{"id":2422,"date":"2022-07-30T21:30:15","date_gmt":"2022-07-30T21:30:15","guid":{"rendered":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/?p=2422"},"modified":"2022-07-30T22:15:09","modified_gmt":"2022-07-30T22:15:09","slug":"com-marx-para-alem-de-marx-algumas-notas-sobre-a-critica-do-valor-adriano-camargo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2022\/07\/30\/com-marx-para-alem-de-marx-algumas-notas-sobre-a-critica-do-valor-adriano-camargo\/","title":{"rendered":"Com Marx para al\u00e9m de Marx: algumas notas sobre a cr\u00edtica do valor \u2014 Adriano Camargo"},"content":{"rendered":"\n<p>A chamada <em>Wertkritik<\/em> ( \u201ccr\u00edtica do valor\u201d) \u00e9 uma corrente te\u00f3rica originalmente marxista de militantes e te\u00f3ricos alem\u00e3es reunidos em Nuremberg, que por uma reinterpreta\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx e suas categorias b\u00e1sicas, ou seja,&nbsp; mercadoria, valor, dinheiro e trabalho abstrato,&nbsp; passam a estabelecer uma cr\u00edtica categorial ao capitalismo atrav\u00e9s da revista Cr\u00edtica Marxista na d\u00e9cada de 80, que alterou de nome posteriormente para <em>Krisis<\/em> por diversas rupturas te\u00f3ricas com postulados marxistas sagrados.<\/p>\n\n\n\n<p>Escapando da ontologia do trabalho do marxismo tradicional que interpreta a exist\u00eancia de dois tipos de trabalho: o trabalho abstrato, especificamente capitalista; e o trabalho concreto, transhist\u00f3rico, o \u201cmetabolismo do homem com a natureza\u201d. A cr\u00edtica do valor entende que o abstrato e o concreto constituem o duplo car\u00e1ter do trabalho. As atividades sociais como pescar, ca\u00e7ar, tecelagem, alfaiataria, etc, s\u00e3o atividades particulares que s\u00f3 podem ser chamadas de \u201ctrabalho\u201d quando elas se transformam em \u201cdisp\u00eandio de nervos e m\u00fasculos\u201d, \u201cgeleia indiferenciada de trabalho humano\u201d, uma atividade abstrata e que constitui um processo de fim em si mesmo, ou seja, o valor que se autovaloriza pela express\u00e3o do dinheiro que gera mais dinheiro (que no fundo \u00e9 trabalho que gera mais trabalho). Surge a sociedade pautada no trabalho e a emancipa\u00e7\u00e3o deve ser pensada pela liberta\u00e7\u00e3o da humanidade dos grilh\u00f5es do trabalho e n\u00e3o libertar o trabalho em favor de um trabalho emancipat\u00f3rio. Tal vis\u00e3o ontol\u00f3gica positivista do trabalho \u00e9 criticado em diversos textos, como \u201cA honra perdida do trabalho\u201d do Robert Kurz e \u201cManifesto contra o trabalho\u201d do grupo <em>Krisis<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, Robert Kurz, talvez o nome mais conhecido da cr\u00edtica do valor, aponta em \u201c<em>A crise do valor de troca\u201d<\/em> e, posteriormente, em <em>\u201cColapso da moderniza\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d, que com a Terceira Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e a microtecnologia o capital atingiu seu limite interno absoluto, pois a subst\u00e2ncia do capital, o valor (quantidade de trabalho humano) torna-se sup\u00e9rfluo, ou seja, a ontologiza\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9 colocada em xeque pela realidade. Esse limite interno absoluto gera um processo hist\u00f3rico de colapso da moderniza\u00e7\u00e3o, em que as formas sociais capitalistas entram em um processo de decomposi\u00e7\u00e3o que apresenta como consequ\u00eancias: &nbsp;o desemprego estrutural e o aumento de capital fict\u00edcio, em que os cr\u00e9ditos passam a ser cada vez mais pagos por outros cr\u00e9ditos, gerando a dissocia\u00e7\u00e3o entre trabalho e dinheiro. Cria-se uma reprodu\u00e7\u00e3o de-substancializada do capital, em que a cria\u00e7\u00e3o do valor decai dialeticamente a um aumento da produtividade e aumento de concess\u00e3o de cr\u00e9ditos, que produz como sintomas bolhas especulativas e a infla\u00e7\u00e3o. Para al\u00e9m dessa economia de simula\u00e7\u00e3o, em \u201c<em>A guerra do ordenamento mundial<\/em>\u201d Kurz analisa os aspectos geopol\u00edticos do fim da soberania nacional e de um novo imperialismo de exclus\u00e3o e vigil\u00e2ncia global, em que o estado de exce\u00e7\u00e3o permanente se torna regra. O fim da URSS n\u00e3o era a vit\u00f3ria do capitalismo, mas o sintoma do colapso da moderniza\u00e7\u00e3o e de uma nova ordem mundial global, onde a democracia entra em decomposi\u00e7\u00e3o e consequentemente, para al\u00e9m do estado de exce\u00e7\u00e3o permanente, come\u00e7a a surgir o novo radicalismo de direita, como Kurz analisa em \u201c<em>A democracia devora seus filhos<\/em>\u201d. O valor \u00e9 uma forma de sociabilidade, um \u201cfato social total\u201d, e n\u00e3o uma categoria econ\u00f4mica da qual derivam as categorias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do anacr\u00f4nico esquema base-superestrutura do marxismo tradicional. N\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 consequ\u00eancias econ\u00f4micas que o colapso produz, mas consequ\u00eancias sobre o modo de reprodu\u00e7\u00e3o da valoriza\u00e7\u00e3o do valor em seu todo. Logo, \u00e9 um absurdo acusar a cr\u00edtica do valor de economicismo. Busca-se nesse texto trazer alguns pontos levantados para al\u00e9m do estereotipo de que a cr\u00edtica do valor s\u00f3 fala de fim do capitalismo (o que por sinal ela nunca defendeu um fim do capitalismo, mas o colapso da moderniza\u00e7\u00e3o) e de cr\u00edtica da ontologia do trabalho. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O DUPLO MARX<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma quest\u00e3o que Kurz traz \u00e9 a ideia de um \u201cduplo Marx\u201d. Sem nenhuma rela\u00e7\u00e3o com o \u201ccorte epistemol\u00f3gico\u201d de Louis Althusser, existem \u201cdois Marx\u201d: o \u201cMarx exot\u00e9rico\u201d e o \u201cMarx esot\u00e9rico\u201d. O \u201cMarx exot\u00e9rico\u201d \u00e9 o difundido mundialmente, o marxismo do movimento oper\u00e1rio e do \u201c<em>Manifesto Comunista\u201d<\/em>, da luta de classes e do materialismo hist\u00f3rico, em que a revolu\u00e7\u00e3o se dar\u00e1 mediante o sujeito revolucion\u00e1rio, o proletariado, que ap\u00f3s a tomada do poder estatal estabelecer\u00e1 a ditadura do proletariado mediante os Sovietes, conselhos oper\u00e1rios, comunas, at\u00e9 o fim da divis\u00e3o social do trabalho entre trabalho intelectual e trabalho manual, ou seja, a subsun\u00e7\u00e3o real do trabalho ao capital. O \u201cMarx exot\u00e9rico\u201d \u00e9 herdeiro e dissidente do Esclarecimento, positivista, que busca inverter as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o entre burguesia e proletariado, ontol\u00f3gico do trabalho, ref\u00e9m da ideologia do progresso hist\u00f3rico e reivindica a mais-valia n\u00e3o paga e o fim da propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por outro lado, o \u201cMarx esot\u00e9rico\u201d, mais ligado \u00e0 academia, obscuro perante os movimentos de massas socialistas, \u00e9 o Marx da cr\u00edtica do fetichismo da mercadoria e das categorias b\u00e1sicas da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica: mercadoria, dinheiro, valor, trabalho abstrato etc. O \u201cMarx esot\u00e9rico\u201d \u00e9 cr\u00edtico da modernidade como sistema produtor de mercadorias e cr\u00edtico do trabalho e seu car\u00e1ter negativo. De um conceito de capital como coisa do \u201cMarx exot\u00e9rico\u201d, em que o capitalista possui a propriedade privada do capital e explora o trabalhador que foi expropriado, ao capitalismo como rela\u00e7\u00e3o social atomizada de propriet\u00e1rios de mercadorias do \u201cMarx esot\u00e9rico\u201d, em que o capital funciona como um \u201csujeito autom\u00e1tico\u201d e uma \u201ccontradi\u00e7\u00e3o em processo\u201d. A cr\u00edtica do valor parte com o \u201cMarx esot\u00e9rico\u201d para al\u00e9m de Marx, continuando a revolu\u00e7\u00e3o inacabada realizada por Marx na cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CR\u00cdTICA DO VALOR CIS\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Tese desenvolvida por Roswitha Scholz, trata-se de uma cr\u00edtica \u00e0 vis\u00e3o liberal de igualdade de g\u00eaneros e \u00e0 vis\u00e3o marxista onde a opress\u00e3o social de g\u00eanero \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria perante a luta de classes. A sociabilidade do valor \u00e9 uma sociedade patriarcal produtora de mercadorias, por\u00e9m, a rela\u00e7\u00e3o de g\u00eanero n\u00e3o deriva da forma valor. Primeiramente, o valor n\u00e3o constitui uma totalidade fechada, mesmo que a l\u00f3gica do valor tende a se totalizar, universalizar, ela n\u00e3o abrange a totalidade da reprodu\u00e7\u00e3o social. Logo, existem partes da reprodu\u00e7\u00e3o social que s\u00e3o cindidos do valor, como as atividades dom\u00e9sticas, delegadas \u00e0s mulheres e n\u00e3o s\u00e3o \u201ctrabalho dom\u00e9stico\u201d, pois n\u00e3o s\u00e3o atividades de mero disp\u00eandio de energia humana, mas atividades de cuidado onde o sens\u00edvel n\u00e3o foi subsumido \u00e0 abstra\u00e7\u00e3o do valor. Entretanto, ela n\u00e3o est\u00e1 \u201cfora\u201d da sociabilidade do valor, ela \u00e9 constitu\u00edda e constitui a rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica valor-cis\u00e3o. Mesmo com a mulher adentrando no mercado de trabalho, as atividades cindidas do lar s\u00e3o desempenhadas pelas mulheres e o trabalho de \u201ccuidado\u201d como enfermagem, atendente, secret\u00e1ria, empregada dom\u00e9stica, s\u00e3o desempenhadas majoritariamente por mulheres. E quando a mulher consegue um cargo de ger\u00eancia em uma empresa, sofre preconceitos e recebe um sal\u00e1rio na maioria das vezes menor. De modo contr\u00e1rio ao feminismo marxista, que reivindica para tais atividades femininas cindidas o reconhecimento do estatuto jur\u00eddico de \u201ctrabalho\u201d e um pagamento de sal\u00e1rio por tais atividades desempenhadas, sendo essas atividades consideradas produtivas em uma abordagem ontol\u00f3gica do trabalho, para Roswitha Scholz &nbsp;o valor \u00e9 o homem e o sexo do capitalismo \u00e9 masculino, e somente uma ruptura ontol\u00f3gica com o trabalho pode chegar uma sociedade n\u00e3o patriarcal, j\u00e1 que no colapso da moderniza\u00e7\u00e3o, o asselvajamento do patriarcado \u00e9 um dos sintomas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse tema gerou controv\u00e9rsia dentro da <em>Krisis<\/em> e alguns autores, liderados por Roswitha Scholz e Robert Kurz, fundaram uma nova revista a <em>Exit!<\/em> e passaram a denominar-se de cr\u00edtica do valor-cis\u00e3o, enquanto que a <em>Krisis <\/em>permanece at\u00e9 hoje com autores remanescentes como Norbert Trenkle, Ernst Lohoff e Karl Heinz Wedel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CR\u00cdTICA DA FORMA SUJEITO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o do sujeito tem uma grande relev\u00e2ncia no debate da cr\u00edtica do valor e cr\u00edtica do valor-cis\u00e3o. Tal tema foi elaborado por Robert Kurz em <em>\u201cRaz\u00e3o Sangrenta\u201d<\/em> e <em>\u201cOntologia Negativa\u201d<\/em>. Kurz elabora uma diferencia\u00e7\u00e3o entre sujeito e indiv\u00edduo. O Indiv\u00edduo \u00e9 constitu\u00eddo historicamente na rela\u00e7\u00e3o de tens\u00e3o com as determina\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-hist\u00f3ricas e simb\u00f3licas de seu tempo, ou seja, a \u201csegunda natureza\u201d condiciona a exist\u00eancia dos indiv\u00edduos. Por outro lado, o sujeito \u00e9 uma forma social capitalista em que os indiv\u00edduos s\u00e3o coagidos \u00e0 abstra\u00e7\u00e3o da valoriza\u00e7\u00e3o do valor e transformam-se em seres abstratos, equivalentes, meras \u201cm\u00e1scaras de car\u00e1ter\u201d do movimento do \u201csujeito autom\u00e1tico\u201d e da \u201ccontradi\u00e7\u00e3o em processo\u201d resultante do valor que se autovaloriza. Logo, \u00e9 imposs\u00edvel a exist\u00eancia de um \u201csujeito revolucion\u00e1rio\u201d constitu\u00eddo positiva ou negativamente neste processo, o proletariado apenas luta por seus interesses objetivos dentro da matriz social fetichista do valor, sendo o antagonismo de classes \u00e9 imanente a essa forma social. J\u00e1 os exclu\u00eddos, lutam pelo reconhecimento dentro dessa forma, como o proletariado fez historicamente no processo de ascens\u00e3o e imposi\u00e7\u00e3o da forma moderna de socializa\u00e7\u00e3o. S\u00f3 uma cr\u00edtica categorial (ver <em>\u201cCinzenta \u00e9 a \u00e1rvore dourada da vida e verde \u00e9 a teoria\u201d<\/em> de Kurz) e um movimento social de \u201cruptura ontol\u00f3gica\u201d com as categorias capitalistas podem emancipar a humanidade da m\u00e1quina de moer gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, os conceitos burgueses de liberdade e igualdade est\u00e3o atrelados \u00e0 forma sujeito. A liberdade s\u00f3 existe dentro do processo do dinheiro como fim em si mesmo e tem uma dupla l\u00f3gica: 1) o sujeito kantiano transcendental e indiferente perante o concreto, o sens\u00edvel, age perante imperativos categ\u00f3ricos ( \u201cm\u00e1xima universal em que n\u00e3o cabe exce\u00e7\u00e3o\u201d) que resultam da raz\u00e3o sangrenta iluminista, fundamentada em categorias \u201ca priori\u201d que s\u00e3o as abstra\u00e7\u00f5es reais da socializa\u00e7\u00e3o capitalista e omite o \u00e2mago da constitui\u00e7\u00e3o da forma sujeito, o estado de exce\u00e7\u00e3o; 2) a liberdade \u00e9 um fim em si mesmo, recaindo na l\u00f3gica autodestrutiva do capital e a puls\u00e3o de morte inerente \u00e0 ela. Quanto \u00e0 igualdade, ela \u00e9 universal e seletiva, pois aquilo que est\u00e1 cindido da rela\u00e7\u00e3o de valor \u00e9 expelido da forma sujeito e s\u00e3o n\u00e3o sujeitos, assujeitados \u00e0 \u201cvida nua\u201d do estado de exce\u00e7\u00e3o, pois o sujeito \u00e9 homem, branco e euroc\u00eantrico.<\/p>\n\n\n\n<p>O tema foi desenvolvido por outros autores da Krisis como Karl Heinz Wedel em <em>\u201cA descida do eu aos infernos\u201d<\/em>, Norbert Trenkle em <em>\u201cNegatividade interrompida\u201d<\/em> e Ernst Lohoff em <em>\u201cO reencantamento do mundo\u201d<\/em>. &nbsp;Tema que gerou discord\u00e2ncias, foi mais um fator respons\u00e1vel pela cis\u00e3o Krisis e Exit!. Para al\u00e9m das revistas, Anselm Jappe, autor pr\u00f3ximo da cr\u00edtica do valor e do valor-cis\u00e3o, estabelece uma interpreta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da rela\u00e7\u00e3o entre fetichismo da mercadoria e narcisismo em seu livro <em>\u201cA sociedade autof\u00e1gica\u201d.<\/em> Jappe retoma as abordagens de Freud sobre o tema do sujeito, em que o inconsciente \u00e9 produto da aliena\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem simb\u00f3lica e \u00e9 dividido entre o \u201ceu ideal\u201d e o \u201cideal do eu\u201d. Para al\u00e9m do freudo-marxismo, retoma Christopher Larsch que tem como tese basilar o fato de que os movimentos sociais na d\u00e9cada de 60 contra as institui\u00e7\u00f5es repressoras e a figura autorit\u00e1ria paterna produziram um superego mais severo e punitivo atrelado \u00e0 liberdade mercantil.&nbsp; A liberdade como fim em si mesmo expressa-se no narcisismo, o arranjo ps\u00edquico perfeito ao dinheiro como fim em si mesmo da modernidade, e no colapso da moderniza\u00e7\u00e3o a de-substancializa\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os sociais produz a crise da forma sujeito e uma sociedade autof\u00e1gica, que se autodestr\u00f3i, pois o mundo externo condicionou-se a mero objeto de proje\u00e7\u00e3o das fantasias libidinais do sujeito.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DUAS INTERPRETA\u00c7\u00d5ES SOBRE O COLAPSO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pode-se falar hoje de uma bifurca\u00e7\u00e3o te\u00f3rica nas formas como a <em>Krisis<\/em> e a <em>Exit!<\/em> compreendem a reprodu\u00e7\u00e3o do capital em tempos do colapso da moderniza\u00e7\u00e3o. Robert Kurz em 2012, na sua obra \u201c<em>Dinheiro sem valor<\/em>\u201d retoma o conceito de \u201csubst\u00e2ncia\u201d, j\u00e1 retomado em \u201c<em>Subst\u00e2ncia do capital\u201d<\/em> para analisar que com o capital fict\u00edcio, h\u00e1 uma produ\u00e7\u00e3o cada vez mais intensa de dinheiro sem valor, ou seja, o capital cria uma economia de simula\u00e7\u00e3o e uma reprodu\u00e7\u00e3o de-substancializada do capital. Nisso, para al\u00e9m de fugas para frente, a administra\u00e7\u00e3o do colapso com o pagamento de cr\u00e9ditos por outros cr\u00e9ditos, \u00e9 c\u00famplice do sacrif\u00edcio humano, \u201cj\u00e1 n\u00e3o como sacrif\u00edcio da energia de trabalho abstratificada at\u00e9 que o material humano, chupado at\u00e9 o tutano, caia morto, mas, depois que este constrangimento se tornar objetivamente obsoleto, apenas sob a forma de uma eutan\u00e1sia burocr\u00e1tica, para as massas dos j\u00e1 n\u00e3o utiliz\u00e1veis em termos capitalistas, que tem que assumir tra\u00e7os an\u00f4micos. Ap\u00f3s o dinheiro ter sofrido uma muta\u00e7\u00e3o, convertendo-se de sacrif\u00edcio simb\u00f3lico na objetualidade universal do valor no sistema do trabalho abstrato, o dinheiro sem valor, sobre esta base desvalorizada e de-substancializada, faz agora regressar condi\u00e7\u00f5es quase arcaicas que, no entanto, j\u00e1 n\u00e3o inserem num ritual que se desenrola em determinadas balizas, mas desembocam no quadro de carnificina desnorteada e num recuo da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. (KURZ, Robert. <em>Dinheiro sem valor. <\/em>p. 375, Ed. Ant\u00edgona). A reprodu\u00e7\u00e3o de-substancializada desencadeia uma rela\u00e7\u00e3o fetichista sacrifical da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado, Ernst Lohoff em <em>\u201cA grande desvaloriza\u00e7\u00e3o\u201d<\/em> critica o conceito de \u201csubst\u00e2ncia\u201d como preso \u00e0 vis\u00e3o ricardiana e defende a possibilidade de uma acumula\u00e7\u00e3o de capital sem acumula\u00e7\u00e3o de valor, com o conceito de \u201cmercadorias de segunda ordem\u201d. As quest\u00f5es que ficam: o limite interno absoluto do capital \u00e9 um limite somente \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o ou \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o do capital?<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Outra diferen\u00e7a \u00e9 que Kurz se afasta dos pressupostos da cr\u00edtica do valor e da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, com a cr\u00edtica do individualismo metodol\u00f3gico. O individualismo metodol\u00f3gico trata, por exemplo, as categorias capitalistas como surgidas historicamente de \u201cembri\u00f5es\u201d pr\u00e9-capitalistas e que elas se apresentam maduras no capitalismo por apresentar um \u201cest\u00e1gio de desenvolvimento hist\u00f3rico mais elevado\u201d. A mercadoria, dinheiro, trabalho abstrato, etc, j\u00e1 existiam nas sociedades pr\u00e9-capitalistas de modo \u201cembrion\u00e1rio\u201d e o desenvolvimento hist\u00f3rico de tais categorias se concretiza no capitalismo. Essa abordagem hist\u00f3rica recai no individualismo metodol\u00f3gico, onde as categorias n\u00e3o s\u00e3o analisadas em rela\u00e7\u00e3o com as demais categorias em sua totalidade. As partes derivam do todo, e n\u00e3o o todo que deriva da parte. N\u00e3o \u00e9 a mercadoria que surge historicamente primeiro, depois a forma dinheiro, at\u00e9 chegar ao capital. A modernidade surge de um processo de imposi\u00e7\u00e3o social e n\u00e3o de um desenvolvimento linear hist\u00f3rico, como se tais categorias fossem transhist\u00f3ricas, mudando apenas o \u201cest\u00e1gio de desenvolvimento\u201d. Al\u00e9m disso, n\u00e3o se trata de entender que da mercadoria surge o dinheiro e o capital, at\u00e9 as deriva\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas e pol\u00edticas, como se o valor fosse uma categoria econ\u00f4mica. O valor \u00e9 uma categoria de socializa\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria, e o capital \u00e9 pressuposto da mercadoria. A rela\u00e7\u00e3o capital individual e capital social total deve ser o ponto de partida, pois a grandeza de valor \u00e9 determinada pelo tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio, logo a crise do valor s\u00f3 pode ser determinada pelo capital social total. Por exemplo, com o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, o capital individual aumenta sua produtividade de mercadorias e depende cada vez menos de for\u00e7a de trabalho, barateando os custos e o pre\u00e7o das mercadorias diminui, o que aumenta o lucro do capital individual. Com a equaliza\u00e7\u00e3o desse novo patamar produtivo aos demais capitais individuais, o tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio diminui e a grandeza de valor de certa mercadoria idem. Assim, aparece ao capital individual que ele cria mais valor, entretanto, no n\u00edvel do capital social total h\u00e1 redu\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o de valor. A forma mercadoria n\u00e3o \u00e9 o ideal-t\u00edpico no qual o ciclo de valoriza\u00e7\u00e3o sempre retorna, como um eterno retorno nietzschiano, mas de uma contradi\u00e7\u00e3o em processo que se autovaloriza e autodestr\u00f3i suas bases de valoriza\u00e7\u00e3o (o trabalho abstrato), atingindo seu limite interno absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, esse texto pretende apenas trazer de modo superficial como mera exposi\u00e7\u00e3o das tem\u00e1ticas que a cr\u00edtica do valor e valor-cis\u00e3o t\u00eam apresentado nas \u00faltimas d\u00e9cadas, que ser\u00e1 aprofundado no evento do Sindilex <em>\u201cDesdobrando a cr\u00edtica do valor: com Marx para al\u00e9m de Marx\u201d<\/em> com transmiss\u00e3o no Youtube entre os dias 4 de agosto a 8 de setembro, com os professores Maurilio Botelho, Carlos de Almeida Toledo, Taylisi Leite, F\u00e1bio Pitta, Robson Oliveira e Marildo Menegat. &nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"576\" height=\"1024\" sizes=\"auto, (max-width: 576px) 100vw, 576px\" src=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-30-at-11.43.09-576x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2424\" srcset=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-30-at-11.43.09-576x1024.jpeg 576w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-30-at-11.43.09-169x300.jpeg 169w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-07-30-at-11.43.09.jpeg 720w\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n<style>.wp-block-kadence-column.kb-section-dir-horizontal > .kt-inside-inner-col > #kt-info-box_d09f25-47 .kt-blocks-info-box-link-wrap{max-width:unset;}#kt-info-box_d09f25-47 .kt-blocks-info-box-link-wrap{border-color:#d70141;border-top-width:5px;border-right-width:5px;border-bottom-width:5px;border-left-width:5px;background:#d70141;padding-top:24px;padding-right:24px;padding-bottom:24px;padding-left:24px;margin-top:50px;}#kt-info-box_d09f25-47 .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover{border-color:#d70141;background:#d70141;}#kt-info-box_d09f25-47.wp-block-kadence-infobox{max-width:100%;}#kt-info-box_d09f25-47 .kadence-info-box-image-inner-intrisic-container{max-width:100px;}#kt-info-box_d09f25-47 .kadence-info-box-image-inner-intrisic-container .kadence-info-box-image-intrisic{max-width:100%;}#kt-info-box_d09f25-47 .kadence-info-box-icon-container .kt-info-svg-icon, #kt-info-box_d09f25-47 .kt-info-svg-icon-flip, #kt-info-box_d09f25-47 .kt-blocks-info-box-number{font-size:50px;}#kt-info-box_d09f25-47 .kt-blocks-info-box-media{color:#444444;background:#ffffff;border-color:#eeeeee;border-top-width:5px;border-right-width:5px;border-bottom-width:5px;border-left-width:5px;padding-top:0px;padding-right:0px;padding-bottom:0px;padding-left:0px;}#kt-info-box_d09f25-47 .kt-blocks-info-box-media-container{margin-top:-75px;margin-right:0px;margin-bottom:20px;margin-left:0px;}#kt-info-box_d09f25-47 .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover .kt-blocks-info-box-media{color:#444444;background:#ffffff;border-color:#eeeeee;}#kt-info-box_d09f25-47 .kt-infobox-textcontent h2.kt-blocks-info-box-title{color:#f7e6d4;padding-top:0px;padding-right:0px;padding-bottom:0px;padding-left:0px;margin-top:5px;margin-right:0px;margin-bottom:10px;margin-left:0px;}#kt-info-box_d09f25-47 .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover h2.kt-blocks-info-box-title{color:#f7e6d4;}#kt-info-box_d09f25-47 .kt-infobox-textcontent .kt-blocks-info-box-text{color:#f4dcc3;}#kt-info-box_d09f25-47 .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover .kt-blocks-info-box-text{color:#f4dcc3;}#kt-info-box_d09f25-47 .kt-blocks-info-box-learnmore{background:transparent;border-width:0px 0px 0px 0px;padding-top:4px;padding-right:8px;padding-bottom:4px;padding-left:8px;margin-top:10px;margin-right:0px;margin-bottom:10px;margin-left:0px;}<\/style>\n<div id=\"kt-info-box_d09f25-47\" class=\"wp-block-kadence-infobox\"><a class=\"kt-blocks-info-box-link-wrap info-box-link kt-blocks-info-box-media-align-top kt-info-halign-left\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><div class=\"kt-blocks-info-box-media-container\"><div class=\"kt-blocks-info-box-media kt-info-media-animate-none\"><\/div><\/div><div class=\"kt-infobox-textcontent\"><h2 class=\"kt-blocks-info-box-title\">Adriano Camargo Barbosa dos Santos<\/h2><p class=\"kt-blocks-info-box-text\">Mestre em Direito Pol\u00edtico e Econ\u00f4mico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente, estabelece estudos e di\u00e1logos fora da academia sobre uma reestrutura\u00e7\u00e3o da Cr\u00edtica Marxista do Direito a partir da Cr\u00edtica do valor-dissocia\u00e7\u00e3o.<\/p><\/div><\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A chamada Wertkritik ( \u201ccr\u00edtica do valor\u201d) \u00e9 uma corrente te\u00f3rica originalmente marxista de militantes e te\u00f3ricos alem\u00e3es reunidos em Nuremberg, que por uma reinterpreta\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx e suas categorias b\u00e1sicas, ou seja,&nbsp; mercadoria, valor, dinheiro e trabalho abstrato,&nbsp; passam a estabelecer uma cr\u00edtica categorial ao capitalismo atrav\u00e9s da 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