\u00e2ncia e a for\u00e7a dos conceitos ut\u00f3picos, e utiliza uma frase dos muros de paris de 68 como exemplo: \u201cSejamos realistas, exijamos o imposs\u00edvel\u201d. Hoje, mais do que nunca, o pensamento de Herbert Marcuse se faz necess\u00e1rio: a sociedade atualmente \u00e9 mais unidimensional do que no pr\u00f3prio tempo de Marcuse. antes era poss\u00edvel dizer sobre comunismo e o fim da sociedade que era colocada; hoje, fazendo refer\u00eancia ao texto de Mark Fisher, \u201c\u00e9 mais f\u00e1cil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo\u201d. <br>     O movimento estudantil \u00e9 posto como minoria dirigente a fim de articular o que est\u00e1 reprimido nas massas, isto \u00e9, s\u00e3o eles que fazem com que a utopia encarne nas aspira\u00e7\u00f5es do povo. Marcuse atinge o cerne da reflex\u00e3o quando contrap\u00f5e os reinos da liberdade e necessidade &#8211; aqui \u00e9 inserida a problem\u00e1tica da mudan\u00e7a qualitativa. Aqui se montam os conceitos ut\u00f3picos e a necessidade de um novo sujeito para a realiza\u00e7\u00e3o de uma sociedade qualitativamente diferente. <br>     \u00c9 preciso reler Marcuse. O tempo de efervesc\u00eancia passou: agora \u00e9 preciso voltar ao autor e desvelar sua &#8220;ess\u00eancia&#8221;. Marcuse \u00e9 muito mais do que o movimento de contracultura dos anos 60, este texto \u00e9 uma brecha para despertar o novo leitor ou, inclusive, aquele que leu para voltar a Marcuse.  Hoje, o terror novamente se apresenta de forma escancarada; no entanto, a pergunta que se levanta \u00e9: Temos como combat\u00ea-lo? Marcuse pode nos ajudar, revelando as potencialidades escondidas nos escombros desta realidade decadente\u2026<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Fiquei muito contente em ouvir esta manh\u00e3 meu amigo Norman Birnbaum em sua apresenta\u00e7\u00e3o falando dos conceitos ut\u00f3picos e da maneira em que estes se traduzem na realidade, ou pelo menos estavam no processo de serem traduzidos dentro da realidade devido aos acontecimentos de maio e junho na Fran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"> Fico igualmente feliz e me sinto honrado de falar com voc\u00ea hoje na presen\u00e7a de Ernst Bloch, cuja obra <em>Geist der Utopie<\/em>, publicada h\u00e1 mais de quarenta anos, tem influenciado pelo menos a minha gera\u00e7\u00e3o e tem mostrado o quanto podem ser realistas os conceitos ut\u00f3picos, qu\u00e3o pr\u00f3ximos \u00e0 a\u00e7\u00e3o e qu\u00e3o pr\u00f3ximos \u00e0 pr\u00e1tica [podem ser].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\tEu quero seguir por esse caminho. N\u00e3o me deixarei convencer por uma das ideologias mais viciadas da atualidade, a saber, a ideologia que derroga, denuncia e ridiculariza as imagens e os conceitos mais decisivos da sociedade livre como meramente \u201cut\u00f3picos\u201d e \u201csomente\u201d especulativos. Pode ser que, precisamente naqueles aspectos do socialismo que s\u00e3o ridicularizados na atualidade como ut\u00f3picos resida a diferen\u00e7a decisiva, o contraste entre uma aut\u00eantica sociedade socialista e as sociedades estabelecidas, incluindo at\u00e9 mesmo as sociedades industriais mais avan\u00e7adas. Penso que hoje estamos sendo testemunhas de uma revolta contra aspectos e ideias do socialismo que eram tabus, uma tentativa de recuperar aspectos e imagens reprimidas do socialismo que est\u00e3o voltando a pra\u00e7a p\u00fablica de novo e que est\u00e3o sendo vivificadas e ativadas pelos movimentos dos estudantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"> Gostaria de adotar como lema de minha palestra uma das frases expostas sobre os muros da Sorbonne de Paris, que parece marcar a mesma ess\u00eancia do que est\u00e1 acontecendo atualmente. O escrito diz: \u201c<em>Soyons r\u00e9alistes, demandons l\u2019imposible!<\/em>\u201d Sejamos realistas, exijamos o imposs\u00edvel. Acredito que esta frase marca um ponto de inflex\u00e3o no desenvolvimento das sociedades estabelecidas, e talvez n\u00e3o s\u00f3 nas sociedades capitalistas, e acredito que, em vista desse fato, nenhuma reavalia\u00e7\u00e3o dos conceitos marxistas \u00e9 poss\u00edvel hoje sem se referir aos movimentos dos estudantes. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em primeiro lugar, n\u00e3o penso que os estudantes por si mesmo constituam uma for\u00e7a revolucion\u00e1ria. Nunca sustentei que atualmente os movimentos dos estudantes estejam substituindo a classe oper\u00e1ria como for\u00e7a revolucion\u00e1ria; semelhante afirma\u00e7\u00e3o, obviamente, \u00e9 sem sentido. O que o movimento estudantil hoje representa n\u00e3o \u00e9 sequer uma vanguarda por tr\u00e1s das massas revolucion\u00e1rias, mas uma minoria dirigente, uma minoria militante que articula o que ainda est\u00e1 inarticulado e reprimido entre a vasta maioria da popula\u00e7\u00e3o. E neste sentido de movimento intelectual, e n\u00e3o apenas de uma vanguarda intelectual, o movimento estudantil \u00e9 algo mais que um movimento isolado; \u00e9, antes, uma for\u00e7a social capaz de (e eu espero que assim seja) articular e desenvolver as necessidades e aspira\u00e7\u00f5es das massas exploradas nos pa\u00edses capitalistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O movimento estudantil nestes pa\u00edses ilumina a dist\u00e2ncia que separa as ideologias tradicionais, inclu\u00eddas as ideologias socialistas (ideologias reformistas tanto como ideologias radicais esquerdistas), da realidade em que vivemos atualmente. O movimento estudantil tem revelado a inadequa\u00e7\u00e3o dos conceitos tradicionais da transi\u00e7\u00e3o do capitalismo para o socialismo e a inadequa\u00e7\u00e3o do conceito tradicional de socialismo em vista das reais possibilidades atuais do socialismo. <br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O movimento estudantil tem redefinido o socialismo, e nos conv\u00e9m aceitar esta redefini\u00e7\u00e3o porque corresponde \u00e0s possibilidades de construir a sociedade socialista ao n\u00edvel alcan\u00e7ado pelo desenvolvimento material, t\u00e9cnico e cultural. Esta redefini\u00e7\u00e3o do socialismo leva em conta for\u00e7as e fatores de desenvolvimento que n\u00e3o t\u00eam recebido uma aten\u00e7\u00e3o adequada na teoria e na estrat\u00e9gia marxistas. Esses fatores e for\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o acontecimentos estranhos, n\u00e3o s\u00e3o a superf\u00edcie, nem desenvolvimentos superficiais, mas sim tend\u00eancias inerentes a estrutura do capitalismo avan\u00e7ado e que resultam dela. Devem ser incorporadas \u00e0 teoria marxista se esta quer continuar sua tarefa de guiar a a\u00e7\u00e3o radical e revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Gostaria de salientar desde o come\u00e7o que essa redefini\u00e7\u00e3o do socialismo, esse reexame do marxismo, n\u00e3o se descreve adequadamente como \u201chumanismo socialista\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\tExiste no movimento estudantil uma aguda cr\u00edtica ao conceito de humanismo, inclu\u00eddo o de humanismo socialista, enquanto ideologia burguesa, uma cr\u00edtica que pode ser facilmente mal-entendida. O humanismo, de acordo com essa cr\u00edtica, \u00e9 um termo para um ideal que ainda cheira a repress\u00e3o, ainda que seja uma repress\u00e3o refinada e sofisticada, de interioriza\u00e7\u00e3o, sublima\u00e7\u00e3o da liberdade e igualdade. O jovem militante de hoje sente na ideia de humanismo um grau de sublima\u00e7\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 disposto a tolerar, porque j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio para o progresso humano. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio nem para a emerg\u00eancia de uma sociedade livre, nem para a emerg\u00eancia de indiv\u00edduos livres. Para estes jovens militantes o termo humanismo \u00e9 insepar\u00e1vel da alta cultura afirmativa da sociedade burguesa. \u00c9 insepar\u00e1vel da ideia repressiva de pessoa ou personalidade que se \u201cauto realiza\u201d sem exigir demais do mundo, pondo em pr\u00e1tica o grau de resigna\u00e7\u00e3o requerido socialmente. Para eles, o humanismo segue sendo um conceito idealista que subestima o poder e o peso da mat\u00e9ria bruta, o poder e o peso do corpo, da biologia mutilada, do homem, de seus instintos vitais mutilados. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\tN\u00e3o \u00e9 preciso dizer que esta cr\u00edtica n\u00e3o se aplica ao humanismo socialista que se converteu em uma arma pol\u00edtica na luta contra as formas opressivas de constru\u00e7\u00e3o socialista. L\u00e1, o humanismo socialista pode perfeitamente emergir como uma for\u00e7a material de liberta\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Para os militantes da nova esquerda, o conte\u00fado do socialismo \u00e9 preservado (<em>aufgehoben<\/em>) em um conceito de sociedade livre mais radical, mais \u201cut\u00f3pico\u201d e, ao mesmo tempo, mais realista, uma vis\u00e3o do socialismo que pode talvez ser caracterizado do melhor modo poss\u00edvel como uma nova rela\u00e7\u00e3o entre o reino da liberdade e o reino da necessidade, que difere da cl\u00e1ssica concep\u00e7\u00e3o desta rela\u00e7\u00e3o em<em> O Capital <\/em>de Marx.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\tLembrarei brevemente a concep\u00e7\u00e3o marxista cl\u00e1ssica. A liberdade humana em seu sentido verdadeiro s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel para al\u00e9m do reino da necessidade. O reino da necessidade mesmo se mant\u00e9m sempre como um reino da n\u00e3o liberdade, e o m\u00e1ximo que se pode alcan\u00e7ar \u00e9 uma redu\u00e7\u00e3o significativa da jornada de trabalho, e um alto grau de racionalidade e de racionaliza\u00e7\u00e3o. Assim, essa concep\u00e7\u00e3o tipifica a divis\u00e3o da exist\u00eancia humana entre um tempo de trabalho e um tempo livre, a divis\u00e3o entre raz\u00e3o, racionalidade, de um lado, e prazer, alegria, plena satisfa\u00e7\u00e3o, de outro, a divis\u00e3o entre trabalho alienado e n\u00e3o alienado. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\tDe acordo com esse conceito cl\u00e1ssico marxista, o reino da necessidade seguir\u00e1 sendo uma esfera da aliena\u00e7\u00e3o ainda que muito se reduza a jornada de trabalho. Al\u00e9m disso, essa concep\u00e7\u00e3o parece implicar que a atividade humana livre \u00e9 essencialmente distinta, e deve permanecer assim, do trabalho socialmente necess\u00e1rio. Tampouco parece aplic\u00e1vel a uma sociedade industrial altamente desenvolvida a no\u00e7\u00e3o marxista do indiv\u00edduo completo que pode fazer uma coisa hoje e outra amanh\u00e3. J\u00e1 que haviam centenas e milhares de pessoas que queriam ir pescar ao mesmo tempo ou ir ca\u00e7ar ao mesmo tempo, que queriam escrever poemas ou cr\u00edticas ao mesmo tempo. Estas condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o se adequam exatamente a imagem da liberdade. \t\t\t\t\t\t\tSou consciente do fato de que ainda h\u00e1 outro conceito marxista da rela\u00e7\u00e3o entre liberdade e necessidade na famosa passagem citada frequentemente nos <em>Grundrisse der Kritik der politischen Oekonomie. <\/em>Este conceito prev\u00ea condi\u00e7\u00f5es de completa automatiza\u00e7\u00e3o onde o produtor imediato \u00e9, em efeito, \u201cdissociado\u201d do processo material de produ\u00e7\u00e3o e se converte em um \u201cSujeito\u201d livre no sentido de que pode jogar, experimentar com o material t\u00e9cnico, com as possibilidades da m\u00e1quina e das coisas produzidas e transformadas pelas m\u00e1quinas. Mas, pelo o que sei, essa vis\u00e3o realmente avan\u00e7ada de uma sociedade livre foi aparentemente abandonada pelo pr\u00f3prio Marx e n\u00e3o volta a aparecer no <em>O Capital<\/em> ou em seus \u00faltimos escritos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A concep\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica de <em>O Capital<\/em> \u00e9 parte da no\u00e7\u00e3o b\u00e1sica marxista de acordo com a qual o desenvolvimento desenfreado das for\u00e7as produtivas \u00e9 uma precondi\u00e7\u00e3o e prova do socialismo. Essa posi\u00e7\u00e3o subordina a liberdade \u00e0 produtividade, ao aumento constante da produtividade: a liberdade, o grau, extens\u00e3o e n\u00edvel de liberdade conseguidos dependeriam do grau de produtividade conseguido, do n\u00edvel de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas conseguido. Mas, que tipo, que modo, que dire\u00e7\u00e3o de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas? Esse n\u00e3o \u00e9 um problema, ou pelo menos n\u00e3o parece ser um problema, contanto que prevale\u00e7am a escassez e a pobreza: sua aboli\u00e7\u00e3o \u00e9 o objetivo principal. Mas ent\u00e3o as conquistas do progresso t\u00e9cnico abrem outro problema. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Nas assim chamadas \u201csociedades afluentes\u201d, as sociedades capitalistas desenvolvidas tecnicamente, vemos um desenvolvimento duplo. Por um lado, o progresso capitalista aumenta constantemente a quantidade de mercadorias necess\u00e1rias que podem ser adquiridas no mercado pelo poder de compra dispon\u00edvel. Isso significa nestes pa\u00edses uma taxa crescente de produ\u00e7\u00e3o dos assim chamados bens de luxo, inclu\u00edda a chamada ind\u00fastria de defesa, e uma crescente produ\u00e7\u00e3o de desejos e inutilidades, enquanto nas extremidades da sociedade se conservam amplos setores de pobreza e mis\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Isso significa, tamb\u00e9m, a extens\u00e3o da esfera de necessidade dentro da esfera da liberdade. Sempre mais coisas in\u00fateis, sempre mais chamados \u201cbens de luxo\u201d, sempre mais mercadorias e servi\u00e7os de entretenimento t\u00eam que ser comprados com o fim de alcan\u00e7ar esse n\u00edvel de exist\u00eancia onde voc\u00ea tem o privil\u00e9gio, em virtude de seu poder de compra, de, ao menos, uma moderada liberdade dentro do entranh\u00e1vel da sociedade capitalista. Neste sentido, podemos dizer que, no capitalismo avan\u00e7ado, o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas equivale ao desenvolvimento da servid\u00e3o volunt\u00e1ria, volunt\u00e1ria, claro, em sentido ir\u00f4nico. O novo autom\u00f3vel que voc\u00ea tem que adquirir a cada dois anos, o novo televisor que voc\u00ea tem que comprar com o fim de poder estar \u00e0 altura de seus vizinhos e pares, todos estes instrumentos e mercadorias incrementam e intensificam sua depend\u00eancia dos cada vez mais vastos aparatos de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o, controlados pelos poderes dominantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Existe ainda outro aspecto desse desenvolvimento. A crescente produtividade do trabalho tende a transformar o processo de trabalho em um processo t\u00e9cnico em que o agente humano de produ\u00e7\u00e3o cada vez mais realiza em maior medida o papel de supervisor, inventor e experimentador. Essa tend\u00eancia \u00e9 inerente a crescente produtividade do trabalho e sua mesma express\u00e3o. \u00c9 a extens\u00e3o do reino da liberdade, ou melhor, do reino da liberdade aparente, dentro do reino da necessidade. O pr\u00f3prio processo de trabalho, o trabalho socialmente necess\u00e1rio, se situa, em sua racionalidade, ao servi\u00e7o do livre jogo da mente, da imagina\u00e7\u00e3o, ao livre jogo com as possibilidades prazerosas das coisas e da natureza. \t<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Assim, essas duas tend\u00eancias, uma expandindo o reino da necessidade dentro do reino da liberdade, a outra sendo extens\u00e3o aparente do reino<strong> &nbsp;<\/strong>da liberdade &nbsp;dentro do reino da<strong> <\/strong>necessidade, expressam as contradi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas do capitalismo no est\u00e1gio do progresso t\u00e9cnico competitivo: O conflito entre o crescente padr\u00e3o de vida expandindo a forma mercadoria nas rela\u00e7\u00f5es dos homens e das coisas, o modelo de progresso americano por um lado, e, por &nbsp;outro lado, o crescente potencial de liberdade dentro da esfera da necessidade, a saber, a poss\u00edvel transforma\u00e7\u00e3o da esfera da necessidade por homens e mulheres determinando suas pr\u00f3prias necessidades, determinando seus pr\u00f3prios valores, determinando suas pr\u00f3prias aspira\u00e7\u00f5es. Em outras palavras, n\u00e3o apenas a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho, mas a transforma\u00e7\u00e3o do trabalho em si, e, n\u00e3o apenas pelas rela\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de produ\u00e7\u00e3o e institui\u00e7\u00f5es do socialismo (que continuam sendo o pr\u00e9-requisito &nbsp;para qualquer sociedade livre), mas tamb\u00e9m por meio da emerg\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o de um novo tipo de homem, um homem livre de necessidades, aspira\u00e7\u00f5es e atitudes agressivas e repressivas da sociedade de classes, seres humanos que criam , solidariamente e por sua pr\u00f3pria iniciativa, seu pr\u00f3prio ambiente, seu pr\u00f3prio <em>Lebenswelt <\/em>[mundo da vida], sua pr\u00f3pria \u201cpropriedade\u201d.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Perto do final do primeiro volume de <em>O Capital<\/em> de Marx, o socialismo \u00e9 definido como a restaura\u00e7\u00e3o da propriedade individual sobre a base da socializa\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o e da terra. Penso que dever\u00edamos entender essa curiosa e hoje bastante esquecida reintrodu\u00e7\u00e3o do conceito de propriedade individual dentro da mesma defini\u00e7\u00e3o de socialismo como uma vis\u00e3o dos tra\u00e7os mais essenciais do socialismo: a vis\u00e3o de um novo modo de vida. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O Sujeito de uma sociedade socialista deve ser o Sujeito de uma nova sensibilidade. Existe uma raiz instintiva de liberdade no pr\u00f3prio indiv\u00edduo e se essa raiz instintiva n\u00e3o puder crescer, a nova sociedade n\u00e3o ser\u00e1 livre, independentemente das institui\u00e7\u00f5es que se apresentem. A raiz instintiva de liberdade no indiv\u00edduo, por exemplo, gerar\u00e1 uma necessidade biol\u00f3gica de sil\u00eancio, solid\u00e3o, paz; uma necessidade de beleza e de prazer, n\u00e3o como momentos passageiros de relaxamento, mas como qualidades de vida, que ser\u00e3o incorporadas ao espa\u00e7o mental e f\u00edsico da sociedade. Esta, e s\u00f3 esta, seria a \u201cnega\u00e7\u00e3o definitiva\u201d, a ruptura com todo o universo de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o e com o desenvolvimento repressivo das for\u00e7as produtivas. A sociedade socialista como uma sociedade <em>qualitativamente <\/em>diferente seria a conquista de homens e mulheres que se liberaram da cultura material e intelectual da sociedade de classes, e que s\u00e3o livres para desenvolver uma linguagem, uma arte e uma ci\u00eancia que respondam a um projeto de sociedade livre. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">N\u00e3o esque\u00e7amos que a domina\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o se perpetuam n\u00e3o s\u00f3 nas institui\u00e7\u00f5es das sociedades de classe, mas tamb\u00e9m nos instintos e puls\u00f5es e aspira\u00e7\u00f5es conformadas pela sociedade de classes, tamb\u00e9m naquilo que as pessoas, isto \u00e9, os governados e administrados, amam, odeiam, lutam por conseguir, encontrar o belo, o prazeroso etc. A sociedade de classes n\u00e3o se encontra unicamente na produ\u00e7\u00e3o material, n\u00e3o se encontra unicamente na produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o cultural, se encontra tamb\u00e9m na mente e no corpo dos sujeitos e objetos do sistema. <br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Todos n\u00f3s conhecemos este tru\u00edsmo, mas somente os estudantes t\u00eam se rebelado, articulado em teoria e pr\u00e1tica, t\u00eam incorporado a ideia de que a revolu\u00e7\u00e3o, desde o in\u00edcio, deve construir uma sociedade n\u00e3o somente quantitativa, mas tamb\u00e9m qualitativamente distinta. O movimento estudantil tem articulado aquilo que todos conhec\u00edamos de uma maneira abstrata, ou seja, que o socialismo \u00e9 antes que nada uma nova forma de exist\u00eancia humana. Digo \u201cdesde o in\u00edcio\u201d, mas, podemos realmente nos atrever a dizer \u201cdesde o in\u00edcio\u201d? Seguramente, a aboli\u00e7\u00e3o da escassez, a elimina\u00e7\u00e3o das desigualdades, o aumento do n\u00edvel de vida permanece e deve permanecer como os objetivos principais de todas e de cada uma das sociedades socialistas, mas penso que o esfor\u00e7o para alcan\u00e7ar esses objetivos n\u00e3o deveria estar ponderado pelo peso, o peso morto do modelo americano de industrializa\u00e7\u00e3o e moderniza\u00e7\u00e3o, o modelo americano de crescimento do padr\u00e3o<strong> <\/strong>de vida. A industrializa\u00e7\u00e3o e a moderniza\u00e7\u00e3o podem se manter <em>\u00e0 la mesure de l\u2019homme <\/em>[a medida do homem], isto \u00e9, se pode evitar as caracter\u00edsticas massivas, ruidosas, feias, tristes e competitivas da produ\u00e7\u00e3o e do consumo capitalistas, e se pode construir um habitat em que a sensibilidade humana, o corpo humano, os instintos vitais do homem podem finalmente encontrar esse universo que o n\u00edvel de progresso t\u00e9cnico obtido e realiz\u00e1vel torna hoje poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\tPara concluir, gostaria de oferecer dois apontamentos que se referem a discuss\u00e3o que j\u00e1 tem tido lugar aqui e que, eu espero, continuar\u00e1. Falei de autodetermina\u00e7\u00e3o como a diferen\u00e7a qualitativa de uma sociedade socialista; gostaria de enfatizar: autodetermina\u00e7\u00e3o n\u00e3o se traduz adequadamente como \u201c<em>Selbsverwaltung<\/em>\u201d, \u201cautogest\u00e3o\u201d. Esses termos designam uma forma diferente de administra\u00e7\u00e3o; n\u00e3o articulam o conte\u00fado e o objetivo da administra\u00e7\u00e3o. Uma simples mudan\u00e7a na forma de administra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ainda uma diferen\u00e7a qualitativa. Inclusive se a mudan\u00e7a na administra\u00e7\u00e3o apenas substituir uma classe por outra, ou melhor, por certos grupos dessa outra classe, n\u00e3o \u00e9 ainda uma mudan\u00e7a qualitativa, contanto que a nova classe mantenha as aspira\u00e7\u00f5es e valores da sociedade estabelecida, enquanto o progresso capitalista permanece como o modelo mais ou menos oculto de progresso. O decisivo, em primeiro momento, n\u00e3o \u00e9 tanto a forma de administra\u00e7\u00e3o quanto que se vai produzir, para que tipo de vida vai se produzir, e que prioridades se estabelecer\u00e3o e se realizar\u00e3o. S\u00f3 se a produ\u00e7\u00e3o mesma \u00e9 guiada por homens e mulheres com novos objetivos e novos valores, s\u00f3 assim podemos falar das emerg\u00eancias de uma sociedade qualitativamente diferente. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em segundo lugar, deve se perguntar a quest\u00e3o de, se a destrutiva coexist\u00eancia competitiva entre socialismo e capitalismo que marca o conte\u00fado de nossa \u00e9poca n\u00e3o \u00e9 um obst\u00e1culo insuper\u00e1vel para a emerg\u00eancia do socialismo como uma sociedade qualitativamente diferente. N\u00e3o imp\u00f5e esta coexist\u00eancia competitiva sobre as sociedades socialistas vias e modos de produ\u00e7\u00e3o, vias e modos de administra\u00e7\u00e3o que militam contra a transi\u00e7\u00e3o a uma sociedade livre, movida por novos objetivos e novas aspira\u00e7\u00f5es?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Esta coexist\u00eancia pac\u00edfica \u00e9 o fator b\u00e1sico de nossa \u00e9poca. N\u00e3o se pode subestimar, n\u00e3o se pode esquecer, n\u00e3o se pode deixar de fora qualquer considera\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia e da teoria socialista. Mas, ent\u00e3o teremos que perguntar se esta compet\u00eancia destrutiva, agravada pela terr\u00edvel vantagem que levam as sociedades capitalistas, pode ser quebrada de alguma maneira. E eu recomendaria que essa possibilidade resida em uma vis\u00e3o diferente de socialismo e em uma pr\u00e1xis que lute por mover esta vis\u00e3o para a realidade. E acredito, em efeito, que os acontecimentos dos que temos sido testemunhas durante os \u00faltimos meses t\u00eam mostrado que esta esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 completamente ut\u00f3pica.<br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Autor:<\/strong> Herbert Marcuse<br><strong>Fontes utilizadas na tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong><br><em><strong>Original: <\/strong><\/em><a href=\"https:\/\/www.marcuse.org\/herbert\/pubs\/60spubs\/69praxis\/69praxis.htm\">https:\/\/www.marcuse.org\/herbert\/pubs\/60spubs\/69praxis\/69praxis.htm<\/a><br><strong><em>Tradu\u00e7\u00e3o para o espanhol:<\/em><\/strong> <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.youkali.net\/2emarcuse.pdf\" target=\"_blank\">http:\/\/www.youkali.net\/2emarcuse.pdf<\/a><br>(por Aurelio Sainz Pezonaga)<br><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: <\/strong>Andr\u00e9 Luiz  &amp; Jade Amorim [Tradutores Prolet\u00e1rios]<br><strong>Revis\u00e3o: <\/strong>Marcos Alcyr Brito de Oliveira [Independente]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Arte de capa: <\/strong>Eliel Micm\u00e1s [Tradutores Prolet\u00e1rios]<br><strong>Recursos utilizados:<\/strong><br>* Marinier, Miracle naturel: mapa astral [Wellcome Trust] (<a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Marinier,_Miracle_naturel;_zodiac_chart._Wellcome_L0026942.jpg\">https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Marinier,_Miracle_naturel;_zodiac_chart._Wellcome_L0026942.jpg) <\/a>[CC BY 4.0]<br>* V\u00e1rias notas de d\u00f3lar [Jericho] (<a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Money_Cash.jpg\">https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Money_Cash.jpg<\/a>) [CC BY 3.0]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Herbert Marcuse, 1969 Neste texto, Marcuse nos rememora a import\u00e2ncia e a for\u00e7a dos conceitos ut\u00f3picos, e utiliza uma frase dos muros de paris de 68 como exemplo: \u201cSejamos realistas, exijamos o imposs\u00edvel\u201d. 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