{"id":1321,"date":"2021-03-09T13:04:24","date_gmt":"2021-03-09T13:04:24","guid":{"rendered":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/?p=1321"},"modified":"2021-04-07T01:50:17","modified_gmt":"2021-04-07T01:50:17","slug":"o-destino-do-generico-marx-com-badiou-bruno-bosteels","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2021\/03\/09\/o-destino-do-generico-marx-com-badiou-bruno-bosteels\/","title":{"rendered":"O destino do gen\u00e9rico: Marx com Badiou \u2014 Bruno Bosteels"},"content":{"rendered":"\n<p>Alain Badiou abre um de seus livros mais recentes, <em>The Rebirth of History: Times of Riots and Uprisings <\/em>[O Renascimento da Hist\u00f3ria: Tempos de Revoltas e Levantes], com uma afirma\u00e7\u00e3o que pode ter causado surpresa em muitos de seus leitores de longa data: \u201cAqui, sem me preocupar com oponentes e rivais, gostaria de dizer que eu tamb\u00e9m sou um marxista \u2013 ing\u00eanua, completa e t\u00e3o naturalmente que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio reiterar\u201d (BADIOU, 2012b, p. 8). Para os leitores de suas obras mais antigas essa afirma\u00e7\u00e3o pode de fato parecer surpreendente, visto que Badiou dedica muitas p\u00e1ginas nesses trabalhos a uma reflex\u00e3o cont\u00ednua sobre a crise ineg\u00e1vel do marxismo. Uma tal reflex\u00e3o n\u00e3o somente toma a forma de uma cr\u00edtica do stalinismo, marcada pela fidelidade not\u00e1vel de Badiou ao mao\u00edsmo, mas tamb\u00e9m vai muito mais al\u00e9m ao declarar uma esp\u00e9cie de esgotamento da referencialidade do discurso marxista no geral. Por exemplo, em <em>Theory of the Subject<\/em> [Teoria do Sujeito] \u2013 livro que corresponde ao semin\u00e1rio realizado por Badiou entre janeiro de 1975 e junho de 1976 e que, finalmente publicado em 1982, constitui uma suma atrasada de sua vers\u00e3o peculiar do mao\u00edsmo franc\u00eas \u2013 ele escreve: \u201cSim, admitamos sem rodeios: o marxismo est\u00e1 em crise; o marxismo est\u00e1 atomizado. Passados o impulso e a cis\u00e3o criativa dos anos 60, ap\u00f3s as lutas por liberta\u00e7\u00e3o nacional e a revolu\u00e7\u00e3o cultural, o que herdamos em tempos de crise e de amea\u00e7a iminente de guerra \u00e9 uma uni\u00e3o \u2013 fragment\u00e1ria e estreita \u2013 de pensamento e a\u00e7\u00e3o, presa em um labirinto de ru\u00ednas e vest\u00edgios\u201d (BADIOU, 2009, p. 182). Tr\u00eas anos depois, em <em>Peut-on pensar la politique? <\/em>[Pode-se pensar a pol\u00edtica?], ele reitera \u2013 de maneira similar e, se poss\u00edvel, com ainda mais for\u00e7a \u2013 o fato de que, medida contra a for\u00e7a de seu in\u00edcio com Marx, a crise do marxismo constitui \u201co evento de que somos contempor\u00e2neos\u201d hoje. Ent\u00e3o, Badiou escreve:<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a crise do marxismo, devemos hoje dizer que ela est\u00e1<em> realizada<\/em>. Essa n\u00e3o \u00e9 somente uma observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica. \u00c9 da ess\u00eancia da crise como crise desdobrar-se completamente at\u00e9 suas \u00faltimas consequ\u00eancias. Para o marxismo, isso significa ingressar na figura de sua realiza\u00e7\u00e3o.&nbsp; E isso n\u00e3o somente sob a promessa da realiza\u00e7\u00e3o conjunta de uma pr\u00e9-hist\u00f3ria, mas, pelo contr\u00e1rio, na modalidade propriamente hist\u00f3rica de sua realiza\u00e7\u00e3o, que transformaria o marxismo em um fato \u2013 tanto ideol\u00f3gico quanto pr\u00e1tico \u2013 que pura e simplesmente expirou. (BADIOU, 1985, p. 25)<\/p>\n\n\n\n<p>Se, desse ponto de vista, a crise do marxismo parece ser tanto inevit\u00e1vel quanto realizada j\u00e1 no come\u00e7o e em meados dos anos 80, ent\u00e3o certamente n\u00e3o foram poucos os leitores acostumados com esses escritos mais antigos que se sentiram surpresos ao ouvir Badiou afirmar suas credenciais marxistas em <em>The Rebirth of History <\/em>como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por outro lado, para muitos rec\u00e9m-chegados ou para leitores menos familiarizados com o pensamento de Badiou como um todo, a afirma\u00e7\u00e3o sobre ser um marxista \u201cing\u00eanua, completa e t\u00e3o naturalmente que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio reiterar\u201d deve ter parecido menos surpreendente do que n\u00e3o convincente. Isso se passa dessa forma porque para muitos desses leitores, que num \u00fanico suspiro orgulhoso se apresentam como autoridades confi\u00e1veis no assunto, esse mao\u00edsta franc\u00eas n\u00e3o \u00e9 verdadeiramente marxista, ou \u00e9 insuficientemente marxista. Claro, Badiou \u00e9 o primeiro a reconhecer a pertin\u00eancia dessa cr\u00edtica, voltada principalmente para sua defesa recentemente renovada da Ideia comunista supostamente separada das realidades econ\u00f4mica e material do per\u00edodo p\u00f3s-fordista. \u201cEu sou frequentemente criticado, inclusive no \u2018campo\u2019 dos potenciais amigos pol\u00edticos, por n\u00e3o levar em conta as caracter\u00edsticas do capitalismo contempor\u00e2neo, por n\u00e3o oferecer uma \u2018an\u00e1lise marxista\u2019 dela. Consequentemente, o comunismo \u00e9 uma ideia et\u00e9rea para mim; alegam que, no fim das contas, sou um idealista sem lastro com a realidade\u201d (BADIOU, 2012b, p. 7). Ironicamente, isso \u00e9 verdadeiro at\u00e9 mesmo para as an\u00e1lises feitas por Badiou da era dos motins em <em>The Rebirth of History<\/em>, que rapidamente foram consideradas pelos resenhistas como incapazes de apreender, entre outras coisas, as liga\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas entre as revoltas e a reestrutura\u00e7\u00e3o do capital que est\u00e1 acontecendo no atual ciclo de financeiriza\u00e7\u00e3o e flexibiliza\u00e7\u00e3o p\u00f3s-fordista (ver, particularmente, BERNS e CLOVER, 2012; ver tamb\u00e9m as resenhas um pouco mais simp\u00e1ticas de SMITH, 2012 e, na mesma publica\u00e7\u00e3o, BROWN, 2012).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o importa se vindos da direita ou da esquerda, o problema com todos esses julgamentos sum\u00e1rios e condena\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas da insufici\u00eancia de Badiou como um marxista \u00e9 que eles presumem j\u00e1 saber a resposta \u00e0 pergunta \u201co que \u00e9 marxismo?\u201d. Mas n\u00e3o somente a resposta pode ser completamente diferente daquela que o alvo dessas cr\u00edticas pode dar; at\u00e9 mesmo a pergunta \u00e9 colocada de forma diferente. Para Badiou, essa pergunta n\u00e3o \u00e9 te\u00f3rica, mas pr\u00e1tica; n\u00e3o \u00e9 filos\u00f3fica, mas pol\u00edtica. Para al\u00e9m do princ\u00edpio ing\u00eanuo, espont\u00e2neo e hoje completamente naturalizado de um certo primado do econ\u00f4mico (\u201c\u00c9 a economia, idiota!\u201d), marxismo sempre significou marxismo pol\u00edtico para Badiou. Sendo assim, \u00e9 tamb\u00e9m como um discurso pol\u00edtico militante que o marxismo tem de ser periodizado, criticado, retificado e, se necess\u00e1rio, destru\u00eddo e recomposto; nomeadamente, tomando por base os obst\u00e1culos que encontrou, as solu\u00e7\u00f5es que prop\u00f4s e os problemas que deixou irresolvidos at\u00e9 hoje:<\/p>\n\n\n\n<p>O marxismo genu\u00edno, que \u00e9 identificado com a luta pol\u00edtica racional por uma organiza\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria da sociedade, sem d\u00favida come\u00e7ou por volta de 1848 com Marx e Engels. Mas ele progrediu depois, com Lenin, Mao e alguns outros. Eu fui educado com esses ensinamentos hist\u00f3ricos e te\u00f3ricos. Acredito estar bem consciente dos problemas que foram resolvidos, e que n\u00e3o faz sentido que voltemos a investigar; e dos problemas que permanecem pendentes, e que exigem de n\u00f3s retifica\u00e7\u00e3o radical e inven\u00e7\u00e3o en\u00e9rgica. (BADIOU, 2012b, p. 8)<\/p>\n\n\n\n<p>Acontece que muitas das obje\u00e7\u00f5es levantadas contra Badiou por ser insuficientemente marxista dependem de uma defini\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do marxismo que \u00e9 distinta daquela sustentada por Badiou. N\u00e3o importa se elas apontam para o marxismo como uma ci\u00eancia da hist\u00f3ria, como uma cr\u00edtica da economia pol\u00edtica ou como a filosofia do materialismo dial\u00e9tico, tais obje\u00e7\u00f5es n\u00e3o conseguem levar em conta o fato de que, para Badiou e seus camaradas das diferentes organiza\u00e7\u00f5es que ele ajudou a fundar, o marxismo n\u00e3o tem exist\u00eancia real que n\u00e3o seja a de um discurso militante de subjetividade pol\u00edtica. Paul Sandevince (pseud\u00f4nimo de Sylvain Lazarus), na brochura <em>Qu\u2019est-ce qu\u2019une politique marxiste? <\/em>[O que \u00e9 uma pol\u00edtica marxista?], publicada pela organiza\u00e7\u00e3o mao\u00edsta da UCFML (Uni\u00e3o dos Comunistas Marxista-Leninistas Franceses), em que tanto ele quanto Badiou eram ativos at\u00e9 o come\u00e7o da d\u00e9cada de 80, resume essa acep\u00e7\u00e3o com a sua concis\u00e3o de sempre: \u201cMarxismo n\u00e3o \u00e9 uma doutrina, seja ela filos\u00f3fica ou econ\u00f4mica. Marxismo \u00e9 a pol\u00edtica do proletariado na sua atualidade. [\u2026] Marxismo \u00e9 a pol\u00edtica do comunismo\u201d (SANDEVINCE, 1978, p. 6; para uma considera\u00e7\u00e3o mais detalhada do mao\u00edsmo de Badiou, ver caps. 2 e 3 em BOSTEELS, 2011).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No que diz respeito \u00e0 defini\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do marxismo, pelo menos, n\u00e3o houveram mudan\u00e7as significativas no ponto de vista de Badiou. J\u00e1 no panfleto mao\u00edsta <em>Th\u00e9orie de la contradiction <\/em>[Teoria da contradi\u00e7\u00e3o], de meados da d\u00e9cada de 70, ele escreve: \u201cDevemos conceber o marxismo como a sabedoria acumulada das revolu\u00e7\u00f5es populares, a raz\u00e3o que elas engendram e a fixa\u00e7\u00e3o e precis\u00e3o de seu alvo\u201d (BADIOU, 1975, p. 16). De maneira similar, em <em>Theory of the Subject<\/em>, Badiou se pergunta sobre a natureza do marxismo como ci\u00eancia da hist\u00f3ria antes de rejeitar essa hip\u00f3tese, que mesmo Marx e Engels haviam riscado do manuscrito d\u2019<em>A Ideologia Alem\u00e3<\/em>: \u201cSabemos que h\u00e1 uma \u00fanica ci\u00eancia, a ci\u00eancia da hist\u00f3ria. S\u00f3 se pode olhar para hist\u00f3ria por dois lados e dividi-la em hist\u00f3ria da natureza e hist\u00f3ria dos homens. Os dois lados s\u00e3o, no entanto, insepar\u00e1veis; a hist\u00f3ria da natureza e a hist\u00f3ria dos homens dependem uma da outra enquanto os homens existirem\u201d. Contra essa vis\u00e3o cientificista, ainda cara ao seu mentor Louis Althusser, Badiou sublinha novamente, em <em>Theory of the Subject<\/em>, a natureza pol\u00edtica militante do marxismo genu\u00edno: \u201cCi\u00eancia da hist\u00f3ria?<em> Marxismo \u00e9 o discurso atrav\u00e9s do qual o proletariado se sustenta a si mesmo como sujeito<\/em>. N\u00f3s nunca devemos abrir m\u00e3o dessa ideia\u201d (BADIOU, 2009, p. 44). E em<em> Peut-on pensar la politique?<\/em>, a mesma ideia reaparece: \u201cMarxismo n\u00e3o \u00e9 uma doutrina. \u00c9 o nome do Um para uma rede constitu\u00edda de pr\u00e1ticas pol\u00edticas\u201d. E novamente: \u201cMarxismo n\u00e3o constitui de forma alguma uma grande narrativa. Marxismo \u00e9 a consist\u00eancia de um sujeito pol\u00edtico, de uma capacidade pol\u00edtica heterog\u00eanea\u201d (BADIOU, 1985, pp. 52, 53). Na verdade, poder\u00edamos citar quase qualquer texto de qualquer per\u00edodo de sua obra em que Badiou se refere ao discurso que Marx e Engels inauguraram no<em> Manifesto Comunista<\/em> para sustentar o seu entendimento militante do marxismo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o h\u00e1 nada surpreendente, portanto, se em<em> The Rebirth of History<\/em> encontramos o que n\u00e3o \u00e9 nada mais que a \u00faltima de uma s\u00e9rie de cita\u00e7\u00f5es sobre a natureza do marxismo como o conhecimento vivo e o discurso militante da subjetividade pol\u00edtica comunista:<\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer conhecimento vivo \u00e9 feito de problemas, que foram ou devem ser constru\u00eddos ou reconstru\u00eddos, e n\u00e3o de descri\u00e7\u00f5es repetitivas. O marxismo n\u00e3o constitui nenhuma exce\u00e7\u00e3o a isso. Ele n\u00e3o \u00e9 nem um campo da economia (teoria das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o), nem um campo da sociologia (descri\u00e7\u00e3o objetiva da \u2018realidade social\u2019), nem uma filosofia (uma conceptualiza\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica das contradi\u00e7\u00f5es). Ele \u00e9, reiteremos, o conhecimento organizado dos meios pol\u00edticos necess\u00e1rios para desfazer a sociedade existente e finalmente realizar uma figura igualit\u00e1ria e racional da organiza\u00e7\u00e3o coletiva para a qual se deu o nome de \u2018comunismo\u2019 (BADIOU, 2012b, pp. 8-9).&nbsp; &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse privil\u00e9gio do pol\u00edtico sobre o cr\u00edtico, ou do prescritivo sobre o descritivo, pode ser visto at\u00e9 mesmo nas escolhas preferidas de textos do c\u00e2none. Ao inv\u00e9s de se concentrar na descoberta de um tipo novo e estrutural de causalidade no <em>Capital<\/em> ou ainda, no que diz respeito a isso, nos <em>Grundrisse <\/em>como o centro din\u00e2mico do pensamento marxiano, Badiou sempre favorece os escritos mais hist\u00f3ricos e intervencionistas, tais como <em>A Guerra Civil na Fran\u00e7a <\/em>de Marx,<em> Revolu\u00e7\u00e3o e Contrarrevolu\u00e7\u00e3o na Alemanha <\/em>de Engels, <em>O que fazer?<\/em> de Lenin e<em> Problemas da Guerra e da Estrat\u00e9gia <\/em>de Mao, al\u00e9m da escolha \u00f3bvia que \u00e9 o <em>Manifesto Comunista<\/em>. Marxismo, leninismo e mao\u00edsmo est\u00e3o, desta maneira, atados aos principais epis\u00f3dios para a periodiza\u00e7\u00e3o da atividade revolucion\u00e1ria:<\/p>\n\n\n\n<p>Os grandes est\u00e1gios do marxismo s\u00e3o pontuados pela revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, e os grandes marxistas s\u00e3o precisamente aqueles que direcionaram e sintetizaram os achados de teoria, ideologia e pol\u00edtica do proletariado \u00e0 luz dessas mesmas revolu\u00e7\u00f5es: Marx e Engels para a Comuna de Paris, Lenin e Stalin para a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, Mao Zedong para a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural (UCFML, 1976, p. 3).<\/p>\n\n\n\n<p>Sem querer submeter os textos can\u00f4nicos de cada uma dessas sequ\u00eancias a uma reconstru\u00e7\u00e3o nost\u00e1lgica, para Badiou e seus colegas militantes, ser marxista hoje significa, antes de tudo, tomar consci\u00eancia n\u00e3o somente das solu\u00e7\u00f5es como tamb\u00e9m dos problemas que permaneceram irresolvidos durante a \u00faltima sequ\u00eancia revolucion\u00e1ria do s\u00e9culo XX, aquela da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural que, entre 1966 e 1976, foi marcada pelo nome de Mao Zedong. Deve-se necessariamente permanecer marxista at\u00e9 mesmo ou especialmente quando \u00e9 quest\u00e3o de se levar os problemas irresolvidos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o e recomposi\u00e7\u00e3o do marxismo mesmo. \u201cO que quer dizer ser marxista hoje?\u201d, pergunta Badiou em <em>Peut-on penser la politique?<\/em>. \u201cQuer dizer ser algu\u00e9m que se encontra na posi\u00e7\u00e3o de sujeito da destrui\u00e7\u00e3o do marxismo, que pronuncia de maneira imanente o que tem de morrer, e que ent\u00e3o morre como pessoa, entregando essa morte como causa para a recomposi\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica\u201d (BADIOU, 1985, p. 55).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em contraste com isso, o que Badiou parece ter em mente quando ele afirma sua ades\u00e3o ing\u00eanua e espont\u00e2nea ao marxismo em <em>The Rebirth of History<\/em> \u00e9 na verdade limitado a ser pouco mais que um elogio expedito da for\u00e7a anal\u00edtica do diagn\u00f3stico original feito por Marx no <em>Capital<\/em>. Esse \u00e9 um diagn\u00f3stico que hoje, em meio a uma crise mundial implac\u00e1vel, pode ser ainda mais verdadeiro do que era um s\u00e9culo e meio atr\u00e1s: \u201cBasicamente, o mundo hoje \u00e9 exatamente aquele que, numa antecipa\u00e7\u00e3o brilhante \u2013 esp\u00e9cie de verdadeira fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u2013, Marx anunciou como o desdobramento total das potencialidades irracionais e, de fato, monstruosas do capitalismo\u201d (BADIOU, 2012b, p. 12). Para Badiou, no entanto, tornou-se ainda mais dolorosamente evidente que a ess\u00eancia do marxismo n\u00e3o \u00e9 anal\u00edtica, mas pol\u00edtica. N\u00e3o somente ele considera que a pol\u00edtica comunista \u00e9 da ordem de uma aposta, essencialmente separada da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica \u2013 \u201cN\u00f3s precisamos apostar na pol\u00edtica comunista, ela nunca ser\u00e1 deduzida do Capital\u201d \u2013, como tamb\u00e9m, em <em>Peut-on penser la politique<\/em>?, ele vai ainda mais al\u00e9m ao sugerir que o que identifica uma postura derrotista, mesmo e especialmente quando ela encontra abrigo na ortodoxia marxol\u00f3gica do discurso universit\u00e1rio, \u00e9 a inabilidade \u2013 consciente ou n\u00e3o \u2013 em separar uma da outra: \u201cPara mim, uma derrota interna \u00e0 pol\u00edtica \u00e9 a inabilidade de uma interven\u00e7\u00e3o que separe o pol\u00edtico do anal\u00edtico. Falhar significa n\u00e3o interromper um estado dado de certeza\u201d (BADIOU, 1985, pp. 87, 104).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em suma, o marxismo n\u00e3o \u00e9, no entendimento de Badiou, nem a ci\u00eancia da hist\u00f3ria que \u00e9 inseparavelmente humana e natural, nem a filosofia dial\u00e9tica que renova Hegel e o coloca novamente em quest\u00e3o; n\u00e3o \u00e9 nem uma cr\u00edtica da economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica ou burguesa, nem uma descri\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica objetiva da mis\u00e9ria do mundo sustentada por uma antropologia da verdadeira natureza da humanidade como ser-esp\u00e9cie. Ao inv\u00e9s disso, \u00e9 ou era um discurso militante de interven\u00e7\u00e3o que sustenta o movimento real do comunismo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 ou era? Claramente existe uma certa ambival\u00eancia no que diz respeito a isso, como deve ser esperado no caso de um discurso que \u00e9 obrigado a constantemente levar em conta os testes e adversidades a que \u00e9 submetido pela conjuntura espec\u00edfica em que interv\u00e9m. Se o marxismo de fato n\u00e3o \u00e9 nem uma ci\u00eancia objetiva e nem uma filosofia perene, mas sim um discurso de interven\u00e7\u00e3o do sujeito pol\u00edtico, ent\u00e3o se deve esperar dos referentes hist\u00f3ricos e operadores conceituais desse discurso que passem por grandes transforma\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m. Marx, Lenin e Mao \u2013 para nos limitarmos somente aos nomes sistematicamente evocados por Badiou \u2013 est\u00e3o longe de apresentar uma doutrina homog\u00eanea que poderia ser reconhecida atrav\u00e9s do nome de marxismo ou de marxismo-leninismo, e que deveria ser protegida de todas as formas de desvios ideol\u00f3gicos pelos guardi\u00f5es da ortodoxia. Pelo contr\u00e1rio, todos os esfor\u00e7os em salvaguardar uma tal doutrina s\u00e3o sintomas de conservadorismo acad\u00eamico em sua melhor forma e, ao mesmo tempo, da sua pior esclerose dogm\u00e1tica, devido \u00e0 inconsist\u00eancia fundamental de seu objeto: \u201cPara colocar sem rodeios: <em>o marxismo n\u00e3o existe<\/em>\u201d, porque \u201centre Marx e Lenin h\u00e1 ruptura e funda\u00e7\u00e3o, n\u00e3o continuidade e desenvolvimento. Igualmente, h\u00e1 ruptura entre Stalin e Lenin, e entre Mao e Stalin\u201d (BADIOU, 2005, p. 58).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No que diz respeito \u00e0s rupturas e descontinuidades entre Marx, Lenin e Mao, Badiou \u00e0s vezes adota um outro argumento de Sylvain Lazarus, que se refere precisamente \u00e0 mudan\u00e7a nos pap\u00e9is de hist\u00f3ria e pol\u00edtica, nas rela\u00e7\u00f5es entre os fatores assim chamados objetivos e subjetivos em cada uma das figuras. Para o autor do <em>Capital<\/em>, existiria uma uni\u00e3o cerrada ou uma fus\u00e3o entre hist\u00f3ria e pol\u00edtica, permitindo uma certa transitividade entre a classe oper\u00e1ria como uma categoria social e o proletariado como um operador organizativo desprovido de toda subst\u00e2ncia; para o autor de <em>O que fazer?<\/em>, a necessidade de um partido de vanguarda j\u00e1 insinua uma lacuna sintom\u00e1tica entre o ser social e a consci\u00eancia, ou entre a classe em si mesma e a classe para si mesma; e para o autor de <em>Sobre a contradi\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>Sobre a pr\u00e1tica<\/em> \u2013 e que \u00e9 tamb\u00e9m, n\u00e3o por coincid\u00eancia, respons\u00e1vel por uma <em>Sobre os \u201cProblemas Econ\u00f4micos do Socialismo na URSS\u201d de Stalin<\/em> \u2013 a pol\u00edtica \u00e9 colocada em posi\u00e7\u00e3o de comando como uma pr\u00e1tica ou inst\u00e2ncia relativamente aut\u00f4noma, enquanto que a hist\u00f3ria, ao inv\u00e9s de servir como um referente externo no n\u00edvel do ser social, \u00e9 absorvida pela pol\u00edtica como o nome de seu desdobramento inteiramente contingente de acordo com uma periodiza\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na mesma linha, Badiou, nas \u00faltimas duas ou tr\u00eas d\u00e9cadas, tem cada vez mais separado o papel anal\u00edtico do marxismo de seu papel pol\u00edtico. Como um diagn\u00f3stico, a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx pode muito bem ser mais v\u00e1lida hoje do que era antes, mas isso n\u00e3o ajuda os atores militantes em revoltas e levantes pol\u00edticos de nosso tempo a criar as t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias adequadas para a interven\u00e7\u00e3o. Algo entrou em uma crise profunda na articula\u00e7\u00e3o entre esses dois aspectos ou duas l\u00f3gicas do marxismo, que eu chamei de anal\u00edtica e pol\u00edtica e que outros chamam de l\u00f3gica da hist\u00f3ria e l\u00f3gica da luta, supostamente marcadas por uma incomensurabilidade superada somente pela cola imagin\u00e1ria do comunismo (ver DARDOT e LAVAL, 2012).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em outras palavras, Badiou est\u00e1 cada vez menos convencido de que podemos entender a pol\u00edtica da mesma forma em que entendemos o desenvolvimento da religi\u00e3o: \u201c<em>atrav\u00e9s da <\/em>hist\u00f3ria, <em>na <\/em>e <em>com <\/em>a hist\u00f3ria\u201d, como o jovem Marx disse na <em>Sagrada Fam\u00edlia<\/em>, numa frase frequentemente repetida por Daniel Bensa\u00efd em suas \u00faltimas obras (MARX e ENGELS, 1975, p. 109; ver tamb\u00e9m BENSA\u00cfD, 2006). Isso \u00e9 assim porque, para o autor de <em>Ser e Evento<\/em>, a pol\u00edtica \u00e9 completamente da ordem do evento, que n\u00e3o pode ser compreendido a n\u00e3o ser que se coloque de lado todos os fatos puros e opini\u00f5es acerca desses fatos. \u201cO paradoxo do esfor\u00e7o em que estamos engajados por conta do recuo da pol\u00edtica \u00e9 o seguinte: j\u00e1 que a determina\u00e7\u00e3o da ess\u00eancia da pol\u00edtica n\u00e3o pode ser garantida pela estrutura (inconsist\u00eancia dos conjuntos, dissocia\u00e7\u00e3o [<em>delinking<\/em>]) ou pelo sentido (a hist\u00f3ria n\u00e3o constitui uma totalidade), seu \u00fanico ponto de refer\u00eancia \u00e9 o evento\u201d, j\u00e1 se pode ler em <em>Peut-on penser la politique? <\/em>(BADIOU, 1985, p. 67). E seguindo uma mesma linha, Badiou cada vez mais enxergar\u00e1 a interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2013 assim como a arte, a matem\u00e1tica e o amor, os tr\u00eas outros dom\u00ednios em que eventos podem se dar \u2013 como autorreferente e autorizada somente por si mesma. Isso \u00e9 especialmente claro no per\u00edodo que se estende do fim dos anos 80 at\u00e9 meados dos 90, praticamente entre <em>Ser e Evento <\/em>e <em>Comp\u00eandio de Metapol\u00edtica<\/em>, quando o \u00edmpeto anti-historicista e antidial\u00e9tico de Badiou est\u00e1 efetivamente em seu auge. Mas muitos comentadores identificam uma postura similar no retorno ao comunismo proposto em <em>A hip\u00f3tese comunista <\/em>e <em>The Rebirth of History<\/em>. O empecilho potencial correta ou erroneamente associado com essa posi\u00e7\u00e3o de Badiou deve ser suficientemente \u00f3bvio: um afastamento aparentemente et\u00e9reo, uma concess\u00e3o de privil\u00e9gio ao fil\u00f3sofo-intelectual em detrimento das massas que se revoltam e, em geral, uma separa\u00e7\u00e3o entre pr\u00e1xis e Ideia sob a abertamente aceita guarda filos\u00f3fica de Plat\u00e3o, ao inv\u00e9s de Marx. Inversamente, os riscos potenciais envolvidos na posi\u00e7\u00e3o oposta n\u00e3o deveriam ser menos evidentes: um desprezo anti-intelectualista pela teoria em favor da pedagogia da a\u00e7\u00e3o, uma tend\u00eancia em explicar a emerg\u00eancia de t\u00e1ticas pol\u00edticas aut\u00f4nomas tomando por base os ciclos e crises hist\u00f3ricas do sistema global capitalista e, em geral, uma redu\u00e7\u00e3o do Marx pol\u00edtico ou intervencionista do <em>Manifesto Comunista <\/em>ou da <em>Guerra Civil na Fran\u00e7a <\/em>ao Marx mais anal\u00edtico e sistem\u00e1tico do <em>Capital<\/em>, com ou sem o suplemento dos <em>Grundrisse<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No entanto, a mudan\u00e7a percept\u00edvel na trajet\u00f3ria da avalia\u00e7\u00e3o feita por Badiou do marxismo como um discurso militante \u00e9 menos radical do que parece \u00e0 primeira vista. Mesmo que venha a interpretar o sentido ou significado do termo \u201chist\u00f3ria\u201d de maneira diferente, Badiou na verdade sempre defendeu a tese de que a pol\u00edtica \u2013 enquanto necessariamente <em>ancorada <\/em>ou <em>enraizada <\/em>na hist\u00f3ria \u2013 n\u00e3o pode ser <em>inferida <\/em>ou <em>deduzida <\/em>da hist\u00f3ria sozinha. \u00c9 por isso que todos os eventos da pol\u00edtica s\u00e3o necessariamente eventos for\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Consideremos, por exemplo, como em <em>Theory of the Subject<\/em> Badiou tenta elaborar uma articula\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre hist\u00f3ria e pol\u00edtica, integrada \u00e0 dial\u00e9tica das massas produtoras e da classe partidarizada. \u201cClasse, apreendida segundo a divis\u00e3o dial\u00e9tica de sua dialeticidade, quer dizer a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica partidarizada ancorada na historicidade produtiva das massas\u201d, ele afirma. \u201cA quest\u00e3o se reduz a saber como tudo isso funciona conjuntamente, porque \u00e9 esse funcionar-conjuntamente que<em> \u00e9<\/em> a classe. Isso implica nada menos que fazer a singularidade retificada da pol\u00edtica surgir no movimento real da hist\u00f3ria\u201d (BADIOU, 2009, p. 27). \u00c9 verdade que Badiou vai depois abandonar essa forma de conceber a transitividade ou, pelo menos, o funcionar-conjuntamente dial\u00e9tico de hist\u00f3ria e pol\u00edtica (ou de massas e classes organizadas atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o partidarizada). Assim, em<em> Peut-on penser la politique?<\/em>, a intransitividade se torna a nova chave para determinar a ess\u00eancia da pol\u00edtica, intransitividade que marca o ponto do real at\u00e9 mesmo no come\u00e7o do discurso de Marx, que somente a cr\u00edtica marxista da economia pol\u00edtica acabou por fixar em uma fic\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>O que deveria ter sido uma estrat\u00e9gia do evento, uma hip\u00f3tese acerca das histerias do social, um \u00f3rg\u00e3o para o corte interpretativo, uma coragem de acaso, foi finalmente apresentado, por meio da economia, como fornecendo uma medida conveniente para as rela\u00e7\u00f5es sociais. Assim, o marxismo foi destru\u00eddo por sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, que \u00e9 aquela de sua fix\u00e3o, com um \u201cx\u201d, a hist\u00f3ria de sua fixa\u00e7\u00e3o no filosofema do pol\u00edtico (BADIOU, 1985, p. 14).<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entre <em>Theory of the Subject <\/em>e <em>Ser e Evento<\/em>, com <em>Peut-on penser la politique? <\/em>funcionando como transi\u00e7\u00e3o crucial, o velho paradigma marxista de base e superestrutura, de for\u00e7as e rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e, em termos militantes, de dial\u00e9tica das massas, classes, partido e estado \u00e9 assim abandonado em prol do paradigma aparentemente discrepante de situa\u00e7\u00e3o, interven\u00e7\u00e3o, evento, fidelidade, sujeito e verdade, que chegamos a identificar com a pr\u00f3pria filosofia de Badiou.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No entanto, isso n\u00e3o quer dizer que Badiou vai ent\u00e3o, de uma s\u00f3 vez, abandonar a dial\u00e9tica marxista e renunciar \u00e0 categoria de hist\u00f3ria. Na verdade, em <em>Peut-on penser la politique?<\/em> ele prop\u00f5e que o novo vocabul\u00e1rio permane\u00e7a sendo aquele da dial\u00e9tica: \u201cDigo que os conceitos de evento, estrutura, interven\u00e7\u00e3o e fidelidade s\u00e3o os pr\u00f3prios conceitos da dial\u00e9tica, considerando que esta n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel \u00e0 imagem estreita, j\u00e1 inadequada para Hegel, da totaliza\u00e7\u00e3o e do trabalho do negativo\u201d (BADIOU, 1985, p. 84).<a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a> E, t\u00e3o recentemente quanto em <em>The Rebirth of History<\/em>, ele revisita muito da gram\u00e1tica da articula\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o; no entanto, a hist\u00f3ria em que se diz que toda pol\u00edtica est\u00e1 \u201cancorada\u201d ou \u201cenraizada\u201d n\u00e3o mais se refere, agora, a fatores objetivos, mas, ao inv\u00e9s disso, se torna completamente interna ao processo subjetivo de sustenta\u00e7\u00e3o de um evento pol\u00edtico como tal. Para o p\u00f3s-marxista ou p\u00f3s-mao\u00edsta em Badiou, n\u00e3o se trata mais de politizar a hist\u00f3ria, mas sim de historicizar a pol\u00edtica. Se h\u00e1 um renascimento ou um despertar da hist\u00f3ria, ele n\u00e3o \u00e9 mais baseado na hist\u00f3ria objetiva da luta de classes, mas no devir-hist\u00f3rico de alguns levantes e revoltas espont\u00e2neos e no fazer-se-pol\u00edtico dessas revoltas hist\u00f3ricas. Em outras palavras, a partir de agora, tudo que h\u00e1 para a dial\u00e9tica, se \u00e9 ainda esse o nome que queremos dar \u00e0 teoria do evento, \u00e9 uma periodiza\u00e7\u00e3o imanente de revolta espont\u00e2nea, movimento hist\u00f3rico e organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. E, ent\u00e3o, a nova vers\u00e3o da velha pergunta feita em <em>Theory of the Subject <\/em>em termos de massas e classe se torna a seguinte em <em>The Rebirth of History<\/em>: \u201cComo podemos inscrever politicamente, como materialidade ativa sob o signo da Ideia, um despertar da Hist\u00f3ria?\u201d, particularmente se tais inscri\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o mais socialmente predeterminadas, mas ao inv\u00e9s disso tanto raras quanto contingentes: \u201cNotemos simplesmente que se toda verdade pol\u00edtica se enra\u00edza em um evento popular massivo, n\u00e3o obstante n\u00e3o se pode dizer dela que ela seja redut\u00edvel a isso\u201d (BADIOU, 2012b, pp. 67, 89; para a mudan\u00e7a na forma em que Badiou concebe a hist\u00f3ria e a pol\u00edtica, ver tamb\u00e9m caps. 3 e 7 em BOSTEELS, 2011).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A li\u00e7\u00e3o militante que Badiou tira da Primavera \u00c1rabe, do movimento Occupy nos EUA e, por exemplo, dos <em>indignados <\/em>de Puerta del Sol \u00e9 que o fil\u00f3sofo deveria apontar seus ouvidos para o ch\u00e3o em busca de escutar o ru\u00eddo dos eventos populares massivos ao mesmo tempo em que evita a todo custo se tornar a pol\u00edcia ou o juiz da hist\u00f3ria \u2013 ou, o que seria ainda pior, ajudar os policiais e ju\u00edzes existentes se tornando um informante: \u201cPor agora, no entanto, ser\u00e1 permitido ao fil\u00f3sofo dar ouvido aos sinais, ao inv\u00e9s de correr para a delegacia [<em>rushing to the police station<\/em>]\u201d<a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a>. A filosofia (ou o que eu prefiro chamar de teoria) n\u00e3o \u00e9 nem uma sala de espera na delegacia e nem um tribunal hist\u00f3rico-global em que se julga tudo e nada, mas sim uma atividade de pensamento sob a condi\u00e7\u00e3o de eventos que est\u00e3o parcialmente fora de seu controle. Ao longo de <em>The Rebirth of History<\/em>, Badiou repete algumas express\u00f5es para deixar claro que a filosofia tanto aprende com quanto se deixa condicionar pelas revoltas, visto que s\u00e3o elas os eventos pol\u00edticos que est\u00e3o realmente acontecendo em nosso tempo. Assim, ele frequentemente utiliza a express\u00e3o francesa <em>\u00eatre \u00e0 l\u2019\u00e9cole de<\/em>, que significa \u201caprender com\u201d ou, literalmente, \u201cir \u00e0 escola das\u201d revoltas e dos levantes da \u00faltima d\u00e9cada \u2013 exatamente da mesma forma (pelo menos \u00e9 o que parece) em que, nos anos 70, era comum entre os mao\u00edstas franceses confiar nessa mesma express\u00e3o para se referir ao papel da teoria (a refer\u00eancia \u00e0 filosofia, inversamente, sendo muito menos comum naquela \u00e9poca) face aos eventos dos \u201canos vermelhos\u201d que encontraram inspira\u00e7\u00e3o na Revolu\u00e7\u00e3o Cultural. De qualquer forma, n\u00f3s n\u00e3o devemos nos apressar em emitir um julgamento que imputa ao fil\u00f3sofo o desejo de ensinar uma li\u00e7\u00e3o aos participantes das revoltas. Fazer isso significaria, ironicamente, transformar-se na imagem espelhada do fil\u00f3sofo que corre para a delegacia: ao inv\u00e9s de culpar os rebeldes por sua falta de Ideia, ir\u00edamos r\u00e1pida e, de uma certa forma, previsivelmente culpar o fil\u00f3sofo pela sua confian\u00e7a excessiva na Ideia. Eu imagino que qualquer dia algu\u00e9m publique, nesse sentido, um livro chamado <em>A Li\u00e7\u00e3o de Badiou<\/em>, ecoando e estendendo o severo ataque efetuado contra o mestre por Jacques Ranci\u00e8re em <em>A Li\u00e7\u00e3o de Althusser<\/em>. Mas, enquanto em <em>The Rebirth of History <\/em>Badiou efetivamente fala de \u201cli\u00e7\u00f5es\u201d, o que importa \u00e9 que elas devem ser modestamente <em>aprendidas com <\/em>os rebeldes, e n\u00e3o magistralmente <em>ensinadas a <\/em>eles; de uma forma muito parecida com aquela em que Badiou, em um livro mais antigo chamado <em>O S\u00e9culo<\/em>, apresenta uma s\u00e9rie de \u201cli\u00e7\u00f5es\u201d ensinadas <em>pelos \u2013<\/em> e n\u00e3o <em>para os<\/em> \u2013 experimentadores art\u00edsticos, pol\u00edticos e psicanal\u00edticos do s\u00e9culo XX. \u201cNa condi\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria pol\u00edtica que tem sido a nossa nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio que somos n\u00f3s quem temos tudo a aprender com os atuais levantes populares?\u201d, Badiou tamb\u00e9m pergunta em um artigo acerca dos eventos ocorridos em 2011 na Tun\u00edsia e no Egito escrito para a <em>Le Monde <\/em>e reimpresso em <em>The Rebirth of History<\/em>. \u201cSim, n\u00f3s devemos ser os alunos [<em>\u00e9coliers<\/em>] desses movimentos, n\u00e3o seus professores est\u00fapidos\u201d (BADIOU, 2012b, pp. 106-107).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Acusa\u00e7\u00f5es contra as ambi\u00e7\u00f5es exageradas de Badiou no que diz respeito \u00e0s revoltas recentes dependem muito da atribui\u00e7\u00e3o de um pressuposto t\u00e1cito e profundamente antimarxista aos seus trabalhos mais recentes sobre o comunismo; nomeadamente, o pressuposto de que \u00e9 tarefa do fil\u00f3sofo \u2013 e do fil\u00f3sofo Badiou sozinho \u2013 formular, desenvolver e propagar aquilo que ele chama de Ideia, sem a qual n\u00e3o poderia haver despertar da Hist\u00f3ria. Isso situaria os rebeldes na posi\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as impacientes (com um prov\u00e1vel transtorno de d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o) que esperam pela aula, a ser dada pelo mestre, acerca do papel da Ideia. Esta \u00faltima, ent\u00e3o, seria a grande ideia do fil\u00f3sofo, atrav\u00e9s da qual ele guia os rebeldes e manifestantes em torno da ressurg\u00eancia imposta do comunismo. De maneira similar, alguns leitores devem ter conclu\u00eddo do t\u00edtulo de outro dos livros recentes de Badiou, <em>Filosofia para militantes<\/em>, que a milit\u00e2ncia pol\u00edtica parece ser dependente do trabalho pr\u00e9vio de desenvolvimento te\u00f3rico, que teria de ser realizado pelo fil\u00f3sofo profissional. Isso tamb\u00e9m nos levaria diretamente de volta para aquela mesma forma de idealismo especulativo que Marx atribui a Hegel em seu pref\u00e1cio escrito em 1843 para a segunda edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 do <em>Capital<\/em>, censurando-o por situar a for\u00e7a motriz da hist\u00f3ria no terreno da Ideia: \u201cPara Hegel, o processo do pensamento \u2013 que ele chega mesmo a transformar em um sujeito independente, sob o nome de \u2018a Ideia\u2019 \u2013 \u00e9 o criador do mundo real, e o mundo real \u00e9 somente a apari\u00e7\u00e3o externa da ideia\u201d (MARX, 1976a, p. 102). No entanto, enquanto que certamente n\u00e3o h\u00e1 pouca imprecis\u00e3o em torno da no\u00e7\u00e3o da Ideia como formulada por Badiou, nem<em> A hip\u00f3tese comunista<\/em> e nem<em> The Rebirth of History<\/em> confirmam o pressuposto de que elaborar essa no\u00e7\u00e3o da Ideia seria a tarefa exclusiva do fil\u00f3sofo profissional. Pelo contr\u00e1rio, se h\u00e1 um pressuposto que atua de maneira consistente em todos os escritos de Badiou sobre a condi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, esse pressuposto \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de que a pol\u00edtica \u00e9 ela mesma \u2013 com suas pr\u00f3prias ideias, pensamentos, palavras de ordem e panfletos \u2013 uma forma ativa e gen\u00e9rica do pensamento. E enquanto Marx fala, no que diz respeito a isso, sobre o papel da pr\u00e1xis na supera\u00e7\u00e3o da in\u00e9rcia presente na oposi\u00e7\u00e3o tradicional entre teoria e pr\u00e1tica, Badiou prefere descrever a pol\u00edtica como um <em>pens\u00e9e-faire<\/em>, um \u201cpensamento-pr\u00e1tica\u201d ou \u201cpensar-fazer\u201d coletivo e gen\u00e9rico, que n\u00e3o precisa do fil\u00f3sofo para saber o que deve ou n\u00e3o ser feito. \u201cSe a pol\u00edtica \u00e9 a pr\u00e1tica de um pensamento em um registro absolutamente autossuficiente\u201d, Badiou escreve em <em>Comp\u00eandio de Metapol\u00edtica<\/em>, \u201cent\u00e3o podemos dizer que a tarefa da filosofia \u00e9 a de valer-se das condi\u00e7\u00f5es para a pr\u00e1tica do pensamento dentro desse registro singular conhecido como pol\u00edtica\u201d (BADIOU, 2005, pp. 86-87).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;At\u00e9 mesmo o chamado para garantir que a Ideia esteja enraizada nos eventos hist\u00f3ricos que marcam a presente era de revoltas e levantes, como que para lhes fornecer maior durabilidade e expans\u00e3o, n\u00e3o deve ser tratado como sintoma de um desejo repugnante do fil\u00f3sofo por hegemonia sobre o futuro da pol\u00edtica. Pois, para al\u00e9m do fato de que decorre do princ\u00edpio materialista que \u00e9 a filosofia que \u00e9 condicionada pela pol\u00edtica, e n\u00e3o o contr\u00e1rio, tamb\u00e9m \u00e9 preciso levar em conta que parte desse chamado brota justamente do desejo oposto; nomeadamente, o desejo de que a pol\u00edtica produza uma situa\u00e7\u00e3o em que qualquer um possa ser fil\u00f3sofo. \u201c\u00c9 claro que se reconhecer\u00e1 nisto um desejo plat\u00f4nico, apesar de estendido da aristocracia dos guardi\u00e3es para o coletivo popular em sua integralidade\u201d, Badiou escreve em sua <em>Filosofia para militantes<\/em>. \u201cEsse desejo pode ser expressado da seguinte forma: onde quer que um coletivo humano trabalhe visando \u00e0 igualdade, est\u00e3o postas as condi\u00e7\u00f5es para que qualquer um seja fil\u00f3sofo\u201d (BADIOU, 2012a, p. 37)<a href=\"#_ftn5\">[5]<\/a>. Assim, n\u00e3o somente as ideias e os pensamentos imanentes \u00e0s lutas pol\u00edticas atuais, mas at\u00e9 mesmo a Ideia comunista \u2013 mesmo com seu platonismo ou hegelianismo especulativo aparentemente g\u00e9lido \u2013, podem ser traduzidos como o anseio de que a pol\u00edtica crie um lugar gen\u00e9rico em que rebeldes e fil\u00f3sofos \u2013 como o ca\u00e7ador, o pescador, o pastor e o cr\u00edtico na (ainda demasiado masculina e pastoral) vers\u00e3o da sociedade comunista celebremente prefigurada na <em>Ideologia Alem\u00e3<\/em> \u2013 re\u00fanam-se em uma \u00fanica figura; e talvez at\u00e9 mesmo n\u00e3o tendo que dividir seu tempo entre atividades a serem desempenhadas de manh\u00e3, de tarde, antes ou depois do jantar, como ainda \u00e9 o caso em Marx e Engels. \u201cNesse sentido\u201d, escreve Badiou, \u201ctoda pol\u00edtica emancipat\u00f3ria cont\u00e9m para a filosofia, seja de maneira vis\u00edvel ou n\u00e3o, a palavra de ordem que produz a atualidade da universalidade; nomeadamente: se todos estiverem juntos, ent\u00e3o todos s\u00e3o comunistas! E se todos s\u00e3o comunistas, ent\u00e3o todos s\u00e3o fil\u00f3sofos!\u201d (BADIOU, 2012a, p. 38). De acordo com essa formula\u00e7\u00e3o, o tempo pode n\u00e3o parecer maduro o suficiente para a possibilidade da partilha universal da filosofia se tornar uma realidade. Ainda assim, ao inv\u00e9s de pousarmos nossos olhos no futuro distante de um estado de coisas ainda por vir, poder\u00edamos tamb\u00e9m ler esse desejo de que todos se tornem fil\u00f3sofos como algo que j\u00e1 se atualiza em toda inst\u00e2ncia da luta coletiva, n\u00e3o importando qu\u00e3o local ou curta ela possa ser. Nesse sentido, mais uma vez, o argumento estaria a favor da pol\u00edtica como um pensamento-pr\u00e1tica gen\u00e9rico em que as ideias te\u00f3ricas n\u00e3o s\u00e3o transcendentes, mas imanentes \u00e0s a\u00e7\u00f5es e iniciativas que s\u00e3o sua \u00fanica exist\u00eancia pr\u00e1tica. \u00c9 claro que ainda resta ver se, e em que medida, o pr\u00f3prio Badiou , em trabalhos recentes como <em>The Rebirth of History<\/em> ou <em>A hip\u00f3tese comunista<\/em>, facilita um tal entendimento da pol\u00edtica enquanto pensamento-pr\u00e1tica imanente.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na verdade, podemos ver facilmente como as no\u00e7\u00f5es de pensamentos e ideias parecem ser duplicadas nesse contexto. H\u00e1, primeiramente, as ideias e os pensamentos inerentes \u00e0 pr\u00e1tica pol\u00edtica; mas ent\u00e3o h\u00e1, em segundo lugar, as ideias e os pensamentos que pertenceriam \u00e0 filosofia ou \u00e0 teoria, condicionada pela pol\u00edtica verdadeiramente existente. Essa duplica\u00e7\u00e3o da categoria de pensamento n\u00e3o somente toca no cora\u00e7\u00e3o do problema da rela\u00e7\u00e3o entre eventos e conceitos: onde ou em que n\u00edvel, por exemplo, devemos localizar a categoria a que Badiou d\u00e1 o nome de Ideia? Mas ainda mais, essa duplica\u00e7\u00e3o do pensamento tamb\u00e9m levanta a quest\u00e3o do lugar da terceira categoria \u2013 a hist\u00f3ria \u2013 na articula\u00e7\u00e3o entre filosofia e pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No que diz respeito a esse segundo problema, devemos decidir entre duas posi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas: ou mantemos a necessidade da dupla ocorr\u00eancia do pensamento, primeiro na pol\u00edtica e depois na filosofia; ou nos esfor\u00e7amos para dissipar essa duplica\u00e7\u00e3o em nome da iman\u00eancia hist\u00f3rica estrita, ou daquilo que Marx chama nas<em> Teses sobre Feuerbach<\/em> de car\u00e1ter \u201cterreno\u201d ou \u201cmundano\u201d da atividade pr\u00e1tica, tendo como resultado prov\u00e1vel o definhamento gradual ou axiom\u00e1tico da filosofia como uma atividade separada. N\u00e3o obstante Badiou ser relutante em tomar a segunda posi\u00e7\u00e3o como ponto de partida simples e autoevidente, pode ser que ela corresponda \u00e0 finalidade \u00faltima de toda a sua filosofia, que por essa raz\u00e3o sempre acolhe tamb\u00e9m elementos antifilos\u00f3ficos. Como a Ideia, ent\u00e3o, as verdades s\u00e3o imanentes \u00e0 situa\u00e7\u00e3o em que s\u00e3o trabalhadas. \u201cUma verdade \u00e9 algo que existe em seu processo ativo, que se manifesta, como verdade, em diferentes circunst\u00e2ncias marcadas por esse processo\u201d, Badiou tamb\u00e9m escreve em <em>The Rebirth of History<\/em>. \u201cAs verdades n\u00e3o precedem os processos pol\u00edticos; n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de confirm\u00e1-las ou aplic\u00e1-las. As verdades s\u00e3o a realidade mesma, enquanto um processo de produ\u00e7\u00e3o de novidades pol\u00edticas, sequ\u00eancias pol\u00edticas, revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e assim por diante\u201d (BADIOU, 2012b, p. 87). As ideias, tamb\u00e9m, seriam parte dos processos pol\u00edticos em curso. Ao inv\u00e9s de operar em um n\u00edvel teoricamente superior, elas estariam ativas no solo \u2013 ou no n\u00edvel das ra\u00edzes \u2013 da racionalidade militante das lutas mesmas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por outro lado, assim como, na elabora\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da filosofia de Badiou, a no\u00e7\u00e3o de verdade parece escapar e exceder as ader\u00eancias circunstanciais aos mundos em que s\u00e3o proferidas e incorporadas, Badiou \u00e9 igualmente inflex\u00edvel ao sempre tra\u00e7ar uma linha clara de demarca\u00e7\u00e3o entre a filosofia e os v\u00e1rios procedimentos n\u00e3o-filos\u00f3ficos, entre eles a pol\u00edtica, em que eventos podem se dar e verdades podem ser produzidas. E, enquanto uma tal linha de demarca\u00e7\u00e3o pretende ser uma li\u00e7\u00e3o restritiva para que a filosofia n\u00e3o fa\u00e7a a declara\u00e7\u00e3o desastrosa de que ela pode ser uma pol\u00edtica (ou uma ci\u00eancia, ou uma arte) por si mesma, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que essa insist\u00eancia contraria o anseio de dissolver a heterogeneidade entre pol\u00edtica e filosofia em um \u00fanico pensamento-pr\u00e1tica cuja unidade seria garantida pelo termo mediador da hist\u00f3ria como terreno \u00fanico de todas as atividades humanas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No fim das contas, a forma mais simples de resumir o que Marx e Badiou t\u00eam em comum \u00e9 considerar ambos como pensadores do gen\u00e9rico. A localiza\u00e7\u00e3o dessa genericidade \u00e9 certamente distinta \u2013 com o jovem Marx, especialmente, situando o gen\u00e9rico ao lado do ser humano como entidade coletiva ou ser-esp\u00e9cie; e Badiou, em contraste com isso, atribuindo o gen\u00e9rico ao ser enquanto ser \u00e0 medida que \u00e9 revelado em um procedimento singular de verdade. No entanto, assim como para Marx, a natureza coletiva ou comunal do ser humano n\u00e3o deveria ser enxergada como um dado antropol\u00f3gico, mas sim como um pressuposto axiom\u00e1tico no aqui e agora das lutas concretas; da mesma forma devemos evitar a falsa impress\u00e3o de que a ontologia de Badiou dependeria de um dado fenomenol\u00f3gico, ou de uma doa\u00e7\u00e3o como apari\u00e7\u00e3o do puro ser no milagre de um evento. Ao inv\u00e9s disso, tanto Marx quanto Badiou s\u00e3o duas vers\u00f5es de um entendimento materialista e dial\u00e9tico da associa\u00e7\u00e3o \u2013 que \u00e9 ao mesmo tempo uma dissocia\u00e7\u00e3o \u2013 entre ser, verdade, evento e sujeito. O autor de <em>Ser e Evento<\/em> simplesmente leva a desconstru\u00e7\u00e3o do ser at\u00e9 o ponto, marcado como s\u00edtio sintom\u00e1tico, em que o impasse do ser pressup\u00f5e e ao mesmo tempo coincide com o passe do sujeito. Isso quer dizer que, no fim das contas, pensamentos-pr\u00e1tica gen\u00e9ricos tais como aqueles da pol\u00edtica, que organizam uma fidelidade material \u00e0 ocorr\u00eancia ocasional de um evento, ainda podem ser consideradas inst\u00e2ncias daquilo que Marx, em suas <em>Teses sobre Feuerbach<\/em>, chama de pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria ou pr\u00e1xis \u2013 mesmo que, para Badiou, a era das revolu\u00e7\u00f5es tenha definitivamente terminado com o fim da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural: \u201cA coincid\u00eancia do ato de mudar as circunst\u00e2ncias com a atividade humana ou autotransforma\u00e7\u00e3o pode ser compreendida e entendida de maneira racional apenas na condi\u00e7\u00e3o de <em>pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria<\/em>\u201d (MARX, 1976b, p. 4).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Bruno Bosteels<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/em> <strong>Pedro Naccarato<\/strong><br><em>Revis\u00e3o:<\/em> <strong>Mois\u00e9s Rech<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-file\"><a href=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Bosteels_The_Fate_of_the_Generic_Marx_wi.pdf\">Original: Bosteels_The_Fate_of_the_Generic_Marx_wi<\/a><a href=\"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Bosteels_The_Fate_of_the_Generic_Marx_wi.pdf\" class=\"wp-block-file__button\" download>Baixar<\/a><\/div>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Al\u00e9m dos textos coletados em LAZARUS, 2013, ver tamb\u00e9m LAZARUS, 1992, um texto an\u00f4nimo provavelmente de autoria de Lazarus e dispon\u00edvel em ingl\u00eas como LAZARUS, 2005. Para a r\u00e9plica cr\u00edtica de Badiou ao trabalho de Lazarus, ver cap. 2 em BADIOU, 2005.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A melhor abordagem da destrui\u00e7\u00e3o ou desconstru\u00e7\u00e3o do marxismo que ocorre em meados dos 80 na obra de Badiou pode ser encontrada em dois cap\u00edtulos escritos por Alberto Toscano (TOSCANO, 2004; 2007). Para uma tentativa recente de recolocar a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica na avalia\u00e7\u00e3o do mao\u00edsmo de Badiou via UCFML, ver WALKER, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Antes da considera\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica em BOSTEELS, 2011, eu discuti o papel da dial\u00e9tica na filosofia de Badiou em BOSTEELS, 2004. Sobre a compara\u00e7\u00e3o com Hegel, ver BOSTEELS, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em franc\u00eas, a senten\u00e7a est\u00e1 redigida da seguinte forma: \u201cDans l\u2019instant totutefois, on permettra au philosophe de pr\u00eater l\u2019oreille au signal, plut\u00f4t que de se pr\u00e9cipiter au comissariat\u201d (BADIOU, 2011, p. 37). A tradu\u00e7\u00e3o de Gregory Elliott [para o ingl\u00eas] \u00e9 menos evocativa da figura do fil\u00f3sofo como um dedo-duro que corre at\u00e9 a delegacia para dedurar os rebeldes: \u201cPor agora, no entanto, ser\u00e1 permitido ao fil\u00f3sofo dar ouvido aos sinais, ao inv\u00e9s de se apressar em julg\u00e1-lo [<em>rushing to judgement<\/em>]\u201d (BADIOU, 2012b, p. 21).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Badiou n\u00e3o comenta o tom gramsciano dessa formula\u00e7\u00e3o. At\u00e9 onde sei, na verdade, Antonio Gramsci est\u00e1 notavelmente ausente em todos os escritos de Badiou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BADIOU, Alain (1975) <em>Th\u00e9orie de la contradiction<\/em> (Paris: Fran\u00e7ois Maspero).<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014\u2014 (1985) <em>Peut-on penser la politique?<\/em> (Paris: Seuil).<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014\u2014 (2005) <em>Metapolitics<\/em>, trans. Jason Barker (London: Verso).<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014\u2014 (2009) <em>Theory of the Subject<\/em>, trans. Bruno Bosteels (London: Continuum).<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014\u2014 (2011) <em>Le r\u00e9veil de l\u2019histoire<\/em> (F\u00e9camp: Nouvelles \u00c9ditions Lignes).<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014\u2014 (2012a) <em>Philosophy for Militants<\/em>, trans. Bruno Bosteels (London: Verso).<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014\u2014 (2012b) <em>The Rebirth of History<\/em>: <em>Times of Riots and Uprisings,<\/em> trad. Gregory Elliott (London: Verso).<\/p>\n\n\n\n<p>BENSA\u00cfD, Daniel (2006) \u2018\u201cDans et par l\u2019histoire\u201d: Retours sur la question juive\u2019 in MARX, Karl. <em>Sur la question juive<\/em>, ed. Daniel Bensa\u00efd (Paris: La Fabrique).<\/p>\n\n\n\n<p>BERNES, Jasper; CLOVER, Joshua (2012) \u2018History and the Sphinx: Of Riots andUprisings\u2019, <em>Los Angeles Review of Books<\/em>, 24 September 2012, https:\/\/lareviewof-books.org\/review\/history-and-the-sphinx-of-riots-and-uprisings, accessed 31 March 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>BOSTEELS, Bruno (2004) \u2018On the Subject of the Dialectic\u2019 in <em>Think Again: Alain Badiou and the Future of Philosophy<\/em>, ed. Peter Hallward (London: Continuum).<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014\u2014 (2010) \u2018Hegel\u2019 in <em>Badiou<\/em>: <em>Key Concepts<\/em>, ed. A. J. Bartlett and Justin Clemens (London: Acumen).<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014\u2014 (2011) <em>Badiou and Politics<\/em> (Durham, NC: Duke University Press).<\/p>\n\n\n\n<p>BROWN, Nathan (2012) \u2018Rational Kernel, Real Movement: Badiou and Th\u00e9orie Communiste in the Age of Riots\u2019, <em>Lana Turner: A Journal of Poetry and Opinion<\/em>, 5, www.lanaturnerjournal.com\/archives\/nathan-brown-badiou-and-theorie-communiste, acessado em 31 de mar\u00e7o 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian (2012) <em>Marx, pr\u00e9nom<\/em>: Karl (Paris: Gallimard).<\/p>\n\n\n\n<p>LAZARUS, Sylvain (1992) \u2018Le mode dialectique\u2019, <em>La Distance Politique<\/em>, 3, 4\u20136.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014\u2014 (2005) \u2018The Dialectical Mode\u2019, trans. Bruno Bosteels, in <em>positions: east asia cultures critique<\/em>, 13, 3, 663\u20138.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014\u2014 (2013) <em>L\u2019intelligence de la politique<\/em>, ed. Natacha Michel (Marseille: \u00c9ditions Al Dante). MARX, Karl (1976a) <em>Capital<\/em>, vol. 1, trans. Ben Fowkes (Harmondsworth: Penguin).<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014\u2014 (1976b) \u2018Theses on Feuerbach\u2019 in Karl Marx and Frederick Engels, <em>Collected Works<\/em>, vol. 5, trad. Clemens Dutt, W. Lough and C. P. Magill (London: Lawrence and Wishart; New York: International; Moscow: Progress).<\/p>\n\n\n\n<p>MARX, Karl; ENGELS, Frederick (1975) \u2018The Holy Family\u2019 in Karl Marx and Frederick Engels, <em>Collected Works<\/em>, vol. 4, trans. Jack Cohen, Richard Dixon, Clemens Dutt, Florence Kelley-Wischnewetzky, Barbara Ruhemann and Christopher Upward (London: Lawrence and Wishart; New York: International; Moscow: Progress).<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014\u2014 (1976) \u2018The German Ideology\u2019 in Karl Marx and Frederick Engels, <em>Collected Works<\/em>, vol. 5, trans. Clemens Dutt, W. Lough and C. P. Magill (London: Lawrence and Wishart; New York: International; Moscow: Progress).<\/p>\n\n\n\n<p>SANDEVINCE, Paul (1978) <em>Qu\u2019est-ce qu\u2019une politique marxiste?<\/em> (Marseille: Potemkine).<\/p>\n\n\n\n<p>SMITH, Jason (2012) \u2018Ring of Fire: On Badiou and the Time of Riots\u2019, <em>Lana Turner: A Journal of Poetry and Opinion<\/em>, 5, www.lanaturnerjournal.com\/archives\/jason- smith-ring-of-fire, accessed 31 March 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>TOSCANO, Alberto (2004) \u2018Communism as Separation\u2019 in <em>Think Again: Alain Badiou and the Future of Philosophy<\/em>, ed. Peter Hallward (London: Continuum).<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014\u2014 (2007) \u2018Marxism Expatriated: Alain Badiou\u2019s Turn\u2019 in <em>Critical Companion to Contemporary Marxism<\/em>, ed. Jacques Bidet and Stathis Kouvelakis (Leiden: Brill).<\/p>\n\n\n\n<p>UCFML (1976) <em>Sur le mao\u00efsme et la situation en Chine apr\u00e8s la mort de Mao Ts\u00e9-Toung<\/em> (Marseille: Potemkine).<\/p>\n\n\n\n<p>WALKER, Gavin (2012) \u2018On Marxism\u2019s Field of Operation: Badiou and the Critique of Political Economy\u2019, <em>Historical Materialism<\/em>, 20, 2, 39\u201374.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alain Badiou abre um de seus livros mais recentes, The Rebirth of History: Times of Riots and Uprisings [O Renascimento da Hist\u00f3ria: Tempos de Revoltas e Levantes], com uma afirma\u00e7\u00e3o que pode ter causado surpresa em muitos de seus leitores de longa data: \u201cAqui, sem me preocupar com oponentes e rivais, gostaria de dizer 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