{"id":2416,"date":"2022-08-02T17:40:00","date_gmt":"2022-08-02T17:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/?p=2416"},"modified":"2022-08-02T22:22:58","modified_gmt":"2022-08-02T22:22:58","slug":"a-ilha-aprazivel-eric-g-gauna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2022\/08\/02\/a-ilha-aprazivel-eric-g-gauna\/","title":{"rendered":"A Ilha Apraz\u00edvel &#8211; \u00c9ric G. Ga\u00fana"},"content":{"rendered":"\n<ul class=\"wp-block-social-links is-layout-flex wp-block-social-links-is-layout-flex\">\n\n\n\n\n\n<\/ul>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Em uma sala de aula subterr\u00e2nea, um professor, a algumas d\u00e9cadas de dist\u00e2ncia no futuro, leciona em ingl\u00eas para seus pequenos aprendizes. Traduzo o epis\u00f3dio apenas para a comodidade de leitores e leitoras brasileiros atuais. Este narrador deve desculpar-se igualmente pela intraduzibilidade das mais sutis nuances, e dada a dist\u00e2ncia contextual deste documento, que assim me chegou de um poss\u00edvel futuro e sem aviso pr\u00e9vio \u2014 provindo de inst\u00e2ncias naturalmente superiores \u2014 escusar o pobre dom\u00ednio que o tradutor possui dos in\u00e9ditos modos culturais e inimagin\u00e1veis refer\u00eancias. \u00c9 o m\u00e1ximo que um tradutor e um narrador atrasado no tempo e no espa\u00e7o p\u00f4de fazer, principalmente diante do futuro, que agora tamb\u00e9m \u00e9 qu\u00e2ntico. Que os leitores encontrem-se mais preparados para julgar seus significados.<\/p>\n\n\n\n<p>Na situa\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o, uma li\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria parece estar prestes a come\u00e7ar, apesar de dedicar-se meramente \u00e0 hist\u00f3ria de uma pequena ilha. Dado que as formas dram\u00e1ticas expressas no documento me s\u00e3o desconhecidas em seus padr\u00f5es hist\u00f3ricos, insiro uma interfer\u00eancia narrativa do que pude colher de seu modo representativo ainda por vir, simplificando o texto. N\u00e3o pretendi a arquitetura do \u00e9pico, apenas a m\u00ednima facilidade e o aspecto mais direto. Sou, portanto, totalmente respons\u00e1vel pelos poss\u00edveis equ\u00edvocos acerca da forma, todos provavelmente grosseiros. Mas foi poss\u00edvel identificar tratar-se de um professor, um aluno \u00e0 frente, um aluno ao fundo, um outro corpo mal identificado de outros alunos, men\u00e7\u00f5es a um oficial da casta militar, um ambiente claustrof\u00f3bico de todo modo.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor respira e, ap\u00f3s a algazarra de algumas moscas em sua mesa e um som de apito em seu peito arqueado, come\u00e7a:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 <em>Dear pupils<\/em>, hoje contarei a hist\u00f3ria do menor pa\u00eds que j\u00e1 existiu. Bem, terceiro menor, se contarmos o Vaticano e M\u00f4naco, que eram mais cidades do que pa\u00edses. De todo modo, trata-se hoje da Ilha Apraz\u00edvel, <em>Pleasant Island<\/em>. A Atl\u00e2ntida do Per\u00edodo dos Pa\u00edses. Voc\u00eas se lembram de quando estudamos o Per\u00edodo dos Pa\u00edses?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas o que \u00e9 <em>apraz\u00edvel<\/em>? \u2014 pergunta um aluno ao fundo, contrariado, mas genuinamente intrigado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quer dizer <em>agrad\u00e1vel<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas ela era tamb\u00e9m a mais agrad\u00e1vel? O Per\u00edodo dos Pa\u00edses n\u00e3o nos pareceu agrad\u00e1vel. \u2014 segue o garoto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Paci\u00eancia, veremos\u2026 \u00c9 comum que os nomes n\u00e3o sejam coerentes com as coisas o tempo todo. Acontece que ningu\u00e9m sabia o qu\u00e3o agrad\u00e1vel ela era at\u00e9 descobrirem o lugar ou o que havia nele de agrad\u00e1vel. E nem tudo no Per\u00edodo dos Pa\u00edses era desagrad\u00e1vel. Tudo tinha seu lado positivo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o havia ningu\u00e9m na Ilha Apraz\u00edvel antes de ela virar pa\u00eds?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Havia, havia\u2026 mas como era um povo que sempre estivera l\u00e1, eles n\u00e3o tinham como descobrir e fundar aquele pa\u00eds eles mesmos. \u201c\u00c9 necess\u00e1rio sair da ilha para ver a ilha\u201d, lembrem-se das aulas de literatura. S\u00f3 quem j\u00e1 descobriu outros lugares \u00e9 que vira descobridor e tem direito a descobrir o pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ah\u2026 lembramos. Mas ela era pr\u00f3xima do que foi o Brasil?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea quer dizer <em>Amaz\u00f4nia.<\/em> <em>The name is Central Amazon Region<\/em>, <em>CAR<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 <em>Yes<\/em>. Era pr\u00f3xima?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 <em>No<\/em>! E essa quest\u00e3o n\u00e3o interessa agora. Vamos seguir. Em uma min\u00fascula ilha no Pac\u00edfico, hoje naufragada, pouco maior que nosso humilde Complexo I de Defesa da Ala Sul, deslumbrante natureza era cercada de bel\u00edssimos corais. Fauna e flora de cair o queixo. <em>Amazing!<\/em>&nbsp; De todo modo, havia um povo muito pequeno, tinha pouca gente. Tanto que os fundadores do pa\u00eds, os <em>Anglos<\/em>, nossos ancestrais, muito numerosos e pr\u00f3speros, chamaram eles de <em>Micropovo<\/em>. Eles n\u00e3o sabiam trabalhar como nossos ancestrais e n\u00e3o conheciam nosso com\u00e9rcio e nossas inven\u00e7\u00f5es. Nossos ancestrais, como se preocupavam com essa ignor\u00e2ncia que se espalhava pelo mundo, decidiram assentar nessa ilha, uni-la \u00e0s suas rotas comerciais, integr\u00e1-la na rede do mundo dos pa\u00edses, e quando o <em>Micropovo<\/em> se comportava bem e mostrava que aprenderam a trabalhar e participar da pr\u00f3spera vida do mundo, davam-lhe armas, instrumentos de trabalho e bebida alco\u00f3lica. Fundaram assim o menor pa\u00eds do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ah! No Per\u00edodo dos Pa\u00edses, eles precisavam das armas e das bebidas para trabalhar, n\u00e3o \u00e9? Como \u00e9 que chamava mesmo\u2026 Uni\u00e3o Universal do Trabalho! E tinham ainda aquela arma para se proteger tamb\u00e9m\u2026 hm\u2026 o chicote! \u2014 interrompe com entusiasmo um rapaz enfileirado mais \u00e0 frente, balan\u00e7ando suas madeixas louras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso mesmo, ponto pra voc\u00ea! Mas voc\u00ea errou um detalhe: o chicote era um <em>instrumento de trabalho <\/em>do Per\u00edodo dos Pa\u00edses, n\u00e3o uma arma de verdade. A bebida era um elemento motivacional; j\u00e1 a enxada, o computador, as canetas, celulares, carros e avi\u00f5es, eram <em>ferramentas<\/em>. S\u00f3 os canh\u00f5es, rifles e bombas eram armas, e as armas, na maior parte das ocasi\u00f5es, n\u00e3o s\u00e3o ferramentas de trabalho, mas de prote\u00e7\u00e3o e motiva\u00e7\u00e3o. Acontece que, assim como ocorre com o \u00e1lcool, sem armas de p\u00f3lvora, f\u00f3sforo e as demais, as pessoas tamb\u00e9m n\u00e3o trabalham direito: ficam sem motiva\u00e7\u00e3o, com medo, ou recorrem \u00e0s imoralidades e \u00e0 baderna. Por vezes, h\u00e1 selvageria ou assassinato coletivo de um grupo por outro, ou o pr\u00f3prio grupo se enfurece consigo mesmo e se mata. \u00c9 necess\u00e1rio um balan\u00e7o muito preciso entre esses elementos. Por isso, os nossos ancestrais estavam preocupados e levaram tudo isso at\u00e9 l\u00e1. \u2014 O professor montava esquemas gr\u00e1ficos \u00e0 lousa a partir de seus discursos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ah! Desculpe, professor. Ent\u00e3o eles produziam e davam armas para que entendessem como se trabalhava e para ajud\u00e1-los a serem pessoas melhores e melhores participantes do mundo, certo? \u2014 reelabora o rapaz da fileira da frente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso a\u00ed! Mas esse povo era ainda muito arcaico, e ao inv\u00e9s de trabalhar, beberam o \u00e1lcool r\u00e1pido demais, e quando a bebida acabou, ficaram desapontados e acabaram usando as armas contra si mesmos. Viram s\u00f3 o desbalan\u00e7o? Gerou-se o problema da guerra civil. Lembram-se o que \u00e9 guerra civil?<\/p>\n\n\n\n<p> \u2014 \u00c9 quando o povo emburrece, n\u00e3o quer mais trabalhar, e ao inv\u00e9s de usarem as armas para organizar o trabalho, come\u00e7am a se matar! \u2014 diz afoito o mesmo menino.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Muito bem! Marquei aqui mais um ponto para voc\u00ea. Seguindo. Aconteceu o que mais tarde ocorreu na Cor\u00e9ia: com um desastre moral, mais de um ter\u00e7o do <em>Micropovo<\/em> se matou em uma guerra sem sentido, porque n\u00e3o souberam se controlar com a bebida, se organizar e trabalhar mais e melhor. Isso foi no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, o s\u00e9culo em que nossos ancestrais despertaram para a Uni\u00e3o Universal do Trabalho e formaram os pa\u00edses. Vejam s\u00f3, at\u00e9 o menor pa\u00eds do mundo sofreu disso, apesar de todos os esfor\u00e7os did\u00e1ticos e da bondade de nossos ancestrais em levar suas ideias ao mundo. Mas logo depois disso, as coisas ficaram um pouco melhores. Ao final do s\u00e9culo XIX, foi uma das outras Na\u00e7\u00f5es Reais, os <em>Allemanni<\/em> \u2014 o famoso \u201cPovo de Todos os Homens\u201d, lembram-se? \u2014 que apareceram com uma solu\u00e7\u00e3o para organizar a ilha, e tratava-se de tentar seu antigo modo de organiza\u00e7\u00e3o, que funcionara por muito tempo, mas que havia mudado em sua terra natal apenas recentemente: a monarquia prussiana (o professor grafa e sublinha o nome \u00e0 lousa), j\u00e1 que a rep\u00fablica comercial mais cl\u00e1ssica de nossos ancestrais <em>Anglos<\/em> n\u00e3o parecia funcionar com todo o atraso do <em>Micropovo<\/em> e, contrariamente ao caso dos pa\u00edses j\u00e1 despertos, desencadeava muitos desastres. Isso tamb\u00e9m trouxe uma li\u00e7\u00e3o: os novos regimes n\u00e3o funcionavam com povos incapazes. Em seguida e por pura ast\u00facia, os <em>Allemanni<\/em> descobriram mais uma coisa fant\u00e1stica l\u00e1: quantidades imensas de fezes de gaivota sedimentada. O <em>guano<\/em>. E o <em>Micropovo<\/em> era muito atrasado cientificamente para entender o valor disso!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas qual era o valor disso? Era um novo instrumento de trabalho? \u2014 O interessado rapaz da frente constrange-se brevemente com a pr\u00f3pria pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sem d\u00favida! E um dos melhores: continha o potencial do fosfato e dos nitratos, permitindo fazer armas com muita rapidez, al\u00e9m de fertilizantes! Este \u00faltimo uso foi desenvolvido em especial pelos nossos ancestrais, que assim o aplicaram muito e muito rapidamente na agricultura da <em>Britannia<\/em>, enriquecendo aceleradamente o seu solo. E como tudo que nossos ancestrais inventaram, era <em>uma<\/em> coisa que <em>fazia duas ao mesmo tempo<\/em>. Lembrem-se: os melhores materiais de trabalho, na \u00e9poca dos pa\u00edses, eram sempre usados para fazer duas coisas ao mesmo tempo. Tinham esse car\u00e1ter amb\u00edguo. Armas tamb\u00e9m. Tanto era o caso que chegaram a bloquear o com\u00e9rcio de tais \u00edtens duais a alguns pa\u00edses injustos, que podiam ter m\u00e1s ideias. Neles acabando tamb\u00e9m e com frequ\u00eancia, infelizmente, pelo car\u00e1ter dual da coisa e do bloqueio, com a produ\u00e7\u00e3o de rem\u00e9dios e outros produtos, como os agr\u00edcolas. <em><u>Uso dual<\/u> <\/em>\u2014 o professor leva o termo sublinhado ao quadro \u2014 era, n\u00e3o obstante, a justifica\u00e7\u00e3o mais que justa dos bloqueios. Como deixar insumos para armas nas m\u00e3os de na\u00e7\u00f5es perigosas? Nos pa\u00edses civilizados, em geral, como as armas eram usadas para ensinar e motivar o trabalho, as coisas se mantinham bem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Santo guano! \u2014 interrompe admirado o mesmo rapaz.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Realmente, era miraculoso. Enfim: as imensas reservas fecais da grande concentra\u00e7\u00e3o de gaivotas da min\u00fascula ilha, sedimentando ao passar dos milhares de anos, tornaram-se riqu\u00edssimas em fosfato e nitratos. Excluindo alguns lugares da Am\u00e9rica Latina, era a maior concentra\u00e7\u00e3o de guano que se conhecia no planeta. Com minas de fosfato, fazia-se muito fertilizante para o plantio e muito insumo para armas \u2014 duas grandes conquistas para o mundo: aumento na produ\u00e7\u00e3o global de alimentos e de armas! Acreditava-se que ningu\u00e9m mais passaria fome e as motiva\u00e7\u00f5es do trabalho moderno estariam ao alcance de todos. E isso foi bem na virada do s\u00e9culo XX: como voc\u00eas se lembram, o S\u00e9culo da Liberdade. Bem, ao menos em partes. Assim, apesar da aplica\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica dos <em>Anglos <\/em>no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, foi tamb\u00e9m gra\u00e7as aos <em>Allemanni<\/em> que tivemos essas conquistas \u2014 os primeiros tratados sobre o guano foram escritos pelo grandioso Humboldt, no s\u00e9culo XIX, que o encontrou no Peru. Nossos ancestrais <em>Anglos<\/em> n\u00e3o gostaram muito, porque agora eles tinham que competir com os <em>Allemanni<\/em> para produzir alimento e incentivo ao trabalho, mas isso \u00e9 s\u00f3 um detalhe. Ali\u00e1s, os <em>Allemanni<\/em> tamb\u00e9m descobriram um modo de extrair o nitrato do ar para depender menos dos min\u00e9rios, por exemplo. Isso foi fruto de um dos mais fundamentais e inesquec\u00edveis qu\u00edmicos do s\u00e9culo XX: Fritz Haber! \u2014 O professor anota o seu nome \u00e0 lousa. \u2014 Com isso, ele produziu tamb\u00e9m gases muito interessantes e recebeu um Pr\u00eamio Nobel. N\u00e3o precisamos pensar que somos os \u00fanicos a descobrir ou fazer coisas. Os mais avan\u00e7ados laborat\u00f3rios exigem in\u00fameros sacrif\u00edcios, e competi\u00e7\u00e3o era bom. E de todo modo, era precau\u00e7\u00e3o. No fim, as armas feitas de f\u00f3sforo ou tais nitratos raramente foram <em>de facto<\/em> usadas e em qualquer enciclop\u00e9dia para o s\u00e9culo XX, ler\u00e3o claramente: \u201cseu uso foi proibido (contra civis)\u201d, ainda que haja controv\u00e9rsias a respeito. \u00c9 \u00f3bvio que se passaram momentos catastr\u00f3ficos de guerra at\u00e9 que se chegasse a tais conclus\u00f5es, nos quais a imoralidade reinou, resultou de um desbalan\u00e7o moral das coisas: insumos demais e, inevitavelmente, em m\u00e3os erradas. Estamos falando do Per\u00edodo dos Pa\u00edses, afinal. At\u00e9 os <em>Alemanni<\/em>, que ent\u00e3o ocupavam a Ilha Apraz\u00edvel, em um momento, tamb\u00e9m se engrandeceram demais com tais tipos de insumos, principalmente com os potenciais m\u00faltiplos do fosfato e do nitrato. De todo modo, mais tarde foi o povo <em>Nippon<\/em> que passou uma temporada na ilha, mas breve. Levaram de l\u00e1 alguns trabalhadores para ajudar-lhes na sua pr\u00f3pria ilha solar, um pouco maior. Em geral, as Na\u00e7\u00f5es Reais sempre trabalhavam juntas para essas conquistas, e a competi\u00e7\u00e3o por insumos, como as armas, era de fundamental motiva\u00e7\u00e3o. Era essa uma fundamental Alian\u00e7a para o Progresso. E n\u00e3o vamos esquecer de nossas aulas de qu\u00edmica: Lassaigne, um gaul\u00eas; Boyle, um anglo; e Schrader, do Povo de Todos os Homens; os primeiros a observarem, no s\u00e9culo XIX e a partir das misturas do fosfato, as propriedades mais fant\u00e1sticas desses componentes. Tamb\u00e9m o \u00e1lcool participou de tais investiga\u00e7\u00f5es. E nossa ilha era igualmente perfeita durante a Era do Guano: muito \u00e1lcool, muito fosfato.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas onde est\u00e1 a parte <em>apraz\u00edvel<\/em>? Eles acharam fezes, fundaram o menor pa\u00eds que existiu, e a\u00ed, muitos gases. Isso n\u00e3o \u00e9 <em>apraz\u00edvel<\/em>. Ainda n\u00e3o entendi o nome desse pa\u00eds. Nenhuma outra ilha fez algo melhor que isso no Per\u00edodo dos Pa\u00edses? \u2014 diz do fundo o rapaz que falara ao in\u00edcio da aula, visivelmente confuso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o acharam apenas fezes, acharam <em>mat\u00e9ria-prima<\/em>! Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 prestando aten\u00e7\u00e3o e est\u00e1 atrasado com o conte\u00fado. Vou te tirar um ponto. Al\u00e9m do mais, a ilha era muito bonita. Chegou a ser um dos mais conhecidos p\u00f3los tur\u00edsticos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014&nbsp; Mas a \u00e9poca dos pa\u00edses transformava at\u00e9 sujeira e desgra\u00e7a em coisa boa. Foi voc\u00ea que nos ensinou isso! Ent\u00e3o os fundadores deveriam ter chamado essa ilha de \u201cCoc\u00f4 de Ouro\u201d, e n\u00e3o \u201cPa\u00eds Agrad\u00e1vel\u201d. E o <em>Micropovo<\/em>?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E menos dois pontos\u2026 Chama-se \u201cIlha Apraz\u00edvel\u201d. A\u00ed est\u00e1, jovem ing\u00eanuo, voc\u00ea sempre aprende s\u00f3 metade: \u201co dinheiro pode ser lixo, embora lixo n\u00e3o seja dinheiro\u201d. \u00c9 apenas com essa brilhante ideia que nossos ancestrais puderam nos legar a vida, a ci\u00eancia e toda uma \u00e9poca, e voc\u00ea despreza todo o trabalho de gera\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea se esqueceu de nossa li\u00e7\u00e3o especial da Rep\u00fablica: pode sair da Cloaca de Roma, <em>pecunia<\/em> <em>non olet<\/em>! Dinheiro n\u00e3o fede! Quero falar com os seus pais depois da aula. Que anda lendo? Vamos seguir\u2026<\/p>\n\n\n\n<p> Neste instante, treme todo o <em>bunker<\/em> no qual seguia tranquilamente a aula. Os alunos n\u00e3o se impressionam. A poeira \u00e9 batida dos casacos. Os cadernos que ca\u00edram s\u00e3o retomados do ch\u00e3o; a postura, recobrada. Um quepe retorna do ch\u00e3o a uma cabe\u00e7a. Se houvesse um horizonte \u00e0 vista por alguma janela, um olhar estaria nele fixado, como quem olhasse para o futuro com convic\u00e7\u00e3o. O jovem da fileira da frente rearranja suas madeixas lustrosas. O professor respira fundo, sorri e anuncia:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que nossa paz e aprendizado n\u00e3o sejam abalados pelos b\u00e1rbaros que seguem, na superf\u00edcie, a tentar nos atingir. Jamais conseguir\u00e3o. Jamais trar\u00e3o sua guerra civil, insana e atrasada, para dentro de nossa civiliza\u00e7\u00e3o. Foi Deus quem nos conduziu, dando-nos a ci\u00eancia, a raz\u00e3o, o trabalho \u00e1rduo e toda a alquimia do mundo para al\u00e7armo-nos \u00e0 sua prote\u00e7\u00e3o e ao seu templo indestrut\u00edvel. Em nossos abrigos estamos seguros. Ainda que n\u00e3o vejamos hoje a luz da superf\u00edcie, ainda que sejamos perseguidos, que nos escondamos como fizeram os corajosos <em>freedom fighters <\/em>e <em>rangers<\/em> de outrora, ou como bravos Conspiradores da P\u00f3lvora a esgueirar sob a C\u00e2mara dos Lordes, \u00e9 nesta escurid\u00e3o que se edifica e caminha o cora\u00e7\u00e3o do que restou da liberdade; \u00e9 por ela que carregamos a tocha dos ancestrais. Nossos antepassados nos legaram todos os ensinamentos, e quando a f\u00faria do mundo l\u00e1 fora tiver devorado a pele e a carne de cada b\u00e1rbaro, retornaremos para povoar de luzes o nosso belo planeta.<\/p>\n\n\n\n<p> O aluno \u00e0 frente rubrou e verteu uma pequena l\u00e1grima, que tentou esconder. O menino ao fundo olhava para o ch\u00e3o. Certos alunos levantam-se e prestam contin\u00eancia, seguida de um gesto firme de m\u00e3os erguidas, tamb\u00e9m por parte de alguns alunos que permanecem sentados; o rapaz louro adiante est\u00e1 de p\u00e9, com a bota lustrada enterrada no ch\u00e3o e em posi\u00e7\u00e3o de sentido, bra\u00e7os abaixo e cabe\u00e7a erguida. Suas medalhas finalizam o coro de gestos com o tilintar do ouro em seu peito.\u00a0 O professor dispensou o obs\u00e9quio, pirragueou e seguiu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A prop\u00f3sito, essa \u00e9 uma oportuna hora de contar-lhes o lema do nosso menor de todos os pa\u00edses: <em><u>God\u2019s will first<\/u><\/em>! \u2014 o professor grifa o lema ao topo do quadro \u2014 A vontade de Deus primeiro! At\u00e9 hoje carregamos um lema assim em nosso peito. Vejam como o Per\u00edodo dos Pa\u00edses, apesar de ter despertado a ira dos b\u00e1rbaros descrentes contra os povos despertos e avan\u00e7ados, manteve acesa a luz divina e nos d\u00e1 um exemplo de vit\u00f3ria. Um pequeno lar de b\u00eabados sanguin\u00e1rios transforma-se, por meio da ast\u00facia e do progresso, em uma das maiores produ\u00e7\u00f5es mundiais dos dois elementos mais vitais para o Per\u00edodo dos Pa\u00edses: insumos para alimentos e insumos para armas! E n\u00e3o parou por a\u00ed! A Ilha Apraz\u00edvel tornou-se tamb\u00e9m, por um tempo, o lar <em>dos mais ricos homens do planeta<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas e depois? \u2014\u00a0 Pergunta o rapaz ao fundo, de cara um tanto amassada, mas novamente atento ao momento.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Depois o qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O Sr. disse: \u201cpor um tempo\u201d. E depois de n\u00e3o serem mais esse lar? Viraram o qu\u00ea? Fosfato de gaivota? A Eti\u00f3pia tinha fosfato. O Brasil tamb\u00e9m tinha fosfato. Tinha muito coc\u00f4 no Brasil, \u00e9 isso? \u2014 Alguns alunos cont\u00eam o riso. O rapaz, contudo, permanece s\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O rapazote est\u00e1 tro\u00e7ando com a Hist\u00f3ria? Venha c\u00e1. Come\u00e7o a ter a impress\u00e3o de que seus familiares podem ter permitido que voc\u00ea obtenha estranho acesso a ideias que n\u00e3o circulam no Complexo I de Defesa da Ala Sul. Ap\u00f3s a aula, eu, voc\u00ea e o Brigadeiro Burnier conversaremos. E acrescento: vamos ter uma palavrinha com sua fam\u00edlia em seguida. Al\u00e9m do mais, voc\u00ea n\u00e3o tem cumprido com as exig\u00eancias e obriga\u00e7\u00f5es de preparo em nosso Complexo Escolar das Am\u00e9ricas. N\u00e3o tens merecido a cruz-de-ferro de nosso bras\u00e3o em teu peito.<\/p>\n\n\n\n<p>O menino parecia nervoso, mas persistente. Teria a breve plat\u00e9ia que nunca tivera. De todo modo, j\u00e1 sabia-se perdido. Levantou-se devagar e disse:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 S\u00f3 n\u00e3o entendo por que eles precisaram de tanto fosfato. O que queria fazer Schrader ou Haber com seus experimentos? J\u00e1 n\u00e3o tinha o Povo de Todos os Homens, ou os <em>Anglos<\/em>, ou mesmo os <em>Nippon<\/em>, armas o suficiente e materiais e ferramentas o suficiente para encher as m\u00e3os de cada ser humano de meios de vida? Por que era necess\u00e1rio esse singular totem fecal do mesol\u00edtico? Para ser sincero, eu j\u00e1 ouvi falar de uma outra ilha muito mais interessante e importante; bem mais pr\u00f3xima, ali\u00e1s\u2026 \u2014 e acrescenta, finalmente, em portugu\u00eas: \u201cMas e depois?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 <em>Silence, boy<\/em>! \u2014 Sua voz grave ecoa anglosaxonicamente nas quatro lisas paredes de concreto \u2014 Mais uma palavra e ir\u00e1 imediatamente para a sala do Brigadeiro!<\/p>\n\n\n\n<p>O rapaz senta-se ent\u00e3o novamente, parecendo ao mesmo tempo triste e aliviado. A amea\u00e7a nem sempre precisa se concretizar como tal. O professor, dando-se por satisfeito, segue:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 <em><u>Os homens mais ricos do mundo<\/u><\/em>, foi a\u00ed que parei. \u2014 O professor corta lenta e raivosamente a lousa com a mais seca pe\u00e7a de giz, como se escrevesse com um cartucho \u2014 Tamb\u00e9m a ONU, a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, ajudou esses pr\u00f3speros homens a administrar a ilha a fim de democratizar as suas riquezas. A Ilha Apraz\u00edvel vem assim a se integrar \u00e0 Comunidade do Pac\u00edfico. E pac\u00edficos eram, muito para al\u00e9m do nome. Tamb\u00e9m nossos ancestrais estar\u00e3o por l\u00e1. Muito turismo ainda enriqueceu o local, justificado pelas belezas singulares da ilha e sua hist\u00f3ria. Isso foi no s\u00e9culo XX, cujo tema j\u00e1 abordamos: o per\u00edodo da democratiza\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses e suas riquezas. Ainda estamos longe do per\u00edodo do dom\u00ednio dos b\u00e1rbaros, que apenas a\u00ed come\u00e7am a surgir, mas que finalmente conseguir\u00e3o, mais e mais, destruir a democracia e nos trazer para baixo desses <em>bunkers<\/em> e para os <em>Defense Complexes.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Este que o Sr. falou era o \u00f3rg\u00e3o democr\u00e1tico global m\u00e1ximo que controlava as pol\u00edticas de armas entre os pa\u00edses, evitando que eles acabassem usando as armas para atacar outros pa\u00edses, n\u00e3o \u00e9 mesmo? \u2014 diz o jovem \u00e0 frente, que volta a sorrir.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 <em>Exactly<\/em>! Desse jeito, vejo que terei de adiantar minha carta de recomenda\u00e7\u00e3o ao Clube de&nbsp; Oficiais Juniores. Pois bem. Mas n\u00e3o se animem muito, n\u00e3o se animem muito. A hist\u00f3ria \u00e9 bela, mas seus inimigos sempre surgem. Os b\u00e1rbaros ao redor do mundo, como fizeram os elementos atrasados do <em>Micropovo&nbsp; <\/em>\u2014 e havia muitos micropovos por a\u00ed (alguns, ali\u00e1s, muito grandes), atrasados, pregui\u00e7osos, distantes das luzes e incapazes de se integrar direito na Uni\u00e3o Universal do Trabalho \u2014 seguiam consumindo tudo sem querer trabalhar direito, sem conseguir balancear o trabalho, a bebida e as armas. E ainda queriam mudar o mundo, destruir as conquistas de ordem, trabalho e democracia que fundaram nossos antepassados juntamente \u00e0s Na\u00e7\u00f5es Reais! O pior exemplo de todo o per\u00edodo, com certeza, foi o <em>Eslavo<\/em>. Um povo que se misturou por toda parte at\u00e9 perder a consist\u00eancia de seu sangue. N\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o que o nome \u201ceslavo\u201d e \u201cescravo\u201d \u00e9 o mesmo. <em>Slave<\/em>. Ali\u00e1s, no fim, eles beberam tanto que viraram \u00e1lcool eles mesmos, trazendo muita preocupa\u00e7\u00e3o aos povos democr\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 <em>Oh<\/em>! Recordei-me agora, professor, de uma passagem de um de nossos mais admir\u00e1veis l\u00edderes do Per\u00edodo dos Pa\u00edses, Theodore &#8220;<em>Big Stick<\/em>&#8221; Roosevelt, que o Sr. nos ensinou: \u201cNenhum ser humano, negro, amarelo ou branco, pode ser t\u00e3o velhaco, insincero e arrogante \u2014 em suma, indigno de confian\u00e7a em todos os sentidos \u2014 do que os russos\u201d. Ele deve ter entendido bem o sentido da barb\u00e1rie, da bebida e da mistura desses <em>eslavos<\/em>!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Com certeza, meu jovem, com certeza\u2026 <em>Oh my<\/em>\u2026 Se tiv\u00e9ssemos mais mentes brilhantes como a sua dispon\u00edveis no passado recente, t\u00e3o dedicadas a combater os b\u00e1rbaros, talvez n\u00e3o estiv\u00e9ssemos nessa situa\u00e7\u00e3o hoje! Mas os b\u00e1rbaros tiveram uma vit\u00f3ria. Um coment\u00e1rio sobre esse ponto que j\u00e1 vimos anteriormente: sobre sua guerra e sua ira contra a civiliza\u00e7\u00e3o, contra o trabalho (usando armas para isso!), em suma, contra a liberdade e a fraternidade universal; tornaram-se <em>Furiae<\/em>, Er\u00ednias, que exigiam todo o preparo de nossa civiliza\u00e7\u00e3o ao seu dispor. Mas n\u00e3o mensuramos seu rancor e sua ira. Pensamos: se Atenas p\u00f4de venc\u00ea-las, por que n\u00f3s, muito mais preparados e sendo os herdeiros leg\u00edtimos dos <em>Helenos<\/em>, n\u00e3o as vencer\u00edamos? Todas as mentes mais preparadas voltaram-se a compreender o <em>Apocalipse<\/em>. Ah, Tis\u00edfone, filha do sangue e da noite, romperas o acordo e retornastes para nos destruir com tuas irm\u00e3s, a ira infinita e a <em>inveja<\/em>! Ah, Constantinopla ca\u00edda mais uma vez! J\u00e1 muito antes estava escrito: \u201cE os homens foram abrasados com grandes calores, e blasfemaram o nome de Deus, que tem poder sobre estas pragas; e n\u00e3o se arrependeram para lhe darem gl\u00f3ria\u201d. Os b\u00e1rbaros, entretanto, nos agrediam e retorciam a filosofia, a ci\u00eancia, a palavra santa, e as empregavam contra n\u00f3s mesmos, dizendo ent\u00e3o: \u201cCaiu, caiu a grande Babil\u00f4nia, e se tornou morada de dem\u00f4nios, e coito de todo esp\u00edrito imundo, e coito de toda ave imunda e odi\u00e1vel\u201d. Julgavam e atacavam nossos empreendimentos e nossa humanidade. Mas sab\u00edamos bem a verdadeira li\u00e7\u00e3o de Deus: \u201cAs \u00e1guas que viste, onde se assenta a prostituta, s\u00e3o povos, e multid\u00f5es, e na\u00e7\u00f5es, e l\u00ednguas\u201d. N\u00f3s hav\u00edamos trazido o ser humano universal, a justi\u00e7a de todos, e essa era a sina que essa alma, sem carne e sem cor e sem pa\u00eds, a portadora do manto universal, tinha de levar contra os b\u00e1rbaros, gostassem ou n\u00e3o, presos a seus interesses mesquinhos e particulares. Seres do passado. Nosso erro foi pensar que sab\u00edamos bem do que b\u00e1rbaros eram capazes, que eram homens como n\u00f3s, que entendiam os mais humanos prop\u00f3sitos de nossa cremat\u00edstica. Nosso erro foi crer, por tempo demais, que nossos esfor\u00e7os levariam a luz aos baixos e babil\u00f4nios. Fica evidente a ingenuidade de nosso John Stuart Mill \u2014 o nome vai \u00e0 lousa \u2014, que nos dir\u00e1 que \u201co despotismo \u00e9 um modo de governo leg\u00edtimo para se lidar com os b\u00e1rbaros, desde que a finalidade seja seu avan\u00e7o\u201d. Os b\u00e1rbaros s\u00e3o incapazes de avan\u00e7ar nesse sentido, independentemente do que pud\u00e9ssemos fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u201cBem souberas me dizer dessa moeda a sua liga e o seu peso, mas me diz se a tens em teu bolso\u201d \u2014 estava novamente de p\u00e9 o garoto ao fundo. Mas era tarde. Quando \u00e9 tarde no inferno, mais tarde ainda \u00e9 no c\u00e9u. O rapaz \u00e0 frente das fileiras olhava para o quadro com penetrante seriedade e certa satisfa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia salva\u00e7\u00e3o para o rapaz aos fundos, e seus demais colegas olhavam para o ch\u00e3o. Ningu\u00e9m viria ao seu socorro. Mesmo antes que o professor esticasse seu bra\u00e7o, j\u00e1 se encaminhou sem protesto \u00e0 porta. Sem cerim\u00f4nia, o professor a fecha devagar atr\u00e1s do garoto, cujas botas ainda emitem um abafado e desvanecente eco no corredor. O homem emite mais um for\u00e7ado pigarro em meio ao deferente sil\u00eancio e segue:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O \u00fanico real azar da Ilha Apraz\u00edvel \u00e9 que outras minas se tornaram mais importantes adiante na hist\u00f3ria, como as de ouro, prata, e por fim, as de l\u00edtio, ainda que as de l\u00e1 tenham sido milimetricamente e cuidadosamente usadas at\u00e9 seus confins. Tamb\u00e9m o petr\u00f3leo. Assim, Atl\u00e2ntida j\u00e1 via subir as \u00e1guas em seu horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor faz uma pausa, espantando em seguida uma \u00faltima mosca que insistia em pousar \u00e0 mesa. O chiado de seu peito ecoa na sala de pedra.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se eu fosse responder \u00e0 intransigente \u201cpergunta\u201d sobre o tal \u201cdepois\u201d, anteriormente feita, precisaria apenas da antiga sabedoria: \u201cE toda a ilha fugiu; e os montes n\u00e3o se acharam\u201d. Fugiram de qu\u00ea, meus pequenos? Bem, ap\u00f3s toda essa hist\u00f3ria, cheguem \u00e0s suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Fascinante, professor! Eu penso que\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Um estampido surdo e colossal chega \u00e0 sala como se chegasse de cada mil\u00edmetro, cada vibrante \u00e1tomo da c\u00e1psula de rocha. O professor apressa-se a sacar de seu bolso uma estranha p\u00edlula negra. A porta \u00e9 arremessada em chamas em sua dire\u00e7\u00e3o e ele p\u00f4de, se \u00e9 que p\u00f4de, arregalar os olhos e chiar o peito uma \u00faltima vez. Com a porta em disparo adentraram as chamas. N\u00e3o havia tempo\u2026 n\u00e3o houve tempo. Foi tarde demais.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<style>.wp-block-kadence-column.kb-section-dir-horizontal > .kt-inside-inner-col > #kt-info-box_cc8de4-7e .kt-blocks-info-box-link-wrap{max-width:unset;}#kt-info-box_cc8de4-7e .kt-blocks-info-box-link-wrap{border-color:#d70141;border-top-width:5px;border-right-width:5px;border-bottom-width:5px;border-left-width:5px;background:#d70141;padding-top:24px;padding-right:24px;padding-bottom:24px;padding-left:24px;margin-top:50px;}#kt-info-box_cc8de4-7e .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover{border-color:#d70141;background:#d70141;}#kt-info-box_cc8de4-7e.wp-block-kadence-infobox{max-width:100%;}#kt-info-box_cc8de4-7e .kadence-info-box-image-inner-intrisic-container{max-width:112px;}#kt-info-box_cc8de4-7e .kadence-info-box-image-inner-intrisic-container .kadence-info-box-image-intrisic{padding-bottom:111.5385%;width:832px;height:0px;max-width:100%;}#kt-info-box_cc8de4-7e .kadence-info-box-icon-container .kt-info-svg-icon, #kt-info-box_cc8de4-7e .kt-info-svg-icon-flip, #kt-info-box_cc8de4-7e .kt-blocks-info-box-number{font-size:50px;}#kt-info-box_cc8de4-7e .kt-blocks-info-box-media{color:#444444;background:#ffffff;border-color:#eeeeee;border-top-width:5px;border-right-width:5px;border-bottom-width:5px;border-left-width:5px;padding-top:0px;padding-right:0px;padding-bottom:0px;padding-left:0px;}#kt-info-box_cc8de4-7e .kt-blocks-info-box-media-container{margin-top:-75px;margin-right:0px;margin-bottom:20px;margin-left:0px;}#kt-info-box_cc8de4-7e .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover .kt-blocks-info-box-media{color:#444444;background:#ffffff;border-color:#eeeeee;}#kt-info-box_cc8de4-7e .kt-infobox-textcontent h2.kt-blocks-info-box-title{color:#f7e6d4;padding-top:0px;padding-right:0px;padding-bottom:0px;padding-left:0px;margin-top:5px;margin-right:0px;margin-bottom:10px;margin-left:0px;}#kt-info-box_cc8de4-7e .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover h2.kt-blocks-info-box-title{color:#f7e6d4;}#kt-info-box_cc8de4-7e .kt-infobox-textcontent .kt-blocks-info-box-text{color:#f4dcc3;}#kt-info-box_cc8de4-7e .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover .kt-blocks-info-box-text{color:#f4dcc3;}#kt-info-box_cc8de4-7e .kt-blocks-info-box-learnmore{background:transparent;border-width:0px 0px 0px 0px;padding-top:4px;padding-right:8px;padding-bottom:4px;padding-left:8px;margin-top:10px;margin-right:0px;margin-bottom:10px;margin-left:0px;}<\/style>\n<div id=\"kt-info-box_cc8de4-7e\" class=\"wp-block-kadence-infobox\"><a class=\"kt-blocks-info-box-link-wrap info-box-link kt-blocks-info-box-media-align-top kt-info-halign-left\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><div class=\"kt-blocks-info-box-media-container\"><div class=\"kt-blocks-info-box-media kt-info-media-animate-none\"><div class=\"kadence-info-box-image-inner-intrisic-container\"><div class=\"kadence-info-box-image-intrisic kt-info-animate-none\"><div class=\"kadence-info-box-image-inner-intrisic\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/ericerr.png\" alt=\"\" width=\"832\" height=\"928\" class=\"kt-info-box-image wp-image-1985\" srcset=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/ericerr.png 832w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/ericerr-269x300.png 269w, https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/ericerr-768x857.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 832px) 100vw, 832px\" \/><\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><div class=\"kt-infobox-textcontent\"><h2 class=\"kt-blocks-info-box-title\">\u00c9ric G. Ga\u00fana<\/h2><p class=\"kt-blocks-info-box-text\">\u00c9ric \u00e9 formado em Letras (Portugu\u00eas e Alem\u00e3o) pela Universidade de S\u00e3o Paulo e mestrando em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas. \u00c9 tamb\u00e9m professor de idiomas, tradutor e quase um escritor. Quase<\/p><\/div><\/a><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">arte: Mappa Mundi &#8211; s\u00e9culo XIII<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma sala de aula subterr\u00e2nea, um professor, a algumas d\u00e9cadas de dist\u00e2ncia no futuro, leciona em ingl\u00eas para seus pequenos aprendizes. Traduzo o epis\u00f3dio apenas para a comodidade de leitores e leitoras brasileiros atuais. 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