{"id":1388,"date":"2021-04-15T18:01:41","date_gmt":"2021-04-15T18:01:41","guid":{"rendered":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/?p=1388"},"modified":"2021-05-31T06:15:32","modified_gmt":"2021-05-31T06:15:32","slug":"entrevista-com-samo-tomsic-por-dennis-schep","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2021\/04\/15\/entrevista-com-samo-tomsic-por-dennis-schep\/","title":{"rendered":"Entrevista com Samo Tom\u0161i\u010d \u2014 Dennis Schep"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Entrevista por Dennis Schep.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-background has-theme-palette-2-background-color has-theme-palette-2-color\"\/>\n\n\n\n<p><strong>Por que Marx e Lacan?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o subjacente \u00e9: por que marxismo e psican\u00e1lise? Olhando para tr\u00e1s, talvez possamos concluir que a maioria das tentativas anteriores de combinar esses campos de pensamento acabou em fracasso. Depois, houve os anos do p\u00f3s-modernismo, quando Marx n\u00e3o era mais visto como um pensador econ\u00f4mico central e, em vez disso, se tornou uma curiosidade ex\u00f3tica no pensamento cultural. Freud tamb\u00e9m n\u00e3o era mais considerado o fundador de uma pr\u00e1tica cl\u00ednica eficiente, e o interesse por seu trabalho limitava-se principalmente a seus escritos culturais. No entanto, n\u00e3o \u00e9 por acaso que, desde a crise de 2007-2008, ambos voltaram, pois s\u00e3o, essencialmente, pensadores das crises. Eles exploram a liga\u00e7\u00e3o causal entre desenvolvimentos cr\u00edticos na sociedade e a produ\u00e7\u00e3o do que poderia ser chamado, um tanto inadequadamente, de &#8220;vida danificada&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Marx, por um lado, tematizou o dano subjetivo causado pelo capitalismo de v\u00e1rias maneiras, expondo as consequ\u00eancias devastadoras da precariza\u00e7\u00e3o, da explora\u00e7\u00e3o, da busca pelo lucro, etc. Depois, h\u00e1 a no\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-econ\u00f4mica de <em>homo oeconomicus<\/em>, que, mais do que uma descri\u00e7\u00e3o da natureza humana, \u00e9 uma ferramenta ideol\u00f3gica para remodelar o sujeito humano de acordo com as fantasias liberais e neoliberais sobre a sociedade, o mercado e o valor. Em um sistema que proclama que \u201ca gan\u00e2ncia \u00e9 boa\u201d &#8211; em primeiro lugar, \u00e9 claro, a gan\u00e2ncia do sistema -, o dever de cada indiv\u00edduo \u00e9 constituir-se como um egoman\u00edaco narcisista. Embora essa no\u00e7\u00e3o de subjetividade tenha perdido sua efic\u00e1cia ideol\u00f3gica durante a \u00faltima crise, o dano que sua aplica\u00e7\u00e3o criou permanece.<\/p>\n\n\n\n<p>Freud, por outro lado, parte da subjetividade danificada que chama de neurose, para a qual prop\u00f4s uma etiologia que n\u00e3o \u00e9 apenas sexual, como muitas vezes ouvimos, mas tamb\u00e9m socioecon\u00f4mica: examina a liga\u00e7\u00e3o entre as estruturas sociais e libidinais. Freud raramente falava de capitalismo: em vez disso, ele usava o termo mais neutro \u201ccultura\u201d, mas, ao examinarmos textos como <em>Mal-estar na<\/em> <em>Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> (<em>Das Unbehagen in der Kultur<\/em>), podemos facilmente ver que ele fala sobre sociedades capitalistas. Ele entende implicitamente seu trabalho cl\u00ednico como uma cr\u00edtica \u00e0 condi\u00e7\u00e3o social capitalista. No final das contas, a neurose \u00e9 um sintoma social.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E Lacan?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Lacan aproximou Marx e Freud de uma forma muito particular, e em um momento cr\u00edtico, logo ap\u00f3s maio de 1968. Sua estrat\u00e9gia ia contra a vis\u00e3o \u201cotimista\u201d de pensadores como Marcuse e Reich, que afirmavam que a psican\u00e1lise abriria a porta para a libera\u00e7\u00e3o da sexualidade. Em parte, eles tinham raz\u00e3o: certos desenvolvimentos emancipat\u00f3rios n\u00e3o teriam seguido o curso que seguiram sem a psican\u00e1lise. Mas, como muitas outras tentativas de emancipa\u00e7\u00e3o ou liberta\u00e7\u00e3o, a revolu\u00e7\u00e3o sexual falhou. O capitalismo j\u00e1 estava dissolvendo velhas estruturas sociais e rela\u00e7\u00f5es familiares, substituindo-as por uma nova economia libidinal que, \u00e0 primeira vista, implicava uma atitude mais liberal em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade. Marcuse estava ciente desse fato quando falou de &#8220;dessublima\u00e7\u00e3o repressiva&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Lacan sugeriu algo semelhante, mas n\u00e3o exatamente id\u00eantico, quando descreveu o superego como um imperativo de gozo. A ideia de Lacan era que, no n\u00edvel do pensamento, mas tamb\u00e9m em uma estrutura social, h\u00e1 uma conex\u00e3o estreita entre trabalho e gozo, ou entre gozo e explora\u00e7\u00e3o. Isso significa que o sujeito n\u00e3o \u00e9 tanto aquele que goza, mas, ao contr\u00e1rio, ele \u00e9 que \u00e9 \u201cgozado\u201d pelo sistema. Em contraste com a celebra\u00e7\u00e3o do gozo e da sexualidade, a psican\u00e1lise partiu do <em>insight<\/em> de que as rela\u00e7\u00f5es de poder s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es sempre libidinais, ou que nossa economia libidinal \u00e9 um componente essencial de nossa economia social. Isso significa que \u201cnosso\u201d modo subjetivo de gozo nunca \u00e9 transgressivo ou subversivo em rela\u00e7\u00e3o ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. A psican\u00e1lise registra o car\u00e1ter insuport\u00e1vel do modo de gozo capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Assim, pessoas como Freud e Lacan oferecem um corretivo contra certos usos idealizadores da psican\u00e1lise, enfatizando que a negatividade j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1, sempre, e n\u00e3o \u00e9 algo que limita a puls\u00e3o a partir de fora. Marx concorda com esse tipo de argumenta\u00e7\u00e3o? Ele n\u00e3o acreditava que o capitalismo oprimia as massas e que o comunismo as libertaria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A psican\u00e1lise corrige uma certa vis\u00e3o marxista ut\u00f3pica de uma sociedade sem aliena\u00e7\u00e3o, onde as rela\u00e7\u00f5es humanas seriam finalmente aut\u00eanticas e n\u00e3o corrompidas. Acho que esses elementos s\u00e3o extremamente marginais nos escritos maduros de Marx e aparecem apenas por raz\u00f5es estrat\u00e9gicas. Eles nada t\u00eam a ver com o projeto cient\u00edfico de uma cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. O Marx maduro n\u00e3o fala mais sobre a aboli\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o, como fazia em seus manuscritos de 1844. O marxismo e a psican\u00e1lise compartilham um <em>insight<\/em> b\u00e1sico sobre a natureza da subjetividade e das rela\u00e7\u00f5es humanas: n\u00e3o existem rela\u00e7\u00f5es sociais sem conflito, contradi\u00e7\u00e3o, negatividade, luta, etc., assim como n\u00e3o existe pensamento sem o inconsciente. Acho absurdo e ilus\u00f3rio afirmar que o objetivo da pol\u00edtica emancipat\u00f3ria \u00e9 abolir a aliena\u00e7\u00e3o: n\u00e3o h\u00e1 estado em que o sujeito seja completamente transparente para si mesmo, exceto se formos abolir a linguagem, que n\u00e3o \u00e9 apenas uma fonte importante de aliena\u00e7\u00e3o, mas simplesmente <strong><em>\u00e9<\/em><\/strong> a aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O que procuro \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o de aliena\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja apenas carregada negativamente. Em Marx e Freud, a aliena\u00e7\u00e3o e o inconsciente funcionam como no\u00e7\u00f5es cr\u00edticas, que comunicam uma li\u00e7\u00e3o sobre a natureza do pensamento e das rela\u00e7\u00f5es humanas. Por exemplo, quando Marx e Engels escrevem que toda a hist\u00f3ria humana at\u00e9 agora foi uma hist\u00f3ria de luta de classes, eles n\u00e3o querem dizer que todas as lutas ter\u00e3o fim com a aboli\u00e7\u00e3o da estrutura de classes da sociedade. Eles apenas dizem que a luta de classes desaparecer\u00e1 como a luta privilegiada ou abrangente atrav\u00e9s da qual todos os outros conflitos inter-humanos s\u00e3o canalizados. Algo semelhante pode ser dito sobre a no\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica de repress\u00e3o, muitas vezes entendida como uma for\u00e7a estritamente negativa, mas que Freud afirma explicitamente ser uma opera\u00e7\u00e3o produtiva: ao inv\u00e9s de oprimir algum tipo de sexualidade aut\u00eantica, ela constitui e determina uma economia libidinal espec\u00edfica. Para a psican\u00e1lise, o objetivo era, de fato, superar a repress\u00e3o, mas isso n\u00e3o significa que visasse a algum estado aut\u00eantico e n\u00e3o corrompido de prazer, sexualidade ou puls\u00e3o. Freud deixa claro que a puls\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a transcendental subsequentemente corrompida por suas v\u00e1rias \u201cvicissitudes\u201d, mas que \u00e9 inteiramente dependente dessas vicissitudes. Para Freud e Lacan, a sublima\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo transformador que muda o objetivo sexual e, assim, transforma um modo de prazer autodestrutivo ou repressivo em um modo mais \u201csuport\u00e1vel\u201d. Mas isso n\u00e3o sugere que, no final do processo, o sujeito esteja em uma rela\u00e7\u00e3o harmoniosa com o gozo. Se a psican\u00e1lise prometesse isso, seria realmente uma farsa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Podemos extrair esse lado radical da psican\u00e1lise, mas em seu livro voc\u00ea tamb\u00e9m mostra o conservadorismo de Lacan.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como pessoa, Lacan simpatizava com De Gaulle e, quando se trata de teoria, seu interesse por Marx era certamente limitado. Mas o esfor\u00e7o te\u00f3rico denotado pelo nome \u201cLacan\u201d \u00e9 suscet\u00edvel a muito mais do que leituras conservadoras. Quando ele disse aos alunos em Vincennes em 1969 que eles eram hist\u00e9ricos ansiando por um novo mestre, podemos descartar suas observa\u00e7\u00f5es como cinismo, mas acredito que ele queria chamar a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que esses alunos estavam errados ao pensar a libera\u00e7\u00e3o sexual ou o prazer sexual como uma transgress\u00e3o sist\u00eamica. As rela\u00e7\u00f5es capitalistas de explora\u00e7\u00e3o est\u00e3o ancoradas em uma economia libidinal estritamente determinada. Lacan prop\u00f4s a exclama\u00e7\u00e3o \u201cGoza!\u201d como a prosopopeia do superego. Seus int\u00e9rpretes costumam derivar o imperativo do gozo da obra do Marqu\u00eas de Sade, mas sempre me perguntei se a propaganda da Coca-Cola, essa mercadoria capitalista por excel\u00eancia, tamb\u00e9m n\u00e3o desempenhava um papel: \u201cSade com Coca-Cola\u201d como um suplemento para o ensaio <em>Kant avec Sade<\/em>. O capitalismo n\u00e3o poderia ter formulado sua pr\u00f3pria li\u00e7\u00e3o e o impasse de gozo que produz no sujeito de maneira mais eficaz: do lado do sujeito, a busca sem fim por um gozo que nunca est\u00e1 l\u00e1, e, do lado do sistema, a extra\u00e7\u00e3o da mais-valia, esse gozo do sistema, a partir do esfor\u00e7o do sujeito para viver de acordo com o imperativo do gozo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 interessante contrastar a como aparece o superego na obra de Freud e na de Lacan: em Freud, o superego \u00e9 a sede de exig\u00eancias proibitivas, a proibi\u00e7\u00e3o de gozo, mais do que a injun\u00e7\u00e3o de gozar. Pode-se explicar esse contraste observando a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade industrial puritana do final do s\u00e9culo XIX em capitalismo liberal orientado para o consumidor no s\u00e9culo XX. \u00c9 claro que isso n\u00e3o significa que nos livramos do aspecto proibitivo. O superego proibitivo est\u00e1 novamente em ascens\u00e3o desde a \u00faltima crise, e o que ele exige implacavelmente de todos os s\u00faditos \u00e9 o sacrif\u00edcio incondicional pela perpetua\u00e7\u00e3o do sistema. Essa \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o poss\u00edvel a tirar da crise da d\u00edvida europeia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como pessoa, Lacan n\u00e3o era marxista. Marx era um lacaniano?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ele era t\u00e3o lacaniano quanto Lacan era marxista. Mas eu acredito que tanto a cr\u00edtica de Marx \u00e0 economia pol\u00edtica quanto a psican\u00e1lise freudo-lacaniana s\u00f3 obt\u00eam plenamente seu alcance cr\u00edtico sob condi\u00e7\u00f5es sociais impulsionadas pela crise. Portanto, n\u00e3o \u00e9 por acaso que hoje existe um interesse renovado na liga\u00e7\u00e3o entre a psican\u00e1lise e o marxismo. Como indiv\u00edduos, Lacan, o burgu\u00eas franc\u00eas, e Marx, o prolet\u00e1rio, n\u00e3o poderiam estar mais distantes, mas n\u00e3o creio que isso deva nos impedir de pensar na alian\u00e7a entre suas obras. Ambos exp\u00f5em a \u201cnegatividade compartilhada\u201d &#8211; para usar um termo bem pontuado proposto por meus colegas do projeto <em>Klassensprachen<\/em> &#8211; que vincula todos os sujeitos. A \u201cobsess\u00e3o\u201d psicanal\u00edtica com a problem\u00e1tica do gozo \u00e9 essencial para o projeto de uma cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, porque mostra que o sistema nos mant\u00e9m mais fortes em \u201cnosso\u201d modo de gozo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Podemos, ent\u00e3o, usar Lacan contra certas leituras idealizadoras de Marx, e podemos usar Marx para politizar a psican\u00e1lise?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Exatamente. Entre lacanianos, encontramos muitos \u201creacion\u00e1rios\u201d, provavelmente porque lutam para manter o status privilegiado de que a psican\u00e1lise desfrutou no passado, especialmente na Fran\u00e7a. Mas a psican\u00e1lise foi amea\u00e7ada ao longo de sua hist\u00f3ria. Nos Estados Unidos, foi instrumentalizada como uma ferramenta para reintegrar as pessoas \u00e0 estrutura social existente, mas foi abandonada assim que t\u00e9cnicas mais \u201ceficientes\u201d foram desenvolvidas. Apesar de tudo que deu errado, a psican\u00e1lise, pelo menos em seu aspecto freudo-lacaniano, representa um cap\u00edtulo importante na hist\u00f3ria da cr\u00edtica e continua sendo um campo de batalha que precisa ser recuperado repetidamente para fins emancipat\u00f3rios. Freud desmistificou o papel da cultura, e particularmente do capitalismo, na produ\u00e7\u00e3o de psicopatologias: depois da psican\u00e1lise, n\u00e3o se pode mais fingir que existe uma divis\u00e3o clara entre as estruturas individuais e sociais (o que certamente n\u00e3o impede que se ignore essa li\u00e7\u00e3o). Se existe uma coisa caracter\u00edstica dos defensores do capitalismo \u00e9 sua tend\u00eancia a \u201cindividualizar os problemas\u201d: se voc\u00ea experimenta depress\u00e3o, p\u00e2nico ou ansiedade induzida pela precariedade, o problema \u00e9 seu. Para a psican\u00e1lise, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o existem problemas privados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Eu estava esperando que voc\u00ea abordasse essa quest\u00e3o, pois vai direto a um dos temas centrais do seu livro: o do sujeito, que precisamente n\u00e3o \u00e9 um indiv\u00edduo. Voc\u00ea polemiza contra a pol\u00edtica de identidade ou qualquer tipo de pol\u00edtica que seria baseada em interesses particulares.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, e essa pol\u00eamica gira em torno da ilus\u00e3o de que existe algo como um interesse privado, \u00e0 qual eu oporia a ideia de \u201cnegatividade compartilhada\u201d e o interesse pol\u00edtico emancipat\u00f3rio que eu acho que se pode associar a ela. Mesmo Adam Smith, que ainda \u00e9 celebrado entre liberais e neoliberais como o te\u00f3rico do interesse privado, mostrou que h\u00e1 uma continuidade direta e altamente problem\u00e1tica entre os interesses aparentemente privados dos indiv\u00edduos e os interesses estruturais do sistema capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>Para voltar ao que falamos antes, o capitalismo n\u00e3o inventou a aliena\u00e7\u00e3o ou o inconsciente, mas inventou uma maneira eficiente de explor\u00e1-los. O objetivo da pol\u00edtica emancipat\u00f3ria seria a gest\u00e3o coletiva da aliena\u00e7\u00e3o, em vez de sua aboli\u00e7\u00e3o. O objetivo da psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 aspirar a algum estado ideal fict\u00edcio, no qual o sujeito se livraria de todos os seus sintomas ou se tornaria o senhor de seu inconsciente. O objetivo \u00e9 permitir que o analisando trabalhe contra a resist\u00eancia do sistema e contra os efeitos danosos que essa resist\u00eancia introduz em nossas vidas. Quando a psican\u00e1lise insiste que n\u00e3o h\u00e1 sujeito sem sintoma, ela n\u00e3o est\u00e1 glorificando a doen\u00e7a ou denunciando toda esperan\u00e7a de mudan\u00e7a como ilus\u00f3ria. H\u00e1 um claro imperativo de cura na psican\u00e1lise, mas isso n\u00e3o equivale a algum tipo de normalidade ficcional. Pelo contr\u00e1rio: a psican\u00e1lise desconstr\u00f3i a ideia de \u201cego normal\u201d e se esfor\u00e7a para criar as condi\u00e7\u00f5es para que o sujeito exista de uma forma mais ou menos suport\u00e1vel. O capitalismo n\u00e3o faz isso: ele explora a doen\u00e7a e, em \u00faltima an\u00e1lise, quer que adoe\u00e7amos, ao mesmo tempo que nos bombardeia com fic\u00e7\u00f5es de normalidade, sendo o <em>homo oeconomicus<\/em> apenas uma fic\u00e7\u00e3o do que a \u201csubjetividade normal\u201d deve ser.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Portanto, qualquer luta anticapitalista n\u00e3o deve estar enraizada no interesse individual, e sim em uma no\u00e7\u00e3o do sujeito que n\u00e3o \u00e9 individual.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Precisamente. O paradoxo \u00e9 que quanto mais vazio, mais impessoal, mais \u201cabstrato\u201d o assunto parece, mais ele exp\u00f5e a negatividade que diz respeito a todos. Quanto mais Marx descreve a l\u00f3gica do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, mais ele exp\u00f5e as contradi\u00e7\u00f5es e condi\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o a que todos est\u00e3o sujeitos. Inversamente, quanto mais ele se concentra nas condi\u00e7\u00f5es emp\u00edricas da classe trabalhadora, mais ele suscita o equ\u00edvoco de que toda luta de classes se reduz a um confronto entre 99% e 1%. Claro que essa \u00e9 a apar\u00eancia concreta da luta de classes, mas a luta de classes tamb\u00e9m nomeia as contradi\u00e7\u00f5es estruturais e impasses do capitalismo que atravessam e dividem todos os sujeitos. Embotamos a teoria de Marx se a restringirmos \u00e0 descri\u00e7\u00e3o cr\u00edtica das condi\u00e7\u00f5es emp\u00edricas. <em>O capital<\/em> come\u00e7a com a an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas e estruturais do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, n\u00edvel em que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre um banqueiro e um trabalhador. \u00c9 claro que, na estrutura social concreta, eles est\u00e3o em mundos \u00e0 parte, uma vez que o primeiro \u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o do capital, e o segundo, a personifica\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. Mas, considerados como sujeitos do capitalismo, est\u00e3o sujeitos \u00e0 mesma explora\u00e7\u00e3o e \u00e0s mesmas mistifica\u00e7\u00f5es. Para Marx, n\u00e3o h\u00e1 nada inerentemente bom ou revolucion\u00e1rio no trabalhador e nada inerentemente mau ou reacion\u00e1rio no banqueiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>No cap\u00edtulo final, voc\u00ea argumenta que a pol\u00edtica n\u00e3o est\u00e1 em sincronia com a modernidade. Voc\u00ea poderia explicar o que quis dizer com isso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Adotei a tese de Jean-Claude Milner e tentei vincul\u00e1-la aos debates em andamento sobre a pol\u00edtica comunista. Acho que esta \u00faltima poderia estar associada ao que Freud chamou de \u201celabora\u00e7\u00e3o\u201d, ou seja, trabalhar contra a resist\u00eancia do sistema econ\u00f4mico estabelecido, seja libidinal ou social. Embora o capitalismo se apresente como a modernidade como tal, ele perpetua, em sua ess\u00eancia, estruturas pr\u00e9-modernas de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o. Quando Lacan descreveu o capitalismo como a forma moderna ou a pervers\u00e3o do &#8220;discurso do mestre&#8221;, ele quis dizer que ele se reduz \u00e0 explora\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o. Marx aponta na mesma dire\u00e7\u00e3o, quando diz que o senhor feudal se transformou no capitalista moderno e o servo no prolet\u00e1rio moderno. A quest\u00e3o \u00e9 saber se a modernidade \u00e9 apenas pr\u00e9-modernidade pervertida ou se ela acarreta um antagonismo pol\u00edtico que n\u00e3o mais se define em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dupla \u201cexplora\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o &#8211; fantasia de desaliena\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A ci\u00eancia moderna n\u00e3o tem o problema de que algo antigo persista. Se existe uma revolu\u00e7\u00e3o verdadeiramente realizada na hist\u00f3ria humana, \u00e9 a cient\u00edfica. Claro, isso n\u00e3o significa que a ci\u00eancia moderna n\u00e3o tenha antagonismos epist\u00eamicos, e seu papel central na sustenta\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es sociais capitalistas faz dela um dos principais campos de batalha pol\u00edticos. A raz\u00e3o pela qual a ci\u00eancia moderna foi importante para Lacan foi que ela criou as condi\u00e7\u00f5es epist\u00eamicas para a descoberta freudiana do sujeito do inconsciente. Lacan insistiu abertamente na necessidade de a pol\u00edtica partir desse assunto. Em vez disso, a pol\u00edtica oferecida pelo capitalismo parte de fic\u00e7\u00f5es de subjetividade desalienada, ocultando assim o v\u00ednculo entre aliena\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o. As tentativas de revolu\u00e7\u00e3o comunista falharam em produzir uma pol\u00edtica que n\u00e3o fosse definida por esse v\u00ednculo, em parte porque tamb\u00e9m fantasiaram sobre subjetividade desalienada e rela\u00e7\u00f5es humanas aut\u00eanticas. Em contraposi\u00e7\u00e3o a esses cen\u00e1rios, uma \u201cpol\u00edtica totalmente moderna\u201d consistiria em um esfor\u00e7o coletivo de gest\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o, assim como Lacan falou do fim da an\u00e1lise em termos de \u201cgest\u00e3o do sintoma\u201d (<em>savoir-y-faire avec son sympt\u00f4me<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-background has-theme-palette-2-background-color has-theme-palette-2-color\"\/>\n\n\n<style>.wp-block-kadence-column.kb-section-dir-horizontal > .kt-inside-inner-col > #kt-info-box_dcd03c-00 .kt-blocks-info-box-link-wrap{max-width:unset;}#kt-info-box_dcd03c-00 .kt-blocks-info-box-link-wrap{border-color:#d70141;border-top-width:5px;border-right-width:5px;border-bottom-width:5px;border-left-width:5px;background:#d70141;padding-top:24px;padding-right:24px;padding-bottom:24px;padding-left:24px;margin-top:50px;}#kt-info-box_dcd03c-00 .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover{border-color:#d70141;background:#d70141;}#kt-info-box_dcd03c-00.wp-block-kadence-infobox{max-width:100%;}#kt-info-box_dcd03c-00 .kadence-info-box-image-inner-intrisic-container{max-width:150px;}#kt-info-box_dcd03c-00 .kadence-info-box-image-inner-intrisic-container .kadence-info-box-image-intrisic{padding-bottom:100.5%;width:200px;height:0px;max-width:100%;}#kt-info-box_dcd03c-00 .kadence-info-box-icon-container .kt-info-svg-icon, #kt-info-box_dcd03c-00 .kt-info-svg-icon-flip, #kt-info-box_dcd03c-00 .kt-blocks-info-box-number{font-size:50px;}#kt-info-box_dcd03c-00 .kt-blocks-info-box-media{color:#444444;background:#ffffff;border-color:#eeeeee;border-top-width:5px;border-right-width:5px;border-bottom-width:5px;border-left-width:5px;padding-top:0px;padding-right:0px;padding-bottom:0px;padding-left:0px;}#kt-info-box_dcd03c-00 .kt-blocks-info-box-media-container{margin-top:-75px;margin-right:0px;margin-bottom:20px;margin-left:0px;}#kt-info-box_dcd03c-00 .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover .kt-blocks-info-box-media{color:#444444;background:#ffffff;border-color:#eeeeee;}#kt-info-box_dcd03c-00 .kt-infobox-textcontent h2.kt-blocks-info-box-title{color:#f7e6d4;padding-top:0px;padding-right:0px;padding-bottom:0px;padding-left:0px;margin-top:5px;margin-right:0px;margin-bottom:10px;margin-left:0px;}#kt-info-box_dcd03c-00 .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover h2.kt-blocks-info-box-title{color:#f7e6d4;}#kt-info-box_dcd03c-00 .kt-infobox-textcontent .kt-blocks-info-box-text{color:#f4dcc3;}#kt-info-box_dcd03c-00 .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover .kt-blocks-info-box-text{color:#f4dcc3;}#kt-info-box_dcd03c-00 .kt-blocks-info-box-learnmore{background:transparent;border-width:0px 0px 0px 0px;padding-top:4px;padding-right:8px;padding-bottom:4px;padding-left:8px;margin-top:10px;margin-right:0px;margin-bottom:10px;margin-left:0px;}<\/style>\n<div id=\"kt-info-box_dcd03c-00\" class=\"wp-block-kadence-infobox\"><a class=\"kt-blocks-info-box-link-wrap info-box-link kt-blocks-info-box-media-align-top kt-info-halign-left\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><div class=\"kt-blocks-info-box-media-container\"><div class=\"kt-blocks-info-box-media kt-info-media-animate-none\"><div class=\"kadence-info-box-image-inner-intrisic-container\" style=\"max-width:150px\"><div class=\"kadence-info-box-image-intrisic kt-info-animate-none\" style=\"padding-bottom:100.49999999999999%;height:0;width:200px;max-width:100%\"><div class=\"kadence-info-box-image-inner-intrisic\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Samo-Tomsic-e1621026898378.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"201\" class=\"kt-info-box-image wp-image-1579 \"\/><\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><div class=\"kt-infobox-textcontent\"><h2 class=\"kt-blocks-info-box-title\">Samo Tom\u0161i\u010d<\/h2><p class=\"kt-blocks-info-box-text\">Samo Tomsic trabalha atualmente no laborat\u00f3rio interdisciplinar Bild Wissen Gestaltung, na Humboldt Universit\u00e4t zu Berlin. Em 2015, escreveu <em>The capitalism unconscius: Marx and Lacan<\/em>.<\/p><\/div><\/a><\/div>\n\n\n<style>.wp-block-kadence-column.kb-section-dir-horizontal > .kt-inside-inner-col > #kt-info-box_ca2a29-f9 .kt-blocks-info-box-link-wrap{max-width:unset;}#kt-info-box_ca2a29-f9 .kt-blocks-info-box-link-wrap{border-color:#d70141;border-top-width:5px;border-right-width:5px;border-bottom-width:5px;border-left-width:5px;background:#d70141;padding-top:24px;padding-right:24px;padding-bottom:24px;padding-left:24px;margin-top:50px;}#kt-info-box_ca2a29-f9 .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover{border-color:#d70141;background:#d70141;}#kt-info-box_ca2a29-f9.wp-block-kadence-infobox{max-width:100%;}#kt-info-box_ca2a29-f9 .kadence-info-box-image-inner-intrisic-container{max-width:150px;}#kt-info-box_ca2a29-f9 .kadence-info-box-image-inner-intrisic-container .kadence-info-box-image-intrisic{padding-bottom:100%;width:200px;height:0px;max-width:100%;}#kt-info-box_ca2a29-f9 .kadence-info-box-icon-container .kt-info-svg-icon, #kt-info-box_ca2a29-f9 .kt-info-svg-icon-flip, #kt-info-box_ca2a29-f9 .kt-blocks-info-box-number{font-size:50px;}#kt-info-box_ca2a29-f9 .kt-blocks-info-box-media{color:#444444;background:#ffffff;border-color:#eeeeee;border-top-width:5px;border-right-width:5px;border-bottom-width:5px;border-left-width:5px;padding-top:0px;padding-right:0px;padding-bottom:0px;padding-left:0px;}#kt-info-box_ca2a29-f9 .kt-blocks-info-box-media-container{margin-top:-75px;margin-right:0px;margin-bottom:20px;margin-left:0px;}#kt-info-box_ca2a29-f9 .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover .kt-blocks-info-box-media{color:#444444;background:#ffffff;border-color:#eeeeee;}#kt-info-box_ca2a29-f9 .kt-infobox-textcontent h2.kt-blocks-info-box-title{color:#f7e6d4;padding-top:0px;padding-right:0px;padding-bottom:0px;padding-left:0px;margin-top:5px;margin-right:0px;margin-bottom:10px;margin-left:0px;}#kt-info-box_ca2a29-f9 .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover h2.kt-blocks-info-box-title{color:#f7e6d4;}#kt-info-box_ca2a29-f9 .kt-infobox-textcontent .kt-blocks-info-box-text{color:#f4dcc3;}#kt-info-box_ca2a29-f9 .kt-blocks-info-box-link-wrap:hover .kt-blocks-info-box-text{color:#f4dcc3;}#kt-info-box_ca2a29-f9 .kt-blocks-info-box-learnmore{background:transparent;border-width:0px 0px 0px 0px;padding-top:4px;padding-right:8px;padding-bottom:4px;padding-left:8px;margin-top:10px;margin-right:0px;margin-bottom:10px;margin-left:0px;}<\/style>\n<div id=\"kt-info-box_ca2a29-f9\" class=\"wp-block-kadence-infobox\"><a class=\"kt-blocks-info-box-link-wrap info-box-link kt-blocks-info-box-media-align-top kt-info-halign-left\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><div class=\"kt-blocks-info-box-media-container\"><div class=\"kt-blocks-info-box-media kt-info-media-animate-none\"><div class=\"kadence-info-box-image-inner-intrisic-container\" style=\"max-width:150px\"><div class=\"kadence-info-box-image-intrisic kt-info-animate-none\" style=\"padding-bottom:100%;height:0;width:200px;max-width:100%\"><div class=\"kadence-info-box-image-inner-intrisic\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/dennis-e1621026933279.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"200\" class=\"kt-info-box-image wp-image-1580 \"\/><\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><div class=\"kt-infobox-textcontent\"><h2 class=\"kt-blocks-info-box-title\">Dennis Schep<\/h2><p class=\"kt-blocks-info-box-text\">Dennis Schep \u00e9 doutor pela Humboldt Universit\u00e4t zu Berlin. Escreveu os livros <em>The autobiography effect: writing the self in post-structuralist theory <\/em>e <em>Drugs Rhetoric of Fantasy, Addiction to Truth<\/em>.<\/p><\/div><\/a><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-background has-theme-palette-2-background-color has-theme-palette-2-color is-style-default\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><br><em><strong>11 de dezembro, 2017.<br><\/strong><\/em><br>Tradu\u00e7\u00e3o: Mois\u00e9s Jo\u00e3o Rech<br>Revis\u00e3o: Maria Bet\u00e2nia F. Champagne<br>Original: https:\/\/literaturwissenschaft-berlin.de\/the-politics-of-psychoanalysis-samo-tomsic\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista por Dennis Schep. Por que Marx e Lacan? A quest\u00e3o subjacente \u00e9: por que marxismo e psican\u00e1lise? Olhando para tr\u00e1s, talvez possamos concluir que a maioria das tentativas anteriores de combinar esses campos de pensamento acabou em fracasso. 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