{"id":140,"date":"2018-12-26T19:26:00","date_gmt":"2018-12-26T21:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/tradutoresproletarios.wordpress.com\/2018\/12\/26\/sobre-as-mulheres-como-classe-feminismo-materialista-e-luta-de-massas\/"},"modified":"2021-01-23T05:23:41","modified_gmt":"2021-01-23T05:23:41","slug":"sobre-as-mulheres-como-classe-feminismo-materialista-e-luta-de-massas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2018\/12\/26\/sobre-as-mulheres-como-classe-feminismo-materialista-e-luta-de-massas\/","title":{"rendered":"Sobre as mulheres como classe: feminismo materialista e luta de massas \u2014 Alyson Escalante"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image wp-caption\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2018\/12\/ba3a0-1bvgnuvxmjtn9lslzpfjxsw.png\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"2560\"\/><figcaption>Arte por See Red Women\u2019s Workshop, editada e traduzida pela&nbsp;CTP<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Historicamente, a rela\u00e7\u00e3o entre feminismo e marxismo tem sido frequentemente caracterizada por tens\u00f5es. Enquanto este \u00faltimo desenhou uma profunda vis\u00e3o de liberta\u00e7\u00e3o da humanidade, feministas frequentemente s\u00e3o c\u00e9ticas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 falta de aten\u00e7\u00e3o da perspectiva marxista \u00e0 opress\u00e3o de g\u00eanero. Da mesma maneira, marxistas muitas vezes temem que a \u00eanfase excessiva nas quest\u00f5es de g\u00eanero sirva de distra\u00e7\u00e3o, obscurecendo a primazia da contradi\u00e7\u00e3o de classe, localizada no n\u00facleo da luta de classes.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar desses receios&nbsp;, tamb\u00e9m h\u00e1 uma importante hist\u00f3ria de marxistas e feministas trabalhando em conjunto para entenderem melhor a rela\u00e7\u00e3o entre a sociedade de classes, a viol\u00eancia <em>generizada<\/em>\u00b9, e a opress\u00e3o. O que est\u00e1 em jogo, nestes esfor\u00e7os colaborativos, s\u00e3o quest\u00f5es cruciais referentes a como, precisamente, o g\u00eanero opera e \u00e9 constitu\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>Me aproximo dessa quest\u00e3o do ponto de vista de uma partid\u00e1ria. Ou seja, parto da perspectiva de uma marxista-leninista e ao mesmo tempo de uma feminista materialista. Tenho trabalhado j\u00e1 h\u00e1 algum tempo para tentar me interpor nesta rela\u00e7\u00e3o complicada entre essas duas escolas de pensamento, e assim poder afirmar que seus objetivos est\u00e3o necessariamente entrela\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, por uma quest\u00e3o de transpar\u00eancia, j\u00e1 ponho aqui as cartas sob a mesa: minha posi\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que o sistema ocidental contempor\u00e2neo de g\u00eanero opera como uma classe. Quero dizer com isso que as posi\u00e7\u00f5es sociais de homem e mulher s\u00e3o posi\u00e7\u00f5es de classe, as quais representam a rela\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m com uma divis\u00e3o do trabalho espec\u00edfica. Homem e mulher s\u00e3o ambos express\u00f5es de uma contradi\u00e7\u00e3o dentro da sociedade de classes; isto significa que a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres precisa ser alcan\u00e7ada pela resolu\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica dessa contradi\u00e7\u00e3o. Tal resolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada organizando as mulheres como uma classe, para assim efetuar a derrubada revolucion\u00e1ria da base material produtora desta contradi\u00e7\u00e3o classista de g\u00eanero. Na pr\u00e1tica, isto significa a destrui\u00e7\u00e3o do modelo nuclear de fam\u00edlia, a aboli\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o <em>generizada<\/em> do trabalho dom\u00e9stico, e a cont\u00ednua cr\u00edtica ideol\u00f3gica e luta contra as ideologias <em>generizadas<\/em> produzidas por essas condi\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Compreensivelmente, muitos Marxistas ler\u00e3o esta explica\u00e7\u00e3o e questionar\u00e3o a sua utilidade para a teoria marxista da luta de classes. Se as mulheres constituem uma classe potencialmente revolucion\u00e1ria, ent\u00e3o n\u00e3o seriam tamb\u00e9m as mulheres burguesas concebidas como parte de uma classe progressiva, em luta contra homens prolet\u00e1rios? Se o g\u00eanero opera como classe, ent\u00e3o isso quer dizer que ele est\u00e1 em p\u00e9 de igualdade com a luta de classes contra o capitalismo? O que isso significaria para nossos modelos organizacionais? Poderia isto complicar as coisas de uma maneira que serviria como impedimento \u00e0 luta de massas contra o capitalismo? O que dizer ent\u00e3o do fato de que muitas das feministas materialistas que prop\u00f5em este argumento ao mesmo tempo rejeitam aspectos do marxismo? Estas quest\u00f5es s\u00e3o todas justas, e se a explica\u00e7\u00e3o a qual procuro propor sobre g\u00eanero fosse parar nesse esbo\u00e7o descrito acima, elas possivelmente seriam raz\u00f5es muito boas para rejeitar esta teoria de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que n\u00e3o sou apenas uma feminista materialista, mas tamb\u00e9m uma marxista-leninista. A teoria de g\u00eanero que procuro propor \u00e9 um tanto quanto mais complicada do que este pouquinho que deixei transparecer acima. Enquanto acredito que o g\u00eanero funciona como uma contradi\u00e7\u00e3o de classe (no sentido materialista formal), \u00e9 ainda assim necess\u00e1rio questionar como tal contradi\u00e7\u00e3o desenvolveu-se historicamente. Aqui, me volto a Silvia Federici, cujo trabalho sobre g\u00eanero tem procurado ligar o desenvolvimento dessa contradi\u00e7\u00e3o \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o primitiva capitalista e \u00e0 emerg\u00eancia hist\u00f3rica do conflito de classes entre o proletariado e a burguesia. Argumento que a teoriza\u00e7\u00e3o dada por Federici pode transpor o abismo entre o feminismo materialista e o marxismo pela demonstra\u00e7\u00e3o de como a contradi\u00e7\u00e3o homem\/mulher surge como resultado de uma emergente contradi\u00e7\u00e3o proletariado\/burguesia. As condi\u00e7\u00f5es materiais produtoras do sistema moderno e ocidental de g\u00eanero s\u00e3o elas mesmas um resultado do desenvolvimento capitalista. Por isso, a resolu\u00e7\u00e3o do conflito de classes entre homens e mulheres n\u00e3o pode ser alcan\u00e7ado sem a resolu\u00e7\u00e3o deste mesmo conflito entre proletariado e burguesia. A contradi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero n\u00e3o pode ser reduzida \u00e0 de classes capitalista, mas ela tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser resolvida sem a resolu\u00e7\u00e3o da contradi\u00e7\u00e3o de classes capitalista. Por conseguinte, a derrubada do capitalismo \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria (mas n\u00e3o suficiente) para a aboli\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres como classe. Estando esta teoriza\u00e7\u00e3o correta, a estrat\u00e9gia feminista-materialista de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres subitamente torna-se ent\u00e3o inerentemente interligada \u00e0 estrat\u00e9gia marxista de revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que esta formula\u00e7\u00e3o pode abordar e lidar com muitos dos problemas que os cr\u00edticos marxistas tem tido com a tradi\u00e7\u00e3o feminista materialista. Se a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria \u00e9 a causa necess\u00e1ria da resolu\u00e7\u00e3o da contradi\u00e7\u00e3o homem\/mulher, ent\u00e3o \u00e9 claro que n\u00e3o conceituaremos mulheres burguesas como nossas aliadas ao mesmo tempo em que enxergamos nos homens prolet\u00e1rios um inimigo. Em vez disso, ter\u00edamos que compreender a luta pela liberta\u00e7\u00e3o da mulher como inerentemente entrela\u00e7ada \u00e0 derrubada da classe capitalista. Simultaneamente, temos que lutar pela liberta\u00e7\u00e3o das mulheres dentro da sociedade socialista assim como dentro da luta de massas. Isto n\u00e3o \u00e9 apenas crucial para a liberta\u00e7\u00e3o bem-sucedida das mulheres enquanto classe, mas tamb\u00e9m para destruir as justifica\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas da fam\u00edlia nuclear, as quais por si s\u00f3 funcionam como parte da superestrutura ideol\u00f3gica capitalista. Nesta formula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, a luta pela revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria e pela liberta\u00e7\u00e3o das mulheres requer aten\u00e7\u00e3o cuidadosa \u00e0s respectivas contradi\u00e7\u00f5es de ambos, mas a primazia \u00e9 ainda assim dada \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o da contradi\u00e7\u00e3o de classes capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>[1] \u201cGenerizada\u201d:<em> neologismo para a palavra inglesa <\/em>genderized<em>, que denota algo dividido em g\u00eaneros, ou que carrega em si a ideia\/categoria de g\u00eanero.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">As mulheres como&nbsp;classe<\/h4>\n\n\n\n<p>Para reconciliar a teoria de g\u00eanero feminista materialista com a teoria marxista de revolu\u00e7\u00e3o do proletariado, precisamos primeiramente entender a maneira pela qual o feminismo materialista teoriza o g\u00eanero. Como sempre, me volto ao trabalho de Monique Wittig para sucintamente capturar as nuances dessa aproxima\u00e7\u00e3o te\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu ensaio \u201c<em>N\u00e3o Se Nasce Mulher<\/em>\u201d, Wittig tenta prover uma explica\u00e7\u00e3o materialista quanto ao g\u00eanero. \u00c9 importante reconhecer que essa explica\u00e7\u00e3o entra em conflito com a teoria marxista, na medida em que a pr\u00f3pria autora contrasta essa teoria com o marxismo. Assim sendo, qualquer tentativa de teorizar Wittig de uma perspectiva marxista deve trabalhar para colmatar o fosso criado pelo pr\u00f3prio distanciamento desta do marxismo. Wittig inicia seu ensaio com uma afirma\u00e7\u00e3o ousada:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Uma abordagem feminista materialista da opress\u00e3o das mulheres destr\u00f3i a ideia de que as mulheres s\u00e3o um \u2018grupo natural\u2019: \u2018um grupo racial de um tipo especial, percebido como natural, um grupo de homens considerados como materialmente espec\u00edficos em seus corpos.\u2019<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O que Wittig tenta aqui \u00e9 estabelecer que uma teoria materialista de g\u00eanero necessariamente requer uma defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o-essencial de feminilidade. N\u00e3o \u00e9 suficiente ter a categoria de mulher por certa; ao inv\u00e9s disso, devemos interrogar como a feminilidade \u00e9 constru\u00edda. Wittig n\u00e3o quer apenas desvelar a constitui\u00e7\u00e3o social de feminilidade, mas tamb\u00e9m est\u00e1 muito interessada nas maneiras pelas quais a ideia de mulher enquanto grupo natural funciona como uma justificativa ideol\u00f3gica da opress\u00e3o desta.<\/p>\n\n\n\n<p>Wittig argumenta que a ideia de que h\u00e1 um agrupamento natural de humanos que podemos rotular como \u201cmulher\u201d \u00e9, na verdade, um meio de naturalizar e mistificar uma rela\u00e7\u00e3o social exploradora. Ela escreve: <em>\u201ca abordagem feminista materialista mostra que o que tomamos como causa ou origem da opress\u00e3o \u00e9, na verdade, apenas a marca imposta pelo opressor: o \u2018mito da mulher\u2019\u201d<\/em>. Wittig rejeita a ideia de que a feminilidade \u00e9 uma quest\u00e3o de simples materialidade corporal, e em vez disso argumenta que a ideia de um grupo de mulheres naturalizado, com base na <em>corporifica\u00e7\u00e3o<\/em>\u00b2, no porte de certos tra\u00e7os corporais, \u00e9 resultado da opress\u00e3o social. Ela continua:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O que acreditamos ser uma percep\u00e7\u00e3o f\u00edsica e direta \u00e9 apenas uma sofisticada e m\u00edtica constru\u00e7\u00e3o, uma \u2018forma\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria\u2019, que reinterpreta caracter\u00edsticas f\u00edsicas (em si neutras como qualquer outras, mas marcadas pelo sistema social) por meio da rede de rela\u00e7\u00f5es nas quais s\u00e3o percebidas.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A maneira pela qual a maioria das pessoas aceitam acriticamente a categoria g\u00eanero, com base na <em>corporifica\u00e7\u00e3o<\/em>, \u00e9 assim entendida como uma fun\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do g\u00eanero que obscurece e refor\u00e7a as condi\u00e7\u00f5es materiais da opress\u00e3o das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Wittig p\u00f5e isso em termos muito mais expl\u00edcitos em seu ensaio \u201c<em>A Categoria \u2018Sexo\u2019<\/em>\u201d. Nesse ensaio, ela come\u00e7a a se referir a essa cren\u00e7a em um agrupamento natural como <em>a ideologia de diferen\u00e7a sexual<\/em>. Essa ideologia opera precisamente para justificar a explora\u00e7\u00e3o da mulher. Essa justifica\u00e7\u00e3o \u00e9 comparada por ela a uma forma de censura. Wittig escreve:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A ideologia de diferen\u00e7a sexual funciona como uma censura em nossa cultura por mascarar, pela ideia de natureza, a oposi\u00e7\u00e3o social entre homem e mulher. Masculino\/feminino, macho\/f\u00eamea, s\u00e3o categorias que servem para ocultar o fato de que as diferen\u00e7as sociais sempre pertencem a uma ordem econ\u00f4mica, pol\u00edtica e ideol\u00f3gica. Todo sistema de domina\u00e7\u00e3o estabelece divis\u00f5es em n\u00edvel material e econ\u00f4mico. Al\u00e9m disso, as divis\u00f5es s\u00e3o abstra\u00eddas e tornadas em conceitos pelos mestres\u2026. porque n\u00e3o h\u00e1 sexo. H\u00e1 apenas o sexo que \u00e9 oprimido e o sexo que oprime. \u00c9 a opress\u00e3o que cria o sexo, e n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Algo not\u00e1vel ocorre aqui. Ao transformar o sexo, de um agrupamento natural para um relacionamento com a opress\u00e3o sist\u00eamica das mulheres, Wittig funcionalmente articula o g\u00eanero como uma classe. A ideologia de diferen\u00e7a sexual \u00e9 uma ideologia superestrutural produzida por uma base material. Essa ideologia n\u00e3o apenas emerge das condi\u00e7\u00f5es materiais da opress\u00e3o das mulheres, mas age para obscurec\u00ea-la, censurar aqueles que tentem desmistific\u00e1-la, e para justific\u00e1-la. Afinal, se o g\u00eanero fosse um agrupamento natural, haveria uma base fundacional e imut\u00e1vel para a opress\u00e3o das mulheres. Em vez disso, Wittig sugere que h\u00e1 um conflito de classes funcional entre homem e mulher e que este emerge de uma forma espec\u00edfica de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da mulher pelo homem. Ela resume isso bem sucintamente ao escrever, <em>\u201ca perenidade dos sexos e a perenidade dos escravos e mestres surgem da mesma cren\u00e7a, e, como n\u00e3o existem escravos sem mestres, n\u00e3o existem mulheres sem homens.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s interrogar as bases materiais do g\u00eanero, podemos nos perguntar: o que \u00e9 uma mulher? A resposta dada por Wittig \u00e9 marcante: uma mulher \u00e9 um membro da classe das mulheres, esta que \u00e9 a classe oprimida e explorada pela classe de homens. Esta \u00e9 uma teoria n\u00e3o-essencialista que remove quaisquer bases naturais para a opress\u00e3o das mulheres. Nenhum apelo pode ser feito \u00e0 subservi\u00eancia natural da mulher ou \u00e0 inferioridade biol\u00f3gica. Em vez disso, nos resta o fato brutal de que o g\u00eanero em si \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de classe.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto Wittig demonstra que a rela\u00e7\u00e3o entre homem e mulher \u00e9 formalmente articulada como uma rela\u00e7\u00e3o de classe, at\u00e9 agora ela n\u00e3o proveu uma explica\u00e7\u00e3o materialista da base econ\u00f4mica que produz essa rela\u00e7\u00e3o de classe. Ent\u00e3o, para explicar isso, ela conceitua a heterossexualidade como a base material para o g\u00eanero. O emparelhamento heterossexual de marido e esposa existe como um princ\u00edpio da organiza\u00e7\u00e3o social para subjuga\u00e7\u00e3o das mulheres. Enquanto as realidades do casamento continuam a evoluir, ele funciona historicamente para reduzir a mulher a uma propriedade do homem, for\u00e7ar as mulheres a realizarem formas espec\u00edficas e descompensadas de trabalho dom\u00e9stico e tornar as mulheres sexualmente dispon\u00edveis para o homem atrav\u00e9s de um contrato formalizado. Assim, existe uma divis\u00e3o do trabalho que subjaz o g\u00eanero. Adicionalmente, este funcionou para criar uma rela\u00e7\u00e3o diferente com a pobreza, j\u00e1 que as mulheres casadas historicamente foram privadas da posse da propriedade devido ao direito do marido de controlar as finan\u00e7as familiares. \u00c9 dessa rela\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que surge a ideologia de diferen\u00e7a sexual e \u00e9 ela que a refor\u00e7a e obscurece.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Wittig, a meta de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres ser\u00e1 alcan\u00e7ada com a aboli\u00e7\u00e3o do g\u00eanero. Esta resultar\u00e1 da resolu\u00e7\u00e3o da contradi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre homens e mulheres enquanto classes. Assim, deve ser alcan\u00e7ada atrav\u00e9s da luta de classes. A autora explica: \u201c<em>nossa luta visa suprimir os homens enquanto classe, n\u00e3o atrav\u00e9s de uma luta genocida, mas de uma luta pol\u00edtica. Assim que a classe \u2018homem\u2019 desaparecer, a \u2018mulher\u2019 enquanto classe ir\u00e1 desaparecer tamb\u00e9m\u2026\u2019 <\/em>A liberta\u00e7\u00e3o da mulher requer primeiramente a aboli\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es que produzem a feminilidade. Podemos fazer uma analogia com o fato de que a liberta\u00e7\u00e3o do proletariado sobre a classe capitalista abole a posi\u00e7\u00e3o de classe do proletariado, ao destruir a base capitalista que produz a contradi\u00e7\u00e3o de classes entre o proletariado e o capitalista em primeiro lugar. A liberta\u00e7\u00e3o da mulher requer que as mulheres se organizem enquanto classe para a aboli\u00e7\u00e3o da classe da mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora Wittig forne\u00e7a uma explica\u00e7\u00e3o surpreendentemente complexa dos fundamentos materiais do g\u00eanero, h\u00e1 alguns problemas te\u00f3ricos em sua teoria que devem ser abordadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Francamente, Wittig n\u00e3o consegue historicizar apropriadamente o aparecimento da heterossexualidade ou o contrato de casamento moderno. Seu trabalho, em grande parte, trata ambos quase como fatos ahist\u00f3ricos, enquanto falha em perceber que a articula\u00e7\u00e3o espec\u00edfica da heterossexualidade que ela examina \u00e9 um fen\u00f4meno ocidental, que emerge especificamente das condi\u00e7\u00f5es materiais da Europa. Na verdade, Wittig dificilmente considera a possibilidade de que o sistema de g\u00eanero que ela analisa possa n\u00e3o ser universaliz\u00e1vel em uma escala global. O sistema de g\u00eanero europeu \u00e9 utilizado por ela para representar o g\u00eanero em si mesmo, sem nenhuma justificativa para isso. Assim sendo, h\u00e1 um certo eurocentrismo n\u00e3o questionado dentro do trabalho de Wittig. Isso n\u00e3o \u00e9 suficiente para descartar sua teoria, mas requer uma apropria\u00e7\u00e3o materialista adequada de seu trabalho para historiciz\u00e1-lo e explicar a rela\u00e7\u00e3o entre o sistema de g\u00eanero europeu e o processo de coloniza\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, Wittig tende a tratar a heterossexualidade como um fen\u00f4meno abstrato, sem dar uma explica\u00e7\u00e3o de como a heterossexualidade \u00e9 mantida e perpetuada atrav\u00e9s da unidade social da fam\u00edlia. O fato do casamento e a fam\u00edlia serem locais onde a heterossexualidade \u00e9 promulgada e reproduzida \u00e9 claro na cr\u00edtica wittigiana, mas n\u00e3o o lugar de onde a fam\u00edlia emerge. Que for\u00e7as sociais fazem com que a fam\u00edlia se torne uma unidade social fundamental dentro da sociedade capitalista? A n\u00e3o ser que essa quest\u00e3o possa ser respondida, somos for\u00e7ados a entender a heterossexualidade e a fam\u00edlia nuclear como realidades transhist\u00f3ricas. Isso n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel, contudo, j\u00e1 que pesquisas antropol\u00f3gicas e hist\u00f3ricas (datando do livro \u201cOrigens da Fam\u00edlia\u201d, de Engels) demonstraram de maneira consistente que a fam\u00edlia nuclear moderna e o arranjo econ\u00f4mico heterossexual no qual aquela se fundamenta s\u00e3o fen\u00f4menos historicamente contingentes. Assim, ficamos sem uma explica\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 origem da contradi\u00e7\u00e3o de classe entre homens e mulheres&nbsp;.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa falha ao historicizar esse sistema de g\u00eanero racializado e ocidentalizado, em conjunto \u00e0 falha ao historicizar completamente o surgimento da fam\u00edlia nuclear, nos deixa com uma explica\u00e7\u00e3o que fica aqu\u00e9m de uma teoria materialista de g\u00eanero. Apesar dessas defici\u00eancias, Wittig certamente deu um grande salto \u00e0 teoria feminista, ao rejeitar tanto a teoria feminista liberal quanto a radical, as quais pressup\u00f5em a categoria de mulher como j\u00e1 dada, sempre existente. Al\u00e9m disso, Wittig permite que n\u00f3s entendamos o g\u00eanero enquanto uma contradi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica. Homem e mulher s\u00e3o transformados em posi\u00e7\u00f5es de classe, e a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres se articulada como uma quest\u00e3o de luta de classe. Tudo isso \u00e9 teoricamente importante e significante, mas deve ser aumentado com uma explica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica adequada do surgimento desse sistema de g\u00eanero dentro do desenvolvimento do capitalismo. Para isso, devemos nos voltar para outra te\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>[2] Corporifica\u00e7\u00e3o: <em>tradu\u00e7\u00e3o aproximada de <\/em>embodiment<em>, palavra poliss\u00eamica inglesa de dif\u00edcil tradu\u00e7\u00e3o, e com significados diversos a depender da posi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do autor. Neste ensaio, acreditamos que o termo signifique uma \u201cinscri\u00e7\u00e3o no corpo\u201d: as caracter\u00edsticas f\u00edsico-sexuais das mulheres s\u00e3o vistas pela sociedade como sinais de que a mulher incorpora, possui em sua natureza certos tra\u00e7os, como a fragilidade, a inclina\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade, a delicadeza, dentre outros\u200a\u2014\u200ae, por causa disso, a mulher incorpora (<\/em>embodies<em>) estes tra\u00e7os em sua imagem ps\u00edquica de seu pr\u00f3prio corpo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">G\u00eanero e acumula\u00e7\u00e3o primitiva<\/h4>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2018\/12\/6796a-1865l00efmehys6wrdcq4kg.png\" alt=\"\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Para contextualizar apropriadamente a teoria de g\u00eanero wittigiana, me voltarei ao trabalho da feminista italiana Silvia Federici, e seu estudo da acumula\u00e7\u00e3o primitiva. Em seu inovador texto, <em>Calib\u00e3 e a Bruxa<\/em>, Federici complexifica a teoria marxista da acumula\u00e7\u00e3o primitiva ao focar nas maneiras pelas quais esta \u201ctamb\u00e9m foi uma acumula\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7as e divis\u00f5es dentro da classe trabalhadora, atrav\u00e9s das quais hierarquias constru\u00eddas sobre g\u00eanero, assim como \u2018ra\u00e7a\u2019 e idade, tornaram-se constitutivas do dom\u00ednio de classe e da forma\u00e7\u00e3o do proletariado moderno.\u201d Esta \u00eanfase na acumula\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7as \u00e9 de extrema import\u00e2ncia para uma teoria materialista de g\u00eanero, porque ela pode historicizar a ideologia da diferen\u00e7a sexual que Wittig destaca como uma justificativa central para a opress\u00e3o das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>A teoria marxista da acumula\u00e7\u00e3o primitiva \u00e9 um dos mais importantes <em>insights<\/em> do corpus te\u00f3rico marxista, pois ela desmistifica a emerg\u00eancia do capitalismo. Marx rejeita as explica\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas dos capitalistas, insistentes em assumir que o surgimento do capitalismo foi simplesmente o fruto de alguns indiv\u00edduos os quais, trabalhando duro, acumularam riquezas e constru\u00edram as condi\u00e7\u00f5es para uma ind\u00fastria expandida e urbanizada. Em contraste a essa imagem bonitinha, Marx enfatiza a viol\u00eancia que foi necess\u00e1ria para criar as condi\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento capitalista. Ele demarca que uma for\u00e7a de trabalho prolet\u00e1ria urbanizada, livre para vender seu trabalho a capitalistas em competi\u00e7\u00e3o, exigiu a dissolu\u00e7\u00e3o da sociedade feudal. Foi central para essa dissolu\u00e7\u00e3o a retirada da conex\u00e3o dos camponeses \u00e0 terra, a liberta\u00e7\u00e3o dos servos, e o colapso for\u00e7ado das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas feudais. Afinal, se a for\u00e7a de trabalho est\u00e1 confinada, pelas rela\u00e7\u00f5es feudais, a um senhor, ela n\u00e3o est\u00e1 livre para vender seu trabalho \u00e0 classe capitalista emergente. Era necess\u00e1ria uma transforma\u00e7\u00e3o radical da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo ao afirmar que os trabalhadores foram \u201clibertos\u201d de sua servid\u00e3o feudal, Marx reconhece que \u201cpor outro lado, estes novos \u2018homens-livres\u2019 tornaram-se vendedores de si mesmos apenas depois de terem sido roubados de todos os seus meios de produ\u00e7\u00e3o, e de todas as garantias de exist\u00eancia legadas pelos antigos acordos feudais.\u201d A aboli\u00e7\u00e3o da servid\u00e3o feudal foi adquirida em troca da sujei\u00e7\u00e3o aos caprichos dos empregadores capitalistas, e foi conquistada por meio de certa priva\u00e7\u00e3o de direitos da classe trabalhadora emergente. Marx conclui que esta hist\u00f3ria de perda de direitos \u201cest\u00e1 escrita nos anais da humanidade a letras de sangue e de fogo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva tamb\u00e9m exigiu o cercamento das terras comunais. Este foi um processo legal pelo qual a nascente classe capitalista removeu legislativamente o acesso do campesinato a essas terras, funcionalmente removendo sua habilidade de autossustentar-se. Al\u00e9m disso, Marx denota a apari\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo 15 da \u201clegisla\u00e7\u00e3o sangrenta\u201d, um conjunto de leis que regularizou e criminalizou parcialmente o ato de pedir esmolas, criou puni\u00e7\u00f5es contra a recusa a trabalhar, proibiu estilos de vida n\u00f4mades, e tomou outros passos para criar uma nova classe trabalhadora urbanizada e dominada. Essas esmagadoras mudan\u00e7as legislativas n\u00e3o s\u00f3 destru\u00edram a rela\u00e7\u00e3o entre o campesinato e a terra da qual ele vivia, mas tamb\u00e9m criminalizou qualquer outra forma de viver que n\u00e3o fosse tornar-se um membro da nova classe prolet\u00e1ria de trabalhadores assalariados. O que Marx revela com esta investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00e9 que a emerg\u00eancia do capitalismo exigiu uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, n\u00e3o sendo um processo pac\u00edfico ou progressivo; em vez disso, necessitou de uma massiva quantia de viol\u00eancia e despossess\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O que n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o claro em Marx \u00e9 o que este processo tem a ver com g\u00eanero. E \u00e9 aqui que entra Federici. Apesar da formula\u00e7\u00e3o do Marx quanto \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o primitiva ser em grande parte focada no desenvolvimento de uma for\u00e7a de trabalho prolet\u00e1ria na Europa (mais especificamente na Inglaterra), Federeci expande o \u00e2mbito de sua investiga\u00e7\u00e3o. Uma das expans\u00f5es cruciais em sua obra \u00e9 o foco na rela\u00e7\u00e3o entre acumula\u00e7\u00e3o primitiva e colonialismo. Ela argumenta que o projeto colonial genocida executado no \u201cnovo mundo\u201d representa uma similar destrui\u00e7\u00e3o de modos de vida anteriores com o objetivo de criar as condi\u00e7\u00f5es para a acumula\u00e7\u00e3o capitalista. Federici tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o para a emerg\u00eancia da escravid\u00e3o durante o desenvolvimento do capitalismo como uma parte central do processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela \u00e9 cuidadosa ao enfatizar que todos esses processos sociais e fen\u00f4menos legais d\u00edspares atestam um \u00fanico e simples fato: \u201ca viol\u00eancia foi a principal alavanca, o principal poder econ\u00f4mico no processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva, porque o desenvolvimento capitalista exigiu um imenso salto na riqueza apropriada pela classe dominante europeia e no n\u00famero de trabalhadores colocado sob o seu comando.\u201d Todos esses fen\u00f4menos aparentemente desconexos s\u00e3o na verdade centrais ao desenvolvimento do capitalismo. Para Federici, isto significa que o capitalismo n\u00e3o pode ser visto como uma for\u00e7a propriamente progressiva a qual simplesmente libertou o campesinato, mas deve ser conceituado como um desenvolvimento genocida e brutalmente repressivo o qual criou um n\u00edvel de explora\u00e7\u00e3o humana \u201cnunca antes igualado na hist\u00f3ria.\u201d O capitalismo n\u00e3o precisava simplesmente produzir uma nova classe prolet\u00e1ria de trabalhadores livres; novas formas de escravid\u00e3o precisavam ser rapidamente inventadas e justificadas. Enquanto a jogada a longo prazo do desenvolvimento capitalista foi a produ\u00e7\u00e3o de uma for\u00e7a de trabalho livre, Federici insiste que \u201ca tend\u00eancia da classe capitalista durante os primeiros tr\u00eas s\u00e9culos de sua exist\u00eancia era impor a escravid\u00e3o e outras formas de trabalho for\u00e7ado como a rela\u00e7\u00e3o de trabalho dominante.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A formula\u00e7\u00e3o federiciana da acumula\u00e7\u00e3o primitiva reconhece a genialidade da teoria de Marx. Ela respeita profundamente a habilidade deste de perceber como um conjunto de fen\u00f4menos legais desconexos foi, na verdade, um processo central no desenvolvimento do capitalismo. Ao mesmo tempo, Federici aponta que este processo n\u00e3o se adequava ao r\u00e1pido n\u00edvel de acumula\u00e7\u00e3o requerido pelo capitalismo, e que a emerg\u00eancia da escravid\u00e3o foi t\u00e3o central ao desenvolvimento capitalista quanto a cria\u00e7\u00e3o de uma for\u00e7a de trabalho livre. Deve-se entender ent\u00e3o que Federici n\u00e3o rejeita a teoria de Marx da acumula\u00e7\u00e3o primitiva, mas expande-a por um processo de cr\u00edtica imanente.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta vers\u00e3o expandida da acumula\u00e7\u00e3o primitiva \u00e9 crucial para prover um trajeto hist\u00f3rico da emerg\u00eancia do sistema de g\u00eanero europeu e do arranjo heterossexual que Wittig critica. Federici argumenta que anteriormente ao desenvolvimento capitalista, tanto a produ\u00e7\u00e3o como a reprodu\u00e7\u00e3o eram entendidas como contribui\u00e7\u00f5es sociais valiosas. Neste sentido, entendia-se as mulheres como provedoras de trabalho valioso. Ela explica que \u201cno novo regime monet\u00e1rio, somente a produ\u00e7\u00e3o-para-o-mercado estava definida como atividade criadora de valor, enquanto a reprodu\u00e7\u00e3o do trabalhador come\u00e7ou a ser considerada como algo sem valor do ponto de vista econ\u00f4mico.\u201d Como resultado, o processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva levou a uma mudan\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero. As mulheres come\u00e7aram a ser exclu\u00eddas sistematicamente da for\u00e7a de trabalho, muitas vezes totalmente rejeitadas ao buscar emprego, ou pagas com sal\u00e1rios significativamente mais baixos. Isto levou a um confinamento das mulheres dentro da esfera dom\u00e9stica e a uma transforma\u00e7\u00e3o do trabalho reprodutivo, anteriormente valorizado, numa quest\u00e3o de reprodu\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica incompensada e n\u00e3o reconhecida. Federici resume: \u201c a import\u00e2ncia econ\u00f4mica da reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho realizada no \u00e2mbito dom\u00e9stico e sua fun\u00e7\u00e3o na acumula\u00e7\u00e3o do capital se tornaram invis\u00edveis, sendo mistificadas como uma voca\u00e7\u00e3o natural\u2026\u201d \u00c9 aqui que podemos ver a emerg\u00eancia hist\u00f3rica da ideologia da diferen\u00e7a sexual como uma justificativa para uma divis\u00e3o do trabalho <em>generizada<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>De certo modo, esta transforma\u00e7\u00e3o do papel social das mulheres representou o surgimento de um regime de g\u00eanero inteiramente novo. Federici explica:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Essas mudan\u00e7as hist\u00f3ricas\u200a\u2014\u200aque tiveram um auge no s\u00e9culo XIX com a cria\u00e7\u00e3o da figura da dona de casa em tempo integral\u200a\u2014\u200aredefiniram a posi\u00e7\u00e3o das mulheres na sociedade e com rela\u00e7\u00e3o aos homens. A divis\u00e3o sexual do trabalho que emergiu da\u00ed n\u00e3o apenas sujeitou as mulheres ao trabalho reprodutivo, mas tamb\u00e9m aumentou sua depend\u00eancia, permitindo que o Estado e os empregadores usassem o sal\u00e1rio masculino como instrumento para comandar o trabalho das mulheres.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Essas mudan\u00e7as precisam ser entendidas como uma ruptura radical em rela\u00e7\u00e3o aos sistemas de g\u00eanero anteriores. A nova divis\u00e3o do trabalho criou um regime de g\u00eanero inteiramente novo. Quero argumentar que este novo regime \u00e9 precisamente o sistema de g\u00eanero heterossexual que Wittig analisa. Federici continua:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Mais importante, a separa\u00e7\u00e3o entre produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o criou uma classe de mulheres prolet\u00e1rias que estavam t\u00e3o despossu\u00eddas como os homens, mas que, diferentemente deles, quase n\u00e3o tinham acesso aos sal\u00e1rios. Em uma sociedade que estava cada vez mais monetizada, acabaram sendo for\u00e7adas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de pobreza cr\u00f4nica, \u00e0 depend\u00eancia econ\u00f4mica e \u00e0 invisibilidade como trabalhadoras.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Se quisermos ler Wittig e Federici conjuntamente, este desenvolvimento nos \u00e9 da mais alta import\u00e2ncia. As mulheres e homens prolet\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o apenas privados de direitos e explorados igualmente pela classe capitalista, mas as mulheres prolet\u00e1rias enfrentam outro n\u00edvel de explora\u00e7\u00e3o al\u00e9m deste \u00faltimo. Enquanto as mulheres e homens prolet\u00e1rios est\u00e3o ambos no \u201ctime\u201d dos explorados da contradi\u00e7\u00e3o proletariado\/burguesia, as mulheres s\u00e3o exploradas e oprimidas dentro de outra contradi\u00e7\u00e3o de classe: homens e mulheres. A mulher prolet\u00e1ria exerce trabalho n\u00e3o compensado para o homem prolet\u00e1rio ao criar as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para um lar limpo e pac\u00edfico, ao alimentar ele e sua fam\u00edlia, e ao literalmente reproduzir a pr\u00f3xima linhagem de trabalhadores. Portanto, h\u00e1 uma divis\u00e3o de classes entre homens e mulheres que \u00e9 primariamente antag\u00f4nica, na medida em que ela \u00e9 expressa pela violenta explora\u00e7\u00e3o do trabalho feminino. Este \u00e9 precisamente o modelo econ\u00f4mico da heterossexualidade destacado por Wittig como a base material da contradi\u00e7\u00e3o <em>generizada<\/em> de classe, agora apropriadamente historicizada dentro do contexto da acumula\u00e7\u00e3o primitiva capitalista. O modelo familiar europeu moderno n\u00e3o \u00e9 mais algo dado como fato transhistoricamente, mas um desenvolvimento hist\u00f3rico contingente que emergiu do processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Federici n\u00e3o apenas historiciza a emerg\u00eancia do regime de g\u00eanero heterossexual, mas tamb\u00e9m nos d\u00e1 a habilidade de interrogar a pressuposi\u00e7\u00e3o euroc\u00eantrica de universalidade por tr\u00e1s da obra de Wittig. Por um lado, Federici pode explicar a difus\u00e3o deste sistema de g\u00eanero para al\u00e9m das fronteiras da Europa ao compreender a acumula\u00e7\u00e3o primitiva como um fen\u00f4meno global perpetrado por meio da coloniza\u00e7\u00e3o. H\u00e1 sim verdade no fato de que a classe capitalista europeia fez o melhor que p\u00f4de para universalizar este sistema de g\u00eanero. Por outro lado, a diferen\u00e7a racial foi uma justificativa para esta miss\u00e3o colonial e torna complicada a universalidade dessa narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, escravos negros nos EUA tiveram o acesso a este sistema de g\u00eanero espec\u00edfico negado, j\u00e1 que os homens negros n\u00e3o se beneficiavam, sob a escravid\u00e3o, da compensa\u00e7\u00e3o salarial. Por conseguinte, a divis\u00e3o <em>generizada<\/em> do trabalho, uma divis\u00e3o entre trabalho produtivo compensado e trabalho reprodutivo incompensado, se desfaz quando analisamos os sistemas de escravid\u00e3o que tamb\u00e9m surgiram do processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva. A te\u00f3rica negra feminista Dorothy Roberts tamb\u00e9m destacou a maneira pela qual sociedades supremacistas brancas historicamente regularam e procuraram controlar a reprodu\u00e7\u00e3o da mulher negra. Em <em>Killing The Black Body<\/em>, Roberts argumenta que o sistema americano de escravid\u00e3o racial imp\u00f4s formas de controle reprodutivo nas quais o trabalho reprodutivo feminino foi diretamente explorado por uma classe branca de senhores. Isso se distingue \u00f3bvia e radicalmente da explora\u00e7\u00e3o da mulher prolet\u00e1ria branca. Portanto, a acumula\u00e7\u00e3o primitiva tem que ser entendida como produtora de outros sistemas de g\u00eanero com base nas ideologias da diferen\u00e7a racial.<\/p>\n\n\n\n<p>Em adi\u00e7\u00e3o ao fato de que o trabalho reprodutivo feminino na sociedade tem tomado v\u00e1rias formas com base na diferen\u00e7a racial, feministas negras com frequ\u00eancia tem teorizado as maneiras pelas quais o modelo europeu da fam\u00edlia nuclear n\u00e3o se aplica \u00e0 experi\u00eancia de g\u00eanero negra estadunidense. Hortense Spillers argumentou famosamente em <em>Mama\u2019s Baby, Daddy\u2019s Maybe<\/em> que as condi\u00e7\u00f5es de escravid\u00e3o e a redu\u00e7\u00e3o \u00e0 propriedade fizeram os pr\u00f3prios conceitos e modelos de maternidade e fam\u00edlia falharem em se ligarem \u00e0 posi\u00e7\u00e3o social das mulheres negras dentro dos Estados Unidos. Formula\u00e7\u00f5es como as de Spillers tornam ainda mais complicada uma tentativa de universalizar o modelo europeu de g\u00eanero, ao mesmo tempo em que destaca a natureza racializada da \u201cacumula\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7as\u201d resultante da acumula\u00e7\u00e3o primitiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, n\u00e3o podemos compreender o sistema europeu de g\u00eanero como completamente universal. Isto entretanto n\u00e3o nos retira a habilidade de teorizar o g\u00eanero de um ponto de vista te\u00f3rico materialista unificado, pois os sistemas de racializa\u00e7\u00e3o que emergem da acumula\u00e7\u00e3o primitiva s\u00e3o express\u00f5es do desenvolvimento capitalista tanto quanto a divis\u00e3o <em>generizada<\/em> do trabalho. Ambos precisam ser entendidos e teorizados por meio de uma lente materialista hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de ideologias da diferen\u00e7a racial complicarem a universalidade da divis\u00e3o do trabalho <em>generizada<\/em> europeia, h\u00e1 uma maneira pela qual este sistema de g\u00eanero foi universalizado. A feminista decolonialista Maria Lugones refere-se a esse processo como a <em>miss\u00e3o civilizat\u00f3ria<\/em>, uma de assimilar o outro racializado para dentro das normas culturais europeias. A destrui\u00e7\u00e3o do sistema pr\u00e9-colonial de g\u00eanero nas Am\u00e9ricas, o estabelecimento de reformat\u00f3rios, e a cont\u00ednua demanda por assimila\u00e7\u00e3o cultural atrav\u00e9s do mundo ocidental foram todos feitos para universalizar estas normas. Era central a estes projetos a imposi\u00e7\u00e3o do modelo europeu da fam\u00edlia nuclear, e com ele, o sistema de g\u00eanero heterossexual. A miss\u00e3o civilizat\u00f3ria exigiu a destrui\u00e7\u00e3o dos modelos de g\u00eanero anteriores, assim como a das popula\u00e7\u00f5es que recusaram-se a se assimilar. Por isso, n\u00f3s ainda podemos centrar este sistema de g\u00eanero europeu <em>precisamente porque o processo colonial europeu tem buscado universaliz\u00e1-lo<\/em>. Para romper o imperativo colonial de assimila\u00e7\u00e3o, este sistema precisa ser destru\u00eddo. Uma cr\u00edtica deste sistema (e um plano estrat\u00e9gico para seu desmantelamento) ser\u00e1 necess\u00e1ria para a luta decolonial e para destruir as rela\u00e7\u00f5es sociais de viol\u00eancia racializada e escravid\u00e3o. Este centramento te\u00f3rico n\u00e3o pode ser \u00e0s custas da an\u00e1lise de outros sistemas racializados de g\u00eanero, e sim um centramento estrat\u00e9gico focado no combate aos efeitos globais ainda em marcha resultantes da emerg\u00eancia do capitalismo europeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Wittig fez um trabalho importante para o entendimento do sistema de g\u00eanero europeu como uma contradi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica da qual resulta uma rela\u00e7\u00e3o de classe antag\u00f4nica entre homens e mulheres. Federici nos permite entender a emerg\u00eancia hist\u00f3rica dessa contradi\u00e7\u00e3o, e reconhecer as maneiras pelas quais esta foi exportada globalmente. Lugones nos d\u00e1 um <em>insight<\/em> quanto a fun\u00e7\u00e3o colonial dessa contradi\u00e7\u00e3o e a destrui\u00e7\u00e3o de outros sistemas de g\u00eanero. Lida por meio de Federeci. a teoria da <em>miss\u00e3o civilizat\u00f3ria<\/em> de Lugones pode ser por n\u00f3s entendida como um aspecto da acumula\u00e7\u00e3o primitiva. Roberts e Spillers complicam a universalidade da teoria de g\u00eanero europeia ao demonstrarem que ela \u00e9 uma teoria racializada que n\u00e3o \u00e9 aplicada para al\u00e9m dos limites de diferen\u00e7a racial. Ao mesmo tempo, lidas por meio de Federeci, pode-se entender que estas teorias de diferen\u00e7a racializada emergem elas pr\u00f3prias do processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva capitalista. Portanto, a aboli\u00e7\u00e3o desses sistemas de diferen\u00e7a racializada est\u00e1 ligada \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o do sistema de g\u00eanero europeu, na medida em que ambos s\u00f3 podem ser superados por meio da derrubada do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, ao final desta investiga\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, torna-se claro que o g\u00eanero deve ser teorizado em termos materialistas. Tal feito demonstra que o g\u00eanero constitui sim uma contradi\u00e7\u00e3o de classe, e que o pr\u00f3prio g\u00eanero funciona como uma classe. Simultaneamente, o surgimento desta contradi\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligado ao desenvolvimento do capitalismo e \u00e0 emerg\u00eancia da contradi\u00e7\u00e3o proletariado\/burguesia. Por isso, na realidade n\u00e3o podemos atingir a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres em rela\u00e7\u00e3o aos homens sem superar a contradi\u00e7\u00e3o dentro do n\u00facleo do capitalismo. Apesar de lidarmos aqui com duas contradi\u00e7\u00f5es diferentes e duas rela\u00e7\u00f5es de classe resultantes, uma \u00e9 mais prim\u00e1ria que a outra e deve ser vencida para que a outra seja solucionada. Portanto, a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres est\u00e1 inerentemente ligada ao processo de revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria e luta de massas. Todos os variados sistemas de g\u00eanero contempor\u00e2neos, diversos como eles s\u00e3o como resultado da racializa\u00e7\u00e3o, essencialmente surgem do mesmo processo hist\u00f3rico. Como resultado da base hist\u00f3rica desses sistemas ser a acumula\u00e7\u00e3o primitiva, a oposi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria ao capitalismo \u00e9 da mais alta import\u00e2ncia. A \u00faltima quest\u00e3o que precisamos responder \u00e9 como esta teoria de g\u00eanero informa nossa estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2018\/12\/25f90-1ezf4hjnbudhrhlmco3iycg.png\" alt=\"\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Luta de massas e liberta\u00e7\u00e3o das&nbsp;mulheres<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Baseados na an\u00e1lise te\u00f3rica realizada acima, podemos dizer com certeza que a derrubada revolucion\u00e1ria do capitalismo \u00e9 necess\u00e1ria para a liberta\u00e7\u00e3o da mulher. O sistema de g\u00eanero europeu contempor\u00e2neo e a unidade social da fam\u00edlia nuclear emergiram como resultados do capitalismo e por estes s\u00e3o perpetuados. A necessidade de uma for\u00e7a de trabalho n\u00e3o paga de trabalhadores reprodutivos continua, e sem a aboli\u00e7\u00e3o do capitalismo, n\u00e3o teremos como eliminar esse sistema de opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do mais, a derrubada do capitalismo n\u00e3o pode ser assegurada sem a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres. A ideologia de diferen\u00e7a sexual, as v\u00e1rias ideias mis\u00f3ginas de inferioridade f\u00edsica e biol\u00f3gica das mulheres, e as muitas justificativas para a explora\u00e7\u00e3o das mulheres s\u00e3o todos componentes ideol\u00f3gicos da superestrutura capitalista. Todos existem para justificar, refor\u00e7ar e ocultar as rela\u00e7\u00f5es sociais que permitem que o capitalismo funcione. Sem combater essas ideologias, elas podem ser utilizadas para o avan\u00e7o de ideais e objetivos capitalistas em um contexto p\u00f3s-revolucion\u00e1rio. Se o objetivo da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria \u00e9 derrubar a classe capitalista e construir uma nova base econ\u00f4mica socialista, devemos rejeitar e combater todas as ideologias que justificaram a antiga ordem capitalista. O sistema de g\u00eanero europeu \u00e9 uma dessas ideologias. Ele precisa ser deixado na lata de lixo da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto de desenvolvimento socialista n\u00e3o deve apenas estabelecer o controle dos meios de produ\u00e7\u00e3o para a classe trabalhadora; deve tamb\u00e9m criar uma distribui\u00e7\u00e3o equitativa do trabalho reprodutivo. Trabalho produtivo e reprodutivo devem ser valorizados igualmente e compreendidos como centrais para o desenvolvimento socialista, mas a fase transicional do socialismo deve garantir que as condi\u00e7\u00f5es para ambos sejam livres da explora\u00e7\u00e3o de classe. Assim como o estado socialista procura eliminar a contradi\u00e7\u00e3o entre proletariado e capitalistas, deve tamb\u00e9m eliminar a contradi\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres. Isso n\u00e3o ser\u00e1 realizado atrav\u00e9s da elimina\u00e7\u00e3o dos homens enquanto indiv\u00edduos, mas atrav\u00e9s do fim de sua fun\u00e7\u00e3o de classe enquanto exploradores que se beneficiam do trabalho reprodutivo n\u00e3o-recompensado das mulheres. Essa tarefa n\u00e3o \u00e9 cumprida ao mostrar os aspectos n\u00e3o-antagon\u00edsticos dessa contradi\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres, mas ao resolver essa contradi\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da total reestrutura\u00e7\u00e3o da sociedade e a elimina\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o de trabalho baseada em g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos nossos esfor\u00e7os de organiza\u00e7\u00e3o atuais, devemos focar nas maneiras em que a explora\u00e7\u00e3o das mulheres pode ser continuada numa organiza\u00e7\u00e3o socialista. Mulheres prolet\u00e1rias s\u00e3o normalmente sobrecarregadas com um trabalho extra, resultado de ter que efetuarem o trabalho dom\u00e9stico ao mesmo tempo em que se organizam politicamente, um fardo extra que os homens nem sempre encaram. A domina\u00e7\u00e3o do homem continua em espa\u00e7os socialistas organizados enquanto os homens continuamente se colocam em posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a, falhando ao abordar as necessidades espec\u00edficas das mulheres na luta, e possuindo um longo hist\u00f3rico de perpetuar o clima de sil\u00eancio na quest\u00e3o de ass\u00e9dio e abuso sexual. Organiza\u00e7\u00f5es socialistas t\u00eam sido frequentemente hostis \u00e0s mulheres, precisamente porque os organizadores socialistas falham frequentemente em questionar as ideologias de diferen\u00e7a sexual, e falham ao elucidar as maneiras em que o g\u00eanero funciona como classe. Homens prolet\u00e1rios que desejem entrar no processo de luta de massas e juntarem-se \u00e0s for\u00e7as progressistas que op\u00f5em-se ao capitalismo devem fazer isso traindo classe de g\u00eanero e unindo for\u00e7as pelo fim do patriarcado. Esses camaradas devem reconhecer que eles se beneficiam materialmente da explora\u00e7\u00e3o das mulheres, e devem entender que sua rela\u00e7\u00e3o com as mulheres prolet\u00e1rias deve ser simultaneamente uma de camaradagem, considerando que s\u00e3o membros do proletariado, mas tamb\u00e9m de potencial antagonismo com base em seu g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>Marxistas ainda podem opor-se a isso ao afirmarem que se o g\u00eanero \u00e9 uma classe, poder\u00edamos ent\u00e3o ver as mulheres burguesas enquanto aliadas e os homens prolet\u00e1rios enquanto nossos inimigos. Isto \u00e9, claro, um argumento bobo. A contradi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero enquanto classe surge do capitalismo e n\u00e3o pode ser resolvida sem a derrubada do capitalismo. Por conseguinte, as mulheres burguesas est\u00e3o bloqueando o caminho da liberta\u00e7\u00e3o geral das mulheres, e n\u00e3o podem ser vistas como uma for\u00e7a progressiva. Por isso que as mulheres burguesas trabalharam para ocultar a no\u00e7\u00e3o de feminilidade enquanto classe em favor de teorias rid\u00edculas de empoderamento individual. Se as mulheres prolet\u00e1rias viessem a entender as mulheres enquanto uma classe, seriam for\u00e7adas a fazer uma investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do surgimento desta e ent\u00e3o tamb\u00e9m seriam for\u00e7adas a reconhecer sua rela\u00e7\u00e3o com o capitalismo. Mulheres burguesas permanecem inimigas das mulheres prolet\u00e1rias por causa da primazia da contradi\u00e7\u00e3o proletariado\/capitalistas. Al\u00e9m disso, feministas materialistas n\u00e3o desejam excluir os homens prolet\u00e1rios da organiza\u00e7\u00e3o socialista e do processo de luta de massas. Simplesmente exigimos que homens prolet\u00e1rios questionem sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com a contradi\u00e7\u00e3o de classe de g\u00eanero e escolham trai-la em favor da unidade revolucion\u00e1ria. N\u00e3o \u00e9 um dever das mulheres prolet\u00e1rias ignorar os aspectos antagon\u00edsticos dessa contradi\u00e7\u00e3o\u200a\u2014\u200aos homens prolet\u00e1rios \u00e9 que devem entender sua posi\u00e7\u00e3o de classe e tra\u00ed-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Acima de tudo isso, devemos entender as maneiras que as mulheres burguesas s\u00e3o poupadas de grande parte da explora\u00e7\u00e3o encarada por suas contrapartes prolet\u00e1rias. Mulheres trabalhadoras frequentemente tem que simultaneamente enfrentar o trabalho assalariado (numa menor taxa de compensa\u00e7\u00e3o) e voltar para casa para realizar trabalho reprodutivo n\u00e3o-pago. Mulheres trabalhadoras enfrentam a explora\u00e7\u00e3o em duas frentes, e, em algum sentido, podemos dizer que o trabalho nunca acaba para as mulheres trabalhadoras. Mulheres burguesas s\u00e3o normalmente poupadas dessas condi\u00e7\u00f5es, podendo simplesmente ficar todo tempo em casa, ou trabalhar todo o tempo e empregar bab\u00e1s e empregadas dom\u00e9sticas prolet\u00e1rias para fazer o trabalho dom\u00e9stico. Assim, as mulheres burguesas podem ainda perpetuar a explora\u00e7\u00e3o de g\u00eanero ao empurrar sua pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o reprodutiva goela abaixo nas mulheres trabalhadoras. Isso \u00e9 materializado de maneira terr\u00edvel no uso de barrigas de aluguel, no qual mulheres pobres e frequentemente desesperadas literalmente fazem a atividade de reprodu\u00e7\u00e3o para a classe burguesa. Dada esta diferen\u00e7a gritante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, podemos ver claramente que as mulheres burguesas permanecem inimigas das mulheres trabalhadoras, apesar de serem da mesma classe de g\u00eanero. Isso \u00e9, novamente, um resultado da primazia do capitalismo em produzir e mediar a explora\u00e7\u00e3o de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>Espero que esse ensaio tenha demonstrado com sucesso que o feminismo materialista deve ser ligado \u00e0 cr\u00edtica marxista da economia pol\u00edtica para que consiga alcan\u00e7ar um status materialista adequado. Mais importantemente, espero ter demonstrado as maneiras pelas quais a luta pela liberta\u00e7\u00e3o das mulheres e a luta pela revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria contra o capitalismo est\u00e3o inerentemente interligadas. A tarefa daqueles lutando pela liberta\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 a de articular o g\u00eanero enquanto classe, e entender como essa posi\u00e7\u00e3o de classe resulta do desenvolvimento capitalista. Isso significa que o trabalho pr\u00e1tico de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 realizado atrav\u00e9s da derrubada revolucion\u00e1ria do capitalismo. A tarefa para aqueles lutando pela revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria \u00e9 a de entender como o capitalismo produz e reproduz o g\u00eanero, e reconhecer que o fracasso de combater v\u00e1rias ideologias de diferen\u00e7a sexual \u00e9 o fracasso de combater a ideologia capitalista. As percep\u00e7\u00f5es do feminismo materialistas, quando lidas atrav\u00e9s de Federici, nos permitem unificarmos em torno da oposi\u00e7\u00e3o ao capitalismo, apesar da contradi\u00e7\u00e3o antagon\u00edstica de g\u00eanero entre o proletariado. Ao mesmo tempo, devemos combater a ideologia e viol\u00eancia de g\u00eanero dentro do movimento socialista e construir uma sociedade que remove as condi\u00e7\u00f5es exploradoras e de g\u00eanero que circundam o trabalho reprodutivo. A burguesia permanece nossa inimiga, mesmo depois de considerarmos o g\u00eanero como uma classe. O socialismo permanece como nossa \u00fanica esperan\u00e7a para a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/medium.com\/u\/b3dce16982d8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong><em>Alyson Escalante<\/em><\/strong><\/a><strong><em>.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Traduzido por Eliel Micm\u00e1s e Jo\u00e3o Nachtigall <\/em>[CTP].<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tradutoresproletarios.files.wordpress.com\/2019\/01\/a6912-172snwba2pbxpmjupqndsow.png\" alt=\"\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Original:<em><br><\/em> <a href=\"https:\/\/medium.com\/@alysonescalante\/on-women-as-a-class-materialist-feminism-and-mass-struggle-42a228bde888\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/medium.com\/@alysonescalante\/on-women-as-a-class-materialist-feminism-and-mass-struggle-42a228bde888<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rela\u00e7\u00e3o entre g\u00eanero e capital \u00e9 complexa &#8211; mas uma abordagem materialista quanto a ambos requer de n\u00f3s enxergar a categoria g\u00eanero simultaneamente como uma contradi\u00e7\u00e3o de classes entre homens e mulheres e como um efeito de um conflito mais primordial: aquele entre proletariado e burguesia. Alyson Escalante reafirma neste ensaio tanto esta perspectiva como tamb\u00e9m um reconhecimento da centralidade da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria para a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_kadence_starter_templates_imported_post":false,"_kad_post_transparent":"","_kad_post_title":"","_kad_post_layout":"","_kad_post_sidebar_id":"","_kad_post_content_style":"","_kad_post_vertical_padding":"","_kad_post_feature":"","_kad_post_feature_position":"","_kad_post_header":false,"_kad_post_footer":false,"_kad_post_classname":"","footnotes":""},"categories":[345,1],"tags":[37,45,70,71,84,106,120,121,128,130,133,150,171,174,213,221,222,240,265,275,276,282,285,292,293,299,313,314],"class_list":["post-140","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arquivo-tradutores-proletarios","category-uncategorized","tag-acumulacao-primitiva","tag-alyson-escalante","tag-capital","tag-capitalismo","tag-colonialismo","tag-economia","tag-estudos-de-genero","tag-eua","tag-feminismo","tag-feminismo-materialista","tag-filosofia","tag-genero","tag-historia","tag-homem-negro","tag-luta-de-classes","tag-marxismo","tag-marxismo-leninismo","tag-mulher-negra","tag-politica","tag-raca","tag-racismo","tag-reproducao","tag-revolucao","tag-sexismo","tag-sexualidade","tag-sociologia","tag-trabalho","tag-trabalho-domestico"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Sobre as mulheres como classe: feminismo materialista e luta de massas \u2014 Alyson Escalante - Zero \u00e0 Esquerda<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2018\/12\/26\/sobre-as-mulheres-como-classe-feminismo-materialista-e-luta-de-massas\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Sobre as mulheres como classe: feminismo materialista e luta de massas \u2014 Alyson Escalante - Zero \u00e0 Esquerda\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A rela\u00e7\u00e3o entre g\u00eanero e capital \u00e9 complexa - mas uma abordagem materialista quanto a ambos requer de n\u00f3s enxergar a categoria g\u00eanero simultaneamente como uma contradi\u00e7\u00e3o de classes entre homens e mulheres e como um efeito de um conflito mais primordial: aquele entre proletariado e burguesia. 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