{"id":1298,"date":"2021-02-25T11:00:00","date_gmt":"2021-02-25T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/?p=1298"},"modified":"2021-05-13T03:23:35","modified_gmt":"2021-05-13T03:23:35","slug":"a-nova-leitura-de-marx-neue-marx-lekture-riccardo-bellofiore-e-tommaso-redolfi-riva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zeroaesquerda.com.br\/index.php\/2021\/02\/25\/a-nova-leitura-de-marx-neue-marx-lekture-riccardo-bellofiore-e-tommaso-redolfi-riva\/","title":{"rendered":"A Nova Leitura de Marx (Neue Marx-Lekt\u00fcre) \u2014 Riccardo Bellofiore e Tommaso Redolfi Riva"},"content":{"rendered":"\n<p>&#8211;<strong>Retomando a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica na cr\u00edtica social<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O projeto de reexaminar a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx, no fim dos anos 60, por pupilos de Horkheimer e Adorno, \u00e9 atualmente conhecido como <em>Nova Leitura de Marx<\/em> (NLM). Esta nova leitura de Marx, protagonizada principalmente por Alfred Schmidt, Hans-Georg Backhaus e Helmut Reichelt, pretendia libertar Marx dos esquemas engessados da ortodoxia marxista. Neste artigo, tentaremos reconstruir os pontos de partida deste projeto, estabelecendo suas ra\u00edzes na teoria cr\u00edtica social de Adorno. A partir dessa perspectiva, examinaremos a abordagem original da NLM \u00e0 teoria do valor de Marx, sua compreens\u00e3o do car\u00e1ter l\u00f3gico desta teoria, e de como as contradi\u00e7\u00f5es da forma-mercadoria e do duplo car\u00e1ter do trabalho implicam uma autonomiza\u00e7\u00e3o da sociedade. Por fim, esbo\u00e7aremos alguns problemas da NLM, para uma cr\u00edtica e um di\u00e1logo produtivos.<\/p>\n\n\n\n<p><em>O nascimento da Nova Leitura de Marx<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Conforme algumas interpreta\u00e7\u00f5es, Marx teria proposto uma teoria do valor-trabalho revisada a partir daquela desenvolvida por David Ricardo. Tais interpreta\u00e7\u00f5es tendem a forcar nas duas primeiras subse\u00e7\u00f5es do cap\u00edtulo primeiro do <em>Capital<\/em>, deixando em segundo plano as subse\u00e7\u00f5es referentes \u00e0 forma do valor e ao car\u00e1ter fetichista da mercadoria. De acordo com essa abordagem, Marx primeiramente analisa a mercadoria como um duplo de valor de uso e valor de troca. Depois, ele argumenta que por tr\u00e1s do valor de troca deve haver algo comum \u00e0s mercadorias trocadas que fundamenta sua comensurabilidade, isto \u00e9, o valor. Por fim, ele conecta o valor ao trabalho. Isto pode parecer tudo; por\u00e9m, se pararmos neste ponto, perdemos o cerne da teoria do valor de Marx.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aquilo que efetivamente distingue a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx das teorias econ\u00f4micas anteriores e posteriores \u00e9 a teoria da <em>forma<\/em> do valor. A cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx pretende responder \u00e0s seguintes perguntas: Por que valor? Por que o valor n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m de uma express\u00e3o do trabalho? Quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es que possibilitam a exist\u00eancia do valor, que \u00e9 uma \u201cdimens\u00e3o social objetiva\u201d de acordo com a qual as mercadorias s\u00e3o trocadas? E por que o conte\u00fado do valor (isto \u00e9, o trabalho) assume a forma de uma coisa \u2013 isto \u00e9, o dinheiro?<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a> Estas perguntas, as quais podem ser encontradas mais ou menos explicitamente no <em>Capital<\/em> e nos seus trabalhos preparat\u00f3rios (ao menos a partir dos <em>Grundrisse<\/em>), n\u00e3o foram, com algumas raras exce\u00e7\u00f5es, devidamente enfrentadas pelos int\u00e9rpretes e seguidores de Marx.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Isto mudou nos anos 60 com as contribui\u00e7\u00f5es de Backhaus, Reichelt e Schmidt. Emergindo da Escola de Frankfurt no auge de sua influ\u00eancia sobre a Nova Esquerda (<em>New Left<\/em>) no p\u00f3s-guerra, eles contribu\u00edram decisivamente para a revitaliza\u00e7\u00e3o do estudo de Marx na Alemanha Ocidental. As quest\u00f5es gerais abordadas foram a rela\u00e7\u00e3o de Marx com Hegel, a continuidade ou n\u00e3o de sua teoria do valor em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia pol\u00edtica, o car\u00e1ter do seu materialismo, e assim por diante. Contudo, no cerne dessas quest\u00f5es, estava a radicaliza\u00e7\u00e3o da ruptura de Marx com a economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica, especialmente com Ricardo, e a consequente ruptura com o marxismo cl\u00e1ssico. Uma nova abordagem heterodoxa de Marx emergiu<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Backhaus pode ser considerado como o precursor da NLM. Em 1965, ele apresentou um semin\u00e1rio como parte do curso de Adorno na Universidade de Frankfurt. Sob a influ\u00eancia de Adorno, ele elaborou os elementos essenciais da nova interpreta\u00e7\u00e3o de Marx. Quatro anos mais tarde, ele publicou seu ensaio mais conhecido e amplamente traduzido, \u201c<em>On the Dialectics of the Value-Form<\/em>\u201d. Este foi o esbo\u00e7o do programa de pesquisa que se tornou a NLM. Backhaus via na recep\u00e7\u00e3o consolidada da cr\u00edtica da economia de Marx uma confus\u00e3o entre sua teoria do valor e a de Ricardo, e uma consequente incompreens\u00e3o da especificidade da abordagem marxiana da economia pol\u00edtica. Tal incompreens\u00e3o inclu\u00eda: tratar o \u201cm\u00e9todo de exposi\u00e7\u00e3o\u201d dial\u00e9tico de Marx como mera fraseologia ou como a reprodu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica de um processo hist\u00f3rico; tratar sua exposi\u00e7\u00e3o sobre a forma do valor como uma abordagem hist\u00f3rica da emerg\u00eancia do dinheiro, ou simplesmente ignor\u00e1-la por completo. Conforme Backhaus: \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o \u2018economicista\u2019&#8230; perde a inten\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da teoria do valor de Marx: a \u2018Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica\u2019 \u00e9 tratada como uma teoria econ\u00f4mica entre muitas outras\u201d<a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a>. No entanto, Backhaus tamb\u00e9m notou que a incompreens\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o de Marx acerca das formas n\u00e3o \u00e9 uma simples falha em entender o que Marx escreveu, tendo em vista que o pr\u00f3prio Marx n\u00e3o foi capaz de desenvolver uma exposi\u00e7\u00e3o definitiva da forma de valor. Assim, a \u00fanica maneira de compreender a inten\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da dial\u00e9tica da forma do valor \u00e9 por meio da sua reconstru\u00e7\u00e3o a partir das exposi\u00e7\u00f5es parciais em diversos textos de Marx, seguindo as diferentes vers\u00f5es do argumento desde 1859 (<em>Contribui\u00e7\u00e3o para a Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica<\/em>) at\u00e9 a segunda edi\u00e7\u00e3o do <em>Capital<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tanto Backhaus quanto Reichelt atribuem o nascimento da NLM a quando Backhaus esbarrou numa c\u00f3pia da primeira edi\u00e7\u00e3o do <em>Capital<\/em> na biblioteca da Frankfurter Walter-Kolb-Studentenheim, em 1963: \u201cap\u00f3s uma primeira an\u00e1lise, foi poss\u00edvel perceber uma diferen\u00e7a categorial na constru\u00e7\u00e3o dos conceitos e na formula\u00e7\u00e3o dos problemas da teoria do valor, que, na segunda edi\u00e7\u00e3o, foram apenas esbo\u00e7ados\u201d<a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a>. Backhaus come\u00e7ou a examinar o texto num grupo de trabalho com Reichelt, Walter Euchner, G. Dill, Gisela Kress, Gert Sch\u00e4fer e Dieter Senghaas. O que eles acharam mais interessante foi a presen\u00e7a de uma contradi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica na an\u00e1lise da \u201cforma equivalente\u201d do valor, algo que era mais dif\u00edcil de detectar na segunda edi\u00e7\u00e3o do <em>Capital<\/em>. O conceito hegeliano de \u201cduplica\u00e7\u00e3o\u201d (<em>Verdopplung<\/em>) \u2013 naquela \u00e9poca analisado por Karl Heinz Haag (um assistente de Horkheimer) e usado por Marx na exposi\u00e7\u00e3o da forma de valor na primeira edi\u00e7\u00e3o \u2013 assumiu um novo sentido l\u00f3gico<a href=\"#_ftn5\">[5]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A partir dessa perspectiva, a dial\u00e9tica de Marx no <em>Capital<\/em> tinha de ser tratada como uma quest\u00e3o l\u00f3gica, e n\u00e3o como uma vaga fraseologia filos\u00f3fica vazia de consequ\u00eancias te\u00f3ricas. Na verdade, o ponto de partida da NLM \u00e9 a redescoberta cr\u00edtica do m\u00e9todo de exposi\u00e7\u00e3o de Marx. Os conceitos dial\u00e9ticos de contradi\u00e7\u00e3o, duplica\u00e7\u00e3o, apar\u00eancia, manifesta\u00e7\u00e3o fenom\u00eanica, subst\u00e2ncia, entre outros, foram expurgados das leituras ortodoxas e\/ou \u201ceconomicistas\u201d. Para a NLM, ao contr\u00e1rio, eles se tornaram a chave para compreender a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx.<\/p>\n\n\n\n<p><em>O legado de Adorno<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Reichelt afirma que a descoberta da primeira edi\u00e7\u00e3o do <em>Capital<\/em> n\u00e3o teria nenhuma consequ\u00eancia se tivesse ocorrido com algu\u00e9m que n\u00e3o compareceu \u00e0s palestras de Adorno sobre a teoria dial\u00e9tica da sociedade<a href=\"#_ftn6\">[6]<\/a>. &nbsp;Isto porque a originalidade da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx encontra-se naquilo que Adorno chamou de \u201canamnese da g\u00eanese\u201d. A cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx representa, na verdade, uma teoria da constitui\u00e7\u00e3o da sociedade como uma realidade subjetiva-objetiva<a href=\"#_ftn7\">[7]<\/a>. Como explica Backhaus: a sociedade \u00e9 \u201cobjetiva\u201d uma vez que \u00e9 \u201cuniversalidade abstrata que submete e domina os particulares\u201d<a href=\"#_ftn8\">[8]<\/a>. Ao mesmo tempo, a sociedade \u00e9 subjetiva \u201cporque existe e se reproduz t\u00e3o-somente atrav\u00e9s dos seres humanos\u201d<a href=\"#_ftn9\">[9]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O conceito de sociedade como uma realidade subjetiva-objetiva foi essencial para Adorno: uma sociedade na qual a troca \u00e9 sistematicamente dominante \u201cexpande a natureza de uma forma heter\u00f4noma\u201d<a href=\"#_ftn10\">[10]<\/a>. Numa sociedade de trocas, a reprodu\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es sociais se assemelha a uma necessidade natural; a sociedade capitalista \u00e9 uma estrutura espec\u00edfica na qual as a\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos erigem um \u00e2mbito objetivo que domina os pr\u00f3prios agentes sociais. O modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista destr\u00f3i a ant\u00edtese entre natureza e hist\u00f3ria. A legalidade a qual os agentes sociais est\u00e3o submetidos \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social, mas essa constru\u00e7\u00e3o social atua sobre os agentes sociais como uma lei da natureza: \u201ca objetividade da vida hist\u00f3rica \u00e9 a mesma de uma hist\u00f3ria natural\u201d.<a href=\"#_ftn11\">[11]<\/a> A teoria social dial\u00e9tica deve demonstrar que \u201ca sociedade \u2013 que se tornou independente \u2013 na verdade, n\u00e3o \u00e9 mais intelig\u00edvel; apenas a lei do tornar-se independente (<em>the law of becoming independent<\/em>) \u00e9 intelig\u00edvel\u201d.<a href=\"#_ftn12\">[12]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A sociedade capitalista \u00e9 uma totalidade, uma universalidade, de acordo com Adorno: \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada socialmente factual que n\u00e3o encontra seu lugar nessa totalidade. Est\u00e1 pr\u00e9-estabelecida para todos os sujeitos individuais na medida em que eles mesmos obedecem \u00e0s suas restri\u00e7\u00f5es\u201d.<a href=\"#_ftn13\">[13]<\/a> E a troca \u00e9 o princ\u00edpio sint\u00e9tico que imanentemente determina a conex\u00e3o de todos os fatos sociais.<a href=\"#_ftn14\">[14]<\/a> A troca realiza a conex\u00e3o social \u201cobjetiva\u201d.<a href=\"#_ftn15\">[15]<\/a> \u00c9 o princ\u00edpio de media\u00e7\u00e3o que garante a reprodu\u00e7\u00e3o da sociedade atrav\u00e9s de um processo de abstra\u00e7\u00e3o que \u201cimplica a redu\u00e7\u00e3o dos produtos trocados a seus equivalentes, a algo abstrato, e de maneira alguma \u2013 como o debate tradicional sustenta \u2013 a algo material\u201d.<a href=\"#_ftn16\">[16]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Adorno sustenta que \u00e9 poss\u00edvel, a partir da an\u00e1lise da troca, compreender a autonomiza\u00e7\u00e3o da sociedade que caracteriza a sociedade capitalista. A abstra\u00e7\u00e3o presente em cada troca n\u00e3o \u00e9 subjetiva, porque \u00e9 \u201cindependente tanto da consci\u00eancia dos seres humanos submetidos a ela quanto da consci\u00eancia dos cientistas\u201d.<a href=\"#_ftn17\">[17]<\/a> No modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista h\u00e1 um princ\u00edpio de \u201credu\u00e7\u00e3o \u00e0 unidade\u201d que permite a troca entre mercadorias. \u201cO que torna as mercadorias troc\u00e1veis \u00e9 a unidade do tempo de trabalho abstrato e socialmente necess\u00e1rio\u201d. Mas tal unidade n\u00e3o \u00e9 determinada por meio de um processo subjetivo de abstra\u00e7\u00e3o executado pelos envolvidos na troca; ao contr\u00e1rio, \u201ctempo de trabalho abstrato abstrai as pessoas reais envolvidas\u201d, as quais s\u00e3o incorporadas a uma rela\u00e7\u00e3o social que se torna aut\u00f4noma<a href=\"#_ftn18\">[18]<\/a>. O dinheiro \u00e9 \u201caceito pela consci\u00eancia leiga como uma forma de equivalente auto evidente e por isso como um meio de troca auto evidente (que) livra as pessoas da necessidade de tal reflex\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn19\">[19]<\/a>. Portanto, o <em>insight<\/em> de Marx sobre o car\u00e1ter fetichista da mercadoria, do dinheiro e do capital \u00e9 a chave para compreender a autonomiza\u00e7\u00e3o da sociedade, de acordo com Adorno: \u201cO conceito de fetichismo da mercadoria \u00e9 nada mais que o processo necess\u00e1rio de abstra\u00e7\u00e3o, o qual se apresenta para a economia como um processo natural, \u2018um estado inerente de coisas\u2019 (<em>a being-in-itself of things<\/em>)\u201d. O car\u00e1ter dial\u00e9tico da troca se fundamenta no fato de que \u201cde um lado, o fetichismo da mercadoria \u00e9 uma apar\u00eancia; de outro, \u00e9 uma realidade cabal [<em>\u00e4u<\/em><em>\u00df<\/em><em>erste Realit\u00e4t<\/em>]\u201d<a href=\"#_ftn20\">[20]<\/a>. \u00c9 uma apar\u00eancia uma vez que aquilo que \u00e9 percebido como natural adv\u00e9m de rela\u00e7\u00f5es sociais nas quais os agentes sociais est\u00e3o integrados; \u00e9 real uma vez que a redu\u00e7\u00e3o \u00e0 unidade transcende a consci\u00eancia dos agentes, impondo uma legalidade \u201cobjetiva\u201d sobre eles.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma teoria dial\u00e9tica da sociedade tem de ser capaz de compreender o processo de autonomiza\u00e7\u00e3o da sociedade e, ao mesmo tempo, explicar o \u201cdesaparecimento de sua origem social\u201d. Isto \u00e9 formulado de forma incisiva por Adorno em um debate com Alfred Sohn-Rethel: \u201cMaterialismo hist\u00f3rico \u00e9 a anamnese da g\u00eanese\u201d<a href=\"#_ftn21\">[21]<\/a>. Ela exp\u00f5e a lei da autonomiza\u00e7\u00e3o da sociedade e o apagamento te\u00f3rico desse processo. Esse \u00e9 o fundamento da teoria cr\u00edtica social de Adorno e o ponto de partida da NLM.<\/p>\n\n\n\n<p>A conex\u00e3o entre autonomiza\u00e7\u00e3o da sociedade e a an\u00e1lise da troca \u00e9 o mais importante de se pontuar, tendo em vista que permanece apenas de forma embrion\u00e1rio nos escritos de Adorno. Em 1965, Adorno ainda expressou a necessidade de uma \u201can\u00e1lise sistem\u00e1tica-enciclop\u00e9dica da abstra\u00e7\u00e3o da troca\u201d<a href=\"#_ftn22\">[22]<\/a>. Mas ele nunca a realizou. Reichelt convincentemente observa que, nas reflex\u00f5es de Adorno sobre troca e abstra\u00e7\u00e3o real, \u201cest\u00e3o resumidos todos os t\u00f3picos da teoria dial\u00e9tica, mas todos os argumentos permanecem meras afirma\u00e7\u00f5es\u201d<a href=\"#_ftn23\">[23]<\/a>; e que \u201ctoda a teoria cr\u00edtica depende da elucida\u00e7\u00e3o dessa \u2018abstra\u00e7\u00e3o objetiva\u2019. Se n\u00e3o for poss\u00edvel elaborar este \u2018conceito objetivo\u2019, todos os outros conceitos da teoria cr\u00edtica&#8230; est\u00e3o expostos \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o de serem especula\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn24\">[24]<\/a>. A NLM pode, portanto, ser compreendida como um projeto de aprofundar e at\u00e9 mesmo fundamentar a teoria cr\u00edtica social de Adorno.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Perspectivas Hermen\u00eauticas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto o marxismo ocidental privilegiava as primeiras obras de Marx como uma chave para a compreens\u00e3o de suas obras de maturidade, a NLM l\u00ea a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx como a chave para a compreens\u00e3o de sua obra como um todo. A cr\u00edtica da economia pol\u00edtica \u00e9 vista como um projeto inacabado, para o qual <em>Capital<\/em> e os seus manuscritos preparat\u00f3rios s\u00e3o apenas a exposi\u00e7\u00e3o do \u201cconceito universal de capital\u201d. Al\u00e9m disso, a NLM afirma que este conceito universal de capital n\u00e3o foi completamente desenvolvido por Marx em sua exposi\u00e7\u00e3o, precisando ser reconstru\u00eddo a partir das outras obras de Marx. Para compreender a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, \u00e9 necess\u00e1rio compreender as implica\u00e7\u00f5es do m\u00e9todo de Marx. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel separar o modo de exposi\u00e7\u00e3o do conte\u00fado econ\u00f4mico. Precisamos seguir o modo dial\u00e9tico da exposi\u00e7\u00e3o da teoria, e frequentemente ir at\u00e9 mesmo al\u00e9m das formula\u00e7\u00f5es de Marx. Esta \u00e9 uma perspectiva que a NLM compartilha com a interpreta\u00e7\u00e3o iniciada por Althusser. Como afirma Schmidt: \u201cpor mais importante que seja a compreens\u00e3o que Marx tem de sua pr\u00f3pria obra, ela normalmente est\u00e1 aqu\u00e9m do que Marx oferece em termos de teoria em suas an\u00e1lises materiais\u201d<a href=\"#_ftn25\">[25]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Inicialmente, a interpreta\u00e7\u00e3o de Backhaus considerava que as incompreens\u00f5es da teoria de Marx decorriam das incompreens\u00f5es de seus int\u00e9rpretes. Contudo, na terceira parte de seu <em>Materialen zur Rekonstruktion der Marxschen Werttheorie<\/em>, Backhaus mudou sua vis\u00e3o e subsequentemente passou a considerar estas incompreens\u00f5es como decorrentes do pr\u00f3prio Marx<a href=\"#_ftn26\">[26]<\/a>. Uma an\u00e1lise atenta das diferentes exposi\u00e7\u00f5es da forma de valor de Marx permite ao leitor compreender sua abordagem, ao mesmo tempo, como hist\u00f3rica e l\u00f3gica. Com base na exposi\u00e7\u00e3o de Marx na primeira edi\u00e7\u00e3o do <em>Capital<\/em> e em algumas passagens dos <em>Grundrisse<\/em>, o desenvolvimento da forma de valor simples \u00e0 forma-dinheiro pode ser compreendido como um desenvolvimento l\u00f3gico-sincr\u00f4nico. Mas tamb\u00e9m pode ser compreendido como um desenvolvimento hist\u00f3rico, se o leitor se basear na exposi\u00e7\u00e3o de Marx presente no ap\u00eandice da primeira edi\u00e7\u00e3o ou na segunda edi\u00e7\u00e3o do <em>Capital<\/em>. De acordo com Backhaus, para reconstruir a teoria de Marx, precisamos adotar uma perspectiva hermen\u00eautica diferente: n\u00e3o podemos simplesmente seguir o pr\u00f3prio texto de Marx; ao contr\u00e1rio, precisamos compreender quais perguntas Marx tentou responder, e ent\u00e3o escolher qual exposi\u00e7\u00e3o melhor as responde.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Seguindo a mesma abordagem de Backhaus, Reichelt afirma que \u201cno <em>Capital<\/em>, permaneceu apenas o esqueleto\u201d da exposi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica da \u201cautonomiza\u00e7\u00e3o crescente do valor de troca\u201d<a href=\"#_ftn27\">[27]<\/a>. As an\u00e1lises das diferentes exposi\u00e7\u00f5es da teoria, assim como do desenvolvimento de conceitos fundamentais nos <em>Grundrisse<\/em>, t\u00eam, para Reichelt, um papel essencial na reconstru\u00e7\u00e3o de uma teoria do valor estritamente marxiana.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Outra abordagem interpretativa original da NLM se refere \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre os primeiros e \u00faltimos escritos de Marx. Os autores da NLM se op\u00f5e ao diagn\u00f3stico de Althusser acerca de um corte epistemol\u00f3gico e prop\u00f5em uma leitura unit\u00e1ria das obras de Marx, aplicando a mesma metodologia usada pelo pr\u00f3prio Marx no estudo de forma\u00e7\u00f5es sociais menos desenvolvidas atrav\u00e9s da perspectiva das forma\u00e7\u00f5es sociais mais desenvolvidas \u2013 um m\u00e9todo exemplificado por sua famigerada afirma\u00e7\u00e3o de que a anatomia humana cont\u00e9m a chave para a anatomia do macaco. Nesse sentido, a NLM l\u00ea os primeiros textos de Marx atrav\u00e9s de seus textos de maturidade, e dessa forma revitaliza seu significado, ao inv\u00e9s de abandon\u00e1-los como posi\u00e7\u00f5es pr\u00e9-marxistas, como Althusser propunha<a href=\"#_ftn28\">[28]<\/a>. Como Schmidt afirma: \u201cos primeiros escritos de Marx e Engels, os quais por muito tempo foram considerados como contendo o conte\u00fado filos\u00f3fico-humanista marxista propriamente dito, s\u00f3 podem ser plenamente compreendidos por uma an\u00e1lise hist\u00f3rico-econ\u00f4mica de <em>Das Kapital<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn29\">[29]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse sentido, por exemplo, Reichelt insiste que os processos de invers\u00e3o entre sociedade civil e Estado, <em>burgu\u00eas<\/em> e <em>cidad\u00e3o<\/em>, terra e c\u00e9u, desenvolvidos por Marx em suas primeiras obras, devem ser compreendidos sob a luz da cr\u00edtica das categorias da economia pol\u00edtica. Isto porque a cr\u00edtica das formas da sociedade capitalista requer a compreens\u00e3o das raz\u00f5es pelas quais as rela\u00e7\u00f5es humanas se apresentam na forma de leis econ\u00f4micas coercitivas. Similarmente, Backhaus demonstra que aquilo que, nas primeiras obras de Marx, \u00e9 muito frequentemente rejeitado como um res\u00edduo filos\u00f3fico, deve, ao contr\u00e1rio, ser visto como a primeira tentativa de desenvolver um m\u00e9todo cr\u00edtico que reconhe\u00e7a \u201cas estruturas isom\u00f3rficas de elementos onto-teol\u00f3gicos, s\u00f3cio-metaf\u00edsicos ou as estruturas isom\u00f3rficas de elementos pol\u00edticos e econ\u00f4micos\u201d<a href=\"#_ftn30\">[30]<\/a>. Assim como os debates teol\u00f3gicos pressup\u00f5em a duplica\u00e7\u00e3o da terra na oposi\u00e7\u00e3o entre c\u00e9u e terra, todo debate na \u00e1rea da economia pol\u00edtica pressup\u00f5e as formas econ\u00f4micas da troca: valor, dinheiro, pre\u00e7o, entre outras. \u201cA principal exig\u00eancia de Marx \u00e9 que \u2018os\u2019 economistas n\u00e3o deveriam pressupor \u2018categorias\u2019 ou \u2018formas\u2019, mas que eles deveriam, ao contr\u00e1rio, desenvolv\u00ea-las \u2018geneticamente\u2019\u201d<a href=\"#_ftn31\">[31]<\/a>. O in\u00edcio deste m\u00e9todo gen\u00e9tico \u00e9 encontrado por Backhaus nos <em>Manuscritos Econ\u00f4mico-Filos\u00f3ficos de 1844<\/em>, nos quais Marx aborda os \u201cpressupostos irrefletidos\u201d da economia pol\u00edtica: \u201cMarx est\u00e1 falando aqui sobre dinheiro, que em \u2018suas\u2019 fun\u00e7\u00f5es opera como um sujeito \u2018inumano\u2019 (<em>unmenschliches<\/em>), notadamente, ele torna iguais coisas desiguais, \u2018acumula\u2019 valor, \u2018transfere\u2019, etc. As leis independentes das coisas, de coisas \u2018alheias ao Homem\u2019, apresentam-se como o momento \u2018objetivo\u2019 da economia\u201d<a href=\"#_ftn32\">[32]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Hegel e Marx<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A filosofia de Hegel, especialmente sua L\u00f3gica, \u00e9 vista pela NLM como uma fonte fundamental para compreender a exposi\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx. Schmidt come\u00e7a com o significado do termo \u201ccr\u00edtica\u201d na \u201ccr\u00edtica da economia pol\u00edtica\u201d de Marx. Ele destaca que, para Marx, n\u00e3o h\u00e1 fatos sociais em si mesmos que possam ser apreendidos atrav\u00e9s dos limites disciplinares tradicionais. O real \u201cobjeto do conhecimento\u201d \u00e9 o fen\u00f4meno social como totalidade, portanto, capital como totalidade. Mas este \u00faltimo deve ser compreendido n\u00e3o como se as condi\u00e7\u00f5es empiricamente dadas da produ\u00e7\u00e3o fossem o objeto imediato do conhecimento. Ao contr\u00e1rio, Marx procede atrav\u00e9s de uma cr\u00edtica das teorias e categorias burguesas<a href=\"#_ftn33\">[33]<\/a>. Teoria e seu conte\u00fado \u201cobjetivo\u201d est\u00e3o relacionados, mas n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa. Por isso, o m\u00e9todo de investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 formalmente diferente do m\u00e9todo de exposi\u00e7\u00e3o. O m\u00e9todo de investiga\u00e7\u00e3o, Schmidt explica, lida com material fornecido pela hist\u00f3ria, pela economia, pela sociologia, pela estat\u00edstica, e assim por diante, e lida atrav\u00e9s da \u201cindividualiza\u00e7\u00e3o\u201d e da \u201can\u00e1lise\u201d no pensamento. O m\u00e9todo de exposi\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio, tem que apresentar uma unidade concreta a esses dados isolados. \u201cExposi\u00e7\u00e3o\u201d, seguindo Hegel, procede do \u201cser\u201d imediato \u00e0 \u201cess\u00eancia\u201d mediada, que \u00e9 o fundamento do ser. Embora at\u00e9 as categorias mais abstratas tenham uma determinada dimens\u00e3o hist\u00f3rica, o desenvolvimento l\u00f3gico \u00e9 diferente do, e at\u00e9 oposto ao, desenvolvimento hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essas quest\u00f5es s\u00e3o desenvolvidas por Schmidt em sua obra <em>History and Structure<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Para Hegel, assim como para Marx, a realidade \u00e9 um processo: uma totalidade \u201cnegativa\u201d. No hegelianismo, este processo aparece como um sistema da raz\u00e3o. Isto \u00e9, como uma ontologia fechada, na qual a hist\u00f3ria humana afunda ao n\u00edvel de ser seu resultado, uma mera inst\u00e2ncia de sua aplica\u00e7\u00e3o. Em contraste, Marx enfatiza a independ\u00eancia e a abertura do desenvolvimento hist\u00f3rico, o qual n\u00e3o pode ser reduzido a uma l\u00f3gica especulativa a qual todos os seres devem obedecer eternamente. Portanto, \u201cnegatividade\u201d se refere a algo que \u00e9 limitado no tempo, enquanto \u201ctotalidade\u201d implica a totalidade das rela\u00e7\u00f5es modernas de produ\u00e7\u00e3o<\/em>.<a href=\"#_ftn34\">[34]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; H\u00e1 uma primazia gnosiol\u00f3gica do momento l\u00f3gico sobre o hist\u00f3rico: sem um entendimento te\u00f3rico pr\u00e9vio do capital, n\u00e3o se saberia onde procurar pelo pressuposto hist\u00f3rico de seu nascimento<a href=\"#_ftn35\">[35]<\/a>. Mas isso n\u00e3o faz das categorias o fundamento de exist\u00eancia da realidade, como em Hegel. Ao contr\u00e1rio, as categorias s\u00e3o media\u00e7\u00f5es da realidade no pensamento. Contudo, tal cr\u00edtica a Hegel n\u00e3o anula a d\u00edvida de Marx com a no\u00e7\u00e3o hegeliana de \u201csistema\u201d. O concreto n\u00e3o \u00e9 o que se coloca diante do intelecto humano, mas uma \u201cunidade na diversidade\u201d, conhecimento que, embora tenha sua base necess\u00e1ria no m\u00e9todo anal\u00edtico, dialeticamente desfaz a dicotomia entre o factual e o mental. Por isso, Marx procede logicamente, e n\u00e3o historicamente, porque a forma de capital que ele desenvolve estabelece suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto Schmidt enfatiza o papel do m\u00e9todo de Hegel na cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx, Reichelt expande o argumento em dire\u00e7\u00e3o a uma rela\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica. Ele alega que Marx foi compelido a utilizar uma argumenta\u00e7\u00e3o estruturada dialeticamente por uma condi\u00e7\u00e3o objetiva, <em>tendo em vista que h\u00e1 uma identidade estrutural entre a no\u00e7\u00e3o marxiana de Capital e a no\u00e7\u00e3o hegeliana de Esp\u00edrito. (&#8230;) No pensamento de Marx, a expans\u00e3o do conceito no Absoluto \u00e9 a express\u00e3o adequada de uma realidade na qual tal processo ocorre de maneira an\u00e1loga. (&#8230;) O idealismo hegeliano, no qual os seres humanos obedecem a uma no\u00e7\u00e3o desp\u00f3tica, \u00e9 de fato mais adequado para este mundo invertido do que qualquer teoria nominalista que pretenda aceitar o universal como algo subjetivamente concebido. \u00c9 a sociedade burguesa como ontologia<\/em>.<a href=\"#_ftn36\">[36]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Exposi\u00e7\u00e3o como \u201capresenta\u00e7\u00e3o\u201d assume um novo significado ontol\u00f3gico. Este m\u00e9todo dial\u00e9tico \u00e9 t\u00e3o bom ou t\u00e3o ruim quanto a sociedade \u00e0 qual ele se refere; \u00e9 v\u00e1lido t\u00e3o-somente onde a \u201cuniversalidade se imp\u00f5e \u00e0 custa do indiv\u00edduo\u201d; e \u00e9 de fato a duplica\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica da invers\u00e3o real. A caracter\u00edstica da dial\u00e9tica materialista \u00e9, portanto, o <em>Methode auf Widerruf<\/em>, o &#8220;m\u00e9todo de supress\u00e3o&#8221;, segundo o qual esse m\u00e9todo tem que se dissolver assim que suas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia desaparecerem.<a href=\"#_ftn37\">[37]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Reichelt tamb\u00e9m se refere \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o por Marx do conceito de <em>\u00fcbergreifendes Subjekt<\/em> na exposi\u00e7\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o do dinheiro em capital:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Na condi\u00e7\u00e3o de sujeito dominante e subordinante (\u00fcbergreifendes Subjekt) do processo, no qual, alternadamente, assume e perde a forma de dinheiro e a forma de mercadoria, mas que se preserva e se expande atrav\u00e9s dessas metamorfoses, o valor requer acima de tudo uma forma independente por meio da qual sua identidade consigo mesmo possa se afirmar. Apenas no dinheiro ele encontra esta forma. Dinheiro, portanto, constitui o ponto de partida e a conclus\u00e3o de todo processo de valoriza\u00e7\u00e3o<\/em>.<a href=\"#_ftn38\">[38]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Reichelt compreende o poder dominante e subordinante do capital \u00e0 luz do Absoluto do conceito de Hegel, o qual \u201cdescobre no terreno da filosofia o segredo da sociedade burguesa: a invers\u00e3o de uma realidade derivada em realidade origin\u00e1ria (<em>die Verkehrung eines Entsprungenen zu einem Ersten<\/em>). De modo que, no pensamento de Marx, a expans\u00e3o do conceito no Absoluto \u00e9 a express\u00e3o adequada de uma realidade na qual tal processo ocorre de maneira an\u00e1loga\u201d<a href=\"#_ftn39\">[39]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um argumento semelhante encontra-se em Backhaus. Hegel est\u00e1 no in\u00edcio do revolucionamento que Marx faz da teoria da mercadoria, do dinheiro e do capital, precisamente por causa de sua exposi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica em uma estrutura dial\u00e9tica. Hegel, contudo, foi apenas o primeiro passo, considerando que ele foi incapaz de desenvolver o car\u00e1ter duplo da mercadoria. (Contudo, Backhaus tamb\u00e9m aponta que Hegel observou muito bem tal duplicidade em alguns escritos n\u00e3o publicados e que eram desconhecidos por Marx). Para Backhaus, Hegel repete uma defici\u00eancia de Ricardo e da economia pol\u00edtica em geral: o apagamento da g\u00eanese, embora seu aparato categorial potencialmente tivesse dado todos meios te\u00f3ricos de alcan\u00e7ar esta tarefa<a href=\"#_ftn40\">[40]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Sobre o m\u00e9todo de Marx e a cr\u00edtica das teorias do valor pr\u00e9-monet\u00e1rias<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O ponto de partida da reconstru\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx, empreendida pela NLM, fundamenta-se no questionamento da interpreta\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo de Marx como l\u00f3gico-hist\u00f3rico, o qual teve in\u00edcio com o debate de Engels sobre a \u201cprodu\u00e7\u00e3o simples de mercadorias\u201d, e que foi alastrada pelo Marxismo. De acordo com Backhaus, dois textos de Engels, a resenha, realizada em 1859, da <em>Contribui\u00e7\u00e3o para a Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica de Marx,<\/em> e o \u201csuplemento\u201d, de 1895, ao Volume III do <em>Capital<\/em>, levaram a uma historiciza\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo de exposi\u00e7\u00e3o marxiano. Na resenha, Engels se refere ao m\u00e9todo de exposi\u00e7\u00e3o l\u00f3gico de Marx como \u201cnada mais que o m\u00e9todo hist\u00f3rico, apenas despido da forma hist\u00f3rica e de interfer\u00eancias contingentes\u201d<a href=\"#_ftn41\">[41]<\/a>. J\u00e1 no \u201csuplemento\u201d, Engels aplicou este mesmo m\u00e9todo hist\u00f3rico para resolver a alegada contradi\u00e7\u00e3o entre valores e pre\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o, fazendo dos valores o fundamento do sistema de trocas num est\u00e1gio hist\u00f3rico de produ\u00e7\u00e3o simples de mercadorias<a href=\"#_ftn42\">[42]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Backhaus, a no\u00e7\u00e3o de uma produ\u00e7\u00e3o simples de mercadorias \u00e9 a base para duas interpreta\u00e7\u00f5es diferentes de Marx: a interpreta\u00e7\u00e3o l\u00f3gico-hist\u00f3rica e a interpreta\u00e7\u00e3o hipot\u00e9tica. De acordo com a primeira, a teoria do valor \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica das leis da produ\u00e7\u00e3o simples de mercadorias; a forma do valor \u00e9 o espelhamento l\u00f3gico da emerg\u00eancia hist\u00f3rica do dinheiro na sociedade. J\u00e1 conforme a \u00faltima, a teoria do valor \u00e9 uma primeira aproxima\u00e7\u00e3o hipot\u00e9tica, e n\u00e3o realmente hist\u00f3rica, aos pre\u00e7os no capitalismo. Valores s\u00e3o os fundamentos da lei de troca numa sociedade de trocas generalizadas. Esta etapa precisa ser suplementada por uma segunda, a segunda aproxima\u00e7\u00e3o, notadamente os pre\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o como os fundamentos da lei de trocas numa sociedade plenamente capitalista. O par\u00e1grafo sobre a forma de valor \u00e9 novamente compreendido como um excurso hist\u00f3rico do escambo para a circula\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria<a href=\"#_ftn43\">[43]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Estas interpreta\u00e7\u00f5es, embora diferentes, compartilham da ideia de um est\u00e1gio inicial de trocas generalizadas sem dinheiro, e t\u00eam em comum uma interpreta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da forma de valor. Backhaus re\u00fane as duas vis\u00f5es sob o r\u00f3tulo de \u201cteorias do valor pr\u00e9-monet\u00e1rias\u201d e insiste que a teoria do valor de Marx deve ser compreendida como uma cr\u00edtica \u00e0s abordagens pr\u00e9-monet\u00e1rias ou n\u00e3o-monet\u00e1rias: \u201cMarx pretendia demonstrar que n\u00e3o era poss\u00edvel construir um conceito n\u00e3o-contradit\u00f3rio de uma economia de mercado pr\u00e9-monet\u00e1ria organizada com base na divis\u00e3o do trabalho&#8230; O conceito de uma mercadoria pr\u00e9-monet\u00e1ria n\u00e3o pode ser elaborado\u201d<a href=\"#_ftn44\">[44]<\/a>. A transi\u00e7\u00e3o da forma de valor total ou desdobrada para a forma de valor universal demonstra a impossibilidade l\u00f3gica de uma troca universal sem dinheiro. Na exposi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica que conduz a forma de valor, o processo de troca de Marx tem que ser compreendido como \u201ccircula\u00e7\u00e3o\u201d (<em>Zirkulation<\/em>), uma determina\u00e7\u00e3o formal da troca na qual (n\u00e3o produtos, mas) mercadorias assumem a forma-dinheiro \u2013 isto \u00e9, a forma-pre\u00e7o. \u201cCircula\u00e7\u00e3o\u201d aqui deve ser distinguida da \u201ctroca\u201d (<em>Austausch<\/em>) como tal, a qual \u00e9 um tipo de conceito transhist\u00f3rico, uma abstra\u00e7\u00e3o desprovida de qualquer exist\u00eancia efetiva (como \u201ctrabalho\u201d ou \u201cproduto\u201d). N\u00f3s podemos ent\u00e3o ter <em>Waren-austausch<\/em> (que \u00e9 essencialmente monet\u00e1rio) e <em>Produkten-austausch<\/em> (que n\u00e3o \u00e9).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desse ponto de vista, o conte\u00fado cr\u00edtico da teoria de Marx pode ser contrastado tanto com as teorias objetivas (cl\u00e1ssica ou marxista) quanto com as teorias subjetivas do valor. Ambos os tipos de abordagem compartilham da ideia de que \u00e9 necess\u00e1rio abstrair do dinheiro, que \u00e9 reduzido a um v\u00e9u, para compreender a troca e construir uma teoria do valor. O resultado \u00e9 uma dupla falha: uma naturaliza\u00e7\u00e3o do capitalismo e uma confus\u00e3o sobre o papel do dinheiro numa sociedade na qual produtores privados, aut\u00f4nomos e independentes, t\u00eam de, ao final, validar o valor produzido numa circula\u00e7\u00e3o universal, atrav\u00e9s da troca de suas mercadorias por dinheiro como um equivalente universal. &nbsp;As teorias do valor pr\u00e9-monet\u00e1rias criam um sistema duplo de medida do valor: o primeiro de acordo com a dimens\u00e3o por meio da qual mercadorias s\u00e3o comensur\u00e1veis (trabalho ou utilidade); o segundo, atrav\u00e9s do dinheiro. Essas duas medidas n\u00e3o s\u00e3o mediadas. Os fen\u00f4menos externos, \u201cobjetivos\u201d, da troca monet\u00e1ria s\u00e3o desconectados da dimens\u00e3o do valor, que \u00e9 teoricamente pressuposto como independente do dinheiro. Como explica Backhaus, h\u00e1 uma \u201ccis\u00e3o entre valor subjetivo e valor de troca objetivo, entre \u2018subst\u00e2ncia\u2019 subjetivamente considerada e a \u2018forma\u2019 objetivamente antecipada do valor\u201d<a href=\"#_ftn45\">[45]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Al\u00e9m do mais, para Backhaus, a cr\u00edtica de Marx pode ser direcionada \u00e0 maioria das teorias do pre\u00e7o, assim como aos autores que removem a dimens\u00e3o do valor, como muitos seguidores de Sraffa. Eles n\u00e3o encontram import\u00e2ncia no problema apresentado pela primeira vez por Arist\u00f3teles da raz\u00e3o pela qual objetos heterog\u00eaneos se tornam comensur\u00e1veis. De acordo com Backhaus, tampouco o problema \u00e9 resolvido de forma satisfat\u00f3ria pelas teorias nominalistas do dinheiro. O dinheiro pode ser considerado como uma unidade abstrata apenas depois de ter determinado a dimens\u00e3o que ele mede. Seguindo Backhaus, precisamos afirmar que a dimens\u00e3o do valor em Marx \u00e9 uma dimens\u00e3o metaf\u00edsica, na qual coisas assumem \u201cpropriedades s\u00f3cio-naturais\u201d. O Marx apresentado por Backhaus desenvolve uma poderosa cr\u00edtica contra todas as teorias do valor que retrocedem a circula\u00e7\u00e3o do capital a uma troca abstrata pr\u00e9 e transhist\u00f3rica, e ao mesmo tempo elabora uma teoria do valor que supera qualquer forma de nominalismo. O dinheiro \u00e9 considerado por Backhaus como integrante da circula\u00e7\u00e3o de mercadorias, como o que autonomamente (fora da consci\u00eancia dos agentes) constr\u00f3i a conex\u00e3o social entre os trabalhos privados. O conceito de dinheiro compreendido como um mero meio convencional criado para simplificar a troca \u00e9, para ele, insustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p><em>A duplica\u00e7\u00e3o da mercadoria<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A conex\u00e3o interna entre valor e dinheiro como a \u201cduplica\u00e7\u00e3o real e ideal da mercadoria\u201d \u00e9 um dos temas centrais desenvolvidos por Reichelt. Partindo do primeiro ensaio de Backhaus, Reichelt argumenta que a inova\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o de Marx se deve \u00e0 sua exposi\u00e7\u00e3o da mercadoria como a unidade imediata de valor de uso e valor. &nbsp;A contradi\u00e7\u00e3o imanente s\u00f3 pode se expressar externamente quando os dois polos da mercadoria s\u00e3o considerados em sua rela\u00e7\u00e3o efetiva no processo de troca. A economia pol\u00edtica examina as mercadorias ou em sua concretude como valores de uso ou por meio de um ato subjetivo e puramente mental de abstra\u00e7\u00e3o como valores. A investiga\u00e7\u00e3o de Marx sobre a forma de valor demonstra que a redu\u00e7\u00e3o subjetiva \u00e9 na verdade \u201cuma abstra\u00e7\u00e3o feita diariamente no processo social de produ\u00e7\u00e3o\u201d, algo que s\u00f3 pode ser compreendido atrav\u00e9s de um exame minucioso de como o valor se manifesta fenomenalmente no valor de troca.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Reichelt inicia sua argumenta\u00e7\u00e3o enfatizando que a troca sempre ocorre entre duas coisas concretas distintas, dois valores de uso. Mercadorias nunca se mostram diretamente como express\u00f5es do trabalho humano, por\u00e9m toda mercadoria tem pre\u00e7o e, como pre\u00e7os, as mercadorias podem ser comparadas: \u201cMarx critica a economia burguesa por ela n\u00e3o deduzir a forma-dinheiro da estrutura do trabalho privado; o que Marx pretende afirmar \u00e9 que a economia pol\u00edtica \u00e9 incapaz de entender a forma-pre\u00e7o&#8230; que ela \u00e9 compelida a compreend\u00ea-la externamente\u201d<a href=\"#_ftn46\">[46]<\/a>. Em cada equipara\u00e7\u00e3o dentro da troca de mercadorias, a mercadoria no polo esquerdo da equa\u00e7\u00e3o exibe seu pr\u00f3prio valor na concretude do corpo da mercadoria no polo direito. As duas dimens\u00f5es s\u00e3o consideradas simultaneamente: \u201ca mercadoria obt\u00e9m uma forma de valor diferente de sua forma natural, e uma mercadoria diferente funciona, em sua forma natural imediata, como a forma fenom\u00eanica do \u2018trabalho humano homog\u00eaneo coagulado\u2019\u201d<a href=\"#_ftn47\">[47]<\/a>. A oposi\u00e7\u00e3o imanente interna \u00e0 mercadoria encontra sua forma de manifesta\u00e7\u00e3o fenom\u00eanica atrav\u00e9s da duplica\u00e7\u00e3o da mercadoria no valor de troca: um polo da equa\u00e7\u00e3o se torna valor de uso (na forma relativa) que exibe seu pr\u00f3prio valor no corpo de outra mercadoria (na forma de equivalente) que funciona t\u00e3o-somente como objetiva\u00e7\u00e3o de valor. Trabalho humano abstrato encontra uma encarna\u00e7\u00e3o vis\u00edvel num corpo no qual pode se expressar. Seu valor n\u00e3o \u00e9 mais apenas \u201ccoisa do pensamento\u201d, mas adquire tamb\u00e9m uma exist\u00eancia objetiva. A abstra\u00e7\u00e3o do valor se concretiza num objeto aut\u00f4nomo que se confronta com todos os outros valores de uso como mercadorias. Como afirma Marx: \u201cmercadorias s\u00e3o coisas (<em>Sache<\/em>). Elas precisam ser o que elas s\u00e3o de forma coisificada (<em>sachlich<\/em>) ou se revelarem em suas pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es coisificadas (<em>sachliche<\/em>)\u201d<a href=\"#_ftn48\">[48]<\/a>. A exposi\u00e7\u00e3o do valor como dinheiro e pre\u00e7o, do trabalho abstrato obtendo uma forma objetiva no equivalente universal, \u00e9 o resultado te\u00f3rico da elabora\u00e7\u00e3o da forma de valor de Marx.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Reichelt acompanha de perto a dedu\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica de Marx da forma de valor simples at\u00e9 a forma de equivalente universal (e ent\u00e3o at\u00e9 a forma-dinheiro), demonstrando como, no processo de troca, a contradi\u00e7\u00e3o entre trabalho concreto e trabalho abstrato, assim como entre trabalho privado e trabalho social, \u00e9 apagada. Por um lado, trabalho privado empregado na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias deve se mostrar como trabalho social. Por outro, em sociedades n\u00e3o capitalistas, trabalhos concretos s\u00e3o diferentes formas de atividades do mesmo sujeito. Na circula\u00e7\u00e3o capitalista universal de mercadorias, um resultado similar deve ser alcan\u00e7ado atrav\u00e9s da circunst\u00e2ncia bizarra de que o trabalho adquire a propriedade suprassens\u00edvel de ser trabalho humano abstrato, que \u00e9 a subst\u00e2ncia do valor.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Trabalho abstrato \u2013 isto \u00e9, trabalho privado que se torna trabalho social \u2013 requer que a mercadoria se efetive como valor de uso; ou seja, que o trabalho concreto se confirme como parte da divis\u00e3o social do trabalho. Esta \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o que constitui a <em>differentia specifica<\/em> de uma sociedade na qual o trabalho n\u00e3o \u00e9 imediatamente social na produ\u00e7\u00e3o em geral. Em um sistema de trocas privadas entre produtores independentes, o trabalho social s\u00f3 se constitui gra\u00e7as \u00e0 valida\u00e7\u00e3o (monet\u00e1ria) final no mercado: \u201ca exist\u00eancia de uma forma de equivalente universal \u00e9 a forma pela qual esta contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 analisada e por fim superada\u201d<a href=\"#_ftn49\">[49]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A valida\u00e7\u00e3o social do trabalho privado acontece apenas atrav\u00e9s da metamorfose da mercadoria cujo trabalho objetivado na produ\u00e7\u00e3o conta como imediatamente social. Esta mercadoria \u00e9 o equivalente universal: dinheiro. Apenas a troca entre dinheiro e mercadoria confirma a necessidade social do trabalho objetivado na produ\u00e7\u00e3o de uma mercadoria particular. A raz\u00e3o pela qual o trabalho objetivado na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias tem de se expressar por meio do dinheiro decorre da contradi\u00e7\u00e3o do duplo car\u00e1ter do trabalho produtor de mercadorias. Como Reichelt afirma, a teoria do dinheiro de Marx est\u00e1 baseada na dedu\u00e7\u00e3o do dinheiro a partir da estrutura do processo de troca, mas tamb\u00e9m da dedu\u00e7\u00e3o da forma de equivalente universal compreendido como a conex\u00e3o interna necess\u00e1ria entre valor como forma, valor como subst\u00e2ncia e valor como grandeza.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a exposi\u00e7\u00e3o da duplica\u00e7\u00e3o da mercadoria na circula\u00e7\u00e3o simples, Reichelt desenvolve o \u201clado positivo\u201d da cr\u00edtica de Backhaus \u00e0 no\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o simples de mercadorias. Reichelt prop\u00f5e uma compreens\u00e3o da teoria do dinheiro de Marx como \u201cuma concretiza\u00e7\u00e3o posterior da dedu\u00e7\u00e3o do dinheiro realizada da forma mais abstrata\u201d<a href=\"#_ftn50\">[50]<\/a>, examinando a rela\u00e7\u00e3o l\u00f3gica entre as esferas da \u201ccircula\u00e7\u00e3o\u201d e da \u201cprodu\u00e7\u00e3o\u201d. Na circula\u00e7\u00e3o simples, os membros da sociedade se apresentam como meros vendedores ou compradores. N\u00e3o obstante, a circula\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser considerada como um processo aut\u00f4nomo. Mercadorias s\u00e3o trocadas na circula\u00e7\u00e3o, mas sua produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 pressuposta. Uma vez que as mercadorias s\u00e3o vendidas, elas deixam a esfera da circula\u00e7\u00e3o e entram na esfera do consumo<a href=\"#_ftn51\">[51]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A exposi\u00e7\u00e3o das diferentes fun\u00e7\u00f5es do dinheiro, desenvolvida por Marx no terceiro cap\u00edtulo do <em>Capital<\/em>, \u00e9 compreendia por Reichelt como um processo de progressiva independ\u00eancia do dinheiro como a exist\u00eancia coisificada da riqueza abstrata. A an\u00e1lise do entesouramento que Marx faz nos <em>Grundrisse<\/em> se torna essencial. Para ganhar independ\u00eancia como valor, o dinheiro precisa sair da circula\u00e7\u00e3o, mas, fora da circula\u00e7\u00e3o, o dinheiro \u00e9 apenas riqueza (abstrata) em potencial: \u201ca realidade da riqueza universal que existe como uma coisa (isto \u00e9, como dinheiro) tem um fundamento fora de si, na totalidade das part\u00edculas que constituem sua subst\u00e2ncia\u201d<a href=\"#_ftn52\">[52]<\/a>. A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 superada assim que o dinheiro assume a forma do capital, valor que se autovaloriza e que adquire a forma do movimento D-M-D\u2019: \u201cem cada uma dessas formas, isto (dinheiro como capital) permanece valor de troca em si mesmo. Assim, \u00e9 dinheiro n\u00e3o apenas se ganha a forma de dinheiro, mas tamb\u00e9m se adquire a forma de mercadoria&#8230; em cada uma dessas formas, \u00e9 em si mesmo\u201d<a href=\"#_ftn53\">[53]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Reichelt acompanha o argumento de Marx para demonstrar que a circula\u00e7\u00e3o simples \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o de um processo que reside fora dele \u2013 isto \u00e9, a produ\u00e7\u00e3o capitalista \u2013 e que o \u00c9den dos direitos naturais do homem \u00e9 a apar\u00eancia que acoberta a apropria\u00e7\u00e3o de trabalho n\u00e3o pago despedindo na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias. A circula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem uma exist\u00eancia aut\u00f4noma. A teoria do valor de Marx apresentada nos tr\u00eas primeiros cap\u00edtulos do <em>Capital<\/em> n\u00e3o \u00e9 o esquema de um sistema de produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, na qual condi\u00e7\u00f5es objetivas e subjetivas de produ\u00e7\u00e3o est\u00e3o ainda separadas. \u00c9 apenas a superf\u00edcie do processo de produ\u00e7\u00e3o capitalista: a mercadoria com a qual Marx inicia sua exposi\u00e7\u00e3o como um pressuposto deve ser apreendida como mercadoria produzida de forma capitalista. Esse \u00e9 exatamente o in\u00edcio dos <em>Resultados do Processo Imediato de Produ\u00e7\u00e3o<\/em> de Marx, que \u00e9 um dos mais n\u00edtidos exemplos do m\u00e9todo de Marx de estabelecer um pressuposto. Posteriormente, o \u201ctrabalho\u201d que ocorre no processo capitalista de produ\u00e7\u00e3o de mercadorias \u00e9 o trabalho vivo de trabalhadores assalariados. Numa famosa passagem dos <em>Grundrisse<\/em>, Marx se refere a ele como trabalho abstrato em movimento.<\/p>\n\n\n\n<p><em>A constitui\u00e7\u00e3o \u201cobjetiva\u201d da sociedade<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O que emerge de uma leitura atenta de Reichelt e Backhaus \u00e9 que, conforme a determina\u00e7\u00e3o formal do disp\u00eandio de trabalho, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel determinar, antes da troca efetiva, a parcela de trabalho imediatamente privado despendido na produ\u00e7\u00e3o que obter\u00e1 a forma de dinheiro; ou seja, que ser\u00e1 validada como social atrav\u00e9s da metamorfose com a mercadoria produzida por trabalho imediatamente social. A cr\u00edtica de Proudhon feita por Marx no cap\u00edtulo sobre dinheiro nos <em>Grundrisse<\/em> \u00e9 vista como fundamental para compreender o duplo car\u00e1ter do trabalho. Como demonstra Backhaus,<\/p>\n\n\n\n<p><em>Marx deduz o conceito de \u201ctrabalho social\u201d e descobre a contradi\u00e7\u00e3o entre esta forma de trabalho e o trabalho \u201creal\u201d que tem um car\u00e1ter privado. Esta contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada por Marx como a raz\u00e3o pela qual \u201ctrabalho se apresenta como valor\u201d, ou, em outras palavras, a raz\u00e3o da exist\u00eancia do dinheiro<a href=\"#_ftn54\"><strong>[54]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica do socialismo proudhoniano \u00e9, ao mesmo tempo, a exposi\u00e7\u00e3o da teoria da forma do valor e a dedu\u00e7\u00e3o conceitual da forma-dinheiro a partir da constitui\u00e7\u00e3o de uma sociedade de produtores privados e aut\u00f4nomos. Sem compreender a conex\u00e3o entre dinheiro e a forma de disp\u00eandio de trabalho, a teoria do valor de Marx perde sua pr\u00f3pria especificidade e retorna \u00e0 teoria do valor de Ricardo, na qual a grandeza do valor produzido pode ser determinada atrav\u00e9s de um ato subjetivo de medi\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o. Um certo tipo de teoria do valor-trabalho deixa passar completamente a natureza contradit\u00f3ria da produ\u00e7\u00e3o capitalista na qual, como Marx afirma, \u201c<em>a priori<\/em>, nenhuma regula\u00e7\u00e3o social consciente da produ\u00e7\u00e3o ocorre\u201d e o car\u00e1ter social do trabalho \u201cse afirma apenas como uma m\u00e9dia operada cegamente\u201d<a href=\"#_ftn55\">[55]<\/a>. A teoria do valor \u00e9, para Marx, uma dimens\u00e3o supraindividual que se imp\u00f5e independentemente da consci\u00eancia dos agentes da produ\u00e7\u00e3o. A abstra\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9 um processo, e n\u00e3o pode ser reduzida a uma generaliza\u00e7\u00e3o mental. Trabalho abstrato n\u00e3o pode ser confundido com trabalho como uma atividade orientada a fim de car\u00e1ter metahist\u00f3rico. Trabalho como tal \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o mental que nunca existe sem adquirir uma determinada forma social, enquanto trabalho abstrato \u00e9 a forma espec\u00edfica que o trabalho adquire numa sociedade na qual o metabolismo social com a natureza ocorre atrav\u00e9s de um sistema de trocas monet\u00e1rias entre produtores privados. Como \u00e9 frequentemente repetido por Backhaus e Reichelt, a teoria do valor de Marx consiste na compreens\u00e3o de \u201ccomo a lei do valor se imp\u00f5e\u201d e na apreens\u00e3o do processo \u201cobjetivo\u201d que ocorre \u00e0s costas dos agentes econ\u00f4micos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A cis\u00e3o entre a dimens\u00e3o individual da produ\u00e7\u00e3o e a dimens\u00e3o supraindividual da valida\u00e7\u00e3o social na circula\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial para compreender o significado do car\u00e1ter fetichista da mercadoria, que o marxismo tem reduzido a uma refer\u00eancia banal \u00e0 historicidade do valor e do modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn56\">[56]<\/a>. Podemos falar de car\u00e1ter fetichista porque os processos privados de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00eam uma coordena\u00e7\u00e3o pr\u00e9via al\u00e9m daquela que ocorre atrav\u00e9s da troca entre mercadorias e dinheiro. Dinheiro \u00e9 o meio que estabelece a conex\u00e3o social dos processos privados de produ\u00e7\u00e3o e, assim, que constitui a sociedade \u201c\u00e0s costas\u201d e \u201csem a consci\u00eancia\u201d dos agentes individuais. A conex\u00e3o social \u00e9 determinada pelo sistema de trocas entre mercadorias e dinheiro \u2013 isto \u00e9, entre coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O ponto de vista da economia pol\u00edtica presume como dadas a troca universal de mercadorias e a forma do valor. Assim como a organiza\u00e7\u00e3o capitalista do trabalho. Por isso \u00e9 incapaz de compreender a \u201cinvers\u00e3o\u201d e a \u201cabsurdidade\u201d de uma rela\u00e7\u00e3o social estabelecida por meio de coisas. Backhaus afirma que a \u201ceconomia acad\u00eamica\u201d \u00e9 obrigada a lidar com valor ou com a forma do valor como \u201calgo externo aos seres humanos (<em>Sache au\u00dfer dem Menschen<\/em>): o dinheiro \u00e9 comparado com aquelas formas matem\u00e1ticas (como linha ou n\u00famero) que apenas duvidosamente podem ser deduzidas pelos seres humanos\u201d<a href=\"#_ftn57\">[57]<\/a>. Seguindo Marx, Backhaus descreve as categorias da economia pol\u00edtica como \u201cformas degeneradas\u201d (<em>Verr\u00fcckte Formen<\/em>). Categorias econ\u00f4micas s\u00e3o formas invertidas, degeneradas e absurdas. S\u00e3o a transposi\u00e7\u00e3o e a proje\u00e7\u00e3o do sens\u00edvel sobre o suprassens\u00edvel. A teoria econ\u00f4mica apreende apenas o resultado desta loucura e absurdidade. A cr\u00edtica da teoria econ\u00f4mica tem a tarefa de demonstrar a g\u00eaneses destas <em>Verr\u00fcckte Formen<\/em>, sua origem humana.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao reconstru\u00edrem a teoria da forma do valor de Marx, Backhaus e Reichelt apreendem o significado do processo de autonomiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais descrito por Adorno. \u00c9 a manifesta\u00e7\u00e3o exterior da contradi\u00e7\u00e3o fundamental do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista: o duplo car\u00e1ter do trabalho que produz mercadorias. Em virtude desta contradi\u00e7\u00e3o, a socializa\u00e7\u00e3o do trabalho ocorre independentemente do disp\u00eandio do trabalho, atrav\u00e9s de um sistema de trocas monet\u00e1rias entre produtores privados, que gera uma forma aut\u00f4noma de movimento social: o car\u00e1ter fetichista. Gra\u00e7as a essa compreens\u00e3o do car\u00e1ter fetichista da mercadoria, Backhaus e Reichelt conseguiram completar o que Adorno considerava essencial para uma teoria cr\u00edtica da sociedade: n\u00e3o apenas decifrar a \u201cg\u00eanese social\u201d da autonomiza\u00e7\u00e3o da sociedade, mas tamb\u00e9m compreender o \u201capagamento\u201d desta g\u00eanese, que leva ao fetichismo. A circula\u00e7\u00e3o universal, monet\u00e1ria e mercantil de \u201ccoisas\u201d no mercado faz com que o car\u00e1ter social e historicamente espec\u00edfico da produ\u00e7\u00e3o capitalista pare\u00e7a um atributo \u201cnatural\u201d dessas coisas. O ocultamento da g\u00eanese dessa autonomiza\u00e7\u00e3o da sociedade se origina desta <em>Schein<\/em>, desta \u201cfalsa apar\u00eancia\u201d, deste simulacro. Essa naturaliza\u00e7\u00e3o do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista decorre desta realidade \u201cobjetiva\u201d em si, do seu car\u00e1ter fetichista. O ocultamento da g\u00eanese \u00e9 assim alcan\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Cr\u00edtica e di\u00e1logo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Consideramos que a problematiza\u00e7\u00e3o da teoria do valor de Marx, a \u00eanfase na forma do valor e, mais genericamente, o horizonte conceitual proposto pela NLM, s\u00e3o cruciais para uma compreens\u00e3o correta do <em>Capital<\/em> de Marx. Ao mesmo tempo, consideramos que h\u00e1 espa\u00e7o para um di\u00e1logo com, e talvez uma cr\u00edtica \u00e0, NLM<a href=\"#_ftn58\">[58]<\/a>. Este artigo tem sido at\u00e9 ent\u00e3o majoritariamente expositivo, mas entendemos como necess\u00e1rio levantar alguns problemas. Alguns desses problemas se referem \u00e0s dificuldades na pr\u00f3pria exposi\u00e7\u00e3o de Marx. Outros, \u00e0 insist\u00eancia da NLM na cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, como se a cr\u00edtica de Marx n\u00e3o fosse tamb\u00e9m, como certamente ele pretendia, uma economia pol\u00edtica cr\u00edtica<a href=\"#_ftn59\">[59]<\/a>. O risco \u00e9 reivindicar um Marx fil\u00f3sofo contra um Marx economista \u2013 uma compartimentaliza\u00e7\u00e3o acad\u00eamica que \u00e9 estranha ao pr\u00f3prio Marx.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Consideramos que a NLM n\u00e3o se debru\u00e7a suficientemente sobre as complexidades das no\u00e7\u00f5es marxianas de trabalho abstrato, valor e dinheiro (especialmente nos cap\u00edtulos 1 a 3 do Volume I do <em>Capital<\/em>), assim como sobre a maneira como Marx fundamenta o capital como uma rela\u00e7\u00e3o social (nos cap\u00edtulos 4 a 7). Se reconstruirmos a dial\u00e9tica marxiana do valor, do dinheiro e do capital, observamos que a dualidade interna \u00e0 mercadoria, como valor de uso e valor, corresponde \u00e0 natureza d\u00faplice do trabalho que produz mercadorias. Trabalho (como atividade) \u00e9 \u201cconcreto\u201d na medida em que produz mercadoria como valor de uso, e \u201cabstrato\u201d na medida em que produz valor. O problema \u00e9 que valores de uso e trabalhos concretos n\u00e3o s\u00e3o homog\u00eaneos, raz\u00e3o pela qual s\u00e3o incomensur\u00e1veis. Valor, ao contr\u00e1rio, \u00e9, para Marx, trabalho coagulado \u201cpuro e simples\u201d: um amontoado homog\u00eaneo, que \u00e9 comensur\u00e1vel como tal, ao menos quando observamos n\u00e3o uma mercadoria singular, mas o mundo das mercadorias. A NLM se afasta de Marx quando insiste que a comensurabilidade adv\u00e9m exclusivamente da troca.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Observemos essa quest\u00e3o mais de perto. Nos par\u00e1grafos 1 e 2 do cap\u00edtulo 1, o \u201cvalor\u201d est\u00e1 escondido na mercadoria e n\u00e3o \u00e9 nada mais que um \u201cfantasma\u201d. Ainda ser\u00e1 demonstrado como este ente \u201cpuramente social\u201d adquire uma exist\u00eancia material. Antes da troca, parece que o que temos diante de n\u00f3s s\u00e3o t\u00e3o-somente trabalhos concretos incorporados em valores de uso definidos e incomensur\u00e1veis. No par\u00e1grafo 3, Marx prossegue na demonstra\u00e7\u00e3o que h\u00e1 uma duplica\u00e7\u00e3o de mercadoria e dinheiro que corresponde \u00e0 dualidade interna \u00e0 mercadoria, valor de uso e valor. Uma vez que uma mercadoria espec\u00edfica \u2013 digamos, o ouro &#8211; assume o papel de equivalente universal, o fantasma do \u201cvalor\u201d consegue \u201cse apoderar\u201d de um \u201ccorpo\u201d. O dinheiro \u00e9, ent\u00e3o, valor, incorporado no valor de uso do ouro. O trabalho abstrato contido nas mercadorias se mostra no trabalho concreto incorporado ao ouro como dinheiro, e o trabalho privado se torna social. Dinheiro \u00e9 o equivalente universal, <em>ex post<\/em> validar o trabalho abstrato \u201cimediatamente privado\u201d (e apenas \u201cmediatamente social\u201d). Por\u00e9m, dinheiro \u00e9 tamb\u00e9m a \u201cencarna\u00e7\u00e3o (<em>Inkarnation<\/em>) individual\u201d do valor, o resultado do \u00fanico trabalho que conta como imediatamente social, notadamente, o trabalho produtor do ouro (como dinheiro). Nesse sentido, \u201cdinheiro como mercadoria\u201d \u00e9 o elo essencial que conecta o valor de volta ao trabalho. Este ponto chave n\u00e3o teve a aten\u00e7\u00e3o da NLM.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Gra\u00e7as a este elo ou equival\u00eancia entre o trabalho (abstrato) produtor de mercadorias e o trabalho (concreto) produtor de dinheiro como mercadoria, Marx fundamenta a possibilidade de traduzir grandezas monet\u00e1rias em grandezas de trabalho, dando forma \u00e0 no\u00e7\u00e3o de uma express\u00e3o monet\u00e1ria do tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio. A NLM est\u00e1 correta ao insistir que essa equival\u00eancia \u00e9 estabelecida atrav\u00e9s da troca no mercado, ao inv\u00e9s de puramente na produ\u00e7\u00e3o. Contudo, Marx sempre insiste que a comensurabilidade n\u00e3o se estabelece do dinheiro para as mercadorias, mas exatamente na dire\u00e7\u00e3o oposta. A \u201cexpress\u00e3o\u201d do valor das mercadorias no valor de uso da mercadoria-dinheiro \u00e9 um movimento de dentro para fora: \u00e9 uma \u201cexpress\u00e3o\u201d (<em>Ausdruck<\/em>) do conte\u00fado na forma. A unidade entre produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o \u00e9 estabelecida no mercado, mas essa unidade torna real o movimento do interno (produ\u00e7\u00e3o) para o externo (troca). Como esta tens\u00e3o pode se resolver?<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em nossa vis\u00e3o, o argumento de Marx \u00e9 de que os valores, como trabalho humano vivo coagulado em abstrato \u2013 ap\u00f3s a produ\u00e7\u00e3o, e antes da troca efetiva \u2013 contam como grandezas monet\u00e1rias \u201cideais\u201d para os agentes. (\u00c9 uma <em>Vorstellung<\/em>). Mercadorias v\u00e3o ao mercado com pre\u00e7o. Por um lado, a equival\u00eancia entre mercadorias e dinheiro decorre de uma equival\u00eancia na subst\u00e2ncia. Por outro, o dinheiro \u201cideal\u201d \u00e9 uma \u201crepresenta\u00e7\u00e3o mental\u201d de ouro como dinheiro \u201creal\u201d. Dinheiro atua como a refer\u00eancia \u201cexterna\u201d de medida da grandeza do valor; a medida \u201cimanente\u201d \u00e9 o tempo de trabalho despedindo na produ\u00e7\u00e3o (na grandeza socialmente necess\u00e1ria). Contudo, esta \u00faltima dimens\u00e3o tem que ser validada monetariamente na circula\u00e7\u00e3o. A troca de mercadorias \u00e9 onde o ato de medida realmente ocorre<a href=\"#_ftn60\">[60]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Backhaus est\u00e1 correto ao defender que a \u201ccircula\u00e7\u00e3o de mercadorias\u201d deve ser pensada sempre como intrinsecamente monet\u00e1ria. <em>Warenaustausch<\/em> e <em>Zirkulation<\/em> s\u00e3o essencialmente monet\u00e1rias. A \u201ctroca\u201d n\u00e3o pode ser concebida como \u201ctroca de produtos\u201d (isto \u00e9, como <em>unmittelbare Produktenaustausch<\/em>) semelhante a uma permuta direta. Mas nesse ponto, a determina\u00e7\u00e3o quantitativa marxiana do \u201cvalor do dinheiro\u201d se torna decisiva. O valor do dinheiro \u00e9 o inverso da \u201cexpress\u00e3o monet\u00e1ria do tempo de trabalho (socialmente necess\u00e1rio)\u201d: \u00e9 a quantidade de tempo de trabalho contida no dinheiro. Na primeira se\u00e7\u00e3o do Volume I do <em>Capital<\/em>, o valor do dinheiro \u00e9 fixado no ponto da produ\u00e7\u00e3o do ouro \u2013 isto \u00e9, no ponto de entrada do outro como dinheiro na circula\u00e7\u00e3o. Ouro \u00e9 trocado primeiramente como uma simples mercadoria, por todas as outras mercadorias. Essa troca n\u00e3o \u00e9 monet\u00e1ria; \u00e9 uma permuta direta. (O alem\u00e3o aqui \u00e9 inequ\u00edvoco: <em>unmittelbarem Tauschhandel<\/em>.) Uma vez inserido no mercado desta forma, como \u201cproduto imediato do trabalho\u201d, na sua fonte de produ\u00e7\u00e3o (isto \u00e9, trocado por outros produtos do trabalho de igual valor), ouro funciona como dinheiro. Deste ponto em diante o valor do dinheiro pode ser considerado como dado antes da troca. A realiza\u00e7\u00e3o da troca imp\u00f5e a disciplina do valor aos produtores j\u00e1 durante o processo de produ\u00e7\u00e3o, antes da troca, de modo que o trabalho vivo deve ser j\u00e1 considerado como abstrato.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato de que o dinheiro \u00e9 uma mercadoria na dedu\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas primeiros cap\u00edtulos n\u00e3o \u00e9 particularmente problem\u00e1tico. Aqui estamos no n\u00edvel onde os objetos do conhecimento expl\u00edcitos s\u00e3o produzidos como mercadorias e o dinheiro como equivalente universal. Em outras palavras, a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 pressuposta. O argumento se torna complicado quando nos movemos para o n\u00edvel onde o objeto do conhecimento \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o capitalista de mercadorias como um processo temporal, iniciando com a compra e venda da for\u00e7a de trabalho e procedendo ao dom\u00ednio oculto da produ\u00e7\u00e3o. Em nossa opini\u00e3o, nesse ponto, estamos num mundo onde o dinheiro n\u00e3o pode mais ser tomado como uma mercadoria. O desafio te\u00f3rico \u00e9 estender a teoria monet\u00e1ria do valor \u00e0 teoria monet\u00e1ria da produ\u00e7\u00e3o (capitalista). Seguindo estas linhas, \u00e9 poss\u00edvel argumentar que a produ\u00e7\u00e3o precisa ser pr\u00e9-validada por uma transa\u00e7\u00e3o financeira n\u00e3o-mercantil (banc\u00e1ria) da compra e venda de for\u00e7a de trabalho. Nesse caso, o trabalho vivo como abstrato se tornaria homog\u00eaneo por um processo monet\u00e1rio anterior \u00e0 troca. O argumento de Marx acerca do movimento da produ\u00e7\u00e3o para a circula\u00e7\u00e3o seria completamente resgatado. A NLM inicialmente n\u00e3o desenvolve este terreno e deixa as teorias da mercadoria e do dinheiro de Marx incompletas.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto da argumenta\u00e7\u00e3o de Marx que a NLM n\u00e3o se preocupa \u00e9 o da constitui\u00e7\u00e3o (<em>Konstitution<\/em>) da totalidade capitalista. Sob as rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas, as invers\u00f5es que caracterizam o mundo da mercadoria e do dinheiro s\u00e3o confirmadas e aprofundadas. No mercado de trabalho, seres humanos tornam-se as \u201cpersonifica\u00e7\u00f5es\u201d da mercadoria por eles vendida, a for\u00e7a de trabalho ou trabalho \u201cem potencial\u201d, que \u00e9 uma mercadoria de que os trabalhadores s\u00e3o meros portadores. Dentro da produ\u00e7\u00e3o, o pr\u00f3prio trabalho vivo \u00e9 organizado e moldado pelo capital como \u201cvalor em processo\u201d. Assim, novamente, o trabalho vivo, como a atividade abstrata de trabalhadores assalariados que gera riqueza capitalista abstrata, \u00e9 o verdadeiro sujeito do qual seres humanos concretos que o realizam s\u00e3o meros predicados.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ser efetivamente aut\u00f4nomo, o valor deve ser produzido por valor, que produz um mais-valor. Mas trabalho morto n\u00e3o pode produzir mais trabalho morto. O que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e9 o capital \u201cinternalizar\u201d, na produ\u00e7\u00e3o, a atividade que pode transformar menos trabalho morto em mais trabalho morto: isto \u00e9, transformar seu \u00fanico \u201coutro\u201d em trabalho morto, que \u00e9 o trabalho vivo de seres humanos. O valor, como fantasma, deve se transformar em capital como vampiro. Trabalhadores s\u00e3o inclu\u00eddos no capital (trabalho morto) como um outro interno (trabalho vivo), tomando de empr\u00e9stimo a express\u00e3o esclarecedora de Chris Arthur.<\/p>\n\n\n\n<p>A no\u00e7\u00e3o marxiana de capital como \u201cvalor que se autovaloriza\u201d parece demasiadamente hom\u00f3loga \u00e0 Ideia Absoluta de Hegel, que busca se realizar enquanto reproduz suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia. Como Adorno diria, <em>Das Ganze ist das Unwahre<\/em>. Em certo sentido, a NLM \u00e9 uma longa nota de rodap\u00e9 a essa frase e uma tentativa de estabelecer uma fundamenta\u00e7\u00e3o definitiva dela na cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. Contudo, a vida-zumbi (<em>zombi-life<\/em>) do capital depende de uma condi\u00e7\u00e3o social: o capital deve vencer a luta de classes na produ\u00e7\u00e3o. Ele tem que sugar a vida dos trabalhadores, de modo a ressuscitar como \u201cmorto-vivo\u201d. Os trabalhadores podem resistir a sua incorpora\u00e7\u00e3o como um momento interno do capital, e tal \u201cbarreira\u201d ou \u201cobst\u00e1culo\u201d (<em>Schranke<\/em>) super\u00e1vel pode tornar-se um insuper\u00e1vel \u201climite\u201d (<em>Grenze<\/em>) se o conflito se transformar em antagonismo. O ponto chave \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter trabalho sem a explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel utilizar a for\u00e7a de trabalho sem \u201cconsumir\u201d os corpos dos pr\u00f3prios trabalhadores, como os suportes vivos de for\u00e7a de trabalho. O capital produz t\u00e3o-somente gra\u00e7as a este \u201cconsumo\u201d muito espec\u00edfico, que cria uma \u201ccontradi\u00e7\u00e3o\u201d muito espec\u00edfica<a href=\"#_ftn61\">[61]<\/a>. E este \u00e9 de fato o verdadeiro pilar da teoria do valor como a \u00fanica teoria marxiana que conecta o novo valor criado na produ\u00e7\u00e3o ao trabalho vivo despedindo pelos trabalhadores<a href=\"#_ftn62\">[62]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A anamnese da g\u00eanese \u2013 o legado de Adorno para a NLM \u2013 desenvolve-se aqui numa maneira de observar a realidade paradoxal do capital do ponto de vista de sua fonte: o trabalho vivo resultante da explora\u00e7\u00e3o de trabalhadores assalariados como suportes vivos de for\u00e7a de trabalho. Este \u00e9 o discurso cr\u00edtico e revolucion\u00e1rio na <em>Konstitution<\/em> do capital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Riccardo Bellofiore e Tommaso Redolfi Riva<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-background has-theme-palette-3-background-color has-theme-palette-3-color is-style-default\"\/>\n\n\n\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/em> Talles Lopes<br><em>Revis\u00e3o:<\/em> Mois\u00e9s Rech<br><br><em>Original:<\/em> <a href=\"https:\/\/www.radicalphilosophy.com\/article\/the-neue-marx-lekture\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.radicalphilosophy.com\/article\/the-neue-marx-lekture<\/a><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-wide\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Um problema importante que afeta a literatura n\u00e3o germ\u00e2nica sobre Marx \u00e9 que pouqu\u00edssimas tradu\u00e7\u00f5es s\u00e3o rigorosas no tratamento das categorias \u2013 a maioria, apesar de n\u00e3o todas, vindas de Hegel. Neste artigo, n\u00f3s adotamos uma vers\u00e3o rapidamente modificada da conven\u00e7\u00e3o adotada por Riccardo Bellofiore em seu \u201c<em>Lost in Translation: Once Again on the Marx-Hegel Connection<\/em>\u201d, publicado em <em>Marx\u2019s Capital and Hegel\u2019s Logic<\/em> (eds. Fred Moseley e Toni Smith, Brill, 2014). Por exemplo, seguindo Hegel, <em>Schein<\/em> se refere a fen\u00f4menos superficiais considerados como essenciais. Tal descri\u00e7\u00e3o da realidade capitalista significa que \u00e9 ilus\u00f3ria, um mero simulacro. O verbo <em>scheinen<\/em> aqui ser\u00e1 traduzido como \u201cparecer\u201d. <em>Erscheinung<\/em>, \u201capar\u00eancia\u201d ou \u201cmanifesta\u00e7\u00e3o (fenom\u00eanica)\u201d, refere-se a como aqueles mesmos fen\u00f4menos aparecem ou se manifestam (<em>erscheinen<\/em>). \u00c9 a manifesta\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria da ess\u00eancia; a forma em que esta \u00faltima tem de aparecer ou se manifestar no n\u00edvel fenom\u00eanico. Quando utilizamos \u201caparecer\u201d e \u201capar\u00eancia\u201d, estamos nos referindo a <em>erscheinen<\/em> e <em>Erscheinung<\/em>. <em>Darstellung<\/em> ser\u00e1 traduzido como \u201cexposi\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cexibi\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201capresenta\u00e7\u00e3o\u201d (e os verbos correlatos para <em>darstellen<\/em>). Refere-se \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o processual do sistema, necess\u00e1ria do ponto de vista da reconstru\u00e7\u00e3o l\u00f3gica da totalidade. Se o que \u00e9 exposto \u00e9 reconhecido como resultado de um processo complexo de media\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o \u00e9 uma \u201capar\u00eancia\u201d ou \u201cmanifesta\u00e7\u00e3o\u201d. Se n\u00e3o, \u00e9 uma \u201cilus\u00e3o\u201d ou \u201csimulacro\u201d. Infelizmente, em muitas tradu\u00e7\u00f5es, <em>Darstellung<\/em> \u00e9 traduzida como \u201crepresenta\u00e7\u00e3o\u201d, e <em>darstellen<\/em> como \u201crepresentar\u201d, mas isso \u00e9 errado, tendo em vista que \u201crepresentar\u201d e \u201crepresenta\u00e7\u00e3o\u201d correspondem a <em>vorstellen<\/em> e <em>Vorstellung<\/em>. <em>Vorstellung<\/em> \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o mental ou conceitual: uma antecipa\u00e7\u00e3o ideal, ou como os agentes compreendem as formas capitalistas. Outras conven\u00e7\u00f5es sobre tradu\u00e7\u00e3o ser\u00e3o apresentadas posteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> O termo Nova Leitura de Marx (<em>Neue Marx-Lekt\u00fcre<\/em>) \u00e9 usado por Backhaus na terceira parte de \u201c<em>Materialien zur Rekonstruktion der Marxschen Werttheorie 3<\/em>\u201d (Hans-Georg Backhaus, ed., Gesellschaft, Beitr\u00e4ge zur Marxschen Theorie 11, Suhrkamp, Frankfurt am Main, 1978). Os marcos da sua canoniza\u00e7\u00e3o subsequente incluem: Helmut Reichelt, <em>Neue Marx-Lekt\u00fcre. Zur Kritik sozialwissenschaftlicher Logik<\/em> (VSA Verlag, Hamburg, 2008); Ingo Elbe, <em>Marx im Westen. Die Neue Marx-Lekt\u00fcre in der Bundesrepublik seit 1965<\/em> (Akademie Verlag, Hamburg, 2008); Michael Heinrich, <em>An Introduction to the Three Volumes of Karl Marx\u2019s Capital<\/em> (Monthly Review Press, New York, 2012); e Ingo Elbe, \u201c<em>Between Marx, Marxism, and Marxisms \u2013 Ways of Reading Marx\u2019s Theory<\/em>\u201d. Para uma an\u00e1lise aprofundada do debate alem\u00e3o sobre Marx durante os anos 70, ver Roberto Fineschi, \u201c<em>Dialectic of the Commodity and Its Exposition: The German Debate in the 1970s \u2013 A Personal Survey<\/em>\u201d, Riccardo Bellofiore e Roberto Fineschi, eds, <em>Re-reading Marx: New Perspectives after the Critical Edition<\/em> (Palgrave, New York, 2009).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> Hans-Georg Backhaus, \u201c<em>On the Dialectics of the Value-Form\u201d, <\/em>Thesis Eleven 1, 1980, p. 99.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Hans-Georg Backhaus, <em>Dialektik der Wertform. Untersuchungen zur Marxschen \u00d6konomiekritik<\/em>, (Freiburg, 1997, p. 29). Reichelt, <em>Neue Marx-Lekt\u00fcre<\/em>, p. 11.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> Backhaus, <em>Dialektik der Wertform<\/em>, p. 30. A categoria da \u201cduplica\u00e7\u00e3o\u201d encontra-se tamb\u00e9m na edi\u00e7\u00e3o de 1872 (segunda edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3): n\u00e3o na exposi\u00e7\u00e3o da forma do valor no cap\u00edtulo 1, mas nos cap\u00edtulos 2 e 3.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> Reichelt, <em>Neue Marx-Lekt\u00fcre<\/em>, p. 11.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\">[7]<\/a> Sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a Nova Leitura de Marx e a teoria cr\u00edtica da sociedade de Adorno, ver Werner Bonefeld, <em>Critical Theory and the Critique of Political Economy: On Subversion and Negative Reason, <\/em>Bloomsbury, London New York, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\">[8]<\/a> Quando Marx utilizou o adjetivo <em>gegenst\u00e4ndlich<\/em>, muito frequentemente ele pretendia dizer \u201ctornar-se objetivo\u201d (becoming objective), isto \u00e9, objetividade se constituindo em face dos seres humanos (algo que tem sua origem no movimento processual do trabalho como atividade). O termo \u00e9 muito dif\u00edcil de traduzir em ingl\u00eas. Aqui, e nas p\u00e1ginas seguintes, n\u00f3s traduziremos como \u201cobjetivo\u201d entre aspas.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\">[9]<\/a> Hans-Georg Backhaus, \u201c<em>Between Philosophy and Science: Marxian Social Economy as Critical Theory<\/em>\u201d, Werner Bonefeld, Richard Gunn e Kosmas Psychopedis, eds, <em>Open Marxism<\/em>, vol. 1, Pluto Press, London, 1992, p. 57.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\">[10]<\/a> Theodor W. Adorno, \u201c<em>Introduction<\/em>\u201d, in VV.AA., <em>The Positivist Dispute in German Sociology<\/em>, Heinemann, London, 1976, p.&nbsp;12.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\">[11]<\/a> Theodor W. Adorno, <em>Negative Dialectics<\/em>, Routledge, London and New York, 2004, p. 354.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\">[12]<\/a> Adorno, \u2018Introduction\u2019, The Positivist Dispute, p. 15. 13. Ibid., p. 12.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\">[13]<\/a> n\/d<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\">[14]<\/a> Totalidade, para Adorno, \u00e9 uma categoria <em>a parte obiecti<\/em> que pr\u00e9-forma o pr\u00f3prio objeto. O modelo de uma descri\u00e7\u00e3o coerente e n\u00e3o-contradit\u00f3ria da sociedade \u00e9, consequentemente, inadequado para a pr\u00f3pria coisa. Essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual o conceito de sociedade de Adorno como totalidade n\u00e3o pode ser confundido com a ideia trivial de Hans Albert de que \u201ctudo est\u00e1 conectado com tudo\u201d. Ver <em>The Positivist Dispute<\/em>, p. 175 n. 26.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\">[15]<\/a> Theodor W. Adorno, <em>Introduction to Sociology<\/em>, Polity Press, Cambridge, 2000, p. 31.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\">[16]<\/a> Theodor W. Adorno, \u2018Sociology and Empirical Research\u2019, in <em>The Positivist Dispute<\/em>, p. 80.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref17\">[17]<\/a> Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref18\">[18]<\/a> Theodor W. Adorno, \u201c<em>\u00dcber Marx und die Grundbegriffe der soziologischen Theorie. Aus einer Seminarschrift im Sommersemester 1962<\/em>\u201d, Backhaus, <em>Dialektik der Wertform<\/em>, p. 507. Uma tradu\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas, por V. Erlenbusch e C. O\u2019Kane, est\u00e1 prevista pela <em>Historical Materialism<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref19\">[19]<\/a> Adorno, <em>Introduction to Sociology<\/em>, p. 32.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref20\">[20]<\/a> Adorno, \u201c<em>\u00dcber Marx und die Grundbegriffe der soziologischen Theorie<\/em>\u201d, pp. 507\u20138.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref21\">[21]<\/a> Alfred Sohn-Rethel, <em>Geistige und ko<\/em><em>\u0308<\/em><em>rperliche Arbeit. Zur Epistemologie der abendla<\/em><em>\u0308<\/em><em>ndischen Geschichte<\/em>, VCH Verlagsgesellschaft, Weinheim, 1989, p. 223.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref22\">[22]<\/a> Ibid., p. 226.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref23\">[23]<\/a> Reichelt, <em>Neue Marx-Lekt\u00fcre<\/em>, p. 30.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref24\">[24]<\/a> Helmut Reichelt, \u201c<em>Marx\u2019s Critique of Economic Categories: Reflections on the Problem of Validity in the Dialectical Method of Presentation in Capital<\/em>\u201d, <em>Historical Materialism 4<\/em>, 2007, pp. 6\u20137.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref25\">[25]<\/a> Alfred Schmidt, \u201c<em>On the Concept of Knowledge in the Criticism of Political Economy<\/em>\u201d, VV.AA., <em>Karl Marx 1818\u20131968<\/em>, Inter Nationes, Bad Godesberg, 1968, p. 94.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref26\">[26]<\/a> Backhaus, <em>Dialektik der Wertform<\/em>, pp. 129\u2013212.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref27\">[27]<\/a> Helmut Reichelt, \u201c<em>Why Did Marx Conceal His Dialectical Method?<\/em>\u201d, Werner Bonefeld, Richard Gunn and Kosmas Psychopedis, eds, <em>Open Marxism, vol. 3<\/em>, Pluto Press, London, 1995, p. 58.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref28\">[28]<\/a> Helmut Reichelt, <em>Zur logischen Struktur des Kapitalsbegriffs bei Marx<\/em>, Europ\u00e4ische Verlangsanstalt, Frankfurt am Main, 1970, p. 24. [Edi\u00e7\u00e3o brasileira: <em>Sobre a estrutura l\u00f3gica do conceito de capital de Karl Marx<\/em>, Editora Unicamp, 2013]<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref29\">[29]<\/a> Schmidt, \u201c<em>On the Concept of Knowledge<\/em>\u201d, p. 94.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref30\">[30]<\/a> Hans-Georg Backhaus, \u201c<em>Some Aspects of Marx\u2019s Concept of Critique in the Context of his Economic-Philosophical Theory<\/em>\u201d, Werner Bonefeld and Kosmas Psychopedis, eds., <em>Human Dignity: Social Autonomy and the Critique of Capitalism<\/em>, Ashgate, Aldershot, 2005, p. 18.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref31\">[31]<\/a> Ibid., p. 22.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref32\">[32]<\/a> Ibid., p. 24.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref33\">[33]<\/a> Schmidt, \u201c<em>On the Concept of Knowledge<\/em>\u201d, pp. 95\u20136.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref34\">[34]<\/a> Alfred Schmidt, <em>History and Structure: An Essay on HegelianMarxist and Structuralist Theories of History<\/em>, MIT Press, Cambridge MA, 1981, p. 31; tradu\u00e7\u00e3o modificada.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref35\">[35]<\/a> Para Schmidt, esta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual o cap\u00edtulo sobre a g\u00eanese hist\u00f3rica do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista est\u00e1 no final do Volume I do <em>Capital<\/em>: \u201cMarx n\u00e3o teria tido sucesso em desvelar o conte\u00fado dos pressupostos hist\u00f3ricos da emerg\u00eancia do capital se n\u00e3o tivesse primeiramente apreendido o desenvolvimento te\u00f3rico da ess\u00eancia do capital. Ele n\u00e3o saberia sequer onde e como estes pressupostos poderiam ser encontrados\u201d. Schmidt, <em>History and Structure<\/em>, p. 33.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref36\">[36]<\/a> Reichelt, <em>Zur logischen Struktur des Kapitalsbegriffs bei Marx<\/em>, pp. 76\u20137, 80.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref37\">[37]<\/a> Ibid., pp. 81\u20132.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref38\">[38]<\/a> Karl Marx, <em>Capital: A Critique of Political Economy, Volume One<\/em>, Penguin, Harmondsworth, 1976, trans. Ben Fowkes, p. 255; tradu\u00e7\u00e3o modificada. Marx utilizou <em>\u00fcbergreifen<\/em> com um duplo sentido. Seguindo os tradutores da <em>Encyclopaedia Logic<\/em> de Hegel, o primeiro significado pode ser compreendido como apreender (\u201c<em>to overgrasp<\/em>\u201d): a refer\u00eancia \u00e9 <em>Aufhebung<\/em>, a compreens\u00e3o especulativa, a qual \u201cretorna e absorve em seu pr\u00f3prio fim\u201d (\u201c<em>reaches back and embraces within its scope<\/em>\u201d) a oposi\u00e7\u00e3o dos momentos em seu n\u00edvel dial\u00e9tico. Assim como a universalidade \u201c<em>overgrasps<\/em>\u201d particulares e singulares, da mesma forma \u201c<em>overgrasps<\/em>\u201d o diferente no pensamento. Desse modo, o <em>Subjekt<\/em> que se desenvolve em <em>Geist<\/em> inclui objetividade e subjetividade nessa apreens\u00e3o. O segundo significado \u00e9 \u201calcan\u00e7ar\u201d (\u201c<em>overreaching<\/em>\u201d) e \u201csuperar\u201d (\u201c<em>overriding<\/em>\u201d), que beira o \u201cdominante\u201d \u2013 o \u00fanico sentido utilizado por Fowkes.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref39\">[39]<\/a> Reichelt, <em>Zur logischen Struktur des Kapitalsbegriffs bei Marx<\/em>, p. 77.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref40\">[40]<\/a> Backhaus, <em>Dialektik der Wertform<\/em>, pp. 302\u20133.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref41\">[41]<\/a> Frederick Engels, \u201c<em>Review of A Contribution to the Critique of Political Economy<\/em>\u201d, Karl Marx e Frederick Engels, <em>Collected Works, vol. 16<\/em>, Lawrence &amp; Wishart eBook, 2010, p. 475.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref42\">[42]<\/a> Frederick Engels, \u201c<em>Supplement to Capital, Volume Three<\/em>\u201d, Karl Marx e Frederick Engels, <em>Collected Works, vol. 37<\/em>, Lawrence &amp; Wishart eBook, 2010, p. 887.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref43\">[43]<\/a> Backhaus, <em>Dialektik der Wertform<\/em>, p. 277ss.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref44\">[44]<\/a> Backhaus, \u201c<em>Materialien zur Rekonstruktion der Marxschen Werttheorie 3<\/em>\u201d, p. 150.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref45\">[45]<\/a> Hans-Georg Backhaus, \u201c<em>Sulla problematica del rapporto tra \u2018logico\u2019 e \u2018storico\u2019 nella critica marxiana dell economia politica<\/em>\u201d, em seu <em>Dialettica della forma di valore<\/em>, ed. Riccardo Bellofiore e Tommaso Redolfi Riva, Editori Riuniti, Rome, 2009, p. 504.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref46\">[46]<\/a> Reichelt, <em>Zur logischen Struktur des Kapitalsbegriffs bei Marx<\/em>, p. 151.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref47\">[47]<\/a> Ibid., p. 158.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref48\">[48]<\/a> Karl Marx, \u201c<em>The Commodity. Chapter One, Volume One, of the first edition of Capital<\/em>\u201d, Albert Dragstedt, ed., <em>Value: Studies by Karl Marx<\/em>, New Park Publications, London, 1976, p. 20.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref49\">[49]<\/a> Reichelt, <em>Zur logischen Struktur des Kapitalsbegriffs bei Marx<\/em>, pp. 163\u20134.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref50\">[50]<\/a> Ibid., p. 165.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref51\">[51]<\/a> Em Marx, \u201cpre\u00e7o natural\u201d (\u201c<em>natural price<\/em>\u201d) \u00e9 regulado pelo tempo de trabalho, assim como para os economistas pol\u00edticos cl\u00e1ssicos, mas ocorre atrav\u00e9s de desvios cont\u00ednuos, devidos n\u00e3o apenas \u00e0 concorr\u00eancia capitalista e \u00e0s mudan\u00e7as na t\u00e9cnica, mas tamb\u00e9m ao papel crucial da demanda social em compartimentalizar, em setores individuais na produ\u00e7\u00e3o, determinadas parcelas do trabalho social (isto \u00e9, total).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref52\">[52]<\/a> Reichelt, <em>Zur logischen Struktur des Kapitalsbegriffs bei Marx<\/em>, pp. 245\u20136.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref53\">[53]<\/a> Ibid., p. 250.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref54\">[54]<\/a> Backhaus, <em>Dialektik der Wertform<\/em>, p. 265.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref55\">[55]<\/a> Karl Marx e Frederick Engels, <em>Complete Works, vol. 43<\/em>, Lawrence &amp; Wishart eBook, p. 69.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref56\">[56]<\/a> A seguir, assim como em \u201c<em>Lost in Translation: Once Again on the Marx-Hegel Connection<\/em>\u201d, distinguimos car\u00e1ter fetichista de fetichismo. \u201cO <em>Fetischcharakter<\/em> \u2013 a \u201cobjetiva\u201d, coisificada e alienada natureza da realidade social capitalista \u2013 \u00e9 na verdade muito real: <em>Erscheinung<\/em>. O que \u00e9 enganoso, um simulacro ou <em>Schein<\/em>, \u00e9 atribuir propriedades sociais \u00e0s pr\u00f3prias coisas como seus atributos naturais: este \u00faltimo \u00e9 <em>Fetischismus<\/em>, fetichismo. Mas t\u00e3o-somente quando \u00e9 realizado fora das rela\u00e7\u00f5es sociais do capital: dentro da realidade capitalista, as \u201cpropriedades sociais\u201d que se ligam \u00e0s coisas s\u00e3o dramaticamente efetivas.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref57\">[57]<\/a> Backhaus, <em>Dialektik der Wertform<\/em>, p. 308.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref58\">[58]<\/a> Esta se\u00e7\u00e3o do artigo representa as posi\u00e7\u00f5es de um dos autores (Riccardo Bellofiore).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref59\">[59]<\/a> A argumenta\u00e7\u00e3o a seguir se baseia majoritariamente em \u201c<em>Lost in Translation: Once Again on the Marx-Hegel Connection<\/em>\u201d e em \u201c<em>Marx and the Monetary Foundations of Microeconomics<\/em>\u201d, Riccardo Bellofiore e Nicola Taylor, eds., <em>The Constitution of Capital: Essays on Volume I of Marx\u2019s Capital<\/em>, Palgrave Macmillan, Basingstoke, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref60\">[60]<\/a> Estas distin\u00e7\u00f5es acerca de medida\/crit\u00e9rio de medida\/medi\u00e7\u00e3o t\u00eam sido destacadas por Roberto Fineschi, <em>Ripartire da Marx<\/em>, La citt\u00e0 del sole, Naples, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref61\">[61]<\/a> Massimiliano Tomba, <em>Marx\u2019s Temporalities<\/em>, Brill, Leiden and Boston MA, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref62\">[62]<\/a> Note-se que este argumento n\u00e3o depende de o dinheiro ser uma mercadoria.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211;Retomando a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica na cr\u00edtica social O projeto de reexaminar a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx, no fim dos anos 60, por pupilos de Horkheimer e Adorno, \u00e9 atualmente conhecido como Nova Leitura de Marx (NLM). 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Esta nova leitura de Marx, protagonizada principalmente por Alfred Schmidt, Hans-Georg Backhaus e Helmut Reichelt, pretendia libertar Marx dos esquemas engessados da ortodoxia marxista. Neste artigo, tentaremos reconstruir os pontos de partida deste projeto, estabelecendo suas ra\u00edzes na teoria cr\u00edtica social de Adorno. A partir dessa perspectiva, examinaremos a abordagem original da NLM \u00e0 teoria do valor de Marx, sua compreens\u00e3o do car\u00e1ter l\u00f3gico desta teoria, e de como as contradi\u00e7\u00f5es da forma-mercadoria e do duplo car\u00e1ter do trabalho implicam uma autonomiza\u00e7\u00e3o da sociedade. 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